Eu sou uma mulher que nunca fica fora de moda,
porque eu não
sou estrela, eu sou atriz.
NORMA BENGELL
NORMA BENGELL
O
cinema francês não se esquece de suas estrelas. Geralmente elas trabalham até idade
avançada, envelhecendo nas telas. O mesmo
não acontece nos Estados Unidos da América, mas os filhos de Tio
Sam reverenciam suas antigas glórias através de publicações, documentários,
vídeos, retrospectivas, tributos. O Brasil, um país sem memória, literalmente
apaga o passado. Os novos cineastas raramente convidam para os seus filmes
intérpretes que brilharam noutros tempos. Hoje, poucos brasileiros sabem da importância de atrizes/atores como Eliane Lage, Odete Lara, Joffre Soares, Adriana
Prieto, Isabel Ribeiro, Lillian Lemmertz, Paulo José, Tereza Raquel, Glauce Rocha, Jardel Filho, Anecy Rocha, Ítala Nandi, Darlene Glória, Othon Bastos etc.
![]() |
norma
(primeira à direita), odete lara,
leila diniz e outras atrizes na passeata dos cem mil contra a censura, 1968 |
Fascinava
por sua sensualidade e personalidade forte. Galãs como Alain Delon, Anselmo Duarte, Renato Salvatori e Gabriele Tinti se renderam ao charme da sex symbol. Premiada muitas vezes, capa
de revistas, polêmica, musa do Cinema Novo, comparada à francesa
Jeanne Moreau, NORMA BENGELL nos orgulha. Nos seus últimos anos de vida, paralítica e sem dinheiro, devendo uma
fortuna ao leão, possuía apenas uma casa, a cada dia mais vazia, porque vendia
os móveis e o acervo particular para sobreviver. Doente e endividada, a
atriz que viveu a glória do cinema nacional, recorreu à ajuda de amigos. Ao
escorregar num tapete, sofreu um tombo e precisou operar a coluna e o cotovelo.
Daí em diante, só saia para ir ao hospital. Numa cadeira de rodas, doente e falida, não era nem sombra da atriz cortejada dos anos 1960 e 1970.
O pai
era um belga que trabalhava como afinador de piano. A mãe, de família rica, deserdada
após casar com um
imigrante. A infância difícil, em Copacabana. NORMA BENGELL nasceu predestinada
a se tornar estrela de cinema. Por volta de 1936, o ator e diretor Raul
Roulien, de passagem pelo Rio, ao vê-la passeando no carrinho de bebê, pediu
permissão à mãe para filmá-la. Em 1945, seus pais se separaram e ela foi morar
com os avós paternos. Levada a um internato de freiras alemãs, não permaneceu por
muito tempo, sendo expulsa por indisciplina. No começo dos anos 1950, manequim da Casa Canadá, seu corpo escultural chamou a atenção, passando a atuar no teatro de revista em 1954, como vedete em “Fantasia e Fantasias”, no Copacabana Palace. Trabalhou
muitos anos com Carlos Machado nas boates “Casablanca” e “Night and Day”, com
temporadas em Montevidéu e Buenos Aires.
Estreou no cinema em 1959, na chanchada “O Homem de Sputnik”, produção da Atlântica estrelada por Oscarito e Jô Soares. Um mega sucesso, com público estimado em 8 milhões e meio de pagantes. Ela fazia uma sátira à francesa Brigitte Bardot - seu personagem chamava-se justamente B.B. A carreira de NORMA BENGELL no cinema se intensificou, rodando muitos outros filmes, além de se destacar no teatro na peça “Procura-se uma Rosa”, de Pedro Bloch. Ao atuar no drama urbano “Os Cafajestes”, se consagrou definitivamente, recebendo o prêmio Saci de Melhor Atriz. Nessa fita, protagonizou a primeira cena de nu frontal da história do cinema brasileiro, que a tornou alvo da Igreja Católica e da organização “Família, Tradição e Propriedade” (TFP). Em 1962, chamada por Anselmo Duarte para “O Pagador de Promessas”, brilhou no papel da prostituta Marli. O longa ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, dando a NORMA BENGELL o estrelato internacional.
