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outubro 15, 2017

*************** 17 PROFESSORES, com CARINHO

sandy dennis em “subindo por ponde se desce”

 
Tenho caros amigos professores. Faz tempo que planejo postar sobre esta profissão valorosa como protagonista de filmes. Finalmente, viajo em 17 longas estrelados por personagens PROFESSORES. Eles fazem o melhor para educar seus alunos, muitas vezes enfrentando o sistema ou complexas razões pessoais. Em uma seleção sempre fica um ou outro de fora, não significando que outras indicações não sejam importantes. O painel de filmes sobre este profissional é extenso, tornando-se complicado abordá-lo em poucas linhas. Como habitualmente, as listas deste blog são pessoais. Confira 17 títulos nos quais a/o PROFESSORA/O é o eixo da história. 

ROBERT DONAT
Mr. Chips em ADEUS MR, CHIPS
(Goodbye Mr. Chips, 1939)
direção de Sam Wood


Na década de 1920, Arthur Chips Chipping é um dedicado e severo professor de latim de tradicional escola. Casa-se com uma atriz de musicais, Katherine Bridges (a inglesa Greer Garson, no papel que a levaria ao estrelato, lançada em Hollywood como a “Nova Garbo”), que deixa o palco para ser sua esposa e acaba conquistando os alunos do marido com sua alegria e espontaneidade. Ela transforma o parceiro, que deixa de ser intransigente e passa a ser admirado. Primeira das quatro vezes em que o livro de James Hilton foi adaptado às telas. As posteriores foram produzidas em 1969, 1984 e 2002, sendo as duas últimas para a TV. O inglês Donat levou o Oscar de Melhor Ator.

MARTHA SCOTT
Ella Bishop em DONA de seu DESTINO
(Cheers for Miss Bishop, 1941)
direção de Tay Garnett


Dedicada professora sofre quando seu amado noivo foge com sua prima (Mary Anderson). A rival morre no parto e sua filha é deixada para ser cuidada por ela. Excelente atuação de Martha Scott, grande atriz que não chegou ao estrelato.

BETTE DAVIS
Miss Lilly Moffat em O CORACAO não ENVELHECE
(The Corn is Green, 1945)
direção de Irving Rapper


Professora se revolta com as condições nas quais um povoado do país de Gales é governado e decide montar uma escola para seus habitantes. No entanto, as autoridades se opõem ao projeto e a impedem de encontrar local propício para a instituição. Outra soberba atuação de Davis. Katharine Hepburn faria o remake nos anos 1970.

MICHAEL REDGRAVE
Andrew Crocker-Harris em NUNCA te AMEI
(The Browning Version, 1951)
direção de Anthony Asquith


Após lecionar 18 anos em uma escola preparatória na Inglaterra, Andrew Crocker-Harris, um enérgico e pouco amigável professor de latim e grego, é forçado a se aposentar. O pretexto é sua saúde. Ele é visto pelos alunos como uma espécie de Hitler e seu casamento está no fim, pois vem senso traído pela esposa Millie (Jean Kent) com Frank Hunter (Nigel Patrick), outro professor. Texto afinado de Terence Rattingan e expressiva atuação de Michael Redgrave, levando o prêmio de Melhor Ator em Cannes.

ROSALIND RUSSELL
Miss Rosemary Sydney em FÉRIAS de AMOR
(Picnic, 1955)
direção de Joshua Logan


Hal Carter (William Holden, no auge do poder de sedução) é um viajante que chega em uma pequena cidade do Kansas para tentar conseguir emprego com um rico colega de faculdade, Alan (Cliff Robertson). Porém, ele se apaixona por Madge Owens (Kim Novak), a linda namorada de Alan. Quando a mãe da jovem sente que esta paixão é correspondida, entra em desespero. Com seu estilo aventureiro, Hal exerce fascínio sobre as mulheres locais, inclusive a professora solteirona Rosemary (sensacional Rosalind Russell), também interessada em um comerciante local. Na famosa cena da dança, ela se sente atraída pelo estranho e provoca um escândalo. Baseado na peça teatral homônima de William Inge, vencedor do Prêmio Pulitzer.

