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novembro 16, 2018

*********** BRIGITTE HELM, uma ESTRELA ALEMÃ





Assisti “Atlântida” (1932) por volta dos 13 anos de idade, na Cinemateca Walter da Silveira, em Salvador, apaixonando-me pela heroína Antinéa interpretada por BRIGITTE HELM (1906 - 1996. Berlim / Alemanha). Na história, dois oficiais franceses perdidos no deserto do Saara são acolhidos numa cidadela misteriosa, onde conhecem a rainha Antinéa e ficam seduzidos por ela. Vi outros cinco filmes da mítica atriz germânica: “Metrópolis”, “O Dinheiro”, “Crise”, “Conquista a tua Mulher / Gloria” (1931) e a comédia “A Condessa de Monte Carlo / Die Gräfin von Monte-Christo(1932). Ao longo da carreira, ela encarnaria muitas femmes fatales, tornando-se uma das estrelas mais populares da Alemanha do final do cinema mudo e primeiros anos do falado. Faz parte de um privilegiado grupo de atrizes ícones dos anos 20, de Louise Brooks a Greta Garbo.

Verdadeira lenda por causa do seu duplo papel - uma mocinha mística que prega a chegada de um Messias e um robô - no clássico de ficção-científica “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang, na sequência fez mais de 30 filmes. Nunca estando totalmente à vontade como atriz, ultrapassou sem problemas a transição do cinema mudo para o falado, mas de forma inesperada se aposentou em 1935. Filha de um oficial prussiano, conseguiu o papel protagonista em “Metrópolis” após sua mãe enviar uma foto sua aos 18 anos de idade para a roteirista e esposa de Lang, Thea von Harbou, que encantada com a beleza enigmática da garota conseguiu um teste para ela, resultando em um contrato de dez anos com a poderosa produtora UFA (Universum Film AG).


Mundialmente conhecida por “Metrópolis”, sabe-se hoje que as filmagens foram problemáticas, com a protagonista sofrendo queimaduras graves na cena da fogueira e arriscando a vida suspensa em sets altíssimos. Ela ficou tão traumatizada pela experiência que pelo resto da vida evitou falar sobre o filme, chegando a negar que tivesse aparecido nele. A complexa produção levou 310 dias para ser finalizada (numa época em que muitas eram rodados em quinze dias), mas o perfeccionismo do emblemático diretor criou uma ficção-cientifíca visualmente maravilhosa, ficando na história e influenciando a arquitetura moderna.

Obra expressionista. Embora Lang rejeite a filiação, ele o é pelos fortes contrastes entre luzes e sombras e pelas interpretações exasperadas que exige dos atores – expressões demoníacas e gestos desvairados da Mulher-Máquina. Valorizado pela fotografia de Karl Freund, o filme retrata uma grande metrópole do futuro, onde operários quase escravos vivem em condições miseráveis nos subterrâneos, operando máquinas 24 horas por dia para manterem funcionando a suntuosa cidade. O filho do chefão local, um milionário, descobre a injustiça e tenta corrigi-la tomando o lugar de um dos explorados. Há um cientista (louco, claro) que criou uma espécie de robô (Helm, super sexy) para pregar a destruição de tudo. Ao estrear na Alemanha, sob o domínio do nazismo, a esperada superprodução acabou sendo um fracasso de bilheteria.

Eva Braun, a amante tonta de Adolf Hitler, tinha predileção pelos filmes estrelados pela famosa atriz, pois haviam dito, em várias ocasiões, que elas eram parecidas. Seu filme favorito era “O Amor de Jeanne Ney”, dirigido por Pabst. BRIGITTE HELM foi muitas vezes escolhida para interpretar heroínas más ou sedutoras, como nas duas versões dos notáveis “Mandrágora”, a muda de 1928 dirigida por Henrik Galeen e a falada de 1930, de Richard Oswald. Fala sobre uma prostituta inseminada com o esperma de um criminoso enforcado, gerando uma filha que adulta passa a matar os homens que se apaixonam por ela. No melodrama de guerra “O Amor de Jeanne Ney” (1927), o mestre G. W. Pabst destacou a personalidade misteriosa da intérprete, que tem um desempenho assustador como uma cega. Dando continuidade a uma carreira impecável, atuou em “Crise” (1928), também de Pabst, solidificando seu talento.

