março 15, 2026

* SERVIÇO COMPLETO: os RAPAZES da GASOLINEIRA

scotty bowers
 


Não havia nada de culpado,
não havia nada de sujo.
Foi a coisa mais natural
e maravilhosa do mundo.
HENRY WILLSON
(1911 – 1978. Lansdowne, Pensilvânia / EUA)
agente de atores

Scotty era uma figura central
no underground gay de Hollywood
e serviu como um cafetão de confiança
de seus clientes quando eles não tinham
alternativa a não ser viver nas sombras.
MATT TYRNAUER
(Los Angeles, Califórnia / EUA)
cineasta


Acabei de ler
“Full Service: the Secret Sex Lives of Hollywood's Stars” (2012), as memórias de SCOTTY BOWERS (1923 – 2019. Ottawa, Illinois / EUA), no qual revela como ele e seus jovens e belos prostitutos tiveram como clientes, durante décadas, atores, atrizes, produtores, diretores e demais profissionais da chamada Era de Ouro de Hollywood. Interessei-me pela leitura depois de ver a minissérie “Hollywood”, de apenas sete capítulos, em que a Cidade dos Sonhos dos anos 40 e 50 é retratada. Garoto simplório, nascido numa fazenda, na infância o autor seduzido manteve um caso com o fazendeiro vizinho, amigo de seu pai, casado e pai de dois filhos. Começa aí a sua saga sexual, que passou mais tarde, em Chicago, quando adolescente, a fazer dinheiro satisfazendo senhores respeitáveis e até mesmo padres. Isso seria abuso aos olhos de todos, menos aos dele. E tudo sem que a mãe ou os irmãos desconfiassem. Ele foi para a guerra, se alistando na Marinha, lutando na Batalha de Iwo Jima, no Oceano Pacífico, e perdendo no sangrento conflito um irmão e dois amigos muito próximos.

Nessa época, homens e mulheres gays forçados a ser marginais sexuais eram publicamente evitados e muitas vezes perseguidos, ou pelo menos forçados a viver vidas duplas. A indústria cinematográfica mantinha em segredo a verdadeira identidade sexual de muitas de suas maiores estrelas, como Ramon Novarro ou Greta Garbo. A comunidade LGBTQ+ não tinha muitos lugares seguros para se conectar na década de 40. A homossexualidade foi ilegal na Califórnia até os anos 1970. Quando a divisão de narcóticos do Departamento de Polícia de Los Angeles –
“a Gestapo sexual”, como era conhecida – invadia um bar gay, os frequentadores corriam o risco de serem presos, extorquidos, internados em um hospício e possivelmente lobotomizados. Esses policiais tinham como alvo a elite de Hollywood porque tinha carreiras a proteger e dinheiro de sobra para suborná-los. Foi nesse contexto que o fuzileiro naval SCOTTY BOWERS veio de anos de guerra para morar em Los Angeles, em 1946, cidade que conheceu nas folgas da Marinha e onde, obviamente, viveu aventuras eróticas de farda.

o posto de gasolina bordel
Aos 23 anos, em 1946, ele rapidamente começou a trabalhar em um posto de gasolina em Hollywood, como atendente,
indicado por um amigo da Marinha. O Richfield Oil ficava em 5777 Hollywood Blvd., na esquina da Van Ness Avenue. Sua beleza atraiu a atenção de Walter Pidgeon, astro canadense da Metro-Goldwyn-Mayer, que o convidou para dar uma volta em seu luxuoso carro Lincoln Continental. O loiro de covinhas topou sem vacilar, marcando sua entrada para a alta sociedade local. O assédio rendeu banho de piscina, sexo e 20 dólares de gorjeta, um valor considerável na época. O mais importante desse encontro erótico foi o início de uma carreira paralela do veterano de guerra, que passou a oferecer seu corpo e os de ex-combatentes em dificuldades financeiras para as estrelas de cinema. Pidgeon recomendou o nome do amante a um círculo de amigos — e logo ele estava intermediando encontros para ele ou uma rede de profissionais do sexo. A demanda era tão alta, que teve que encaminhá-los para uma sala de espera — que, na verdade, era só um trailer estacionado.


