agosto 18, 2026

******** O MUNDO MARAVILHOSO de WALT DISNEY

“a dama e o vagabundo
 


Se pode sonhar, pode realizar.
 
Quando acredite em algo, 
acredite nisso por todo o caminho, 
de maneira implícita e inquestionável.
WALT DISNEY
Pioneiro do cinema de animação e fundador da The Walt Disney Company, WALTER ELIAS DISNEY (1901 – 1966. Marceline, Missouri / EUA) superou falências e a perda de direitos de personagens, criando ícones como o Mickey Mouse, produzindo a animação icônica “Branca de Neve e os Sete Anões” e idealizando os parques Disneylândia e Walt Disney World. Criado na fazenda da família, aos 7 anos de idade já se inspirava em animais domésticos para desenhar seus primeiros esboços. Recebia incentivos da mãe, que era professora, mas era pelo pai duramente recriminado. Em 1918, alistou-se no exército, mas não foi aceito por ser menor de idade. Depois, inscreveu-se para a Cruz Vermelha, onde passou um tempo dirigindo ambulâncias. Ao mesmo tempo, trabalha criando pôsteres para o Exército norte-americano. Assim que voltou para os Estados Unidos, com apenas 19 anos, começou a vender desenhos dos personagens que ilustrava desde a infância para sobreviver. Em 1920, fundou uma pequena empresa, cuja sede era em um celeiro. Em tal lugar, havia apenas uma mesa onde criava seus esboços.

A empresa durou apenas um mês, mas traçou o rumo que ele seguiria. O artista tentou várias vezes inovar, promover reinaugurações, porém os seus projetos eram seguidos de falência. Assim, aos 22 anos, fechou definitivamente a sua companhia. Após o fracasso inicial, tentou ser ator, trabalhou como fotógrafo e pensou inclusive em se tornar diretor de filmes. Além disso, chegou a ser demitido por um editor de jornal, que o julgava preguiçoso e sem nenhuma chama criativa. Enquanto isso, era pressionado pela família para achar um emprego, porém acreditava em seus sonhos e na sua arte. Mesmo trabalhando com entusiasmo, novamente foi ficando sem dinheiro e se endividando. Nesse período, conseguiu emprego como aprendiz de desenhista em um estúdio publicitário de Kansas City, onde conheceu Ub Iwerks, seu futuro sócio. Assistia no cinema aos desenhos do Gato Félix, de Pat Sullivan e Otto Messner. Trabalhando na Kansas City Film Company aprendeu as primeiras técnicas de animação. Juntamente com outros artistas produziu seu primeiro filme de animação, Chapeuzinho Vermelho.

Com o amigo e desenhista Ub Iwerks, inaugura a Laugh-O-Grams Films. Muda-se para Los Angeles, produzindo a série
“Alice na Terra do Desenho Animado / Alice in Cartoonl”. Com a ajuda de seu irmão Roy, fundou a Disney Brothers Production, que mais tarde viria a se chamar The Walt Disney Studio. Casou-se com Lillian Bounde, colorista do seu estúdio e no ano de 1924, com um empréstimo, abriu a Disney Brothers Cartoon Studio. Nos dois anos seguintes seu grupo bateu recordes entregando um curta-metragem a cada 15 dias. No ano de 1927, na Universal, ele criou seu primeiro personagem de destaque: o coelho Oswald. O projeto foi um grande sucesso, mas foi passado pra trás, já que a empresa que custeou o personagem tomou os direitos sobre ele. Consequentemente, WALT DISNEY voltou à estaca zero. Sem dinheiro e traído por parte da sua equipe, não se lamentou, lançando a criação que mudaria o mundo do entretenimento para sempre: um rato esperto, educado e honesto, Mortimer, conhecido depois como Mickey Mouse, nome escolhido pela sua esposa.

