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setembro 09, 2012

************** “CASABLANCA”: o MELHOR FILME



 
O drama romântico de Michael Curtiz, CASABLANCA, ficou no topo da seleção dos melhores filmes de todos os tempos deste blog.  A pesquisa foi realizada entre mais de sessenta leitores. Clássico absoluto, a escolha reflete que os cinéfilos parecem não ser tão ligados em filmes que se esforçam para ter um grande potencial artístico, como “Rashomon / Idem” (1951) de Akira Kurosawa; mas sim, a trabalhos que têm um significado pessoal maior. CASABLANCA arrebatou 15 votos. Entre os mais votados não espere encontrar sucessos de bilheteria recentes. O filme mais novo é “O Poderoso Chefão / The Godfather” de Francis Ford Coppola, lançado em 1972. Todos os vencedores são produções norte-americanas. Do Brasil, foi lembrado apenas “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Da Europa, entre os dez mais votados, “Morangos Silvestres / Smultronstallet” (1955) de Ingmar Bergman, com 9 votos, e “Fellini Oito e Meio / 8 1/2” (1963) de Federico Fellini, com 7 votos. Veja o resultado:

1º 
(15 votos)
CASABLANCA

2º 
(13 votos)
Um CORPO QUE CAI

3º 
(12 votos)
CIDADÃO KANE

4º 
(11 votos)
E o VENTO LEVOU 
(Gone With the Wind, 1939)

O PODEROSO CHEFÃO

5º 
(10 votos)
CREPÚSCULO dos DEUSES 
(Sunset Boulevard, 1950)



CASABLANCA
Título original: CASABLANCA
País: EUA
Ano de lançamento: 1943
Duração: 102 minutos
Direção: Michael Curtiz
Produção: Hal B. Wallis (Warner Bros.)
Roteiro: Julius J. & Philip G. Epstein e Howard Koch,
baseado na peça de Murray Burnett e Joan Alison
Elenco: Humphrey Bogart (“Rick Blaine”), Ingrid Bergman (“Ilsa”), Paul Henreid (“Victor Lazslo”), Claude Rains (“Capitão Louis Renault”), Conrad Veidt (“Major Heinrich Strasser”), Sydney Greenstreet (“Señor Ferrari”), Peter Lorre (“Ugarte”), S. Z. Sakall, Dooley Wilson (“Sam”), Helmut Dantine, Marcel Dalio (“Croupier”) e Curt Bois
Fotografia: Arthur Edeson
Edição: Owen Marks
Trilha Sonora: Max Seiner
Cenografia: Carl Jules Weyl
Figurino: Max Steiner

Um dos mais populares filmes da história do cinema, ganhou três Oscars da Academia, o de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Concorreu também aos Oscars de Melhor Fotografia, Trilha Sonora, Edição, Ator (Bogart) e Ator Coadjuvante (Rains). A crítica da época elogiou as performances carismáticas de Bogart e Bergman, junto à profundidade das caracterizações, a fotografia poética, a sagacidade do roteiro e do impacto emocional do trabalho. A história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, em Casablanca, capital do Marrocos. Rota obrigatória de quem fugia das atrocidades dos nazistas, será em Casablanca que Rick Blane (Humphrey Bogart), dono de um  bar local, irá reencontrar Ilsa Lund (Ingrid Bergman), anos depois de terem se apaixonado em Paris. Ela surge acompanhada pelo marido, o herói da resistência tcheca Victor Laszlo (Paul Henreid). Um enredo comovente e uma trama empolgante. Inesquecível.

A Warner Bros. comprou os direitos por US$ 20.000, o preço mais alto já pago por uma peça que não havia sido encenada. As filmagens começaram em 25 de maio de 1942 e terminaram em 03 de agosto do mesmo ano, atingindo um custo de produção de US$ 1.039 milhões. 

O roteiro teve alguns problemas quando Joseph Breen, um membro da censura da indústria de Hollywood, expressou sua oposição ao personagem do capitão Renault (Claude Rains), que pedia favores sexuais homossexuais em troca de vistos, e a cena em que Rick e Ilsa dormem juntos em Paris. Ambos os pontos, no entanto, praticamente desapareceram na versão final. Criado em cima de um caos absoluto, o roteiro foi finalizado em plena locação, na noite anterior em que as cenas seriam gravadas, confundindo os atores, que não sabiam o resultado final da história que se contava. Feito sem ambições artísticas e dirigido por Michael Curtiz, um especialista em sucessos de aventuras, de filmografia mediana, contrariou todas as expectativas, tornando-se um clássico e um dos maiores triunfos do cinema.

