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abril 19, 2019

************************** NOSSAS MUSAS NUAS

leila diniz

 
Símbolos sexuais e belezas lendárias do Cinema Novo, não eram intérpretes de impressionantes qualidades dramáticas, mas rasgaram o coração e trabalharam incansavelmente. Angustiadas, insatisfeitas e libertárias, forjaram existência no livre-arbítrio, no consumo de drogas e na exuberância erótica, em pleno Regime Militar. Suas biografias foram contadas inúmeras vezes, nem sempre com justiça. Fascinantes e contraditórias, LEILA DINIZ, DARLENE GLÓRIA e ODETE LARA deixaram sua marca no cinema brasileiro, mas não suportaram o peso da fama. Consumidas pelo êxito, terminaram por repudiar cinema e badalações, em busca de algum júbilo.

LEILA DINIZ
(1945 - 1972. Niterói / Rio de Janeiro)
 
Defensora do amor livre e do prazer sexual, a carismática fluminense mais personalidade que propriamente atriz, é a nossa Brigitte Bardot. Representa o espírito inquieto dos anos 1960, ousadia esta afirmada em 1969 no jornal “O Pasquim”, numa sincera entrevista que causou furor. Na ocasião, separada de Domingos de Oliveira, vivia com o cineasta Ruy Guerra, pai de sua filha Janaína. Ela falava da vida privada sem pudor, sendo perseguida pela censura.  
 
Alegando razões morais, a TV Globo não renovou o contrato da atriz. Segundo o recado malvado da dramaturga Janete Clair, não havia papel de prostituta nas próximas telenovelas da emissora. Considerada à frente de seu tempo, chocava o país com frases como: “Transo de manhã, de tarde e de noite” ou “Homem tem que ser durão”. Invejada e criticada pela sociedade machista, era malvista, difamada pela esquerda e considerada vulgar por muita gente.

Enfrentando a barra, foi à luta, colecionando êxitos no cinema, televisão e teatro. Atuou em mais de dez telenovelas, entre elas, “O Sheik de Agadir” (1966) e “E Nós, Aonde Vamos?” (1970). Esteve nas peças “O Preço de um Homem” (1962), direção de Ziembinski, e “Tem Banana na Banda (1970), uma revista musical de sucesso. No cinema, estreou aos 21 anos, em 1967, atuando em 15 filmes. Com “Mãos Vazias”, LEILA DINIZ ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema da Austrália. Ao voltar da viagem australiana, seu avião explodiu na Índia, numa tragédia que sensibilizou o Brasil. Tinha somente 27 anos. Em 1987, Louise Cardoso encarnou a musa na cinebiografia dirigida por um amigo da estrela, Luiz Carlos Lacerda.

DARLENE GLÓRIA
(1943. São José do Calçado / Espírito Santo)
 
Ex-cantora de rádio e ex-atriz de circo, a bela capixaba levou às telas a vivacidade da experiência como vedete de Teatro de Revista. Sua estreia no cinema aconteceu em 1964, em “Um Ramo para Luiza”. Atuou nos emblemáticos “São Paulo S. A.”, de Luís Sérgio Person, e “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Participou de filmes inexpressivos, como “Os Homens Que Eu Tive” (1973), de Tereza Trautman, inspirado na vida de Leila Diniz e proibido durante anos.

Ela teve seu grande momento como a nelsonrodriguiana prostituta Geni de “Toda Nudez Será Castigada”, de Arnaldo Jabor, numa atuação visceral que lhe rendeu prêmios, inclusive o de Melhor Atriz no Festival de Berlim, no Festival de Gramado e a Coruja de Ouro. “O papel de Geni foi o primeiro que recebi, em toda a minha vida, à altura do meu talento. Só que, quando eu fui convidada, já estava morrendo. Estava mergulhada num mundo de drogas, vivia à base de cocaína, LSD, maconha e álcool, para escapar a frustração dos meus desencontros amorosos e fiz o filme com ódio, com muito ódio! Depois, quando o filme estreou e fez sucesso no mundo inteiro, já não tinha condições de reagir”, disse DARLENE GLÓRIA em uma entrevista reveladora em 1991.

