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agosto 15, 2025

************** JOHN WAYNE, um HERÓI de CINEMA

 

 

Tenho orgulho do meu trabalho,
a ponto de ser o primeiro a chegar
ao set de filmagem. Não sofro
com críticas ruins, o público gosta
dos meus filmes e isso é tudo
o que importa.
 
Sou um patriota honesto,
um conservador de direita.
JOHN WAYNE
 
Altura: 1,93 m
Cabelos: castanho-escuros
Olhos: azuis 
Apelido: Duke e JW
 
para Doutor Antônio, meu pai
 
LEGIÃO INVENCÍVEL


Figura imponente do passado de Hollywood, por mais de trinta anos foi referência na indústria cinematográfica, simbolizando um tipo de masculinidade e estrelando filmes icônicos da Era de Ouro. Na adolescência, na solidão do quarto, eu imitava o seu andar característico de felino. Pegando emprestado armas da coleção de meu pai, fazia de conta que era o glorioso astro dos faroestes, matando sem piedade bandidos e selvagens. Repeti essas cenas durante anos. Nunca ninguém soube, era um segredo. Admirador dos faroestes que via em preto e branco na TV e na matinê de domingo nos cinemas de Itabuna, preferia os mocinhos Glenn Ford, Gary Cooper e Clint Eastwood. Como pai Antônio era fã de JOHN WAYNE (1907 – 1979. Winterset, Iowa / EUA), procurava substituí-lo no imaginário como pistoleiro imbatível. Queria ser como ele. Com a maturidade, terminei por esquecê-lo ao não o considerar um ator sério. Ao resgatar sua trajetória, percebi o engano. Suas performances em “Rio Vermelho” e “Rastro de Ódio”, entre outras, são impactantes. Não há dúvida de que era cativante e talentoso.
 
Ao descobrir que era republicano e sua batalha política conservadora durante décadas, a afeição juvenil pelo astro renasceu com força total. Portanto, este post é um tributo a sua longa e majestosa passagem por Hollywood. Vencedor de Oscar e Globo de Ouro, JOHN WAYNE se tornou o símbolo máximo do faroeste. Seus filmes frequentemente refletem valores tradicionais, são considerados clássicos do gênero, reverenciados e assistidos até os dias atuais. Steve McQueen, Sylvester Stallone, Bruce Willis e Chuck Norris o citaram como uma grande influência para eles, tanto profissional quanto pessoalmente. Assim como o lendário astro, cada um deles alcançou a fama interpretando personagens de ação heroica e apoiando causas de direita e o partido Republicano. Dedicado em seu trabalho, seu verdadeiro nome era Marion Michael Morrison. Fala lenta, voz grave e marcante, sotaque arrastado e olhar semicerrado, é lembrado como a imagem típica do caubói, quase sempre como um admirável herói solitário. Cresceu num rancho na Califórnia e fez 145 filmes, em mais de 40 anos de uma extraordinária carreira.
 
Duke (como os amigos o chamavam) teria sua trajetória ligada ao cineasta John Ford depois que interpretou Ringo Kid no clássico “No Tempo das Diligências”, em 1939. Ao todo, foram 14 filmes com o mestre. Ainda faria boas parcerias com outros importantes diretores, como John Huston, Howard Hawks, William A. Wellman, Raoul Walsh e Henry Hathaway. Crescendo em Iowa, um de seus passatempos favoritos era jogar futebol americano com o pai. Enquanto estudava na USC, juntamente com colegas, trabalhava meio período na Fox Film, carregando adereços de cenário e como figurante ocasional. Em 1930, teve sua oportunidade em “A Grande Jornada. O diretor Raoul Walsh o viu passar no set carregando uma mesa, gostou do seu jeito de se mover e contratou o rapaz inexperiente para o papel protagonista. A empresa depositava esperanças neste faroeste épico, mas ele fracassou nas bilheterias. A seguir, JOHN WAYNE sobreviveu na década de 30 estrelando dezenas de faroestes de baixo orçamento. Alguns levavam apenas oito dias para serem filmados.
 