Estreou no cinema em 1959, na chanchada “O Homem de Sputnik”, produção da Atlântica estrelada por Oscarito e Jô Soares. Um mega sucesso, com público estimado em 8 milhões e meio de pagantes. Ela fazia uma sátira à francesa Brigitte Bardot - seu personagem chamava-se justamente B.B. A carreira de NORMA BENGELL no cinema se intensificou, rodando muitos outros filmes, além de se destacar no teatro na peça “Procura-se uma Rosa”, de Pedro Bloch. Ao atuar no drama urbano “Os Cafajestes”, se consagrou definitivamente, recebendo o prêmio Saci de Melhor Atriz. Nessa fita, protagonizou a primeira cena de nu frontal da história do cinema brasileiro, que a tornou alvo da Igreja Católica e da organização “Família, Tradição e Propriedade” (TFP). Em 1962, chamada por Anselmo Duarte para “O Pagador de Promessas”, brilhou no papel da prostituta Marli. O longa ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, dando a NORMA BENGELL o estrelato internacional.
![]() |
| alberto sordi e norma em “o mafioso” |
Em 1964, aos 30 anos de idade e no auge da beleza, voltou ao Brasil para filmar a obra-prima de Walter Hugo Khouri, “Noite Vazia”, um dos melhores filmes da sua carreira. Nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz ela se casou com o italiano Gabriele Tinti (belo e de carreira medíocre, morreu em 1991, aos 59 anos), seu parceiro no filme, e a união durou até 1969. “Trabalhei em lugares fantásticos e conheci pessoas fantásticas, mas minha vida privada era confusa. Passei por muitos amores e decepções”, confessou numa entrevista. Teve uma experiência em Hollywood, estrelando o episódio “To Kill a Priest” (1966), com direção de Boris Sagal, da primeira temporada da famosa série “T.H.E. Cats” (Paramount / NBC), gravando para a trilha as canções de bossa-nova “Água de Beber” e “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
![]() |
| gabrielle tinti, o marido, e norma |
Ganhou o prêmio especial do júri do Festival de
Veneza por sua atuação em “A Idade da Terra” (1980). De volta, mais uma vez no terreno do
escândalo, em 1984, NORMA BENGELL afirmou ter feito 16 abortos. No mesmo ano,
rodou com Mick Jagger o videoclipe da música “She's the Boss”. No início dos
anos 1990, o cinema brasileiro ficou quase paralisado
com a extinção da Embrafilme, e durante
essa época ela se engajou na luta pela retomada do cinema nacional,
fazendo viagens à Brasília, onde aconteceu o famoso beijo no então
presidente Itamar Franco. Findada a mocidade, dirigiu e assinou o roteiro de “Eternamente
Pagu” (1988), protagonizado por Carla Camuratti, e “O Guarani” (1996), da obra de José de Alencar, entre outros. “O Guarani” foi um fracasso de
público e massacrado na imprensa, resultando em brigas com críticos.
![]() |
| gloria menezes, norma e leonardo vilar |
Após anos gravando em trilhas sonoras e discos de outros artistas, lançou seu segundo LP em 1977, “Norma Canta Mulheres”. Apresentou um programa semanal de música popular brasileira na Tupi, no qual recebia convidados com os quais cantava em dueto. Participou, também, dos programas “Carrossel” (TV Rio) e “Noite de Gala” (TV Rio). Contratada pela Globo, comandou o “Shell em Show Maior”, ao lado de Chico Buarque. Fez parte do elenco das telenovelas “Os Adolescentes” e “Os Imigrantes”, na Rede Bandeirantes; da minissérie “Parabéns pra Você”, de Bráulio Pedroso; das telenovelas “Partido Alto”, de Aguinaldo Silva e Glória Perez, e “O Sexo dos Anjos”, de Ivani Ribeiro.
Poucos
meses antes de morrer, a atriz que foi uma das deusas do Brasil, passava semanas
sem sair de casa, sem uma fonte de renda regular e sem poder saldar as dívidas
acumuladas. Segundo ela, teria sido enganada por seu advogado e, por conta
disso, estaria devendo cerca de R$ 4 milhões à Receita Federal em imposto de
renda. Às voltas com essas contas e mais as despesas médicas, não sabia
o que fazer. As pernas inchadas e o tempo agindo sobre seu corpo, somente nos
raros sorrisos e no olhar se notavam vestígios da NORMA
BENGELL de décadas atrás. Por causa das
pendências judiciais geradas com “O Guarani” seus bens e contas bancárias ficaram indisponíveis. Havia usado leis de
renúncia fiscal para levantar R$ 2,99 milhões. O Ministério da Cultura identificou irregularidades na prestação de
contas e o caso parou na Justiça. “Chegaram a me acusar de
não ter terminado o trabalho. Como podem dizer isso se o filme foi apresentado na Rede Globo para milhões de pessoas?”. Para piorar a
situação, sua companheira de 25 anos, Sonia
Nercessian, fotógrafa, morreu em 2007 de câncer.
