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abril 23, 2017

***** GLAUBER ROCHA - os ÚLTIMOS DIAS de VIDA




publicado na revista pernambucana  
Continente Multicultural 
e no jornal baiano A Tarde
 

Talvez ele seja um dos derradeiros expoentes de uma maneira de filmar personalíssima, faísca esta ainda encontrada em um Jean-Luc Godard ou um Xavier Dolan. Aos que nunca assistiram GLAUBER ROCHA (1939 - 1981. Vitória da Conquista, Bahia / Brasil), há que adverti-los que não se pode aspirar a compreender o cinema brasileiro se não viu uma ou duas criações deste cineasta complexo.

“O problema do espectador na obra de arte é um problema que eu não considero, digo-lhe isto com a maior sinceridade. Porque eu acredito que a obra de arte é um produto da loucura, no sentido em que fala o Fernando Pessoa, que fala o Erasmo, quer dizer, a loucura como a lucidez, a libertação do inconsciente. É por isso que eu não me considero um cineasta profissional, porque se fosse teria que atuar segundo o ritual da indústria cinematográfica. Considero-me um amador, como o Buñuel, alguém que ama o cinema”, disse Glauber pouco antes de morrer, num dos seus arroubos verbais de poderosa vitalidade. De todos os cineastas surgidos com o movimento Cinema Novo – Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Carlos Diegues, Roberto Santos, etc. -, o mais influente foi o baiano GLAUBER DE ANDRADE ROCHA, especialmente depois do seu segundo longa, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filmado no mesmo ano do Golpe Militar e considerado um dos grandes filmes de todos os tempos pela revista francesa “Cahiers du Cinema”. Ele eclipsou a todos com sua poesia agreste e personalidade contraditória, ganhando visibilidade internacional.

Em poucos anos, filmou vários curtas, publicou livros, lançou o manifesto “A Estética da Fome” com as bases do Cinema Novo, foi preso em 1965 num protesto contra o regime militar, viajou por inúmeros países e realizou duas obras fundamentais, “Terra em Transe” – classificado de “ópera metralhadora” por Jean-Louis Bory, no “Le Nouvel Observateur”, e proibido em todo o território nacional - e o folhetim revolucionário “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, apresentadas no Festival de Cannes e recebendo com a segunda o prêmio de Melhor Diretor. Foi o seu auge, parecia ter o mundo aos seus pés. Na década seguinte, entretanto, sua estrela decairia em consequência da personalidade confusa e do triunfo universal do cinema comercial.

O caráter particularmente dotado de GLAUBER ROCHA para perceber o cinema em toda sua complexidade diluiu-se numa estética alarmante e desconcertante. Radicalizou a ideia de narrar o caos, o caótico sustentando a arte, em um efeito artístico ambíguo. Exilado voluntariamente do Brasil, filmou obras impopulares na África (“O Leão de 7 Cabeças”), Espanha (“Cabezas Cortadas”), Cuba (“História do Brasil”) e Itália (“Claro”). Ele que havia bebido em fontes diversas (Eisenstein, Bergman, Visconti, Rossellini etc.) para compor sua lógica, tentando decifrar o Brasil ao filmar o seu avesso.

Mergulhou de cabeça numa utopia cinematográfica marcada por contradições ideológicas, políticas, espirituais e mitológicas. Recusando uma carreira internacional convencional, passou por dificuldades financeiras, foi ridicularizado no Brasil por seus colegas, escreveu para o semanário “O Pasquim” – num idioma particular, com y e k no lugar de i e c –, provocando polêmicas e reações furiosas.

