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maio 31, 2022

**************** DAVID LEAN: ÉPICO e ROMÂNTICO


 
Há três filmes de David Lean que me influenciaram. Um é Lawrence da Arábia, meu favorito. O outro, A Ponte do Rio Kwai. Mas quando vi Doutor Jivago, achei-o uma obra-prima. Portanto, estes são os três que costumo rever antes de realizar meus filmes.
STEVEN SPIELBERG
(1946. Cincinnati, Ohio / EUA)
 
Sempre quis fazer filmes que gostaria de ver quando fosse ao cinema. Adoro bons filmes. E o fundamental para poder fazer um é contar uma boa história que tenha bons personagens. Talvez por isso tenha dirigido apenas 16 longas-metragens. Passei parte da vida lendo histórias, escolhendo cuidadosamente projetos e trabalhando em roteiros.
DAVID LEAN
 
 
Para diretores como Steven Spielberg, Francis Ford Coppola ou Bernardo Bertolucci, DAVID LEAN (1908 - 1991. Croydon, Surrey, Inglaterra / Reino Unido) é uma referência fundamental. A obstinação do cineasta britânico, numa busca inabalável pela perfeição, resultou em épicos arrebatadores e dramas íntimos. Suas imagens fazem parte da história do cinema pelo senso inspirado de contar histórias. Seu excepcional talento pictórico e dramático, a grandiloquência e sofisticação técnica, a densidade psicológica, a construção realista dos personagens e a montagem precisa, impressionaram o mundo. Por causa do perfeccionismo, realizou apenas 16 filmes, mas conseguiu o respeito e a admiração da crítica e do público. “Gosto de uma boa história, bem consistente, com começo, meio e fim. A maioria dos filmes novos não têm construção dramática. E devo dizer que gosto de uma boa construção dramática. Gosto de me emocionar quando vou ao cinema”, afirmou o cineasta. Ele construiu uma carreira marcada pela busca de qualidade. Descrito como bastante frio e obsessivo, mergulhava de corpo e alma em uma filmagem. Tinha pouca paciência com os atores e estava sempre em conflito com seu ator favorito, Alec Guinness, com quem rodou cinco filmes e cuja carreira lançou.

david lean nos anos 40
Possuía um domínio profundo das técnicas cinematográficas, interessado, sobretudo, em contar uma história e comunicar sentimentos. “Gosto de manter um controle rígido sobre todos os elementos de um filme. Acho que ser diretor é isso: estimular o talento dos outros e extrair deles todas as coisas que imaginou quando estava trabalhando no roteiro. Nesse sentido, acho que sou um bom ditador”, disse numa entrevista. 

Ele construiu um estilo próprio e uma perspectiva de mundo única, desenvolvendo uma linguagem de planos gerais grandiosos e elaborados movimentos de câmera. Lutava para fazer os filmes a seu modo e sem interferências. Nascido filho de um contador no elegante subúrbio londrino de Croydon, cresceu como o mais velho de dois irmãos em uma rigorosa família que olhava o cinema com desaprovação. Sempre que podia, ele se refugiava no cinema local, onde se entusiasmava com os filmes silenciosos norte-americanos, impressionando-se fortemente com “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse / The Four Horsemen of the Apocalypse” (1921) e “Mare Nostrum” (1926), ambos de Rex Ingram, diretor que admirava. 

Em 1927, aos 19 anos, embarcou na carreira cinematográfica, depois de um ano sem sucesso na firma de contabilidade de seu pai. Foi contratado sem remuneração no Gaumont Studios, de Londres, onde sua principal funções era servir chá. Depois de curto período de tempo neste e em outros serviços, incluindo assistente de câmera, tornou-se o terceiro assistente de direção. Queria aprender tudo e começou a assistir ao trabalho na sala de montagem. Em 1930, foi nomeado editor-chefe e logo se tornou o editor mais bem pago da Inglaterra. Da edição, voltou a atenção para a direção. Recebeu várias propostas para dirigir filmes, porém rejeitou-as, temendo que produções medíocres prejudicassem o seu futuro. Finalmente a oportunidade esperada surgiu, quando o consagrado teatrólogo de comédias sofisticadas, Noel Coward, resolveu realizar “Nosso Barco, Nossa Alma” e ofereceu a DAVID LEAN o cargo de co-diretor.

