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agosto 15, 2025

************** JOHN WAYNE, um HERÓI de CINEMA

 

 

Tenho orgulho do meu trabalho,
a ponto de ser o primeiro a chegar
ao set de filmagem. Não sofro
com críticas ruins, o público gosta
dos meus filmes e isso é tudo
o que importa.
 
Sou um patriota honesto,
um conservador de direita.
JOHN WAYNE
 
Altura: 1,93 m
Cabelos: castanho-escuros
Olhos: azuis 
Apelido: Duke e JW
 
para Doutor Antônio, meu pai
 
LEGIÃO INVENCÍVEL


Figura imponente do passado de Hollywood, por mais de trinta anos foi referência na indústria cinematográfica, simbolizando um tipo de masculinidade e estrelando filmes icônicos da Era de Ouro. Na adolescência, na solidão do quarto, eu imitava o seu andar característico de felino. Pegando emprestado armas da coleção de meu pai, fazia de conta que era o glorioso astro dos faroestes, matando sem piedade bandidos e selvagens. Repeti essas cenas durante anos. Nunca ninguém soube, era um segredo. Admirador dos faroestes que via em preto e branco na TV e na matinê de domingo nos cinemas de Itabuna, preferia os mocinhos Glenn Ford, Gary Cooper e Clint Eastwood. Como pai Antônio era fã de JOHN WAYNE (1907 – 1979. Winterset, Iowa / EUA), procurava substituí-lo no imaginário como pistoleiro imbatível. Queria ser como ele. Com a maturidade, terminei por esquecê-lo ao não o considerar um ator sério. Ao resgatar sua trajetória, percebi o engano. Suas performances em “Rio Vermelho” e “Rastro de Ódio”, entre outras, são impactantes. Não há dúvida de que era cativante e talentoso.
 
Ao descobrir que era republicano e sua batalha política conservadora durante décadas, a afeição juvenil pelo astro renasceu com força total. Portanto, este post é um tributo a sua longa e majestosa passagem por Hollywood. Vencedor de Oscar e Globo de Ouro, JOHN WAYNE se tornou o símbolo máximo do faroeste. Seus filmes frequentemente refletem valores tradicionais, são considerados clássicos do gênero, reverenciados e assistidos até os dias atuais. Steve McQueen, Sylvester Stallone, Bruce Willis e Chuck Norris o citaram como uma grande influência para eles, tanto profissional quanto pessoalmente. Assim como o lendário astro, cada um deles alcançou a fama interpretando personagens de ação heroica e apoiando causas de direita e o partido Republicano. Dedicado em seu trabalho, seu verdadeiro nome era Marion Michael Morrison. Fala lenta, voz grave e marcante, sotaque arrastado e olhar semicerrado, é lembrado como a imagem típica do caubói, quase sempre como um admirável herói solitário. Cresceu num rancho na Califórnia e fez 145 filmes, em mais de 40 anos de uma extraordinária carreira.
 
Duke (como os amigos o chamavam) teria sua trajetória ligada ao cineasta John Ford depois que interpretou Ringo Kid no clássico “No Tempo das Diligências”, em 1939. Ao todo, foram 14 filmes com o mestre. Ainda faria boas parcerias com outros importantes diretores, como John Huston, Howard Hawks, William A. Wellman, Raoul Walsh e Henry Hathaway. Crescendo em Iowa, um de seus passatempos favoritos era jogar futebol americano com o pai. Enquanto estudava na USC, juntamente com colegas, trabalhava meio período na Fox Film, carregando adereços de cenário e como figurante ocasional. Em 1930, teve sua oportunidade em “A Grande Jornada. O diretor Raoul Walsh o viu passar no set carregando uma mesa, gostou do seu jeito de se mover e contratou o rapaz inexperiente para o papel protagonista. A empresa depositava esperanças neste faroeste épico, mas ele fracassou nas bilheterias. A seguir, JOHN WAYNE sobreviveu na década de 30 estrelando dezenas de faroestes de baixo orçamento. Alguns levavam apenas oito dias para serem filmados.
 