O primeiro cineasta convidado para dirigir o drama, o fantástico William Wyler (“Ben-Hur / Ben-Hur”, 1959), no auge do prestígio, declinou ao convite. Hedy Lamarr foi escalada para Ilsa Lund, mas recusou o acordo financeiro oferecido. George Raft descartou fazer Rick Blaine, abrindo caminho para o estrelato de Bogart e para sua decadência. 

Os produtores pensaram também em Ronald Reagan, Ann Sheridan e Dennis Morgan para os papéis protagonistas. Finalmente optaram por Bogart, um contratado do estúdio que vinha dos sucessos “O Falcão Maltês / The Maltese Falcon (1940)  e “O Último Refúgio / High Sierra” (1941), e Ingrid Bergman, sueca da trupe de David O. Selznick. Ingrid, no esplendor da sua beleza, comove o espectador com sensibilidade discreta. Humphrey Bogart, cínico e aparente frio, constrói um personagem que repetiria inúmeras outras vezes. A química entre ambos é total, levando a plateia às lágrimas quando um Bogart apaixonado abre mão do seu amor para que ela siga ao lado do marido, dizendo: “Nós sempre teremos Paris”. Ainda no elenco, poderosos coadjuvantes: o eslovaco Peter Lorre, os alemães Conrad Veidt e Curt Bois, os ingleses Sydney Greenstreet e Claude Rains, o francês Marcel Dalio, o italiano Paul Henreid e o tcheco S. Z. Sakall. Em 2005, CASABLANCA foi nomeado um dos 100 melhores filmes dos últimos 80 anos pela revista “Time”. Foi também reconhecido várias vezes pelo American Film Institute (AFI) em suas listas.


Um CORPO que CAI
Título original: VERTIGO
País: EUA
Ano de lançamento: 1958
Duração: 129 minutos
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock (Paramount Pictures)
Roteiro: Alec Coppel e Samuel Taylor,
baseado no romance de Pierre Boileau e Thomas Narcejac
Elenco: James Stewart (“John 'Scottie' Ferguson”), Kim Novak (“Madeleine Elster/Judy”), Barbara Bel Geddes (“Midge”), Tom Helmore, Ellen Corby e Lee Patrick
Fotografia: Robert Burks
Edição: George Tomasi
Trilha Sonora: Bernard Herrmann
Cenografia: Hal Pereira e Henry Bumstead (d.a.); 
Sam Comer e Frank McKelvy (déc)
Figurino: Edith Head

Baseado no livro D'Entre les Morts, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, escrito especialmente para Hitchcock, após os autores tomarem conhecimento de que o diretor tentara adquirir, sem sucesso, os direitos de adaptação de outro livro deles, “Diabolique”, fala de um detetive aposentado, John 'Scottie' Ferguson (James Stewart), que sofre de um terrível medo de alturas. Certo dia, ele encontra um antigo conhecido, dos tempos de faculdade, que pede que vigie sua esposa, Madeleine Elster (Kim Novak). John aceita a tarefa e a segue por toda a cidade. Ela demonstra atração por lugares altos, levando o detetive a enfrentar medos e a acreditar que ela é louca, com tendências suicidas.

Hitchcock queria a atriz Vera Miles para o papel de Madeleine, mas ela ficou grávida pouco antes das filmagens. Ele e Novak não se deram bem e nunca mais voltaram a trabalhar juntos. O diretor aparece no filme aos onze minutos, vestindo terno cinza e caminhando no estaleiro. Um CORPO que CAI esteve inacessível ao público em geral durante muitos anos. Isto porque o diretor comprou de volta os direitos de cinco de seus longa-metragens e os deixou de legado para sua filha. Estes filmes receberam o apelido de "os cinco filmes perdidos de Hitchcock" e voltaram ao alcance do público em 1984, quando foram relançados. Os demais do pacote eram “Festim Diabólico / Rope” (1948), “Janela Indiscreta / Rear Window” (1954), “O Terceiro Tiro / The Trouble with Harry” (1955) e “O Homem Que Sabia Demais / The Man Who Knew Too Much” (1956). 