omar sharif e david lean em 1965
Em estilo semi-documentário e tom patriótico, a história de um destroier da Marinha Britânica, desde a sua construção até seu torpedeamento durante a Segunda Guerra Mundial, e dos homens que nele serviam. Concorreu ao Oscar nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Na Inglaterra, foi considerado o longa mais popular do ano. A segunda parceria de Coward-Lean, “Este Povo Alegre”, da peça de Coward, mostra o cotidiano num lar suburbano entre as duas guerras. Evitando o sentimentalismo e o clima de teatro filmado, a crônica familiar de DAVID LEAN foi um êxito na Inglaterra em 1944.
 
Depois da comédia “Uma Mulher do Outro Mundo”, baseada também em peça de Coward, dirigiu “Desencanto”, um dos filmes britânicos românticos mais populares de todos os tempos. Narrando um frustrado romance com sinceridade e sutileza, através de flashbacks e em espaços confinados, o diretor realizou uma obra-prima intimista, recebendo indicação para o Oscar de Melhor Diretor e outra, juntamente com Coward e Havelock-Allan, para o de Melhor Roteiro. Em Cannes, levou o Prix de Critique. Encorajado pelo sucesso, com a Cineguild produziu adaptações de romances de Charles Dickens: “Grandes Esperanças” e “Oliver Twist”.
 
Para o papel título de “Oliver Twist” selecionaram – entre 1.500 candidatos – John Howard Davies. Ao lado do melodrama, o aspecto social foi abordado, evocando-se condições desumanas, a miséria e a sordidez da Londres do século dezenove. Seu filme seguinte, “A História de uma Mulher”, baseado num romance de H. G. Wells, trata das dificuldades afetivas de um triângulo amoroso. Durante a filmagem, o diretor (então casado com Kay Walsh, sua segunda esposa – a primeira foi Isabel Lean, que lhe deu um filho, Peter) apaixonou-se por Ann Todd. Eles se divorciaram de seus respectivos companheiros e se casaram no ano seguinte. DAVID LEAN se casaria pela quarta vez com Leila Matkar, pela quinta vez com Sandra Hotz e pela sexta vez com Sandra Cooke. Apesar de casado, morou muitos anos com Barbara Cole.

lean, sophia loren e o oscar
Novamente com Ann Todd fez “As Cartas de Madeleine”, mas o drama fracassou. Voltaria aos estúdios no final de 1951 quando, a convite de Alexander Korda, rodou “Sem Barreira no Céu”, cuja verdadeira força está nas cenas aéreas fotografadas por Jack Hildyard. Voltou à comédia com “Papai é do Contra”. Cheia de sátira e sentimento, foi o Melhor Filme do Ano da British Film Academy e tem excelente performance de Charles Laughton, como o dono beberrão de uma loja de calçados. Rodado em Veneza, “Quando o Coração Floresce” inaugurou a carreira internacional de DAVID LEAN.
 
Ultrapassando o filme turístico, retrata a evolução de uma mulher que descobre o amor. Katharine Hepburn, em comovente desempenho, refletindo toda a luta interior entre o desejo e o medo de uma secretária de meia-idade frustrada, domina completamente o drama num papel sob medida para seu talento. Foi candidata ao Oscar de Melhor Atriz. “A Ponte do Rio Kwai” marcou a entrada triunfal do cineasta no superespetáculo. O autor do romance que serviu de base para o filme, Pierre Boulle, havia sido procurado pelo cineasta francês Henri-Georges Clouzot e por Alexander Korda. Sam Spiegel, porém, foi quem assinou o contrato, investindo três milhões e meio de dólares na produção. Com locações no Ceilão, a produção levou três anos em preparo. Só a ponte, onde se dá o clímax da narrativa, levou oito meses para ser construída. O roteiro, assinado por Boulle – mas, na realidade, escrito por Carl Foreman e Michael Wilson, ambos então na Lista Negra comunista de Hollywood – traz uma mensagem pacifista, criticando não só a guerra como também o espírito militar exacerbado. O talento do diretor foi finalmente reconhecido com o Oscar. O segundo veio em 1962 com “Lawrence da Arábia”, o longa suntuoso pela qual DAVID LEAN ficou conhecido pelo resto de sua carreira.

