junho 07, 2020

***** HARRY BAUR – ASSASSINADO pela GESTAPO



Um dos atores mais lendários do cinema francês. Com um corpo imponente, coroado com uma cabeça grande, um nariz forte, bolsas sob os olhos, uma voz profunda e poderosa, ele criou personagens expressivos, eternizando imagens de intensidade, força, robustez e sensibilidade. A estatura gigantesca exaltava um magnetismo inefável e seu rosto podia expressar amizade, perigo, dureza, piedade ou violência com uma ligeira mudança de expressão. Fã de carteirinha do carismático HARRY BAUR (1880 – 1943. Paris / França), nos últimos dias assisti a três filmes protagonizados por ele: “Pinga-Fogo” (1932), “O Golem / Le Golem” (1936) e “O Assassinato de Papai Noel” (1941). Encantado com o seu talento, resolvi homenageá-lo, afinal hoje em dia poucos lembram da sua reputação e estima mundial.

Monstro sagrado do cinema nas décadas de 1930 e 1940, o ator brilhou inicialmente no teatro. Começou antes da Primeira Guerra Mundial, ganhando fama nos palcos parisienses ao atuar em peças de Sacha Guitry ou Tristan Bernard. Sua carreira cinematográfica se iniciou no cinema mudo, aparecendo no último filme da mítica Sarah Bernhardt: “La Voyante” (1924). Atuou em mais de 40 longas, marcando época como Ludwig van Beethoven em “O Grande Amor de Beethoven” e como Jean Valjean em “Os Miséraveis” (1934), a melhor versão da obra-prima de Victor Hugo.

Filho de pais católicos da Alsácia, ele teve seu primeiro êxito no cinema em 1931, interpretando um banqueiro judeu em “A Tragédia de Um Homem Rico”. Em entrevista afirmou: “Depois desse papel, não haverá ninguém que acredite que eu sou católico!”

Um sucesso tardio, tinha 51 anos de idade, mas nunca mais deixou de brilhar.  No mesmo ano, perdeu o filho de 20 anos e a primeira esposa numa viagem à Argélia. Durante a ocupação alemã na França, sem desistir de atuar e negando-se a fugir para Hollywood, deixou-se levar por relacionamentos perigosos, misturando-se com nazistas, anti-semitas e colaboracionistas. Foi a sua tragédia.

Aos sessenta anos, no auge da popularidade, foi obrigado a atuar em dois filmes para a Continental-Films, uma empresa financiada pelo capital alemão, mas sediada nos Champs-Elysées, em Paris. Como outros artistas, frequentava as recepções dos invasores. No entanto, os jornais anti-semitas o acusaram de ser judeu e maçom. Defendeu-se publicando uma nota desmentindo o boato. Partiu para Berlim em setembro de 1941, onde filmou “Sinfonia de Uma Vida / Symphonie eines Lebens” (1943). Entre as estrelas francesas, foi o primeiro a atuar na Alemanha durante a II Guerra Mundial. Com um contrato de seis meses, aprendeu alemão e se deixou fotografar em Nuremberg, na multidão, ouvindo um discurso de Adolf Hitler.

Durante as filmagens, a esposa de HARRY BAUR, Rika Radifé, atriz e diretora de teatro, termina presa pela Gestapo acusada de espionagem. O esforço do ator para garantir sua libertação não caiu bem. Ao retornar à França, na primavera de 1942, foi denunciado novamente como judeu e ordenada sua prisão no dia 30 de maio. 

A Gestapo, furiosa, perguntava como um judeu conseguiu enganá-la e até fazer um filme na Alemanha. O famoso ator passou por uma cruel detenção de quatro meses. Além de tortura mental e dos constantes interrogatórios, sofreu espancamentos, incluindo um de doze horas. Proibido de receber roupas, encomendas ou visitas, ficou também privado de remédios quando adoeceu. Sua vila foi requisitada pelos alemães e uma valiosa coleção de pinturas desapareceu para sempre.

