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julho 14, 2019

********* MESTRE INGMAR BERGMAN – 101 ANOS

bibi andersson e liv ullmann
em “persona-quando duas mulheres pecam”



Poeta da alma, o sisudo diretor, roteirista e dramaturgo sueco INGMAR BERGMAN (1918 - 2007. Uppsala, Uppsala län / Suécia) faria este mês cento e um anos de nascimento. Ao longo de sua vasta filmografia, deixou inúmeros clássicos. Autor de um cinema intimista, interiorizado, voltado para dramas cotidianos e para a micropsicologia das relações amorosas. Mesmo com um legado imenso, é possível afirmar que a principal marca de sua obra são as questões existenciais. Seus personagens enfrentam angústias complexas relacionadas à vida familiar, dilemas com a fé, a solidão e a morte. Ele marcou a história do cinema com obras de primor estético e roteiros surpreendentes. Nove vezes indicado ao Oscar, assinou mais de 50 filmes, sem contar peças de teatro e produções televisivas. Estudou na Universidade de Estocolmo, onde se interessou por teatro e, mais tarde, por cinema. Iniciou a trajetória profissional em 1941, escrevendo a peça “Morte de Kasper”. Em 1944, INGMAR BERGMAN desenvolveu seu primeiro argumento, para o filme “Tortura do Desejo / Hets”, de Alf Sjöberg. Realizou o primeiro filme em 1945, “Crise / Kris”. Suas influências na escrita provêm do teatro: Henrik Ibsen e August Strindberg.


Teve um romance e uma filha com Liv Ullmann. Dirigiu a atriz em dez filmes, começando por “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam”. Um dos melhores comentários sobre INGMAR BERGMAN partiu de Jean-Luc Godard, em “Bergmanorama”, “Cahiers du Cinéma”, julho, 1958: “O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico”. Ele morreu em sua casa em Fårö, aos 89 anos, no mesmo dia em que faleceu Michelangelo Antonioni. Diretor obrigatório para quem ama o cinema, em comemoração aos seus cento e um anos listei 13 filmes de sua cinematografia.

bengt ekerot e max von sydow em “o sétimo selo”
 
13 FILMES de BERGMAN
(por ordem de preferência)

01
GRITOS e SUSSURROS
(Viskningar och Rop, 1972)

elenco: Harriet Andersson, Liv Ullmann, Kari Sylwan, Ingrid Thulin e Erland Josephson

David di Donatello de Melhor Diretor Estrangeiro
Melhor Filme e Melhor Diretor do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova Iorque

Sensível, elegante e impactante. Uma mulher tem câncer terminal e vai para a casa da família, em um lugar rural, para ser cuidada por suas duas irmãs. Na realidade, quem cuida dela é a empregada que tem um carinho especial por ela. É uma produção excepcional, desde a direção de arte com foco nas cores até a magia da fotografia que dá um realce para a melancolia das personagens. Roteiro complexo e magnífico. Direção iluminada e um show de grandes interpretações.

02
MORANGOS SILVESTRES
(Smultronstället, 1957)

elenco: Victor Sjöström, Bibi Andersson, Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand, Naima Wifstrand e Max von Sydow 

Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Urso de Ouro no Festival de Berlim

 O envelhecimento e as perdas que acontecem ao longo do caminho. A solidão e a recordação da juventude como uma lição de vida. Mergulha na memória e no tempo, enquanto segue uma viagem de carro de um idoso professor de medicina (extraordinário Victor Sjöstrom), que receberá um prêmio por seus 50 anos de carreira. No trajeto, ele relembra seu passado e filosofa na companhia da nora e de um grupo de caroneiros.

03
LUZ de INVERNO
(Nattvardsgästerna, 1962)

elenco: Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand, Gunnel Lindblom e Max von Sydow

Segundo capítulo da trilogia “O Silêncio de Deus”, completada por “Através de um Espelho” (1961) e “O Silêncio” (1963), segue a inquietação do pastor de uma pequena igreja rural, que atravessa uma grave crise de fé, encontrando consolo junto de uma professora que não crê em Deus. Entre as tentativas de falar com o Senhor e a relação agressiva com a amante, o clérigo lida, ainda, com o suicídio de um congregado. A interpretação de Gunnar Björnstrand é algo de outro mundo, mergulhando na crise de fé na qual se encontra o pastor ao constatar que “Deus está silencioso. Inspirado pela “Sinfonia dos Salmos”, de Stravinsky, e por “Diário de Um Pároco de Aldeia”, de Bresson.

