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junho 09, 2023

********** PAUL NEWMAN – BELO e INDOMÁVEL


 
Eu gostaria de ser lembrado como um cara 
que tentou fazer parte de seu tempo, 
tentou ajudar as pessoas, tentou encontrar 
alguma decência em sua própria vida, 
tentou se expandir como ser humano.
PAUL NEWMAN
 
Altura: 1,77m
Olhos: azuis
Cabelos: castanhos
Apelidos: Rei Cool e PL

 
 
Uma lenda de Hollywood. Considerado um dos mais belos atores da história do cinema, seu carisma e talento ofuscaram sua beleza. PAUL NEWMAN (1925 - 2008. Cleveland, Ohio / EUA) surgiu nos anos 50, criticado como mais um imitador de Marlon Brando e James Dean, mas conseguiu se destacar e vencer, tornando-se um dos maiores astros do cinema de todos os tempos. Começou a carreira como ator cedo, aos 7 anos, no papel de bobo da corte numa peça sobre o lendário Robin Hood. Poucos atores envelheceram tão bem. Mas não era um santo. Expulso da Universidade de Ohio por mau comportamento, acabou casando-se com a atriz Jacqueline Witte (com quem viveu de 1948 a 1958) e se mudou para New Haven, Connecticut, onde estudou Artes Dramáticas na Universidade de Yale. No palco, notado por agentes, terminou em Nova York. Após participações na televisão, conseguiu um bom papel na peça “Picnic”.

paul no actors studio

Tendo aulas no lendário Actors Studio, estreou no cinema em “O Cálice Sagrado / The Silver Chalice” (1954), e por anos tentou se desculpar, por considerar o resultado muito ruim. E tinha razão. Chegou a comprar um anúncio na revista “Variety”, pedindo desculpas ao público. Um dos seus melhores amigos na época era James Dean. Viviam juntos. Os dois fizeram testes para o clássico de John Steinbeck “Vidas Amargas / East of Eden” (1955), direção de Elia Kazan, que acabou estrelado por James Dean.
 
Eles disputaram o protagonismo de “Marcado pela Sarjeta” e “Um de Nós Morrerá / The Left Handed Gun” (1958), mas, com a morte do colega em um acidente de automóvel, PAUL NEWMAN acabou conquistando tais oportunidades. Na contramão do sistema, interpretou marginalizados, perdidos em conflitos de natureza existencial, trazendo na essência um forte espírito de revolta, enfatizando uma luta interior contra o mundo. Verdadeiros anti-heróis e rebeldes. Conhecido por seu senso de humor irônico e travesso, usou frequentemente esse bom humor em suas performances. Mas a história do astro tem detalhes nada divertidos, como seu alcoolismo ou o drama com o filho primogênito, que morreu de overdose de álcool e drogas, aos 28 anos. Como PAUL NEWMAN bebia muito, ele não sabia lidar com o vício do filho. Scott nascera de seu primeiro casamento e era gay. Se envolveu com ex-amantes do próprio pai, entre eles Sal Mineo, que teria telefonado apenas para dizer que estava na cama com seu filho.
 
joanne e paul
A primeira indicação ao Oscar veio por “Gata em Teto de Zinco Quente” (1958), drama baseado na peça de Tennessee Williams. Durante toda a carreira somou mais sete indicações como Melhor Ator, uma como Ator Coadjuvante e uma como Produtor. Após ser premiado em 1987, pelo conjunto de sua carreira, levou o esperado Oscar por “A Cor do Dinheiro / The Color of Money” (1986). Ao todo recebeu seis Globos de Ouro, um Emmy, um BAFTA, Urso de Prata no Festival de Berlim, Melhor Ator no Festival de Cannes, entre outros. Em 1957, durante as filmagens de “O Mercador de Almas”, ele e Joanne Woodward decidiram largar seus respectivos cônjuges e se casaram. Permaneceram juntos até a morte dele, cinco décadas depois. Ao todo PAUL NEWMAN teve seis filhos, três com cada esposa. Parceiros na vida e na tela (fizeram 15 filmes), ele dirigiu pela primeira vez a mulher em “Rachel, Rachel / Idem”. O reconhecimento foi imediato - dois Globos de Ouro e quatro indicações ao Oscar.
 