SIMONE SIGNORET
Nicole Horner em As DIABÓLICAS
(Les Diaboliques, 1955)
direção de Henri-Georges Clouzot



Paul Meurisse é o sádico diretor da escola de Christina (a brasileira Vera Clouzot), sua esposa. Ele tem um caso com Nicole, uma professora, há muito tempo. A trata tão mal quanto a sua própria esposa. Assim, as duas se unem contra ele e, juntas, elaboram um plano para eliminar seu tormento. Adaptação do romance policial de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, dupla responsável pelo livro que originou Um Corpo que Cai / Vertigo (1958)Hitchcock tentou comprar os direitos, mas Clouzot foi mais rápido. Um clássico, Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York.

JENNIFER JONES
Miss Dove em O OCASO de uma ALMA
(Good Morning, Miss Dove, 1955)
direção de Henry Koster


Internada em um hospital, uma rígida e madura professora reflete sobre sua trajetória profissional e seus alunos. Solitária, somente conta com a visita de ex-alunos.

GLENN FORD
Richard Dadier em SEMENTES da VIOLENCIA
(Blackboard Jungle, 1955)
direção de Richard Brooks


Na ousada trama para a época, Richard Dadier (Glenn Ford em desempenho digno de Oscar) é um veterano de guerra expulso do exército e recém contratado pela escola North Manual, no subúrbio de Nova York, para ensinar inglês. Idealista, encara bravamente as gangues que dominam a instituição e ameaçam as mulheres que lá trabalham – a tentativa de estupro de uma delas na biblioteca é chocante. Ele pensa em desistir, mas segue em frente, mesmo com o desinteresse dos colegas, que chamam os estudantes de animais. Um dos maiores problemas do mestre é lidar com o jovem irlandês Artie West (Vic Morrow), líder dos baderneiros envolvidos com bebedeiras e roubo de automóveis. Dadier prova que, mesmo pagando um alto preço, a responsabilidade de educar fala mais alto, até mesmo quando sua esposa grávida é aterrorizada. Quem rouba a cena é Sidney Poitier fazendo um líder rebelde que acaba por se redimir – no filme, ele tem 17 anos, e na vida real, 28. No Brasil, provocou uma reação curiosa: quebradeiras em salas de cinema de todo o país por adolescentes impressionados com o rock e o grau de rebeldia e agressividade dos personagens.

DORIS DAY
Erica Stone em Um AMOR de PROFESSORA
(Teacher's Pet, 1958)
direção de George Seaton



Em Nova York, James Gannon (impecável Clark Gable), editor do jornal Evening Chronicle, não cursou o 2º grau e acredita que a única forma de aprendizado é a escola da vida. Em resposta ao convite para dar uma palestra na faculdade, envia uma carta ríspida ao professor responsável. Porém, trata-se de uma professora e seu chefe o obriga a pedir desculpas, pois ele é membro do conselho da faculdade. Gannon tenta consertar a situação, mas antes que possa fazer qualquer coisa sua carta é lida e ridicularizada pela professora. Ele se sente atraído e se torna aluno dela sem revelar sua identidade. Partindo de um bom roteiro, Seaton realiza uma ótima comédia romântica, ajudado por um elenco de primeira linha. Apesar da diferença de idade, 23 anos, Clark Gable e Doris Day demonstram uma grande química em cena.

AUDREY HEPBURN
Karen Wright em INFÂMIA
(The Children's Hour, 1961)
direção de William Wyler



Duas professoras (magistrais Shirley MacLaine e Audrey Hepburn) de escola particular têm suas vidas viradas do avesso quando uma das meninas denuncia um sentimento um pouco maior que amizade entre as duas. A avó da garota, poderosa na cidade, trata de espalhar a história e fazer com que todos se voltem contra as pecadorasAinda em 1936, apenas dois anos após a estreia da peça de Lillian Hellmann, que deu origem ao filme, o mestre William Wyler dirigiu a história pela primeira vez, fazendo concessões à censura (o rigoroso Código Hays estabelecia o que podia e não podia ser mostrado em filmes). Como diz o livro “The United Artists Story”, “de acordo com Hollywood, homossexualismo não existia na América até os anos 60, e por isso These Three foi despojado de seu tema de lesbianismo”. Esta versão é mais audaciosa. Conta com surpreendente cena de Shirley MacLaine declarando seu amor frustrado por Audrey.