04
O SILÊNCIO
(Tystnaden, 1963)

elenco: Ingrid Thulin, Gunnel Lindblom e Birger Malmsten

Causou enorme polêmica no lançamento. De reiteradas análises, até discussões no parlamento sueco sobre o conteúdo. Viajando, duas irmãs (extraordinárias Thulin e Gunnel Lindblom), numa relação doentia, de dependência, inveja e raiva, e que é testemunhada (e disputada) pelo pequeno filho de uma delas. Quase desprovido de diálogos, são relações humanas incomunicáveis. Temos uma história de afastamentos, de barreiras entre pessoas que se deviam amar. A sugestão da relação incestuosa o levou a ser proibido em alguns países. Nos EUA foi etiquetado de pornográfico.

05
O SÉTIMO SELO
(Det Sjunde Inseglet, 1956)

elenco: Max von Sydow , Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot,Bibi Andersson, Gunnel Lindblom e Anders Ek

Obra-prima muito elogiada. Um ex-cruzado volta à sua terra natal devastada pela peste negra. Em uma jornada física e espiritual, o cavaleiro Antonius (magnífico Max Von Sydow) questiona a existência de Deus enquanto precisa encarar sua própria finitude. É do filme a famosa cena em que o cavaleiro joga uma partida de xadrez com a Morte. Apesar de ter sido rodado em apenas 36 dias e com meios bastante modestos, tem vários refinamentos em sua fatura. O diretor recorre a figurações para refletir sobre a precariedade da condição humana, o sentido da vida, a busca de Deus.

06
A HORA do LOBO
(Vargtimmen, 1968)

elenco: Max von Sydow, Liv Ullmann, Erland Josephson, Naima Wifstrand e Ingrid Thulin

Um drama peculiar do diretor por apresentar uma narrativa diferente do que estávamos acostumados a vê-lo abordar. A começar por ser a sua única obra gótica, traz ainda um tom de mistério. Tudo é contado com base em um diário. A protagonista desde o início já nos avisa que é uma encenação de algo que ocorreu, nos preparando para o que iria acontecer. A raiva e a loucura estão presentes. Um dos mais belos e poéticos dramas de terror. Magníficas atuações de Sydow e Ullmann.

07
A FONTE da DONZELA
(Jungfrukällan, 1960)

elenco: Max von Sydow, Birgitta Valberg, Gunnel Lindblom e Birgitta Pettersson

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Globo de Melhor Filme Estrangeiro

Recria com realismo uma Suécia rural do século XIV, em que a religião tem papel central na narrativa, pois a garota que é estuprada – em uma cena crua e impecável – é filha de pais religiosos e sua morte ocorre quando ela estava indo à igreja. O filme choca com o ato, e trabalha com a vingança e o perdão. Um drama para não esquecer.

08
PERSONA – QUANDO DUAS MULHERES PECAM
(Persona, 1966)

elenco: Bibi Andersson, Liv Ullmann e Gunnar Björnstrand

Brilhante atuação de Ullmann como uma atriz de sucesso que recebe os cuidados de uma enfermeira. Ela não está doente, apenas não fala, mas ouve tudo o que a outra diz. Obra impactante, de complexo roteiro psicológico. Inovador e belíssimo, lançado no Brasil com um infame título. Repleto de experimentações estéticas, de close-ups constantes e uma metamorfose das duas faces, permite progredir a intensidade do misterioso drama, situado em um chalé isolado na ilha de Fårö. Explorando a relação entre essa atriz que ficou muda e sua enfermeira, o drama lindamente filmado questiona os fundamentos instáveis da identidade.

09
FANNY & ALEXANDER
(Fanny och Alexander, 1982)

elenco: Pernilla August, Lena Olin, Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson e Ewa Fröling

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
César de Melhor Filme Estrangeiro
David Di Donatello de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Diretor Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro da Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles
Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro dos Críticos de Cinema de Nova Iorque

De tom autobiográfico, dá especial atenção ao ponto de vista de um irmão e uma irmã, da infância até a idade adulta. Indicado em seis categorias no Oscar, levou quatro estatuetas. Este suntuoso épico familiar foi comparado aos romances de Charles Dickens. A versão em tela grande de três horas foi montada a partir de telefilme de cinco horas. Em uma pesquisa realizada em 2002 pela revista britânica “Sight and Sound” com diretores e críticos, ficou em terceiro lugar entre os melhores filmes dos 25 anos anteriores, atrás de “Apocalypse Now / Idem” e “O Touro Indomável / Raging Bull”.

