Mostrando postagens com marcador Fernando Rey. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernando Rey. Mostrar todas as postagens

janeiro 14, 2018

***** CARLOS SAURA – MEMÓRIA e MELANCOLIA

ana torrent e geraldine chaplin em “cría cuervos”


Barcelona, Espanha, 2001
entrevista publicada no jornal “A Tarde” (BA) 
e no livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003).

 
O aragonês CARLOS SAURA (1932. Huesca / Espanha) cresceu em Madri, é irmão de um famoso pintor – Antonio Saura – e ex-marido da atriz Geraldine Chaplin, com quem trabalhou em diversos clássicos nos anos 60 e 70. Sua trajetória é uma das mais importantes do panorama cinematográfico europeu da segunda metade do séc. XX. Do neo-realismo dos primeiros anos a introspecção melancólica e memorial, sua inquieta personalidade o levou a diversos gêneros: musical (“Carmen”, 1983), épico histórico (“El Dorado”, 1988), comédia (“Ay, Carmela!”, 1990), policial (“Dispara!”, 1993), biografia (“Goya”, 1999). Sua versatilidade define sua arte: cineasta, fotógrafo e roteirista.

geraldine chaplin e saura
Com tantas facetas, incluiu recentemente mais una, a de escritor, com a publicação de “Esa Luz!”, onde descreve a crueldade de uma Guerra Civil, através de um casal com uma filha pequena. Logo depois, apresentou seu mais recente filme, uma fantasia pessoal e inclassificável que leva o título de “Buñuel e a Mesa do Rei Salomão.

Longe de se tratar de uma cinebiografia tradicional sobre o mítico cineasta surrealista, propõe uma obra fictícia ambientada nos anos de juventude de Luiz Buñuel e seus amigos Salvador Dalí e Federico García Lorca. Trata-se de uma aventura, onde três amigos buscam a disputada mesa do rei bíblico, objeto mágico desejado por judeus, muçulmanos e cristãos. Quem o encontre terá o dom de ver o passado, o presente e o futuro. Eu encontrei o diretor na Galeria do Círculo de Leitores. Conversamos caminhando lentamente diante de fotografias de sua autoria dos anos 50 e 60. Imagens expressivas, em preto e branco. O talentoso CARLOS SAURA se revelou discreto, inteligente, sereno. Confira:

Considera extravagante transformar Buñuel em personagem de ficção?

Não me interessava contar a vida de Buñuel. Queria um filme possuído pela imaginação, e assim narrar o que penso sobre ele. Era uma ideia antiga. Convidado para homenagear o mestre aragonês no seu centenário, disse claramente o que pensava do projeto. O produtor me deixou livre para fazer o que bem entendesse.

buñuel e saura
Dois atores fazem Buñuel. O senhor foi amigo do cineasta de “Viridiana”, teve um conhecimento próximo. Foi penoso encontrar o intérprete ideal?

Bastante complicado. Queria alguém semelhante a Buñuel, que não decepcionasse o público que tem uma ideia dele própria. O produtor apareceu com o comediante El Gran Wyoming, mas não me convenceu. Após vê-lo ser caracterizado durante cinco horas de maquiagem, percebi que era o ator certo, inclusive com sotaque aragonês eficiente. Para interpretar o jovem Buñuel, foi mais fácil encontrar Pere Arquillué. Não pensava em realismo, não queria uma réplica, apostei em uma brincadeira.

É um filme pontuado por referências cinematográficas, de Fritz Lang a “Um Cão Andaluz”. Acha que o público vai captar esse capricho cinéfilo?

Poucos conhecem bem a obra de Buñuel, de Dalí e de Lorca, mas é um problema deles, não me representa um cinema simples, mastigado para todo tipo de público. Se captar a erudição, ótimo, se não, talvez se diverta com a mágica da imaginação.

O senhor se interessa pelo surrealismo?

Não me interessa. Não faz parte da minha ideia narrativa.

O que procura passar adiante como roteirista?

Não procuro a perfeição. Os filmes que gosto geralmente não têm roteiros maravilhosos, não são certinhos, aprecio mais a forma do que a história. Fellini emendava partes do roteiro durante a filmagem. Godard fez filmes fantásticos com poucas frases. Existem diretores que necessitam um roteiro de ferro, bem estruturado. Talvez seja uma mania conservadora. Os roteiros convencionais me aborrecem. Não suporto isso de: Lúcia - “Como está?”; Antonio – “Estou bem, e você?”, e assim sucessivamente.  Escrevo um roteiro com liberdade literária, descrevendo o emocional, a atmosfera, os gestos. Acho mais interessante e mais fácil escrever um roteiro dessa forma.


Este ano lançou seu primeiro romance, “Esa Luz!”. Conta sobre ele pra gente.