Após “Um Homem Célebre”, passou por uma depressão, tentou o suicídio e trocou o cinema pela religião evangélica, tornando-se a pastora Helena Brandão e se mudando para Nova Iorque, onde fez vídeos religiosos. Voltou às telas em “Até que a Vida nos Separe” (1999), de José Zaragosa, e nas telenovelas “Carmen” (1987) de Glória Perez e “Araponga” (1999) de Dias Gomes, Ferreira Gullar e Lauro César Muniz. Ela confessou que foi estuprada por vários homens quando ainda era menor de idade.

De vida pessoal atribulada, casou-se duas vezes, uma delas com o policial Mariel Mariscot, acusado de pertencer ao Esquadrão da Morte (sua vida pode ser vista no filme “Eu Matei Lúcio Flávio”, de 1979) e pai do seu primeiro filho. Em 2008 brilhou no denso longa de estreia de Selton Mello como diretor, “Feliz Natal”, interpretando Mércia, uma mãe alcoólatra e protetora. Pela atuação venceu o prêmio de Melhor Atriz nos festivais de cinema do Paraná, Paulínia e Goiânia. No curta-metragem “Ninguém Suporta a Glória” (2004), de Adriano Lírio, são lembrados fragmentos da vida camaleônica.

ODETE LARA
(1929 - 2015. São Paulo / SP)
 
Deusa maior do cinema nacional, sensual e enigmática, ela incendiou a imaginação do público desde sua participação na chanchada “O Gato de Madame” (1956), ao lado de Mazzaropi. De origem italiana, queria ser dançarina, abraçando casualmente a carreira cinematográfica e atuando em mais de trinta filmes. 
 
Era secretária de um escritório, quando foi convidada para desfilar no MASP. Em pouco tempo, foi lançada como atriz na peça “Santa Marta Fabril”, de Abílio Pereira de Almeida. Sinônimo de talento, capaz de interpretar mulheres vulgares e sofisticadas. Um dos seus primeiros filmes, “Na Garganta do Diabo” (1959), de Walter Hugo Khouri, a levou a bons personagens. Em 1962, causou sensação na versão de Nelson Pereira dos Santos para “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues.

Repetiu com Khouri no famoso “Noite Vazia”, ao lado de Norma Bengell, como uma dupla de prostitutas de luxo que dois amigos atraem para uma noitada libidinosa. Esteve muito bem em “Copacabana me Engana” e “A Rainha Diaba” (1974), ambos de Antonio Carlos Fontoura. Como a Irene do primeiro recebeu o Air France e a Coruja de Ouro de Melhor Atriz. Bruno Barreto a transformou numa lésbica cantora de rádio, Dulce Veiga, amante de Betty Faria em “A Estrela Sobe”. Fez parte do universo de Glauber Rocha em “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, premiado em Cannes, e “Câncer” (1972).

Abandonou o cinema em 1974, ainda no auge. Voltaria a fazer mais adiante três filmes e a telenovela global “O Dono do Mundo” (1991), de um dos seus admiradores, Gilberto Braga. Como o contista Caio Fernando Abreu, o jornalista Eduardo Logullo e tantos outros, sou da turma que reconhece ODETE LARA como a mais “fascinante estrela do cinema nacional”. Norma Bengell chegou perto, mas o título pertence a formosa protagonista de “Os Herdeiros” (1969). Ela atuou também no teatro, fazendo 15 peças, entre elas, “Se Correr o Bicho Pega se Ficar o Bicho Come”, de Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho, em 1966. Verdadeira lenda, teve algum êxito como cantora bossanovista, lançando dois discos e participando de shows. 
 