Somente o quarto filme do Mickey emplacou o personagem e despertou o interesse das distribuidoras de filmes. Seus funcionários achavam que ele estava louco, mas no ano de 1928 Mickey Mouse foi apresentado ao público antes de um filme em cartaz. O diferencial dessa produção foram os sons sincronizados ao desenho, algo nunca feito. Foi um sucesso absoluto. Mickey Mouse se tornou um verdadeiro fenômeno norte-americano, todos queriam comprar um de seus bonecos e foi dessa forma que WALT DISNEY se tornou a primeira celebridade oriunda do mundo da animação. A partir desse momento, o seu êxito é representado por uma escalada vertiginosa. Nem a Grande Depressão de 1929 abalou o seu empreendimento. Produz em Technicolor
“Flowers and Trees”, primeiro desenho com cores. Surgem novos personagens como Horácio, Ferdinando e a vaca Clarabela. Em 1934, o Pato Donald aparece em “A Galinha Sábia”. Nesse mesmo ano, as primeiras tiras diárias do carismático Mickey Mouse são publicadas no Brasil.

Um gênio da criatividade e amante dos desafios, ele resolveu inovar outra vez. Propôs algo que nunca havia sido feito antes: uma animação com a duração de um longa-metragem. Mais do que isso, uma animação como atração principal em cartaz. Foram meses de produção e um investimento altíssimo, mais de 1,5 milhão de dólares.
“Branca de Neve e os Sete Anões” estreou no dia 10 de janeiro de 1938, sendo um de seus melhores investimentos. A produção arrecadou 8 milhões de dólares e rendeu a Walt Disney um Oscar. A película revolucionou a indústria de animação. Na Segunda Guerra Mundial, WALT DISNEY foi convidado pelas Forças Armadas dos EUA para criar desenhos animados que seriam utilizados em treinamentos militares. Ele gostou tanto da ideia, que passou a produzir filmes de propaganda militar, empregando nelas seus personagens mais conhecidos. Orçado em US$ 2 milhões, estreou “Fantasia”. O longa animado teve direção musical do maestro Leopold Stokówsky e contava com músicas de Bach, Dukas, Tchaicovsky, Stravinsky, Beethoven, Ponchelli, Schubert e Moussorgsky.

Pouco depois, WALT DISNEY visitou o Brasil, Chile, Argentina e Peru a pedido do governo norte-americano. Esteve em Belém e no Rio de Janeiro, conheceu o cartunista J. Carlos, que serviria de inspiração para a criação do Zé Carioca. O papagaio debutou em
“Alô, Amigos” (1942), como o cicerone do Pato Donald em uma visita do personagem ao Rio de Janeiro. O filme foi responsável pela popularização de “Aquarela do Brasil” (Ari Barroso) e “Tico-tico no Fubá” (Zequinha de Abreu) no exterior. Usando o material de sua viagem ao Brasil, lançou “Você Já Foi à Bahia?” (1944), com participação de Zé Carioca, Panchito e Pato Donald. A seguir, Carl Barks cria Patinhas, o tio milionário do Pato Donald. A Editora Abril publica a primeira revista do Pato Donald no Brasil. Trazia também Zé Carioca, Rosinha e Nestor. Pouco depois, WALT DISNEY teve duas filhas: Diane e Sharon. Era apaixonado por elas e as levava com frequência em parques de diversões, porém, uma coisa o incomodava nestes parques: as crianças precisavam brincar separadas dos adultos.