Trata da história de um jovem casal, Teresa e Diego, brutalmente separado durante a Guerra Civil espanhola. É uma história de amor. Mostra o absurdo e a injustiça de uma guerra que marcou profundamente a Espanha.

Muitos se queixam do número reduzido de bons romances e de outras obras artísticas espanholas que tratem deste polêmico e absurdo período histórico.

Custa escrever sobre um fato tão doloroso e recente da nossa história. Procurei ser sincero. Descrevi o horror, a falta de sentido e o absurdo de uma guerra.

O cinema espanhol passa por um bom momento?

O cinema espanhol sempre produziu bons filmes. Atualmente há uma euforia que talvez não se corresponda a realidade. São jovens fazendo filmes para um público jovem. Há gente jovem que faz bom cinema, gente madura que faz bom cinema e velhos, como eu, que não fazem tão bom cinema, mas seguimos filmando.

Qual o seu próximo projeto cinematográfico?

 Vou rodar em dezembro “Salomé”, no estilo “Tango”, misturando ficção e a montagem de um balé. Me interessa também a pessoa de Felipe II, um dos personagens históricos que mais estudei ao longo da vida. Quero fazer um filme sobre ele.

“tango”  (1998) de saura

  DEZ FILMES de SAURA
(por ordem de preferência)

01
ANA e os LOBOS
(Ana y los Lobos, 1973)

elenco: Geraldine Chaplin, Fernando Fernán Gómez e Rafaela Aparício

02
CRÍA CUERVOS
(1976)

elenco: Geraldine Chaplin, Mónica Randall e Ana Torrent
 
Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

03
O SÉTIMO DIA
(El 7º Día, 2004)

elenco: José Garcia, Victoria Abril e Juan Diego

04
AY, CARMELA
(1990)

elenco: Carmen Maura, Andrés Pajares, Gabino Diego
e José Sancho
 
European Film Awards de Melhor Atriz
Goya de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro, 
Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadj. (Diego)

05
GOYA
(Goya en Burdeos, 1999)

elenco: Francisco Rabal, José Coronado e Maribel Verdú
 
Goya de Melhor Ator e Melhor Fotografia

06
BODAS DE SANGRE
(Bodas de Sangre, 1981)

elenco: Antonio Gades, Cristina Hoyos e Juan Antonio Jiménez

07
ANTONIETA
(1982)

elenco: Isabelle Adjani, Hanna Schygulla e Ignacio López Tarso

08
ELISA, VIDA MINHA
(Elisa, Vida Mía, 1977)

elenco: Fernando Rey, Geraldine Chaplin e Ana Torrent
 
Melhor Ator no Festival de Cannes
 
 09
CARMEN
(1983)

elenco: Antonio Gades, Laura del Sol, Paco de Lucía
e Cristina Hoyos
 
BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira

10
A NOITE ESCURA
(La Noche Oscura, 1989)

elenco: Juan Diego, Fernando Guillén e Manuel de Blas

GALERIA de FOTOS
 

“iberia” (2005) de saura

novembro 13, 2011

********************** A PROPÓSITO de BUÑUEL

 
 
 
Para LUIS BUÑUEL (1900 - 1983. Calanda / Espanha), a função do cinema não é representar a realidade, mas poetizá-la visceralmente. “O cinema”, afirma, “parece ter sido inventado para expressar a vida subconsciente, tão profundamente presente na poesia”. Por isso, sua obra ficou rotulada como maldita, na melhor acepção do termo maldito. Obra esta marcada por filmes anti-religião, anti-família e anti-sociedade, sendo responsável por uma profunda reestruturação da função do cinema. Depois dos primeiros filmes emblemáticos e da temporada no México, seu fôlego criativo encontrou abrigo na França, rodando espontâneos processos da inconsciência, mostrando assim um mundo absolutamente caótico e multifacetado. Essa fase francesa, a mais célebre de sua carreira, foi valorizada por atores como Catherine Deneuve, Fernando Rey, Michel Piccoli e Pierre Clémenti. Prestando homenagem a um cineasta que permanece maravilhando e influenciando o cinema contemporâneo, publico uma entrevista de 2009 com MICHEL PICCOLI (1925. Paris / França), lembrando os filmes que fizeram juntos. 

buñuel, julien bertheau  e piccoli

Como foi trabalhar com Luis Buñuel?

Eu não me lembro muito bem. Eu não me lembro porque o Sr. Buñuel era muito discreto, muito reservado. Não tenho certeza se ele gostaria que suas histórias fossem reveladas. Mas eu trabalhei com esse senhor.

O primeiro filme, “A Morte Neste Jardim”.