Era um trabalho árduo. Não havia dublês, ele próprio lutava e cavalgava. Em 1933, casou-se com Josephine Alicia Saénz, filha de um poderoso funcionário do governo mexicano. Ela era da alta sociedade e uma mulher bonita. Tiveram quatro filhos, com os quais ele sempre foi muito próximo e afetuoso. Ainda desconhecido, chegava ao set às 6h e, depois de um dia difícil, voltava para casa sujo e cansado às 19h30, com a esposa aristocrática pronta para um jantar fora ou uma festa. A virada profissional veio em 1939 com o sucesso de “No Tempo das Diligências”, que o transformou em uma das estrelas em ascensão mais valiosas. Depois vieram outros filmes importantes. Na época, houve um distanciamento gradual da esposa, pois ele não se adaptava ao estilo elegante dela. Quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial, houve movimento de apoio, inclusive em Hollywood. JOHN WAYNE, com lesões no joelho, sofridas na faculdade, foi isento do alistamento. Mesmo assim, ele desejava servir e escreveu várias vezes a John Ford pedindo para se juntar à sua Unidade Fotográfica de Campo do OSS.
 
Em 1943, conheceu a atriz mexicana Esperanza Baur. Alta, esbelta e morena, ela havia trabalhado com Arturo de Córdoba em “O Conde de Monte Cristo / El Conde de Montecristo” (1942). Como JOHN WAYNE, ela gostava de uma vida simples e reuniões com poucos amigos ao redor de uma churrasqueira. Ele se divorciou e se casou com ela em 1946. Ward Bond foi o padrinho e a esposa do falecido Harry Carey, a madrinha. Mas o ator mudou. A partir do final da década de 1940, com os filmes “Sangue de Heróis”, “Rio Vermelho” e “O Céu Mandou Alguém”, ele foi nomeado estrela número um de bilheteria, junto com Doris Day, por três anos consecutivos, pelos donos de cinema do país. Tornou-se uma estrela de altíssima estatura e passou a apreciar a vida social de Hollywood. A esposa tinha temperamento explosivo, bebia muito, e depois de várias brigas, se separaram. No processo de divórcio, ela alegou o caso do marido com a atriz Gail Russell, e ele respondeu que Conrad Hilton Jr., casado com Elizabeth Taylor, havia se tornado hóspede constante da casa deles, enquanto viajava à trabalho.
 
marlene dietrich e john wayne
Ainda nos anos 40, JOHN WAYNE teve um namoro de três anos com Marlene Dietrich, mas seu romance com Maureen O'Hara durou ainda mais, restando uma boa amizade. Estrelaram cinco filmes juntos. Divorciado mais uma vez, casou-se com a peruana Pilar Palette, que conheceu enquanto procurava locações de filmagem no Peru para “O Álamo / The Alamo” (1960). Embora fosse casada, Pilar se divorciou e se mudou imediatamente para Hollywood. Deprimida e estressada pela radical mudança cultural, ela se viciou em pílulas para dormir. Certa noite, enquanto ele filmava na Louisiana, cortou os pulsos durante uma alucinação. O casal teve três filhos. Depois que a terceira esposa o deixou em 1973, ele se envolveu com sua secretária Pat Stacy pelos anos restantes de vida. Na política, ele era um feroz defensor dos republicanos, nacionalista ferrenho e anticomunista ativo. Participou ativamente da criação da Aliança Cinematográfica para a Preservação dos Ideais Americanos (MPA) em 1944 e foi eleito presidente cinco anos depois. Ronald Reagan, Walt Disney, Clark Gable, Robert Taylor, Gary Cooper e outros famosos estavam entre os membros da organização.