Era um trabalho árduo. Não havia dublês, ele próprio lutava e cavalgava. Em 1933, casou-se com Josephine Alicia Saénz, filha de um poderoso funcionário do governo mexicano. Ela era da alta sociedade e uma mulher bonita. Tiveram quatro filhos, com os quais ele sempre foi muito próximo e afetuoso. Ainda desconhecido, chegava ao set às 6h e, depois de um dia difícil, voltava para casa sujo e cansado às 19h30, com a esposa aristocrática pronta para um jantar fora ou uma festa. A virada profissional veio em 1939 com o sucesso de “No Tempo das Diligências”, que o transformou em uma das estrelas em ascensão mais valiosas. Depois vieram outros filmes importantes. Na época, houve um distanciamento gradual da esposa, pois ele não se adaptava ao estilo elegante dela. Quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial, houve movimento de apoio, inclusive em Hollywood. JOHN WAYNE, com lesões no joelho, sofridas na faculdade, foi isento do alistamento. Mesmo assim, ele desejava servir e escreveu várias vezes a John Ford pedindo para se juntar à sua Unidade Fotográfica de Campo do OSS.
 
Em 1943, conheceu a atriz mexicana Esperanza Baur. Alta, esbelta e morena, ela havia trabalhado com Arturo de Córdoba em “O Conde de Monte Cristo / El Conde de Montecristo” (1942). Como JOHN WAYNE, ela gostava de uma vida simples e reuniões com poucos amigos ao redor de uma churrasqueira. Ele se divorciou e se casou com ela em 1946. Ward Bond foi o padrinho e a esposa do falecido Harry Carey, a madrinha. Mas o ator mudou. A partir do final da década de 1940, com os filmes “Sangue de Heróis”, “Rio Vermelho” e “O Céu Mandou Alguém”, ele foi nomeado estrela número um de bilheteria, junto com Doris Day, por três anos consecutivos, pelos donos de cinema do país. Tornou-se uma estrela de altíssima estatura e passou a apreciar a vida social de Hollywood. A esposa tinha temperamento explosivo, bebia muito, e depois de várias brigas, se separaram. No processo de divórcio, ela alegou o caso do marido com a atriz Gail Russell, e ele respondeu que Conrad Hilton Jr., casado com Elizabeth Taylor, havia se tornado hóspede constante da casa deles, enquanto viajava à trabalho.
 
marlene dietrich e john wayne
Ainda nos anos 40, JOHN WAYNE teve um namoro de três anos com Marlene Dietrich, mas seu romance com Maureen O'Hara durou ainda mais, restando uma boa amizade. Estrelaram cinco filmes juntos. Divorciado mais uma vez, casou-se com a peruana Pilar Palette, que conheceu enquanto procurava locações de filmagem no Peru para “O Álamo / The Alamo” (1960). Embora fosse casada, Pilar se divorciou e se mudou imediatamente para Hollywood. Deprimida e estressada pela radical mudança cultural, ela se viciou em pílulas para dormir. Certa noite, enquanto ele filmava na Louisiana, cortou os pulsos durante uma alucinação. O casal teve três filhos. Depois que a terceira esposa o deixou em 1973, ele se envolveu com sua secretária Pat Stacy pelos anos restantes de vida. Na política, ele era um feroz defensor dos republicanos, nacionalista ferrenho e anticomunista ativo. Participou ativamente da criação da Aliança Cinematográfica para a Preservação dos Ideais Americanos (MPA) em 1944 e foi eleito presidente cinco anos depois. Ronald Reagan, Walt Disney, Clark Gable, Robert Taylor, Gary Cooper e outros famosos estavam entre os membros da organização.