Após perder 37 quilos (pesava 100), debilitado e moralmente arruinado, HARRY BAUR foi libertado em setembro de 1942. Muito fraco, tentou se curar, mas morreu meses depois em condições misteriosas. O funeral ocorreu na igreja de St. Philippe du Roule e foi enterrado na Cimetière Saint-Vincent, em Montmartre, onde seu túmulo ainda atrai visitantes. A morte provocou uma grande manifestação pública de descontentamento. Na época, circularam falatórios imprecisos. Diziam que era um colaborador, um espião inglês, que teria morrido em um campo de concentração ou sob tortura na Alemanha. Na libertação, injustamente, lembrariam dele principalmente pela participação na indústria cinematográfica alemã. Sua esposa, Rika, sobreviveu aos maus-tratos nazistas. Em 1953, ela assumiu o Theatre des Maturins, em Paris, e o administrou por décadas.

O norte-americano Rod Steiger, vencedor do Oscar, citou HARRY BAUR como um de seus atores favoritos, garantindo que ele exerceu uma grande influência em seu ofício. Dez anos após sua morte, o governo francês o homenageou em grande estilo, com a presença de celebridades como Sacha Guitry e Maurice Chevalier. Durante o evento, o cineasta Julien Duvivier, que dirigiu o ator em sete filmes, declarou: “Sua inteligência era vasta, afiada. Seu conhecimento cultural nunca teve culpa. Ele tinha um senso dramático admirável. Suas observações, opiniões e críticas sempre foram relevantes. Baur nunca deixou de me surpreender. Ele tinha qualidades inesperadas, expressões absolutamente originais. Ele sempre foi Harry Baur, mas também sempre foi o personagem da história de uma maneira surpreendente ”.


DEZ FILMES de HARRY BAUR
(por ordem de preferência)

Os MISERÁVEIS
(Les Misérables, 1934)

Direção de Raymond Bernard
Elenco: Charles Vanel, Jean Servais e Florelle

Um CARNÊ de BAILE
(Un Carnet de Bal, 1937)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Marie Bell, Françoise Rosay, Louis Jouvet,
Pierre Blanchar, Raimu e Sylvie

PINGA FOGO
(Poil de Carotte, 1932)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Robert Lynen e Catherine Fonteney

O ASSASSINATO de PAPAI NOEL
(L'assassinat du Père Noël, 1941)

Direção de Christian-Jaque
Elenco: Renée Faure, Marie-Hélène Dasté, Raymond Rouleau
e Fernand Ledoux

A TRAGÉDIA de um HOMEM RICO
(David Golder, 1931)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Paule Andral e Jackie Monnier

Um GRANDE AMOR de BEETHOVEN
(Un Grand Amour de Beethoven, 1936)

Direção de Abel Gance
Elenco: Annie Ducaux, Jany Holt, Jane Marken
e Jean-Louis Barrault

RASPUTIN, a TRAGÉDIA IMPERIAL
(La Tragédie Impériale, 1938)

Direção de Marcel L'Herbier
Elenco: Marcelle Chantal, Pierre Richard-Willm e Jany Holt

ASSASSINO sem CULPA
(Crime et Châtiment, 1935)

Direção de Pierre Chenal
Elenco: Pierre Blanchar, Madeleine Ozeray, Sylvie
e Catherine Hessling

VOLPONE
(Idem, 1941)

Direção de Maurice Tourneur
Elenco: Louis Jouvet, Charles Dullin e Fernand Ledoux

10º
A CABEÇA de um HOMEM
(La Tête d'un Homme, 1933)

Direção de Julien Duvivier
Elenco: Valéry Inkijinoff, Alexandre Rignault e Gina Manès


maio 02, 2020

** A INTENSA VIDA BISSEXUAL de JOAN CRAWFORD



“O amor é fogo. Mas nunca se sabe se vai aquecer ou incendiar a casa.” 
JOAN CRAWFORD