lean nos anos 40
Ele trouxe intensidade para o projeto, que levou três anos para ser produzido e mais de um ano para ser filmado. Superprodução espetacular e, ao mesmo tempo, o retrato de um homem, uma figura histórica complexa e ambígua. Agente secreto, líder militar, agitador, exibicionista, sádico, masoquista, homossexual. Para o papel de Lawrence foi anunciado Marlon Brando, Cary Grant, Kirk Douglas e Albert Finney, mas terminou com Peter O’Toole (então com 28 anos) que se tornou um astro. 12 milhões de dólares foram investidos no filme rodado na Jordânia, Espanha, Egito, Damasco, Jerusalém e Marrocos. Conquistou sete Oscar. O produtor Sam Spiegel disse em entrevista: “Em toda a minha carreira não trabalhei com ninguém que se aproximasse da capacidade de David Lean de colocar imagens na tela”.
 
O próximo assunto a interessar o diretor – “por sua boa história de amor” - foi “Dr. Jivago”, o volumoso romance de Boris Pasternak, laureado com o Prêmio Nobel. Traça a trajetória de Yuri Jivago (Omar Sharif, depois de cogitados Paul Newman, Max Von Sydow e Burt Lancaster), médico e poeta, na Rússia do começo do século vinte, casado, que se apaixona por uma enfermeira também casada. Cinco anos depois, DAVID LEAN voltou à atividade, desta vez usando um argumento original de Robert Bolt, sobre uma jovem em remota aldeia irlandesa durante a Primeira Guerra Mundial. A Filha de Ryan, drama à maneira de Thomas Hardy, foi mal recebido, mas levou dois Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (John Mills) e Melhor Fotografia (Freddie A. Young).
 
Na década de 1970, tentou filmar um remake de “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty” (1936), um sonho que acalentava há anos, mas não deu certo. Inativo por 14 anos, finalmente rodou um clássico da literatura inglesa, “Passagem para a Índia”, de E. M. Foster.  Nos mostra um drama psicológico entrelaçado com a difícil convivência entre colonizadores e colonizados. Obteve 11 indicações para o Oscar (Lean concorreu em três categorias) e conquistou os de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Trilha Sonora.  Em 1990, o American Film Institute (AFI) o premiou com o Lifetime Achievement Award.  Em 1999, o British Film Institute fez uma lista com os 100 melhores filmes britânicos. Cinco de DAVID LEAN ficaram entre os trinta primeiros e três entre os cinco primeiros colocados. Ele morreu aos 83 anos de idade, de um câncer na garganta. Estava filmando “Nostromo”, do romance de Joseph Conrad. Provavelmente, seria mais uma grande obra de um cineasta para quem o cinema era fonte de prazer e expressão de beleza.

david lean, alec guinness e sessue hayakawa

TODOS os FILMES de DAVID LEAN
(por ordem de preferência)
 
01
DESENCANTO
(Brief Encounter, 1945)

elenco: Celia Johnson, Trevor Howard e Stanley Holloway
 
Médico e dona de casa se conhecem em uma estação de trem. Ambos são razoavelmente felizes em seus casamentos. Passam a se encontrar todas as quintas-feiras, surgindo uma paixão, apesar de saberem que este amor é impossível.
 