O período que vai de 1969 a 1976, os seis anos em que ficou fora do Brasil, são um quebra-cabeças biográfico e geográfico, com dezenas de viagens, mudanças de endereço, de países, mulheres, amigos. Um périplo romanesco, um nomadismo radical e vital, e centenas de cartas escritas de quartos de hotel, apartamentos provisórios de amigos, produtores e amantes. Em 1979, sua atuação no programa “Abertura”, da TV Tupi, virou referência na tevê brasileira. Falava de política, entrevistando artistas e o povo. Tornou-se uma espécie de profeta, de intelectual que perdeu a razão, e cruelmente seus colegas contavam seus casos privados para quem quisesse ouvir: ele caminhando na praia de Ipanema, enrolado num cobertor como mendigo, falando sozinho; conversando com as paredes do hotel, em Santiago do Chile, com um microfone na mão: “Aqui é Glauber Rocha, eu sei que a Cia está gravando, e a KGB também”, etc.

ana maria magalhães e tarcísio meira
em “a idade da terra”
Em 1979, num último esforço para sair das trevas, vendeu seu único bem, uma casa, para filmar “A Idade da Terra” em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro com um elenco popular (Norma Bengell, Tarcísio Meira, Antônio Pitanga, Danuza Leão, Ana Maria Magalhães). “Esse filme materializa os símbolos mais representativos do Terceiro Mundo, ou seja: o imperialismo, as forças negras, os índios massacrados, o catolicismo, o militarismo revolucionário, o terrorismo urbano, a prostituição da alta burguesia, a rebelião das mulheres, as prostitutas que se transformam em santas e de santas em revolucionárias. Tudo isso está no filme dentro do grande cenário da História do Brasil”, disse no lançamento. O público e a crítica rejeitaram a desintegração da sequência narrativa, embora sem a perda do discurso, e o longa foi um fracasso, sendo vaiado no Festival de Veneza. Alucinado e magoado, o cineasta fez passeata, ofendeu o júri e o vencedor - o francês Eric Rohmer -, sempre defendendo sua obra: “Busco um outro cinema. Um filme que o espectador assistirá como se estivesse numa numa festa ou numa revolução. É um novo cinema, antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido”.

jorge amado e glauber
No final de 1980, GLAUBER ROCHA se encontrava em Roma, hospedado no palacete de Luchino Visconti, e por fim, em Paris, acompanhando uma retrospectiva dos seus filmes. Sua câmara havia revelado a essência de um país, fugindo da beleza defunta tipo cartão-postal, e pousando na loucura e desespero, na crueza e mazelas sociais. Mesmo assim, aos 41 anos, as portas estavam fechadas para ele e vivia numa terrível penúria econômica. Tentando colocar a cabeça em ordem, resolveu viver em Sintra, Portugal. “O lugar mais bonito do mundo”, como dizia. Levou a esposa colombiana, Paula Gaitán, fotógrafa e atriz, e os dois filhos de menos de dois anos de idade, Ava Patria Yndia Yracema Gaitán Rocha e Erik Arouak (seu primeiro casamento também foi com uma atriz, Helena Ignez, e teve um romance intenso com outra atriz, a francesa Juliet Berto, ícone da Nouvelle Vague). Definindo-se como sebastianista e apocalíptico, amargurado, decepcionado, com problemas políticos e de saúde frágil, GLAUBER ROCHA se sentia cansado e doente. Como os mais íntimos conheciam sua antiga mania de doença, nunca levaram a sério a suposta hipocondria.

Quando este espírito independente, conhecido em todo o mundo por sua intransigência e temperamento apaixonado, chegou ao Monte da Lua, era um inverno rigoroso. As névoas cobriam as ruelas de pedra, as montanhas e os jardins. Chovia quase sempre. Sintra, conhecida como um reduto de artistas e pensadores, neste mesmo inverno, recebeu Wim Wenders, que rodou parte de “O Estado das Coisas / Der Stand der Dinge” (1982) na Praia Grande, o chileno Raoul Rouiz e o moçambicano-brasileiro Ruy Guerra, um inimigo de Glauber, que também filmaram nas redondezas. Sempre reservado, distante do mundano, o diretor finalizava “Revolução do Cinema Novo”, uma antologia de textos críticos produzidos entre 1958 e 1980, que seria publicado poucos dias antes de sua morte, e escrevia o roteiro para um próximo filme, “O Império de Napoleão”, planejando um elenco estelar encabeçado por Jack Nicholson e Jane Fonda, e que já tinha a confirmação de Orson Welles como um dos protagonistas (sem cachê, apenas pediu uma hospedagem confortável e garrafas de uísque).