Altura: 1,6 m
Cabelos: castanhos
Olhos: azuis
Apelidos: Oxicoco e Billie


Durante uma surpreendente carreira de mais de cinquenta anos, JOAN CRAWFORD (San Antonio, Texas, EUA. 1904 - 1977) manteve seu nome em destaque. Podemos até não gostar dela, mas não podemos ignorá-la. Ela era simplesmente grande demais para ser ignorada. Tudo nela era enorme: boca larga, rosto quadrado, olhos enormes, sobrancelhas, queixo, ombros e, claro, seus gestos. Na mitologia da estrela de cinema, ela era a Cinderela. Nascida na extrema pobreza, tornou-se rica e famosa através de muito trabalho e determinação. Aperfeiçoamento era sua palavra de ordem. Alegrias e tristezas particulares, escorregões e retornos profissionais auspiciosos foram relatados por jornais e revistas para serem digeridos por um público fiel e ansioso. Vendedoras de lojas, secretárias, garçonetes e operárias encontraram inspiração, sentido na vida e desejo de realização na versão da Metro-Goldwyn-Mayer da sua saga cinematográfica.

Nenhuma estrela sofreu nas telas como JOAN CRAWFORD. Era a especialidade dela. Filme após filme, foi vítima de amantes psicóticos, donos malandros de casas noturnas lascivas, filhas intoleráveis, políticos corruptos e maridos alcoólatras. Vestida de pérolas e vison, ela enfrentou agonias com elegância e queixo erguido, enquanto seus olhos traduziam as torturas que sofria. Chegou ao estrelato no final dos anos 20, interpretando mulheres de origem humilde que lutam para ter sucesso na cidade grande. Nesse momento de sua carreira, era incrivelmente bonita. Muitas vezes pensamos nela como a matrona dos anos 50 (com sobrancelhas melodramaticamente grossas engolindo sua testa), mas em seu início representou belezas de tirar o sono.

A M-G-M forneceu às revistas de cinemas páginas de material sobre o passado de JOAN CRAWFORD, desde seu nascimento como Lucille Le Seur até seu trabalho como balconista em uma loja de departamentos em Kansas City, Missouri. Como resultado, seus fãs acreditavam saber tudo sobre sua ascensão. Para eles, a vida pessoal dela e sua personalidade na tela estavam tão unidas que eram inseparáveis. Ela atuou em mais de 80 filmes, mas o ponto alto de sua trajetória aconteceu em 1945, com Alma em Suplício, de Michael Curtiz, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Atriz. Na vida privada, namorou muitos dos maiores astros da época. Entre eles, Clark Gable, Spencer Tracy e Kirk Douglas. No entanto, ela não dispensava mulheres e seu magnetismo sexual levou para a cama Greta Garbo, Marlene Dietrich, Barbara Stanwyck, Katharine Hepburn, Audrey Hepburn e até Marilyn Monroe.
douglas fairbanks jr. e joan

Depois de trabalhar como dançarina em espetáculos baratos, JOAN CRAWFORD ganhou um concurso de dança que lhe deu acesso a importante produtora M-G-M, fazendo inicialmente pequenos papéis. Em 1929, enquanto filmava Donzelas de Hoje / Our Modern Maidens, casou-se com seu co-astro Douglas Fairbanks Jr., filho de Douglas Fairbanks e enteado de Mary Pickford, considerados a família real de Hollywood daquela época. Eles se opuseram ao casamento e não convidaram o casal para sua casa, a famosa mansão Pickfair, nos meses seguintes. A união ajudou bastante ao estrelato da jovem atriz, deixando para trás fotos nuas, rumores de prostituição e supostas aparições em filmes pornográficos.

O seu nome artístico surgiu em um concurso realizado nas páginas da popular revista “Movie Weekly”. Venceu Joan Arden, mas já havia uma artista desconhecida com o mesmo nome, que ameaçou processá-la, e a escolha recaiu no segundo colocado, sugerido por Marie M. Tisdale, uma senhora inválida que vivia em Nova Iorque e ganhou US $ 500 pela criação. Ambiciosa e com ideias próprias, JOAN CRAWFORD tinha um rosto peculiar e inconfundível, com traços pronunciados e expressivos, e uma atração hipnotizante, tornando-se uma das atrizes mais carismáticas e talentosas de Hollywood.  Se “o rosto é o espelho da alma”, não existe um ditado mais preciso para descrever sua personalidade avassaladora e seu temperamento muito forte que lhe rendeu inúmeros atritos.
franchot tone e joan