LAURENCE OLIVIER
Graham Weir em MENTIRA INFAMANTE
(Term of Trial, 1962)
direção de Peter Glenville


O professor Graham Weir, devido ao seu jeito tímido e reservado, é tratado com desdém por colegas, alunos e esposa. Uma de suas alunas, Shirley Taylor (Sarah Miles, estreando muito bem), é a única que o aprecia. Tomando aulas particulares com ele, a garota se encanta ainda mais. Ela termina expondo seus sentimentos, propondo sexo. No entanto, o acusa de estrupo, a fim de destruir o que resta de sua vida.  Sir Laurence Olivier, aos 54 anos, e Sarah Miles, 19 anos, tiveram um caso durante as filmagens. A personagem da aluna sedutora foi pensada para Natalie Wood, mas a atriz norte-americana não queria ficar o tempo necessário para as filmagens fora do seu país.

ANNE BANCROFT
Annie Sullivan em O MILAGRE de ANNIE SULLIVAN
(The Miracle Worker, 1962)
direção de Arthur Penn



A incansável tarefa da professora Anne Sullivan, ao tentar fazer com que Helen Keller, uma garota cega, surda e muda, adapte-se e entenda (pelo menos em parte) as coisas que a cercam. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram. Oscar, BAFTA e National Board of Review de Melhor Atriz. Refilmado duas vezes, ambas para a televisão, em 1979 e 2000. Patty Duke, que interpreta a garota, interpretou a professora na primeira refilmagem.

SANDY DENNIS
Sylvia Barrett em SUBINDO por ONDE se DESCE
(Up the Down Staircase, 1967)
direção de Robert Mulligan


Uma jovem professora de literatura, Sylvia Barret, chega a Calvin Coolidge cheia de ideias e entusiasmo. Pela sua falta de experiência, termina por cometer deslizes que atrapalham seus planos em transformar o comportamento dos alunos. Dos dramas cinematográficos que retratam o relacionamento entre jovens desordeiros e docentes, esse é um dos maiores representantes do gênero. Bela obra, baseada no romance de Bel Kaufman e filmada nos subúrbios de Nova York. Influenciou um bom número de cineastas a realizarem filmes sobre o tema. Sandy Dannis, no auge da carreira, tem atuação antológica, levando o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Moscou.

SIDNEY POITIER
Mark Thackeray em Ao MESTRE, com CARINHO
(To Sir with Love, 1967)
direção de James Clavell


O negro Mark Thackeray é engenheiro, fica desempregado e resolve dar aulas em Londres, ensinando alunos brancos em uma escola no bairro operário de East End. Depara-se com adolescentes indisciplinados e desordeiros, determinados a impedir suas aulas. Ele, acostumado com hostilidades, não se amedronta e enfrenta o desafio de ensinar a uma turma de baderneiros. Ao receber um convite para voltar a trabalhar como engenheiro, tem que decidir se segue como mestre ou volta ao antigo cargo. O drama foi inesperadamente bem nas bilheterias. Judy Geeson e Lulu se reuniriam novamente com Sidney Poitier na sequência para a televisão, “To Sir, With Love II”, dirigida por Peter Bogdanovich. Foi banido na África do Sul, com as autoridades alegando que era ofensivo ver um homem negro ensinando uma classe de crianças brancas.
                                                                                     
MAGGIE SMITH
Jean Brodie em PRIMAVERA de uma SOLTEIRONA
(The Prime of Miss Jean Brodie, 1969)
direção de Ronald Neame



Uma professora em uma escola para meninas inspira suas alunas com suas ideias sobre arte, música e política, sendo que a última é baseada em noções românticas, que a levam a expressar admiração pelo fascismo italiano. Amorosamente envolvida com Teddy Lloyd (Robert Stephens), professor que se dedica a pintura, Jean tem um pequeno círculo social de alunas que a adoram. Paralelamente, a senhorita MacKay (Celia Johnson), séria diretora da escola, desaprova a influência da professora, tendo suspeitas sobre a impropriedade das suas ações. Oscar e BAFTA de Melhor Atriz.