Considerado a mais complexa obra de Hitchcock, a história parece banal quando é resumida em uma sinopse. Só que de convencional, esse filme não tem nada, e percebemos isso desde a abertura de Saul Bass, psicodélica e onírica. Filmado em VistaVision, a resposta da Paramount ao CinemaScope da Fox, foi idealizado para ser exibido em um formato grande de tela. Tirando vantagem disso, Hitch filmou sequências grandiosas, preenchendo a tela com suntuosos  enquadramentos, que mostram os pontos de São Francisco onde se passa a trama. O interessante dessas tomadas é que não parecem cartões postais, e sim retratos deprimentes, com espaços vazios, deixando claro como os personagens se sentem – em busca de algo que não vão obter.


A bela Kim Novak nunca chegou a se tornar uma grande estrela, mas neste filme ela está fenomenal, dando conta da aura enigmática de Madeleine e do sofrimento extremo de Judy. O veterano James Stewart está excelente, comovendo com a sua obsessão em recuperar um amor perdido. Por fim, a atriz da Broadway Barbara Bel Geddes cativa o espectador com suas piadinhas e sua paixão abafada por Scotty. Na época do lançamento, Um CORPO que CAI foi um fracasso de público e crítica. Talvez o tema refinado ou o clima sombrio não tenha sido aceito ou compreendido pela sociedade da época. Felizmente, hoje possui a fama que merece: a de um clássico do cinema.


CIDADÃO KANE
Título original: CITIZEN KANE
País: EUA
Ano de lançamento: 1941
Duração: 119 minutos
Direção: Orson Welles
Produção: Orson Welles (Mercury Production / RKO Radio Pictures)
Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles
Baseado na peça de Murray Burnett e Joan Alison
Elenco: Orson Welles (“Charles Foster Kane”), Joseph Cotten (“Jedediah Leland”), Dorothy Comingore (“Susan Alexander”), Everett Sloane (“Mr. Bernstein”), Ray Collins, George Coulouris (”Walter Parks Thatcher”), Agnes Moorehead (“Mrs. Kane”), Paul Stewart (“Raymond”), Ruth Warrick, Erskine Sanford e Fortunio Bonanova
Fotografia: Gregg Toland
Edição: Robert Wise
Trilha Sonora: Bernard Herrmann
Cenografia:  Van Nest Polglase e Perry Ferguson
Figurino: Edward Stevenson

Primeiro filme dirigido por Orson Welles, encontrou forte oposição por parte de William Randolph Hearst, pois ele julgava que a obra denegria sua imagem (publicamente, Welles negava qualquer identificação entre o seu personagem e o magnata do jornalismo), e fez história devido às inovações, sobretudo nas técnicas narrativas e nos enquadramentos cinematográficos. Começa com o protagonista já morto, mudando-se a cronologia dos fatos; e a cenografia mostra pela primeira vez o teto dos ambientes. Conta a trajetória de ascensão e queda de grande empresário da mídia e a jornada de um repórter para saber o significado da última palavra que disse pouco antes de morrer: Rosebud. Indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Orson Welles), Melhor Cenografia, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora e Melhor Som, venceu apenas na categoria de Melhor Roteiro Original. O filme é considerado, por parte da crítica especializada, como o maior da história do cinema, figurando durante em primeiro lugar na lista do American Film Institute (AFI).

Orson Welles era um jovem de apenas 24 anos em 1939, mas já carregava nas costas alguns anos de intensa experiência artística no teatro e no rádio. Sua adaptação de “Macbeth”, em 1936, somente com atores negros e quando tinha 20 anos, é até hoje um marco do palco norte-americano. Em 30 de outubro de 1938, Welles fez sua famosa narração no rádio da clássica obra de H.G Wells “Guerra dos Mundos”. A narração foi tão convincente que muitas pessoas realmente se assustaram achando que era um noticiário sobre uma possível invasão alienígena, e Welles, já reconhecido como uma espécie de prodígio, alcançou imediatamente fama nacional. 

Todas essas atribulações não passaram despercebidas pelo executivo George Schaefer, chefe da RKO Radio Pictures, na época um dos maiores estúdios de Hollywood. Schaefer faria uma série de propostas para Welles migrar para o cinema, sempre recebendo uma recusa como resposta. A cada negativa, Schaefer acrescentava algo para fazer o teimoso jovem mudar de ideia, até que o mais famoso e inimaginável acordo da história do cinema acabou sendo concretizado: Orson Welles, que nunca havia dirigido, receberia algo que até os mais famosos diretores raramente conseguem: poder absoluto. Teria direito a escrever, dirigir e produzir dois filmes, sujeitos a aprovação final da RKO. Poderia escolher seus atores e receberia entre 20 e 25% de toda a renda de suas obras. Ainda mais importante, ele poderia assistir as cenas filmadas em privacidade e poderia editá-las da maneira que quiser.