Como LEILA DINIZ e DARLENE GLÓRIA, ODETE LARA mergulhou fundo no sexo descartável e nas drogas. Terminou por abandonar tudo, inclusive o cinema, pelo budismo e temporadas em mosteiros na Índia, Japão e Estados Unidos. “Angústia e ansiedade na minha vida eram uma constante absoluta. Até certo período, eu ainda tinha esperança de que, se obtivesse muito sucesso esta angústia iria se dissolver. Achava que me sentia angustiada por não me achar realizada, entende? Mas aí, quando tive sucesso, vi que ela não passava, e, pelo contrário, se intensificava. Então procurei dissolvê-la de outra forma, já que não conseguia através da profissão”, desabafou.

Casou-se com o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho e o diretor de cinema Antonio Carlos Fontoura. Durante muitos anos recolheu-se em um sítio em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, plantando, escrevendo, lendo e meditando. “Eu, Nua”, o primeiro volume de sua autobiografia distribuída em mais duas publicações, deu o que falar. Sua história chegou às telas em “Lara” (2000), de Ana Maria Magalhães. Atrizes sensuais, paparicadas, capa de revistas e convidadas especiais de programas de tevê. Mulheres iluminadas, joias da melhor qualidade. Machucadas, feridas, rotuladas e infelizes, descontrolaram-se, perdendo a satisfação com a profissão de atriz. Este universo sem entusiasmo, exagerado e frustrante, revelou uma complexidade de espantos, oscilando entre a afirmação artística e o sentimento opressivo de rejeição. Por fim, reiniciaram suas vidas, com um futuro incerto. LEILA DINIZ morreu jovem, DARLENE GLÓRIA e ODETE LARA optaram pelo anonimato.

A beleza sedutora e seus costumes avançados jamais foram olvidados (como esquecer LEILA DINIZ de biquíni, grávida e sorridente, nas águas de Ipanema?). São aves raras de um tempo em que o cinema brasileiro tinha prestígio, arrebatava prêmios em festivais internacionais e produzia atrizes de excelência como Luiza Maranhão, Adriana Prieto, Helena Ignêz, Anecy Rocha, Norma Bengell, Lillian Lemmertz ou Isabel Ribeiro. Recordá-las é celebrar a arte nacional que ilumina mentes e corações. 


FILMOGRAFIA SELECIONADA

CINCO FILMES de LEILA DINIZ

01
TODAS as MULHERES do MUNDO (1967)
direção de Domingos de Oliveira

02
EDU, CORAÇÃO de OURO (1968)
direção de Domingos de Oliveira

03
FOME de AMOR (1968)
direção de Nelson Pereira dos Santos

04
AZYLO MUYTO LOUCO (1969)
direção de Nelson Pereira dos Santos

05
MÃOS VAZIAS (1971)
direção de Luiz Carlos Lacerda

CINCO FILMES de DARLENE GLÓRIA

01
SÃO PAULO S. A. (1965)
direção de Luís Sérgio Person

02
TERRA em TRANSE (1967)
direção de Glauber Rocha

03
TODA NUDEZ será CASTIGADA (1973)
direção de Arnaldo Jabor

04
Um HOMEM CÉLEBRE (1974)
direção de Miguel Faria Jr.

05
FELIZ NATAL (2008)
direção de Selton Melo

CINCO FILMES de ODETE LARA

01
BOCA de OURO (1962)
direção de Nelson Pereira dos Santos

02
NOITE VAZIA (1964)
direção de Walter Hugo Khouri

03
COPACABANA me ENGANA (1968)
direção de Antonio Carlos Fontoura

04
O DRAGÃO da MALDADE contra o SANTO GUERREIRO (1969)
direção de Glauber Rocha

05
A ESTRELA SOBE (1974)
direção de Bruno Barreto

GALERIA de FOTOS


janeiro 29, 2017

************************ JORGE AMADO no CINEMA




  Ilustrações:
CARYBÉ
(1911 - 1997. Lanús / Argentina)