ALAIN DELON
Daniele Dominici em A PRIMEIRA NOITE de TRANQUILIDADE
(La Prima Notte di Quiete, 1972)
direção de Valerio Zurlini


No início dos anos 70, um angustiado professor de literatura, em crise no casamento, envolve-se afetivamente com uma de suas alunas, numa tentativa de preencher seu vazio existencial. Conhecido como O Poeta da Melancolia, Zurlini teve uma carreira de apenas oito filmes, todos de grande qualidade. Esta obra-prima se tornou um marco na prolífica carreira de Delon, cuja atuação brilhante rendeu excelentes elogios da crítica. Zurlini apresenta ecos de um movimento influente na época, o existencialismo. Filósofos como Albert Camus e Sartre escreveram sobre homens que vivem sem rumo, nômades ateus que escondem seu passado e ignoram seu futuro. Essas características definem o protagonista Dominici, um intelectual introvertido, cuja psique casa perfeitamente com o ideal do existencialismo. Maravilhoso sob todas as óticas, um filme inesquecível.

JON VOIGHT
Pat Conroy em CONRACK
(Idem, 1974)
direção de Martin Ritt 


Numa pequena ilha na Carolina do Sul (EUA), vive uma comunidade negra praticamente isolada do mundo. Em 1969, um novo professor chega à escola local, branco, recebido de modo pouco amistoso pela diretora negra. Logo na primeira aula, ele percebe a falta de repertório das crianças, não somente em relação ao conhecimento escolar como também em relação à vida. Conrack (esse é o nome que os estudantes adotam para o professor, pois não sabem pronunciar a última sílaba do nome irlandês!) apresenta esse problema para a diretora, que responde de forma incisiva: Crianças negras são lentas, elas só entendem o chicote e… querem o chicote!. Aos poucos, ele conquista a confiança dos alunos e da comunidade, resgatando a autoestima de muitos. Retrato sensível das mudanças sociais nos EUA no final dos anos 1960, com destaque para a infeliz Guerra do Vietnã e a luta pelos direitos civis da minoria negra.

setembro 26, 2015

********* CARY GRANT: um TOQUE de CLASSE





Foi uma experiência estranha entrar num escritório da Universal - isto em 1961 - e dar de cara com um homem que não me conhecia, mas que eu conhecia desde que me lembrava. Clifford Odets, um amigo comum - nessa altura ainda era vivo -, tinha pedido a CARY GRANT para me receber, por isso falamos um pouco de Clifford, e não me lembro de uma única palavra do que dissemos. O meu espírito estava inundado de imagens dos seus filmes que tinha visto e só conseguia pensar em como se parecia com a sua imagem cinematográfica - o mesmo charme, o mesmo humor, o ar de mistério não fabricado, mas nítido. É claro que não foi a sua celebridade que me impressionou, conheço estrelas que nunca me impressionariam, mas ele foi sempre um dos meus atores favoritos, e uma de um punhado de grandes personalidades do cinema.

Contudo, o que o distingue de todos os outros - algo de especialmente pertinente nesta época em que o sistema de estúdio desapareceu - é o fato de Cary ter sido a primeira estrela a se tornar independente. Desde que o seu contrato com a Paramount acabou em 1936, ele nunca mais assinou outro com exclusividade para qualquer companhia. Por isso, ao contrário de qualquer estrela (até o início dos anos 50), ele escolheu os argumentos e os realizadores com quem desejava trabalhar, nenhum executivo lhe escolheu os filmes, nunca foi forçado a fazer coisas de que não gostasse. Responsável por sua trajetória, construiu o arco da sua carreira, moldando a sua persona cinematográfica através do seu próprio direcionamento, coisa que homens como Bogart ou Cagney ou Tracy ou Cooper nunca puderam fazer.

Até a época de sua ligação com a Paramount, era pouco mais que uma primeira figura masculina apreciável, levemente desajeitada e bastante convencional numa fileira de filmes para esquecer. Se alguém se lembra de vê-lo contracenar com Mae West em “Santa Não Sou / She Done him Wrong” ou com Marlene Dietrich em “A Vênus Loira / Blonde Venus”, de Josef von Sternberg, é porque é tão surpreendentemente diferente do CARY GRANT futuro. Começamos a notar a diferença pela primeira vez em “Vivendo em Dúvida / Sylvia Scarlet”, de George Cukor, em 1935, e dois anos depois, desta vez quase atingindo a perfeição, em “Cupido é Moleque Teimoso”, de Leo McCarey, em 1938. Com “Boêmio Encantador / Holiday”, de Cukor, e “Levada da Breca”, de Hawks, tornou-se sinônimo de um determinado personagem - uma espécie de impertinência charmosa mesclada de um gosto impecável e de uma graça sutil e requintada.

