Mostrando postagens com marcador Carlo Ponti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlo Ponti. Mostrar todas as postagens

junho 09, 2019

********* SOPHIA LOREN: uma LINDA MULHER



 
Apelidos: “Vareta” e “Palito” (ainda criança)
e “Marilyn Monroe italiana”
Altura: 1,75 cm
Cabelos: negros
Olhos: verdes

entrevistando SOPHIA LOREN  
Roma, Itália, 2005
publicada na revista “Profashional” (SP)


Ela é encantadora. Passa poder, autoconfiança, sensualidade e sua personalidade é muito forte. Setenta e um anos, e nem parece. O tempo dá a impressão de arrastar para a “mulher mais bela do mundo” ou a “mais sexy do mundo”, como foi qualificada em passado recente a atriz italiana SOFIA LOREN (1934. Nápoles / Itália). Segue esguia e elegante, corpo escultural, as famosas pernas e um rosto belíssimo, olhos verdes vivos cheios de curiosidade, um caráter alegre e uma grande vontade de continuar em cena. Maravilhosamente bela, simpática e envolvente. 

Sofia Constanza Brigida Scicolone é o seu verdadeiro nome. Chegou em Roma aos 15 anos em busca da fama. Veio de uma infância nos subúrbios de Nápoles. Brilhou, crescendo como atriz e protagonizando mais de 80 filmes, entre eles o memorável “Duas Mulheres” (1960). Tornou-se uma das divas da Itália a se impor na meca do cinema, Hollywood. 

Vive entre Suíça e Estados Unidos, levando uma vida pacata e assistindo regularmente a desfiles de moda de Armani e Valentino. A imagem de mulher sofisticada não afeta sua dedicação como mamma de dois filhos, Carlo e Edoardo, e satisfeita dona de casa. Casada com o produtor cinematográfico Carlo Ponti, determinada até os limites inverossímeis, tem uma vontade de ferro. Clara, direta, fala olhando nos olhos.

Sei da sua infância difícil. O que diz dela?

Vivi uma infância dolorosa. Fiquei adulta antes do tempo. Conheci a guerra e dificuldades do pós-guerra, inclusive a fome. Minha mãe lutou como um leão para nos alimentar.
 
Li em algum lugar que sua mãe, Romilda Villani, sonhava em ser atriz.

Ela parecia a Greta Garbo. Quando saía na rua, paravam para olhá-la. Ganhou o concurso “Greta Garbo” entre trezentas candidatas e foi chamada para trabalhar em Hollywood, mas minha avó não permitiu. Para sua infelicidade, conheceu meu pai, engravidou e foi o fim das suas ambições cinematográficas.

Lembra-se dos primeiros passos no cinema?

Evidentemente. Convencida por um vizinho, minha mãe me inscreveu no concurso “A Rainha do Mar”. Desfilei com um vestido rosa, feito de retalhos de cortinas, e uns velhos sapatos negros cobertos com pintura branca. Entre duzentas garotas, fiquei em segundo lugar. A seguir mudamos para Roma, procurando trabalho no cinema. Não foi fácil, passamos dificuldades. Participei de outros concursos, fiz cursos de teatro, fotonovelas, figuração, alguns filmes, até que Carlo (Ponti) me contratou para uma série de sete longas. Alguns fizeram sucesso, como a comédia “O Ouro de Nápoles”.

Passados tantos anos, a sua extraordinária forma física é admirável. Como se sente?

Como pode ver, estou bem. Olho para mim e digo: não está nada mal essa Loren. Mas a idade não é uma coisa importante. Cuido do aspecto físico por respeito a mim mesma, mas sem fazer disso uma obsessão.

Qual o segredo da juventude?

Não faço uso frequente do bisturi como muita gente pensa. Só uma disciplina férrea pode retardar a velhice. Para continuar bela é preciso fazer esforços, levar uma vida saudável. Eu me deito cedo, levanto cedo, sou ativa, cuido do corpo.

O escritor inglês Anthony Burgess a definiu como “uma verdadeira heroína do nosso tempo, uma beleza na quarta dimensão: não só física, como total”. Se sente incomodada por ser vista como sex symbol?

Burgess é um grande escritor, e sua ênfase, que estou agradecida, também é grande, talvez mais do que eu realmente mereça. Quanto a fazer parte do imaginário erótico de tantas pessoas, não me desagrada em absoluto. Deixa-me honrada. De verdade que gosto imensamente, ainda mais agora que estou madura.

