agosto 30, 2026

*************** MEMÓRIA do CANGAÇO: 20 FILMES

othon bastos em deus e o diabo na terra do sol

 

 O cangaceiro é um personagem trágico: 
entre o crime e a honra, vive no fio da faca.
ARIANO SUASSUNA 
 (1927 - 2014. João Pessoa / Paraíba)
 
Você pode entender Lampião,
sem se solidarizar com ele.
O sertanejo não admira o criminoso,
mas o homem valente.
LUIZ da CÂMARA CASCUDO
(1898 – 1986. Natal / Rio Grande do Norte)
Místico e rústico, justiceiro e criminoso, o CANGACEIRO forma ao lado do cowboy norte-americano e do samurai japonês, a trindade dos grandes heróis cinematográficos. Interessei-me pelo fenômeno ao ver a minissérie em oito episódios “Lampião e Maria Bonita” (1982), roteirizada por Aguinaldo Silva e Doc Comparato, com Nelson Xavier e Tânia Alves em inesquecíveis performances. Encantado, procurei saber mais sobre o tema histórico, lendo “Cangaceiros” (1953), de José Lins do Rego, “Cangaceiros e Fanáticos” (1963), de Rui Facó, e “Cabeleira” (1876), de Franklin Távora. Anos depois, li “Cangaços” (1931-1941), de Graciliano Ramos, e “Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil” (1985), de Frederico Pernambucano de Mello (1985), uma obra completa sobre o CANGAÇO. Dos primórdios no final do século 19 até meados da década de 1940, Mello discorre sobre os grupos especializados em saques de vilarejos, sequestros e crimes de encomenda. Na mesma época da minissérie global vi a obra-prima “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), do baiano rebelde Glauber Rocha.

O evidente é que quase um século após os seus acontecimentos, qualquer trama que envolve CANGACEIROS é revestida de uma aura fantástica, um surrealismo agreste. De boca a boca, tudo que é dito sobre eles é colocado no superlativo. Seja para louvá-los - em verso, imagem e prosa - ou para maldize-los. Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino, Corisco e Lampião são vistos como heróis lendários, mas estavam mais voltados para o banditismo, operando na região nordestina caracterizada por questões fundiárias e fome absurda. Figuras ambíguas e intrigantes, foram alvo de interpretações divergentes, sendo considerados bandidos por alguns historiadores e um produto das injustiças sociais por outros. A saga desses personagens valentes é uma narrativa verídica que perpetua a aura mística do CANGAÇO e continua a capturar a imaginação do público em geral. O peso sinistro de viver à margem da lei — um cotidiano feito de emboscadas, tiroteios, fugas e lutas pela sobrevivência – ainda hoje é fonte de atração. Esses mitos, por mais populares que sejam, ainda escondem histórias que são descobertas a conta gotas.

tarcísio meira em quelé do pajeú
Por mais que haja livros ou filmes sobre o CANGAÇO, cada qual busca mostrar um viés específico sobre os mesmos fatos. Há a trajetória da jovem que abandona tudo – casamento, família e uma vida pacata – para viver um amor tórrido com o bandido mais sanguinário do Brasil naqueles tempos. Sendo assim, me interessa esse movimento marginal. No entanto, não sou ingênuo, a atração não me ilude, tenho consciência que os CANGACEIROS eram brutais, estupradores e ladrões, embora tivessem uma mística guerreira sedutora ao enfrentar os coronéis que exploravam o povo.  Procuro aprofundar-me através de leituras nas figuras de Lampião, Jesuíno Brilhante, Corisco, Zé Baiano, Maria Bonita, Dadá, Lídia, Cascavel, Jararaca, Quinta-Feira, Alecrim, Elétrico, entre muitos outros, sabendo que são criminosos. Considero-os do mesmo naipe atualmente da esquerda maldita, com Luís Inácio Lula da Silva como líder, e no seu bando, frequentes emboscadas e roubos. Só que o presidente Pinguço não merece admiração, é um sujeito seboso, mentiroso, corrupto, inimigo do povo, já Lampião e outros bravos nomes, como Jesuíno Brilhante ou Corisco, tinham um certo charme, embora senhores da violência.