Diante da paisagem deslumbrante de Sintra, que Eça de Queiroz dizia não há um só recanto que não seja um poema, GLAUBER ROCHA absorveu o paraíso, partindo para a máquina de escrever como se estivesse numa terrível batalha. Muito disciplinado, acordava cedo, tomava o café da manhã e escrevia até as 13 horas os seus textos, roteiro e artigos para jornais, enquanto ouvia Villa-Lobos. Não gostava de visitas, sendo praticamente arrastado por colegas para jantares ou eventos em Lisboa.

Ainda assim, aparecia muita gente: cineastas brasileiros e portugueses, críticos de cinema, os escritores Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, o ator francês Patrick Bauchau, o produtor Luiz Carlos Barreto e até o Presidente (do Brasil) Figueiredo. A maior parte do tempo estava sozinho, em casa. Vez ou outra, passeava pela praça do Castelo, caminhando de mãos dadas com os filhos e lendo jornais no Café Paris. Parecia bem, tranquilo, almoçando nos restaurantes locais, tomando vinho tinto, fumando haxixe. Mas a depressão era uma constante no seu cotidiano. “Vim para morrer em Portugal”, dizia. Preocupava-se com os problemas financeiros, a política e o cinema brasileiros, e não conseguia esquecer a morte trágica da irmã, a atriz Anecy Rocha (“A Lira do Delírio”, 1978), que caíra no poço de um elevador em 1977. Sentia-se incompreendido e não aceitava a proibição, pela própria família do retratado, do documentário “Di Cavalcanti” (1976), premiado em Cannes. Também tinha saudades da mãe, Lúcia Mendes de Andrade Rocha, escrevendo sempre para ela, numa ligação profunda.

othon bastos em
“deus e o diabo na terra do sol”
O casamento ia mal das pernas. Paula, uma loura sofisticada e inteligente, mais jovem do que ele, desejava voltar ao Brasil, e mesmo admirando o marido, não entendia seus enigmas. Bela e mimada, não se situava completamente na pele de mãe de família, e ainda mais passando dificuldades financeiras. Recebia ajuda dos pais ricos, não acreditava numa suposta enfermidade do companheiro e vivia implicando para que ele superasse suas angústias. A imprensa portuguesa deu intensa cobertura a temporada de Glauber em Sintra, com manchetes e longas entrevistas. O cineasta, em eterna preocupação com a preservação das cópias dos seus filmes, entusiasmou-se com o ciclo em sua homenagem programado pela Cinemateca Portuguesa, em abril de 1981. No primeiro dia de exibição, a sala de projeções pegou fogo destruindo totalmente a obra do cineasta. Desesperado, viu o incêndio como um sinal do fim. A sua queda foi instantânea.

Logo depois foi internado no Hospital de Sintra com suspeita de uma doença broncopulmonar, talvez uma tuberculose. Esverdeado e abatido, olhos amarelados, foi transferido para o Hospital da CUF, em Lisboa. Lúcido, brincalhão, recebendo visitas, lendo jornais e vendo televisão, gozava das autoridades e políticos que apareciam: “Esses engravatados não me deixam em paz”. Ainda acamado, recebeu os primeiros exemplares de “Revolução do Cinema Novo”, o que o deixou contente. Parecia estar bem, como se não passasse de uma encenação para ajudá-lo a renascer das cinzas.