Quando começou, os símbolos de beleza eram mulheres robustas, curvas e decotes, de Silvana Mangano a Gina Lollobrigida. Hoje a mídia exalta anoréxicas top models. O que mudou?

Não me parece que é bem assim. A propagada beleza das modelos atuais é antes de tudo uma massiva e ilusória campanha dos meios de comunicação.

O que é importante para você?

A família, os amigos, a carreira. Tenho o cinema no sangue, é uma paixão que se repete a cada filme. Quando faço um filme, é como se fosse a primeira vez, e, em consequência, faço com o entusiasmo e emoção da primeira vez que estive diante de uma câmara.

Sei que interrompeu a carreira por um tempo para gerar e cuidar dos seus filhos.

Com a maior alegria. A arte seria pouca coisa, ou até não existiria, se não estivesse vinculada a vida, aos sentimentos. Sou orgulhosa do meu trabalho, é muito importante na minha vida, mas meus filhos são outra coisa. A coisa maior da minha existência.
 
Representa um modelo  de elegância e também de perfeita dona de casa. Inclusive, sabe-se que cozinha muito bem.

Adoro a vida doméstica, ao lado dos filhos, cozinhando. Quando era criança, sonhava em poder comprar o que tivesse vontade e cozinhar para todos. Felizmente a vida me deu muito mais do que eu havia sonhado. Realmente gosto de cozinhar, o que me levou a publicar no ano passado um livro de culinária nos Estados Unidos, “Recipes and Memories”. Creio que é um bom trabalho, genuíno e útil.

Está com Carlo Ponti há quase cinquenta anos. Como o conheceu?

Participei do concurso “Miss Roma”, ganhando o título de “Miss Elegância”. Carlo fazia parte do júri. Tinha quinze anos e ele me ajudou muito, mas no início era só uma boa amizade. Carlo me inspirou confiança desde o nosso primeiro encontro. Logo a amizade cresceu, transformou-se em admiração, carinho, amor, embora eu tentasse não pensar nele, porque estava casado, tinha dois filhos.

Trabalhou com grandes cineastas. Qual deles mais a impressionou?

Vittorio De Sica. O nosso primeiro encontro aconteceu no set de “Ouro de Napóles”, em 1954, e já naquela ocasião descobrimos a sintonia que nos unia. Com ele fiz “Duas Mulheres” e “Matrimônio a Italiana”, dois filmes que gosto muito.

São os seus favoritos?

Ao lado de “Um Dia Especial”, de Ettore Scola. 
 
Mastroianni está inesquecível nesse drama melancólico. Sua parceria cinematográfica com ele é mítica. Guarda boas recordações?

Claro. Marcello era um ator maravilhoso. Fizemos juntos uma dezena de filmes, praticamente uma vida juntos. Entre nós havia amizade e uma profunda conexão profissional.

Acaba de lançar o filme “Peperoni Fritti e Pesci in Faccia”. O que espera interpretar a seguir?

Depois deste filme da Lina Wertmuller espero que surjam novos convites. Tenho vontade de continuar trabalhando. E não tenho preferências. Basta que seja um bom papel e um bom roteiro. Enquanto espero, procuro ser uma representante eficiente da Agência Italiana para a Moda, da qual sou a presidente. A moda italiana é importante e estou honrada em fazer promoções neste campo.

Continua tendo muitos convites para filmar?

Tenho sorte. Nos últimos anos fiz três ou quatro filmes que gosto, verdadeiramente adequados para a meu estilo. Mesmo com uma idade avançada, escolho os papéis e só faço o que gosto. Como sempre aconteceu na minha trajetória de atriz.

Considera-se satisfeita?

Se estivesse totalmente satisfeita sentiria o peso da vida. Viver, ao contrário, é estar aberta a novas iniciativas, projetar-se nos filhos e enriquecer nossas próprias experiências. Sou contente e feliz. Realmente a vida me deu muito mais do que eu esperava. Talvez por isso faça as coisas com o coração, respeitando-me e ao próximo.