PAUL NEWMAN participou de 56 filmes, além de séries para TV. Dirigiu cinco longas e um telefime. Trabalhou sob o comando de cineastas como Robert Wise, Martin Ritt, Leo McCarey, Alfred Hitchcock, Robert Altman, Robert Rossen, Arthur Penn, Sidney Lumet, Sydney Pollack, John Huston, Martin Scorsese, Joel Cohen e Otto Preminger. Uma coleção e tanto! Seu filme favorito, “Marcado Pela Sarjeta. Declarou ter ficado frustrado por não ter sido indicado ao Oscar por esse desempenho. Seus maiores sucessos de público seriam as parcerias com Robert Redford: “Golpe de Mestre” e “Butch Cassidy”. Recusou “O Canhoneiro do Yang-Tsé / The Sand Pebbles” (1966), que rendeu uma indicação ao Oscar para Steve McQueen; “Operação França / The French Connection” (1971), que deu o Oscar a Gene Hackman; e “Tubarão / Jaws” (1975). Outra recusa histórica foi a do protagonista de “Ben-Hur / Idem” (1959), resultando no Oscar para Charlton Heston, com a desculpa de que “não possuía pernas para usar túnicas”
 
james dean e paul
A biografia best-seller “Paul Newman: The Man Behind The Baby Blues”, de Darwin Potter, publicada em 2009, revela a bissexualidade do ator, inclusive com depoimento de um dos seus amantes, Marlon Brando. PAUL NEWMAN teve uma relação amorosa apaixonada com James Dean, ficando inconsolável com sua trágica morte em 1955. Com Brando viveu um romance que começou nos bastidores da Broadway. Ele foi assistir a uma peça protagonizada por Brando e, ao final, dirigiu-se ao camarim para cumprimentá-lo – fizeram sexo pela primeira vez ali mesmo. O ator iniciou sua experiência homossexual ainda na Marinha, com o também ator Robert Stack. A biografia ainda faz alusão a um final de semana romântico com o dramaturgo Tennessee Williams, em Key West, na Flórida. O autor declarou que não acredita que a sua obra reserve alguma novidade à viúva Joanne. “Ela conhecia a fundo a vida de seu marido.”, afirmou. Segundo ele, ela estava casada com o escritor, e também bissexual, Gore Vidal, quando conheceu PAUL NEWMAN. E os três compartilharam a mesma casa (e cama) por algum tempo.
 
Reservado e sem escândalos públicos na sua trajetória, o astro levou muitos colegas para a cama. Ele se envolveu com Marilyn Monroe, ao mesmo tempo que se apaixonou perdidamente pelo novato Steve McQueen, que ao ficar famoso o desprezou cruelmente, desenvolvendo uma relação de amor e ódio que perdurou até a morte de McQueen, em 1980. Judy Garland, Joan Crawford e Audrey Hepburn foram casos rápidos, assim como Montgomery Clift, Yul Brynner e Rock Hudson. Os filmes não eram a única coisa em sua vida. Sua linha de produtos Newman’s Own, abrangia desde molhos de espaguete a temperos para saladas. Os lucros ultrapassaram os US$ 100 milhões ao longo dos anos, e eram doados para associações humanitárias. Ele fundou uma organização para crianças com doenças graves. Outra paixão era o automobilismo. Chegou a ter uma equipe de Fórmula Indy. Morreu aos 83 anos, vítima de câncer do pulmão.
 
 
DEZ FILMES de PAUL NEWMAN
(por ordem de preferência)
 
01
O INDOMADO
(Hud, 1963)

direção de Martin Ritt
elenco: Melvyn Douglas, Patricia Neal e Brandon de Wilde
 
02
GATA em TETO de ZINCO QUENTE
(Cat on a Hot Tin Roof, 1958)

direção de Richard Brooks
elenco: Elizabeth Taylor, Burl Ives, Jack Carson e Judith Anderson
 
03
REBELDIA INDOMÁVEL
(Cool Hand Luke, 1967)

direção de Stuart Rosenberg
elenco: George Kennedy, Strother Martin, Jo Van Fleet e Dennis Hopper
 
04
O VEREDITO
(The Verdict, 1982)

direção de Sidney Lumet
elenco: Charlotte Rampling, Jack Warden, James Mason e Lindsay Crouse
 
05
DESAFIO à CORRUPÇÃO
(The Hustler, 1961)

direção de Robert Rossen
elenco: Jackie Gleason, Piper Laurie, George S. Scott e Murray Hamilton
 
06
O MERCADOR de ALMAS
(The Long, Hot Summer, 1958)

direção de Martin Ritt
elenco: Joanne Woodward, Orson Welles, Lee Remick e Angela Lansbury
 