Após alguns projetos abortados, Welles e o escritor Herman J. Mankiewicz resolveram criar um argumento baseado na vida William Randolph Hearst  (casado então com a atriz Marion Davies), com o título de “American”. Mankiewicz, prolífico roteirista que possuía sérios problemas com bebidas, escreveu um script com mais de 250 páginas que seria bastante alterado por Welles, inclusive seu título. Ambos disputariam até o fim os créditos do texto. Para interpretar, Welles chamou seus companheiros de confiança do teatro - o Mercury Theatre Group -, revelando para o cinema ótimos atores como Agnes Moorehead, Joseph Cotten e Everett Sloane. Em primeiro de maio de 1941, o filme foi lançado, mostrando nos seus 119 minutos uma série de técnicas, muitas já existentes, mas que nunca antes haviam sido reunidas com tanta eficácia. Sua fotografia profunda (do mestre Gregg Toland), seu uso fabuloso da luz, suas técnicas de flashback e de transição foram elogiados. Apesar das críticas positivas no lançamento, acabou causando prejuízo para a RKO devido as ações de Hearst, que buscou boicotar de todas as formas o filme, atacando-o constantemente em seus jornais.


Após CIDADÃO KANE, Welles decaiu. Foi dispensado da RKO, que cortou 43 minutos do seu segundo filme (“Soberba / The Magnificent Ambersons”, 1942), e se viu numa constante luta para financiar novos projetos. No Brasil filmou um documentário que não foi lançado. A história dos bastidores do seu emblemático clássico foi contada em “RKO 281” (1999), dirigido por Benjamin Ross e estrelado por Liev Schreiber (como Welles), James Cromwell, Melanie Griffith, John Malkovich e Roy Scheider.

março 25, 2012

** INGRID BERGMAN e HITCHCOCK: MUSA e MESTRE




Dona de uma beleza casta e saudável, INGRID BERGMAN era adorada por público e críticos. Convidada pelo produtor David O. Selznick, deixou a Suécia no final dos anos 30 diretamente para o superestrelato internacional. Recebeu duas vezes o Oscar de Melhor Atriz (“À Meia-Luz / Gaslight”, de 1945, e “Anastácia, a Princesa Esquecida / Anastasia”, de 1956) e um terceiro como Melhor Atriz Coadjuvante (“Assassinato no Expresso Oriente / Murder on the Orient Express”, de 1974), sendo ainda indicada outras quatro vezes (“Por Quem os Sinos Dobram / For Whom the Bell Tolls” (1943), “Os Sinos de Santa Maria / The Bells of St. Mary’s” (1945), “Joana D’Arc / Joan of Arc” (1948) e “Sonata de Outono / Hostsonaten”, de 1979). Seu nome está imortalizado em inúmeros clássicos, inclusive como musa favorita do mestre do suspense Alfred Hitchcock.

Dra. Constance Petersen em
QUANDO FALA o CORAÇÃO 
(Spellbound, 1945)
elenco: Gregory Peck e Rhonda Fleming

Concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção. Utilizando uma sedutora fotografia expressionista em contrastes de claro e escuro, é um dos primeiros filmes feitos em Hollywood cuja trama usa a psicanálise freudiana. Um amnésico, ao descobrir que não é quem pensa ser, convoca uma psiquiatra fria e mal-amada para ajudá-lo a descobrir sua verdadeira identidade, assim como o destino do indivíduo que ele aparentemente está personificando. Enorme sucesso de bilheteria (inclusive no Brasil, onde foi várias vezes reprisado), notável por suas atuações, cenografia e trilha sonora. 

