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dezembro 20, 2015

****** JENNIFER JONES - RETRATO de UMA LADY



 
O poeta Vinicius de Moraes, enquanto crítico de cinema, atacou impiedosamente JENNIFER JONES (1919 - 2009. Tulsa, Oklahoma / EUA) num artigo intitulado “La Femme à Trent’ans”: “Tão bonitinha, tão ruinzinha. Enfim, cada um tem lá seus tico-ticos. Ela tem mania de ser grande atriz: deixá-la... Seria pior se ela tivesse mania de saltar de bonde andando”. Com certeza, um juízo equivocado. A atriz tinha força dramática. Durante cerca de duas décadas fez personagens memoráveis, construindo uma trajetória reconhecida e premiada. “A Canção de Bernadette”, que a lançou ao estrelato, marcou época, e ainda hoje é reprisado na tevê. Fez santas e devassas, loucas e ambiciosas. Pode ser comparada às melhores atrizes. Na pele de “lady” hollywoodiana, foi criticada pelo romance adúltero com o poderoso produtor David O. Selznick. Mas, e daí? O que seria de Norma Shearer sem Irving Thalberg, Joan Bennett sem Walter Wanger, Sophia Loren sem Carlo Ponti ou Silvana Mangano sem Dino De Laurentiis? É uma questão de sorte, mas sem competência ninguém sobrevive (caso da ucraniana Anna Sten - lançada por Samuel Goldwyn - ou da polonesa Bella Darvi - por Darryl F. Zanuck).

jennifer e o oscar
Nascida em Tulsa, Oklahoma, JENNIFER JONES chegou à Hollywood em 1939, aos 20 anos de idade, ainda chamando-se Phyllis Lee. Depois de alguns testes cinematográficos, no mesmo ano atuou no faroeste “New Frontier”, com John Wayne, e no seriado “Novas Aventuras de Dick Tracy / Dick Tracy's – Men”, ambos produzidos pela Republic Pictures. Em 1941, depois de fracassar num teste para a Paramount Pictures, ela conseguiu um papel na peça “Hello Out There”, em Santa Bárbara, que foi um tremendo sucesso.

Contratada pela companhia independente Selznick International (no seu all star cast, Vivien Leigh, Gregory Peck, Ingrid Bergman, Joseph Cotten, Joan Fontaine, Louis Jourdan, Alida Valli etc.), David O. Selznick prometeu torná-la uma atriz do primeiro escalão. Trocou o seu nome e a preparou para o estrelato. Ao tomar conhecimento que a 20th Century-Fox andava em busca de uma revelação feminina para “A Canção de Bernadette”, sugeriu seu nome. Impressionando o diretor Henry King, ela foi escolhida para o cobiçado papel, superando centenas de candidatas.

robert walker e jennifer
O marido da atriz, o ator em ascensão Robert Walker (seu melhor personagem, o psicopata Bruno Anthony de “Pacto Sinistro / Strangers on a Train”, 1951, de Alfred Hitchcock), com a ajuda de Selznick conseguiu um contrato na Metro-Goldwyn-Mayer, indicando um futuro promissor. Ao iniciar um affair com seu protetor, JENNIFER JONES acelerou o fim do  casamento, desgastado em cenas de ciúmes e acusações de traição. Durante as filmagens de “Desde que você foi Embora”, em que ambos atuam sob a produção de Selznick, a tensão era insustentável. O divórcio levou o ator a uma morte prematura em 1951, depois de anos de álcool, drogas e desilusão. 

O sucesso de “A Canção de Bernadette” deu à iniciante JENNIFER JONESstatus de estrela, principalmente quando agraciada com o Globo de Ouro e um merecido Oscar pelo comovente desempenho da inocente e doente adolescente que tem visões da Virgem Maria (a bela Linda Darnell). Ela venceu fortes concorrentes: Ingrid Bergman (uma de suas melhores amigas), Jean Arthur, Joan Fontaine e Greer Garson. Enquanto isso, o relacionamento com Selznick se intensificava, mas só casariam em 1949, depois do divórcio dele com Irene Mayer – a filha do chefão da Metro-Goldwyn-Mayer -, num iate na costa italiana. Segundo depoimento dela, Selznick foi o maior amor de sua vida.


