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março 06, 2016

************** NORMA SHEARER, RAINHA da MGM




Uma das raras atrizes do cinema mudo a continuar estrela também no sonoro. A Metro-Goldwyn-Mayer a promovia como “A Primeira Dama das Telas” ou “Rainha da M-G-M”no período áureo do estúdio que tinha como slogan “mais estrelas do que as que existem no céu”. Beleza de olhos azulados, esbanja charme no papel-título da extravagante superprodução “Maria Antonieta / Marie Antoinette” (1938). Foi o primeiro filme dela que vi e nunca mais a perdi de vista. Era uma das atrizes mais populares da Hollywood dos anos trinta. Diziam: na M-G-M, Greta Garbo faz a arte, NORMA SHEARER (1902 - 1983. Montreal / Canadá) ganha as produções mais caprichadas, Joan Crawford e Jean Harlow fazem o dinheiro para pagar o prestígio das duas primeiras. De origem escocesa, teve uma infância difícil. Viveu num humilde subúrbio depois da falência dos negócios paternos. Em 1920, mudou com a mãe e a irmã para Nova Iorque, conseguindo emprego como vendedora de pautas musicais num pequeno teatro. Sonhando em subir na vida, figurou em diversos filmes, entre eles, “Horizonte Sombrio / Way Down East” (1020), de D. W. Griffith, aparecendo na sequência em que, numa tempestade noturna, Lillian Gish é expulsa pelos puritanos. Durante as filmagens conheceu o diretor e ele garantiu que ela nunca iria se tornar uma estrela.

casamento com o poderoso 
thalberg
Com a ajuda do produtor Hal Roach, partiu para Hollywood em 1924. Um dia após sua chegada, encontrou casualmente Irving G. Thalberg, jovem produtor da M-G-M (então Companhia Mayer), conhecido como The Boy Wonder (O Menino Prodígio). Ela o confundiu com um office-boy, até vê-lo colocar os pés em cima de uma mesa. Ficaram encantados um pelo outro. Irving pelo carisma dela, ela pelo enorme poder dele. Imediatamente foi convidada para assinar contrato com Louis B. Mayer. O sucesso não foi instantâneo, cresceu a cada filme. Em 1927, com o êxito de “O Príncipe Estudante / The Student Prince in Old Heidelberg”, consagrou-se como estrela.

Ao se casar com o modesto e seguro de si Thalberg, em 1927, passou a escolher papéis e diretores. Muitos acreditavam que era uma oportunista, mas NORMA SHEARER trabalhou duro para provar seu talento. Conseguiu elogios ao estrelar o primeiro filme falado do estúdio, “O Julgamento de Mary Dugan / The Trial of Mary Dugan”. O sotaque canadense foi bem recebido. Aproveitou para deixar de lado personagens ingênuos, que fazia até então, criando uma imagem moderna, elegante e liberada.

oscar de melhor atriz 1930
Em 1930, ganhou o Oscar de Melhor Atriz por “A Divorciada / The Divorcee”, derrotando Greta Garbo e Gloria Swanson. A primeira de uma série de esposas obstinadas que iria interpretar ao longo da carreira. Neste, uma espécie de drama precursor do feminismo, ela procura se igualar à liberdade sexual do marido ao descobrir que ele a está enganando. Concorreu novamente ao Oscar ainda em 1930 por “Ébrios de Amor / Their Own Desire” e também em 1931 (“Uma Alma Livre / A Free Soul”), 1934 (“A Família Barrett / The Barretts of Wimpole Street), 1936 (“Romeu e Julieta / Romeo and Juliet”) e 1938 (“Maria Antonieta). Com o último foi a Melhor Atriz no Festival de Veneza.

Teve dois filhos com o franzino e de coração fraco Thalberg, vivendo com ele até sua morte precoce, em 1936, aos 37 anos, vitimado pela pneumonia. Na cripta foi gravado pela viúva: Meu querido, para sempre. Sua morte abalou a indústria cinematográfica. Com ele, encerrava-se uma era e Hollywood perdia mais que um gênio, perdia quem primeiro entendera o tênue equilíbrio entre arte e comércio, quem estabelecera a equação completa do cinema, quem desenvolveu um estilo administrativo eficiente e flexível, disciplinado sem ser desumano, extravagante mas não esbanjador. Thalberg moldara o estúdio e embora a M-G-M continuasse com invejável sucesso por décadas, nunca mais seria a mesma. F. Scott Fitzgerald o tomou como modelo para O Último Magnata / The Last Tycoon, seu romance inacabado.  

Inconformada com a morte de Thalberg, NORMA SHEARER tentou se aposentar, mas o contrato de trabalho não permitiu. Dois anos mais adiante, em 1938, envolveu-se num tórrido romance com o ator Mickey Rooney, um ídolo juvenil então com 18 anos. Louis B. Mayer conseguiu evitar o escândalo, e a história somente foi revelada na autobiografia de Mickey. David O. Selznick lhe ofereceu o papel de Scarlett O`Hara em “...E o Vento Levou / Gone with the Wind, e ela recusou para a glória de Vivien Leigh. “Não gosto de Scarlett. Muito melhor seria interpretar Rhett Butler”, disse para ele.

com o figurino de “romeu e Julieta”
Também não aceitou ser a protagonista do premiado drama “Rosa da Esperança / Mrs. Miniver” (1942), Oscar de Melhor Atriz para Greer Garson. Aos 40 anos, sentindo-se velha para papéis românticos e com o fracasso do seu último filme, a comédia “Idílio a Muque / Her Cardboard Lover” 1942), aposentou-se. Havia contracenado com grandes astros (John Gilbert, Lionel Barrymore, Lon Chaney, Robert Montgomery, Clark Gable, Fredric March, Leslie Howard, John Barrymore, Tyrone Power, Robert Taylor, Melvyn Douglas, George Sanders) e dirigida por cineastas célebres como Victor Sjostrom, Ernst Lubitsch, George Cukor, John M. Stahl, Clarence Brown e Edmund Goulding. 