02
A PONTE do RIO KWAI
(The Bridge on the River Kwai, 1957)

elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins e Sessue Hayakawa
 
Na Segunda Guerra Mundial, soldados ingleses se tornam prisioneiros em um campo de concentração japonês. Este grupo é escolhido para construir uma ponte sobre o rio Kwai, mas um norte-americano que é prisioneiro do mesmo campo, decide destruí-la.
 
03
DOUTOR JIVAGO
(Doctor Zhivago, 1965)

elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Alec Guinness, Tom Courtenay, Siobhan McKenna, Ralph Richardson, Rita Tushingham e Klaus Kinski
 
Durante e após a Revolução Russa, um médico e poeta casado tem um envolvimento com enfermeira que se torna o grande amor da sua vida.
 
04
GRANDES ESPERANÇAS
(Great Expectations, 1946)

elenco: John Mills, Valerie Hobson, Jean Simmons, Martita Hunt e Alec Guinness
 
Criança humilde convive com senhora amargurada pela perda do seu amor. Quando cresce, recebe de um patrocinador misterioso uma chance para viver em Londres.
 
05
LAWRENCE da ARÁBIA
(Lawrence of Arabia, 1962)

elenco: Peter O'Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, Jose Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy
 
Em 1916, na Primeira Guerra Mundial, tenente do exército britânico, admirador do deserto e da vida beduína, se oferece para ajudar os árabes a se libertarem dos turcos.
 
06
OLIVER TWIST
(Idem, 1948)

elenco: John Howard Davies, Robert Newton, Alec Guinness e Francis L. Sullivan
 
Órfão sofrido foge para Londres, onde acaba se unindo a um bando de delinquentes liderados por um vigarista que usa os garotos para cometer pequenos roubos.
 
07
A HISTÓRIA de uma MULHER
(The Passionate Friends, 1949)

elenco: Ann Todd, Trevor Howard e Claude Rains
 
Em busca de segurança financeira, jovem abandona o homem que ama e casa com um rico mais velho. Anos depois, reencontra seu antigo namorado.
 
08
ESTE POVO ALEGRE
(This Happy Breed, 1944)

elenco: John Mills, Celia Johnson e Robert Newton
 
Após a Primeira Guerra Mundial, família operária se muda para subúrbio inglês. Até a Segunda Guerra, o cotidiano deles compõe variação de alegrias e infelicidades.
 
09
A FILHA de RYAN
(Ryan's Daughter, 1970)

elenco: Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard, John Mills e Christoper Jones
 
Na Primeira Guerra Mundial, em cidade irlandesa, deficiente mental expõe para todos que mulher casada tem caso com um oficial britânico, provocando revolta nos habitantes.
 
10
QUANDO o CORAÇÃO FLORESCE
(Summertime, 1955)

elenco: Katharine Hepburn, Rossano Brazzi e Isa Miranda
 
Norte-america en Veneza, apaixona-se por italiano. Sua alegria é abalada quando descobre que ele é casado, mas decide encarar as adversidades.
 
11
PASSAGEM para a ÍNDIA
(A Passage to India, 1984)

elenco: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox e Alec Guinness
 
Duas inglesas fazem uma viagem pela Índia nos anos 1920, imersa em intensos problemas raciais. Um médico local lhes serve de guia e, em visita às grutas de Marabar, um incidente se transforma em acusação de estupro.
 
12
As CARTAS de MADELEINE
(Madeleine, 1950)

elenco: Ann Todd, Norman Wooland, Ivan Desny e Leslie Banks
 
No século XIX, uma poderosa e rica família muda-se para uma casa nova. Uma das filhas, menina dos olhos do pai, envolve-se com um jovem humilde.
 
13
NOSSO BARCO, NOSSA ALMA
(In Which We Serve, 1942)

elenco: Noël Coward, John Mills, Bernard Miles, Celia Johnson e Michael Wilding
 
Análise psicológica dos sentimentos e reações de grupo de náufragos, enquanto esperam pelo resgate que talvez não chegue a tempo.
 