07
DOCE PÁSSARO da JUVENTUDE
(Sweet Bird of Youth, 1962)

direção de Richard Brooks
elenco: Geraldine Page, Shirley Knight, Ed Begley, Rip Torn e Mildred Dunnock
 
08
MARCADO pela SARJETA
(Somebody Up There Likes Me, 1956)

direção de Robert Wise
elenco: Pier Angeli, Everett Sloane, Eileen Heckart e Sal Mineo
 
09
BUTCH CASSIDY
(Butch Cassidy and the Sundance Kid, 1969)

direção de George Roy Hill
elenco: Robert Redford, Katharine Ross e Cloris Leachman
 
10
GOLPE de MESTRE
(The Sting, 1973)

direção de George Roy Hill
elenco: Robert Redford, Robert Shaw, Charles Durning e Eileen Brennan
 
GALERIA de FOTOS
 

dezembro 27, 2022

****** FRED ZINNEMANN – Uma VIDA no CINEMA





entrevistador: DAVID GRITTEN
“Los Angeles Times”, 1992
eu fiz a tradução.
 
 
Há quase uma década, o veterano diretor FRED ZINNEMANN (1907 – 1997. Viena / Áustria), cuja assinatura está em alguns dos mais notáveis filmes de Hollywood, está em aposentadoria voluntária - descartado da indústria do cinema pelo veneno das críticas ao seu último filme, “Cinco Dias de Verão / Five Days One Summer”. Sua idade - ele tem 85 anos - e problemas de saúde contribuíram para a decisão, mas o julgamento perverso ao filme de 1983, uma aventura romântica ambientada nos Alpes franceses e estrelado por Sean Connery, deixou o diretor desanimado. “Não estou dizendo que foi um bom filme”, diz ele. “Mas havia um certo grau de crueldade nas críticas. O prazer que algumas pessoas tiveram em destruí-lo realmente doeu.” Ele tinha visto seu amigo, o falecido David Lean, passar pela mesma experiência. Lean ficou deprimido com a hostilidade a “A Filha de Ryan / Ryan's Daughter”, em 1970. Depois disso, Lean fez apenas mais um filme, “Uma Passagem para a Índia / A Passage to India”, lançado em 1984, embora estivesse trabalhando em “Nostromo”, de Joseph Conrad, na época de sua morte.
 
“Cinco Dias de Verão Five” será o canto do cisne de FRED ZINNEMANN no cinema. Mas a amargura permanece. “Sentimos que, mesmo que o filme não represente nada, temos direito a algum respeito”, se queixa. “Não mais do que isso.” O currículo do diretor seria elogioso se tivesse apenas “Espíritos Indômitos / The Men”, o primeiro filme de Marlon Brando, de 1950. Mas ele dirigiu também os clássicos “Matar ou Morrer”, “A Um Passo da Eternidade e “Júlia”, bem como outros filmes excelentes: o drama “Uma Cruz à Beira do Caminho”, com Audrey Hepburn, o simpático musical “Oklahoma! / Idem” (1955) e o tenso thriller “O Dia do Chacal”. Não ficou ocioso em sua aposentadoria. Nos últimos cinco anos, trabalhou meticulosamente em sua autobiografia pictórica, “Fred Zinnemann: A Life in the Movies”, recentemente publicada pela Scribners. As críticas têm sido excelentes. Frederic Raphael, no “London Sunday Times”, chamou o volume de fascinante e o descreveu como “um relato admiravelmente conciso de uma carreira de diretor que coincide com o período clássico de Hollywood”. “Ainda outro relato de uma vida no cinema, mas de alguma forma mais do que isso”, afirmou a “Entertainment Weekly”. O “Boston Globe” destacou a “riqueza de imagens como matéria-prima” do livro.
 
zinnemann e grace kelly
Em uma tarde recente em seu escritório perto de Berkeley Square, em Mayfair, FRED ZINNEMANN admitiu que seu esforço de cinco anos foi “uma estrada longa e triste cheia de armadilhas”. “Um problema era o custo de ter tantas fotos. Os editores não entendiam por que tinha que haver tantas. E uma editora não tinha dinheiro, então fomos para outra. Mas eu pensei que sem as fotos seria inútil. Não sou um escritor. Tinha que haver ilustrações. Era preciso ver como Harry Cohn parecia para entender como ele se comportava”.
 