Paula Gaitán, que havia mudado com os filhos para um hotel próximo, tirava fotos polaroid do companheiro e de seus amigos, circulava por Lisboa, e não parecia ter consciência da gravidade da enfermidade do marido. Ele próprio não sabia qual era o seu mal. Contraditórios, os médicos não entravam num acordo. Havia rumores não confirmados de um câncer. No dia 20 de agosto, após uma série de exames rigorosos, GLAUBER ROCHA disse que não gostaria de ficar sozinho naquela noite, pedindo a Paula que o fizesse companhia. Ela recusou, pois não podia deixar os filhos sozinhos no hotel. Ele parecia bem, radiante e conversador como nos seus melhores dias. Na mesma noite entrou em coma. No dia seguinte, levado para o Brasil em estado crítico, morreu logo depois, em 22 de agosto de 1981.

O talento incompreendido, leitor de Nietzsche e Schopenhauer aos 13 anos, foi velado no Parque Lage, no Rio de Janeiro, cenário de “Terra em Transe”, em meio a grande comoção. Poucos dias após, exibiram seus filmes em mostras retrospectivas na Inglaterra (National Film Institute), Estados Unidos (American Film Institute) e França (Instituit Nacional d’Estudes Cinematographiques). A causa da morte ainda hoje é nebulosa, fala-se inclusive em Aids. O mais provável, contaminação ao passar por uma biópsia com equipamento não esterilizado. Tinha 42 anos. Ele desde adolescente dizia que morreria aos 42 anos, o inverso de 24, idade em que morreu Castro Alves. O poeta fazia aniversário no seu mesmo dia e era o seu favorito. Foi-se subitamente, levando sua mensagem exuberante. Se continuasse filmando possivelmente ainda estaria vivo. A arte seria sua cura. Mas não deixaram. Incomodava demais aos conservadores.

odete lara e joffre soares 
em “o dragão da maldade contra o santo guerreiro”

FILMOGRAFIA de GLAUBER

CRUZ na PRAÇA 
(CM, inacabado, 1959)

BARRAVENTO 
(1960)

DEUS e o DIABO na TERRA do SOL 
(1964)

AMAZONAS AMAZONAS 
(CM, 1965)

MARANHÃO 66
 (CM, 1966)

TERRA em TRANSE
 (1967)

O CÂNCER 
(1968-72)

O DRAGÃO da MALDADE
CONTRA o SANTO GUERREIRO
 (1969)

O LEÃO de SETE CABEÇAS 
(1969)

CABEZAS CORTADAS 
(1970)

HISTÓRIA do BRASIL 
(1972-74)

As ARMAS e o POVO 
(MM, 1975)

CLARO 
(1975)

DI CAVALCANTI 
(CM, 1976)

JORGAMADO no CINEMA 
(MM, 1977)

A IDADE da TERRA 
(1979)

programa "abertura"
(tv tupi)


caderno cultural do jornal a tarde

GALERIA de FOTOS



abril 21, 2012

******************* DINA SFAT, à FLOR da PELE


 
   

Entrar em cena é um estado 
de pureza, uma bênção, 
que nos faz ter essa paixão.
DINA SFAT

 

A história do cinema nacional é marcada por uma galeria de mitos femininos: Aurora Fúlgida, bailarina romena; Eva Nil, atriz dos anos 20; Carmen Santos, que construiu um estúdio e dirigiu um filme; Gilda Abreu, do sucesso “Bonequinha de Seda” (1936); Carmen Miranda, estrela de musicais; Eliana no ciclo das chanchadas; Eliane Lage e Tônia Carrero na Vera Cruz; o Cinema Novo revelando Norma Bengell, Odete Lara, Leila Diniz, Adriana Prieto, Anecy Rocha, Jacqueline Myrna e Helena Ignez; o talento de Isabel Ribeiro, Lillian Lemmertz, Irene Stefânia, Ítala Nandi, Ana Maria Magalhães, Selma Egrei, Rossana Ghessa, Darlene Glória e Zezé Motta. Em 1969, seria a hora e a vez de DINA SFAT (1938 - 1989. São Paulo / SP) arrebatar público e crítica como a guerrilheira Cy, do emblemático e tropicalista “Macunaíma”, inspirado na obra homônima de Mário de Andrade sobre a falta de caráter do brasileiro, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade e estrelado por Grande Otelo e Paulo José. Nunca mais seu talento seria esquecido. Carismática, bela e excelente intérprete, a atriz morreu vítima de um câncer aos 50 anos, mas ainda hoje vive na memória de muita gente. De pai russo e mãe israelense, além de sua obra, deixou de legado uma família de artistas. Do casamento com Paulo José, nasceram Clara, Ana e Bel Kutner, as duas últimas atrizes.