A notícia de um jovem fuzileiro naval bonito, discreto e desinibido espalhou-se como fogo nos bastidores de Hollywood. SCOTTY BOWERS percebeu que a
“Cidade dos Sonhos” era, na verdade, uma cidade de desejos reprimidos. Para atender à demanda, ele recrutou cerca de 20 veteranos de guerra, bonitos, atléticos e discretos que, assim como ele, precisavam de dinheiro para sobreviver. Estabeleceu uma tabela fixa: 20 dólares por serviço. Diferente de um cafetão tradicional, ele não ficava com uma comissão sobre os rapazes, seu lucro vinha das gorjetas e da gratidão das estrelas, que o via como um cafetão de confiança. Esses rapazes eram enviados as mansões mais exclusivas de Beverly Hills. O posto de gasolina tornou-se a fachada perfeita: enquanto os estúdios vigiavam os passos das suas estrelas, elas abasteciam seus carros e davam um bilhete com um endereço ou colocavam um acompanhante no banco de trás. Com os anos, o gigolô passou a trabalhar como barman em festas privadas de elite, onde levava seus garotos para servir as bebidas e, mais tarde, atender aos desejos dos convidados.

tyrone power
A sua lista de clientes não fazia distinção de gênero: homens e mulheres, astros e estrelas, de galãs másculos a divas intocáveis, figuras lendárias que confiavam a um ex-fuzileiro naval os segredos que poderiam destruir suas carreiras. Entre os nomes citados em seus relatos, que foram para cama com ele ou seus pupilos, destaca-se uma lista extensa, muito extensa: Tyrone Power, Cary Grant, Bette Davis, James Dean, Charles Laughton, George Cukor, Vivien Leigh, Spencer Tracy, Lana Turner, Laurence Olivier, Rex Harrison, Gore Vidal, Montgomery Clift, Cole Porter, Tennessee Williams, Ava Gardner, Randolph Scott, Vincent Price, Raymond Burr, Gloria Swanson, Alan Ladd, Farley Granger, Bob Hope, Merle Oberon, Tom Ewell, Judith Anderson etc. A confiança realmente impulsionou seu trabalho. Nessa epopeia sexual, SCOTTY BOWERS não passava um dia sem transar. Operou seu esquema do posto de gasolina de 1946 até 1950, mas o serviço completo se estendeu muito além disso, seguindo até o final da década de 1970, atendendo muitos dos grandes nomes da indústria cinematográfica que iam fazer sexo com ele ou com outros indicados por ele.


Administrar um bordel clandestino, frequentado principalmente por gays, em um posto de gasolina, não foi nada fácil. O seu livro conta detalhes dessas peripécias. É uma publicação cativante para quem gosta de cinema e, principalmente, para quem gosta da velha e charmosa Hollywood com seus galãs e estrelas que nos faziam sonhar. O autor justificou a publicação pelo fato dessas pessoas não estarem mais neste mundo, é assim se sentiu à vontade para botar a boca no trombone. Ele desnuda mitos. Um deles, o tal romance que se supunha romântico entre Spencer Tracy e Katherine Hepburn, por exemplo. Segundo ele, mentira inventada para promover os filmes da dupla. E mais: Tracy, embora casado, transou diversas vezes com SCOTTY BOWERS, ao mesmo tempo em que Hepburn preferia
“moças jovens e morenas para a sua cama”. Todas arranjadas por ele. Outra história interessante é a transa a três com Cary Grant e um Rock Hudson ainda desconhecido, além de ter feito um ménage à trois com Lana Turner e Ava Gardner na casa de Frank Sinatra, então marido da deusa Ava. Nossa!

O livro é recheado com nomes, locais, datas e acontecimentos. Embora tenha parado de trabalhar no posto onde o povo do cinema abastecia o carro (e a cama), continuou suas atividades nas festas dos magnatas de Hollywood – e seus contatos e sua fama se intensificaram. Ele afirma que sentia prazer em realizar as preferências sexuais das pessoas numa época tão conservadora. Alguns tacharão o livro de pura fofoca e um compêndio de futilidades. Outros, como eu, vão encarar com um sorriso, pois, como SCOTTY BOWERS mesmo afirmava,
“nada mais natural neste mundo do que o sexo”. Interrogado se seu comportamento sexual seria um “distúrbio” por ter sido assediado tão cedo pelo fazendeiro amigo de seu pai, respondeu que não. Tudo para ele tinha sido muito bom e guardava lembranças agradáveis daquele senhor que o iniciara. Apesar do negócio sexual, ele era discreto, e sabia que, dessa maneira, blindava seus clientes e tornava o trabalho mais lucrativo. Alguns deles desenvolveram uma relação de confiança. E toda essa discrição e confiabilidade tornaram suas confissões mais bombásticas.