 
Defensor do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC), expressou seu apoio contra o maldito comunismo no filme de ação “Uma Aventura Perigosa / Big Jim McLain” (1952) e incluindo traidores da pátria na Lista Negra de Hollywood. Promoveu a guerra do Vietnã, produzindo e estrelando “Os Boinas Verdes / The Green Berets” (1968). Por ser a estrela republicana mais proeminente de Hollywood, foi cotado por texanos republicanos a concorrer a um cargo nacional em 1968. Ele recusou dizendo que era “um homem de Richard Nixon”. Apoiou Ronald Reagan nas campanhas para governador da Califórnia em 1966 e 1970. Também rejeitou um convite para ser vice na candidatura presidencial de George Wallace, preferindo fazer campanha por Nixon, inclusive discursando na Convenção Nacional Republicana de 1968. O ditador soviético Joseph Stalin, indignado com o seu anticomunismo, encomendou seu assassinato. Na primeira tentativa, dois matadores russos se fizeram passar por agentes do FBI e tentaram assassiná-lo em seu escritório, na Warner Brothers, em Hollywood, mas foram capturados.
 
As conspirações soviéticas foram canceladas após a morte de Stalin, em 1953, por seu sucessor, Nikita Krushchev, que era fã do astro. “Essa foi uma decisão de Stalin nos últimos cinco anos loucos de sua vida. Quando ele morreu, eu revoguei a ordem”, teria dito Kruschev a JOHN WAYNE em um encontro entre os dois em 1958. No entanto, grupos comunistas norte-americanos assumiram a conspiração e tentaram assassiná-lo no México, nas filmagens de “Caminhos Ásperos / Hondo” (1953). Ele sobreviveu a essa tentativa de assassinato e a outra cometida por um franco-atirador durante visita que fez às tropas dos EUA no Vietnã, em 1966. Carismático e convincente, atuou em faroestes, aventuras, melodramas e filmes de guerra. Em 1956, ao protagonizar “Sangue de Bárbaros / The Conqueror”, resultou em uma tragédia futura. Rodado por treze semanas no Parque Estadual de Snow Canyon, em Utah, o set estava situado a apenas 220 km da área de testes de Nevada, um local para a realização de bombardeamos nucleares ao ar livre com perigos decorrentes da radiação.
 
O pó radioativo – levado pelo vento – se precipitou justamente sobre o local da filmagem. As consequências, porém, viriam anos depois, quando a maior parte do elenco e da equipe começaram a desenvolver câncer numa escala assustadora. O próprio astro, Susan Hayward e Agnes Moorehead padeceram de câncer nas décadas de 60 e 70. Na seguinte, 90 membros da equipe de 220 pessoas desenvolveram tumores malignos e 46 morreram. Já em 1991, seria a vez de John Hoyt, que veio a óbito após adquirir câncer no pulmão. Segundo especialistas, a exposição no set de filmagens possivelmente foi a causa do câncer desenvolvidos em 94 profissionais que trabalharam no filme. Em Hollywood, JOHN WAYNE foi um dos atores que mais recusaram oportunidades notáveis e, em alguns casos, prêmios importantes. Recusou a série “Gunsmoke”, que durou 20 temporadas; “Fugindo do Inferno / The Great Escape” (1963), um clássico do cinema de guerra, e o papel foi para Steve McQueen; “Os Doze Condenados / The Dirty Dozen” (1967), com Lee Marvin brilhando como o Major John Reisman, um papel que seria dele.
 