Existem agora 440 fotos no livro, algumas delas de valor inestimável. Há uma cena de um bêbado em um bar vazio, que foi cortada de “Matar ou Morrer”, e outra de Gary Cooper e Grace Kelly almoçando com a equipe. Lá está Brando visitando Zinnemann e Montgomery Clift no set de “A Um Passo da Eternidade”. O livro abrange os primeiros anos do cineasta em Viena, seguidos por períodos na escola de cinema em Paris e como assistente de cinegrafista em Berlim. Ele chegou aos Estados Unidos em 1929, trabalhou para o diretor Berthold Viertel e aprendeu seu ofício como aprendiz até sua estreia na direção em 1942, “Um Assassino de Luvas / Kid Glove Killer”, no qual Ava Gardner teve um papel de duas falas. Ele divide sua vida subsequente em capítulos que correspondem a seus filmes e usa suas experiências como trampolim para uma série de reminiscências. Se lembra vividamente do jovem Brando, entusiasmado com seu sucesso em “Um Bonde Chamado Desejo” na Broadway, fazendo um teste para ele e os produtores Stanley Kramer e Carl Foreman para o papel principal em “Espíritos Indômitos”. “Ele tinha uma intensidade real”, lembra FRED ZINNEMANN. “Era como um vulcão. Não era fácil de trabalhar. Suspeitava do pessoal de Hollywood e conservava suas próprias impressões.” Mas aceitou o papel, interpretando um veterano de guerra paraplégico em uma enfermaria de hospital cheia de ex-soldados paralíticos.
 
“Kramer e Foreman fizeram o filme de forma independente. Se alguém tivesse ido a um estúdio com um tema como este, não chegaria a lugar nenhum.” Fiel ao seu treinamento do método, Brando viveu em uma verdadeira enfermaria paraplégica por três semanas, ao final das quais apenas médicos e enfermeiras sabiam que ele não estava realmente paralisado. Embora alguns atores agora se preparem para papéis com tanta meticulosidade, esta foi sem dúvida a primeira vez que um ator de cinema se preparou com tanta profundidade. “Ele concebeu um personagem”, disse FRED ZINNEMANN. “Minha direção foi puramente a parte técnica. Não venho do teatro e não pretendo dizer aos atores como fazer algo. Conto a eles sobre o desenvolvimento do personagem, o que uma cena específica exige e é isso.” Montgomery Clift foi outro ator incrível que apareceu em dois filmes do diretor, “Perdidos na Tormenta / The Search” (1948) e “A Um Passo da Eternidade” (1953), como o soldado individualista que se recusa a ser controlado pelas duras regras do Exército.
 
O diretor discutiu com Harry Cohn quando insistiu que queria Clift na produção. “Ele achava que o filme era sobre boxe, e eu achava que era sobre o espírito humano”, diz. Cohn queria outro ator que, segundo ele, “está sob contrato, não trabalha há 10 semanas, seu salário está subindo, ele parece um boxeador e as garotas gostam dele”. Quando disse que preferia Clift, retrucou que ele “não era soldado, nem boxeador e provavelmente homossexual”. Acontece que Cohn estava certo em todos os aspectos, mas subestimou a capacidade de Clift de se colocar psicologicamente em um papel. FRED ZINNEMANN ameaçou desistir de um grande robusto se Clift não conseguisse o papel. Ele cedeu e, diz o diretor “quando Monty estava pronto para o papel, poderíamos jurar que ele era um soldado de primeira linha e um bom boxeador”. Deborah Kerr foi outra escolha complicada para a esposa adúltera do capitão. “Joan Crawford estava pronta para fazer o papel e, na verdade, já estava reclamando de seu guarda-roupa”, diz. “Mas então, quando Deborah foi sugerida, todos nós pensamos que seria uma excelente ideia contratar outra atriz. Naquela época, Deborah era vista quase como a rainha da Inglaterra, fria como um iceberg. Mas funcionou lindamente.”

Kerr e Burt Lancaster gravaram uma das cenas mais memoráveis ​​da história do cinema - um abraço explosivo na praia enquanto as ondas quebravam sobre eles. FRED ZINNEMANN observa ironicamente que os ônibus turísticos ainda param em Diamond Head, no Havaí, para apontar onde a cena foi filmada: “É uma curiosa contribuição que demos à cultura popular O faroeste “Matar ou Morrer” continua sendo o filme mais conhecido de Zinnemann e que rende várias interpretações para diferentes pessoas. Ele não concorda com a afirmação do roteirista Carl Foreman de que é uma alegoria do macarthismo. “Algumas pessoas até acham que é uma alegoria da Guerra da Coréia”, acrescenta. “Mas eu vejo como um homem lutando para salvar sua própria vida, um homem que deve tomar uma decisão de acordo com sua consciência.” 