  DEZ FILMES de SOPHIA
(por ordem de preferência)

01
Um DIA MUITO ESPECIAL
(Una Giornata Particolare, 1977)

direção de Ettore Scola
elenco: Marcello Mastroianni e John Vernon

David de Donatello de Melhor Atriz

02
MATRIMÔNIO à ITALIANA
(Matrimonio all'Italiana, 1964)

direção de Vittorio De Sica
elenco: Marcello Mastroianni, Tecla Scarano e Marilù Tolo

Melhor Atriz no Festival de Cinema de Moscou
David di Donatello de Melhor Atriz

03
DUAS MULHERES
(La Ciociara, 1961)

direção de Vittorio De Sica
elenco: Jean-Paul Belmondo, Raf Vallone, Eleonora Brown,
Andrea Checchi e Pupella Maggio

Oscar de Melhor Atriz
Melhor Atriz no Festival de Cannes
David di Donatello de Melhor Atriz
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova Iorque
BAFTA de Melhor Atriz Estrangeira

04
ONTEM HOJE e AMANHÃ
(Ieri Oggi Domani, 1963)

direção de Vittorio De Sica
elenco: Marcello Mastroianni e Tecla Scarano

David di Donatello de Melhor Atriz

05
A QUEDA do IMPÉRIO ROMANO
 (The Fall of the Roman Empire, 1964)

direção de Anthony Mann
elenco: Stephen Boyd, Alec Guinness, James Mason,
Christopher Plummer, Anthony Quayle, Omar Sharif
e Mel Ferrer

06
A ORQUÍDEA NEGRA
(The Black Orchid, 1958)

direção de Martin Ritt
elenco: Anthony Quinn e Ina Balin

Melhor Atriz no Festival de Veneza

07
Os GIRASSÓIS da RÚSSIA
(I Girasoli, 1970)

direção de Vittorio De Sica
elenco: Marcello Mastroianni e Lyudmila Saveleva

08
EL CID
(Idem, 1961)

direção de Anthony Mann
elenco: Charlton Heston, Raf Vallone, Geneviève Page,
Hurd Hatfield e Massimo Serato

09
DESEJO
 (Desire Under the Elms, 1957)

direção de Delbert Mann
elenco: Anthony Perkins e Burl Ives

10
ORGULHO e PAIXÃO
(The Pride and the Passion, 1957)

direção de Stanley Kramer
elenco: Cary Grant e Frank Sinatra
 
GALERIA de FOTOS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

setembro 26, 2015

********* CARY GRANT: um TOQUE de CLASSE





Foi uma experiência estranha entrar num escritório da Universal - isto em 1961 - e dar de cara com um homem que não me conhecia, mas que eu conhecia desde que me lembrava. Clifford Odets, um amigo comum - nessa altura ainda era vivo -, tinha pedido a CARY GRANT para me receber, por isso falamos um pouco de Clifford, e não me lembro de uma única palavra do que dissemos. O meu espírito estava inundado de imagens dos seus filmes que tinha visto e só conseguia pensar em como se parecia com a sua imagem cinematográfica - o mesmo charme, o mesmo humor, o ar de mistério não fabricado, mas nítido. É claro que não foi a sua celebridade que me impressionou, conheço estrelas que nunca me impressionariam, mas ele foi sempre um dos meus atores favoritos, e uma de um punhado de grandes personalidades do cinema.

Contudo, o que o distingue de todos os outros - algo de especialmente pertinente nesta época em que o sistema de estúdio desapareceu - é o fato de Cary ter sido a primeira estrela a se tornar independente. Desde que o seu contrato com a Paramount acabou em 1936, ele nunca mais assinou outro com exclusividade para qualquer companhia. Por isso, ao contrário de qualquer estrela (até o início dos anos 50), ele escolheu os argumentos e os realizadores com quem desejava trabalhar, nenhum executivo lhe escolheu os filmes, nunca foi forçado a fazer coisas de que não gostasse. Responsável por sua trajetória, construiu o arco da sua carreira, moldando a sua persona cinematográfica através do seu próprio direcionamento, coisa que homens como Bogart ou Cagney ou Tracy ou Cooper nunca puderam fazer.

Até a época de sua ligação com a Paramount, era pouco mais que uma primeira figura masculina apreciável, levemente desajeitada e bastante convencional numa fileira de filmes para esquecer. Se alguém se lembra de vê-lo contracenar com Mae West em “Santa Não Sou / She Done him Wrong” ou com Marlene Dietrich em “A Vênus Loira / Blonde Venus”, de Josef von Sternberg, é porque é tão surpreendentemente diferente do CARY GRANT futuro. Começamos a notar a diferença pela primeira vez em “Vivendo em Dúvida / Sylvia Scarlet”, de George Cukor, em 1935, e dois anos depois, desta vez quase atingindo a perfeição, em “Cupido é Moleque Teimoso”, de Leo McCarey, em 1938. Com “Boêmio Encantador / Holiday”, de Cukor, e “Levada da Breca”, de Hawks, tornou-se sinônimo de um determinado personagem - uma espécie de impertinência charmosa mesclada de um gosto impecável e de uma graça sutil e requintada.

