A MARCA de uma REBELDE
É possível um filme imperfeito se aproximar da perfeição? Segundo comentário da famosa crítica de cinema Pauline Kael, “Grandes filmes raramente são perfeitos”. Portanto, a resposta é sim, principalmente se ele for centrado num personagem excepcional interpretado com corpo e alma. ISADORA é uma prova evidente disso. Injustamente esquecido, quase desconhecido do grande público, sua extrema perícia na atuação iluminada de Vanessa Redgrave produz um efeito inesquecível, principalmente em quem se sente atraído por dança ou figuras históricas irreverentes. Sem a deslumbrante Vanessa, o filme corria o risco de cair no ridículo. Com ela, passou a beirar a perfeição na caprichosa evocação da sacerdotisa do balé moderno, Isadora Duncan (1877 - 1927), uma artista sexualmente desinibida que revolucionou o mundo da dança e desafiou os conservadores. A atriz inglesa passou seis meses se preparando para o papel, repetindo incansavelmente movimentos coreográficos. Aos 31 anos, ela envelhece em cena com realismo e adota um sotaque norte-americano sem cair na caricatura. É quase impossível imaginar outra atriz de sua época no seu lugar. Talvez Julie Christie.
Difícil hoje ver o filme à luz do que era originalmente: uma obra de fluxo de quase três horas, aparentemente mais caótica e obstinada. Lançado com pouco alarde e dirigido pelo talentoso Karel Reisz (1926 - 2002), prejudicou-se quando seu estúdio, a Universal, cortou 40 minutos da metragem, numa nova versão mais discreta (cenas de nudez explícitas foram eliminadas) que desperdiçou personagens e momentos essenciais da vida da biografada.
Incompreendido, embora com fãs ardorosos, o original terminou por ser exibido no Festival de Cannes e Vanessa levou para casa o prêmio de Melhor Atriz, salvando a pátria. Em seguida, desapareceu da paisagem, mesmo com a atriz concorrendo ao Oscar pelo papel (ela acabou perdendo para um discutível empate entre Katharine Hepburn e Barbra Streisand). Nos anos 90, lançado em VHS sem cortes, não teve qualquer repercussão e desapareceu novamente. O último prego no caixão aconteceu este ano, quando a British Academy Film Awards premiou Vanessa Redgrave pelo conjunto de obra e clips de praticamente todos os seus filmes emblemáticos foram exibidos, mas se “esqueceram” de ISADORA. No entanto, o longa é belíssimo e merece ser reverenciado. Ele descreve a existência de uma trágica dançarina abandonada pelo pai, pelos amantes, e pela plateia que a idolatrava. Seus dois filhos se afogam no rio Sena em um acidente de carro e ela morre aos 50 anos estrangulada por uma echarpe que se enrola na roda do seu carro.
Incompreendido, embora com fãs ardorosos, o original terminou por ser exibido no Festival de Cannes e Vanessa levou para casa o prêmio de Melhor Atriz, salvando a pátria. Em seguida, desapareceu da paisagem, mesmo com a atriz concorrendo ao Oscar pelo papel (ela acabou perdendo para um discutível empate entre Katharine Hepburn e Barbra Streisand). Nos anos 90, lançado em VHS sem cortes, não teve qualquer repercussão e desapareceu novamente. O último prego no caixão aconteceu este ano, quando a British Academy Film Awards premiou Vanessa Redgrave pelo conjunto de obra e clips de praticamente todos os seus filmes emblemáticos foram exibidos, mas se “esqueceram” de ISADORA. No entanto, o longa é belíssimo e merece ser reverenciado. Ele descreve a existência de uma trágica dançarina abandonada pelo pai, pelos amantes, e pela plateia que a idolatrava. Seus dois filhos se afogam no rio Sena em um acidente de carro e ela morre aos 50 anos estrangulada por uma echarpe que se enrola na roda do seu carro.
Mulher de heroica coragem, perseverante, feminista, lutou contra uma sociedade rígida e hipócrita, chocando o público com suas atitudes - e era essa a intenção. Ela não se constrangia em mostrar seu corpo nu, pregava o amor livre e criou moda na maneira de se vestir. Idealista e autodestrutiva, usou a habilidade artística para desafiar a dança tradicional, as convenções morais e impor seu senso de liberdade. Tudo isso nas primeiras décadas do século 20. Ao se rebelar contra as técnicas da dança clássica e as ideias convencionais de seu tempo, inspirou-se na Grécia antiga para criar movimentos ousados, apresentando-se descalça, sem cenário ou efeitos de luz e com túnicas que quase nada escondiam do seu corpo. Com a iminente Revolução Russa e a Primeira Guerra Mundial no horizonte, Isadora manifestou as suas dúvidas políticas e morais em arte, transformando as injustiças sociais e as emoções ao seu redor em poesia dançada.