Uma das suas baixarias aconteceu no set do western Johnny Guitar / Idem (1954), de Nicholas Ray. Ela fez sexo com Fletcher Markle, marido da co-protagonista, Mercedes McCambridge, originando tensão e discussões furiosas. A certa altura, bêbada, JOAN CRAWFORD jogou o figurino da esposa revoltada numa rodovia, deixando que carros passassem por cima dele. Indignada, McCambridge disse em entrevista que a rival era uma “dama malvada, embriagada, poderosa e podre”. Crawford rebateu: “Eu tenho quatro filhos, não preciso de outro, pode ficar com seu marido”.

Considerada a décima maior estrela feminina de todos os tempos pelo “American Film Institute”, ela levou uma das vidas sexuais mais ardentes de Hollywood. Em sua autobiografia, o ator Jackie Cooper, famoso na década de 30 principalmente pelo clássico juvenil A Ilha do Tesouro / Treasure Island (1934), afirma que ainda garoto teve um caso com a atriz, que era sua vizinha. Ela também seduziu Dorothy Arzner, que a dirigiu na comédia Felicidade de Mentira / The Bride Wore Red (1937), e diversos outros cineastas e produtores. Reforçando sua fama de predadora sexual, sua arqui-inimiga Bette Davis afirmou que ela tinha dormido “com todas as estrelas da Metro-Goldwyn-Mayer, exceto a cadela Lassie”.

A rivalidade com Bette Davis é notória, gerando até uma recente série, Feud: Bette e Joan / Feud: Bette and Joan (2017), com Jessica Lange e Susan Sarandon. A briga começou por conta de Franchot Tone. Ao filmar com ele o drama Perigosa / Dangerous (1935), Bette se apaixonou perdidamente. Ao ser informada, JOAN CRAWFORD, recém-divorciada de Fairbanks Jr., convidou o ator para um jantar. Ao chegar na sua residência, deu de cara com ela totalmente nua. No dia seguinte, ele foi filmar com o rosto ainda sujo de batom. Bette tentou reverter a situação. Segundo o produtor Harry Joe Brown, durante um intervalo da filmagem a pegou ajoelhada, dando prazer a Tone, no camarim dele. “Eles me viram e não se importaram, continuando a sacanagem”, disse. 
phillip terry e joan

As investidas sexuais de Bette Davis não tiveram êxito. Logo o ator anunciaria seu noivado com JOAN CRAWFORD e não demorou muito para se casarem, para infelicidade da antagonista. “Ela o tirou de mim”, disse amargamente a icônica atriz décadas depois. “Fez isso com frieza, de propósito, com total crueldade. Nunca a perdoei por isso e nunca a perdoarei”. O casamento durou quatro anos, mas a amizade entre eles nunca se acabou. Em 1968, Franchot Tone estava morrendo de câncer no pulmão e ela o levou para o seu apartamento de nove quartos em Nova Iorque e cuidou dele até a morte.

Em sua autobiografia, a estrela afirma que manteve relações sexuais com seu padrasto aos 11 anos, mas que diferente do que se podia esperar, ela não considerava abuso ou estupro, mas sim um ato afetuoso e consensual. Diz também que sempre tratou a sexualidade de uma maneira diferente das mulheres do seu tempo. “Minha forma de agir sexualmente era considerada apropriada apenas para os homens. Eu tinha uma necessidade sexual física e emocional. Tive vantagens no prazer que me trouxe, mas também me fez uma vítima, uma dependente daquilo”, confessa na autobiografia. 
joan e clark gable

Um dos seus amantes, Kirk Douglas, contou em suas memórias que a obsessão por limpeza da atriz era conhecida no meio artístico. Ele recorda um encontro romântico particularmente perturbador. Estavam na cama em pleno ato sexual e ela sussurrou ao seu ouvido: “O que mais gosto em você é a sua limpeza. Estou maravilhada com suas axilas depiladas”. Ele ficou sem jeito, a depilação tinha origem no filme que rodava, “O Invencível / Champion” (1949), mas admite que ela era um furacão sexual.