O que o tornou tão desejável como intérprete, e tão inimitável (e teve muitos imitadores ao longo dos anos) foi uma mistura poderosa de talento com um aspecto de ídolo de matinês. Qual seria a estrela capaz de expressar cólera resfolegando como um cavalo (como fez em “Levada da Breca”) e, no entanto, manter a sua masculinidade? Quem mais seria capaz de dar cambalhotas para exprimir o seu amor pela vida (como em “Boêmio Encantador”) e fazer com que isso parecesse justo? Tinha uma maneira de dizer as frases mais banais que as fazia parecer uma coisa inteligentíssima.


Tornou-se um mestre tão perfeito em comédia, sofisticada ou popular, que o seu talento foi muitas vezes subestimado. Contudo, a profundidade emocional e a amplitude do seu trabalho em filmes como “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” de Hawks ou “Serenata Prareada / Penny Serenade” de George Stevens ou “Ainda Resta uma Esperança / None But the Lonely Heart” de Clifford Odets, apagariam qualquer dúvidas. Mesmo um melodrama simpático, mas menor, como foi o primeiro filme de Richard Brooks, “Terra em Fogo / Crisis”, é animado pelo sentimento de verdade e a qualidade profissional que Cary põe na sua interpretação: desempenha o papel de um cirurgião - observe-se as cenas de operação e julgaremos que nunca fez outra coisa na sua vida. Com um argumento adequado e mesmo um realizador indiferente, a personalidade do ator pode transformar um filme como “Aventureiro da Sorte / Mr. Lucky” em algo de memorável e tocante. Quando todos os elementos estão certos, a sua presença torna-se parte indispensável da obra-prima: “Paraíso Infernal” e “Jejum de Amor” de Hawks, “Intriga Internacional / North by Northwest” e “Interlúdio / Notorious” de Hitchcock.

grant e ingrid bergman 
em interlúdio
Primeira figura masculina ideal, bobo perfeito, dândi admirável e patife encantador: se excetuarmos os seus primeiros tempos na Paramount, nunca lhe foi concedida autorização para morrer no fim do filme, e com toda a razão - quem acreditaria? Cary era indestrutível. E no entanto, só recebeu um prêmio da Academia em 1970 pelo conjunto da sua carreira. Foi o ponto alto da noite e a única vez que apareceu na televisão. Grant fez um discurso de agradecimento elegante e espirituoso, mencionando grandes realizadores que o tinham dirigido. Era uma lista consistente, pois trabalhou com mais bons realizadores do que qualquer outra estrela de cinema: Hawks (5 vezes), Hitchcock (4), Stanley Donen (4), Cukor (3), McCarey (3), Stevens (3), Raoul Walsh, Frank Capra, Joseph L. Mankiewicz, Blake Edwards, Garson Kanin. Cada um revelou facetas diferentes da sua fascinante personalidade. Hitchcock disse-me, “Ninguém dirige Cary Grant, só é preciso pô-lo na frente da câmara”.

Ele não faz filmes desde 1966, quando fez “Devagar, Não Corra / Walk Don't Run”, no qual deixou Jim Hutton e Samantha Eggar conduzir a matéria amorosa, enquanto desempenhava o papel de casamenteiro, interpretação que tinha sido originalmente de Charles Coburn na primeira versão da história, “Original Pecado / The More the Merrier”. O filme não é desagradável, mas o público não está interessado em vê-lo fazer aquele papel. Há um momento do filme em que Cary dá a Miss Eggar uma taça de champanhe e um beijo na mão que deve ter feito toda a gente ansiar por mais - é de certeza o momento mais romântico de todo o filme. Mas o ator tinha decidido que estava demasiado velho para contracenar com mulheres mais novas e, de fato, julgo que o relativo fiasco de “Devagar, Não Corra” acelerou a sua partida inesperada do cinema. Se as pessoas o queriam apenas como figura romântica e ele se sentia velho para isso, a única coisa a fazer era abandonar o cinema.

cary e o oscar especial 1970
Como é que o poderemos convencer de que não tem razão? Há pouco tempo disse a CARY GRANT que gostaria de tê-lo num filme e ele respondeu-me brincando que se fosse um papel de um velho de cadeira de rodas talvez aceitasse. Não lhe interessa o fato de parecer ter apenas cinquenta anos e de a maior parte das mulheres que conheço começarem a devanear à simples menção do seu nome. Não há nada a fazer - está metido até ao pescoço no mundo dos negócios e diz que adora.

