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dezembro 30, 2018

************************** 12 FILMES de 2018

“leopardi: um jovem fabuloso”

 
O ano de 2018 foi interessante para a sétima arte, com muitos filmes aplaudidos pela crítica e pelo público. Dentre eles, mais uma vez selecionamos as nossas produções cinematográficas favoritas. Foram considerados apenas os filmes que assistimos a partir do dia 1º de janeiro de 2018 e produzidos recentemente. Os doze escolhidos foram reunidos em uma lista, que contempla obras de diretores de diferentes perfis e gêneros do cinema. Há recordes de bilheterias ou alguns mais tímidos em volume arrecado, mas igualmente apreciados pelos que puderam conferi-los nas telonas. Confira.

01
A TERNURA
(La Tenerezza, 2017)

drama
direção de Gianni Amelio
elenco: Renato Carpentieri, Giovanna Mezzogiorno, Elio Germano e Greta Scacchi
Itália

Um advogado aposentado que vive em Nápoles, egoísta e cínico, vive em constante conflito com seus filhos. Ao voltar do hospital para casa, depois de um ataque cardíaco, conhece sua nova vizinha, desenvolvendo uma inexplicável afeição por ela e seu marido. Sem exageros ou rompantes melodramáticos, o diretor conduz um longa sóbrio, em que, mesmo sutil e silenciosa, a ternura do título se faz presente comprovando o seu poder.

David di Donatello de Melhor Ator

02
LEOPARDI: um JOVEM FABULOSO
(Il Giovane Favoloso, 2014)

drama
direção de Mario Martone
elenco: Elio Germano, Michele Riondino e Massimo Popolizio
Itália

Recria com sensibilidade a vida do poeta Giacomo Leopardi (1798 - 1837), da infância cercada de estudos e livros em Nápoles aos salões literários italianos. De saúde frágil, cheio de limitações físicas (desenvolveu uma corcunda ainda muito jovem) e atormentado pela solidão e desiludido com as relações humanas, ele gerou uma obra cheia de melancolia e pessimismo. O filme recebeu aplausos da crítica, prêmios e é pontuado por diversas poesias do autor de “Operette Morali” (1827). Grande atuação de Elio Germano.

David di Donatello de Melhor Ator
Melhor Ator no Festival de Veneza

03
Uma QUESTÃO PESSOAL
(Una Questione Privata, 2017)

drama
direção de Paolo e Vittorio Taviani
elenco: Luca Marinelli, Lorenzo Richelmy e Valentina Bellè
Itália | França

Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, militar italiano encontra-se dividido entre a luta contra os nazi-fascistas, a amizade com os companheiros de exército e um amor clandestino. Os irmãos Taviani adaptam uma obra importante da literatura italiana, de Beppe Fenoglio, confirmando, simultaneamente, a juventude artística da veterana dupla com um longa belo e capaz de surpreender. Destaque para Luca Marinelli.

04
ROMA
(Idem, 2018)

drama
direção de Alfonso Cuarón
elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira e Diego Cortina Autrey
México | EUA

Produção da Netflix dirigida pelo premiado diretor mexicano Alfonso Cuarón. Conta a história de uma jovem que trabalha como babá e doméstica de uma família de classe média, moradora do bairro Roma, na Cidade do México, em 1970. Em um ano, muitos acontecimentos irão abalar a rotina dela e de seus patrões. O pai da família deixa sua mulher e quatro filhos para viver um novo amor, causando uma série de situações que afetarão drasticamente a vida de todos que vivem lá.

Melhor Filme e Melhor Fotografia da Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles
Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Fotografia dos Críticos de Cinema de Nova York
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cinema de Veneza

05
INFILTRADO na KLAN
(BlacKkKlansman, 2018)

criminal
direção de Spike Lee
elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier e Alec Baldwin
EUA

Spike Lee acerta ao atacar o racismo sem medo de confrontar gigantes. A metralhadora giratória do diretor dispara sem piedade, misturando humor e revolta em um mesmo coquetel explosivo. Em 1978, nos Estados Unidos, um policial negro se infiltra na Ku Klux Klan, com a ajuda de outro policial branco, que participava das reuniões em seu lugar. Com o tempo, ele acaba se tornando líder da seita, conseguindo sabotar uma série de linchamentos e outros crimes planejados pelos supremacistas brancos.

Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

06
VOCÊ NUNCA ESTEVE REALMENTE AQUI
(You Were Never Really Here, 2017)

criminal
direção de Lynne Ramsay
elenco: Joaquin Phoenix, Judith Roberts e Ekaterina Samsonov
Reino Unido | França | EUA

Um veterano de guerra trabalha resgatando mulheres presas em cativeiros e exploradas sexualmente. Quando enfrenta uma missão em um bordel de Manhattan, ele acaba se envolvendo em um mal-entendido, e a opinião pública se volta contra ele.

Melhor Ator e Melhor Roteiro no Festival de Cannes

07
ASSUNTO de FAMÍLIA
(Manbiki kazoku, 2018)

criminal
direção de Hirokazu Koreeda
elenco: Lily Franky, Sakura Andô e Mayu Matsuoka
Japão

Depois de cometerem alguns furtos, pai e filho se deparam com uma garotinha. Apesar de relutantes, eles abrigam a garota e a esposa concorda em cuidar dela. Embora a família seja pobre e roube para sobreviver, eles parecem viver felizes. Todos se amam, se cuidam. Até que um incidente revela segredos escondidos, testando os laços que os unem. Um olhar singelo e cirúrgico sobre as relações humanas que faz do diretor japonês Koreeda um dos grandes cineastas da atualidade.

Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
Melhor Filme Estrangeiro da Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles

08
A FAVORITA
(The Favourite, 2018)

comédia
direção de Yorgos Lanthimos
elenco: Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz
Irlanda | Reino Unido | EUA

A Inglaterra está perto de terminar uma guerra contra a França, em 1713. Porém, a rainha precisa tomar uma decisão importante: fazer um acordo de paz ou dar um golpe de misericórdia contra a nação inimiga. A segunda opção é a escolha da duquesa conselheira que controla a rainha. Mas tudo muda com a chegada de uma ambiciosa criada de origem nobre que quer tomar o lugar da duquesa. O trio feminino protagonista está espetacular nessa comédia de costumes ácida e cruel.

Melhor Atriz no Festival de Veneza

09
Um LUGAR SILENCIOSO
(A Quiet Place, 2018)

terror
direção de John Krasinski
elenco: Emily Blunt, John Krasinski e Millicent Simmonds
EUA

Em uma fazenda dos Estados Unidos, uma família é perseguida por uma entidade assustadora e mortal. Para conseguir sobreviver, precisa se manter em silêncio absoluto, pois o som é a maneira com a qual o ser fantasmagórico consegue encontrá-los. A morte de um dos filhos os abala profundamente e, para piorar a situação, a mãe precisa encontrar uma maneira segura de dar à luz uma nova criança.

10
MUDBOUND - LÁGRIMAS SOBRE o MISSISSIPI
(Mudbound, 2017)

drama
direção de Dee Rees
elenco: Carey Mulligan, Garrett Hedlund e Jonathan Banks
EUA

Depois de lutarem lado a lado na Segunda Guerra Mundial, dois jovens retornam para as suas casas em uma zona rural do Mississipi. Enquanto um deles passa a viver com o irmão mais velho e o pai, que querem manter o privilégio branco, o outro retorna à casa dos pais negros, que fazem o trabalho duro. Antes compartilhando um inimigo comum, eles ocupam diferentes posições marcadas pelo racismo.

11
PANTERA NEGRA
(Black Panther, 2018)

ação
direção de Ryan Coogler
elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o, Angela Bassett e Forest Whitaker
EUA | África do Sul | Coreia do Sul | Austrália

Após a morte do rei de Wakanda, o príncipe retorna ao seu país para assumir o trono. A sua primeira missão após a coroação é encontrar e capturar um forasteiro norte-americano que roubou uma quantidade de vibranium, um poderoso metal. Um marco dos filmes de super-heróis. Ele supriu uma lacuna de identidade afro que nunca esteve presente nesse gênero tão popular. Além disso, traz uma ótima aventura com personagens que fogem dos estereótipos tão comuns nesse tipo de produção.