Dina Kutner de Souza se apaixonou pelo teatro enquanto assistia Cacilda Becker atuando em Arsênico e Alfazema (1949). Escolheu ser chamada artisticamente como DINA SFAT em homenagem à sua mãe, já que Sfat era seu povoado de origem em Israel, estreando profissionalmente nos palcos em 1962, no espetáculo “Antígone América”, dirigida por Antonio Abujamra. No histórico Teatro de Arena viveu a Manuela de “Os Fuzis da Senhora Carrar” (1962), de Bertold Brecht. Conquistou o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de Melhor Atriz por seu desempenho em “Arena Conta Zumbi” (1965), um musical político de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, e destacou-se na polêmica e mítica montagem de “O Rei da Vela” (1967), dirigida por José Celso Martinez Corrêa, ao substituir às pressas Ítala Nandi no papel de Heloisa de Lesbos. Sem nunca abandonar os palcos, fez “Dorotéia Vai à Guerra” (1973), “A Mandrágora” (1975), “Seis Personagens à Procura de Um Autor” (1977), “Murro em Ponta de Faca” (1979), “As Criadas” (1981), “Hedda Gabler” (1982) e, em Portugal, “Florbela Espanca” (1984), entre outras montagens elogiadas. Inicia sua trajetória na televisão no final da década de 1960, trabalhando na Tupi, Excelsior e Record. Mesmo diante do sucesso, jamais se deixou seduzir por personagens caricatos, arriscando-se em papéis sem as amarras das heroínas habituais, sofredoras e românticas. Estreou na Globo em 1970, a convite de Dias Gomes, protagonizando “Verão Vermelho”, onde formou par com Jardel Filho, e permaneceu nela até a sua morte. 

Brilhou em
minisséries, telenovelas e integrou o elenco de vários programas, como o Caso Especial e Aplauso. De autoria de Janete Clair fez “O Homem Que Deve Morrer” (1971), “Selva de Pedra” (1972, Prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte), “Fogo Sobre Terra” (1974) e “O Astro” (1978), mas também roubou cenas em outras como “Assim na Terra Como no Céu” (1970), “Os Ossos do Barão” (1973) e “Saramandaia” (1976). Um dos seus maiores momentos na tevê aconteceu em 1975, em “Gabriela”, de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado. Apesar de aparecer apenas nos primeiros capítulos, como a prostituta Zarolha, dominou a cena, obtendo um extraordinário sucesso. Dirigida por Walter Avancini, o diretor preferido dela. Segundo ele,  ela jamais recusar qualquer papel proposto por ele.