O cheiro de cravo,
a cor de canela,
eu vim de longe
vim ver Gabriela.

modinha da zona do cacau


Um dos escritores mais importantes da literatura brasileira e um dos mais traduzidos para outros idiomas, pai de Gabriela e de Tieta do Agreste, JORGE AMADO (1912 - 2001. Itabuna / Bahia) nasceu na fazenda Auricídia, no sul da Bahia. Quando tinha apenas um ano, sua família se mudou para Ilhéus devido à uma epidemia de varíola. Foi lá que o menino passou a infância e de onde tirou inspiração para vários de seus futuros romances. Publicou 45 livros. Imortalizado por clássicos como “Terras do Sem-Fim” (1943) e “Gabriela, Cravo e Canela” (1958). Suas histórias são sobre o povo baiano, sua fé e sensualidade; a força das matas, os sabores da culinária, coronéis e jagunços, malandros e prostitutas, trabalhadores rurais e pescadores. Um acervo literário em 49 idiomas que mostra uma Bahia culturalmente rica e lúdica.

zélia gattai e jorge amado
Figura frequente no cinema e na televisão. Conversei com ele algumas vezes, entrevistei-o para tevê e jornal, fiz crônicas sobre sua literatura libidinosa. JORGE AMADO era afetuoso por natureza, respondendo todas as cartas que recebia de leitores, muitos deles jovens escritores pedindo conselhos. Amigo de Federico Fellini, ao lado de Nelson Rodrigues é o escritor nacional com maior número de adaptações para o cinema. Mas não teve a sorte do alagoano Graciliano Ramos, que conta com algumas de suas obras adaptadas entre os bons filmes do nosso cinema – “Vidas Secas” (1962), “São Bernardo” (1971) e “Memórias do Cárcere” (1984).

jorge amado e sophia loren
A obra do autor de “Tocaia Grande: A Face Obscura” (1984) serviu como matéria-prima para 15 longas-metragens, e de todos eles, talvez o melhor seja o divertido e erótico “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976).  As demais adaptações são ruins ou irregulares. Procurado por produtores e lido mundialmente, JORGE AMADO foi até jurado do Festival de Cannes. Sua prosa vem sendo levada para a telona desde 1948, quando Anselmo Duarte e Maria Fernanda estrelaram “Terra Violenta”. André Setaro, crítico de cinema, explica que o interesse pela sua obra se deve ao fato dele transpor a linguagem do povo nos seus romances, e também pelo cômico e sensual nas narrativas.

jorge amado e glauber rocha
Em 1979, o polêmico Glauber Rocha dirigiu “Jorge Amado no Cinema”, documentário de 36 minutos. Pouco conhecido, fala sobre a obra do escritor baiano, sua carreira literária e as adaptações cinematográficas de seus romances, especialmente “Tenda dos Milagres” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Entrevista JORGE AMADO em sua casa no Rio de Janeiro. Na intimidade, ele apresenta sua família. Amigos e parentes opinam sobre filmes baseados em suas obras. Cineastas e atores falam sobre “Tenda dos Milagres. Depois dos recentes “Quincas Berro D’Água”, “Capitães da Areia” e “O Duelo”, o triângulo vivido na década de 1970 por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça volta ainda este ano numa refilmagem de “Dona Flor e seus Dois Maridos”.

FILMES INSPIRADOS em JORGE AMADO

TERRA VIOLENTA
(1948)

direção de Edmond Bernoudy e Paulo Machado
adaptação de TERRAS do SEM FIM
elenco: Anselmo Duarte, Maria Fernanda, Grande Otelo, Sady Cabral, Ziembinski, 
Ruth de Souza e Mário Lago

Esquecido, iniciou o namoro do cinema com Jorge Amado. Produzido pela Atlântida Cinematográfica, resultou em fiasco lamentável. Tudo por causa de norte-americano (Bernoudy) que chegou ao Brasil com a fama de ter sido assistente de gênios em Hollywood, mas na verdade nada entendia de cinema. Faz parte da filmografia de um dos maiores galãs da história do cinema brasileiro, Anselmo Duarte. No elenco excelente, no auge de sua beleza, Maria Fernanda, filha da poeta Cecília Meireles.