14
PAPAI é do CONTRA
(Hobson's Choice, 1954)

elenco: Charles Laughton, John Mills e Brenda de Banzie
 
Alcoólatra viúvo, dono de sapataria que tem uma boa clientela, calunia a filha mais velha para evitar que ela se case e abandone a administração do negócio familiar.
 
15
SEM BARREIRA no CÉU
(The Sound Barrier, 1952)

elenco: Ralph Richardson, Ann Todd, Nigel Patrick e Denholm Elliott
 
Piloto se casa com a herdeira de um magnata da aviação. O sogro está obcecado em romper a barreira do som com seu novo modelo a jato. As habilidades do rapaz facilitam a sua aceitação, sendo que sua esposa passa a temer ficar viúva a qualquer momento.
 
16
Uma MULHER do OUTRO MUNDO
(Blithe Spirit, 1945)

elenco: Rex Harrison, Constance Cummings, Kay Hammond e Margaret Rutherford
 
Depois de uma sessão de espiritismo, um escritor é atormentado pela visita de sua ex-mulher falecida. No entanto, sua atual esposa se recusa a acreditar nele.


maio 14, 2015

*********** A LENDA EXÓTICA de MERLE OBERON



 
A diva peruana Yma Sumac dizia ser descendente do último imperador inca, Atahualpa, sendo assim uma princesa por sangue. Anna Kashfi se fez passar por indiana para conquistar Hollywood e casar com Marlon Brando, mas, na verdade, era do País de Gales. Com MERLE OBERON (1911 – 1979. Munbai / Índia) o enigma é mais complexo, fabuloso, gerou biografias, bestseller (“Queenie”, 1985, de Michael Korda, seu sobrinho), documentários e popular minissérie (“Queenie”, 1987). Uma das estrelas mais sofisticadas da década de 1930 e 40, uma sereia morena de características exóticas e olhos amendoados. Graciosa e bela. Em seu ápice, 1939, cativou o mundo no romântico “O Morro dos Ventos Uivantes”, como Cathy, o amor do Heathcliff de Laurence Olivier.

Biografada na imprensa como filha de um oficial do exército britânico e de uma francesa de origem irlandesa, nascida na Tasmânia, Austrália, e educada na Índia, a estrela tinha um passado secreto ainda mais intrigante, mesmo ela garantindo que viveu até os seis anos na Tasmânia e depois foi morar com a avó em Bombaim e Calcutá, na Índia. A real história permanece um mistério, existem várias versões, já que, ela nunca revelou sua origem verdadeira, a fim de esconder a mistura racial. Algumas fontes falam que sua mãe era uma eurasiana do (antigo) Ceilão (hoje Sri-Lanka) e seu pai um inglês. Outras falam de uma descendência chinesa. Uma terceira versão, no Ceilão, apresenta a anglo-hindu Constance Selby como sua verdadeira mãe. Mas durante toda a vida, a atriz negou-se a encontrar com ela e seus quatro “meio-irmãos”.
 
leslie howard e merle
em “o pimpinela escarlate”
Em 1928, aos dezessete anos, depois de um romance com um rico ex-ator inglês (que terminou a relação ao ver a pele escura da mãe da moça, percebendo que ela era mestiça), MERLE OBERON deixou a Índia e foi morar em Londres, sobrevivendo como figurante de filmes e taxi-dancer em clubes noturnos - conhecida como Queenie (apelido em homenagem à Queen Mary). 
 
Tornou-se uma artista celebrada no Café de Paris e escandalizou os londrinos ao namorar um músico de jazz negro e norte-americano. Na época, os irmãos Korda, Alexander, Zoltan e Vincent, judeus húngaros, eram poderosos profissionais do cinema britânico. Alexander Korda descobriu Queenie no restaurante de um estúdio de cinema, mudou seu nome e a colocou no drama de época “Os Amores de Henrique VIII” (1933), a primeira produção da Inglaterra nomeada para o Oscar de Melhor Filme. 