![]() |
| norma em “vestido de noiva”, de nelson rodrigues, 1976 |
Depois
de gravar depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro,
dando testemunho sobre o que viveu, organizou seu acervo pessoal
(filmes, fotos, revistas, cartas etc.), que foi doado para a Cinemateca
Brasileira, e finalizou um livro de memórias que preparava há décadas, “Norma - Coisas Que Vivi”.
Além disso, sonhava em dirigir “Tudo por Amor”, sobre sua trajetória, que
tinha roteiro pronto. Seus
últimos filmes como atriz foram o longa “Vagas para Moças de Fino Trato”
(1992), de Paulo Thiago, e o curta “Banquete” (2002), de Marcelo Lafitte. Recebeu homenagem na 10ª edição do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro. “Minha vida foi muito bonita, e ainda é”, disse, sem disfarçar o tom melancólico e os olhos cheios d’água. A atriz
se queixava da solidão e do abandono, e estava bastante doente. Faleceu
em 2013, aos 78 de idade. De
sex-symbol à atriz dramática, NORMA BENGELL construiu uma carreira invejável. Considerava-se
“uma operária, uma trabalhadora do cinema”. Seu nome está unido
aos acontecimentos da cultura brasileira na segunda metade do último século. “Foi
o cinema que me fez conhecer o mundo inteiro, foi o cinema que me deu de comer,
que me fez ser amada e odiada. Então, esse cinema é a minha vida”.
Fontes
“Enciclopédia do Cinema Brasileiro”
de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1929/1988”
de
Salvyano Cavalcanti de Paiva
NORMA BENGELL em DOZE FILMES
1961
MULHERES e MILHÕES
direção de Jorge Ileli
elenco: Jece Valadão, Odete Lara, Glauce Rocha
Mário Benvenutti e Daniel Filho
1962
O PAGADOR de PROMESSAS
direção de Anselmo Duarte
elenco: Leonardo Villar, Glória Menezes, Geraldo d’el Rey
e Othon Bastos
1962
Os CAFAJESTES
direção de Ruy Guerra
elenco: Jece Valadão, Daniel Filho, Glauce Rocha
e Hugo Carvana
1962
O MAFIOSO
direção de Alberto Lattuada
elenco: Alberto Sordi
1964
NOITE VAZIA
direção de Walter Hugo Khouri
elenco: Odete Lara, Mário Benvenutti e Gabriele Tinti
1968
EDU, CORAÇÃO de OURO
direção de Domingos de Oliveira
elenco: Paulo José, Leila Diniz, Joana Fomm
e Ziembinski
1968
ANTES, o VERÃO
direção de Gerson Tavares
elenco: Jardel Filho, Paulo Gracindo e Hugo Carvana
1970
Os DEUSES e os MORTOS
direção de Ruy Guerra
elenco: Othon Bastos, Ítala Nandi e Nelson Xavier
1971
A CASA ASSASSINADA
direção de Paulo César Saraceni
com Carlos Kroeber e Tetê Medina
1977
MAR de ROSAS
direção de Ana Carolina
elenco: Otávio Augusto, Myrian Muniz e Hugo Carvana
1980
A IDADE da TERRA
direção de Glauber Rocha
elenco: Tarcísio Meira, Jece Valadão, Maurício do Valle,
Geraldo Del Rey, Ana Maria Magalhães e Danuza Leão
1981
EROS, o DEUS do AMOR
direção de Walter Hugo Khouri
elenco: Dina Sfat, Renée de Vielmond, Lillian Lemmertz
Christiane Torloni e Selma Egrei
GALERIA de FOTOS
GALERIA de FOTOS




