 
Defensor do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC), expressou seu apoio contra o maldito comunismo no filme de ação “Uma Aventura Perigosa / Big Jim McLain” (1952) e incluindo traidores da pátria na Lista Negra de Hollywood. Promoveu a guerra do Vietnã, produzindo e estrelando “Os Boinas Verdes / The Green Berets” (1968). Por ser a estrela republicana mais proeminente de Hollywood, foi cotado por texanos republicanos a concorrer a um cargo nacional em 1968. Ele recusou dizendo que era “um homem de Richard Nixon”. Apoiou Ronald Reagan nas campanhas para governador da Califórnia em 1966 e 1970. Também rejeitou um convite para ser vice na candidatura presidencial de George Wallace, preferindo fazer campanha por Nixon, inclusive discursando na Convenção Nacional Republicana de 1968. O ditador soviético Joseph Stalin, indignado com o seu anticomunismo, encomendou seu assassinato. Na primeira tentativa, dois matadores russos se fizeram passar por agentes do FBI e tentaram assassiná-lo em seu escritório, na Warner Brothers, em Hollywood, mas foram capturados.
 
As conspirações soviéticas foram canceladas após a morte de Stalin, em 1953, por seu sucessor, Nikita Krushchev, que era fã do astro. “Essa foi uma decisão de Stalin nos últimos cinco anos loucos de sua vida. Quando ele morreu, eu revoguei a ordem”, teria dito Kruschev a JOHN WAYNE em um encontro entre os dois em 1958. No entanto, grupos comunistas norte-americanos assumiram a conspiração e tentaram assassiná-lo no México, nas filmagens de “Caminhos Ásperos / Hondo” (1953). Ele sobreviveu a essa tentativa de assassinato e a outra cometida por um franco-atirador durante visita que fez às tropas dos EUA no Vietnã, em 1966. Carismático e convincente, atuou em faroestes, aventuras, melodramas e filmes de guerra. Em 1956, ao protagonizar “Sangue de Bárbaros / The Conqueror”, resultou em uma tragédia futura. Rodado por treze semanas no Parque Estadual de Snow Canyon, em Utah, o set estava situado a apenas 220 km da área de testes de Nevada, um local para a realização de bombardeamos nucleares ao ar livre com perigos decorrentes da radiação.
 
O pó radioativo – levado pelo vento – se precipitou justamente sobre o local da filmagem. As consequências, porém, viriam anos depois, quando a maior parte do elenco e da equipe começaram a desenvolver câncer numa escala assustadora. O próprio astro, Susan Hayward e Agnes Moorehead padeceram de câncer nas décadas de 60 e 70. Na seguinte, 90 membros da equipe de 220 pessoas desenvolveram tumores malignos e 46 morreram. Já em 1991, seria a vez de John Hoyt, que veio a óbito após adquirir câncer no pulmão. Segundo especialistas, a exposição no set de filmagens possivelmente foi a causa do câncer desenvolvidos em 94 profissionais que trabalharam no filme. Em Hollywood, JOHN WAYNE foi um dos atores que mais recusaram oportunidades notáveis e, em alguns casos, prêmios importantes. Recusou a série “Gunsmoke”, que durou 20 temporadas; “Fugindo do Inferno / The Great Escape” (1963), um clássico do cinema de guerra, e o papel foi para Steve McQueen; “Os Doze Condenados / The Dirty Dozen” (1967), com Lee Marvin brilhando como o Major John Reisman, um papel que seria dele.
 