Disse também não para “Rebeldia Indomável / Cool Hand Luke” (1967), resultando em uma das atuações mais aclamadas de Paul Newman; “Perseguidor Implacável / Dirty Harry” (1971), cujo papel foi para Clint Eastwood, que criou um dos personagens mais famosos do cinema; “Um Estranho no Ninho / One Flew Over the Cuckoo's Nest” (1975), que deu o Oscar para Jack Nicholson; “Patton, Rebelde ou Herói? / Patton” (1970), Oscar para George C. Scott; “Apocalypse Now / Idem” (1979), que terminou nas mãos de Martin Sheen. Entre muitos outros. Dos seus muitos personagens no cinema, o favorito era Ethan Edwards em “Rastros de Ódio” (1956). Chegou a dar ao seu filho o nome de Ethan em homenagem a ele. Praticamente calvo, o astro usou peruca em sua ilustre carreira desde “O Rasto da Bruxa Vermelha / Wake of the Red Witch” (1948). Sua vitória de Melhor Ator no Oscar e no Globo de Ouro por “Bravura Indômita / True Grit” (1969) foi vista como prêmios pelo conjunto da obra. Continuou a estrelar filmes de sucesso até 1976, permanecendo entre as dez maiores estrelas de bilheteria dos EUA até 1974.
 
wayne com o oscar e barbra streisand
Seu álbum falado “America: Why I Love Her” foi indicado ao Grammy quando lançado em 1973. Relançado em CD em 2001, teve êxito novamente. Junto com Humphrey Bogart, JOHN WAYNE era considerado o fumante mais inveterado da meca do cinema, fumando cinco maços de Camel sem filtro até sua primeira batalha contra o câncer em 1964. Ele passou por uma cirurgia bem-sucedida para remover o pulmão esquerdo. Apesar de seus sócios quererem manter a doença em segredo, tornou pública a situação e incentivou o público a fazer exames preventivos. A doença o fez amargar 15 anos de sofrimento, que o levaram até a pensar em suicídio.  Dirigiu os filmes “O Álamo” e “Os Boinas Verdes”. Este último causou-lhe problemas. O roteiro, pró-guerra do Vietnã, alimentou a fúria da esquerda, que realizou vários protestos contra a exibição. Católico, leal aos amigos, fez o elogio fúnebre nos funerais de Ward Bond, John Ford e Howard Hawks. Tinha fama de beber bastante, e os diretores filmavam suas cenas pela manhã, com ele ainda sóbrio.
 
Junto com seu amigo de longa data, Louis Johnson, era dono de uma fazenda de gado Hereford puro-sangue com 63 quilômetros de extensão no Arizona, a 26 Bar Ranch. A fazenda criava mais de 400 touros, frequentemente vencendo nas grandes feiras de gado. O astro comparecia com frequência aos leilões e fazia o discurso de boas-vindas na abertura dos eventos. Em 1976, estrelou “O Último Pistoleiro / The Shootist”, dirigido por Don Siegel e ao lado de Lauren Bacall e James Stewart. Nesse seu último papel, morre de câncer, condição à qual o próprio sucumbiu três anos depois. O faroeste foi um sucesso de bilheteria e crítica, nomeado como um dos Dez Melhores Filmes de 1976 pelo National Board of Review. Faleceu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos. Enterrado em segredo, o túmulo permaneceu sem identificação até 1999, para o caso de manifestantes da guerra do Vietnã não o profanarem. Vinte anos após sua morte, finalmente recebeu uma lápide de bronze. Vários locais públicos nos EUA foram nomeados em homenagem a JOHN WAYNE, refletindo seu status como ícone cultural.
 
Graças à sua coragem, dignidade, integridade, talento, honestidade política e à sua cordialidade como ser humano ao longo de sua poderosa carreira, ele tem um lugar único em nossos corações e mentes. Receberia postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade em 1980, concedida pelo presidente Jimmy Carter. Em 1998, foi homenageado com o prêmio de Herança Naval pela Fundação Memorial da Marinha dos EUA, reconhecendo seu apoio às forças armadas. Em 1999, o Instituto Americano de Cinema (AFI) o classificou como a 13ª maior lenda masculina do cinema clássico de Hollywood. Continua sendo um dos atores mais intimamente associados não apenas à grandeza do cinema, mas também à grandeza do povo norte-americano. É uma verdadeira lenda, comove as massas, o público o adora. Poucos capturaram melhor o homem durão e corajoso, patriota e dedicado à família, conservador e leal, transbordando integridade e valores de direita: a imagem do herói cinematográfico inesquecível.
 