Então WALT DISNEY pensou que deveria existir um lugar onde adultos e crianças pudessem se divertir e brincar juntos.
“Afinal de contas, os adultos são apenas crianças crescidas”, costumava dizer. Essa ideia foi crescendo e se desenvolvendo em sua mente, mas agora precisava encontrar um meio para financiá-la. Para conseguir o dinheiro que lhe permitisse construir o empreendimento, fechou parceria com uma emissora de TV, trocando um empréstimo de 5 milhões de dólares por um programa de TV dominical baseado em temas das personagens da Disney, que ele mesmo apresentaria. “Clube do Mickey” tornou-se um dos programas infantis de maior sucesso da história da televisão. Pouco depois, o primeiro parque foi inaugurado, no dia 17 de julho de 1955, em Anaheim, na Califórnia, e além de contar com uma variedade de brinquedos para as crianças, também disponibilizava um castelo em tamanho real, o Castelo da Bela Adormecida. A inauguração foi trágica. O parque tinha capacidade de 12 mil pessoas, mas devido a publicidade, muitos apareceram com ingressos falsos, totalizando 30 mil visitantes.

Para piorar a situação, faltou água na Califórnia, e ele precisou escolher para usar o pouco que tinha ou para os banheiros ou para os bebedouros. Escolheu os banheiros, mas estava muito quente, em torno de 38º C, e muitos passaram mal. O asfalto do parque começou a derreter e a grudar nos sapatos das pessoas. Aquela inauguração ficou conhecida como
“Black Sunday”. Mesmo depois do evento malsucedido, a Disneyland se tornou um sucesso, a ponto de somar no desenvolvimento da cidade, várias empresas nascerem a sua volta, não deixando espaço para a expansão do parque. Querendo aumentá-lo, WALT DISNEY procurou um novo espaço, encontrando na Flórida, na região de Orlando, composta basicamente de fazendas de laranjas. Por fim, conseguiu as terras necessárias, adquirindo 100 Km² de terra. O mago da animação faleceu em 1966, vítima de um câncer do pulmão, pois fumava compulsivamente. Seu irmão, Roy Disney, continuou o projeto, inaugurando a “Walt Disney World” em 1971. Atualmente, seis parques levam à diversão 150 milhões de pessoas por ano.


DEZ PERSONAGENS de WALT DISNEY
 
01
HUGUINHO, ZEZINHO e LUIZINHO

estreia: em outubro de 1937, em uma tira dominical de jornal, e logo a seguir, em 1938, no curta-metragem “Os Sobrinhos do Donald”. 
características: trigêmeos, aventureiros, diferenciados visualmente pelas cores de suas roupas e bonés (Huguinho veste vermelho, Zezinho veste azul e Luisinho veste verde). 
destaque: travessos e astutos, atormentam o tio Pato Donald.
 
02
IRMÃOS METRALHA

estreia: apareceram em 1951 nos quadrinhos “O Terror dos Irmãos Metralha”. 
características: usam máscaras pretas ao redor dos olhos, blusas vermelhas com números de prisioneiros no peito, calças azuis e são quase idênticos. 
destaque: são conhecidos por planejar grandes roubos mirabolantes, que sempre falham por causa de azar, incompetência ou interferência dos sobrinhos do Pato Donald.
 
03
MAGA PATALÓGICA

estreia: em dezembro de 1961, na HQ de Tio Patinhas intitulada “O Toque de Midas”. 
características: uma pata de cabelos longos e negros, inspirada visualmente no charme de atrizes clássicas do cinema italiano e em traços góticos. 
destaque: habilidade de usar feitiços, poções, teletransporte e a famosa arte dos disfarces. Era auxiliada por Madame Mim e o corvo de estimação Laércio.
 
04
MANCHA NEGRA

estreia: estreou em 1939 na história “Mickey Mouse contra o Mancha Negra”. 
características: usa um lençol ou capa preta encapuzada que o cobre por completo, parecendo uma mancha viva de tinta. 
destaque: é um mestre do crime extremamente inteligente, calculista e arrogante.
 
05
MARGARIDA

estreia: em 1937, no desenho “Don Donald”. 
características: charmosa e inteligente. 
destaque:vaidosa e muito feminina, ela costuma provocar ciúmes em Donald, seu namorado, mas não vive sem ele.
 