O filme explora o desejo da dançarina em difundir e popularizar a dança moderna como uma forma de rebelião contra a moral convencional. Um caso em questão é o seu compromisso em educar através da dança e do pensamento os filhos dos mais humildes, acreditando que poderia beneficiá-los. Ironicamente, quando dá à luz a uma filha fora do casamento, seus patrocinadores ricos deixam de bancar sua escola inovadora. Em última análise, o argumento se concentra em uma mulher que vivia na contramão, não tendo medo de esconder sua natureza selvagem, o pensamento liberal, o ateísmo e o desapego ao matrimônio. Revolucionária, mesmo em decadência, sem dinheiro e humilhada pelo público norte-americano, recusou-se a pedir desculpas por suas definições de beleza e arte, inspirando muita gente com o seu espírito livre e se tornando uma das mais importantes dançarinas de todos os tempos.
O filme explora o desejo da dançarina em difundir e popularizar a dança moderna como uma forma de rebelião contra a moral convencional. Um caso em questão é o seu compromisso em educar através da dança e do pensamento os filhos dos mais humildes, acreditando que poderia beneficiá-los. Ironicamente, quando dá à luz a uma filha fora do casamento, seus patrocinadores ricos deixam de bancar sua escola inovadora. Em última análise, o argumento se concentra em uma mulher que vivia na contramão, não tendo medo de esconder sua natureza selvagem, o pensamento liberal, o ateísmo e o desapego ao matrimônio. Revolucionária, mesmo em decadência, sem dinheiro e humilhada pelo público norte-americano, recusou-se a pedir desculpas por suas definições de beleza e arte, inspirando muita gente com o seu espírito livre e se tornando uma das mais importantes dançarinas de todos os tempos.
Dez anos antes de ISADORA, o diretor Karel Reisz fundou com Lindsay Anderson e Tony Richardson (marido de Vanessa de 1962 a 1967), o movimento Free Cinema, cujo objetivo era apostar no realismo, rompendo com a tradição do cinema convencional inglês. Assim surgiram clássicos como “Um Gosto de Mel / A Taste of Honey” (Richardson, 1961), “Esta Vida Esportiva / This Sporting Life” (Anderson, 1963) e, especialmente, “Deliciosas Loucuras de Amor / Morgan: A Suitable Case for Treatment” (Reisz, 1966), que evoca de forma humorística um caso de loucura pós-divórcio. No principal papel feminino, Vanessa Redgrave ganhou seu primeiro prêmio em Cannes e uma indicação ao Oscar, tornando-se uma estrela internacional.
Quando Reisz foi escolhido para dirigir ISADORA, todos desconfiaram que não seria uma cinebiografia convencional. E estavam certos. Singular, ele apostou num tratamento audacioso, ambicioso e construído experimentalmente. Inspirado na autobiografia “Minha Vida / My Life” (1928), o diretor parece mais interessado na mulher do que na artista, ao contrário das cinebiografias habituais que enaltecem o trabalho do biografado.
Quando Reisz foi escolhido para dirigir ISADORA, todos desconfiaram que não seria uma cinebiografia convencional. E estavam certos. Singular, ele apostou num tratamento audacioso, ambicioso e construído experimentalmente. Inspirado na autobiografia “Minha Vida / My Life” (1928), o diretor parece mais interessado na mulher do que na artista, ao contrário das cinebiografias habituais que enaltecem o trabalho do biografado.
Numa velocidade vertiginosa, às vezes confusa, a vida de Isadora Duncan é repassada como uma viagem alucinante. Paradoxalmente, o momento mais vibrante da obra talvez seja na sua temporada na tradicional Rússia, simpatizando-se com o comunismo e casando com o poeta Sergei Iesseienin (excelente Ivan Tchenko). Isadora viveu muitas outras histórias impetuosas de amor, inclusive com mulheres – que o filme apenas insinua de leve na pele da bela Maria, que a acompanha na última parte de sua vida, isolada na Riviera Francesa enquanto escrevia suas memórias -, mas nenhuma das aventuras amorosas retratadas comove o público.
O premiado Jason Robards, como o milionário francês Eugene Singer, é quase figuração de luxo. O mesmo acontece com o excêntrico cenógrafo teatral Gordon Graig (James Fox, de “O Criado / The Servant”, 1963, de Joseph Losey). A força do personagem e da atriz é tão imperiosa que devora a importância de seus amores e até mesmo de seus fracassos. Sutil e elegante, o filme é um tributo caleidoscópico a uma artista lendária totalmente comprometida com a arte, a verdade e a beleza.
O premiado Jason Robards, como o milionário francês Eugene Singer, é quase figuração de luxo. O mesmo acontece com o excêntrico cenógrafo teatral Gordon Graig (James Fox, de “O Criado / The Servant”, 1963, de Joseph Losey). A força do personagem e da atriz é tão imperiosa que devora a importância de seus amores e até mesmo de seus fracassos. Sutil e elegante, o filme é um tributo caleidoscópico a uma artista lendária totalmente comprometida com a arte, a verdade e a beleza.
Nota: **** (muito bom)
Prêmios: Melhor Atriz no Festival de Cannes
Melhor Atriz da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos EUA





