Disse também não para “Rebeldia Indomável / Cool Hand Luke” (1967), resultando em uma das atuações mais aclamadas de Paul Newman; “Perseguidor Implacável / Dirty Harry” (1971), cujo papel foi para Clint Eastwood, que criou um dos personagens mais famosos do cinema; “Um Estranho no Ninho / One Flew Over the Cuckoo's Nest” (1975), que deu o Oscar para Jack Nicholson; “Patton, Rebelde ou Herói? / Patton” (1970), Oscar para George C. Scott; “Apocalypse Now / Idem” (1979), que terminou nas mãos de Martin Sheen. Entre muitos outros. Dos seus muitos personagens no cinema, o favorito era Ethan Edwards em “Rastros de Ódio” (1956). Chegou a dar ao seu filho o nome de Ethan em homenagem a ele. Praticamente calvo, o astro usou peruca em sua ilustre carreira desde “O Rasto da Bruxa Vermelha / Wake of the Red Witch” (1948). Sua vitória de Melhor Ator no Oscar e no Globo de Ouro por “Bravura Indômita / True Grit” (1969) foi vista como prêmios pelo conjunto da obra. Continuou a estrelar filmes de sucesso até 1976, permanecendo entre as dez maiores estrelas de bilheteria dos EUA até 1974.
 
wayne com o oscar e barbra streisand
Seu álbum falado “America: Why I Love Her” foi indicado ao Grammy quando lançado em 1973. Relançado em CD em 2001, teve êxito novamente. Junto com Humphrey Bogart, JOHN WAYNE era considerado o fumante mais inveterado da meca do cinema, fumando cinco maços de Camel sem filtro até sua primeira batalha contra o câncer em 1964. Ele passou por uma cirurgia bem-sucedida para remover o pulmão esquerdo. Apesar de seus sócios quererem manter a doença em segredo, tornou pública a situação e incentivou o público a fazer exames preventivos. A doença o fez amargar 15 anos de sofrimento, que o levaram até a pensar em suicídio.  Dirigiu os filmes “O Álamo” e “Os Boinas Verdes”. Este último causou-lhe problemas. O roteiro, pró-guerra do Vietnã, alimentou a fúria da esquerda, que realizou vários protestos contra a exibição. Católico, leal aos amigos, fez o elogio fúnebre nos funerais de Ward Bond, John Ford e Howard Hawks. Tinha fama de beber bastante, e os diretores filmavam suas cenas pela manhã, com ele ainda sóbrio.
 
Junto com seu amigo de longa data, Louis Johnson, era dono de uma fazenda de gado Hereford puro-sangue com 63 quilômetros de extensão no Arizona, a 26 Bar Ranch. A fazenda criava mais de 400 touros, frequentemente vencendo nas grandes feiras de gado. O astro comparecia com frequência aos leilões e fazia o discurso de boas-vindas na abertura dos eventos. Em 1976, estrelou “O Último Pistoleiro / The Shootist”, dirigido por Don Siegel e ao lado de Lauren Bacall e James Stewart. Nesse seu último papel, morre de câncer, condição à qual o próprio sucumbiu três anos depois. O faroeste foi um sucesso de bilheteria e crítica, nomeado como um dos Dez Melhores Filmes de 1976 pelo National Board of Review. Faleceu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos. Enterrado em segredo, o túmulo permaneceu sem identificação até 1999, para o caso de manifestantes da guerra do Vietnã não o profanarem. Vinte anos após sua morte, finalmente recebeu uma lápide de bronze. Vários locais públicos nos EUA foram nomeados em homenagem a JOHN WAYNE, refletindo seu status como ícone cultural.
 
Graças à sua coragem, dignidade, integridade, talento, honestidade política e à sua cordialidade como ser humano ao longo de sua poderosa carreira, ele tem um lugar único em nossos corações e mentes. Receberia postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade em 1980, concedida pelo presidente Jimmy Carter. Em 1998, foi homenageado com o prêmio de Herança Naval pela Fundação Memorial da Marinha dos EUA, reconhecendo seu apoio às forças armadas. Em 1999, o Instituto Americano de Cinema (AFI) o classificou como a 13ª maior lenda masculina do cinema clássico de Hollywood. Continua sendo um dos atores mais intimamente associados não apenas à grandeza do cinema, mas também à grandeza do povo norte-americano. É uma verdadeira lenda, comove as massas, o público o adora. Poucos capturaram melhor o homem durão e corajoso, patriota e dedicado à família, conservador e leal, transbordando integridade e valores de direita: a imagem do herói cinematográfico inesquecível.
 