dina e paulo josé

Versátil, com uma fantástica presença em cena, e o gosto apurado por se arriscar em papéis complexos, teve momentos especiais no cinema nacional. O mais lembrado e comentado, sem dúvida, é “Macunaíma”. Em 27 anos de carreira artística, fez 20 filmes, atuando no engajado Cinema Novo e no libertário Cinema Marginal. Estreou em 1966 pelas mãos de Walter Hugo Khouri em “O Corpo Ardente”. Faria “Os Deuses e os Mortos” (1970, Melhor Atriz no Festival de Brasília), filmado no sul da Bahia; “A Culpa” (1971, Prêmio Air France de Melhor Atriz); uma mãe solteira em “Tati, a Garota” (1973), estreia de Bruno Barreto; e “O Homem do Pau Brasil” (1981), no papel da pintora Tarsila do Amaral. Atuou em “Das Tripas Coração” (1982), que discute educação, sexo e religião num colégio de meninas ricas, ao lado de Antonio Fagundes, Othon Bastos e Christiane Torloni; e “Eros, o Deus do Amor” (1981), sinfonia pictórica do prazer e da ansiedade, contando a vida de um cinquentão para qual o sexo é tudo e nada. No elenco, Renée de Vielmond, Norma Bengell e Lillian Lemmertz. Seu último trabalho cinematográfico, “O Judeu”, baseado na vida de Antônio José da Silva, escritor luso-brasileiro do século XVIII que morreu na fogueira da inquisição, foi rodado em Portugal, na segunda metade da década de 1980. Inacabado por falta de verba, só iria estrear em 1995, seis anos após a morte da atriz.


 
Inquieta e polêmica, DINA SFAT  dizia o que pensava, mesmo quando não agradava às correntes sociais ou ideológicas. Dona de interpretação singular, com emoções à flor da pele, revelava uma sensualidade desconcertante e beleza agressiva, moldada na sua personalidade. Olhos grandes, infinitos, extremamente expressivos. Voz penetrante. De aguda inteligência, entregava-se de forma completa aos desafios propostos e se distinguia pela coerência com que selecionava os seus compromissos profissionais. Na intimidade era discreta, não se deixando levar pelo holofotes da mídia. Mesmo inquieta, nunca se filiou a qualquer sigla ou facção partidária. No final da vida, doente, não deixou de trabalhar. Em viagem de tratamento à União Soviética, ao lado de Daniel Filho, realizou o documentário “Dina Sfat na União Soviética” (1988). Escreveu um livro, publicado em 1988, sobre sua carreira e a luta contra o câncer, “Dina Sfat- Palmas pra que te Quero”, junto com a jornalista Mara Caballero. Debilitada, fez seu último trabalho na TV na comédia “Bebê a Bordo”. Foi única no cenário nacional. Dina faz falta.


FILMOGRAFIA

O CORPO ARDENTE (1966)
direção de Walter Hugo Khouri

TRÊS HISTÓRIAS de AMOR (1966)
direção de Albert D’Aversa

EDU CORAÇÃO de OURO (1967)
direção de Domingos de Oliveira

JARDIM de GUERRA (1968)
direção de Neville D’Almeida

A VIDA PROVISÓRIA(1968)
direção de Maurício Gomes Leite 

MACUNAÍMA (1969)
direção de Joaquim Pedro de Andrade

Os DEUSES e os MORTOS (1970)
direção de Ruy Guerra

PERDIDOS e MALDITOS (1970)
direção de Geraldo Veloso

O BARÃO OTELO no BARATO dos MILHÕES (1971)
direção de Miguel Borges

O CAPITÃO BANDEIRA CONTRA o DOUTOR MOURA BRASIL (1971)
direção de Antônio Calmon

GAUDÊNCIO! O CENTAURO dos PAMPAS (1971)
direção de Fernando Amaral

A CULPA (1971)
direção de Domingos de Oliveira

TATI, a GAROTA (1973)
direção de Bruno Barreto
 
ÁLBUM de FAMÍLIA (Uma HISTÓRIA DEVASSA) (1981)
direção de Braz Chediak

O HOMEM do PAU-BRASIL (1981)
direção de Joaquim Pedro de Andrade

EROS, o DEUS do AMOR (1981)
direção de Walter Hugo Khouri

Das TRIPAS CORAÇÃO (1982)
direção de Ana Carolina

TENSÃO no RIO (1984)
direção de Gustavo Dahl

A FÁBULA da BELA  PALOMERA (1987)
direção de Ruy Guerra

O JUDEU (1995)
direção de Tom Job Azulay

GALERIA de FOTOS


Quando as palavras são inúteis, só um grande suspiro 
pode ajudar a encontrar forças
DINA SFAT