10
SONATA de OUTONO
(Höstsonaten, 1978)

elenco: Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Lena Nyman e Erland Josephson

Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro

No centro da questão, as relações familiares. O confronto central se dá entre mãe e filha. A mãe famosa tem um certo desprezo pela filha tímida e reprimida e prefere a arte que sua família. Há de se destacar a interpretação espetacular de Ingrid Bergman (que perdeu o Oscar para Jane Fonda). Liv Ullmann, como sempre, está excelente.

11
NOITES de CIRCO
(Gycklarnas Afton, 1953)

elenco: Åke Grönberg, Harriet Andersson, Anders Ek e Gunnar Björnstrand

Recebido pela mídia nos extremos, muito elogiado ou totalmente repudiado, foca no aspecto subjetivo do ser humano, narrando a peregrinação de um decadente circo, rumo a cidade natal do mestre de cerimônias. Com a intenção de reencontrar a esposa abandonada, ao chegar ao povoado, ele é assombrado por uma série de questões. A relação com a antiga mulher, a infidelidade da amante e as constantes humilhações sofridas guiam uma jornada ao seu âmago. Dosando com sobriedade comédia e drama, traz à tona os conturbados meandros de relacionamentos a dois.

12
MONIKA e o DESEJO
(Sommaren med Monika, 1953)

elenco: Harriet Andersson e Lars Ekborg

Primeira produção do diretor a ter sucesso comercial. Foi também o primeiro de muitos filmes em que Harriet Andersson iria fazer com ele. Algumas cenas sofreram censura devido ao erotismo atrevido. É uma bela produção. Na trama, dois jovens se apaixonam e vivem um romance intenso de verão durante uma viagem de barco. Ela engravida e a narrativa acompanha a relação entre os dois após o idílio romântico.

13
VERGONHA
(Skammen, 1968)

elenco: Liv Ullmann, Max von Sydow e Gunnar Björnstrand

Eva e Jan Rosenberg (Ullmann e Sydow) são músicos que moram numa ilha distante de tudo. Fala-se o tempo todo na possibilidade de uma invasão. E a vida tranquila desaparece quando as forças políticas nacionais passam a se enfrentar por perto. Alguns cidadãos são taxados de “colaboradores do inimigo” e há questionamentos, prisões, execuções e destruição. O abuso de poder e a guerra, contra a qual o diretor claramente se opõe, são duas das principais linhas do roteiro. As cenas na fazenda do casal são cheias de horror, de angústia, do mais profundo desespero.

GALERIA de FOTOS



outubro 16, 2012

************** LISTÃO: 18 TESOUROS de CINÉFILO

desencontro”

 
Recebi e-mails de leitores deste blog pedindo sugestões de filmes clássicos para assistir. Sei que indicar filmes implica nem sempre acertar o alvo: um longa pode provocar-me impressões inesquecíveis e noutro cinéfilo passar em branco. Ainda assim, desejando a conexão que muitas vezes acontece entre cinéfilos, garimpei durante o feriado minha coleção de filmes clássicos, escolhendo dezoito preciosidades não tão conhecidas. Sugiro que assista cada um deles. Se já viu um ou outro, deixe o seu comentário. Todos eles são facilmente localizados na internet para dowload, com legenda em português. Não estou fazendo apologia da pirataria – inclusive, alguns dos filmes têm mais de 70 anos -, mas uma defesa da circulação de informação, furando a barreira quase impenetrável da divulgação maciça de produtos cinematográficos sem qualidade e relevância. Vamos lá! Eles valem a pena ser assistidos. Recomendo.