06
MICKEY MOUSE

estreia: em 1928, no desenho “Steamboat Willie”. 
características: amigo, ingênuo e xereta. 
destaque: estrelou mais de 120 desenhos animados. Também foi apresentador de um programa de TV dos anos 50 chamado “O Clube do Mickey”.
 
07
PATETA

estreia: em 1932, no desenho “Mickey's Revue”. 
características: ingênuo e bom caráter. 
destaque: é um cachorro com comportamento humano.
 
08
PATO DONALD

estreia: em 1934, no desenho “The Wise Little Hen”. 
Características: nervoso e bondoso. 
destaque: é um dos personagens mais simpáticos da Disney. Tem um jeito de falar engraçado e quase sempre se dá mal nas histórias.
 
09
TIO PATINHAS

estreia: surgiu em dezembro de 1947 na história em quadrinhos “Natal nas Montanhas”. 
características: o pato mais rico do mundo, ranzinza e antissocial que mora em uma mansão. Extremamente avarento, implacável nos negócios, mas dotado de ética. 
destaque: ele evoluiu de um coadjuvante para protagonista de várias mídias. Em março de 1952 ganhou revista própria, consolidando sua origem e personalidade definitiva. Costumava nadar dentro de sua enorme pilha de moedas de ouro na Caixa-Forte.
 
10
ZÉ CARIOCA

estreia: sua primeira aparição foi em um filme chamado “Alô, Amigos”, em 1942. 
características: malandro, simpático, dá jeitinho para tudo e adora feijoada. 
destaque: criado por Walt Disney para homenagear nosso país. Ele ficou famoso com o filme “Você já foi à Bahia?”, de 1944, em que convida o Pato Donald a visitar o Brasil. Como guia, mostra belezas naturais e ensina que a melhor coisa por aqui é o samba.
DEZ FILMES de ANIMAÇÃO de WALT DISNEY
 
01
BRANCA de NEVE e os SETE ANÕES
(Snow White and the Seven Dwarfs, 1937) 

02
PINÓQUIO
(Pinocchio, 1940) 

03
FANTASIA
(Idem, 1940) 

04
CINDERELA
(Cinderella, 1950)

05
ALICE no PAÍS das MARAVILHAS
(Alice in Wonderland, 1951)

06
PETER PAN
(Idem, 1953)

07
A DAMA e o VAGABUNDO
(Lady and the Tramp, 1955)

08
101 DÁLMATAS
(One Hundred and One Dalmatians, 1961) 

09
MOGLI – o MENINO LOBO
(The Jungle Book, 1967)

10
O REI LEÃO
(The Lion King, 1994)


DEZ FILMES com ATORES de WALT DISNEY
 
01
A CANÇÃO do SUL
(Song of the South, 1946)

direção de Harve Foster e Wilfred Jackson
elenco: Ruth Warrick, Bobby Driscoll, James Baskett,
Luana Patten, Lucile Watson e Hattie McDaniel


02
20.000 LÉGUAS SUBMARINAS
(20,000 Leagues Under the Sea, 1954)

direção de Richard Fleischer
elenco: Kirk Douglas, James Mason, Paul Lukas
e Peter Lorre


03
A CIDADELA dos ROBINSON
(Swiss Family Robinson, 1960)

direção de Ken Annakin
elenco: John Mills, Dorothy McGuire, James MacArthur,
Janet Munro, Sessue Hayakawa e Cecil Parker


04
POLLYANNA
(Idem, 1960)

direção de David Swift
elenco: Hayley Mills, Jane Wyman, Richard Egan,
Karl Malden, Nancy Olson, Adolphe Menjou,
Donald Crisp, Agnes Moorehead e James Drury


05
O SEGREDO das ESMERALDAS NEGRAS
(The Moon-Spinners, 1964)

direção de James Neilson
elenco: Hayley Mills, Eli Wallach, Peter McEnery,
Joan Greenwood, Irene Papas e Pola Negri