scotty powers e seus garotos de programa
Seus outrora segredos são picantes, como quando ele fez sexo com um dos diretores mais marcantes da história do FBI, J. Edgar Hoover — que estava vestido de drag queen. Todavia, o seu maior cliente era o compositor Cole Porter. Diversas orgias foram organizadas por ele a convite do músico. Além disso, a vida sexual do cafetão foi objeto de estudo do sexólogo Dr. Alfred Kinsey, que estava determinado a saber profundamente sobre a sua pansexualidade.
Ele o surpreendeu ao revelar que experimentou todos os atos sexuais de sua lista. Tinha feito de tudo diversas vezes. Com seus olhos azuis penetrantes, cabelos espessos e uma juventude irradiante, é fácil imaginar por que era popular. Revelou não ter arrependimento por passar a maioria das noites na cama de outra pessoa. Mas admite francamente que sua única verdadeira paixão era o dinheiro. Fazer sexo com celebridades por US$ 20 era um trabalho fácil e lucrativo. Era um cafetão – mas também um cara sexualmente liberado que cuidava paternalmente de seus prostitutos e facilitava sexo satisfatório para clientes célebres em uma época enrustida. 


Conhecendo os bastidores de Hollywood como ninguém, ele foi um gigolô bem-sucedido, vivenciando em primeira mão a dualidade sexual de lendas do cinema cuja imagem pública não correspondia à sua realidade íntima. Para uma figura famosa, SCOTTY BOWERS não estava interessado no negócio do entretenimento. Ele nunca quis ser um ator ou envolvido no cinema em qualquer atividade profissional. Estava contente com sua vida como ela era. Esse desinteresse era parte do que o fez tão bem-sucedido em seu trabalho. Ele não tinha desejos de estrelato ou fama. Tampouco nunca se importou com a imprensa. Em várias ocasiões recusou pagamentos em troca de informações da intimidade de celebridades. A sua carreira teve um fim no auge da AIDS, nos anos 80. Nesse período se casou. Ele havia permanecido em silêncio por décadas, até 2012, quando lançou suas memórias, intituladas
“Full Service: My Adventures in Hollywood e Secret Sex Lives of the Stars”. Este best-seller foi seguido por um documentário de 2017, “Scotty and the Secret History of Hollywood”, dirigido por Matt Tyrnauer.

scotty e suas profissionais do sexo
O autor esperou que todos os seus clientes falecessem antes de abrir a boca. Muitos deles foram gratos pela lealdade, dando presentes generosos. O ator Beach Dickerson deixou três casas para SCOTTY BOWERS, e o premiado diretor de fotografia Nestor Almendros lhe deu a estatueta do Oscar que ganhou por
“Cinzas do Paraíso / Days of Heaven” (1978). Mas o lançamento do seu livro, aos 89 anos de idade, foi um escândalo. De imediato, críticos e biógrafos oficiais o acusaram de ser um velho mentiroso em busca de atenção. Janet Maslin, no “The New York Times”, considerou o conteúdo da obra como “supostas verdades”, enquanto Lewis Jones, do “The Telegraph”, desafiou os leitores a digeri-lo “como ficção”. No entanto, a descrença durou pouco. Historiadores, jornalistas e pesquisadores começaram a investigar cada detalhe minucioso de seus relatos e o resultado foi chocante: tudo batia com a realidade. As datas em que ele dizia ter organizado festas coincidiam exatamente com as folgas de filmagem das estrelas. Amigos próximos e seus antigos garotos confirmaram os esquemas do posto de gasolina.

Em 2019, SCOTTY BOWERS morreu aos 96 anos, deixando uma história na mitologia hollywoodiana que, por muito tempo, passou despercebida. Ele partiu deixando a Cidade dos Sonhos um pouco menos misteriosa e muito mais humana, evidenciando que, por trás do glamour e moralidade fabricado pelos estúdios, existiam pessoas reais com desejos que nenhuma censura foi capaz de silenciar.
 