1919, Suécia
O TESOURO do SIR ARNE
(Herr Arnes Pengar)

direção de Mauritz Stiller
elenco: Mary Johnson, Erik Stocklassa e Hjalmar Selander

Considerado uma raridade, se passa na Suécia do século 16, com aventureiros, ambição, vingança e amor maldito. Três mercenários escoceses matam um fazendeiro e toda sua família para roubar um caixão coberto de ouro. Uma garota sobrevive ao massacre, mudando-se de cidade. Mais adiante, ela se apaixona por um dos assassinos dos seus familiares. Terá, então, que decidir entre seu amor por ele ou o desejo de justiça. Destaque para a bela cena final, que mostra o cortejo fúnebre sobre a neve, com o povo todo seguindo o caixão, recriada por Eisenstein no final da primeira parte do “Ivan, o Terrível – Parte I / Ivan Groznyv” (1944). Baseado em um conto de Selma Lagerlöff, tem na direção o notável Mauritz Stiller (que levou Greta Garbo para Hollywood e morreu jovem). Fique de olho na maravilhosa Mary Johnson, a “Lillian Gish sueca”.

1922, EUA
ROBIN HOOD
(Idem)

direção de Allan Dwan
elenco: Douglas Fairbanks, Wallace Beery, Enid Bennett
e Alan Hale

Um das produções mais caras dos anos 1920, com orçamento estimado em cerca de um milhão de dólares, ficou desaparecido por décadas, sendo dada como perdido, mas acabou redescoberto na década de 1960. Ótimo para conhecer um dos mais carismáticos astros do cinema  mudo: Douglas Fairbanks Jr. Há uma grande tentação em comparar o Robin Hood de Fairbanks com o de Errol Flynn. Embora os personagens sejam os mesmos, os filmes são totalmente diferentes em enredo, direcionamento e estilo. Flynn é um herói sedutor, mas ele é todo homem. Doug é viril, também, mas lembra personagens de contos de fada, tem algo de menino, de adolescente sapeca travestido de adulto. Luxuoso, com impressionantes cenários e vistosos figurinos, ainda ainda encanta. Beery, como o rei Ricardo Coração de Leão, muitas vezes rouba a cena.

1925, Alemanha
VARIETÉ – a TRAGÉDIA de um ARTISTA
(Varieté)

direção de Ewald André Dupont
elenco: Emil Jannings, Maly Delschaft e Lya De Putti

Um trapezista casado (o grande Emil Jemmings, o primeiro ator a levar o Oscar), que trabalha em um circo de um parque de diversões, apaixona-se por uma garota abandonada, foge com ela e reconstrói sua vida noutro circo, mas quando descobre que ela o trai, decide matá-la. Com movimentos de câmera ousados e meticulosos, planos inovadores e ângulos expressivos, trata-se de uma obra-prima.

1927, EUA
PAIXÃO e CRIME
(Underworld)

direção de Josef von Sternberg
elenco: George Bancroft, Evelyn Brent e Clive Brook

Dotado de extraordinário senso plástico e de um estilo que subordina o tema e a caracterização dos personagens às experiências com a sombra, a luz e a composição, o alemão Sternberg criou um cinema de ilusão e sensualidade, no qual a poesia e a pintura se unem para expressar a beleza. O filme conta a história de um gângster sentimental que se sacrifica pela amizade a um advogado e pelo amor da namorada, ambos apaixonados, mas reprimindo seus sentimentos por lealdade. Sente-se a total criação de Sternberg, cuja mise-en-scène caracteriza-se pela economia de meios, originalidade e disciplina. O êxito fez com que os executivos da Paramount mantivessem Sternberg ocupado por anos (quase sempre à disposição da musa e amada Marlene Dietrich).

1928, EUA
VENTO e AREIA
(The Wind)

direção de Victor Sjostrom
elenco: Lillian Gish, Lars Hanson e Montagu Love

Evoca o cinema de terror, o melodrama e o western. Realizado pelo sueco Victor Sjöström, foi Lillian Gish quem primeiro se apaixonou pelo romance de Dorothy Scarborough, desejando interpretar a comportada sulista que vai ao Texas para se casar, mas é violentada no trem por um desconhecido, acabando por matá-lo e por enlouquecer, em meio à tempestade de areia provocada pelo vento.  As filmagens foram das mais penosas. O calor do deserto era tanto que a película derretia dentro da câmera. A areia era lançada sobre Lillian por oito hélices de avião, junto com produtos sulfurosos que lhe queimavam a pele e quase a deixaram cega. Nesta fita muda, a constância do vento é tão marcante, os detalhes que revelam sua presença tão concretos que dá a impressão de ter assistido a um filme sonoro. Com atuação primorosa, Lillian Gish mostra porque é considerada uma das maiores atrizes da história do cinema.

