Na vida real, a maioria dos atores de cinema
é uma decepção. Eu,
por outro lado,
sou melhor na vida real do que no cinema.
MARLENE DIETRICH
Ela é um ícone do século 20, uma das mais famosas representantes
da Era de Ouro de Hollywood. Dona de uma voz singular e de um corpo escultural,
ela lançava moda, era corajosa e ousada, sensual e misteriosa. Deixou meio mundo
apaixonado ao interpretar a cantora de cabaré Lola-Lola no clássico “O Anjo
Azul”, em 1930, lançando-se numa celebrada carreira internacional. Oitenta e
seis anos passados, ainda existe um grande fascínio por MARLENE DIETRICH (1901 - 1992. Berlim / Alemanha). O legado da sereia alemã permanece: é usada como referência nos
dias de hoje por cantoras e atrizes. Não sei que idade eu tinha ao vê-la pela
primeira vez. Atravessava a fase da inocência, viciado em longas dublados na
tevê, após a meia-noite, horário dos clássicos naquele tempo. Tive a sorte de
conhecê-la no thriller “Testemunha de
Acusação”, de Billy Wilder. A Christine criada por Agatha Christie é a sua
melhor atuação.
Hipnotizado pelo magnetismo do espetacular animal cujas escamas
brilham dia e noite, fixei-me nos grandes olhos gélidos, no sorriso astuto e
sobrancelhas desenhadas. Passei a garimpar
seus filmes, entre eles, os sete
rodados pelo seu mentor e amante Josef von Sternberg. Em “O Anjo Azul”, de meias
provocantes e liga, na famosa cena na qual canta “Estou Pronta para o Amor da
Cabeça aos Pés”, exibindo suas longas pernas, é lembrada como uma das mais
antológicas do cinema. Trabalhou durante seis décadas, dirigida por reconhecidos mestres como Ernst Lubitsch, Rouben
Mamoulian, Jacques Feyder, Raoul Walsh, Billy Wilder, René Clair, Alfred
Hitchcock, Fritz Lang e Orson Welles.
Li autobiografias que pouco revelam, mentiras escritas como se
fossem verdade; e biografias que tentam, honestamente, narrar sua trajetória
espetacular. Mas o enigma da diva permanece intacto. De férias em Paris,
visitei o majestoso prédio onde morava, na Avenida Montaigne. Tempos depois, caiu
em minhas mãos o documentário “Marlene” (1984) dirigido pelo ator alemão Maximilian
Schell, parceiro de elenco em “Julgamento em Nuremberg”. Na época, não engoli
as declarações amargas de sua filha Maria, na BBC, denunciado uma
MARLENE DIETRICH fria, calculista e violenta. Mergulhando na
experiência da beleza dilacerante, terminei por idealizá-la ao que convém
à promoção do encantamento. Armadilhas amorosas, perfídias, sensualidade,
neurônios acesos, jogos sexuais. A estrela símbolo da emancipação da mulher moderna. A vênus loira que fazia homens e mulheres de
gato e sapato.
O começo da carreira foi duro. Inicialmente, dançando em cabarés e
teatros baratos, exibia as suas belas pernas. Ela não escondia a
bissexualidade, era uma “mulher falada”, além dos padrões morais
da época, embora bares gays existissem em abundância em Berlim. MARLENE casou-se
uma única vez, com o assistente de direção Rudolf Simmer, em 1923.
Nascida em Berlim, criada numa rígida educação prussiana, estudou música e fez teatro com o celebrado Max Reinhardt. Participou de produções de pouca visibilidade e trabalhou como cantora, mas o sucesso só aconteceu com a direção de Josef von Sternberg, que a levou a Hollywood. A Paramount Pictures imediatamente resolveu transformá-la na mulher mais bela do mundo, disputando com a Metro-Goldwyn-Mayer e sua estrela maior, Greta Garbo, também importada da Europa. A atriz arrepiou plateias com frases dúbias tipo “Foi preciso mais de um homem para trocar o meu nome por Lily Shangai” (de “O Expresso de Shangai”), tornando-se uma estrela admirada em todo o mundo. Felina, a mais bela do cinema do seu tempo, exibia naturalmente um show misterioso de luz e sombra, androgenia e plenitude intelectual.
Fumava com extraordinária sagacidade. Nem Bette Davis ganhava dela na pegada do cigarro entre nuvens de fumaça. Ela pode facilmente ser confundida como produto deslumbrante da imaginação coletiva ou vislumbre paranormal. Ao longo da carreira, moldou a imagem da deusa sedutora e andrógina, valendo-se de uma sexualidade agressiva e atitude dominante: suas personagens não conhecem limites quando se apaixonam. Pegando emprestado peças do guarda-roupa masculino, em diversas ocasiões vestiu terno e cartola. Também se sentia à vontade trajando maravilhosos vestidos. Sempre exigente com sua aparência, utilizava o figurino como uma arma para conquistar tanto o parceiro do filme como o espectador.