“As necessidades de todos eram atendidas.
Tudo o que os astros e estrelas queriam, eu tinha.
Eu podia realizar todas as suas fantasias sexuais.”

SCOTTY BOWERS
 
spencer tracy e katharine hepburn
DEZ CLIENTES de SCOTTY BOWERS
 
CARY GRANT
(1904 – 1986. Bristol / Reino Unido)
“Ele era íntimo de um ator especializado em faroestes, Randolph Scott. Eu passei um fim de semana com eles. Nós três aprontamos todo tipo de travessuras sexuais juntos. Eu gostava muito deles, e era óbvio que eles também gostavam muito um do outro. Não sei se as respectivas esposas deles chegaram a descobrir o que estava acontecendo entre eles. O cowboy Scott era o amor da vida de Grant. Viveram juntos por 12 anos.”
 
CECIL BEATON
(1904 – 1980. Hampstead, Londres / Reino Unido)
“Preparava seu chá, deitava ao seu lado, fazia uma massagem, alisava sua testa e o guiava para uma longa sessão de sexo até que ele adormecesse como um bebê.”
 
DUQUE e DUQUESA de WINDSOR
(1894 – 1972. White Lodge, Richmond / Reino Unido)
(1896 – 1986. Blue Ridge Summit, Pensilvânia / EUA)

“Eles eram homossexuais e viviam uma farsa como um casal. Eddy também gostava, de vez em quando, de sexo a três com uma garota, e outras vezes queria uma mulher a sós. Mas sua clara preferência era por garotos. Certa noite, eu trouxe para Wally uma gracinha magra e esbelta, e quando voltei mais tarde para buscá-la e levá-la para casa, ela me disse, animada, que nunca em toda a sua vida havia gostado tanto de sexo. Ela nem conseguia se lembrar de quantos orgasmos teve naquela noite.”
 
EDITH PIAFF
(1915 – 1963. Paris, /França)
“Fizemos amor quase todas as noites durante as quatro semanas que ela passou em Hollywood. Ela também era bissexual.”
 
ERROL FLYNN
(1909 – 1959. Battery Point / Austrália)
“Errol Flynn me disse que estava procurando por novos talentos. Mas ele se referia às mulheres. Eu disse que faria o possível para agradá-lo. 'Que tipo de mulher você está procurando?', perguntei. 'Bem, digamos assim', disse ele, 'eu gosto de bebida velha e mulheres jovens. Muito jovens. Os dois formam uma combinação agradável, não acha?'.”
 
KATHARINE HEPBURN
(1907 – 2003. Hartford, Connecticut / EUA)
“Durante 39 anos apresentei à atriz mais de 150 mulheres para que pudessem explorar plenamente seu lesbianismo. Ela era lésbica, e eu não conseguia imaginar aquela mulher inegavelmente masculina tendo um caso com um homem, qualquer homem. Ela gostava de moças bonitas de cabelos escuros que não usavam maquiagem. O seu caso amoroso com o bissexual Spencer Tracy, amplamente divulgado pelos tabloides, era uma cortina de fumaça para suas ardentes aventuras homossexuais.”
 
LAURENCE OLIVIER
(1907 – 1989. Dorking / Reino Unido)
“Toda vez que eu mandava um casal para o quarto de hotel dele, ele pedia uma garota diferente, mas quase sempre o mesmo cara.”
 
SPENCER TRACY
(1900 - 1967. Milwaukee, Wisconsin / EUA)
“O grande Spencer Tracy era bissexual e um amante excelente. Após uma bebedeira daquelas, eu o despi, me despi também, deitamo-nos na cama e o abracei forte como uma criança. Ele babava, xingava e reclamava. Tinha bebido tanto que eu mal conseguia entender uma palavra do que dizia. Tentei acalmá-lo, mas ele não quis saber de nada. Pelo contrário, enfiou a boca no meu pau. Ele era o último homem no mundo de quem eu esperava tal iniciativa, mas eu deixei de bom grado Esse foi o primeiro de muitos encontros sexuais que tive com Spencer.”
 