06
MARY POPPINS
(Idem, 1964)

direção de Robert Stevenson
elenco:  Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson,
Glynis Johns, Hermione Baddeley, Elsa Lanchester,
Reginald Owen, Ed Wynn e Jane Darwell


07
AQUELE GATO DANADO
(That Darn Cat!, 1965)

direção de Robert Stevenson
elenco: Hayley Mills, Dean Jones, Dorothy Provine,
Roddy McDowall, Neville Brand, Elsa Lanchester,
William Demarest e Ed Wynn


08
QUANDO o CORAÇÃO NÃO ENVELHECE
(The Happiest Millionaire, 1967)

direção de Norman Tokar
elenco: Fred MacMurray, Greer Garson, Gladys Cooper,
Geraldine Page, Hermione Baddeley e Lesley Ann Warren


09
POPEYE
(Idem, 1980)

direção de Robert Altman
elenco: Robin Williams, Shelley Duvall, Ray Walston,
Paul Dooley, Paul L. Smith e Linda Hunt


10
Uma CILADA para ROGER RABBIT
(Who Framed Roger Rabbit, 1988)

direção de Robert Zemeckis
elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd e Joanna Cassidy



FONTES
“A Árvore dos Sonhos – A Vida e Obra de Walt Disney” (2022)
de Maurício Nunes

“Segredos de Walt Disney”
(2010)
de Jim Korkis

“Walt Disney - O Triunfo da Imaginação Americana”
(2006)
de Neal Gabler


julho 31, 2026

*** A ARTE TRANSCENDENTAL de CARL Th. DREYER

o vampiro (1932)
 


Dreyer não usava a câmera de forma decorativa;
cada enquadramento estático servia para enclausurar
ou libertar a alma do personagem
de acordo com sua retidão moral.
FRANÇOIS TRUFFAUT
(1932 – 1984. Paris / França)
 
A arte de Carl Th. Dreyer
começa a se desenrolar exatamente
no ponto em que a maioria dos diretores desiste.
PAULINE KAEL
(1919 – 2001. Petaluma, Califórnia / EUA)
Quando penso no grande diretor dinamarquês CARL Th. DREYER (1889 – 1968. Copenhague / Dinamarca), os primeiros filmes que me vem à cabeça são “A Palavra” – uma história profunda e perturbadora –, da década de 1950, e “O Martírio de Joana D’Arc”, drama histórico mudo que conta o sofrimento da mártir francesa com closes espetaculares e exasperantes. Os dois foram escolhidos pelo Vaticano, em 1995, entre os cinco melhores de todos os tempos na categoria “religião”. No entanto, o trabalho dele que mais me encanta é o medieval “Dias de Ira”, uma obra-prima inesquecível para rever inúmeras vezes. Mestre do expressionismo e do minimalismo espiritual, ele é um dos cineastas mais importantes da história do cinema, conhecido por sua abordagem inovadora à narrativa fílmica. Seus filmes questionam temas como fé, moralidade e dor humana. Utiliza cenas longuíssimas com a câmera parada, os atores olhando a maior parte do tempo para a frente, conversando sem olhar uns para os outros. A sensação é estranhíssima – são filmes esquisitos, autênticos e espetaculares ao mesmo tempo.

Considerado o maior cineasta dinamarquês, ele influenciou Ingmar Bergman, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Gabriel Axel e Lars Von Trier, entre outros. Sua filmografia apresenta obras fortes e necessárias para os amantes da sétima arte. Entretanto, em tempos em que o cinema é tratado apenas como entretenimento, seus filmes são cada vez mais deixados de lado. Sendo assim, acredito que seja necessário divulgá-los, uma vez que eles ajudaram – e muito – a moldar o cinema. A obra de CARL Th. DREYER bebe do expressionismo alemão, evidente na utilização de sombras, iluminação e composição para criar atmosferas dramáticas. Ele se inspirou em diretores como Fritz Lang e F.W. Murnau, e incorporou elementos de sua estética em sua própria obra. Explora questões de fé e religiosidade, de moralidade e espiritualidade, acreditando na fé como uma força poderosa que pode modificar a vida das pessoas. Seguramente motivado pela sua própria educação cristã rigorosa e pela cultura religiosa da Dinamarca.