Nascida em Berlim, criada numa rígida educação prussiana, estudou música e fez teatro com o celebrado Max Reinhardt. Participou de produções de pouca visibilidade e trabalhou como cantora, mas o sucesso só aconteceu com a direção de Josef von Sternberg, que a levou a Hollywood. A Paramount Pictures imediatamente resolveu transformá-la na mulher mais bela do mundo, disputando com a Metro-Goldwyn-Mayer e sua estrela maior, Greta Garbo, também importada da Europa. A atriz arrepiou plateias com frases dúbias tipo “Foi preciso mais de um homem para trocar o meu nome por Lily Shangai” (de “O Expresso de Shangai”), tornando-se uma estrela admirada em todo o mundo. Felina, a mais bela do cinema do seu tempo, exibia naturalmente um show misterioso de luz e sombra, androgenia e plenitude intelectual.
Fumava com extraordinária sagacidade. Nem Bette Davis ganhava dela na pegada do cigarro entre nuvens de fumaça. Ela pode facilmente ser confundida como produto deslumbrante da imaginação coletiva ou vislumbre paranormal. Ao longo da carreira, moldou a imagem da deusa sedutora e andrógina, valendo-se de uma sexualidade agressiva e atitude dominante: suas personagens não conhecem limites quando se apaixonam. Pegando emprestado peças do guarda-roupa masculino, em diversas ocasiões vestiu terno e cartola. Também se sentia à vontade trajando maravilhosos vestidos. Sempre exigente com sua aparência, utilizava o figurino como uma arma para conquistar tanto o parceiro do filme como o espectador.
No período pós-guerra, insatisfeita com os papeis em
Hollywood - salvo exceções, como “A Mundana / Foreign Affair” (1948), de
Billy Wilder, em uma Alemanha devastada pela Segunda Guerra -, se dedicou à carreira de cantora. Com sua voz rouca e sexy, trajando
smokings e vestidos transparentes, etérea e radiante, cantou em palcos
sofisticados de meio mundo, sempre com casa lotada, iniciando a série de
espetáculos em Las Vegas, no Sahara Hotel. No Rio de Janeiro, em 1959, no Copacabana
Palace, fez um grande sucesso. Vestido colante,
casaco de plumas de cisne e joias, conquistou o público com charme e senso de
humor. Cantou em inglês, francês e alemão. Na segunda parte, apareceu com um
traje masculino e bengala. Ainda no Brasil, gravou “Luar do Sertão”, clássico de Luiz Gonzaga.
A figura erótica, porte aristocrático e magníficas pernas
colocadas no seguro por um milhão de dólares, fizeram dela o protótipo da
sedutora, aquela que tudo pode. Indicada ao Oscar por “Marrocos”, MARLENE DIETRICH era mais que uma atriz.
Difícil não se encantar com seu rosto iluminado por pontos de luz, olhar duro
repleto de promessas, impassível sarcasmo. Inventou-se como réptil único, de
reações magnéticas e sensibilidade cintilante. Após “Marrocos”, seguiram-se
outros sucessos como “O Expresso de Xangai” e “A Vênus Loura / Blonde Venus” (1932). Neste
último, ela tem de trabalhar em um cabaré para pagar o tratamento médico do
marido. Lá conhece um milionário (Cary Grant) e se apaixona por ele. Em muitos
de seus filmes, utiliza sua bela voz em números musicais que transbordam volúpia,
e nesse filme cantou “Hot Vodoo”, evocando o caráter místico de seus encantos.
Ao chegar a Hollywood em 1930, morena e um pouco gorda, o
pigmalião Sternberg pintou os seus cabelos de um quase dourado, afinou o rosto
arrancando os dentes traseiros, esculpiu o corpo através de dieta e massagista, arqueou as sobrancelhas além do normal, alongou e escureceu as
pestanas superiores, deu aos olhos a ilusão de serem enormes pelo artifício da maquilagem - uma linha branca desenhada no interior das pálpebras e que ela
estoicamente suportava sem lacrimejar. Nascia assim a estrela andrógina, a vamp que escandalizaria a opinião
pública ao aparecer de smoking na estreia
do épico “O Sinal da Cruz / The Sign of the Cross”, em 1932, protagonizado por sua amante
Claudette Colbert. Bissexual, ela teve romances com Greta Garbo, Edith
Piaff e a roteirista Mercedes de Acosta. Namorou o ator francês Jean Gabin e os escritores Ernest Hemingway
e Erich Maria Remarque. Ganhou notoriedade por inúmeras relações
amorosas com homens e mulheres. Deslumbrantemente feminina, tinha
fama de devastar corações. Nas rodas de Hollywood era conhecida
como “amante voraz”.
Dizem que a diva podia derreter um homem com um levantar de
sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar. Enigmática, zelava por sua
privacidade, contando mentiras e inventando histórias sobre si mesma. Josef von Sternberg
e ela se uniram como um visionário e sua invenção bendita.