Ainda em 1928, fez “O Dinheiro”, de Marcel L'Herbier, adaptado do romance homônimo de Emile Zola e um dos monumentos da filmografia francesa do período, que reconcilia as ambições do cinema de arte com as características de uma superprodução. Trata-se da história de um banqueiro à beira da falência, que aposta tudo o que tem na invenção de um novo modelo de avião, provocando deliberadamente o pânico na Bolsa de Valores. Com uma extraordinária fotografia, a câmara sempre em movimento, notáveis cenários e um elenco precioso (Jules Berry, Antonin Artaud etc.), é um dos pontos culminantes da filmografia de um importante realizador. Outro brilhante desempenho de BRIGITTE HELM é a aristocrata que se apaixona por um pobre soldado em “As Deliciosas Mentiras de Nina Petrowna” (1929).

No seu primeiro filme falado, o musical “A Voz do Meu Coração / Die Stadt Singende” (1930), de Carmine Gallone, tem como partner o cantor lírico Jan Kiepura. Tanto esse, como outros sonoros, o inglês “O Danúbio Azul / The Blue Danube” (1932), “Ouro / L'Or” (1934) etc. - não tiveram o mesmo prestígio artístico dos seus melhores filmes mudos. Na ocasião, o seu relacionamento com o UFA passou a ser conflituoso. Embora  o estúdio tenha feito dela uma estrela e aumentava gradualmente o seu salário, ela não se conformava com os papéis que lhe eram oferecidos, considerando-os superficiais. Errou feio ao rejeitar a cantora de cabaré Lola-Lola de “O Anjo Azu / Der Blaue Engel” (1930), de Josef von Sternberg, abrindo caminho para o estrelado internacional de Marlene Dietrich. Também foi a primeira escolha de James Whale para o célebre clássico de terror “A Noiva de Frankenstein / Bride of Frankenstein” (1935), mas ela se recusou a ir a América do Norte. No auge da fama, declarou que não se importava com a carreira, preferindo ser uma dona de casa comum, cozinhando e educando filhos.


Suas opiniões públicas anti-nazistas e a ascendência judaica do segundo marido, o industrial Hugo von Kuenheim, tornaram impossível que continuasse a trabalhar no cinema alemão, na época totalmente controlado por Adolf Hitler. Em 1935, não renovou o contrato com a UFA. Também influenciaram sua decisão as críticas negativas sobre os seus longas mais recentes e reportagens sensacionalistas na imprensa sobre seus acidentes de trânsito (em um deles foi condenada a curta pena de prisão).

A Condessa Gertrud Chiltern na comédia “Um Marido Ideal / Ein Idealer Gatte” (1935), adaptação da famosa peça de Oscar Wilde, marcou sua despedida do cinema. Tímida e modesta, BRIGITTE HELM mudou-se com o marido para a Itália e depois Ascona, na Suíça, afastando-se do universo cinematográfico, recusando propostas de filmes, peças teatrais e aparições na tevê, além de nunca ter dado entrevistas depois da aposentadoria precoce, num eterno anonimato. Desde então, não saiu mais de seu retiro em Ascona, nem para receber, em 1968, um prêmio pelo conjunto de sua carreira no Festival de Berlim, e que seu filho foi receber em seu nome. Em 1978, contudo, de modo súbito e inesperado, fez uma última aparição nas telas, num obscuro curta-metragem: “Como em Sonho / Wie im Traum” (1978), de Egon Haase. E nunca mais foi vista num filme. Teve quatro filhos. Em 1996, morreu do coração, aos 90 anos de idade.


  DEZ PERFORMANCES de BRIGITTE HELM

01
O Robô/Maria em
METRÓPOLIS
(Metropolis, 1927)
direção de Fritz Lang

02
Gabrielle em
O AMOR de JEANNE NEY
(Die Liebe der Jeanne Ney, 1927)
 direção de Georg Wilhelm Pabst
 
03
Baronesa Sandorf em
O DINHEIRO
(L'argent, 1928)
direção de Marcel L'Herbier

04
Irene Beck em
CRISE
(Abwege, 1928)
 direção de Georg Wilhelm Pabst

05
Alraune ten Brinken em
MANDRÁGORA
(Alraune, 1928)
direção de Henrik Galeen

06
Nina Petrowna em
As DELICIOSAS MENTIRAS de NINA PETROWNA
(Die Wunderbare Lüge der Nina Petrowna, 1929)
direção de Hanns Schwarz

07
Alraune ten Brinken em
MANDRÁGORA
(Alraune, 1930)
 direção de Richard Oswald

08
Vera Lanskaja em
SERVIÇO SECRETO
(Im Geheimdienst, 1931)
direção de Gustav Ucicky

09
Antinéa em
ATLÂNTIDA
(L’Atlantide, 1932)
direção de Georg Wilhelm Pabst

10
Marion Savedra em
A ESTRELA de VALÊNCIA
(L'étoile de Valencia, 1933)
direção de Serge de Poligny

GALERIA de FOTOS

 
 