 
RIO VERMELHO
“O Oeste é o triunfo da coragem pessoal
sobre qualquer obstáculo, seja a natureza ou o homem.”

JOHN WAYNE
 

DEZ FAROESTES de JOHN WAYNE
(por ordem de preferência)
 
01
RIO VERMELHO
(Red River, 1948) 

direção de Howard Hawks
elenco: Montgomery Clift, Joanne Dru, Walter Brennan,
Coleen Gray, Harry Carey e John Ireland
 
02
RASTROS de ÓDIO
(The Searchers, 1956)
 

direção de John Ford
elenco: Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond,
Natalie Wood e Antonio Moreno
 
03
No TEMPO das DILIGÊNCIAS
(Stagecoach, 1939)
 

direção de John Ford
elenco: Claire Trevor, Andy Devine, John Carradine,
Thomas Mitchell, George Bancroft e Tim Holt

04
LEGIÃO INVENCÍVEL
(She Wore a Yellow Ribbon, 1949) 

direção de John Ford
elenco: Joanne Dru, John Agar, Ben Johnson,
Victor McLaglen, Mildred Natwick e George O´Brien
 
05
A GRANDE JORNADA
(The Big Trail, 1930)
 

direção de Raoul Walsh
elenco: Marguerite Churchill, Tully Marshall e Ward Bond
 
06
SANGUE de HERÓIS
(Fort Apache, 1948)

direção de John Ford
elenco: Henry Fonda, Shirley Temple, Pedro Armendáriz,
Ward Bond, George O´Brien, Victor McLaglen,
Anna Lee e Movita
 
07
O CÉU MANDOU ALGUÉM
(3 Godfathers, 1948)

direção de John Ford
elenco: Pedro Armendáriz, Harry Carey Jr., Ward Bond,
Mae Marsh, Mildred Natwick, Jane Darwell
e Ben Johnson
 
08
RIO BRAVO
(Rio Grande, 1950)

direção de John Ford
elenco: Maureen O'Hara, Ben Johnson, Claude Jarman Jr.,
Harry Carey Jr., Chill Willis, J. Carrol Naish,
e Victor McLaglen
 
09
ONDE COMEÇA o INFERNO
(Rio Bravo, 1959)

direção de Howard Hawks
elenco: Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson,
Walter Brennan e Ward Bond
 
10
O HOMEM QUE MATOU o FACÍNORA
(The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

direção de John Ford
elenco: James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin,
Edmond O´Brien, Andy Devine, John Carradine,
Jeanette Nolan, Woody Strode e Lee Van Cleef
 

FONTES
JOHN WAYNE: a VIDA e a LENDA (2014)
John Wayne: The Life and Legend
de Scott Eyman
 
JOHN WAYNE – o HOMEM por TRÁS do MITO (2001)
John Wayne - The man behind the myth
de Michael Munn
 
O TITÃ AMERICANO:
PROCURANDO por JOHN WAYNE (2014)
American Titan: Searching for John Wayne
de Marc Eliot
 
“Não apareço em filmes que envergonhem o público. Podem levar a família para ver um dos meus filmes e nunca se sentirão envergonhados ou constrangidos”
JOHN WAYNE
 
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RASTROS de ÓDIO
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outubro 25, 2024

************* O SEGREDO de LORETTA YOUNG

 

 
Felizmente, a realidade em um filme 
- ao contrário de algumas crenças - 
não se restringe a temas sórdidos ou chocantes, 
nem a uma linguagem grosseira, 
nem à violência gratuita etc. 
A realidade em um filme de bom gosto 
também é saudável, é amor e romance. 
É coragem, aventura, inspiração 
e heroísmo. E todos nós somos 
enriquecidos por causa disso.
LORETTA YOUNG
 
Olhos: azul-acinzentados
Cabelos: castanhos claros
Apelidos: Santa Loretta e A Borboleta de Aço
Altura: 1,67 cm