Talvez seja feliz, mas o cinema perdeu alguém insubstituível. Cedo demais. Pode argumentar ter feito tudo que havia de fazer no cinema, o que é verdade, mas desejaria que continuasse nas telas. Por mim, daria tudo para tê-lo num filme, e tenho a certeza que o público não ficaria triste por ter esse estilo especial e essa sofisticação única de novo. Deve ser para os espectadores, como foi para mim da primeira vez que com ele me encontrei, um velho e querido amigo. Temos saudades dele.

Texto de PETER BOGDANOVICH
1972


GRANT-RANDOLPH SCOTT: “o CASAL FELIZ”

Elegância, charme e talento são as palavras certas para definir CARY GRANT (1904 -1986), que se afastou do cinema em 1966, logo após ingressou na indústria de cosméticos Fabergé, como relações-públicas, e depois saltou para executivo. Ele era para a Hollywood dos anos dourados o que Brad Pitt é para a indústria do cinema nos dias de hoje. Um dos atores preferidos de Alfred Hitchcock, com quem fez clássicos como “Ladrão de Casaca / To Catch a Thief (1955) e “Intriga Internacional” (1959), serviu de modelo para Ian Fleming criar o agente secreto 007. Desde sempre o astro foi alvo de comentários sobre sua suposta homossexualidade. Ele nunca assumiu publicamente nem mesmo uma bissexualidade, casando-se com cinco mulheres em intervalos diferentes. Em 1980, aos 76 anos, processou o comediante Chevy Chase, que teria assim se referido a ele na tevê: “What a gal!” (“Que garota!”).

Nos anos 1930, o ator, solteiro e um dos mais cobiçados da época, vivia numa mansão em Santa Monica, em Los Angeles, com Randolph Scott, estrela de faroestes e filmes de aventuras. Moraram juntos por 12 anos nessa praia particular da Califórnia. A residência ficou conhecida como a “mansão dos solteirões”. Em 1932, a Paramount fez 30 fotos deles para divulgar a alegria da vida de solteiro que levavam. As imagens ambíguas da dupla, tratados pela imprensa como “o casal feliz”, os mostram na piscina, levantando pesos, fazendo cooper, jogando dama ou jantando à luz de velas. Num flagrante bem íntimo, Scott aparece sentado à mesa olhando um documento, enquanto CARY GRANT o observa, a mão apoiada no ombro do amigo.



“Aqui estamos, vivendo da forma que achamos melhor como solteiros, numa ótima casa e a um preço relativamente barato”, disse Grant a uma revista da época. Dessa série, a foto que mais intriga é aquela que mostra a silhueta dos dois amigos no clima romântico de um fim de tarde, diante do mar. Gay, o cineasta George Cukor, que o dirigiu em “Núpcias de Escândalo”, comentou a postura do colega: “Ele nunca falaria sobre isso. No máximo, diria que os dois fizeram belas fotos juntos. Scott talvez admitisse - mas para um amigo.” Diante do frisson provocado por essa suspeita, a Paramount tirou proveito do suposto romance. E os filmes de CARY GRANT arrebentaram na bilheteria.

Verdade ou mentira, tudo se passava entre quatro paredes. Os dois astros estavam sempre juntos, inclusive nas noitadas. Por tal razão, a irônica e afiada Carole Lombard disparou: “Gostaria de saber qual destes dois garotos paga as contas.”. Vários livros nos contam que eram realmente homossexuais e extremamente apaixonados. Dizem que se conheceram durante um almoço na Paramount. Na época, Randolph Scott era amante de Howard Hughes, já CARY GRANT, vivia um romance com um estilista chamado Wright Neale. Para tentar encobrir as diversas aventuras homossexuais do seu astro Grant, a Paramount arranjava mulheres para sua companhia, mas nunca deu certo. A atração dos dois foi imediata e recíproca, Scott mudou-se imediatamente para o apartamento de Cary.



Não era comum dois jovens, belos e famosos atores viverem juntos naquela época. Pela exposição – eles apareciam juntos nas estreias sem companhia feminina – os mexericos se espalharam. Inicialmente encontraram refúgio num apartamento próximo a um reduto de homossexuais, Griffith Park. Depois se mudaram para a “mansão dos solteirões”.