Assumidamente bissexual, JOAN CRAWFORD nunca teve problemas com sua sexualidade. Uma vez confessou que Clark Gable foi o grande amor de sua vida. Os dois nunca casaram, mas tiveram um caso ao longo de oito filmes juntos. Eles se conheceram durante as filmagens de Quando o Mundo Dança / Dance, Fools, Dance (1931), interpretando personagens que se odiavam. A química foi tão intensa que secretamente não se separaram durante muitos anos. Apesar do romance apaixonado de idas e vindas, a amizade sempre foi mais importante e nada mudaria isso. Tanto que, quando Gable perdeu a esposa Carole Lombard em um acidente de avião, foi ela quem o amparou emocionalmente e sexualmente.
alfred steele e joan

Adotou cinco crianças depois de sofrer uma série de abortos espontâneos com seus maridos e ser informada pelos médicos de que nunca seria capaz de ter um bebê. Um deles foi tomado de volta pela mãe biológica. Mas nunca foi uma mãe típica. Ela tinha inúmeros amigos fiéis, entre eles William Haines, um famoso ator do cinema mudo que abandonou a carreira para viver com um homem, Jimmy Shields. JOAN CRAWFORD costumava dizer que era o casamento mais feliz de Hollywood. Além dele, também era muito amiga de Van Johnson, Cesar Romero, Barbara Stanwyck, Myrna Loy, Ann Blyth, Marlene Dietrich, Anita Loos, Rosalind Russell, Virginia Bruce e George Cukor.

A estrela casou-se quatro vezes: com Douglas Fairbanks Jr. de 1929 a 1934; Franchot Tone, de 1935 a 1939; Phillip Terry, de 1942 a 1946; e Alfred Steele, de 1956 a 1959. Os seus casamentos nunca duravam muito, diziam que era difícil e com o espírito livre. O último deles, com um magnata dos refrigerantes, só teve fim por conta de um repentino ataque cardíaco do parceiro. Ela se deprimiu, pois o considerava sua alma gêmea, continuando a colocar um lugar para ele na mesa de jantar. Como herdeira, tornou-se uma das principais acionistas da Pepsi-Cola e exerceu um cargo na diretoria da empresa até 1977, quando morreu por conta de um câncer no fígado aos 73 anos, resultado de muitos anos de excessos etílicos. 

Nos últimos anos, confinada em seu apartamento luxuoso, recusando entrevistas e homenagens, pesando cerca de 30 quilos, bebia até um litro de vodka por dia. Como ela costumava dizer, “eu fui criação da Metro-Goldwyn-Mayer. Ela me deu um nome, uma carreira e um estilo de vida”. Ave, Joan.

Fonte: “My Way of Life: Joan Crawford”

joan e barbara stanwyck
joan e marlene dietrich
joan e greta garbo
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abril 13, 2020

********** O TRISTE FIM de uma QUASE ESTRELA



Altura: 1,63 m
Cabelos: loiros
Olhos: castanhos


Ao assistir “Vítimas do Terror”, drama intenso de 1938, fiquei encantado com a atriz que interpreta a esposa grávida do mocinho George Brent. Uma beldade platinum blonde com um notável porte de estrela, estilo Carole Lombard, Alice Faye ou Jean Harlow. Nunca tinha visto um filme seu, nada sabia sobre ela. Curioso, pesquisei e sua história me surpreendeu: filha de uma rica família, fez sucesso no primeiro filme, capa de inúmeras revistas, atuou em 23 filmes e decaiu rapidamente, morrendo aos 28 anos de idade. Confira a impressionante e triste trajetória de GLORIA DICKSON (1917 – 1945. Pocatello, Idaho / EUA).