O que o tornou tão desejável como intérprete, e tão inimitável (e teve muitos imitadores ao longo dos anos) foi uma mistura poderosa de talento com um aspecto de ídolo de matinês. Qual seria a estrela capaz de expressar cólera resfolegando como um cavalo (como fez em “Levada da Breca”) e, no entanto, manter a sua masculinidade? Quem mais seria capaz de dar cambalhotas para exprimir o seu amor pela vida (como em “Boêmio Encantador”) e fazer com que isso parecesse justo? Tinha uma maneira de dizer as frases mais banais que as fazia parecer uma coisa inteligentíssima.


Tornou-se um mestre tão perfeito em comédia, sofisticada ou popular, que o seu talento foi muitas vezes subestimado. Contudo, a profundidade emocional e a amplitude do seu trabalho em filmes como “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” de Hawks ou “Serenata Prareada / Penny Serenade” de George Stevens ou “Ainda Resta uma Esperança / None But the Lonely Heart” de Clifford Odets, apagariam qualquer dúvidas. Mesmo um melodrama simpático, mas menor, como foi o primeiro filme de Richard Brooks, “Terra em Fogo / Crisis”, é animado pelo sentimento de verdade e a qualidade profissional que Cary põe na sua interpretação: desempenha o papel de um cirurgião - observe-se as cenas de operação e julgaremos que nunca fez outra coisa na sua vida. Com um argumento adequado e mesmo um realizador indiferente, a personalidade do ator pode transformar um filme como “Aventureiro da Sorte / Mr. Lucky” em algo de memorável e tocante. Quando todos os elementos estão certos, a sua presença torna-se parte indispensável da obra-prima: “Paraíso Infernal” e “Jejum de Amor” de Hawks, “Intriga Internacional / North by Northwest” e “Interlúdio / Notorious” de Hitchcock.

grant e ingrid bergman 
em interlúdio
Primeira figura masculina ideal, bobo perfeito, dândi admirável e patife encantador: se excetuarmos os seus primeiros tempos na Paramount, nunca lhe foi concedida autorização para morrer no fim do filme, e com toda a razão - quem acreditaria? Cary era indestrutível. E no entanto, só recebeu um prêmio da Academia em 1970 pelo conjunto da sua carreira. Foi o ponto alto da noite e a única vez que apareceu na televisão. Grant fez um discurso de agradecimento elegante e espirituoso, mencionando grandes realizadores que o tinham dirigido. Era uma lista consistente, pois trabalhou com mais bons realizadores do que qualquer outra estrela de cinema: Hawks (5 vezes), Hitchcock (4), Stanley Donen (4), Cukor (3), McCarey (3), Stevens (3), Raoul Walsh, Frank Capra, Joseph L. Mankiewicz, Blake Edwards, Garson Kanin. Cada um revelou facetas diferentes da sua fascinante personalidade. Hitchcock disse-me, “Ninguém dirige Cary Grant, só é preciso pô-lo na frente da câmara”.

Ele não faz filmes desde 1966, quando fez “Devagar, Não Corra / Walk Don't Run”, no qual deixou Jim Hutton e Samantha Eggar conduzir a matéria amorosa, enquanto desempenhava o papel de casamenteiro, interpretação que tinha sido originalmente de Charles Coburn na primeira versão da história, “Original Pecado / The More the Merrier”. O filme não é desagradável, mas o público não está interessado em vê-lo fazer aquele papel. Há um momento do filme em que Cary dá a Miss Eggar uma taça de champanhe e um beijo na mão que deve ter feito toda a gente ansiar por mais - é de certeza o momento mais romântico de todo o filme. Mas o ator tinha decidido que estava demasiado velho para contracenar com mulheres mais novas e, de fato, julgo que o relativo fiasco de “Devagar, Não Corra” acelerou a sua partida inesperada do cinema. Se as pessoas o queriam apenas como figura romântica e ele se sentia velho para isso, a única coisa a fazer era abandonar o cinema.

cary e o oscar especial 1970
Como é que o poderemos convencer de que não tem razão? Há pouco tempo disse a CARY GRANT que gostaria de tê-lo num filme e ele respondeu-me brincando que se fosse um papel de um velho de cadeira de rodas talvez aceitasse. Não lhe interessa o fato de parecer ter apenas cinquenta anos e de a maior parte das mulheres que conheço começarem a devanear à simples menção do seu nome. Não há nada a fazer - está metido até ao pescoço no mundo dos negócios e diz que adora.