Mesmo depois de casados com mulheres mantiveram diversos encontros. Ao saber do falecimento de Cary Grant, em 1986, o velho Randolph Scott (85 anos de idade) compareceu ao velório antes da cremação, dirigiu-se ao caixão, pegou nas mãos do amado, beijou-as, colocou-as sobre sua cabeça, e chorou copiosamente.


APAIXONADO por SOPHIA LOREN

Em 1957, durante a rodagem, em Espanha, de “Orgulho e Paixão / The Pride and the Passion”, de Stanley Kramer, CARY GRANT se apaixonou loucamente pela estrela italiana Sophia Loren, e tentou convencê-la a casar-se com ele. Ela conta esse episódio na sua autobiografia, “Ieri, Oggi, Domani / Ontem, Hoje, Amanhã”. Tinha 23 anos, ele 53 e estava casado com a terceira das suas cinco mulheres (casamentos que não abafaram os rumores da bissexualidade do ator). Passado em Espanha durante as guerras napoleônicas, o épico conta a história de um oficial inglês, interpretado por CARY GRANT, que ajuda um grupo de espanhóis a combater o invasor francês. Sophia Loren é Juana, a filha do chefe espanhol por quem o herói se apaixona. A atriz revela que Grant enviava ramos de flores todos os dias e insistia em que rezassem pedindo orientação para saber se deveriam deixar as pessoas com quem estavam envolvidos.


Ele estava então casado, há já oito anos, com a atriz Betsy Drake, de quem só viria a divorciar-se em 1962. Foi o seu casamento mais duradouro, e o ator sempre se mostrou grato a Betsy por ter conseguido fazê-lo recuperar a sua “paz interior”. Ela o convenceu dos benefícios de um tratamento por LSD, então legal, que parece ter resultado, segundo o próprio, onde o ioga, o hipnotismo e outras terapias falharam.

Sophia Loren, embora tivesse apenas 23 anos, era já uma atriz experiente e que dera nas vistas em filmes populares. Quando conheceu CARY GRANT, mantinha desde a adolescência uma relação com o produtor de cinema Carlo Ponti, com quem estava prestes a se casar. E casaram-se no dia 17 de Setembro de 1957, por procuração, depois de o produtor se ter divorciado da sua primeira mulher no México.

Para Sophia Loren, a idade de CARY GRANT não era problema, uma vez que “andava à procura de uma figura paternal”. O próprio Ponti era 22 anos mais velho do que ela. Mas “tinha de fazer uma escolha” e inclinou-se para o seu marido. “O Carlo era italiano, pertencia ao meu mundo, era a coisa certa a fazer”, explica na autobiografia. “Na época não tive remorsos, amava o meu marido e, embora tivesse afeto por Cary, não conseguiria casar com um gigante de outro país e deixar Carlo”.


DEZ COMÉDIAS de CARY GRANT
(por ordem de preferência)

01
NÚPCIAS do ESCÂNDALO
(The Philadelphia Story, 1940)
direção de George Cukor
  elenco: Katharine Hepburn

 02
LEVADA da BRECA
(Bringing Up Baby, 1938)
direção de Howard Hawks
elenco: Katharine Hepburn

03
CUPIDO é MOLEQUE TEIMOSO
 (The Awful Truth, 1937)
direção de Leo McCarey
elenco: Irene Dunne

04
JEJUM de AMOR
(His Girl Friday, 1940)
direção de Howard Hawks
elenco: Rosalind Russell

05
O INVENTOR da MOCIDADE
(Monkey Business, 1952)
direção de Howard Hawks
elenco: Ginger Rogers e Marilyn Monroe

06
E a VIDA CONTINUA
(The Talk of the Tawn, 1942)
direção de George Stevens
elenco: Jean Arthur

07
CARÍCIAS de LUXO
(That Touch of Mink, 1962)
direção de Delbert Mann
elenco: Doris Day

08
VIVENDO em DÚVIDA
(Sylvia Scarlett, 1935)
direção de George Cukor
elenco: Katharine Hepburn

09
INDISCRETA
(Indiscreet, 1958)
direção de Stanley Donen
elenco: Ingrid Bergman

10
MINHA ESPOSA FAVORITA
(My Favorite Wife, 1940)
direção de Garson Kanin
elenco: Irene Dunne

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