 
RIO VERMELHO
“O Oeste é o triunfo da coragem pessoal
sobre qualquer obstáculo, seja a natureza ou o homem.”

JOHN WAYNE
 

DEZ FAROESTES de JOHN WAYNE
(por ordem de preferência)
 
01
RIO VERMELHO
(Red River, 1948) 

direção de Howard Hawks
elenco: Montgomery Clift, Joanne Dru, Walter Brennan,
Coleen Gray, Harry Carey e John Ireland
 
02
RASTROS de ÓDIO
(The Searchers, 1956)
 

direção de John Ford
elenco: Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond,
Natalie Wood e Antonio Moreno
 
03
No TEMPO das DILIGÊNCIAS
(Stagecoach, 1939)
 

direção de John Ford
elenco: Claire Trevor, Andy Devine, John Carradine,
Thomas Mitchell, George Bancroft e Tim Holt

04
LEGIÃO INVENCÍVEL
(She Wore a Yellow Ribbon, 1949) 

direção de John Ford
elenco: Joanne Dru, John Agar, Ben Johnson,
Victor McLaglen, Mildred Natwick e George O´Brien
 
05
A GRANDE JORNADA
(The Big Trail, 1930)
 

direção de Raoul Walsh
elenco: Marguerite Churchill, Tully Marshall e Ward Bond
 
06
SANGUE de HERÓIS
(Fort Apache, 1948)

direção de John Ford
elenco: Henry Fonda, Shirley Temple, Pedro Armendáriz,
Ward Bond, George O´Brien, Victor McLaglen,
Anna Lee e Movita
 
07
O CÉU MANDOU ALGUÉM
(3 Godfathers, 1948)

direção de John Ford
elenco: Pedro Armendáriz, Harry Carey Jr., Ward Bond,
Mae Marsh, Mildred Natwick, Jane Darwell
e Ben Johnson
 
08
RIO BRAVO
(Rio Grande, 1950)

direção de John Ford
elenco: Maureen O'Hara, Ben Johnson, Claude Jarman Jr.,
Harry Carey Jr., Chill Willis, J. Carrol Naish,
e Victor McLaglen
 
09
ONDE COMEÇA o INFERNO
(Rio Bravo, 1959)

direção de Howard Hawks
elenco: Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson,
Walter Brennan e Ward Bond
 
10
O HOMEM QUE MATOU o FACÍNORA
(The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

direção de John Ford
elenco: James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin,
Edmond O´Brien, Andy Devine, John Carradine,
Jeanette Nolan, Woody Strode e Lee Van Cleef
 

FONTES
JOHN WAYNE: a VIDA e a LENDA (2014)
John Wayne: The Life and Legend
de Scott Eyman
 
JOHN WAYNE – o HOMEM por TRÁS do MITO (2001)
John Wayne - The man behind the myth
de Michael Munn
 
O TITÃ AMERICANO:
PROCURANDO por JOHN WAYNE (2014)
American Titan: Searching for John Wayne
de Marc Eliot
 
“Não apareço em filmes que envergonhem o público. Podem levar a família para ver um dos meus filmes e nunca se sentirão envergonhados ou constrangidos”
JOHN WAYNE
 
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RASTROS de ÓDIO
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junho 28, 2022

***** KATHARINE HEPBURN – Uma SENHORA ATRIZ




Nunca fui vítima da época em que vivi. Na verdade, fui um sucesso. Meu estilo de personalidade se tornou o estilo da época. Eu era uma espécie de Nova Mulher.
KATHARINE HEPBURN
 
Altura:  1,73 m
Cabelos: ruivos
Olhos: azuis
Apelidos: Primeira-dama do Cinema, Kate, A Grande Kate e Kathy

 
 