Em sua vitoriosa carreira de 25 filmes (geralmente escolhidos pelo marido, que inclusive enviava memorandos volumosos para produtores e diretores que contratavam sua esposa), JENNIFER JONES ganhou um Oscar, concorrendo outras quatro vezes: Melhor Atriz Coadjuvante em “Desde que você foi Embora”; e Melhor Atriz em “Um Amor em Cada Vida / Love Letters” (1945), “Duelo ao Sol” (1946); e, finalmente, por sua popular performance em “Suplício de uma Saudade / Love Is a Many Splendored Thing” (1955). Sua beleza e natureza sensível agradaram ao público, abrindo caminho para uma gama variada de personagens, em clássicos como “O Retrato de Jennie”, “Adeus às Armas / A Farewell to Arms (1957) – fracassado canto de cisne de Selznick - e “Suave é a Noite / Tender is the Night” (1962). O maior êxito da atriz foi o melodrama “Suplício de uma Saudade”, de Henry King. Em 1974 encerrou sua carreira na fita de catástrofe “Inferno na Torre / The Towering Inferno”, estrondoso campeão de bilheteria que tem no elenco Fred Astaire, William Holden, Steve McQueen e Paul Newman. A cena de sua morte foi a mais comovente desta superprodução. Ela ajuda duas crianças a escapar de um incêndio de um prédio, quando cai de uma altura de cerca de 110 andares, do elevador que evacuava os frequentadores da festa de inauguração. Esta intervenção marcante lhe rendeu a indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante.

selznick, jennifer e a filha deles
Permaneceu com David O. Selznick até o falecimento deste, em 1965, mas ao se ver sem amparo, com a carreira interrompida, endividada e emocionalmente destroçada, JENNIFER JONES tentou se suicidar pulando de um penhasco, em 1967. Hospitalizada em estado de coma, recuperou-se.  Em 1971, seis anos depois de ficar viúva, casou-se pela terceira vez, com o industrial multimilionário e colecionador de arte Norton Simon. Em 1993 voltou a enviuvar. Ela era extremamente tímida, sempre fugindo dos holofotes e optando por uma vida social reservada. Perdeu boas oportunidades ao permitir que o dominador Selznick recusasse filmes em seu nome, por considerá-los indignos, entre eles o policial noir “Laura / Idem” (1944), de Otto Preminger, um sucesso e depois um clássico cult. Aposentada, rejeitou, em 1983, o papel central de “Laços de Ternura / Terms of Endearment”, pelo qual Shirley MacLaine levou o Oscar.

A atriz viveu seus últimos anos tranquilamente, no sul da Califórnia, ao lado de um dos filhos. Ela não dava entrevistas e raramente aparecia em público, morrendo de causas naturais aos 90 anos de idade. Hoje em dia, é relativamente desconhecida em comparação a estrelas como Katharine Hepburn, Vivien Leigh ou Greta Garbo. No entanto, não há como negar seu talento e fascínio que cativou multidões.

jennifer em "duelo ao sol"
  DEZ FILMES de JENNIFER JONES

A CANÇÃO de BERNADETTE
(The Song of Bernadette, 1943)
direção de Henry King
elenco: William Eythe e Charles Bickford

DESDE que VOCÊ foi EMBORA
(Since You Went  Away, 1944)
direção de John Cromwell
elenco: Claudette Colbert e Joseph Cotten

O PECADO de CLUNY BROWN
(Cluny Brown, 1946)
direção de Ernst Lubitsch
elenco: Charles Boyer e Peter Lawford

DUELO ao SOL
(Duel in the Sun, 1946)
direção de King Vidor
elenco: Gregory Peck e Joseph Cotten

O RETRATO de JENNIE
(Portrait of Jennie, 1948)
direção de William Dieterle
elenco: Joseph Cotton e Ethel Barrymore

RESGATE de SANGUE
(We Were Strangers, 1949)
direção de John Huston
elenco: John Garfield e Pedro Armendáriz

MADAME BOVARY
(Idem, 1949)
direção de Vincente Minnelli
elenco: James Mason, Van Heflin e Louis Jourdan

PERDIÇÃO por AMOR
(Carrie, 1952)
direção de William Wyler
elenco: Laurence Olivier e Miriam Hopkins

A FÚRIA do DESEJO
(Ruby Gentry, 1952)
direção de King Vidor
elenco: Charlton Heston e Karl Malden

QUANDO uma MULHER ERRA
(Stazione Termini, 1953)
direção de Vittorio De Sica
elenco: Montgomery Clift

GALERIA de FOTOS

 
 

janeiro 19, 2011

******************* SALA VIP: “PACTO SINISTRO”


farley granger e robert walker



 
PACTO SINISTRO
(Strangers on a Train, 1951)

País: EUA
Gênero: GLS/Suspense
Duração: 101 mins.
P & B
Produção e Direção: Alfred Hitchcock (Warner Bros.)
Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde
Adaptação de uma novela de Patricia Higsmith
Fotografia: Robert Burks
Edição: William H. Ziegler
Música: Dimitri Tiomkin
Cenografia: Ted Haworth (d.a.) e George James Hopkins (dec.)
Vestuário: Leah Rhodes
Elenco:
Farley Granger (“Guy Haines”), Ruth Roman (“Anne Morton”),
Robert Walker (“Bruno Antony”), Leo G. Carroll,
Patricia Hitchcock,  Laura Elliott e Howard St. John