1932, EUA
ZAROFF, o CAÇADOR de VIDAS
(The Most Dangerous Game)

direção de Ernest B. Schoedsack e Irving Pichel
elenco: Joel McCrea, Fay Wray, Leslie Banks
e Robert Armstrong

Um nobre russo insano, que costuma caçar humanos em sua remota ilha, “abastece-se” de vítimas provocando naufrágios, ao alterar as sinalizações que avisam onde estão os perigosos recifes de corais. O sobrevivente de um destes naufrágios (o formoso Joel McCrea) é um famoso caçador que, quando descobre como o vilão se “diverte”, revolta-se. O conde lhe propõe que os dois cacem os passageiros do próximo navio, mas diante da recusa ele decide simultaneamente caçar o mocinho e uma hóspede. Produzido nos estúdios da RKO Radio Pictures durante uma pausa nas filmagens de “King Kong / Idem” (1933), utiliza o diretor Ernest B. Schoedsack, o compositor Max Steiner e os atores Fay Wray e Robert Armstrong. Emocionante, lembra seriados de aventuras.

1936, EUA
AMOR e ÓDIO na FLORESTA
(The Trail of the Lonesome Pine)

direção de Henry Hathaway
elenco: Sylvia Sidney, Fred MacMurray e Henry Fonda

O primeiro filme a ser rodado em paisagens naturais em Technicolor em três cores. Baseado no romance de John Fox Jr., que já havia sido filmado em 1916 por Cecil B. DeMille, deu o estrelato a Henry Fonda, além de consolidar a carreira de Hathaway. Um engenheiro que vai para as montanhas do Kentucky, com o objetivo de levar os benefícios do transporte ferroviário para aquelas, envolvendo-se com duas famílias que estão em guerra há tanto tempo que ninguém sabe mais por quais motivos. A presença de Sylvia Sidney como June Tolliver fascina. Um drama terno e mágico.

1941, EUA
O ÚLTIMO REFÚGIO
(High Sierra)

direção de Raoul Walsh
elenco: Humphrey Bogart, Ida Lupino, Arthur Kennedy
 e Joan Leslie

Uma das primeiras parcerias de Bogart com o amigo John Huston (que aparece como roteirista). Ele ganhou seu primeiro papel principal somente porque Paul Muni e George Raft não encararam o bandido. Conta com locações na região californiana de Sierra Nevada, com imagens do Monte Whitney, o pico continental de maior altitude dos EUA. Na trama, após cumprir pena de oito anos por assalto a banco, bandido participa de um roubo num hotel, sendo perseguido pela polícia e acossado numa montanha. Refilmado como “Golpe de Misericórdia / Colorado Territory” (1949) e “Morrendo a Cada Instante / I Died a Thousand Times” (1955). No elenco, a excelente Ida Lupino.

1943, EUA
ESTA TERRA é MINHA
(This Land is Mine)

direção de Jean Renoir
  elenco: Charles Laughton, Maureen O’hara, George Sanders
 e Una O’Connor

Em meio à ocupação nazista na França, um tímido e inseguro professor (Laughton, em soberba atuação) muda seu comportamento ao se ver envolvido em ações da Resistência Francesa e ser acusado injustamente por um assassinato. Clássico do francês Jean Renoir, filmado nos EUA, tem momentos tocantes, como o discurso final de Laughton falando de liberdade, opressão, covardia e coragem. Imbatíveis em cena, Laughton e a coadjuvante de luxo Una O’Connor voltariam a trabalhar juntos em “Testemunha de Acusação / Witness for the Prosecution” (1957), de Billy Wilder.

1945, Inglaterra
DESENCANTO
(Brief Encounter)

direção de David Lean
elenco: Celia Johnson e Trevor Howard

Lean, o diretor de grandes épicos, filmou com dificuldades, em pleno auge da Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra, este drama delicado, levando sua primeira indicação ao Oscar. Questionando a infidelidade e valorizando o amor proibido, sofreu certa rejeição por parte dos críticos que o condenaram por abordar assuntos que iam contra os valores morais da época. Repleto de cenas maravilhosas, não é exagero considerá-lo um dos melhores filmes românticos do cinema. Suave, sem exageros, sincero e melancólico, foge do convencional típico de Hollywood e conta com atuações esplêndidas.