TYRONE POWER
(1914 – 1958. Cincinnati, Ohio / EUA)
“Com seus gostos escatológicos, era escandalosamente bonito. As mulheres suspiravam por ele, e ele dormia com várias delas, mas preferia mais os homens. Ele me ligava com frequência e pedia que eu lhe enviasse um rapaz. Alguns de seus gostos sexuais eram bastante estranhos e excêntricos, mas nenhum dos rapazes parecia se importar.”
 
VIVIEN LEIGH
(1913 – 1967. Darjeeling / Índia)
“A estrela de “...E o Vento Levou” era uma mulher sensual. Muito sexual e muito excitável. Quando estava no clima, exigia satisfação completa e total. Transava como se a sobrevivência do planeta dependesse disso. Ela era estrondosa. Gritava, berrava e ria. Tinha orgasmo após orgasmo, cada um mais estrondoso que o anterior.”
 

CONVERSANDO com SCOTTY BOWERS em 2012
 
Em seu livro de memórias, “Full Service: My Adventures in Hollywood and the Secret Sex Lives of the Stars”, Scotty Bowers, de 89 anos, relata de forma gloriosa e honesta suas muitas lembranças de devassidão a Lionel Friedberg, que as organizou em um texto fascinante. Abrangendo sua juventude em uma fazenda em Illinois durante a Grande Depressão, os violentos combates na Segunda Guerra Mundial e casos amorosos com algumas das figuras mais famosas de Hollywood, a sua história é uma epopeia sensual.
 
O que acha como a família, o amor e o sexo eram retratados no cinema, em comparação como as estrelas viviam suas vidas pessoais?
 
Eu sentia que muitos levavam vidas duplas. O que fingiam fazer e o que realmente faziam eram coisas diferentes. Por outro lado, havia algumas pessoas muito certinhas e conservadoras. Mas em Hollywood, era possível realizar os desejos sexuais secretos, por causa do anonimato. Ninguém conhecia ninguém no mesmo quarteirão onde moravam.
 
Ainda sente isso em Hollywood? Como se pode explorá-la sexualmente?
 
Sim, de uma forma diferente. É mais aberto agora, as pessoas não são tão tímidas. Naquela época, havia gays assumidos, mas geralmente eram reservados e se sentiam sortudos quando conseguiam encontrar alguém em quem pudiam confiar.
 
Então, era só uma questão de encontrar quem o aceitasse e o que queria?
 
Percebi com os anos que, ao conhecer alguém, uma das coisas que ela mais gosta é ser ela mesma, sem truques. As pessoas gostam disso.
 
Como seus amigos atores e famosos conciliavam os personagens que interpretavam na tela com as pessoas que realmente queriam ser?
 
Um ator é um ator, então ele pode se retratar de uma forma completamente diferente de quem é. Raramente dá para perceber quem ele realmente é. Mas é a vida. Também arranjei encontros sexuais profissionais discretos para centenas de pessoas comuns. Empresários, donas de casa, homens casados, enfim, todo tipo de gente.
 
Havia um certo nível de segredo emocionante na sua época de ouro?
 
Havia segredo, com certeza! Era por isso que as pessoas gostavam e confiavam em mim. Mas você pode dizer: “Se eles confiavam e gostavam, por que está fazendo isso agora?”. Bem, é triste, porque todos se foram. Me emociona pensar nas pessoas boas que eu conheci. Penso em Vincent Price, Randolph Scott, Cary Grant, todos gentis, cavalheiros. Gentileza, bondade, são a resposta. Pensando neles, em como eram doces, independentemente do que faziam na cama, eu publiquei esse livro.
 
Sua vida mudou. Como é se sentir mais estável agora?
 
Eu gostaria de ser mais jovem... e fazendo a mesma coisa.
 

FONTES
Ditadura e Homossexualidade: Repressão,
Resistência e a Busca da Verdade
(2014)
de James N. Green
 
Full Service: My Adventures in Hollywood
and the Secret Sex Live of the Stars
(2012)
de Scotty Bowers e Lionel Friedberg
 
randolph scott e cary grant
“Espero ter proporcionado tanto prazer
quanto o que eu mesmo recebi.
Em nenhum momento senti vergonha,
culpa ou remorso pelo que fiz.
Muito pelo contrário.”