Inteligente, classuda e nada convencional. Ela era estranha. Sardenta, magra e ambígua, mas sua determinação e talento a levaram longe, conquistando o respeito da indústria e o amor de seus fãs. Apesar do comportamento duro e por vezes temperamental, KATHARINE HEPBURN (1907 – 2004. Hartford, Connecticut / EUA) provou muitas vezes ser leal e de bom coração.  Grande atriz no drama e na comédia, ganhou quatro Oscars da Academia e recebeu outras oito indicações. Não se dobrava facilmente diante das tramoias da vida. Aos doze anos, encontrou o irmão Tom, três anos mais velho, enforcado no sótão. Respirou fundo, chorou, mas a vida tinha de continuar. Quase cinco décadas depois, em 1967, enfrentou outro golpe: Spencer Tracy, amado companheiro durante 25 anos, com quem viveu uma relação delicada (foi a outra na vida dele, o ator nunca se separou da esposa oficial, Louise), morreu de ataque cardíaco.
 

A atriz respirou fundo outra vez, chorou novamente, mas a vida tinha de continuar. E como continuou! Permaneceu lépida e fagueira. Sempre agitada, ganhou mais três Oscars e foi indicada a dois Tony Awards, em 1970 por “Coco” e em 1982 por “The West Side Waltz”. Em 1991 lançou a autobiografia “Me – Stories of my Life” e aos 84 anos costumava pedalar bicicleta pelo Central Park, em Nova Iorque. Na época, afirmou que não tinha tempo de temer a morte, “mas se ela chegar, vai ser um alívio”. Filha de um urologista e uma pioneira do feminismo, KATHARINE HEPBURN sempre teve personalidade forte. Sabia o que queria e, principalmente, fazia o que queria. Aos três anos atuava em espetáculos criados pela mãe, propagandeando a ideia do voto entre as mulheres. Aos nove, decidiu se transformar em menino, raspou a cabeça e disse que seu nome era Jimmy. A brincadeira acabou em pouco tempo, mas a postura masculina diante da vida perduraria para sempre.
 
Aos dezessete anos, entrou para a faculdade, pensando em estudar Medicina, e seus modos nada femininos chocaram colegas mais conservadoras. Começou no teatro aos 21 anos, fazendo pequena participação num espetáculo intitulado “Czarina”. Em seguida, ganhou outros papéis em peças montadas na Broadway. O pai não gostou, mas ela, obstinada, bateu pé firme e venceu. Além disso, casou-se com Ludlow Ogden Smith, da alta sociedade da Filadélfia e tornou-se dona do próprio nariz. O casamento não durou, mas a paixão pela arte de representar seria para sempre. Aos 25 anos, surgiu o primeiro expressivo papel no teatro e, logo em seguida, veio o convite para fazer cinema. Desinteressada, pediu um cachê astronômico. Os produtores, no entanto, aceitaram a proposta e ela estreou em “Vítimas do Divórcio / A Bill of Divorcement” (1932), dirigido por George Cukor. Dois filmes depois, atuando em “Manhã de Glória / Morning Glory” (1933), de Lowell Sherman, ganhou o primeiro Oscar de Melhor Atriz.
 
Indomada, ela não se submetia à ditadura dos executivos dos estúdios, que determinavam como as estrelas deveriam se comportar. Fazia tudo o que irritava os chefões: não suportava os caçadores de autógrafos, mantinha a vida particular em segredo (escondeu o relacionamento com o bilionário Howard Hughes, com quem viveu alguns anos) e, mais grave para os rígidos padrões morais da época, não abria mão das calças compridas, que usava publicamente.
 