 
 
Por trás do glamour, do carisma e do estrelato, era uma mulher requintada, de classe e dignidade, cuja verdadeira beleza estava em sua dedicação à família, sua profunda fé católica e sua busca para viver a vida com um propósito. Uma das maiores estrelas de Hollywood dos anos 30 e 40, ela filmou com John Ford, Frank Capra, Cecil B. DeMille e Orson Welles. Sua vitoriosa carreira começou no cinema mudo e terminou com um programa de tevê de sucesso, “The Loretta Young Show”, no horário nobre. No meio tempo, LORETTA YOUNG (1913 – 2000. Salt Lake City, Utah / EUA) ganhou um Oscar de Melhor Atriz em 1948 por “Ambiciosa”. Seus personagens cinematográficos geralmente são amorosos e justos, e na vida real ela era exatamente assim.
 
Nasceu Gretchen Young. Quando tinha três anos, seus pais se separaram e ela e suas duas irmãs foram morar em Hollywood, onde a mãe sobreviveu administrando uma pensão. Todas ajudavam na hospedaria e, com a indicação de um tio, que era assistente de direção, tornaram-se atrizes mirins. Exibida inicialmente no curta-metragem Arthur CardenesThe Only Way” (1914), fazendo uma criança chorosa deitada em uma mesa de operação. Ao filmar “The Primrose Ring” (1917), a super-star Mae Murray se ofereceu para adotá-la e ela viveu com os Murray por um ano e meio. LORETTA YOUNG também teve uma breve cena em “O Sheik / The Sheik” (1921), sucesso do latin lover Rodolfo Valentino. Sua mãe se casaria em 1922 com um de seus inquilinos, George Belzer.
 
Depois de estudar em um internato de freiras, aos 14 anos ela conseguiu um pequeno papel em “Em Maus Lençóis / Naughty But Nice”. Seguindo o conselho da estrela Colleen Moore, mudou seu nome, sendo anunciada como LORETTA YOUNG pela primeira vez em “Pancadas de Amor / The Whip Woman”, em 1928. No mesmo ano, protagonizou “Ria, Palhaço, Ria / Laugh Clown Laugh”, com o lendário Lon Chaney. Tinha uma voz agradável, rouca e fez facilmente a transição para o falado. Ambiciosa e trabalhadora, entre 1929 e 1930 apareceu em 16 filmes. Ao se apaixonar pelo ator Grant Withers, nove anos mais velho que ela, fugiu com ele para Yuma, no Arizona, e viveram juntos por oito meses, mas o casamento foi um fiasco e ela pediu a anulação.
 
Seu esforço profissional valeu a pena quando o produtor Darryl F. Zanuck, da Warner Brothers, a contratou. Ao deixar o estúdio para ir trabalhar na 20th Century Fox, em 1934, ele a levou. LORETTA YOUNG compartilhou as telas com os maiores astros da época - Lon Chaney, Clark Gable, James Cagney, Spencer Tracy, Ronald Colman, Charles Boyer, Warren William, Cary Grant, Tyrone Power, Robert Taylor, Don Ameche, Warner Baxter, Joel McCrea, David Niven, Fredric March, Brian Aherne, Alan Ladd, Gary Cooper, Robert Mitchum, William Holden, Van Johnson e Jeff Chandler, entre outros. Mesmo recatada, teve casos com os casados Spencer Tracy e Clark Gable. Em 1935, ao filmar “O Grito da Selva” (1935) com Gable, deu origem a um dos maiores segredos de Hollywood.
 