SCOTTY BOWERS
 
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fevereiro 28, 2026

********** A LONGA VIDA de OLIVIA de HAVILLAND

 


 

Eu tive uma queda enorme por Errol Flynn.
Eu o achei irresistível por três anos seguidos,
mas ele nunca percebeu. Depois, ele se apaixonou
por mim, mas não rolou nada. Não me arrependo,
ele poderia ter arruinado minha vida.
OLIVIA de HAVILLAND

Observe Olivia de Havilland em “Tarde Demais”
e verá o que é uma atuação superior a tudo.
KATHARINE HEPBURN
(1907 – 2003. Hartford, Connecticut / EUA)

Cabelos: castanhos escuros
Olhos: castanhos escuros
Apelido: Livvie
Altura: 1,63 m



Ela viveu 104 anos. Morreu tranquilamente em 2020, dormindo, em seu luxuoso apartamento em Paris, cidade onde vivia discretamente desde 1953. Sua carreira durou 53 anos, de 1935 a 1988. Durante esse tempo, apareceu em 48 longas-metragens. Tinha algo majestoso e reservado, além de um toque de mistério e turbulência emocional reprimida. Era a última estrela sobrevivente da Era de Ouro de Hollywood. Protagonizou títulos icônicos, entre eles o épico colossal “... E o Vento Levou”, e formou uma dupla famosa com Errol Flynn em oito filmes. Irmã da também conhecida atriz Joan Fontaine, com quem nunca superou uma célebre rixa, OLIVIA de HAVILLAND (1916 - 2020. Tóquio / Japão) era filha de um advogado britânico e uma atriz residentes no Japão. O seu pai, notório por suas infidelidades, logo os abandonou e mais tarde se casou com sua governanta japonesa. Após o divórcio dos pais, quando tinha três anos de idade, ela foi com a mãe e a irmã aos EUA, para se estabelecer perto de São Francisco (Califórnia). Lilian deu aulas de dicção e canto às filhas e as apresentou às obras de Shakespeare.

A atriz fez sua estreia nos palcos em 1933, em uma produção amadora de
“Alice no País das Maravilhas”. Descoberta pelo mítico diretor Max Reinhardt, foi escalada para o papel de Hermia em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare, no Hollywood Bowl, ganhando a chance de atuar na adaptação cinematográfica de 1935, com James Cagney e Dick Powell. Sua grande oportunidade surgiu quando o produtor Hal B. Wallis a escalou para o filme de aventuras “Capitão Blood”, ao lado do ator australiano Errol Flynn. Resultou em um grande sucesso e ela foi contratada pela Warner Brothers. Existia uma química inegável entre OLIVIA De HAVILLAND e Errol Flynn. Eles estrelaram juntos mais sete filmes e se tornaram um casal cinematográfico de enorme popularidade. Ele era o sedutor atlético e malandro e ela, a beleza reservada atraída por aquele herói extravagante. Em entrevistas, negavam o romance incentivado pelo público. Ela afirmou mais tarde que Flynn a pediu em casamento, mas que embora apaixonada recusou porque receava o alcoolismo, a fama de promíscuo e os escândalos constantes do ator.

Ao longo da década de 1930, ela participou de vários filmes leves e românticos que pouco contribuíram para o avanço de sua carreira. Finalmente teve a chance de provar seu talento dramático ao ser emprestada ao produtor independente David O. Selznick, filmando o emblemático “... E o Vento Levou”, baseado no romance de Margaret Mitchell. A sua virtuosa Melanie Hamilton, o amor de Ashley (Leslie Howard), faz parte da história do cinema. Frustrada na Warner, ficou aliviada quando seu contrato se aproximou do fim em 1943. O estúdio, no entanto, se recusou a liberá-la, em razão dos períodos de “empréstimos”, fazendo com que OLIVIA De HAVILLAND acionasse a justiça. O juiz deu ganho de causa a atriz, criando um precedente na defesa dos direitos dos atores. A servidão contratual das estrelas de Hollywood havia acabado, e surgia a nova era de empresários, agentes e produtores independentes com recursos financeiros. Durante os dois anos longe das telas, trabalhou no rádio e visitou inúmeros hospitais militares, apoiando os soldados feridos que lutaram patrioticamente na Segunda Guerra Mundial.