A representação da mulher na sua filmografia é complexa e profunda, desenvolvendo personagens femininas fortes e independentes, que são capazes de tomar decisões e agir de acordo com suas próprias convicções. Mestre da composição e da iluminação, a utilização dramática da luz e da sombra é uma das características mais distintivas de sua criação
rica em metáforas. A importância da literatura é evidente em sua adaptação cinematográfica de obras literárias, refletindo a complexidade e a profundidade de escritores como August Strindberg e Edgar Allan Poe. A solidão e o isolamento são essenciais para ele, dando vida a personagens isolados ou solitários, lutando para se conectar com os outros. Retrata a solidão e o isolamento como uma condição humana. Diretores célebres como Federico Fellini e François Truffaut viam CARL THEODOR DREYER como uma figura mítica e um dos fundadores da linguagem cinematográfica, prestando homenagens públicas ao seu domínio visual e espiritual.


Filho bastardo de um fazendeiro dinamarquês e de sua empregada sueca, ele passou seus primeiros anos em vários lares adotivos antes de ser adotado pelos Dreyer. De infância infeliz, pois não sentia o amor de seus pais adotivos (especialmente a mãe). Criado com severidade e com valores luteranos, educou-se em interpretações rígidas da fé. Ele só soube de sua verdadeira origem na idade adulta. Na escola foi considerado um aluno brilhante. Após o término dos estudos, afastou-se da família e se tornou jornalista, fundando, em 1910, o jornal
“Riget”. A experiência no jornal o levou a ter relações amigáveis com uma empresa de aviação. O conhecimento técnico que adquiriu sobre aviação fez com que colaborasse com a Nordisk Film, passando a se interessar pelo cinema. Começou escrevendo títulos e legendas, e em 1913 assinou um contrato com essa produtora para escrever roteiros. Em 1914, seu nome já aparecia nos créditos em “Abaixo as Armas / Ned med Vaabnene”, baseado em uma novela de Bertha Von Suttner.

Em 1919 realizou seu primeiro filme como diretor, intitulado “O Presidente / Præsidenten”. Nele, CARL Th. DREYER ousou ao dispensar vários ornamentos do cenário e o uso de maquilagem, buscando naturalidade e realidade. Ele teve a coragem em expor rostos e corpos sem artifícios românticos. Com filmes considerados sombrios, desde sua primeira fita tratava de temas difíceis, como a responsabilidade da separação dos pais no amadurecimento dos filhos, a idealização do auto sacrifício e a opressão feminina. Quando a Nordisk desistiu dos seus projetos, ele tentou produtoras alemãs, suecas e dinamarquesas para seus próximos filmes. Com a boa repercussão da comédia “A Queda do Tirano / Du skal ære din Hustru”, assinou contrato com um estúdio francês para dirigir “O Martírio de Joana d'Arc”, de 1928, o seu filme mais conhecido. Em 1934, co-roteirizou e começou “Mudundu”. Devido à uma doença, teve que abandonar o filme exótico de aventura, renomeado como“L'esclave Blanc” e lançado dois anos depois.