Sim. Eu tive a chance de convidar o Sr. Buñuel para me ver em uma peça. Porque pensei que eu poderia interessá-lo. Ele veio ver a peça, ficou entusiasmado e um tipo de vínculo foi formado. Então, um dia, uma produtora me ligou e disse “nós estamos produzindo um filme do Sr. Buñuel e temos um papel para você”. Quando cheguei ao México o Sr. Buñuel me cumprimentou e disse: “Você não se parece nada com o personagem, mas estou feliz em te ver”.  Assim foi o começo de minha “buñuelização”.

simone signoret e piccoli
 em “a morte neste jardim”

Como foi a filmagem de “A Morte Neste Jardim”?

Épico. No começo o Sr. Buñuel não estava feliz com o roteiro. Ele tinha muitas dúvidas. Toda manhã ele se levantada cedo para escrever ou reescrever.  O elenco tinha muitas estrelas. Eu sou o único que está vivo... Eu me lembro de tudo do Sr. Buñuel por causa da maestria de suas idéias e ações. Ele tinha muito medo de criaturas selvagens. Usava todas as proteções durante a filmagem: botas, calças de montaria, pulôveres.

Você fez também “iário de uma Camareira”, com Jeanne Moreau...

Foi um filme muito cômico. Acho que o Sr. Buñuel se divertiu muito mostrando estes personagens excêntricos, de mau gosto, muito sombrios. Mas de um jeito muito discreto, meticuloso. O Sr. Buñuel tinha muita loucura, mas também era extremamente sério e preciso. Ele nunca procurou importunar a existência de ninguém. Porque o seu maior talento, e o seu maior prazer, era confundir as pessoas, tanto suas mentes quanto as suas vidas. Trabalhar com o Sr. Buñuel era de certo modo bastante simples. Exceto que, isso é importante, tinha que obedecer e não fazer perguntas. Você não podia perguntar: “Por que sentar nesta cadeira e não naquela?”. Era assim: “Você senta lá. Ele senta aqui. Você fala. Ele fala. Você responde. Só isso. Consiga na primeira tomada, por favor”.

piccoli e catherine deneuve 
em “a bela da tarde”

Ele explicava a psicologia do personagem?

Ele não sabia nada disso, ou não se importava. Às vezes, por diversão, eu perguntava: “Sr. Buñuel, qual o significado implícito desta cena?”. Ele não respondia.

E “A Bela da Tarde”?

Ah, “A Bela da Tarde”. Eu tive muita sorte de... Como poderia dizer? Considerando que é o Sr. Buñuel, soa pretensioso, mas tive a sorte de compartilhar uma amizade de confiança e humor com ele, trabalhando em vários de seus filmes.

jeanne moreau e piccoli 
em diário de uma camareira

Ele gostava de rir?

Ele amava rir. Era um homem extremamente rígido e discreto, mas também, extremamente louco. Ele amava surpreender as pessoas com as histórias dele. Ele não tentava fazer as pessoas rirem. O que ele gostava, com seu rigor e humor chocante, era agitar as pessoas, mas sempre com grande discrição, atenção e amizade. Nunca era agressivo, nunca. Era só com quem era íntimo dele que ele expressava raiva ou seus pensamentos interiores. Mas isso era muito raro.

E “O Discreto Charme da Burguesia”?

O que posso dizer sobre o trabalho que fiz com o Sr. Buñuel? Ele fez filmes que formaram um tipo de diálogo entre si. Sempre havia a mesma intensidade, a mesma densidade, a mesma loucura no trabalho do Sr. Buñuel. Isso sempre estava presente. Nós nos divertimos. É o melhor jeito de dizer. Isso é tudo o que se pode dizer. Todas as pessoas que trabalharam com ele, atores ou técnicos. Era um tipo de trupe eterna. Eu digo eterna porque, quando, entre nós, falamos sobre o Sr. Buñuel é como se ele ainda estivesse vivo. É a brincadeira mais terrível dele. Porque ele era um homem exemplar. “Um homem exemplar” soa terrível. Eles não existem. Imaginamos que ele nem sempre foi exemplar durante toda a sua vida. Mas ele adorava ter uma consciência clara e estar impecável tanto no seu trabalho quanto com as pessoas. De todos os diretores que conheci, ele foi o mais profundamente honesto e escrupuloso com os seus orçamentos. Ele nunca ultrapassou o orçamento, nem mesmo por um franco. Ele era um homem meticuloso sobre todos os pontos de vista. E era extremamente louco.

stephane audran e piccoli 
em “o discreto charme da burguesia”

PICCOLI DIRIGIDO por BUÑUEL

A MORTE NESTE JARDIM 
(La Mort en ce Jardin, 1956)

DIÁRIO de uma CAMAREIRA
(Le Journal d’une Femme de Chambre, 1964)

A BELA da TARDE 
(Belle de Jour, 1967)

O ESTRANHO CAMINHO de SÃO TIAGO
(La Voie Lactée, 1969)

O DISCRETO CHARME da BURGUESIA
(Le Charme Discret de la Bourgeoisie, 1972)

O FANTASMA da LIBERDADE
(Le Fantôme de la Liberté, 1974)


buñuel por salvador dali