Resgatando rapidamente o sucesso, ganhou o primeiro Oscar como a mãe solteira de
“Só Resta uma Lágrima”. Em 1948 brilhou com uma performance impressionante em “Na Cova das Serpentes”, sendo muito premiada. Este drama foi um dos primeiros a explorar a saúde mental, e ela interpretou uma mulher problemática que é enviada para um manicômio. No maravilhoso “Tarde Demais” (1949), OLIVIA De HAVILLAND iluminou a tela como uma jovem sem graça e rica dividida entre seu amor por um golpista (Montgomery Clift) e seu pai tirano (Ralph Richardson), ganhando seu segundo Oscar de Melhor Atriz, bem como um Globo de Ouro. Na década de 1950, sua carreira decaiu, embora tenha continuado filmando. Na tela pequena, fez participações especiais em minisséries populares e filmes. Em 2003 subiu ao palco do Oscar para ser homenageada e foi recebida com uma ovação de pé que durou cerca de quatro minutos. Em 2008, recebeu a Medalha Nacional das Artes dos Estados Unidos, concedida por George W. Bush. Em 2010, o presidente Nicolas Sarkozy a condecorou com a Legião de Honra.

Na vida pessoal, OLIVIA de HAVILLAND namorou o magnata Howard Hughes, o ator James Stewart e o diretor John Huston. Casada duas vezes – primeiro com o escritor Marcus Goodrich e depois com o jornalista do “Paris Match”, Pierre Galante. Ambas as uniões terminaram em divórcio. Teve dois filhos, Benjamin e Gisele. Ao longo dos anos, a atriz esteve envolvida em uma das inimizades mais faladas de Hollywood. Ela e sua irmã Joan Fontaine (15 meses mais nova) não se falavam, gerando constante fonte de especulação nas colunas de fofoca. Quando Joan ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 1942, por seu papel em “Suspeita/ Suspicion” (1942), de Alfred Hitchcock, ela se recusou a cumprimentá-la. O relacionamento foi marcado pela rivalidade extrema, que lhe valeram o epíteto de irmãs-inimigas. Enquanto OLIVIA De HAVILLAND demonstrava racionalidade e controle às suas atuações, Joan era a estrela frágil e emotiva de filmes famosos como “Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca” (1940) e “Carta de uma Desconhecida / Letter from an Unknown Woman” (1948).

A vulnerável, atormentada e sensual Joan Fontaine morreu aos 96 anos em 2013. Quando sua irmã mais velha subiu ao palco para receber o Oscar por
“Tarde Demais”, evitou o seu aperto de mão, em retaliação por ter sido ignorada no passado. Mesmo na meia-idade, elas discutiam sobre o tipo de tratamento hospitalar que sua mãe deveria receber. Protetoras e possessivas em relação à mãe – cuja estranha influência foi fundamental para suas carreiras e para o relacionamento conturbado delas. Famosa por recusar o papel de Blanche DuBois na magnífica adaptação de Elia Kazan de “Um Bonde Chamado Desejo / A Streetcar Named Desire” (1951), que terminou nas mãos de Vivien Leigh, ganhando um merecido Oscar, OLIVIA De HAVILLAND recebeu uma indicação ao Globo de Ouro por sua atuação em “Eu Te Matarei, Querida / My Cousin Rachel” (1952), ao lado de Richard Burton, um astro que ela odiou por suas bebedeiras e infidelidades, e foi elogiada por “A Dama Enjaulada / Lady in a Cage”, um thriller de 1964 no qual interpretou uma viúva inválida presa em um elevador por diabólicos invasores.

Em 1965, tornou-se a primeira mulher a presidir o Festival de Cinema de Cannes. Continuou atuando até o final da década de 1980, ganhando um Globo de Ouro em 1986 por
“Anastasia: O Mistério de Anna / Anastasia: The Mystery of Anna”, um filme para a TV. Nos seus 102 anos de idade, recebeu o honroso título de Dame, do Reino Unido. Sofisticada, com cabelos brancos e porte impecáveis, teve uma maturidade majestosa. Ela era uma atriz em todos os sentidos, uma grande estrela do cinema, uma das maiores.
10 FILMES de OLIVIA
(por ordem de preferência)
 
01
TARDE DEMAIS
(The Heiress, 1949)

direção de William Wyler
elenco: Montgomery Clift, Ralph Richardson, Miriam Hopkins
e Mona Freeman

 
Adaptação do romance de Henry James. Olivia é Catherine Sloper, uma mulher sem prendas sociais nem beleza suficiente para conseguir um marido. Até que aparece um pretendente (Montgomery Clift) e ela julga que encontrou o amor, embora o pai tirano diga que o rapaz não passa de um caçador de fortunas. Uma assombrosa interpretação da atriz, percorrendo os vários estados emocionais vividos pela personagem.
 
