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junho 04, 2015

****** NORMA BENGELL: o OCASO de uma MUSA




Eu sou uma mulher que nunca fica fora de moda, 
porque eu não sou estrela, eu sou atriz.
NORMA BENGELL
 
 
O cinema francês não se esquece de suas estrelas. Geralmente elas trabalham até idade avançada, envelhecendo nas telas. O mesmo não acontece nos Estados Unidos da América, mas os filhos de Tio Sam reverenciam suas antigas glórias através de publicações, documentários, vídeos, retrospectivas, tributos. O Brasil, um país sem memória, literalmente apaga o passado. Os novos cineastas raramente convidam para os seus filmes intérpretes que brilharam noutros tempos. Hoje, poucos brasileiros sabem da importância de atrizes/atores como Eliane Lage, Odete Lara, Joffre Soares, Adriana Prieto, Isabel Ribeiro, Lillian Lemmertz, Paulo José, Tereza Raquel, Glauce Rocha, Jardel Filho, Anecy Rocha, Ítala Nandi, Darlene Glória, Othon Bastos etc.
 
norma (primeira à direita), odete lara, 
leila diniz e outras atrizes na passeata 
dos cem mil contra a censura, 1968
Uma das nossas maravilhas, NORMA BENGELL (1935 – 2013. Rio de Janeiro, RJ / Brasil) conseguiu a proeza de em um país televisivo ser uma das poucas atrizes que se dedicou principalmente ao cinema e teve sucesso e popularidade. Temperamental, de difícil trato, feminista, transgressora, mulher à frente do seu tempo, cantora e diretora, de dinâmica carreira, rodou mais de cinquenta filmes. Na longa trajetória, abortos, estupros, paixões, brigas, separações, uma mulher com quem viveu durante anos, o tumultuado relacionamento com Alain Delon, na época considerado o homem mais bonito do mundo. Inquieta, despachada, libertária, fez telenovelas e filmou com Glauber Rocha “A Idade da Terra” (1980). Casos de amor e brigas se alternam na vida da sedutora que se engajou na luta pelos direitos dos atores.
 
Fascinava por sua sensualidade e personalidade forte. Galãs como Alain Delon, Anselmo Duarte, Renato Salvatori e Gabriele Tinti se renderam ao charme da sex symbol. Premiada muitas vezes, capa de revistas, polêmica, musa do Cinema Novo, comparada à francesa Jeanne Moreau, NORMA BENGELL nos orgulha. Nos seus últimos anos de vida, paralítica e sem dinheiro, devendo uma fortuna ao leão, possuía apenas uma casa, a cada dia mais vazia, porque vendia os móveis e o acervo particular para sobreviver. Doente e endividada, a atriz que viveu a glória do cinema nacional, recorreu à ajuda de amigos. Ao escorregar num tapete, sofreu um tombo e precisou operar a coluna e o cotovelo. Daí em diante, só saia para ir ao hospital. Numa cadeira de rodas, doente e falida, não era nem sombra da atriz cortejada dos anos 1960 e 1970.

norma vedete
O pai era um belga que trabalhava como afinador de piano. A mãe, de família rica, deserdada após casar com um imigrante. A infância difícil, em Copacabana. NORMA BENGELL nasceu predestinada a se tornar estrela de cinema. Por volta de 1936, o ator e diretor Raul Roulien, de passagem pelo Rio, ao vê-la passeando no carrinho de bebê, pediu permissão à mãe para filmá-la. Em 1945, seus pais se separaram e ela foi morar com os avós paternos. Levada a um internato de freiras alemãs, não permaneceu por muito tempo, sendo expulsa por indisciplina. No começo dos anos 1950, manequim da Casa Canadá, seu corpo escultural chamou a atenção, passando a atuar no teatro de revista em 1954, como vedete em “Fantasia e Fantasias”, no Copacabana Palace. Trabalhou muitos anos com Carlos Machado nas boates “Casablanca” e “Night and Day”, com temporadas em Montevidéu e Buenos Aires. 