O pintor surrealista espanhol Salvador Dali concebeu as famosas sequências de sonho vislumbradas por Peck em estado de hipnose. Mas há outras sequências famosas: o primeiro beijo do casal, quando várias portas vão se abrindo, simbolizando a libertação da heroína, e a cena com o revólver que atira diretamente para a câmera. Ingrid foi a Melhor Atriz dos Críticos de Nova York. Repare em Rhonda Fleming em um dos seus primeiros papéis. Ela foi uma das mulheres mais bonitas do cinema e ainda hoje está viva, aos 89 anos de idade. Hitchcock mais tarde se referia ao longa como “apenas outro filme de perseguição disfarçada em pseudo-psicanálise”.


Alicia Huberman em
INTERLÚDIO 
(Notorious, 1946)
elenco: Cary Grant, Claude Rains e Louis Calhern

Último filme de Ingrid como contratada de Selznick, mas originalmente o produtor pretendia que Vivien Leigh interpretasse a sua personagem. Perto do fim da Segunda Guerra Mundial, espião recruta garota sem perspectivas para se infiltrar em um grupo de nazistas exilados no Brasil. Num Rio de Janeiro de estúdio, somos agraciados com vários personagens (como os de Cary e Claude Rains) falando em português e fazendo menção a locais brasileiros, como a cidade de Petrópolis. Além disso, temos um ator brasileiro em cena, Ricardo Costa, que interpreta o Dr. Barbosa. História cheia de classe e romance, fotografado de forma magnífica por Ted Tetzlaff em um preto-e-branco resplandecente e com seus astros mais belos (e inspirados) do que nunca. 

É impossível não ficar deslumbrado com a beleza e o talento de Ingrid e Cary. Os dois tem uma química impressionante, e fisgam a atenção da plateia de cara. Formando um dos melhores casais hitchockianos, fazem frente a James Stewart e Grace Kelly em “Janela Indiscreta / Rear Window” (1954) ou Cary e Grace em “Ladrão de Casaca / To Catch a Thief” (1955). Ambos convencem tanto como espiões quanto como amantes. Hitchcock demonstra controle total da narrativa num nível mais sofisticado do que em seus filmes anteriores, dando uma aula de cinema. É um dos melhores exemplos para provar que Hitch era de verdade o mestre do suspense, fazendo uso de suas capacidades de hipnotizador com aptidão e habilidade. Nas cenas em que contracenava com Ingrid, o excelente Claude Rains (que concorreu ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) estava sobre um caixote, para dar a impressão que era mais alto que a atriz. Foi refilmado para a tevê norte-americana em 1992.


Lady Henrietta Flusky em
SOB o SIGNO de CAPRICÓRNIO 
(Under Capricorn, 1949)
elenco: Joseph Cotten, Michael Wilding 
e Margaret Leighton

Sem um pingo de suspense, talvez seja o pior filme da atriz e do diretor, mas tem suas qualidades – como a cuidadosa construção da narrativa -, que são o suficiente para torná-lo agradável de assistir. Fracasso de bilheteria (o público sempre esperava de Hitch uma narrativa tensa e instigante), esse melodrama de época conta a história de aristocrata frágil que vai definhando quando se muda da Irlanda para a Austrália do século XIX, a fim de ficar perto do seu marido, um ex-presidiário acusado de ter assassinado o irmão dela. A chegada de um primo provoca desconfianças e revelações inesperadas. O forte da produção é a evolução do argumento e a interação entre os três personagens principais, que fogem do senso comum e deixam a trama imprevisível. Hitch revelou que fez esse filme apenas para contar com a presença de sua adorada amiga Ingrid Bergman, que era, naquela época, a maior estrela de Hollywood. 

Ele não gostava do história, mas achava que seria um bom veículo para a atriz, que está menos deslumbrante aqui do que nos outros filmes que fez com o mestre. Mas o seu talento continua impecável, destacando-se em muitos momentos, principalmente num monólogo de oito minutos no último terço do filme. As filmagens foram um pesadelo para a estrela, que sofreu vários colapsos nervosos. Desconsolado com o fracasso comercial e crítico, o diretor caiu numa tremenda depressão, engordou ainda mais e se viu obrigado a fechar a sua produtora Transatlantic Pictures. O título nacional é péssimo, afinal o Capricorn” original se refere ao trópico e nunca ao signo astrológico.



janeiro 08, 2012

*********************** ANJOS & DEMÔNIOS

um anjo caiu do céu

 
Segundo a tradição judaico-cristã, os ANJOS são seres celestiais que servem como ajudantes ou mensageiros de Deus. O catolicismo conta que muitas vees eles foram autores de fenômenos miraculosos, ajudando a humanidade em seu processo espiritual. Já o príncipe das trevas, resultado da fusão de crenças de diferentes culturas, com o poder da Igreja Católica - a partir do séc. XV - passou a representar a maldade, os vícios, os pecados e os sofrimentos do mundo; numa luta eterna contra Deus, os santos e os anjos, e corrompendo a humanidade na sua trajetória. 