 Ele gostou muito de dirigir o filme e trabalhar com Gary Cooper, que interpretou o corajoso xerife de uma pequena cidade. Mas diz que gostou igualmente do desafio de completar o faroeste dentro dos 28 dias previstos. Esse tipo de comentário levou FRED ZINNEMANN a ser visto por alguns críticos como um mestre da logística, e não como um diretor com uma visão autoral. Certamente, admite ter gostado dos problemas técnicos envolvidos na filmagem de “Oklahoma!”. E o que ele lembra melhor sobre “O Dia do Chacal” foi “ver se o suspense poderia ser mantido com o público sabendo o final – isto é, que o Chacal falhou em matar De Gaulle. Esse tipo de coisa me fascinava, tornou-se como um jogo de palavras cruzadas.”
 
A melhor e mais divulgada história sobre diretor é boa. Cerca de uma dúzia de anos atrás, com todos os filmes clássicos em seu currículo, ele foi persuadido a fazer uma reunião com um ousado e jovem executivo de um estúdio de Hollywood. “Então,” iniciou o executivo, destemido na própria ignorância, “nós nunca nos encontramos antes. Conte-me algumas das coisas que você fez. “Não, não”, disse educadamente. Você primeiro.” É verdade? Ele ri. “Há anos venho tentando repudiar essa história. Parece-me que Billy Wilder me contou sobre si mesmo.Quer a história seja verdadeira ou não, ela se encaixa. FRED ZINNEMANN, que ainda tem um forte sotaque austríaco, é educado e cheio da antiga cortesia vienense. Mas está impaciente com a nova Hollywood. Por mais que ele fale mal de Harry Cohn e daquela raça autocrática de chefes de estúdio, pelo menos conheciam filmes. “Eram gananciosos, e eu sentia desprezo pela forma como usavam o poder. Mas amavam o cinema - isso se poderia discutir com eles.”, diz ele.

marlon brando, zinnemann
e montgomery clift
Agora, como ele vê, tudo é diferente, contadores e advogados comandam o show. “Se falarmos com esses caras sobre o amor pelo cinema, não tenho certeza se eles saberão do que estamos falando”, diz ele. A virada que azedou o diretor ocorreu em 1969, quando a MGM cancelou sua versão do romance de Andre Malraux, “Man's Fate”, no qual ele vinha trabalhando há três anos. Sem motivo, o estúdio findou o filme três dias antes do início das filmagens em Londres. “Até aquele ponto”, diz com um suspiro, “havia uma certa honra de ladrão no negócio. Mas depois disso, um aperto de mão não era mais um aperto de mão.” Ainda assim, é um profissional sem rancor. Sua autobiografia é desprovida de amargura pessoal, não há contas sendo acertadas com velhos inimigos ou fofocas maliciosas. Sobre o fiasco de “Man's Fate”, se refere a um executivo da M-G-M com quem nunca mais falou - mas não o menciona no livro. Ele também se refere a rixa com a dramaturga Lillian Hellman, que escreveu o conto no qual “Júlia” foi baseado, mas nos poupa de detalhes.
 
“Não vejo para que serve revisar essas coisas”, diz. “Não estou prestes a julgar ninguém.” Mas ele admite que viu Hollywood “do ponto de vista de um verme. Vi pessoas se comportando mal. Aprendi muito sobre a natureza humana. Pode ser engraçado, mas com certeza não é interessante. Achei que a melhor maneira era rir disso.” A vida privada de FRED ZINNEMANN também não se intromete muito em seu livro. Renée, sua esposa há mais de 50 anos, recebe sua maior menção por meio de um pequeno papel que desempenhou em “Uma Cruz à Beira do Caminho”. “Bem”, diz, “há coisas que devem permanecer privadas. Algumas das coisas que as pessoas escrevem sobre suas próprias vidas são indecentes.” À sua maneira, ele nada contra a maré - apesar dos críticos que acusam seus filmes de serem conservadores e convencionais. Ele se lembra de ter lido “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, quando estudante. “Era sobre um jovem nadando contra a corrente o tempo todo, e isso influenciou a minha atitude.” E quando dirigiu seus próprios filmes, eles tendiam a ser sobre questões em debate. Seus filmes do pós-guerra, influenciados por cineastas neorrealistas italianos, abordaram temas como a situação dos veteranos de guerra, noivas de guerra estrangeiras e crianças deslocadas.