Talvez seja feliz, mas o cinema perdeu alguém insubstituível. Cedo demais. Pode argumentar ter feito tudo que havia de fazer no cinema, o que é verdade, mas desejaria que continuasse nas telas. Por mim, daria tudo para tê-lo num filme, e tenho a certeza que o público não ficaria triste por ter esse estilo especial e essa sofisticação única de novo. Deve ser para os espectadores, como foi para mim da primeira vez que com ele me encontrei, um velho e querido amigo. Temos saudades dele.

Texto de PETER BOGDANOVICH
1972


GRANT-RANDOLPH SCOTT: “o CASAL FELIZ”

Elegância, charme e talento são as palavras certas para definir CARY GRANT (1904 -1986), que se afastou do cinema em 1966, logo após ingressou na indústria de cosméticos Fabergé, como relações-públicas, e depois saltou para executivo. Ele era para a Hollywood dos anos dourados o que Brad Pitt é para a indústria do cinema nos dias de hoje. Um dos atores preferidos de Alfred Hitchcock, com quem fez clássicos como “Ladrão de Casaca / To Catch a Thief (1955) e “Intriga Internacional” (1959), serviu de modelo para Ian Fleming criar o agente secreto 007. Desde sempre o astro foi alvo de comentários sobre sua suposta homossexualidade. Ele nunca assumiu publicamente nem mesmo uma bissexualidade, casando-se com cinco mulheres em intervalos diferentes. Em 1980, aos 76 anos, processou o comediante Chevy Chase, que teria assim se referido a ele na tevê: “What a gal!” (“Que garota!”).

Nos anos 1930, o ator, solteiro e um dos mais cobiçados da época, vivia numa mansão em Santa Monica, em Los Angeles, com Randolph Scott, estrela de faroestes e filmes de aventuras. Moraram juntos por 12 anos nessa praia particular da Califórnia. A residência ficou conhecida como a “mansão dos solteirões”. Em 1932, a Paramount fez 30 fotos deles para divulgar a alegria da vida de solteiro que levavam. As imagens ambíguas da dupla, tratados pela imprensa como “o casal feliz”, os mostram na piscina, levantando pesos, fazendo cooper, jogando dama ou jantando à luz de velas. Num flagrante bem íntimo, Scott aparece sentado à mesa olhando um documento, enquanto CARY GRANT o observa, a mão apoiada no ombro do amigo.



“Aqui estamos, vivendo da forma que achamos melhor como solteiros, numa ótima casa e a um preço relativamente barato”, disse Grant a uma revista da época. Dessa série, a foto que mais intriga é aquela que mostra a silhueta dos dois amigos no clima romântico de um fim de tarde, diante do mar. Gay, o cineasta George Cukor, que o dirigiu em “Núpcias de Escândalo”, comentou a postura do colega: “Ele nunca falaria sobre isso. No máximo, diria que os dois fizeram belas fotos juntos. Scott talvez admitisse - mas para um amigo.” Diante do frisson provocado por essa suspeita, a Paramount tirou proveito do suposto romance. E os filmes de CARY GRANT arrebentaram na bilheteria.

Verdade ou mentira, tudo se passava entre quatro paredes. Os dois astros estavam sempre juntos, inclusive nas noitadas. Por tal razão, a irônica e afiada Carole Lombard disparou: “Gostaria de saber qual destes dois garotos paga as contas.”. Vários livros nos contam que eram realmente homossexuais e extremamente apaixonados. Dizem que se conheceram durante um almoço na Paramount. Na época, Randolph Scott era amante de Howard Hughes, já CARY GRANT, vivia um romance com um estilista chamado Wright Neale. Para tentar encobrir as diversas aventuras homossexuais do seu astro Grant, a Paramount arranjava mulheres para sua companhia, mas nunca deu certo. A atração dos dois foi imediata e recíproca, Scott mudou-se imediatamente para o apartamento de Cary.



Não era comum dois jovens, belos e famosos atores viverem juntos naquela época. Pela exposição – eles apareciam juntos nas estreias sem companhia feminina – os mexericos se espalharam. Inicialmente encontraram refúgio num apartamento próximo a um reduto de homossexuais, Griffith Park. Depois se mudaram para a “mansão dos solteirões”.