Na década de 1930 e 1940, realizou uma série de curtas-metragens. Nesse período, os dinamarqueses iam ao cinema apenas como entretenimento, buscando diversão, exatamente o que seus filmes não proporcionavam. “A Palavra”, de 1955, consagrou sua carreira, sendo considerado por muitos sua obra máxima. Trata-se de um filme sobre fé e milagre, através de uma perspectiva muito peculiar, conduzido pelas teorias do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard. Durante toda sua trajetória vitoriosa, ele foi considerado pelos produtores e atores como um perfeccionista fanático, um profissional difícil de trabalhar. Renée Falconetti, traumatizada com as filmagens de “O Martírio de Joana D´Ar”, nunca mais fez outro filme. “Tive propostas para Hollywood, mas não as aceitei. Acabei o trabalho num estado de nervos inimaginável. Sofri muito. Foram cinco meses de tortura. Às vezes brigávamos. Acabada a cena, era obrigada a recolher-me a uma casa de campo a que só o Sr. Dreyer tinha acesso. Falava-me constantemente, incutindo-me a obra que realizaria. Era uma ideia fixa”.

Para realizar a cena da fogueira em
“Dias de Ira”, mandou amarrar Anna Svierkier no alto de uma escada de madeira e, sem combinar com ela, foi deixada lá, enquanto o resto do elenco e da equipe almoçavam. Quando voltaram, a atriz estava suando desesperadamente, como CARL Th DREYER planejara. Ele enfrentou problemas com financiamento de filmes, gerando intervalos sem filmar — retornou ao jornalismo em 1932, trabalhando 11 anos na imprensa. Tentou, sem sucesso, uma adaptação cinematográfica de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; um documentário sobre a África; e um épico histórico sobre Mary Stuart. Antes de falecer, declarou que gostaria de filmar “A Paixão de Cristo”, inclusive concluindo o roteiro. Para sobreviver, trabalhou como gerente de cinema em 1952. O seu legado é vasto e duradouro, sua filmografia continua seduzindo cineastas. Um verdadeiro pioneiro do cinema, retratou a complexidade, o vazio e a profundidade da experiência humana. Seus filmes são estudos densos da psicologia de criaturas vivenciando crises extremas. Um cinema para cinéfilos.

“É a partir da rotina diária
de fazer filmes que se aprende o ofício.”

CARL THEODOR DREYER
 
DEZ FILMES de DREYER
(por ordem de preferência)
 
01
DIAS de IRA
(Vredens Dag, 1943)

elenco:  Thorkild Roose, Lisbeth Movin, Sigrid Neiiendam

e Centeio Preben


Ao regressar à sua aldeia natal, o filho de um pastor apaixona-se pela jovem madrasta, que não tarda a corresponder a essa paixão. A sogra suspeita do amor proibido do casal, empenhando-se em denunciar essa relação que considera diabólica. Ambientado no século XVII, explora a hipocrisia e o fanatismo religioso. Estreou em Copenhague durante a ocupação nazista. CARL Th. DREYER sempre negou como sendo análogo à perseguição de judeus. No entanto, a conselho de amigos, deixou a Dinamarca com o pretexto de vender a obra em mercados estrangeiros e passou o resto da II Guerra Mundial na Suécia. Para a revista “The New Yorker”, um dos melhores filmes já feitos.
02
A PALAVRA
(Ordet, 1955)

elenco:
Henrik Malberg, Preben Lerdorff Rye, Birgitte Federspiel

e Ejner Federspiel


Uma família rural cujo filho mais velho se dedica intensamente ao estudo religioso e é visto como louco. Seu sobrinho, abalado com a morte da mãe, pede a ele a impossível tarefa de ressuscitá-la. O religioso decide atender ao pedido, e por causa da fé, do amor e da crença, a morta abre os olhos. Segunda versão da famosa peça de Kaj Munk.
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Veneza
 
03
O MARTÍRIO de JOANA D´ARC
(La Passion de Jeanne d’Arc, 1928) 

elenco:
Renée Jeanne Falconetti, Eugène Silvain, André Berley,

Maurice Schutz e Antonin Artaud

 
Camponesa condenada à morte por ter liderado o povo francês do exército invasor inglês, afirma que foi inspirada por Jesus e São Miguel. Capturada pelos ingleses, torturada, julgada por heresia e, por fim, queimada viva. Uma obra-prima do cinema mudo, famosa por seus close-ups comoventes, pela atuação de Renée Falconetti e pelo roteiro baseado nos documentos históricos do julgamento real. A “Sight and Sound” o classificou como um dos dez maiores filmes em suas listas de 1952, 1972, 1992 e 2012.
04
O VAMPIRO
(Vampyr, 1932) 