Eles se envolveram durante meses. Gable era casado e não planejava se divorciar. Ela engravidou e por causa das rígidas cláusulas de moralidade em seu contrato ninguém poderia ficar sabendo. Para evitar o escândalo que poderia arruinar a carreira de ambos, viajou “de férias com sua mãe para a Europa, onde teve secretamente uma menina e depois a entregou a um orfanato. Dois anos depois, simulou a adoção de um bebê. O pai viu a garota apenas uma vez, quando ela tinha quinze anos. Ele nunca a reconheceu como filha, mas era visível a semelhança física entre ambos. No livro de memórias “Conhecimento Incomum”, Judy Lewis conta que no encontro trocaram algumas palavras e na despedida ele a beijou na testa. Nunca mais voltou a vê-lo.
 
loretta young e clark gable em 1935
Católica fervorosa, LORETTA YOUNG escondeu a gravidez de um homem casado o máximo que pôde. Ela sempre negava a história, dizia que era uma das lendas de Hollywood. Somente nos anos 90, aos 85 anos, confessou ao seu amigo e biógrafo Edward J. Funk e à sua nora Linda Lewis que ela e Clark Gable tiveram um romance sem sexo, mas quando terminaram as filmagens e estavam de volta a Los Angeles, dentro de um comboio, ele a estuprou e ela ficou grávida. O trauma do episódio fez com que mantivesse o segredo até a sepultura. A nora só contou a informação sigilosa quando a sogra já havia morrido. Foi o maior segredo da estrela, algo que ela não conseguia admitir publicamente tampouco na intimidade.
 
A atriz recusou o papel de Ellie Andrews em “Aconteceu Naquela Noite / It Happened One Night” (1934), dando a Claudette Colbert a oportunidade de ganhar o Oscar de Melhor Atriz. Recusou também “Os Inocentes / The Inocents” (1961) e “Com a Maldade na Alma / Hush...Hush, Sweet Charlotte” (1964). No total, atuou em 90 filmes durante uma carreira de 26 anos. Na década de 1930, ela era a queridinha da América. Em 1938, teve um sucesso notável com “Romance do Sul / Kentucky”. Nos anos 1940, ainda era uma das mulheres mais bonitas de Hollywood. Consolidando sua reputação, causou impacto em 1946 como a esposa de um nazista em “O Estranho’’, de Orson Welles.
 
Em 1947, a comédia “Ambiciosa” foi um sucesso de crítica e bilheteria. Também em 1947, estrelou “Um Anjo Caiu do Céu, com Cary Grant e David Niven, outro estrondoso sucesso. Outra comédia bem recebida foi “Mamãe, Ele e Eu / Mother Is a Freshman (1949), com Van Johnson, e no mesmo ano ela recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por sua participação em “Falam os Sinos / Come to the Stable”, ao lado da excelente Celeste Holm. O último papel de LORETTA YOUNG no cinema foi em 1953 na comédia “O Amor Resolve Tudo / It Happens Every Thursday”. Ao abandonar a sétima arte, começou uma segunda carreira igualmente bem-sucedida como apresentadora do “Letters to Loretta”, em 1953 - mais tarde “The Loretta Young Show”.
 

O triunfante programa de variedades foi perfeito para seu estilo conservador, voltado para a família, com a estrela lendo um poema ou uma passagem bíblica no final de cada edição. Ganhou três prêmios Emmy em oito anos. Ela fazia uma entrada espetacular, em vestidos deslumbrantes, e se tornou ainda mais famosa durante oito temporadas, finalizando em 1961. Após o fim do trabalho na TV, LORETTA YOUNG se aposentou, dedicando seu tempo ao serviço voluntário para instituições de caridade católicas, junto com suas amigas atrizes Jane Wyman e Maureen O'Hara. Saiu da aposentadoria para aparecer em dois filmes de televisão,
“O Último Natal / Christmas Eve”, em 1986, pelo qual ganhou um Globo de Ouro, e “Lady in a Corner”, três anos depois.
 