1949, EUA
SANGUE do MEU SANGUE
(Strangers in the House)

direção de Joseph L. Mankiewicz
elenco: Edward G. Robinson, Susan Hayward, Richard Conte
e Debra Paget

Rude imigrante italiano sobe na vida ao praticar uma série de atividades ilegais num banco fundado por ele. Quando é preso, três dos seus filhos se voltam contra ele, enquanto que apenas um deles decide defendê-lo. Refilmado como faroeste – “A Lança Partida / Broken Lance” (1954) –, sombrio e agressivo, tenso e belo, reafirma o talento do diretor-roteirista Mankiewicz (de “A Malvada / All About Eve”, 1950). As atuações de Edward G. Robinson e Richard Conte, dois atores fabulosos, são milagrosas. Susan, belíssima, já deixa evidente que seria uma das maiores estrelas dos anos 50.

1955, EUA
CONSPIRAÇÃO do SILÊNCIO
(Bad Day at Black Rock)

direção de John Sturges
elenco: Spencer Tracy, Robert Ryan, Anne Francis,
Dean Jagger, Walter Brennan, Ernest Borgnine
e Lee Marvin

Considerado por muitos críticos como a obra-prima de Sturges, não obedece aos códigos de nenhum gênero, misturando western, thriller, policial e filme de guerra. Tracy (num fabuloso trabalho que lhe valeria mais uma nomeação para o Oscar) chega a pequena cidade em busca de um certo Komako, mas todos os habitantes parecem se unir para tentar impedi-lo de encontrá-lo. A maioria silenciosa e o linchamento de Komako tem a ver com o linchamento moral a que o macarthismo vinha submetendo artistas e intelectuais suspeitos de atividades antinorte-americanas. Robert Ryan se destaca com mais um personagem asqueroso em sua filmografia. Admirável, o filme dura apenas 80 minutos, mas impõe personagens e situações, mantendo um clima de suspense magnificamente conduzido, partindo de um roteiro muito bem desenvolvido.

1958, Itália
A LONGA NOITE de LOUCURAS
(La Notte Brava)

direção de Mauro Bolognini
elenco: Rossanna Schiaffino, Elsa Martinelli, Laurent Terzieff,
Jean-Claude Brialy e Antonella Lualdi

Primeiro dos três filmes de Bolognini com roteiro de Pier Paolo Pasolini. Com um elenco atraente de novos talentos da Itália e da França, fala de gigolôs e prostitutas. Elas rodam bolsinha nos becos romanos, eles as exploram. Realista e comovente, prova o talento subestimado do diretor, que ficaria conhecido por exemplares reconstituições históricas e adaptações de grandes romancistas (Alberto Moravia, Italo Svevo, Vasco Pratolini etc.) e seria rotulado injustamente de mero imitador de Visconti.

1967, Canadá
APENAS uma MULHER
(The Fox)

direção de Mark Rydell
elenco: Sandy Dennis, Anne Heywood e Keir Dullea

Numa fazenda no interior do Canadá, duas garotas solitárias e apaixonadas têm seu relacionamento ameaçado com a chegada inesperada de um atraente estranho. É um dos primeiros filmes a tratar explicitamente o tema do lesbianismo. Considerado um clássico, inspirado na obra do inglês D. H. Lawrence, causou um profundo frisson à época de seu lançamento no Brasil, no final dos anos 60, em pleno vigor do AI 5.

1968, França
As CORÇAS
(Les Biches)

direção de Claude Chabrol
elenco: Stéphane Audran, Jacqueline Sassard  
e Jean-Louis Trintignant

Nunca lançado comercialmente no Brasil, “Les Biches” (que, em francês, pode ser tanto os animais como sinônimo de namoradeira) fala da história de amor e morte entre duas mulheres. Why (Jacqueline Sassard, impecável) é uma artista que desenha as corças do título na calçada. Frédérique (Stéphane Audran, musa e mulher do diretor na época, que com esse papel venceu o Leão de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim), uma ricaça entediada, aproxima-se e deixa para ela, ao lado das moedas, uma nota de 500 francos. Tornam-se amantes. Com personagens inesquecíveis e impactantes, extraordinariamente bem interpretados, dando vazão a suas pulsões soturnas e indizíveis, o filme é incisivo e seco. Ambiguidade, crítica à burguesia com seus valores questionáveis, tensão sexual permanente, frivolidade e cinismo.