 
 
 
 

junho 09, 2011

************ DRÁCULA, o PRINCÍPE das TREVAS

christopher lee


 
 
 
O mais popular de todos os personagens da história do cinema chama-se DRÁCULA. Tarzan, Sherlock Holmes, Frankenstein, Joana D’Arc e até mesmo Jesus Cristo perdem em popularidade cinematográfica para o príncipe romeno. Segundo o maior banco de dados sobre cinema do planeta, o Internet Movie Database, foram produzidos nada menos do que 1.294 longas-metragens e seriados de TV que apresentam vampiros, sendo que um sexto desse total – exatos 200 filmes – trazem o aristocrata oriundo da Transilvânia como protagonista ou coadjuvante. O primeiro a assombrar as platéias – inicialmente, numa peça da Broadway, em 1927, e depois nas telas em “Drácula / idem” (1931), de Tod Browning –, Bela Lugosi (retratado por Tim Burton em “Ed Wood / Idem”, 1994), é quase teatral, com movimentos reduzidos ao mínimo. Sua aparição assustadora, descendo uma soturna escadaria no Castelo de Carfax, está entre os melhores momentos das fitas de horror. A imagem pintada neste filme, com a luz do talentoso fotógrafo expressionista Karl Freund, fez com que o mundo passasse a associar os vampiros a seres aristocráticos, olhar hipnótico, longos caninos brancos, vestidos de negro, usando longas capas esvoaçantes, tementes da cruz cristã e do sol. 
 
O sucesso alcançado incentivou o lançamento da série de filmes de baixo orçamento da Universal, estúdio de pequeno porte que passaria as décadas de 1930 e 1940 investindo em monstros como Frankenstein e a Múmia. Bela Lugosi destacou-se como o primeiro, mas o DRÁCULA mais celebrado do cinema é Christopher Lee. Durante a época célebre da Hammer (produtora inglesa que se especializou em horror e ficção), esse ator britânico metamorfoseou-se no rei dos vampiros em “O Vampiro da Noite” (1958), de Terence Fisher, duramente perseguido por seu algoz Van Helsing (personificado outras três vezes por Peter Cushing). A Hammer restaurou o figurino do clássico da Universal e adicionou sexo, violência e cor – especialmente o vermelho do sangue – à narrativa. O interessante do conde de Lee é seu ar ameaçador, auxiliado pela maquiagem impecável e pela voz aguda do ator, que, além disso, tem 1,96m de altura. O ator repetiria sua criação em mais sete filmes. Embora ele odeie o personagem que o marcou, será sempre associado a ele. Aos 89 anos, Christopher Lee continua trabalhando.


max schreck em “nosferatu”

Mesmo sendo o mais conhecido, DRÁCULA não inaugurou o vampirismo nas telas. Em 1896, George Méliès produziu e dirigiu o curta “Le Manoir Du Diable”, considerado por alguns como o marco inicial do gênero. Entretanto, a estréia aconteceria mesmo no clássico do expressionismo alemão “Nosferatu, uma Sinfonia de Horror” (1921). Versão não autorizada do romance de Bram Stoker, o Nosferatu de Murnau, semelhante a uma ratazana albina, tornou-se uma das criações mais impressionantes do cinema, na interpretação fantasmagórica e nada sedutora de Max Schreck. Ele faz um zumbi corcunda, esquelético e careca, com orelhas pontudas, dentes incisivos (e não caninos) afiados, dedos longos e ossudos, e um infernal apetite por aranhas e moscas. Um monstro absolutamente repulsivo e angustiado, condenado a viver do sangue de suas vítimas. O filme, hoje reconhecido como obra-prima, passou vários anos proibido na Europa, porque usou os personagens criados pelo escritor inglês, com nomes modificados, sem o consentimento da família dele. As técnicas inovadoras de iluminação, maquiagem e movimento de câmera valeram a Murnau o passaporte para Hollywood.