Vi quase todos os filmes sobre a aventura deles, alguns são ruins, outros clássicos para ver e rever. É fascinante a câmera do mascate libanês Benjamin Abrahão registrando o bando de Lampião em 1937. “O Cangaceiro”, de 1953, conquistou o Festival de Cannes. Carlos Coimbra foi, sem dúvida, o principal diretor do gênero, com várias contribuições de peso. Considero seu melhor filme “Lampião, Rei do Cangaço”, que parte do imaginário popular para recriar os últimos dias de Lampião e Maria Bonita (encarnados muito bem por Leonardo Villar e Vanja Orico). Movimento social ocorrido no Nordeste entre o final do século XIX e o início do século XX, abordado com insistência pelo cinema, narrando através de inúmeros filmes os massacres e os acontecimentos vividos por Virgulino Ferreira e seus cabras. Ele começou a aparecer no cinema nordestino, sobretudo pernambucano e baiano, a partir de 1925, em filmes como “Filho Sem Mãe” (1925), de Tancredo Seabra, “Sangue de Irmão” (1927), de Jota Soares, e “Lampião, a Fera do Nordeste” (1930), de Guilherme Gáldio. Esses títulos, infelizmente, se perderam.

O título mais antigo que podemos assistir, é
“Lampião, o Rei do Cangaço”, de 1937, um registro documental raro e intrigante de Lampião, Maria Bonita e seu grupo, mostrando cenas cotidianas de lazer e tranquilidade realizadas com esforço por Benjamin Abrahão Botto, cuja odisseia para conquistar a confiança do grupo é ficcionalizada sessenta anos depois no excelente filme pernambucano “Baile Perfumado” (1996), com Duda Mamberti no seu papel. Com o sucesso estrondoso de “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, a representação do CANGAÇO se consolida como um estilo cinematográfico tipicamente brasileiro, batizado pelo crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva de nordestern, gênero que trouxe o faroeste norte-americano para o sertão nordestino. O nordestern tornou-se, portanto, um gênero produzido em série, com uma linha própria de valores e códigos, além de recorrente sucesso de bilheteria. Controverso, tal como o próprio CANGAÇO, por vezes excessivamente violento, outras vezes sob uma ótica romantizada e heroica. Evoca os signos e o imaginário em torno do Nordeste sob o domínio do sol, sua história e cultura.

Da trama de vingança pingando sangue as cores vibrantes de “A Morte Comanda o Cangaço” (1960), passando pelo documentário sociológico em “Memória do Cangaço” (1965), pelo épico “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1967), até produções contemporâneas que evocam o fenômeno, como “Sertânia” (2020), a temática convida o público a apreciar o mosaico de produções que compõem esse interessante movimento do cinema tupiniquim. Recentemente o CANGAÇO renasceu com a animação “Sertão Encarnado” (2020); o documentário “Lampião, Governador do Sertão” (2024); a telenovela em 45 capítulos, “Guerreiros do Sol” (2025), com Irandhir Santos, Daniel de Oliveira e Marcélia Cartaxo; a minissérie em oito episódios “Maria e o Cangaço”, direção de Sérgio Machado, com Isis Valverde e Júlio Andrade; e o longa cearense “Cangaço Merceeiro” (2026). Listo abaixo os meus vinte melhores filmes sobre CANGAÇO, por ordem de lançamento nos cinemas. Os que eu mais gosto? O curta documental “Lampião, o Rei do Cangaço”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Baile Perfumado”.
 
chico diaz em corisco & dadá
20 FILMES SOBRE CANGAÇO
(por ordem de produção)
 
01
LAMPIÃO, o REI do CANGAÇO (1937)

direção de Benjamin Abrahão Botto
documentário 
 
02
O CANGACEIRO (1953)
 

direção de Lima Barreto

elenco: Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton Ribeiro,
Vanja Orico e Adoniran Barbosa

 
Melhor Filme de Aventuras no Festival de Cannes
 
03
A MORTE COMANDA o CANGAÇO (1960)

direção de Carlos Coimbra e Walter Guimarães Motta

elenco: Alberto Ruschel, Aurora Duarte, Milton Ribeiro,
Ruth de Souza, Marlene França e Luiz Gonzaga

 

04
TRÊS CABRAS de LAMPIÃO (1962)

direção de Aurélio Teixeira

elenco: Lucy de Carvalho, Catulo De Paula e Marlene França

 
05
LAMPIÃO, REI do CANGAÇO (1963)

direção de Carlos Coimbra

elenco: Leonardo Villar, Vanja Orico, Milton Ribeiro,
Dionísio de Azevedo, Glória Menezes, Geraldo Del Rey.
Antonio Pitanga, Sadi Cabral e Marlene França

 

06
DEUS e o DIABO na TERRA do SOL (1964)

direção de Glauber Rocha

elenco: Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos,
Maurício do Valle, Jofre Soares, Sonia dos Humildes
Mário Gusmão e Maria Olívia Rebouças