Deixando de atuar, rica, ela continuou vivendo em Hollywood, onde descobriu e lançou a atriz Janet Leigh. Ao conhecer Martin Arrouge, um instrutor de esqui, 20 anos mais novo que ela, casou-se com ele em 1942. Formavam um par perfeito: ela queria continuar vivendo na intimidade como estrela e ele queria alguém para adorar. Permaneceram casados até a morte dela, em 1983, com ele enfrentando terríveis momentos. A família da atriz tinha um histórico de doença mental. Sua irmã Athole (casada com o cineasta Howard Hawks) passou a vida entrando e saindo de hospitais psiquiátricos, seus pais e o irmão Douglas tinham manias esquisitas.  O mesmo aconteceu com a atriz.

Com dois filhos, NORMA SHEARER não aceitava ser mãe, alegando não ter instinto maternal. Depressiva e alcoólatra, ela se tornou obcecada pela aparência e em idade avançada teve graves problemas de saúde, sucumbindo à deficiência visual e a demência, muitas vezes confundindo seu segundo marido, Martin, com Irving G. Thalberg. Faleceu aos 80 anos, depois de sofrer três derrames. O auge da sua carreira aconteceu entre 1930 e 1936, embora seja mais recordada por dois filmes posteriores, “Maria Antonieta” e “As Mulheres / The Women” (1939).

FONTE
“Norma: The Story of Norma Shearer” (1988)
de Lawrence J. Quirk
 
“The Filmes of Norma Shearer” (1977)
de Jack Jacobs e Myron Braum


  DEZ FILMES de NORMA SHEARER
(por ordem de preferência)

01
As MULHERES
direção de George Cukor
 elenco: Joan Crawford, Rosalind Russell 
e Joan Fontaine

02
ROMEU e JULIETA
direção de Geoge Cukor
  elenco: Leslie Howard, John Barrymore 
e Basil Rathbone

03
MARIA ANTONIETA
direção de W.S. Van Dyke
  elenco: Tyrone Power, John Barrymore 
e Anita Louise

04
Uma ALMA LIVRE
direção de Clarence Brown
  elenco: Leslie Howard, Lionel Barrymore 
e Clark Gable

05
O PRÍNCIPE ESTUDANTE
direção de Ernst Lubitsch
  elenco: Ramon Novarro e Jean Hersholt

06
ESTE MUNDO LOUCO
(Idiot's Delight, 1939)
direção de Clarence Brown
  elenco: Clark Gable, Charles Coburn 
e Burgess Meredith

07
IRONIA da SORTE
(He Who Gets Slapped, 1924)
direção de Victor Sjöström
  elenco: Lon Chaney e John Gilbert

08
VIDAS PARTICULARES
(Private Lives, 1931)
direção de Sidney Franklin
  elenco: Robert Montgmery

09
A DIVORCIADA
direção de Robert Z. Leonard
  elenco: Robert Montgomery, Chester Morris 
e Conrad Nagel

10
A FAMÍLIA BARRETT
direção de Sidney Franklin
  elenco: Fredric March e Charles Laughton

GALERIA de FOTOS

 
 
  
 
 


dezembro 08, 2010

************************ADEUS, CARO MONICELLI

 



O lúcido e irônico cineasta MARIO MONICELLI (1915 - 2010. Viareggio / Itália) considerado um dos mestres da comédia à italiana, morreu no mês passado aos 95 anos. Ele suicidou-se saltando da janela do quarto andar do hospital San Giovanni, em Roma, onde estava internado devido a um câncer de próstata em fase terminal. Com uma carreira prolífica e extremamente irreverente, não é de se espantar que saia de cena desta maneira, surpreendendo a todos de forma trágica e com uma atitude totalmente inusitada. Filho de um crítico teatral e jornalista, comunista ferrenho, até o final de 1940 colaborou em cerca de 40 filmes, às vezes como roteirista, outras como diretor-assistente. O começo oficialmente registrado de seu trabalho ocorre em 1949, em parceria com Steno, em “Totó Procura Casa / Totó Cerca Casa”, já começando a imprimir seu particular estilo narrativo, simples, mas eficaz e funcional.  
 
Em 1953, inicia a carreira solo, que seria marcada por vários êxitos. O primeiro deles é considerado a semente da tradicional “commedia all'italiana”, um gênero que floresceria nas duas décadas seguintes: “Os Eternos Desconhecidos / I Soliti Ignoti” (1958). Em 1959, lança outra obra-prima, A Grande Guerra / La Grande Guerra, ganhando o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, e rendendo sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A segunda viria em 1963, com Os Companheiros / I Compagni”. MARIO MONICELLI também produziu para o teatro e a televisão, mas ficou conhecido principalmente pelos 65 filmes. Sempre crítico, tinha o raro dom de fazer um cinema com conteúdo que diverte. Era o humor negro levado ao excesso, ao limite da ironia e do escárnio. Em contrapartida, podia ser terno, doce e melancólico, sempre com um olhar compreensivo em relação aos personagens ridículos e patéticos.