Estreou no cinema em 1959, na chanchada “O Homem de Sputnik”, produção da Atlântica estrelada por Oscarito e Jô Soares. Um mega sucesso, com público estimado em 8 milhões e meio de pagantes. Ela fazia uma sátira à francesa Brigitte Bardot - seu personagem chamava-se justamente B.B. A carreira de NORMA BENGELL no cinema se intensificou, rodando muitos outros filmes, além de se destacar no teatro na peça “Procura-se uma Rosa”, de Pedro Bloch. Ao atuar no drama urbano “Os Cafajestes”, se consagrou definitivamente, recebendo o prêmio Saci de Melhor Atriz. Nessa fita, protagonizou a primeira cena de nu frontal da história do cinema brasileiro, que a tornou alvo da Igreja Católica e da organização “Família, Tradição e Propriedade” (TFP). Em 1962, chamada por Anselmo Duarte para “O Pagador de Promessas”, brilhou no papel da prostituta Marli. O longa ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, dando a NORMA BENGELL o estrelato internacional.
 
alberto sordi e norma em o mafioso
Em Cannes, conheceu o produtor Dino De Laurentiis, que a contratou, seguindo para a Itália, onde trabalhou com bons diretores e ficou amiga de Federico Fellini e Luchino Visconti. Ela contracenou com Alberto Sordi, Jean-Louis Trintignant, Renato Salvatori, Catherine Deneuve, Jean Sorel e outros. “Quando o meu marido, o Gabrielle Tinti, viajava, eu saía muito com o Pasolini. Ia dançar com ele naqueles botecos de Roma. O prédio em que eu morava era uma loucura. A gente não podia abrir as janelas porque sempre tinha paparazzi nos telhados. Lá moravam a Brigitte Bardot, o Rod Steiger. Era na Via Vecchiarelli 38, um prédio dos anos 600 que a princesa alugava”, recordou a atriz. 

Em 1964, aos 30 anos de idade e no auge da beleza, voltou ao Brasil para filmar a obra-prima de Walter Hugo Khouri, “Noite Vazia”, um dos melhores filmes da sua carreira. Nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz ela se casou com o italiano Gabriele Tinti (belo e de carreira medíocre, morreu em 1991, aos 59 anos), seu parceiro no filme, e a união durou até 1969. “Trabalhei em lugares fantásticos e conheci pessoas fantásticas, mas minha vida privada era confusa. Passei por muitos amores e decepções”, confessou numa entrevista. Teve uma experiência em Hollywood, estrelando o episódio “To Kill a Priest” (1966), com direção de Boris Sagal, da primeira temporada da famosa série “T.H.E. Cats” (Paramount / NBC), gravando para a trilha as canções de bossa-nova “Água de Beber
e Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

gabrielle tinti, o marido, 
e norma
Ao longo da carreira atuou pouco no teatro, brilhando em 1968 com a peça “Cordélia Brasil”, de Antônio Bivar, dirigida por Emilio di Biasi, um dos seus maiores sucessos. Com o passar dos anos, optou por personagens dramáticos, como se vê no seu trabalho desenvolvido nos anos 1970. Em 1971, ela fez uma de suas melhores participações no cinema, no premiado “A Casa Assassinada”, de Paulo Cesar Saraceni. Por sua interpretação recebeu o Troféu de Melhor Atriz da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), prêmio que ainda receberia outras duas vezes por “Mar de Rosas” (1978) e “Eros, o Deus do Amor” (1981). Vivendo em Paris, continuou atuando no cinema, na televisão e no teatro, trabalhando com o diretor Patrice Chéreau - um dos grandes do teatro na França - nas peças “La Dispute”, de Pierre de Marivaux, em 1973, e “Les Paraventes”, de Jean Genet, em 1983, que marcou sua despedida dos palcos franceses.
 
Ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Veneza por sua atuação em “A Idade da Terra” (1980). De volta, mais uma vez no terreno do escândalo, em 1984, NORMA BENGELL afirmou ter feito 16 abortos. No mesmo ano, rodou com Mick Jagger o videoclipe da música “She's the Boss”. No início dos anos 1990, o cinema brasileiro ficou quase paralisado com a extinção da Embrafilme, e durante essa época ela se engajou na luta pela retomada do cinema nacional, fazendo viagens à Brasília, onde aconteceu o famoso beijo no então presidente Itamar Franco. Findada a mocidade, dirigiu e assinou o roteiro de “Eternamente Pagu” (1988), protagonizado por Carla Camuratti, e “O Guarani” (1996), da obra de José de Alencar, entre outros. “O Guarani” foi um fracasso de público e massacrado na imprensa, resultando em brigas com críticos.
 
gloria menezes, norma e leonardo vilar
Seu primeiro LP, o bossa-novista “Ooooooh! Norma”, lançado em 1959, tem canções de Tom Jobim e João Gilberto. Em 1960, gravou “Tristeza”, incluída na trilha sonora da comédia Copacabana Palace, uma co-produção ítalo-franco-brasileira. Fez sucesso com “A Lua de Mel na Lua e “E se tens Coração”, da trilha de “Mulheres e Milhões”. Realizou shows no Club 36 e no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, ao lado de Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes e Baden Powell, entre outros. Foi uma das primeiras cantoras a gravar inéditas de Jobim. 

Após anos gravando em trilhas sonoras e discos de outros artistas, lançou seu segundo LP em 1977, “Norma Canta Mulheres”. Apresentou um programa semanal de música popular brasileira na Tupi, no qual recebia convidados com os quais cantava em dueto. Participou, também, dos programas “Carrossel” (TV Rio) e “Noite de Gala” (TV Rio). Contratada pela Globo, comandou o “Shell em Show Maior”, ao lado de Chico Buarque. Fez parte do elenco das telenovelas 
Os Adolescentes” e “Os Imigrantes”, na Rede Bandeirantes; da minissérie “Parabéns pra Você”, de Bráulio Pedroso; das telenovelas “Partido Alto”, de Aguinaldo Silva e Glória Perez, e “O Sexo dos Anjos”, de Ivani Ribeiro.
 
 
Poucos meses antes de morrer, a atriz que foi uma das deusas do Brasil, passava semanas sem sair de casa, sem uma fonte de renda regular e sem poder saldar as dívidas acumuladas. Segundo ela, teria sido enganada por seu advogado e, por conta disso, estaria devendo cerca de R$ 4 milhões à Receita Federal em imposto de renda. Às voltas com essas contas e mais as despesas médicas, não sabia o que fazer. As pernas inchadas e o tempo agindo sobre seu corpo, somente nos raros sorrisos e no olhar se notavam vestígios da NORMA BENGELL de décadas atrás. Por causa das pendências judiciais geradas com “O Guarani” seus bens e contas bancárias ficaram indisponíveis. Havia usado leis de renúncia fiscal para levantar R$ 2,99 milhões. O Ministério da Cultura identificou irregularidades na prestação de contas e o caso parou na Justiça. “Chegaram a me acusar de não ter terminado o trabalho. Como podem dizer isso se o filme foi apresentado na Rede Globo para milhões de pessoas?”. Para piorar a situação, sua companheira de 25 anos, Sonia Nercessian, fotógrafa, morreu em 2007 de câncer.
 
norma em vestido de noiva,
de nelson rodrigues, 1976
Instalada numa enorme casa de quatro quartos, duas salas e uma bela piscina, em um dos bairros mais nobres do Rio, ela nem pensava em vender o imóvel, onde vivia há dez anos. “Nem pensar. Minhas lembranças estão todas aqui”, rechaçava. Além de passar um bom tempo à frente da telinha, NORMA BENGELL preenchia seu dia fazendo sessões de fisioterapia, ouvindo música clássica, vendo filmes em DVD e fumando um maço de cigarros. Gastava horas ao celular com amigos como Ney Latorraca e Miguel Falabella. Otimista, três anos antes de morrer voltou aos palcos com a peça “Dias Felizes”, de Samuel Beckett, direção de Emílo di Biasi, na história de Winnie, uma mulher oprimida pelo mundo e pelo marido que tenta sobreviver em meio às suas lembranças e sonhos. Seu último trabalho na televisão foi como Deise Coturno na série humorística da Globo “Toma Lá, Dá Cá” (2008 / 2009).