Nota: ***** (ótimo)

HITCHCOCK e o PACTO SINISTRO


Umas poucas atrapalhações com papéis de viagem deixaram-me preso por mais de dois dias, o que me dá esta boa oportunidade de comentar um excelente filme em cartaz, que ninguém deve perder: PACTO SINISTRO (Strangers on a Train), direção de Alfred Hitchcock. Posso dizer sem medo de errar que, com sua nova realização, Hitchcock não só volta às boas fontes de sua inspiração cinematográfica, abandonando experiências do gênero “Under Capricorn” e umas poucas outras, como positivamente se ultrapassa, entrando no limitado e rarefeito espaço dos grandes diretores de cinema de todos os tempos. O filme é uma pura maravilha de direção e conhecimento. Pena é que só me seja possível vê-lo uma vez, de partida que estou para Punta del Este. Porque trata-se de uma película que daria uma série de crônicas nas quais pudessem ser analisados para o fã vários setores de produção. Já que não vou poder me estender muito, limitar-me-ei a estudar o estilo do filme, do ponto de vista do diretor. Pois mestre Hitchcock positivamente se acabou de dirigir bem - bem como nos tempos de “39 Degraus”, “O Homem que Sabia Demais”, “Sabotagem” e mesmo - em menor escala – “Correspondente Estrangeiro”. Bem, isto é melhor ainda.

Em PACTO SINISTRO, Hitchcock põe a língua de fora para o Carol Reed de “O Terceiro Homem”. A comparação entre os dois filmes é, sob todos os pontos de vista, desvantajosa para “O Terceiro Homem”, descontada a soberba interpretação de Orson Welles neste último. O celulóide de Reed é muito construído demais, muito virtuosístico demais. O de Hitchcock fica um passo além do virtuosismo - que possui - mas que não ressalta da construção. Consegue ele, de certo modo, o que Mallarmé consegue em poesia - ficando o Carol Reed de O Terceiro Homem”, com relação a ele, mais ou menos na posição subsidiária de um Valéry, por exemplo. A beleza do processo artístico de Hitchcock resulta disso que, aparentemente, as tramas que ele engendra pouco mais querem que resolver problemas contrapontuais de ação. De posse de um fio geral de ação cria ele o que se poderia chamar de labirinto simultâneo, paralelismo descontínuo - uma espécie de gongorismo de um barroco simples apesar de aparente complicação que revela. O crime de motivação estranha é em geral o elemento do qual parte para criar esse complexo sistema de movimentos entrecruzados dentro dos quais os seres só não se tocam por milagres de circunstância. De um simples entrechoque de pés de dois homens que se sentam um em frente ao outro num trem, e que dá a um deles a idéia de um crime, que muito tem do mundo de Kafka, resulta esse movimento fugado ao qual, como notas de música, os seres envolvidos ocasionalmente se incorporam, e do qual partem e para o qual revertem sob a fatalidade do inesperado que os impulsiona. Mas isso não significaria muito, e cairia no virtuosismo carolreediano, se Hitchcock não se aproveitasse do processo para dar grandes mergulhos na personalidade humana, para, em duas ou três imagens, pô-la a nu, fazê-la defrontar-se com uma situação determinada, da qual não é causa senão circunstancial. Isso o torna o maior mestre do moderno suspense em qualquer arte narrativa.

Só Kafka conseguiu ser tão sutil, e tão dramático, com tanta complexa simplicidade. E possuidor, como é, de uma grande ciência cinematográfica - que se revela na limpeza, instantaneidade de comunicação, bom gosto absoluto, qualidade dos diálogos, da fotografia, do corte, da edição geral do filme - nada falta ao cineasta angloamericano para, que dele se diga que é ímpar em seu estilo e em sua arte. Dirigindo com mão de pluma - a mão de ferro da inteligência - os seus atores, Hitchcock obtém de seus atores desempenhos perfeitos. Estão todos igualmente bons dentro da maior ou menor dificuldade de seus papéis. Para mim os melhores são, sem dúvida, Ruth Roman e Robert Walker, mas mesmo Farley Granger, para mim um ator de menos porte, dá um excelente trabalho. Hitchcock pôs sua filha Patricia numa boa ponta, como a irmã de Ruth Roman, e como em geral faz assinou o filme com a sua presença pessoal. Num dado momento, logo no princípio do filme, quando Farley Granger desce do trem, há um homem gordo que sobe, sobraçando um violoncelo ou um contrabaixo - não estou bem lembrado. Trata-se, meus caros, de Alfred Hitchcock em toda a sua glória.

texto do poeta e compositor
VINICIUS de MORAES