VENDAVAL MARAVILHOSO
(1949)

direção de Leitão de Barros
adaptação do livro ABC de CASTRO ALVES
elenco: Paulo Maurício, Amália Rodrigues e Barreto Poeira

História do poeta Castro Alves, desde o nascimento em 1847 a passagem pelo curso de Direito, e a acesa defesa poética pelos direitos dos escravos. Aos dezoito anos conhece a atriz Eugenia Câmara e se apaixona. O filme reflete as dificuldades da produção, as mutilações do argumento proibido inicialmente, o desencontro do resultado. Depois dele, o cineasta Leitão de Barros não regressaria nunca mais ao cinema de ficção.

SEARA VERMELHA
(1963)

direção de Alberto D’Avessa
adaptação do romance homônimo
elenco: Margarida Cardoso, Marilda Alves, Sady Cabral, Mauro Mendonça, 
Nelson Xavier e Jurema Penna

A realidade socioeconômica dos flagelados da seca que emigram para o sul do país. O diretor italiano D’Aversa transmite o clima de sofrimento e miséria sem resvalar para o pieguismo. Excelentes desempenhos do elenco.

CAPITÃES da AREIA
(The Sandpit Generals, 1971)

direção de Hall Bartlett
adaptação do romance homônimo
elenco: Kent Lane, Tisha Sterling, Eliana Pittman, John Rubinstein e Marisa Urban

 Em participação especial, Dorival Caymmi. A vida dos menores abandonados “Capitães da Areia”, como eram conhecidos na cidade de Salvador, nos anos 1930. Por ser obra estrangeira e sem sucesso, geralmente não é lembrada quando se fala no livro. Premiada no Festival de Moscou, chegou ao Brasil nas madrugadas televisivas, rebatizada de “Dora”. O sexto romance de Jorge Amado resultou, também, em minissérie de tevê, dirigida por Walter Lima Jr, e em várias montagens teatrais. 

DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
(1976)

direção de Bruno Barreto
adaptação do romance homônimo
elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça, Nelson Xavier e Nelson Dantas 

O segundo maior sucesso da história do cinema brasileiro. Mais de 10 milhões de telespectadores. Atrás apenas de “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro” (2010), de José Padilha. A graciosa e sensual Sônia Braga, no auge da forma, interpreta com carisma a professora de culinária Dona Flor. José Wilker, hilário, como o fogoso ex-marido que volta dos mortos para apimentar sua vida, e Mauro Mendonça no papel do Dr. Teodoro, o farmacêutico que se casa com a viúva. Bruno Barreto assumiu a direção, aos 21 anos, depois que Glauber Rocha não pôde dirigi-lo. Para surpresa geral, realizou uma comédia atraente, leve e divertida que encantou o Brasil e o estrangeiro. As apimentadas cenas de sexo e nudez foram muito faladas na época do lançamento.

Os PASTORES da NOITE (OTÁLIA da BAHIA)
(1975)

direção de Marcel Camus
adaptação do romance homônimo
elenco: Grande Otelo, Antonio Pitanga, Zeni Pereira, Jofre Soares e Mira Fonseca

O francês Camus ganhou a Palma de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “Orfeu Negro” (1959), baseado no musical de Vinicius de Moraes. Depois de apresentar o Brasil para o mundo com essa fábula, voltou a mirar suas câmeras para o nosso país através do universo de Jorge Amado. O cineasta partiu do segundo dos três episódios de “Os Pastores da Noite” para escrever o roteiro do filme. Superficial e confuso, conta como Otália transforma a vida de vários homens. A trilha sonora de Antonio Carlos e Jocafi talvez tenha sido até mais famosa do que o próprio longa-metragem. Em 2002, a Globo apresentou nova versão de “Os Pastores da Noite”, em quatro episódios.