Depois de gravar depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, dando testemunho sobre o que viveu, organizou seu acervo pessoal (filmes, fotos, revistas, cartas etc.), que foi doado para a Cinemateca Brasileira, e finalizou um livro de memórias que preparava há décadas, “Norma - Coisas Que Vivi”. Além disso, sonhava em dirigir “Tudo por Amor”, sobre sua trajetória, que tinha roteiro pronto. Seus últimos filmes como atriz foram o longa “Vagas para Moças de Fino Trato” (1992), de Paulo Thiago, e o curta “Banquete” (2002), de Marcelo Lafitte. Recebeu homenagem na 10ª edição do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro. “Minha vida foi muito bonita, e ainda é”, disse, sem disfarçar o tom melancólico e os olhos cheios d’água. A atriz se queixava da solidão e do abandono, e estava bastante doente. Faleceu em 2013, aos 78 de idade. De sex-symbol à atriz dramática, NORMA BENGELL construiu uma carreira invejável. Considerava-se “uma operária, uma trabalhadora do cinema”. Seu nome está unido aos acontecimentos da cultura brasileira na segunda metade do último século. Foi o cinema que me fez conhecer o mundo inteiro, foi o cinema que me deu de comer, que me fez ser amada e odiada. Então, esse cinema é a minha vida”.

Fontes
“Enciclopédia do Cinema Brasileiro”
de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda
 
 “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1929/1988”
de Salvyano Cavalcanti de Paiva
 
oscarito e norma em “o homem de sputnik” 
NORMA BENGELL em DOZE FILMES

1961
MULHERES e MILHÕES
direção de Jorge Ileli
  elenco: Jece Valadão, Odete Lara, Glauce Rocha
Mário Benvenutti e Daniel Filho

1962
O PAGADOR de PROMESSAS
direção de Anselmo Duarte
  elenco: Leonardo Villar, Glória Menezes, Geraldo d’el Rey
e Othon Bastos

1962
Os CAFAJESTES
direção de Ruy Guerra
  elenco: Jece Valadão, Daniel Filho, Glauce Rocha
e Hugo Carvana
 
1962
O MAFIOSO
direção de Alberto Lattuada
  elenco: Alberto Sordi

1964
NOITE VAZIA
direção de Walter Hugo Khouri
  elenco: Odete Lara, Mário Benvenutti e Gabriele Tinti
 

1968
EDU, CORAÇÃO de OURO
direção de Domingos de Oliveira
  elenco: Paulo José, Leila Diniz, Joana Fomm
e Ziembinski

1968
ANTES, o VERÃO
direção de Gerson Tavares
elenco: Jardel Filho, Paulo Gracindo e Hugo Carvana
 
1970
Os DEUSES e os MORTOS
direção de Ruy Guerra
elenco: Othon Bastos, Ítala Nandi e Nelson Xavier

1971
A CASA ASSASSINADA
direção de Paulo César Saraceni
com Carlos Kroeber e Tetê Medina

1977
MAR de ROSAS
direção de Ana Carolina
  elenco: Otávio Augusto, Myrian Muniz e Hugo Carvana

1980
A IDADE da TERRA
direção de Glauber Rocha
elenco: Tarcísio Meira, Jece Valadão, Maurício do Valle,
Geraldo Del Rey, Ana Maria Magalhães e Danuza Leão
 