Essa antiga rixa entre o bem e o mal deu origem a variados argumentos cinematográficos. Em um bom número deles, o anjo ou o demônio são personagens importantes, fundamentais para a trama. Entre anjos (Cary Grant, por exemplo) e demônios (Laird Cregar, o melhor de todos), comédias ou dramas sombrios, grandes diretores e prêmios, sucessos de bilheterias e cult movies, o pioneirismo de George Méliès – o primeiro diabo das telas, em 1906 – e a poesia melancólica de Wenders, selecionei os meus filmes favoritos que retratam em destaque anjos ou demônios. Mas será que terminei por esquecer algum longa importante?

ANJOS

robert monrgomery e claude rains

Os Anjos: Claude Rains e Edward Everett Horton
QUE ESPERE o CÉU
(Here Come Mr. Jordan, 1941)
direção de Alexander Hall

Duas vezes vencedor do Oscar - Melhor História Original e Melhor Roteiro -, conta com atuações tocantes e diálogos inteligentes. Um lutador de boxe (Robert Montgomery) que está a caminho de uma competição, acaba morrendo em um acidente de avião. Ele não deveria ter morrido naquela hora, mas foi levado para o céu por um anjo ansioso (Edward Everett Horton). Agora, a decisão é do chefe do anjo (Claude Rains), que tem que achar um novo corpo para a vítima e dar-lhe uma segunda chance de lutar pelo título. No caminho, o protagonista conhece uma jovem idealista (Evelyn Keyes) pela qual imediatamente se apaixona, e que lhe dá uma nova razão para viver além do boxe.

O Anjo: Henry Travers
A FELICIDADE NÃO se COMPRA
(It’s a Wonderful Life, 1946)
direção de Frank Capra

O personagem de James Stewart sempre ajudou a todos, mas pressionado por maquinações de rico vilão (Lionel Barrymore), pensa em suicídio. Um anjo, que está há 220 anos esperando para ganhar suas asas, desçe à Terra para tentar convencê-lo a desistir. Através de flash-backs, ele mostra sua importância na comunidade. Grande filme de Capra, um clássico de Natal. Fracassou nas bilheterias, mas em compensação concorreu ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator.

grant e loretta

O Anjo: Cary Grant
Um ANJO CAIU do CÉU
(The Bishop’s Wife, 1947)
direção de Henry Koster

Boas interpretações na história de um anjo que desce à Terra para ajudar um bispo protestante (David Niven) e sua mulher (formosa Loretta Young) a levantar fundos para a construção de uma Igreja. Indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção.

O Anjo: James Mason
EU e MEU ANJO
(Forever, Darling, 1956)
direção de Alexander Hall

Último filme da dupla Lucille Ball-Desi Arnaz, ainda no tempo da série “I Love Lucy”. Anjo da Guarda vem à Terra tentar salvar casamento em crise.

law e fonda

O Anjo: John Phillip Law
BARBARELLA
(Barbarella, 1968)
direção de Roger Vadim

No século 41, uma astronauta - Jane Fonda - recebe a missão de capturar criminoso (Milo O'Shea). Na sua busca, seduz um anjo cego. Fracasso de bilheteria, mas curioso em seus excessos, principalmente para quem curte história em quadrinhos.

O Anjo: James Mason
O CÉU pode ESPERAR
(Heaven Can Wait, 1978)
direção de Warren Beatty e Buck Henry

Um jogador de futebol (Warren Beatty) é mandado para o céu antes da hora. Para arrumar o erro, ele é reencarnado no corpo de um poderoso industrial que acaba de ser assassinado pela esposa (Dyan Cannon) e o amante dela. Enquanto treina para jogar em seu time, envolve-se com uma inglesa (Julie Christie) que protesta contra a poluição. Refilmagem de Que Espere o Céu. Globo de Ouro de Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante (Cannon) de Musical/Comédia. Grande sucesso. A química entre Beatty e Julie é visível (na época viviam um romance apaixonado).

