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setembro 14, 2011

************** ENTREVISTANDO CARL TH. DREYER

carl theodor dreyer (1889 - 1968)

 
Entrevista realizada por Michel Delahaye
revista “Cahiers Du Cinema” nº 170
setembro de 1965


Que cineastas o influenciaram?

Griffith. E, sobretudo, Sjostrom.

Tinha visto muitos filmes quando começou a fazer cinema?

Não, não muitos. Interessava-me o cinema sueco: Sjostrom, e também Stiller. Depois descobri Griffith. Quando vi “Intolerância / Intolerance” (1916), interessou-me principalmente o episódio moderno, mas todos os seus filmes me emocionaram: “Inocente Pecadora / Way Down East” (1920), e os outros...

o vampiro

Há na sua obra uma proporção de adaptações. Em sua maioria são peças de teatro.

Sim. Eu sei que não sou um poeta. Sei que não sou um grande autor dramático. É por isso que prefiro colaborar com um verdadeiro poeta e com um verdadeiro autor dramático. O mais recente é Soderberg, o autor da peça “Gertrud”. Soderberg é um grande autor, que não foi suficientemente estimado quando vivia.

Que regras ou que intuições o guiam quando adapta uma peça ou um romance?

No teatro, tem-se tempo para escrever, tempo para repousar nas palavras, nos sentimentos, e o espectador tem tempo para perceber essas coisas. No cinema sempre gostei de concentrar os meus esforços sobre a purificação do texto, que comprimo ao máximo. Comprimo-o, limpo-o, purifico-o, e a história torna-se muito clara, muito nítida. Emprego esse método em “Dia de Ira / Vredens Dag” (1943), “A Palavra / Ordet” (1955), “Gertrud / idem” (1964), que são peças de teatro. Se procedo assim, é porque julgo que não nos podemos permitir no cinema o que nos podemos permitir no teatro. No teatro, há as palavras. E as palavras enchem o espaço, ficam no ar. Podemos escutá-las, senti-las, experimentar o seu peso. Mas no cinema, as palavras são muito depressa relegadas para um fundo que as absorve, e é por isso que o essencial basta.

“a palavra”

A maneira como exemplificou a adaptação é reveladora: assim como não separa a alma do corpo, também não separa as diferentes formas de cinema. É o mesmo problema que se lhe pôs no cinema mudo e no do falado, e resolveu-o de maneira semelhante.

Procuro antes de tudo, e em todos os casos, fazer de maneira que aquilo que tenho de exprimir torne-se cinema. Para mim, “Gertrud” já não é de maneira nenhuma teatro, tornou-se um filme. Evidentemente, um filme falado... Com diálogo, mas um mínimo de diálogo. Apenas o necessário. O essencial.

Entre os filmes que realizou, há algum que gostaria de ter feito a cores?

Gostaria muito de ter feito “Gertrud” a cores. Tinha mesmo em vista um certo pintor sueco, que estudou bem a época em que se desenrola o filme, e que fez muitos desenhos e pinturas em que utiliza cores muito especiais.

“a paixão de joana d'arc”
“Gertrud” passou recentemente na França, na televisão. Que pensa da televisão?

Não gosto da televisão. Preciso da grande tela. Preciso da sensação comum da sala. Um filme feito para comover deve comover uma multidão.

De que gosta atualmente no cinema?

Primeiro devo dizer-lhe que vejo muitos poucos filmes. Tenho sempre medo de ser influenciado. No entanto vi, entre os filmes franceses, “Hiroshima Mon Amour / idem” (1959) e “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois / Jules et Jim” (1962). Gostei muito de “Jules e Jim”. “Hiroshima...” também, sobretudo a segunda parte. Em resumo, gosto de Jean-Luc Godard, François Truffaut, Henri-Georges Clouzot e Claude Chabrol.

“dias de ira”

Viu os filmes de Robert Bresson?

Nunca vi nada dele.

Que pensa dos filmes de Ingmar Bergman? Creio que não gosta deles...

Pois bem, julgar isso, é um erro. Pois vi um filme dele de que gosto muito: “O Silêncio / Tystnaden” (1963). Acho que esse filme é um triunfo, pois ele teve a coragem de agarrar num assunto muito difícil e muito delicado de tratar, e ele encontrou, para o realizar, a boa solução. Vi o filme em Estocolmo, num grande cinema e, durante a sessão e mesmo depois, quando as pessoas saíam da sala, reinava entre todos o silêncio mais completo. Era impressionante. Isso também prova que atingiu o seu objetivo, apesar do perigo do tema, e que fez bem feito o que era preciso fazer. Mas vi muito poucos dos seus filmes, e isto porque começaram a dizer que ele tinha imitado os meus filmes.

“gertrud”

Pensa que é verdade?

Não penso que tenha havido imitação. Bergman tem uma personalidade forte para dispensar-se de imitar os filmes dos outros. Mas vi poucos dos seus filmes, repito-lhe. Conheço mal a sua obra. Tudo o que posso dizer, é que “O Silêncio” é uma obra-prima.

Independentemente da questão da imitação, é certo que muitos cineastas foram levados ao cinema pelos seus filmes. Adquiriram, graças a você, o gosto do cinema.

É por isso que vou muito pouco ao cinema. Não quero ver, nem os filmes que poderiam ter sido influenciados por mim – se os há -, nem os que me poderiam influenciar.

mikhael

Os seus filmes representam um acordo com a vida, uma caminhada para a alegria...

É talvez porque, muito simplesmente, não me ocupo em ter relações com seres – homens ou mulheres – que não me interessam pessoalmente. Só posso trabalhar com pessoas que me permitem realizar um certo acordo. O que me interessa – e isso vem antes da técnica – é reproduzir os sentimentos das personagens dos meus filmes. É reproduzir, tão sinceramente quanto possível, sentimentos tão sinceros quanto possível. O importante, para mim, não é só agarrar as palavras que eles dizem, mas também os pensamentos que estão atrás das palavras. O que procuro nos meus filmes, o que quero obter, é penetrar os pensamentos profundos dos meus atores, através das suas expressões mais sutis. Pois são essas expressões que revelam o caráter das personagens, os seus sentimentos inconscientes, os segredos que repousam no fundo da sua alma. O que me interessa antes de mais nada, é isso, e não a técnica do cinema.

Para chegar ao que quer obter, penso que não há regras precisas...

Não. É preciso descobrir o que há no fundo de cada ser. É por isso que procuro sempre atores capazes de responder a esta busca, que estejam interessados nela, que me possam ajudar. É preciso que sejam capazes de me dar o que procuro obter deles. Mas dificilmente posso exprimir-me acerca disso como devia ser. E, aliás, é possível?