12
HANNAH
(Idem, 2017)

drama
direção de Andrea Pallaoro
elenco: Charlotte Rampling e André Wilms
Itália | França | Bélgica

Pode não parecer facilmente palatável a princípio, mas possui um desenvolvimento de mistério e de culpa agregados ao drama intenso e contemplativo que arrebata quem embarcar nele até o seu angustiante final. Com ritmo mais reflexivo e longas cenas de rotina, acompanha a lenta e melancólica rotina de uma senhora de idade. Tudo está no não-dito, no subtexto. Há grande parte narrativa apenas na repetição de rotina, porém cada ato vem acompanhado de um novo pesar, culpa, remorso ou penitência.

Melhor Atriz no Festival de Veneza

Um FILME BRASILEIRO

Aos TEUS OLHOS
(2017)

drama
direção de Carolina Jabor
elenco: Daniel de Oliveira, Malu Galli e Marco Ricca

Um professor de natação infantil é acusado pelos pais de um aluno de beijar o filho deles no vestiário do clube. Quando a acusação viraliza nos grupos de mensagens e redes sociais da escola, começa um julgamento precipitado sobre suas ações e intenções.

ATRIZ do ANO

CHARLOTTE RAMPLING
em “Hannah”

seguida por
Glenn Close em “A Esposa / The Wife”
Greta Scacchi em “A Ternura”

ATOR do ANO

ELIO GERMANO
em “Leopardi: Um Jovem Fabuloso”

seguido por
Denzel Washington em “Roman J. Israel, Esq / Idem”
Elio Germano em “A Ternura”

DIRETOR do ANO

GIANNI AMELIO
em “A Ternura”

seguido por
Alfonso Cuarón em “Roma”
Spike Lee em “Infiltrado na Klan”

junho 21, 2011

*************** SALA VIP: “A PELE do DESEJO”

greta scacchi


Guardo uma boa recordação da película A PELE do DESEJO, de Andrew Birkin, com os excelentes Greta Scacchi e Vincent D´Onofrio. Os protagonistas terminaram por se casar na vida real e tiveram uma filha, Leila, no mesmo ano do filme. Baseado no romance da escritora, jornalista e feminista francesa Benoîte Croult, o filme é uma história de amor. Ele se chama Gavin MacCall e ela George McEwan. Ele a ama mais que ela a ele, porque os homens sempre amam mais que as mulheres embora demonstrem o contrário. Pede-a em casamento, porém ela não aceita. Não lhe parece um bom partido, não é do seu nível: ela é uma universitária com um brilhante futuro e ele um simples pescador de um pequeno porto na Irlanda. Ele a adora sempre com um amor silencioso, profundo, sofrido, mas se casa sem amor com uma amiga de infância e tem três filhos. Ela também se casa, tem um filho e se divorcia. Seus encontros são uma vez ao ano.
 
Ele voa de um continente a outro, cruzando o oceano, para estar com ela somente uma semana e para dizer o quanto a quer. Ela o espera a cada ano com mais ansiedade. Ele não se importa que sua esposa saiba desta relação e sofra com as viagens anuais ao outro lado do mundo, e padece em silêncio. Certa vez, promete regressar como sempre no ano seguinte, porém algo inesperado acontece e ela tem que procurá-lo no seu país... O romance foi chamado de feminista. Tem seus admiradores. “Ela o usava, o desejava, mas não o amava”, disseram. A autora Benoîte Croult sempre defendia a sua personagem: “Ela o amou... Eu sei que o amou, porque ela sou eu. É minha vida...”. Para analisar esta obra delicada, convidei a poeta grapiúna GENNY XAVIER.


OPOSTOS à FLOR da PELE

“Ah, meu amor, sejamos verdadeiros
Um com o outro! Pois o mundo, que parece
À nossa frente uma paisagem de sonho,
Tão nova, tão bela, tão variada,
Em realidade não tem nem luz, nem amor, nem alegria,
Nem certeza, nem paz, nem qualquer consolação.”