 
07
MARIA BONITA, RAINHA do CANGAÇO (1964)
 

direção de Miguel Borges

elenco: Celi Ribeiro, Milton Moraes, Roberto Bataglin,
Ivan Cândido, Jofre Soares e Rodolfo Arena

 
08
MEMÓRIA do CANGAÇO (1965)

direção de Paulo Gil Soares
documentário 
 
09
O CANGACEIRO sem DEUS (1969) 

direção de Oswaldo de Oliveira

elenco: Maurício do Valle, Isabel Cristina, José Mojica Marins,
Zózimo Bulbul, Jofre Soares e Francisco Di Franco

 
10
CORISCO, o DIABO LOIRO (1969)

direção de Carlos Coimbra

elenco: Maurício do Valle, Leila Diniz, Milton Ribeiro,
John Herbert, Geórgia Gomide, Dionísio Azevedo,
Antonio Pitanga, Jofre Soares e Laura Cardoso

 
11
O DRAGÃO da MALDADE CONTRA 
o SANTO GUERREIRO (1969) 

direção de Glauber Rocha

elenco: Maurício do Valle, Odete Lara, Othon Bastos,
Hugo Carvana, Jofre Soares, Emmanuel Cavalcanti,
Mário Gusmão e Conceição Senna

 
12
QUELÉ do PAJEÚ (1969)

direção de Anselmo Duarte

elenco: Tarcísio Meira, Rossana Ghessa, Jece Valadão,
Sérgio Hingst, Izabel Cristina, Elizângela
e Regina Duarte

 
13
FAUSTÃO(1970)

direção de Eduardo Coutinho

elenco: Eliezer Gomes, Anecy Rocha e Gracinda Freire

 

14
JESUÍNO BRILHANTE (1972)
 

direção de William Cobbett

elenco: Nery Victor, Vanja Orico e Rodolfo Arena

 
15
Os HOMENS QUEREM PAZ (1991)

direção de Luiz Fernando Carvalho

elenco: Paulo Betti, Letícia Sabatella, Herson Capri,
Roberto Bonfim, Regina Dourado, Cláudio Mamberti,
Flávio Migliaccio e Sebastião Vasconcelos

 
16
BAILE PERFUMADO (1996)
 

direção de Paulo Caldas e Lírio Ferreira
elenco: Duda Mamberti, Luiz Carlos Vasconcelos, Aramis Trindade,
Chico Díaz, Jofre Soares e Cláudio Mamberti

 
17
CORISCO & DADÁ (1996)

direção de Rosemberg Cariry
elenco: Chico Díaz, Dira Paes e Regina Dourado

 
18
Aos VENTOS QUE VIRÃO (2014)

direção de Hermano Penna

elenco: Emanuelle Araújo, Hermes Baroli, Carlos Betão,
Neusa Borges, Gideon Rosa e Orlando Vieira

 
19
ENTRE IRMÃS (2017) 

direção de Breno Silveira

elenco: Nanda Costa, Marjorie Estiano, Julio Machado,
Cyria Coentro, Rita Assemany, Angelo Antônio
e Fábio Lago

 
20
SERTÂNIA (2020)

direção de Geraldo Sarno
elenco: Vertin Moura, Julio Adrião e Edgard Navarro

O CINEMA BRASILEIRO NESTE BLOG
 
01
ANATOMIA de uma AGONIA MILITANTE
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/12/anatomia-de-uma-agonia-militante.html
 
02
CARMEN MIRANDA: VIVENDO de ALEGRIA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2015/04/carmen-miranda-vivo-de-alegria.html
 
03
CINEMA BRASILEIRO: GRITOS e SILÊNCIOS
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2023/12/cinema-brasileiro-gritos-e-silencios.html
 
04
CONDENSANDO RITA ASSEMANY
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/05/condensando-rita-assemany.html
 
05
DINA SFAT, à FLOR da PELE
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/04/dina-sfat-estrela-flor-da-pele.html
 
06
FLORINDA: do CEARÁ para o MUNDO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/10/florinda-do-ceara-para-o-mundo.html
 
07
GLAUBER ROCHA - os ÚLTIMOS DIAS de VIDA
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08
GRANDE OTELO: COMÉDIA e TRAGÉDIA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/01/grande-otelo-comedia-e-tragedia.html
 
09
REGIME MILITAR no BRASIL: FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2019/03/o-regime-militar-brasileiro-no-cinema.html
 
10
20 GRANDES ATORES do CINEMA BRASILEIRO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/01/20-grandes-atores-do-cinema-brasileiro.html