jessica

O Anjo: Jessica Lange
ALL THAT JAZZ – o SHOW DEVE CONTINUAR
(All That Jazz, 1979)
direção de Bob Fosse

Relato musical semi-autobiográfico da vida do escritor/diretor/coreógrafo Bob Fosse. No filme, ele (Roy Scheider) sofre um enfarte e, com a vida por um fio, revê momentos do passado, transformando-os em sua imaginação em números musicais. Sua atenção é disputada por quatro mulheres: a namorada, a ex-esposa, a filha e o anjo da morte. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção, entre outros. Um grande musical.

bruno ganz

Os Anjos: Bruno Ganz e Otto Sander
ASAS do DESEJO
(Der Himmel über Berlin, 1987)
direção de Wim Wenders

Dois anjos vagam na Berlim do pós-guerra. Embora invisíveis aos seres humanos, dão sua ajuda e apoio a todas as almas solitárias e deprimidas que vão conhecendo. Um deles se encontra infeliz com seu estado de imortalidade e deseja tornar-se humano para poder experimentar a vida. Poético e filosófico. Um dos melhores filmes da história do cinema. Wenders levou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes.

Os Anjos: Bruno Ganz e Otto Sander
TÃO LONGE, TÃO PERTO
(In Weiter Ferne, So Nah!, 1993)
direção de Wim Wenders

Continuação de “Asas do Desejo”. Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Dois anjos da guarda voam sobre Berlim. São invisíveis e benevolentes, porém não podem interferir na vida das pessoas. Então, o anjo das lágrimas (Sander), transforma-se em humano para saber como as pessoas se sentem de verdade.

O Anjo: Penélope Cruz
SEM NOTÍCIAS de DEUS
(Sin Noticias de Dios, 2001)
direção de Agustín Díaz-Yanes

A chefe (Fanny Ardant) de um céu cada vez mais vazio, destaca anjo (Penélope Cruz) para salvar a alma de um boxeador, mas ela terá que disputar com outro anjo (Victoria Abril), representante do inferno, que também quer essa alma por razões estratégicas. Uma divertida comédia em que a ótima Victoria Abril rouba facilmente a cena.

DEMÔNIOS

conrad veidt

O Demônio: Conrad Veidt
SATANÁS
(Idem, 1920)
direção de F. W. Murnau

De origem germânica e nitidamente influenciado por “Intolerância / Intolerance” (1916), de D. W. Griffith, consta de três partes, em cada qual o protagonista representa uma encarnação distinta de Satanás. A primeira delas, “O Tirano”, passa-se no antigo Egito. A segunda parte, “O Príncipe”, decorre no palácio da família Bórgia. A terceira, “O Ditador”, acontece em 1917, na Revolução Russa. Considerado perdido, porém um pequeno fragmento está conservado na Cinématheque Française. Nele, com forte carga erótica para a época, o trecho mostra os amantes egípcios Amenhotep e Nouri deitados em uma almofada. Eles conversam (não há legendas) enquanto trocam carícias. Roteiro de Robert Wiene e fotografia expressionista do mestre Karl Freund.

jannings

O Demônio: Emil Jannings
FAUSTO
(Faust - Eine Deutsche Volkssage, 1926)
direção de F. W. Murnau

Deus e Satã lutam pelo domínio da Terra. Para isso, fazem uma aposta pela alma de alquimista religioso. Quando este se revolta com as vítimas da peste bubônica, Satã envia Mefisto para tentá-lo, aproveitando-se de seu momento de fraqueza. Obra-prima. Fotografia de sonho e excelente atuação do elenco. O alemão Murnau era gênio!

O Demônio: Walter Huston
O HOMEM QUE VENDEU a ALMA
(All That Money Can Buy, 1941)
direção de William Dieterle

Adaptação de um conto de O. Henry sobre fazendeiro (Edward Arnold) que vende sua alma ao diabo. Oscar de Melhor Trilha Sonora (Bernard Herrmann, futuro e habitual colaborador de Hitchcock) e indicado para o Oscar de Melhor Ator (Huston, impecável). Também no elenco, a francesa Simone Simon e a sensacional Jane Darwell, Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Vinhas da Ira / The Grapes of Wrath” (1940).

berry em cena

O Demônio: Jules Berry
Os VISITANTES da NOITE
(Les Visiteurs du Soir, 1942)
direção de Marcel Carné