As histórias começaram a vazar. Falava-se de seu comportamento arrogante e sua recusa em jogar o jogo de Hollywood, sempre usando calças e sem maquiagem, nunca posando para fotos ou dando entrevistas. O público terminou chocado com seu comportamento nada convencional e seus filmes deixaram de fazer sucesso. Em 1939, apaixonada pelo papel de Scarlett em “... E o Vento Levou / Gone With the Wind”, submeteu-se aos testes para a escolha da protagonista, mas foi recusada. Rotulada de “veneno de bilheteria”, voltou a Broadway em “The Philadelphia Story” (1938). Foi um sucesso. Ela comprou os direitos da peça e os vendeu para a M-G-M, assumindo o papel principal. A sofisticada versão cinematográfica foi um êxito de bilheteria, e a atriz ganhou sua terceira indicação ao Oscar.
 
Em 1942, juntou-se a Spencer Tracy pela primeira vez, em “A Mulher do Ano”, e assim começou um dos maiores pares românticos na história do cinema - e um dos mais controversos casos de amor fora das telas. Ele era o par perfeito para aquela mulher inteligente, dura e peculiar. A abordagem dela mais cerebral das coisas era o oposto dos métodos naturais e instintivos de Spencer. Sua atuação sutil a deixou impressionada. Ela a princípio o desconcertou, mas depois o seduziu com sua lealdade, e caráter firme. Protetora, mantinha o ator atormentado longe da bebida, incentivando-o a superar o vício. Ele desfrutaria de alguns dos mais longos períodos de sobriedade sob sua vigilância.

spencer tracy e kate
O fato de que forças tão opostas da natureza e amantes improváveis devam se unir é um mistério em si. De alguma forma, os dois se apaixonaram, e seu caso fora e na tela durou 25 anos. Foi um caso, já que Spencer era casado com Louise Treadwell desde 1923. KATHARINE HEPBURN não foi seu primeiro flerte extraconjugal, nem seria o último, e os mesmos demônios que o enviaram continuamente em busca de refúgio na garrafa também o levaram a pular de cama em cama. O certo é que ela foi uma fonte de conforto. Quando Spencer desaparecia por até meses, ela estava pronta para cuidar dele quando voltasse.
 
Muitos historiadores afirmam que KATHARINE HEPBURN era lésbica e que o relacionamento com Spencer não passava de um estratagema para encobrir suas preferências sexuais. Em contrapartida, os amigos íntimos descrevem os altos e baixos do casal, sua devoção um ao outro e o profundo e permanente amor. No livro “Serviço Completo - A Secreta Vida Sexual das Estrelas de Hollywood”, de Scotty Bowers e Lionel Friedberg, um famoso cafetão de Hollywood garante que a atriz era uma lésbica insaciável, e que ao longo dos anos levou cerca de 150 jovens mulheres para ela. Segundo ele, Spencer era bissexual e o affair apenas uma bonita amizade. Acho até possível a atriz apreciar mulheres, ela tem todas as ferramentas para isso, mas creio no romance com Spencer Tracy. Uma coisa não impede a outra. Eles fizeram nove filmes e ela estava com ele na noite em que morreu. O ator havia se levantado no meio da noite para pegar um copo de leite. Ela ouviu um vidro se estilhaçar e depois um baque forte. Encontrou Spencer morto na cozinha. Havia sofrido um ataque cardíaco fulminante.
 
Na década de 1950, com “Uma Aventura na África”, recebeu sua quinta indicação ao Oscar. Suas performances no cinema diminuíram nos anos 60, dedicando o seu tempo ao parceiro enfermo. Por uma de suas aparições na tela, em “Longa Jornada Noite Adentro”, recebeu sua nona indicação ao Oscar. Nos anos 1970, fez bons filmes para a TV, entre eles “Algemas de Cristal / The Glass Menagerie” (1973), “Um Amor Entre Ruínas / Love Among the Ruins” (1975) e “O Coração Não Envelhece / The Corn Is Green” (1978). No cinema brilhou em “Justiceiro Implacável / Rooster Cogburn(1975), com John Wayne, e “Num Lago Dourado / On Golden Pond” (1981), com Henry Fonda, rendendo sua quarta vitória ao Oscar.
 