Na infância, ela se apegou firmemente ao pai dedicado, um banqueiro que amava as atividades ao ar livre, costumando levar a filha às montanhas, onde cavalgavam e pescavam trutas. À noite, durante horas, liam biografias, literatura clássica e peças de teatro. Ele a incentivava a se tornar atriz, aconselhando: “Se mantiver seus ideais de fazer peças de qualidade e manter os pés no chão, irá longe”. Em 1929, com a morte súbita do pai, ela se viu desamparada e procurou superar a tristeza dedicando-se integralmente ao teatro amador.

Encorajada por professores de arte dramática, apresentou-se em clubes e estações de rádio. Em 1935, membro do grupo Hart Players, apareceu em diversos tipos de peças, de Shakespeare a textos modernos. Em 1936, enquanto trabalhava numa delas, foi vista por um caçador de talentos da Warner Brothers, que a contratou. Sua estreia no cinema, aos 19 anos, em “Esquecer, Nunca!”, foi um êxito, rendendo enorme publicidade. O crítico do “Times”, Frank Nugent, achou a película perfeita: “um drama social brilhante contra a intolerância e o ódio”. Os elogios destacaram todos os envolvidos, do diretor aos atores. De uma hora para outra, GLORIA DICKSON estava na capa de inúmeras revistas e tornou-se tema de artigos de cinema com títulos como “A Garota mais Sortuda do Mundo” ou “A Estrela do Ano”.

Sua performance fascinante no filme de estreia levou a previsões de estrelato. Proclamada como uma das mais promissoras jovens atrizes de Hollywood da época, sua estrela cintilou e logo se apagou, vítima de filmes inferiores, escolhas ruins e vida privada tempestuosa. Inicialmente, convidada para filmar em outros estúdios e até recebendo propostas da Broadway, ela tinha esperanças em vencer no mundo cinematográfico. No entanto, decepcionada com os papéis que era escalada, quase sempre em filmes B, percebeu que não teria oportunidade de crescer como atriz.

No primeiro dia na Warner conheceu o famoso maquiador Perc Westmore. As faíscas românticas entre eles logo se transformaram em um relacionamento sério. Sua influência sobre GLORIA DICKSON seria muito forte nos anos seguintes. Casaram-se em junho de 1938. A princípio, a união parecia ideal, pois pareciam ter hobbies e interesses parecidos. Perc levava a esposa ao camping e a pesca em alto mar, compartilhando seu amor pela natureza. Um notório festeiro e mulherengo, ele logo se revelou controlador e extremamente ciumento.

Enamorada, ela cedeu à insistência do marido, que queria que fosse mais glamorosa e fizesse uma plástica no nariz. Não deu certo. O procedimento cirúrgico maculou sua aparência. Em 1939, a atriz rodou seis filmes e apenas um deles tinha algum interesse: “Tornaram-me um Criminoso”, ao lado do excelente John Garfield. Embora a performance dinâmica do ator domine a cena, ela tem alguns bons momentos. No ano seguinte, insatisfeita, resolve não renovar seu contrato, percebendo dolorosamente que sua carreira estava em ruínas.

Na vida íntima, seu casamento estava em frangalhos. Ela questionava as orientações e interferências de Perc. Além disso, o marido bebia demais e ela passou a ter o mesmo hábito. O casal vivia bebendo e brigando. Em junho de 1940, o relacionamento chegou oficialmente ao fim. Mas os anos de união conjugal haviam afetado GLORIA DICKSON tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Ela engordou e vivia ébria. Durante as filmagens do fraco “Mania do Divórcio / I Want a Divorce” (1940), envolve-se com o diretor Ralph Murphy e se casa com ele. Outro matrimônio infeliz. 22 anos mais velho, como Perc ele era festeiro e infiel.

Os problemas pareciam inevitáveis. Já em 1942, ciente de que seu segundo casamento estava condenado, esforçou-se para recuperá-lo, mas sem sucesso. Terminaram nos tribunais, ele sendo acusado de crueldade mental. Durante o processo judicial, ela bradou: “Ralph fica fora de casa quatro ou cinco dias, dificultando o nosso casamento. Ele me disse que não me ama e não é feliz”. Em 1944, nas filmagens do seu último trabalho, na Metro-Goldwyn-Mayer, conhece um ex-boxeador e guarda-costas, William Fitzgerald, e se casa mais uma vez. Foram felizes durante uns poucos meses juntos.