Em 1940 ela se casou com Tom Lewis, produtor e roteirista, com quem teve dois filhos, Christopher e Peter Charles. Se divorciaram no início dos anos 1960. Em 1961 lançou a autobiografia
“As Coisas que Tive que Aprender / The Things I Had to Learn”, sem citar o caso com Clark Gable. Em 1972, processou a rede NBC por transmitir ilegalmente seus programas de TV no exterior, ganhando 600 mil dólares. Foi dona de uma empresa de cosméticos na década de 1960, com sede em Nova York. Conservadora, republicana, apareceu em anúncios em apoio a presidentes como Dwight D. Eisenhower, Gerald Ford, Ronald Reagan e George W. Bush. Doou dinheiro ao Comitê Nacional Republicano e, com sua amiga Irene Dunne, foi ativa em eventos políticos de direita.
 

Casou pela terceira vez em 1993, aos 80 anos, com Jean Louis, um estilista vencedor do Oscar. Suas criações mais famosas incluem o vestido negro sem alças de Rita Hayworth em “Gilda / Idem” (1946), bem como o vestido de lantejoulas de Marilyn Monroe usado para cantar “Parabéns, sr. Presidente” para John F. Kennedy. Ele morreu em 1997. LORETTA YOUNG viveu uma aposentadoria tranquila em Palm Springs, Califórnia, até sua morte em 2000, de câncer de ovário, aos 87 anos.
 
FONTES
Behind The Door: the Real Story of Loretta Young (2016)
de Edward J. Funk
 
As Coisas que Tive que Aprender /
The Things I Had To Learn (1961)
de Loretta Young
 
Conhecimento Incomum /
Uncommon Knowledge (1994)
de Judy Lewis

Forever Young: The Life, Loves, and Enduring Faith 
of a Hollywood Legend (2000)
de Joan Wester Anderson
 
loretta young e tyrone power em café metrópole
DEZ FILMES de LORETTA YOUNG
(por ordem de preferência)
 
01
As CRUZADAS
(The Crusades, 1935)

direção de Cecil B. DeMille
elenco: Henry Wilcoxon, C. Aubrey Smith, 
Joseph Schildkraut e Alan Hale
 
02
O ESTRANHO
(The Stranger, 1946) 
 

direção de Orson Welles
elenco: Orson Welles e Edward G. Robinson
 
03
Um ANJO CAIU do CÉU
(The Bishop's Wife, 1947)
 

direção de Henry Koster
elenco: Cary Grant, David Niven, Monty Woolley, 
Gladys Cooper e Elsa Lanchester
 
04
O PARAÍSO de um HOMEM
(Man's Castle, 1933) 
 

direção de Frank Borzage
elenco: Spencer Tracy, Marjorie Rambeau, Glenda Farrell 
e Walter Connolly
 
05
O GRITO das SELVAS
(The Call of the Wild, 1935) 
 

direção de William A. Wellman
elenco: Clark Gable e Jack Oakie
 
06
A CONQUISTA de um IMPÉRIO
(Clive of India, 1935) 
 

direção de Richard Boleslawski
elenco: Ronald Colman, Colin Clive e C. Aubrey Smith
 
07
SUEZ
(Idem, 1938) 
 

direção de Allan Dwan
elenco: Tyrone Power, Annabella, Joseph Schildkraut 
e Nigel Bruce
 
08
AMBICIOSA
(The Farmer's Daughter, 1947)

direção de H. C. Potter
elenco: Joseph Cotten, Ethel Barrymore, Charles Bickford 
e Lex Barker
 
09
O PASSADO de uma MULHER
(Midnight Mary, 1933) 
 

direção de William A. Wellman
elenco: Franchot Tone, Ricardo Cortez, Andy Devine 
e Una Merkel
 
10
MULHER, a QUANTO OBRIGAS
(Key to the City, 1950) 
 

direção de George Sidney
elenco: Clark Gable, Frank Morgan e Marilyn Maxwell
 
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Bette Davis e Ingrid Bergman foram as melhores atrizes da minha época. Eram honestas, cheias de integridade, vulneráveis. Acho que nunca veremos uma atuação melhor no cinema do que Bette Davis em “Pérfida” ou “A Estranha Passageira”.
LORETTA YOUNG