zinnemann e audrey hepburn
Logo foi procurado para dirigir filmes de grande orçamento. “As pessoas achavam que havia um certo tipo de história que eu gostava de fazer”, lembra ele. “Eu queria cada vez mais filmar histórias no local a que elas pertenciam. E isso me levou cada vez mais à Europa.” Ele insiste que nunca deu as costas a Hollywood, embora viva na Grã-Bretanha, que considera um país civilizado, há quase 30 anos. No entanto, admite alguma exasperação com o sistema estelar. “É uma coisa puramente pessoal”, refletiu. “Alguns diretores - Billy Wilder, John Huston, William Wyler - eram muito bons com estrelas, eram espirituosos, sabiam falar com elas e trabalhar com elas. Descobri que, a menos que se possa retirar esse elemento de estrelato do trabalho, haveria problemas. Para mim, foi mais fácil trabalhar com pessoas que podiam esquecer que eram estrelas.”
 
“Não apenas as estrelas custam muito dinheiro, mas psicologicamente os produtores, o estúdio, todo mundo sente que a estrela é a pessoa central e deve ser a história.” FRED ZINNEMANN descobriu que as demandas das estrelas podem ter um efeito desgastante sobre todos em um set de filmagem. Outros atores - menciona Vanessa Redgrave e Paul Scofield, de “O Homem que Não Vendeu sua Alma”, a quem descreve como um santo - são generosos e fornecem sustento para seus colegas. Ele sente que se divertiu e teve sorte. Tem uma filmografia que resiste ao teste do tempo. Hoje, recebeu um cartão de um amigo na Alemanha com citação de Schopenhauer, que diz: “Como é feliz no final da vida ver que sua obra não envelheceu com você”. O diretor se permite um sorriso irônico. “Não sou louco pelos alemães, mas eles são bons em citações. E essa é muito boa”.
 

DEZ FILMES de FRED ZINNEMANN
(por ordem de preferência)
 
01
A um PASSO da ETERNIDADE
(From Here to Eternity, 1953)

elenco: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra, Ernest Borgnine e Jack Warden
 
02
JÚLIA
(Idem, 1977)

elenco: Jane Fonda, Vanessa Redgrave, Jason Robards, Maximilian Schell, Hal Holbrook, Rosemary Murphy, Meryl Streep, Dora Doll e Cathleen Nesbitt
 
03
MATAR ou MORRER
(High Noon, 1952)

elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Thomas Mitchell, Lloyd Bridges, Katy Jurado, Otto Kruger, Lon Chaney Jr. e Lee Van Cleef
 
04
Uma CRUZ à BEIRA do ABISMO
(The Nun's Story, 1959)

elenco: Audrey Hepburn, Peter Finch, Edith Evans, Peggy Ashcrof, Dean Jagger, Mildred Dunnock e Beatrice Straight       
 
05
O HOMEM que NÃO VENDEU sua ALMA
(A Man for All Seasons, 1966)

elenco: Paul Scofield, Wendy Hiller, Robert Shaw, Leo McKern, Orson Welles, Susannah York, John Hurt e Corin Redgrave
 
06
A VOZ do SANGUE
(Behold a Pale Horse, 1964)

elenco: Gregory Peck, Anthony Quinn, Omar Sharif, Raymond Pellegrin, Paolo Stoppa, Mildred Dunnock, Daniela Rocca e Christian Marquand
 
07
O PEREGRINO da ESPERANÇA
(The Sundowners, 1960)

elenco: Deborah Kerr, Robert Mitchum, Peter Ustinov, Glynis Johns e Dina Merrill
 
08
O DIA do CHACAL
(The Day of the Jackal, 1973)

elenco: Edward Fox, Michel Auclair, Alan Bade, Derek Jacobi e Michael Lonsdale
 
09
A SÉTIMA CRUZ
(The Seventh Cross, 1944)

elenco: Spencer Tracy, Signe Hasso, Hume Cronyn, Jessica Tandy, Agnes Moorehead, Felix Bressart, Ray Collins e George Macready
 
10
ATO de VIOLÊNCIA
(Act of Violence, 1948)

elenco: Van Heflin, Robert Ryan, Janet Leigh, Mary Astor e Phyllis Thaxter