Seu último longa foi “Segredos do Coração / Love Affair” (1994), com Warren Beatty e Annette Bening, e seu derradeiro filme para TV, “O Poder do Natal / One Christmas” (1994). Com a saúde em declínio, aposentou-se, morrendo aos 96 anos. Além do marido e de Spencer Tracy, teve como amantes Howard Hughes, Humphrey Bogart, John Ford e o empresário Leland Hayward. De acordo com biógrafo A. Scott Berg, “A Mulher que Soube Amar / Alice Adams” (1935) e “Longa Jornada Noite Adentro” eram seus filmes favoritos. Suas atrizes preferidas, Bette Davis e Vanessa Redgrave. Adorava Vanessa e dizia que ela era uma emoção de se ver e ouvir. De fato, KATHARINE HEPBURN sempre se recusou a ser rotulada, constrangida ou predeterminada por quaisquer estatutos sociais sobre o “comportamento feminino convencional”. Ela foi uma das poucas estrelas de Hollywood que não fez nenhuma tentativa de adoçar sua verdadeira personalidade, claramente anti-glamour, sincera e mal-humorada. Além de extraordinária atriz, era ótima jogadora de golfe, tenista e nadadora. Realmente, uma mulher original.

cary grant e kate em “núpcias do escândalo”
DEZ FILMES de KATHARINE HEPBURN
(por ordem de preferência)
 
01
NÚPCIAS do ESCÂNDALO
(The Philadelphia Story, 1940)

direção de George Cukor
elenco: Cary Grant, James Stewart e Ruth Hussey
 
02
De REPENTE, no ÚLTIMO VERÃO
(Suddenly, Last Summer, 1959)

direção de Joseph L. Mankiewicz
elenco: Elizabeth Taylor, Montgomery Clift, Albert Dekker e Mercedes McCambridge
 
03
Uma AVENTURA na ÁFRICA
(The African Queen, 1951)

direção de John Huston
elenco: Humphrey Bogart e Robert Morley
 
04
QUANDO o CORAÇÃO FLORESCE
(Summertime, 1955)

direção de David Lean
elenco: Rossano Brazzi e Isa Miranda
 
05
A COSTELA de ADÃO
(Adam's Rib, 1949)

direção de George Cukor
elenco: Spencer Tracy, Judy Holliday, Tom Ewell e Jean Hagen
 
06
As TROIANAS
(The Trojan Women, 1971)

direção de Michael Cacoyannis
elenco: Vanessa Redgrave, Genèvieve Bujold e Irene Papas
 
07
LONGA JORNADA NOITE ADENTRO
(Long Day's Journey Into Night, 1962)

direção de Sidney Lumet
elenco: Ralph Richardson, Jason Robards e Dean Stockwell
 
08
LEVADA da BRECA
(Bringing Up Baby, 1938)

direção de Howard Hawks
elenco: Cary Grant, Charles Ruggles e Barry Fitzgerald
 
09
A MULHER do DIA
(Woman of the Year, 1942)

direção de George Stevens
elenco: Spencer Tracy, Fay Bainter e William Bendix
 
10
O LEÃO no INVERNO
(The Lion in Winter, 1968)

direção de Anthony Harvey
elenco: Peter O´Toole, Anthony Hopkins e Timothy Dalton
 
ENTREVISTANDO KATHARINE HEPBURN
Barbara Walters,1981
 
Hepburn: “Eu não vivi como mulher. Eu vivi como um homem... Acabei fazendo o que eu queria e ganhei dinheiro suficiente para me sustentar. E não tenho medo de ficar sozinha.”
Walters: “É por isso que você também usa calças?”
Hepburn: “Não, eu só uso calças porque são confortáveis.”
Walters: “A propósito, você já usou saia?”
Hepburn: “Eu tenho uma.”
Walters: “Você tem uma?”
Hepburn: “Vou usá-lo no seu funeral.”

 
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