Após sua interpretação de Lady Marguerite Blakeney em “O Pimpinela Escarlate / The Scarlet Pimpernel (1934), ao lado de Leslie Howard (que se tornou seu amante), a atriz recebeu convite para trabalhar em Hollywood. Os executivos da meca do cinema já tinha alguma ideia do talento dela, porque seu “Melodia Trágica / The Broken Melody (1934) foi um sucesso nos EUA. Com a nomeação para o Oscar de Melhor Atriz como Kitty Vane em “O Anjo das Trevas” (1935), seu primeiro filme como contratada do produtor independente Samuel Goldwyn, ela passou a ser uma estrela. Namorando David Niven, quase casou-se com ele, mas a infidelidade do ator arruinou a relação.

MERLE e o ClÁSSICO de EMILY BRONTË

Seu mais afamado desempenho - aclamado pelos críticos como magistral -, foi a Cathy Linton de “O Morro dos Ventos Uivantes” (1939), a segunda de sete adaptações cinematográficas que o romance de Emily Brontë teve, até o momento. A primeira foi produzida em 1920. Vivien Leigh queria desempenhar o papel principal, ao lado de seu amante e futuro marido Laurence Olivier, mas os executivos do estúdio decidiram que o papel seria de MERLE OBERON. Mais tarde, eles ofereceram para Leigh o papel de Isabella Linton, mas ela recusou e Geraldine Fitzgerald ficou com o papel. 
 
Samuel Goldwyn mais tarde afirmou que esta foi a sua produção favorita. Ronald Colman, Douglas Fairbanks Jr. e Robert Newton foram considerados para o papel de Heathcliff. A fama de Olivier cruzou o Atlântico e Hollywood o convidou para estrelar o filme. A arrogância do ator nas filmagens e sua constante agressividade com sua co-protagonista quase o fizeram ser dispensado da produção, mas uma bronca homérica do produtor Samuel Goldwin o fez rever suas atitudes e Laurence mudou radicalmente sua postura. Diz a lenda que depois de uma cena particularmente romântica, a estrela gritou ao diretor sobre seu co-astro: Diga a ele para parar de cuspir em mim!”.
 
flora robson, merle e david niven
em “o morro dos ventos uivantes”
O ponto de partida do longa foi um roteiro assinado por Charles MacArthur e Ben Hecht - este último chegou a ser chamado de “Shakespeare de Hollywood”. De qualquer modo, Hecht esteve envolvido em quase 160 roteiros que chegaram a ser filmados. A dupla escreveu o roteiro baseado no romance em 1936 sem que ninguém se interessasse por ele até que, por caminhos tortuosos, chegou às mãos do diretor, na época em prestígio ascendente, William Wyler. 
 
Como era comum nesta fase considerada a época áurea do sistema de produção dos grandes estúdios de Hollywood, Wyler estava preso por contrato ao produtor Samuel Goldwyn. Ele havia conseguido que Goldwyn produzisse uma versão para as telas da polêmica peça de Lillian Hellmann, “The Children’s Hour”, apesar do tema explosivo para a década de 1930: uma menina mentirosa levanta infâmias sobre a vida íntima de suas professoras. A mentira da peça, segundo a qual as professoras seriam lésbicas, teve que ser mudada para o filme, ficando que uma delas estaria enamorada do noivo da outra; daí o final feliz e conformado à moral oficial vigente. Apesar da censura, foi um marco na carreira de Wyler. Embora tenha tido êxito na empreitada anterior, Wyler precisou de dois anos para convencer Goldwyn a aceitar a ideia de produzir “O Morro dos Ventos Uivantes”. Na biografia de Wyler, escrita por Axel Madsen, li que Goldwyn teria alegado que não gostava de “histórias com gente morrendo no final, isso é coisa de tragédia”, ao que Wyler contestou, vendendo a imagem de “uma grande história de amor”.