TENDA dos MILAGRES
(1976)

direção de Nelson Pereira dos Santos
adaptação do romance homônimo
elenco: Jards Macalé, Anecy Rocha, Hugo Carvana, Nildo Parente e Jofre Soares

Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival de Brasília. Nelson Pereira dos Santos colocou muito de sua visão pessoal. Na história, um intelectual norte-americano em passagem por Salvador resgata a figura de Pedro Arcanjo, que no início do século contestou o racismo, defendeu a miscigenação e documentou a cultura africana. Sexualidade, misticismo e até antropologia estão no caldeirão, que o cineasta encheu com doses generosas de loucura carnavalesca. Desigual, conta com participações especiais de Mãe Menininha do Gantois, Carybé, Mestre Pastinha e Juarez Paraíso.

MEU ADORÁVEL FANTASMA
(Kiss me Goodbye, 1982)

direção de Robert Mulligan
adaptação de DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
elenco: Sally Field, James Caan, Jeff Bridges, Paul Dooley, Claire Trevor 
e Mildred Natwick

O filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” fez tanto sucesso que foi refilmado nos EUA como comédia romântica. Após três anos da morte do marido, uma viúva conhece outro homem, um egiptólogo do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, e se apaixona. Mas, um dia antes de seu casamento, o fantasma do primeiro marido vem fazer uma surpresa. Apesar de boas intenções e elenco famoso, não deu lucro.

GABRIELA
(1983)

direção de Bruno Barreto
adaptação do romance GABRIELA, CRAVO e CANELA
elenco: Sônia Braga, Marcello Mastroianni, Paulo Goulart, Nelson Xavier, 
Jofre Soares, Nicole Puzzi e Miriam Pires

Produção internacional que se tornou uma grande decepção. Segundo filme de Bruno Barreto baseado na obra do escritor, traz também Sonia Braga outra vez, agora reprisando o papel que fez na televisão na telenovela de 1975 – com “Tieta do Agreste”, ela reafirmaria seu posto como musa da obra de Jorge Amado. Parte do encanto da história está na relação apimentada entre a protagonista e seu marido, o turco Nacib, vivido por Marcelo Mastroianni dublado em português. A direção é confusa e as atuações caricatas. A versão da Globo, dirigida por Walter Avancini, é superior. O mesmo não pode ser dito sobre a versão mais recente, com Juliana Paes.

JUBIABÁ
(1987)

direção de Nelson Pereira dos Santos
adaptação do romance homônimo
elenco: Charles Baiano, Françoise Goussard, Raymond Pellegrin, Zezé Motta, 
Betty Faria, Ruth de Souza, Jofre Soares e Grande Otelo

Os franceses do elenco estão deslocados, principalmente a protagonista Françoise Goussard. Não transmite autenticidade na luta do negro Baldo que se apaixona por loura filha de comendador, vira malandro de beira de cais e boxeador imbatível.

TIETA do AGRESTE
(1996)

direção de Cacá Diegues
adaptação do romance homônimo
elenco: Sônia Braga, Marília Pera, Cláudia Abreu, Chico Anysio, Patrícia França, 
Zezé Motta e Jece Valadão