Elenco: Julian West, Maurice Schutz, Rena Mandel e

Sybille Schmitz

 
As estranhas aventuras de um jovem que estuda o mal e os vampiros. Sonhador, a diferença entre o real e o irreal torna-se ínfima para ele. Obcecado com aparições sobrenaturais, visita uma antiga pousada, encontrando evidências de vampiros. Uma obra de terror psicológico onírico, utilizando técnicas inovadoras de luz e sombras. Primeiro filme falado de CARL THEODOR DREYER, colocou em cena atores amadores, apenas Sybille Schmitz e Maurice Schutz eram profissionais. Para se alcançar a estética estranha, que dá a sensação de se estar em um sonho, uma fina gaze foi colocada na lente como filtro. Herbert Matthews, crítico de cinema do “The New York Times”, o descreveu como “alucinante, mantendo os espectadores alucinados em um pesadelo”.
05
GERTRUD
(Idem, 1964)

elenco:
Nina Pens Rode, Bendt Rothe, Ebbe Rode

e Baard Owe


Em uma sociedade elegante de artistas e intelectuais, uma senhora idealista, que deseja o amor incondicional, finda seu casamento ao se apaixonar por um compositor. Por fim, decide-se por uma vida celibatária em Paris, dedicando-se ao aperfeiçoamento da mente. O último longa do diretor, focado na busca incansável de um amor absoluto e intransigente. Pode ser considerado, com alguma boa vontade, um verdadeiro libelo feminista. Vaiado no Festival de Cannes, atualmente é considerado uma obra-prima.
 
06
MIKAEL
(Idem, 1924) 

elenco:
Benjamin Christensen, Walter Slezak e Nora Gregor

 
07
A NOIVA de GLOMDAL
(Glomsdalsbruden, 1926) 

elenco: Einar Sissener, Tove Tellback e Stub Wiberg
 
08
ERA uma VEZ
(Der var engang, 1922)

elenco:
Clara Pontoppidan, Svend Methling e Peter Jerndorff

 
09
PÁGINAS do LIVRO de SATANÁS
(Blade af Satans Bog, 1920)

elenco: Helge Nissen, Halvard Hoff e Jacob Texiere

 
10
Os ESTIGMATIZADOS
(Die Gezeichneten, 1922)

elenco:
Polina Piekowskaja, Wladimir Gaidarow, Thorleif Reiss,

Adele Reuter-Eichberg e Richard Boleslawski
 
“Não são as coisas da realidade
que o diretor deve estar interessado,
mas o espírito dentro ou por trás delas.
O realismo em si não é arte.”

CARL THEODOR DREYER
 
FONTES
01
“Diretores Mundiais de Cinema, Volume Um, 1890-1945” (1987)
de John Wakeman
 
02
“Carl Theodor Dreyer and Ordet: My Summer with the Danish” Filmmaker” (2012)
de Jan Wahl
 
03
“O Estilo Transcendental no Cinema: Ozu, Bresson, Dreyer” (1972)
de Paul Schrader
 
04
“My Only Great Passion: The Life and Films of Carl Th. Dreyer” (2000)
de Jean Drum e Dale D. Drum
 
05
“The Films of Carl-Theodor Dreyer” (1981)
de David Bordwell
 
“Ao filmar os poros, as rugas e as lágrimas reais
sob luz dura, o diretor transformou o cinema documental
em uma experiência mística profunda.”

FRANÇOIS TRUFFAUT
 
SOBRE DREYER
CARL TH. DREYER - THE MAN AND HIS WORK
https://www.carlthdreyer.dk/en/carlthdreyer/films