Mesmo depois de casados com mulheres mantiveram diversos encontros. Ao saber do falecimento de Cary Grant, em 1986, o velho Randolph Scott (85 anos de idade) compareceu ao velório antes da cremação, dirigiu-se ao caixão, pegou nas mãos do amado, beijou-as, colocou-as sobre sua cabeça, e chorou copiosamente.


APAIXONADO por SOPHIA LOREN

Em 1957, durante a rodagem, em Espanha, de “Orgulho e Paixão / The Pride and the Passion”, de Stanley Kramer, CARY GRANT se apaixonou loucamente pela estrela italiana Sophia Loren, e tentou convencê-la a casar-se com ele. Ela conta esse episódio na sua autobiografia, “Ieri, Oggi, Domani / Ontem, Hoje, Amanhã”. Tinha 23 anos, ele 53 e estava casado com a terceira das suas cinco mulheres (casamentos que não abafaram os rumores da bissexualidade do ator). Passado em Espanha durante as guerras napoleônicas, o épico conta a história de um oficial inglês, interpretado por CARY GRANT, que ajuda um grupo de espanhóis a combater o invasor francês. Sophia Loren é Juana, a filha do chefe espanhol por quem o herói se apaixona. A atriz revela que Grant enviava ramos de flores todos os dias e insistia em que rezassem pedindo orientação para saber se deveriam deixar as pessoas com quem estavam envolvidos.


Ele estava então casado, há já oito anos, com a atriz Betsy Drake, de quem só viria a divorciar-se em 1962. Foi o seu casamento mais duradouro, e o ator sempre se mostrou grato a Betsy por ter conseguido fazê-lo recuperar a sua “paz interior”. Ela o convenceu dos benefícios de um tratamento por LSD, então legal, que parece ter resultado, segundo o próprio, onde o ioga, o hipnotismo e outras terapias falharam.

Sophia Loren, embora tivesse apenas 23 anos, era já uma atriz experiente e que dera nas vistas em filmes populares. Quando conheceu CARY GRANT, mantinha desde a adolescência uma relação com o produtor de cinema Carlo Ponti, com quem estava prestes a se casar. E casaram-se no dia 17 de Setembro de 1957, por procuração, depois de o produtor se ter divorciado da sua primeira mulher no México.

Para Sophia Loren, a idade de CARY GRANT não era problema, uma vez que “andava à procura de uma figura paternal”. O próprio Ponti era 22 anos mais velho do que ela. Mas “tinha de fazer uma escolha” e inclinou-se para o seu marido. “O Carlo era italiano, pertencia ao meu mundo, era a coisa certa a fazer”, explica na autobiografia. “Na época não tive remorsos, amava o meu marido e, embora tivesse afeto por Cary, não conseguiria casar com um gigante de outro país e deixar Carlo”.


DEZ COMÉDIAS de CARY GRANT
(por ordem de preferência)

01
NÚPCIAS do ESCÂNDALO
(The Philadelphia Story, 1940)
direção de George Cukor
  elenco: Katharine Hepburn

 02
LEVADA da BRECA
(Bringing Up Baby, 1938)
direção de Howard Hawks
elenco: Katharine Hepburn

03
CUPIDO é MOLEQUE TEIMOSO
 (The Awful Truth, 1937)
direção de Leo McCarey
elenco: Irene Dunne

04
JEJUM de AMOR
(His Girl Friday, 1940)
direção de Howard Hawks
elenco: Rosalind Russell

05
O INVENTOR da MOCIDADE
(Monkey Business, 1952)
direção de Howard Hawks
elenco: Ginger Rogers e Marilyn Monroe

06
E a VIDA CONTINUA
(The Talk of the Tawn, 1942)
direção de George Stevens
elenco: Jean Arthur

07
CARÍCIAS de LUXO
(That Touch of Mink, 1962)
direção de Delbert Mann
elenco: Doris Day

08
VIVENDO em DÚVIDA
(Sylvia Scarlett, 1935)
direção de George Cukor
elenco: Katharine Hepburn

09
INDISCRETA
(Indiscreet, 1958)
direção de Stanley Donen
elenco: Ingrid Bergman

10
MINHA ESPOSA FAVORITA
(My Favorite Wife, 1940)
direção de Garson Kanin
elenco: Irene Dunne

GALERIA de FOTOS