No final da Idade Média, um menestrel (Alain Cuny) e sua amiga (a lendária Arletty) chegam ao castelo de um barão (Fernand Ledoux), que está prestes a casar sua filha (Marie Déa). Possuídos pelo diabo, enquanto o menestrel seduz a jovem, sua amiga conquista o prometido (Marcel Herrand). Haverá, no entanto, um embate tenso entre o amor e as forças do mal. Chamado pelos críticos de “irrealismo poético, para o roteirista-poeta Jacques Prévert, o diabo representava Hitler. O diretor e o roteirista recorreram à Idade Média como um álibi. A direção e os cenários inspiraram-se com êxito nas miniaturas medievais. E teve um sucesso considerável.

laird cregar

O Demônio: Laird Cregar
O DIABO DISSE NÃO
(Heaven Can Wait, 1943)
direção de Ernst Lubitsch

Certo de que não será aceito no céu, milionário (Don Ameche) morre e vai parar no inferno, onde é recebido pelo diabo, que não tem certeza de que ali é seu lugar. Para convencê-lo, o morto começa a relembrar sua vida, recheada de traições à mulher (belíssima Gene Tierney), entre outros problemas. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção. Espetáculo sofisticado, inteligente e muito divertido. No elenco, coadjuvantes importantes: Charles Coburn, Marjorie Main, Spring Byington, Louis Calhern... e Laird Cregar, como um dos diabos mais sedutores e convincentes do cinema.

O Demônio: Claude Rains
EU e o SR. SATÃ
(Angel on My Shoulder, 1946)
direção de Archie L. Mayo

Último filme da fértil carreira de Archie L. Mayo. Gangster (Paul Muni, um dos atores mais elogiados da década de 30, ex-estrela da Warner) é morto por seu parceiro e amigo de confiança. Acaba no inferno, onde diabo lhe oferece uma oportunidade para voltar à Terra no corpo de um juiz honesto. Ele aceita a proposta, mas pensa em passar a perna no senhor do mal. Um belo e desconhecido filme independente, lançado pela United Artists.

philipe e simon

O Demônio: Michel Simon
A BELEZA do DIABO
(Le Beauté Du Diable, 1950)
direção de René Clair

Velho alquimista (Gérard Philipe) decide se aposentar depois de ver seus esforços frustrados para descobrir os segredos da natureza. Então surge Mefistófeles, seguidor de Lúcifer, lhe oferecendo a juventude perdida e uma nova vida. Só que rejuvenescido, ele desvia o interesse que tinha pela ciência para as conquistas amorosas. Isso fará com que Mefistófeles arme uma série de armadilhas para capturar sua alma. Ótima oportunidade para conferir Gérard Philipe, um dos maiores atores de sua geração.

O Demônio: Claude Rich
O DIABO e os DEZ MANDAMENTOS
(Le Diable et lês Dix Commandements, 1962)
direção de Julien Duvivier

O diabo narra os dez mandamentos de forma bem humorada – inclusive confessa gostar da Nouvelle Vague -, em episódios estrelados pela nata do cinema francês: Michel Simon, Alain Delon, Micheline Presle, Charles Aznavour, Lino Ventura, Louis de Funès, Jean-Claude Brialy, Fernandel, Micheline Presle, Charles Aznavour, Lino Ventura, Danielle Darrieux, Françoise Arnoul, Marcel Dalio, Jean-Claude Brialy e Fernandel. Eles valem o ingresso para essa comédia charmosa, um dos últimos filmes de Duvivier.    

terzieff e clémenti

O Demônio: Pierre Clémenti
O ESTRANHO CAMINHO de SÃO TIAGO
(La Voie Lactée, 1969)
direção de Luis Buñuel

Causou polêmica. Dois vagabundos (Laurent Terzieff e Paul Frankeur) seguem pelo caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. No decorrer da trama, são apresentadas heresias do cristianismo. O ateu Buñuel no auge do talento.  Ainda no elenco, Alain Cuny e Michel Piccolli (como o Marquês de Sade).

O Demônio: Robert De Niro
CORAÇÃO SATÂNICO
(Angel Heart, 1987)
direção de Alan Parker

Grandes atuações, clima sombrio. Um detetive particular (Mickey Rourke) é contratado por um homem misterioso para descobrir pistas de um cantor desaparecido. A investigação esbarra numa série de mortes violentas e o próprio detetive torna-se suspeito de assassinato. Bonita participação da musa inglesa Charlotte Rampling.