(Trecho do poema “Dover Beach”, de Matthew Arnold, 
uma referência nas vozes dos protagonistas de “A Pele do Desejo”)

Minhas leituras são como fruta doce numa boca ávida de doçuras, e aguçam meus sentidos que se aninham na poderosa fonte do imaginário. Quando as leituras se materializam na tela do cinema ainda mais me trazem um prazer fartamente saciado. Para mim, um exemplo disso é o livro A PELE do DESEJO - título original: “Les Vaisseurs Du Coeur”, de 1988 -, da escritora francesa Benoîte Groult, que também virou filme com roteiro e direção do talentoso Andrew Birkin, em 1992, intitulado “Salt on Our Skin”. Benoîte é um tipo de escritora que revela muito de si em suas obras, que narra com ímpeto, paixão e talento, seja do ponto de vista da autobiografia como na construção de suas personagens ficcionais. Uma mulher de personalidade própria, com grande consciência feminina e feminista, que viveu e experimentou seus sonhos e as realidades da sua época. Em A PELE do DESEJO, a escritora nos põe diante das possibilidades do amor, mesmo quando se vive uma história à parte, alimentada fora das barreiras sociais e intelectuais ou além do tempo e das distâncias.   
 
Lembro bem das impressões que tive a cerca da leitura do livro e, logo depois, do filme. Sempre faço isso quando uma obra de arte me chama atenção, procuro refletir sobre o que mais me toca e sensibiliza. Com a história de A PELE DO DESEJO foi assim. Um relato de como a vida, num átimo de instante, pode nos confrontar com tudo aquilo que julgamos ser o oposto de nós, o contrário daquilo que idealizamos e que, por cautela, temor ou preconceito, refutamos. A história mostra a trajetória de vida de duas pessoas de classes sociais e universos culturais diferentes. Ele (Gavin), um simples pescador escocês, com pouca instrução escolar; ela (George), uma intelectual francesa, professora de literatura de requintada educação. Ao tornarem-se amantes ambos percebem que não é possível ter uma vida juntos, entretanto, o afeto que não conseguem evitar sempre os põem à prova, fazendo-os rever suas decisões e conceitos pré-estabelecidos. Recheado de belas descrições das várias paisagens por onde a trama se desenrola, de diálogos ricos e profundos e de uma bela química entre os protagonistas, a obra é uma sensível reflexão sobre a necessidade do “outro” e de como o tempo é capaz de desfazer nossos equívocos.
 
Enfim,  ao pensar nas voltas e  reviravoltas existenciais traçadas pelos  protagonistas  de A PELE do DESEJO, eu inevitavelmente penso em quantas histórias reais já se perderam por conta da falta de coragem que as pessoas têm de serem ousadas, de enfrentarem seus desafios diante daquilo que lhes desarmam ou que lhes escapam da cômoda condição das relações convencionais. Por isso tudo e para que o leitor pense sobre os sentidos que a vida nos transmite suas lições através da inventividade dos artistas que criam obras de arte a partir da transgressão da realidade, eu deixo um fragmento da narrativa de Groult, no trecho em que o protagonista escreve para sua amada: Antes eu tinha a impressão de que os dias eram todos parecidos e que eles iam ser parecidos até eu morrer. Até que conheci você... e não me peça para explicar. Só sei que quero segurá-la na minha vida, e nos meus braços de vez em quando, se você concordar. Você considera o que acontece com a gente é um pouco como uma doença. Se é doença, eu não quero me curar. A idéia de que você existe em algum lugar e de que você pensa em mim às vezes me ajuda a viver.

texto de 
GENNY XAVIER
poeta, ficcionista e professora de Literatura
autora do blog literário “Baú de Guardados” 


A PELE do DESEJO
Salt on Our Skin
(1992)

Gênero: Drama
País: Alemanha, Canadá e França
Duração: 111 mins.
Cor
Produção: Bernd Eichinger, Edwin Leicht 
e Martin Moszkowicz (Canal 2 Plus, Neue Constantin Film e RTL Plus)
Direção: Andrew Birkin
Roteiro: Andrew Birkin e Bee Gilbert
Adaptação do romance de Benoîte Groult
Fotografia: Dietrich Lohmann
Edição: Dagmar Hirtz
Música: Klaus Doldinger
Cenografia: Robert W. Laing e Jean-Baptiste Tard
(des. prod.) Zoe MacLeod (d.a.)
Vestuário: Catherine Leterrier
Elenco: Greta Scacchi (“George”), Vincent D’Onofrio
(“Gavin”), Anais Jeanneret, Hanns Zischler
e Claudine Auger

Nota: *** (bom)