1981
EROS, o DEUS do AMOR
direção de Walter Hugo Khouri
  elenco: Dina Sfat, Renée de Vielmond, Lillian Lemmertz
Christiane Torloni e Selma Egrei

GALERIA de FOTOS

 
 


outubro 27, 2011

****************** SALA VIP: “AMARGO PESADELO”

burt reynolds e jon voigt


Não há heróis nesta história. Nem mesmo o formoso rio Cahulawassee, que está prestes a ser extinto em nome do progresso, devido a construção de uma gigantesca represa. A sua violência natural é tão assustadora e crescente que aniquila qualquer identificação com o espectador. Burt Reynolds, marcado por papéis heróicos, desta vez é um inconformado se rebelando contra a vida moderna, mas não encontra saída na sua própria imprudência (situação parecida vivida por Robert De Niro em “Taxi Driver / Idem”, 1976, e Edward Norton em “Clube da Luta / Fight Club”, 1999). É dele a ideia da aventura selvagem. “Não há riscos”, garante. Seus três amigos ingênuos e conformados com a domesticação capitalista, mesmo não tão ansiosos em relação ao perigo, topam a suposta diversão. A intenção deles é descer de canoa as corredeiras do arrebatado rio e acampar nas encostas, num fim de semana em contato com a natureza. Jamais imaginariam que trilhariam o caminho das trevas, sendo agredidos e ameaçados.

cox, voight, beatty e reynolds
billy redden

O argumento de AMARGO PESADELO se centra nesses quatro amigos suburbanos, de classe média. Lewis (o canastrão Burt Reynolds, no auge de sua exuberância sexual) é o valentão audacioso; Ed (Jon Voight), o sujeito tranqüilo, certinho e inseguro; Bobby (Ned Beatty), o típico gorducho fanfarrão, algo estúpido; e, por fim, Drew (Ronny Cox), músico sensível repleto de princípios e moralidade. No início, parece uma aventura corriqueira com homens desafiando águas furiosas, mas a adrenalina pueril se transforma num desafio pela sobrevivência, resultando em sequelas morais e emocionais. Nenhum deles jamais será o mesmo depois dessa estranha façanha. O roteiro sólido e simples, cresce ao retratar personagens de personalidades contrastantes, que, diante de contratempos, reage cada um ao seu modo, com julgamentos, escolhas e sentenças particulares.


voigt e cox

Com certeza, um dos melhores e mais excitantes filmes que vi este ano. Um clássico imune à passagem do tempo, porque vai ao encontro dos medos alojados nos nossos subconscientes. Está repleto de momentos de impacto, como aquele em que Ed e Bobby se encontram na floresta com dois caipiras irracionais - que molestam sexualmente um deles (uma cena espantosa, censurada nos cinemas, mas liberada em DVD) - ou o duelo de banjos entre Drew e um garoto autista. São cenas fortíssimas, difíceis de tirar da cabeça. Através de uma atmosfera aterrorizante, John Boorman deixa claro que o homem por mais que reinvente o mundo por meio da tecnologia, a discutível segurança da cidade perde-se quando se tem de sobreviver contra as forças da natureza e dos instintos dos seres mais próximos de suas raízes. Diretor de longas marcantes como “Inferno no Pacífico / Hell in the Pacif” (1968), “Excalibur / Idem” (1981) e “Esperança e Glória / Hope and Glory” (1987), o inglês Boorman tem em AMARGO PESADELO o melhor momento de sua carreira. Entre os competentes atores, destacam-se Jon Voight, personificando com realismo o sujeito civilizado obrigado a se tornar um bárbaro para reagir à violência com mais violência, e Ned Beatty, estreando no cinema.

jon voight
jon voigt

Filme-irmão de outra obra espetacular dos anos 1970, sobre confrontos violentos entre caipiras e forasteiros da cidade (“Sob o Domínio do Medo / Straws Dog”, 1971, de Sam Peckinpah), essa produção de baixo orçamento - US$ 2 milhões - parece jogar na cara do espectador a pergunta “E se fosse com você?”. E não é para menos, os eventos fictícios poderiam acontecer com qualquer um, pois isoladas e acuadas as pessoas certamente podem chegar ao nível de selvageria dos protagonistas. Escrito por James Dickey, aborda também o conflito que o progresso gera. Neste caso em especial, é como se a chegada de figuras urbanas representasse o fim da rotina que aqueles nativos se acostumaram a viver, algo ilustrado no próprio rio, que antes servia para a pesca e a recreação, e agora passaria a gerar energia. 