Estive nas filmagens, no povoado de Picado, no município de Conceição do Jacuípe, entrevistando Sônia Braga. Jorge Amado aparece em rápida participação na primeira cena. Amigos de muitos anos, Sônia convidou Cacá para dirigi-la. Faz uma prostituta bem sucedida que retorna a terra natal, a pequena Santana do Agreste, após 25 anos de ausência. Sua volta causa apreensão, uma vez que saiu escorraçada pelo pai, movido pelas intrigas da irmã mais velha. A chegada de Tieta, rica e poderosa, aguça a ambição não só dos familiares, mas de toda cidade. Inevitavelmente comparado à telenovela de sucesso, protagonizada por Betty Faria e Joana Fomm, não conquistou o público. Na década de 80, a diretora italiana Lina Wertmüller foi quem primeiro adquiriu os direitos para o cinema de “Tieta do Agreste”. Amiga de Jorge Amado, Lina convidou Sophia Loren para estrelar o filme e Cláudia Ohana para o papel da protagonista jovem. O projeto terminou misteriosamente abandonado. Curiosamente, Cláudia retomaria a personagem - Tieta jovem - alguns anos mais tarde, na telenovela global.

QUINCAS BERRO D’ÁGUA
(2010)

direção de Sérgio Machado
adaptação do livro A MORTE e a MORTE de QUINCAS BERRO D´ÀGUA
elenco: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, 
Frank Menezes e Irandhir Santos

Uma das obras mais celebradas de Jorge Amado. Repleta de realismo mágico, conta a saga impagável de um boêmio que não abandona a farra nem depois de morto, revelando com humor o choque entre classes diferentes que de repente são obrigadas a conviverem em um velório. Comédia simática que traz o extraordinário Paulo José como o morto Quincas, outrora membro da alta sociedade da Salvador, que troca tudo pela boemia. Como despedida, é tirado do leito de morte pelos fiéis companheiros de bebedeira e levado nos braços para uma última farra. O diretor criou novas situações e personagens, como a cafetina Manuela (Marieta Severo), e investiu mais nas ruas de Salvador, contrariando o livro que se concentra no local onde ocorre o velório de Quincas.

CAPITÃES da AREIA
(2011)

direção de Cecília Amado
adaptação do romance homônimo
elenco: Jean Luís Souza de Amorim, Ana Graciela Conceição da Silva, 
Romário Santos de Assis e Israel Vinícius Gouvêa de Souza

Inferior ao livro, sendo, apenas, pálido reflexo deste. Mas retrata com autenticidade a vida de meninos de rua de Salvador. Dirigido pela neta de Jorge Amado, Cecília, que leu a obra pela primeira vez aos 14 anos, levou milhares de brasileiros aos cinemas. Atenção para a liberdade e inquietação de Pedro Bala, o herói da história.

O DUELO
(2015)

direção de Marcos Jorge
adaptação do romance Os VELHOS MARINHEIROS
elenco: Joaquim de Almeida, Cláudia Raia, José Wilker, Patrícia Pillar, 
Marcio Garcia e Milton Gonçalves

O romance se passa no início do século XX, mas o filme se adianta em algumas décadas. Com cenários grandiosos e numerosos efeitos especiais, apresenta o comandante Vasco Moscoso de Aragão e sua agitada chegada em uma cidadezinha balneária, a vila de Periperi, situada nas proximidades de um grande município portuário. Maduro, este pitoresco forasteiro vem para ficar, buscando repouso depois de uma longa vida de aventuras por todos os mares do globo. Ele conquista a todos com as histórias de suas façanhas nos quatro cantos do mundo. O filme discute o tema da construção da verdade e do mito, avançando e recuando no tempo.

DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
(2017)

direção de Pedro Vasconcelos
adaptação do romance homônimo
elenco: Juliana Paes, Marcelo Faria, Leandro Hassum, Nívea Maria, Fabio Lago, Cassiano Carneiro e Duda Ribeiro.

O clássico de Jorge Amado mais uma vez nas telas. Juliana interpreta mais um personagem do escritor baiano, a primeira foi Gabriela. Marcelo Faria vive Vadinho, que o ator interpretou durante anos no teatro. As filmagens duraram cinco semanas e tiveram locações em Salvador e no Rio de Janeiro.