Ao finalmente aceitar produzir o filme, Samuel Goldwyn só fez uma pergunta: “Há lugar no elenco para Merle?”. Sua contratada, ele estava procurando um filme que servisse de veículo para ela. Depois de aceitar a ideia de Wyler e ver o filme pronto (com boa receptividade de crítica e prestígio junto ao público) o produtor passou a dizer que o filme era “seu” e que “Wyler apenas o dirigiu”. De fato, o desfecho foi obra apenas de Goldwyn e contra a vontade de Wyler: um take final foi acrescentado pelo produtor, sugerindo que os fantasmas de Heathcliff e Catherine estavam reunidos, caminhando para o além. O diretor havia se recusado a rodar essa tomada que mesmo assim foi feita à sua revelia depois do filme pronto. Não eram nem Laurence Olivier e nem Merle Oberon, já dispensados das filmagens. No mesmo ano do badalado lançamento, MERLE OBERON se casa com Alexander Korda (o primeiro dos seus quatro maridos), tornando-se lady quando ele foi nomeado cavaleiro em 1942. O divórcio veio em 1945, deixando-a rica.

CICATRIZES FACIAIS e PASSADO MISTERIOSO

alexander korda e merle
Durante as filmagens de “I, Claudius”, em 1937, onde fazia Messalina, a atriz sofreu um sério acidente de carro que a deixou com cicatrizes faciais. Após a cirurgia dolorosa e recuperação, ela voltou a atuar, mas encobrir as marcas em seu rosto era uma tarefa complicada. Só com a ajuda de grandes maquiadores ela pode continuar sua carreira. Felizmente, durante as filmagens do suspense “Ódio que Mata / The Lodger” (1944), apaixonou-se pelo diretor de fotografia, Lucien Ballard. Ele criou um spotlight compacto com o qual disfarçava as cicatrizes do rosto de MERLE OBERON, chamando-o de “Obie”, em homenagem à futura esposa. 
 
A década de 1940 foi generosa com ela, atuando em bons filmes, entre eles o famoso “À Noite Sonhamos” (1945), personificando a escritora francesa George Sand, o amor de Chopin. Na época, numa clínica de beleza, sofreu reação alérgica aos produtos, resultando em manchas permanentes no rosto. Nas décadas seguintes, sempre bela, continuaria trabalhando. “Hotel de Luxo / Hotel” (1967), de Richard Quine, e “Interval” (1973), de Gavin Lambert, foram seus últimos filmes. Aposentada, mudou-se para Malibu, na Califórnia, morrendo em 1979, aos 69 anos.

A biografia de Charles Higham, “Princesa Merle”, que escreveu com Roy Moseley, revelou pela primeira vez que a estrela era anglo-indiana. Ele argumenta que a proveniência da Tasmânia foi inventada pelo estúdio de Alexander Korda. Na época, uma estrela de raça mista não era aceitável. Tasmânia foi escolhida como seu novo local de nascimento, porque era muito longe dos EUA e Europa e tinha selo “british”. Então, Estelle Thompson, de Bombaim, metamorfoseou-se em MERLE OBERON, uma branca que se mudou da Tasmânia para a Índia após seu ilustre pai morrer em um acidente de caça. Na Tasmânia, muitos são convencidos de que ela é a mais famosa filha da ilha, mas que não nasceu de pais ricos, e sim de uma chinesa que trabalhava num hotel. 
 
A atriz manteve até o fim a versão publicitária de Korda (dizem que passou a acreditar nela) e em 1978 aceitou o convite de recepção de boas-vindas a Hobart, na Tasmânia, onde supostamente nascera. Mesmo sem encontrar a certidão de nascimento, o Conselho da cidade concluiu que ela era definitivamente da Tasmânia, filha de uma mulher chamada Lottie Chintock, de uma desaparecida comunidade chinesa de mineração de estanho, no nordeste da ilha, Weldborough. Lottie tinha saudade de sua filha perdida. Ela foi forçada a abandoná-la, com a garota sendo levada para a Índia por comerciantes de seda ou, diz outra versão, por uma trupe itinerante de atores. Outra história garante que foi para a Índia com o primo do patrão de sua mãe.