1971, EUA
A ÚLTIMA SESSÃO de CINEMA
(The Last Picture Show)

direção de Peter Bogdanovich
elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd,
Ben Johnson, Cloris Leachman e Ellen Burstyn

Dois adolescentes passam seus dias bebendo e namorando em uma cidadezinha do Texas no início da década de 1950, época da guerra da Coréia. Eles têm como diversão apenas uma sessão semanal de cinema na única sala de exibição da cidade, além da iniciação sexual. Só que os dois se apaixonam pela mesma moça e aí a amizade entre eles se abala. Indicado para oito Oscars, venceu nas categorias coadjuvantes (os veteranos Ben Johnson e Cloris Leachman). Filmado em preto-e-branco, transmite uma sensação de desolação e melancolia. O romantismo de outros filmes feitos ou ambientados nos anos 50 não tem lugar aqui. Além das infidelidades, apresenta ainda momentos reveladores dos segredos escondidos naquela sociedade aparentemente perfeita. Há pedofilia, orgias particulares e até insinuações de homossexualismo. Tudo isso é apresentado de forma honesta. Bogdanovich, após uma vida tumultuada, sofreu reveses na carreira e hoje em dia é mais lembrado como historiador e comentarista de cinema. No elenco, Ellen Burstyn, que se tornaria uma das grandes atrizes dos anos 70.

1976, Brasil
GUERRA CONJUGAL

direção de Joaquim Pedro de Andrade
elenco: Lima Duarte, Jofre Soares, Carmem Silva,
 Ítala Nandi e Carlos Kroeber

Joaquim Pedro de Andrade foi um marco na cinematografia brasileira. É dele o célebre “Macunaíma” (1969), filme que ainda é reproduzido com frequência e debatido por todo o país. Mas toda a obra do diretor é fortemente expressiva. Em tempos de um cinema brasileiro diferente – data da notável década cinematográfica de 1970 – revela a sórdida vivência de homens e mulheres desprezíveis, imundos, mas nem por isso menos humanos. Baseado em um grupo de contos de Dalton Trevisan, traz o amor descontente e sádico de uma sociedade violenta que ri de sua própria desgraça. Traz homens e mulheres embalados pelo sexo agressivo, pelo machismo e pela solidão. A “civilização terno e gravata” é o cerne de todo o filme para mostrar o comportamento mesquinho e insensato dos pertencentes às camadas urbanas. Frases bem encaixadas durante os poucos 90 minutos de filme, deixam marcas do sarcasmo intenso de Trevisan. Um filme sobre as psicopatologias amorosas da urbe. Completo em sua acidez e azedo até mesmo nos cenários ridiculamente ligados ao interior dos personagens.

1986, EUA
A MANHÃ SEGUINTE
(The Morning After)

direção de Sidney Lumet
elenco: Jane Fonda, Jeff Bridges  e Raul Julia

Uma atriz decadente e alcoólatra, numa de suas habituais bebedeiras, acaba passando a noite com um famoso fotógrafo. Ao acordar na manhã seguinte, encontra o homem assassinado na sua cama. Incapaz de lembrar onde está e o que aconteceu, ela pede ajuda a seu cabeleireiro e ex-marido para se desfazer do corpo. A seguir,  conhece um ex-policial que acaba por ajudá-la a desvendar o mistério. Aos 49 anos, Jane Fonda vivia uma carreira brilhante, das mais brilhantes do cinema norte-americano, indicada nada menos que sete vezes ao Oscar, e vencido duas vezes. Por sua sensacional interpretação neste filme recebeu sua oitava indicação ao prêmio da Academia. Ela se inspirou, para compor o personagem de Alex, em Gail Russell (1924 - 1961), a atriz que, tímida, tornou-se alcoólatra e foi encontrada morta em seu apartamento, em meio a muitas garrafas vazias, aos 36 anos. Renegado pela crítica, esse thriller tem alguns furos na trama. De qualquer forma, vale a pena vê-lo por causa do talento de Lumet, dos personagens e das interpretações de Fonda e Bridges.