Dez anos depois de “Nosferatu”, surgiu o elogiado “O Vampiro / Vampyr”, do genial Carl Th. Dreyer, baseado em “Carmilla”, de Sheridan de Le Fanu. Com cenas de puro teor artístico, marcou a estréia das vampiras, popularizadas depois por Gloria Holden (“A Filha de Drácula / Dracula’s Daughter, 1936), Elsa Martinelli e Annette Stroyberg (Rosas de Sangue / Et Mourir de Plaisir”, 1960), Barbara Steele (“A Maldição do Demônio / La Maschera del Demonio”, 1960), Ingrid Pitt (“A Condessa Drácula/  Countess Dracula”, 1970), Delphine Seyrig (“Escravas do Desejo / Les Lèvres Rouges”, 1971), Liv Ullmann (“Leonor / Idem”, 1975), Catherine Deneuve (“Fome de Viver”, 1983), Grace Jones (“Vamp – A Noite dos Vampiros / Vamp”, 1985) Elina Lowensohn (“Nadja / Idem”, 1994), Kirsten Dunst e Domiziana Giordano (“Entrevista com o Vampiro”, 1994).


catherine deneuve em “fome de viver”

Desde a explosão do vampirismo cinematográfico – iniciada, em 1956, com “Os Vampiros / I Vampiri”, de Riccardo Freda -, o gênero ganhou consistência, com argumentos criativos e profundidade temática. Os exemplos mais conhecidos, respeitados e imitados desta fase são “Rosas de Sangue”, de Roger Vadim, e a comédia “A Dança dos Vampiros / Dance of the Vampires” (1967), de Roman Polanski. O primeiro, enfatizava o relacionamento lésbico entre vampiras. O segundo, homenageando os clássicos da Hammer, tinha direito a inovações como um vampiro gay e outro, judeu, que não teme a cruz. Depois de uma porção de filmes ruins, entre o trash e o cômico, apareceu em 1979 o belíssimo remake de “Nosferatu”, dirigido por Werner Herzog, com Klaus Kinski, Isabelle Adjani e Bruno Ganz no elenco. Em 1983, “Fome de Viver”, de Tony Scott, fez sucesso com o casal de vampiros sofisticados e entediados (Catherine Deneuve e David Bowie) e o relacionamento homossexual de Deneuve e Susan Sarandon.

De lá pra cá, foram lançados outros filmes vampirescos bastante inspirados: o extravagante e refinado “Drácula de Bram Stoker” (1992), o mal compreendido “Entrevista com o Vampiro (1994) – com dois populares galãs, Tom Cruise e Brad Pitt -, os experimentais “Nadja” e “Os Viciosos” (1995) e o inovador “A Sombra do Vampiro” (2000), provando que essas criaturas soturnas continuam eficientes. Creio que sempre haverá lugar para tais mortos-vivos nas narrativas cinematográficas. Assim como eles possuem uma sede interminável de sangue, o público tem sede de vampiros, sempre aguardando contos visuais sobre estes personagens enigmáticos e multifacetados. Só espero que não venham padronizados na bizarrice de “Um Drink no Inferno / From Dusk Till Dawn” (1996), tolices românticas da saga “Crepúsculo / Twilight” (2008/10) ou nos efeitos apelativos de “Van Helsing – O Caçador de Monstros / Van Helsing” (2004).

13 VAMPIROS de REFERÊNCIA

MAX SCHRECK 
Nosferatu, Uma Sinfonia de Horror
(Nosferatu: Eine Symphonie des Grauens, 1921)
direção de F. W. Murnau

BELA LUGOSI 
Drácula
(Idem, 1931)
direção de Tod Browning

CHRISTOPHER LEE 
O Vampiro da Noite 
(Horror of Dracula, 1958)
direção de Terence Fisher

FERDY MAYNE 
“A Dança dos Vampiros 
(Dance of the Vampires, 1967)
direção de Roman Polanski

JACK PALANCE
Drácula, o Demônio das Trevas
(Dracula, 1973)
direção de Dan Curtis

LOUIS JOURDAN 
Conde Drácula
(Count Dracula, 1978)
direção de Philip Seville

kinski e isabelle adjani

KLAUS KINSKI
Nosferatu, o Vampiro da Noite
(Nosferatu: Phantom der Nacht, 1979)
direção de Werner Herzog

FRANK LANGELLA 
Drácula
(Idem, 1979)
direção de John Badham

DAVID BOWIE
Fome de Viver 
(The Hunger, 1983)
direção de Tony Scott

gary oldman

GARY OLDMAN
Drácula de Bram Stoker 
(Dracula, 1992)
direção de Francis Ford Coppola

TOM CRUISE 
“Entrevista com o Vampiro 
(Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles, 1994)
direção de Neil Jordan

CHRISTOPHER WALKEN
“Os Viciosos 
(The Addiction, 1995)
direção de Abel Ferrara

WILLEM DAFOE
A Sombra do Vampiro 
(Shadow of the Vampire, 2000)
direção de E. Elias Merhige

bela lugosi