O biógrafo Charles Higham sugere que atriz foi a Hobart, na Tasmânia, pela insistência do último marido, o ator holandês Robert Wolders (mais tarde companheiro das atrizes Audrey Hepburn e Leslie Caron). Ele queria conhecer a terra natal da esposa. Será que ela não lhe disse a verdade? Seja qual for a intenção, a visita não foi nada fácil para MERLE OBERON. Ela se recusou a dar entrevistas e tampouco visitou o teatro nomeado em sua honra, escondendo-se no hotel onde se hospedou. No caminho para a recepção, disse ao motorista nativo uma história diferente de seu nascimento, alegando que estava viajando em um navio que passava por Hobart quando seu pai ficou doente e, como resultado, ela viveu seus primeiros anos na Tasmânia. No evento em sua homenagem, negou que nasceu na Tasmânia, tendo um colapso público e deixando a cidade após o fiasco. Como Higham diz: “Foi uma tragédia. Ela nunca deveria ter ido lá.”

Na Índia, os registros da passagem da estrela também são obscuros. Sabe-se que levou uma existência miserável em Bombaim, tendo mais sorte em Calcutá, onde ganhou uma bolsa para estudar numa das melhores escolas particulares, mas era constantemente insultada pelas colegas. O mais crível nesse mistério, registra MERLE OBERON como filha da anglo-indiana Constance Selby, que se desfez da filha quando deu à luz aos quinze anos, mantendo o segredo de sua família por toda a vida. A atriz, no entanto, nunca reconheceu diretamente a família Selby, exceto ao enviar-lhes pequenas quantidades de dinheiro ao longo do tempo. Quando Harry, seu meio-irmão, vivendo em Los Angeles, tentou visitá-la, ela se recusou a recebê-lo. A estrela perdeu sua identidade, seu país e sua família, renascendo em Hollywood como uma aristocrata exótica. O truque deu certo. Teve uma carreira digna e uma estrela na Calçada da Fama.

cornel wilde e merle 
em “a noite sonhamos”

  DEZ FILMES de MERLE OBERON

01
O MORRO dos VENTOS UIVANTES
(Wuthering Heights, 1939)
direção de William Wyler
  elenco: Laurence Olivier, David Niven, Flora Robson,
Donald Crisp e Geraldine Fitzgerald

02
O COWBOY e a GRÃ-FINA
(The Cowboy and the Lady, 1938)
direção de H. C. Potter
  elenco: Gary Cooper, Walter Brennan e Patsy Kelly

03
INFÂMIA
(These Three, 1936)
direção de William Wyler
  elenco: Miriam Hopkins, Joel McCrea, Bonita Granville
e Walter Brennan

04
OS AMORES de HENRIQUE VIII
(The Private Life of Henry VIII, 1933)
direção de Alexander Korda
  elenco: Charles Laughton, Robert Donat, Wendy Barrie,
Binnie Barnes e Elsa Lanchester

05
QUE SABE VOCÊ do AMOR?
(That Uncertain Feeling, 1941)
direção de Ernst Lubitsch
  elenco: Melvyn Douglas, Burgess Meredith e Eve Arden

06
LYDIA
(Idem, 1941)
direção de Julien Duvivier
  elenco: Joseph Cotten, Edna May Oliver e Alan Marshal

07
O ANJO das TREVAS
(The Dark Angel, 1935)
direção de Sidney Franklin
  elenco: Fredric March, Herbert Marshall e John Halliday

08
EXPRESSO para BERLIM
(Berlin Express, 1948)
direção de Jacques Tourneur
  elenco: Robert Ryan, Charles Korvin e Paul Lukas

09
O ÚLTIMO ENCONTRO
(Til we meet Again, 1940)
direção de Edmund Goulding
  elenco: George Brent, Pat O'Brien e Geraldine Fitzgerald

10
A NOITE SONHAMOS
(A Song to Remember, 1945)
direção de Charles Vidor
  elenco: Paul Muni, Cornel Wilde e Nina Foch

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