“Marlene sou eu”, disse o cineasta numa entrevista. Ele nunca mais foi o mesmo depois dela. Ela brilhou intensamente desde seu primeiro filme norte-americano, provocando reações confusas no público ao
beijar a boca de uma bela garota numa cena de “Marrocos”.
Em 1933, Hitler a convidou para estrelar filmes nazistas,
oferecendo uma fortura. Ela recusou e, em 1937, tornou-se cidadã
norte-americana. Descontente com o nazismo, durante a Segunda Guerra se dedicou
a ajudar as tropas aliadas, visitando hospitais do front e entretendo soldados
com shows especiais, onde cantava “Lili Marlene”. Condecorada com medalhas nos
EUA e considerada uma traidora na Alemanha. Ao retornar a Berlim, em
1960, foi vaiada, recebida com faixas tipo “Marlene, go home”. Só retornaria ao
seu país natal depois de morta. Foi enterrada em Berlim.
Femme fatalle por
definição, destas que dão um sentido à vida mesmo nos convertendo em objetos
usados e jogados fora, não é à toa que seu verdadeiro nome é Maria Madalena. Ao
vê-la como Concha Perez em “Mulher Satânica / The Devil Is a Woman”, passei a
acreditar que amava a si mesmo e não podia permitir rival neste amor intenso. MARLENE
DIETRICH não levava o casamento a sério. Idosa, deixou-se esculpir por
cirurgiões plásticos, silhueta mantida por apertados corpetes, bicos dos seios
eroticamente recriados por pérolas colocadas no soutien. No ano de 1975, deixa
os palcos. Seu último trabalho no cinema foi em “Apenas um Gigolô / Schoner
Gigolo, Armer Gigolo”, de 1978, estrelado por David Bowie, onde fez a
Baronesa von Semering.
Vaidosa, não se deixou ser filmada ou fotografada em idade
avançada. Com o corpo em ruínas, em cadeira de rodas, refugiou-se até a morte no
apartamento parisiense, evitando entrevistas e não permitindo que a vissem em
decadência física. A imagem reclusa, daquela que foi uma das mulheres mais
belas de sempre, era algo que a revoltava. Apenas a filha, netos e o médico
tinham permissão de visitá-la. Tornou-se, nos anos finais de vida, alcoólatra e dependente de calmantes. Sua
morte foi tardia, somente aos 90 anos, de falência renal. Alguns acreditam
que sofria de Alzheimer. Dizem que teria se suicidado,
através de ingestão de tranquilizantes. Mas nunca foi confirmado.
O canto de MARLENE DIETRICH, numa vocalização quase falada, provoca
estremecimento, mas ela não era cantora, talvez nem mesmo atriz, estava além de rótulos. Em Londres, numa exposição do figurino do filme “Kismet / Idem” (1944), da russa Barbara Karinska, compreendi que os belos vestidos e adereços expostos não tinham viço pela falta do recheio
da atriz. A diaba dissimulada, ar afetado, olhar lascivo, sugestivo sorriso. Convite
aos sonhos mais lúbricos. A diaba idolatrada por milhões morreu solitária, nos braços
da empregada doméstica. Em 1999, o American Film Institute (AFI) a nomeou entre
as dez maiores estrelas de todos os tempos.
Por que não mais existem belezas como a dela? Belezas que nos ilude e nos faz sonhar. Talvez responda a Norma Desmond (Gloria Swanson) de “O Crepúsculo dos
Deuses / Sunset Boulevard” (1950), sob a luz do projetor, numa
película muda do seu apogeu de estrela: “Continua a ser maravilhoso, não
continua? E sem diálogos. Não precisávamos de diálogos. Tínhamos rostos. Já não
há rostos como aquele”.
Fontes
“A Beleza – Der Blaue Engel”
de Manuel Dias Coelho
“A
Bela e a Fera”
de Fabio Cypriano
“Desejo-lhe Amor – Conversas com Marlene
Dietrich”
de Erik Hanut
“Marlene de A a Z”
DEZ VEZES MARLENE
(filmes por ordem de preferência)
01
Tana em
A MARCA da MALDADE
direção de Orson Welles
02
Christine em
TESTEMUNHA de ACUSAÇÃO
direção de Billy Wilder
03
Sra. Bertholt em
JULGAMENTO em NUREMBERG
direção de Stanley Kramer
04
Lola Lola em
O ANJO AZUL
direção de Josef von Sternberg
05
Shanghai Lily em
O EXPRESSO de SHANGHAI
direção de Josef von Sternberg
06
Princesa Sophia Frederica / Catherine II em
A IMPERATRIZ GALANTE
direção de Josef von Sternberg
07
Maria 'Angel' Barker / Sra. Brown em
ANJO
direção de Ernst Lubitsch
08
Madeleine de Beaupre em
DESEJO
direção de Frank Borzage
09
Domini Enfilden em
O JARDIM de ALAH
direção de Richard Boleslawski
10
Mademoiselle Amy Jolly em
MARROCOS
direção de Josef von Sternberg













