A ironia é que a amada natureza revelaria uma face igualmente agressiva para todos eles, resultando em um espetáculo cinematográfico inesquecível, com uma direção de fotografia fascinante de Vilmos Zsigmond (Espantalho / Scarecrow, 1973; O Franco Atirador / The Deer Hunter, 1978; Dália Negra / The Black Dahlia, 2006, etc.) - realçando o caráter sinistro e ameaçador da paisagem através do uso de sombras e tonalidades verde-escuras - e uma trama de pesadelos, cheia de suspense, mostrando a ilimitada perversidade humana. Durante duas horas, somos sugados por essa história tensa, repleta de aventura, é verdade, mas com muito mais a dizer do que podíamos imaginar, explorando a fina fronteira que nos separa dos animais. 

a cena do estupro
ned beatty

CURIOSIDADES

Sam Peckinpah queria dirigir o filme, mas John Boorman conseguiu os direitos de filmagem em primeiro lugar;

Boorman convidou Lee Marvin e Marlon Brando para interpretarem Ed e Lewis, respectivamente. Depois de ler o roteiro, Marvin afirmou que ele e Brando estavam velhos para este tipo de papel e sugeriu que fossem utilizados atores mais jovens;

Durante a subida de Ed pela pedra, Zsigmond utilizou filtro azul para dar a sensação de que a ação se passa a noite, numa técnica conhecida como “Noite Americana”;

Para reduzir os custos de produção e dar maior realismo, os atores foram seus próprios dublês. Por exemplo, Jon Voight realmente subiu aquela encosta;

jon voigt e ed ramey

Com o mesmo intuito, os habitantes de locais próximos foram escalados nos papéis dos moradores da região retratada na história;

O autor do livro e também roteirista James Dickey aparece em uma ponta como o xerife;

Burt Reynolds quebrou seu cóccix enquanto filmava cenas nas corredeiras;

Billy Redden não sabia tocar banjo e foi incapaz de fingir convincentemente, então outro jovem escondido atrás de sua cadeira manuseou o instrumento;

burt reynolds

Ned Beatty era o único dos quatro atores principais que sabia remar uma canoa antes das filmagens. Os demais aprenderam no set;

O duelo de banjos foi a primeira cena filmada. O resto do filme foi filmado em sequencia;

Rodado no rio Chattooga, que divide Carolina do Sul e Geórgia, no ano que se seguiu ao lançamento do filme, 31 pessoas se afogaram na tentativa de descer as corredeiras;

Um final alternativo foi rodado, mas cortado na edição final. Nele, um corpo é dragado do rio e mostrado aos três sobreviventes. O corpo nunca seria visto pelo espectador, que precisaria adivinhar a identidade do morto.

ned beatty, ed ramey, burt reynolds
 e jon voigt

AMARGO PESADELO
Deliverance
(1972)

País: EUA
Gênero: Drama
Duração: 110 mins.
Cor
Produção: John Boorman 
(Warner Bros. Pictures / Elmer Enterprises)
Direção: John Boorman
Roteiro: James Dickey
Adaptação do seu romance
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Edição: Tom Priestley
Cenografia: Fred Harpman (d.a.); (déc.)
Vestuário: Bucky Rous
Elenco: Jon Voight (“Ed”), Burt Reynolds (“Lewis”),
Ned Beatty, Ronny Cox, Ed Ramey e Billy Redden

Nota: ***** (ótimo)