Faria cinco filmes entre 1942-1945, nenhum dos quais traria de volta o status de atriz principal. A demanda pelos seus serviços havia diminuído drasticamente. Os rumores sobre o consumo excessivo de álcool fizeram com que produtores tivessem dúvidas em contratá-la. A refrescante beleza que tanto impressionara Hollywood foi substituída por uma mulher amarga e mundana. Ainda na casa dos vinte anos, GLORIA DICKSON, desempregada e com excesso de quilos, parecia pelo menos uma década mais velha e não conseguia superar o alcoolismo.

No verão de 1944, o casal Fitzgerald alugou uma grande casa na encosta de West Hollywood, com vista para a Sunset Strip. Era um lar incomum, com janelas grandes no térreo e outras minúsculas no andar de cima, a 6 metros do solo. Numa terça-feira, 10 de abril de 1945, a atriz deveria se encontrar com seu agente, Leon Lance, para discutir projetos cinematográficos. Ela acreditava que faria um bom filme, revitalizando sua filmografia. Poucas semanas antes, a popular colunista de cinema Louella Parsons anunciara: “Gloria Dickson, que começou de forma tão promissora, perdeu quilos e está pronta para retornar à tela”. No entanto, nunca mais filmaria.

Neste mesmo dia, morreria em um incêndio na sua casa, causado por um cigarro deixado aceso que caiu numa cadeira estofada, enquanto estava no andar de cima. Seu corpo e o do seu cachorro boxer foram encontrados no banheiro, e supõe-se que tentou escapar pela pequena janela do local, mas acabou asfixiada pela fumaça e sofrendo queimaduras de primeiro e segundo graus em todo o corpo. A polícia acredita que GLORIA DICKSON deve ter passado uma hora trancada no banheiro à espera do resgate.

Quando a tragédia a matou, com a idade de 28 anos, poucos se lembravam dela. Estava em decadência e se deprimia em papéis medíocres. O viúvo apaixonado teria uma vida curta. Morreu em 1958 por complicações de doenças venéreas, na penitenciária de Nebraska, aos 47 anos, depois de passar cheques sem fundo. Seu corpo foi enterrado no cemitério da prisão.

gloria e john payne

DEZ FILMES de GLORIA DICKSON

01
ESQUECER, NUNCA!
(They Won't Forget, 1937)

Direção de Mervyn LeRoy
Elenco: Claude Rains, Edward Norris e Lana Turner

02
CAVADORAS em PARIS
(Gold Diggers in Paris, 1938)

Direção de Ray Enright
Elenco: Rudy Vallee e Rosemary Lane

03
VÍTIMAS do TERROR
(Racket Busters, 1938)

Direção de Lloyd Bacon
Elenco: Humphrey Bogart e George Brent

04
SEGREDOS de uma ATRIZ
(Secrets of an Actress, 1938)

Direção de William Keighley
Elenco: Kay Francis e George Brent

05
TORNARAM-ME um CRIMINOSO
(They Made Me a Criminal, 1939)

Direção de Busby Berkeley
Elenco: John Garfield e Claude Rains

06
DANÇARINA RUSSA
(On Your Toes, 1939)

Direção de Ray Enright
Elenco: Vera Zorina, Eddie Albert e Alan Hale

07
ISTO é AMOR
(This Thing Called Love, 1940)

Direção de Alexander Hall
Elenco: Rosalind Russell, Melvyn Douglas e Binnie Barnes

08
A MORTE DIRIGE o ESPETÁCULO
(Lady of Burlesque, 1943)

Direção de William A. Wellman
Elenco: Barbara Stanwyck, Michael O'Shea

09
DILEMA de MÉDICO
(The Crime Doctor's Strangest Case, 1943)

Direção de Eugene Forde
Elenco: Warner Baxter e Lynn Merrick

10
RATIONING
(Idem, 1944)

Direção de Willis Goldbeck
Elenco: Wallace Beery e Marjorie Main

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