Oscar de Melhor Atriz
Globo de Ouro de Melhor Atriz-Drama
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos 
de Cinema de Nova Iorque
 
02
Na COVA das SERPENTES
(The Snake Pit, 1948)
 

direção de Anatole Litvak
elenco: Mark Stevens, Leo Genn, Celest Holm
e Beulah Bondi

 
Uma mulher desperta num hospício público e não faz ideia porque foi parar lá. Primeiro filme a mostrar, com realismo, como funcionava um asilo psiquiátrico. A interpretação da estrela é notável, sem nunca mendigar a compaixão do público, sendo sem dúvida uma das melhores da sua carreira. O filme fez um grande sucesso e teve um forte impacto, levando vários estados dos EUA a alterar as suas legislações de saúde mental.
 
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz
Nastro D´Argento de Melhor Atriz Estrangeira
Melhor Atriz do National Board of Review
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos 
de Cinema de Nova Iorque
Melhor Atriz do Festival de Veneza
 
03
E o VENTO LEVOU
(Gone with the Wind, 1939) 

direção de Victor Fleming
elenco: Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard,
Thomas Mitchell, Barbara O´Neil e Hattie McDaniel

 
A determinada, sedutora e manipuladora Scarlett O’Hara de Vivien Leigh é o pivô deste épico premiado, mas o contraponto que Olivia lhe faz com a doce, sacrificada e bondosa Melanie é absolutamente fundamental para o equilíbrio dramático, emocional e narrativo desta obra-prima. E há por aí muito boa gente que prefere a feliz, equilibrada, dedicada e refinadamente feminina Melanie, à atormentada, calculista e complicada Scarlett. 
 
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante
 
04
As AVENTURAS de ROBIN HOOD
(The Adventures of Robin Hood, 1938)

direção de Michael Curtiz e William Keighley
elenco: Errol Flynn, Basil Rathbone, Claude Rains,
Eugene Pallette, Alan Hale e Una O'Connor

 
05
SÓ RESTA uma LÁGRIMA
(To Each His Own, 1946)

direção de Mitchell Leisen
elenco: John Lund

 
Oscar de Melhor Atriz
 
06
ESPELHOS D’ALMA
(The Dark Mirror, 1946) 

direção de Robert Siodmak
elenco: Lew Ayres e Thomas Mitchell

 
07
CAPITÃO BLOOD
(Captain Blood, 1935)
 

direção de Michael Curtiz
elenco: Errol Flynn, Lionel Atwill e Basil Rathbone

 
08
NASCIDA PARA o MAL
(In This Our Life, 1942)
 

direção de John Huston
elenco: Bette Davis, George Brent, Dennis Morgan,
Charles Coburn, Billie Burke e Hattie McDaniel

 
09
A CARGA da BRIGADA LIGEIRA
(The Charge of the Light Brigade, 1936)

direção de Michael Curtiz
elenco: Errol Flynn, Patric Knowles, Donald Crisp,
David Niven e Spring Byington

 
10
O INTRÉPIDO GENERAL CUSTER
(They Died with Their Boots On, 1941)

direção de Raoul Walsh
elenco: Errol Flynn, Arthur Kennedy, Gene Lockhart,
Anthony Quinn, Sydney Greenstreet e Hattie McDaniel

 

FONTES
The Films of Olivia de Havilland (1983)
de Tony Thomas
 
Olivia de Havilland
(1976)
de Judith M. Kass
 
Olivia de Havilland and the Golden Age of Hollywood
(2018)
de Ellis Amburn
 
Sisters: The Story of Olivia De Haviland and Joan Fontaine
(1984)
de Charles Higham

 
GALERIA de FOTOS