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julho 31, 2026

*** A ARTE TRANSCENDENTAL de CARL Th. DREYER

o vampiro (1932)
 


Dreyer não usava a câmera de forma decorativa;
cada enquadramento estático servia para enclausurar
ou libertar a alma do personagem
de acordo com sua retidão moral.
FRANÇOIS TRUFFAUT
(1932 – 1984. Paris / França)
 
A arte de Carl Th. Dreyer
começa a se desenrolar exatamente
no ponto em que a maioria dos diretores desiste.
PAULINE KAEL
(1919 – 2001. Petaluma, Califórnia / EUA)
Quando penso no grande diretor dinamarquês CARL Th. DREYER (1889 – 1968. Copenhague / Dinamarca), os primeiros filmes que me vem à cabeça são “A Palavra” – uma história profunda e perturbadora –, da década de 1950, e “O Martírio de Joana D’Arc”, drama histórico mudo que conta o sofrimento da mártir francesa com closes espetaculares e exasperantes. Os dois foram escolhidos pelo Vaticano, em 1995, entre os cinco melhores de todos os tempos na categoria “religião”. No entanto, o trabalho dele que mais me encanta é o medieval “Dias de Ira”, uma obra-prima inesquecível para rever inúmeras vezes. Mestre do expressionismo e do minimalismo espiritual, ele é um dos cineastas mais importantes da história do cinema, conhecido por sua abordagem inovadora à narrativa fílmica. Seus filmes questionam temas como fé, moralidade e dor humana. Utiliza cenas longuíssimas com a câmera parada, os atores olhando a maior parte do tempo para a frente, conversando sem olhar uns para os outros. A sensação é estranhíssima – são filmes esquisitos, autênticos e espetaculares ao mesmo tempo.

Considerado o maior cineasta dinamarquês, ele influenciou Ingmar Bergman, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Gabriel Axel e Lars Von Trier, entre outros. Sua filmografia apresenta obras fortes e necessárias para os amantes da sétima arte. Entretanto, em tempos em que o cinema é tratado apenas como entretenimento, seus filmes são cada vez mais deixados de lado. Sendo assim, acredito que seja necessário divulgá-los, uma vez que eles ajudaram – e muito – a moldar o cinema. A obra de CARL Th. DREYER bebe do expressionismo alemão, evidente na utilização de sombras, iluminação e composição para criar atmosferas dramáticas. Ele se inspirou em diretores como Fritz Lang e F.W. Murnau, e incorporou elementos de sua estética em sua própria obra. Explora questões de fé e religiosidade, de moralidade e espiritualidade, acreditando na fé como uma força poderosa que pode modificar a vida das pessoas. Seguramente motivado pela sua própria educação cristã rigorosa e pela cultura religiosa da Dinamarca.

A representação da mulher na sua filmografia é complexa e profunda, desenvolvendo personagens femininas fortes e independentes, que são capazes de tomar decisões e agir de acordo com suas próprias convicções. Mestre da composição e da iluminação, a utilização dramática da luz e da sombra é uma das características mais distintivas de sua criação
rica em metáforas. A importância da literatura é evidente em sua adaptação cinematográfica de obras literárias, refletindo a complexidade e a profundidade de escritores como August Strindberg e Edgar Allan Poe. A solidão e o isolamento são essenciais para ele, dando vida a personagens isolados ou solitários, lutando para se conectar com os outros. Retrata a solidão e o isolamento como uma condição humana. Diretores célebres como Federico Fellini e François Truffaut viam CARL THEODOR DREYER como uma figura mítica e um dos fundadores da linguagem cinematográfica, prestando homenagens públicas ao seu domínio visual e espiritual.


Filho bastardo de um fazendeiro dinamarquês e de sua empregada sueca, ele passou seus primeiros anos em vários lares adotivos antes de ser adotado pelos Dreyer. De infância infeliz, pois não sentia o amor de seus pais adotivos (especialmente a mãe). Criado com severidade e com valores luteranos, educou-se em interpretações rígidas da fé. Ele só soube de sua verdadeira origem na idade adulta. Na escola foi considerado um aluno brilhante. Após o término dos estudos, afastou-se da família e se tornou jornalista, fundando, em 1910, o jornal
“Riget”. A experiência no jornal o levou a ter relações amigáveis com uma empresa de aviação. O conhecimento técnico que adquiriu sobre aviação fez com que colaborasse com a Nordisk Film, passando a se interessar pelo cinema. Começou escrevendo títulos e legendas, e em 1913 assinou um contrato com essa produtora para escrever roteiros. Em 1914, seu nome já aparecia nos créditos em “Abaixo as Armas / Ned med Vaabnene”, baseado em uma novela de Bertha Von Suttner.

Em 1919 realizou seu primeiro filme como diretor, intitulado “O Presidente / Præsidenten”. Nele, CARL Th. DREYER ousou ao dispensar vários ornamentos do cenário e o uso de maquilagem, buscando naturalidade e realidade. Ele teve a coragem em expor rostos e corpos sem artifícios românticos. Com filmes considerados sombrios, desde sua primeira fita tratava de temas difíceis, como a responsabilidade da separação dos pais no amadurecimento dos filhos, a idealização do auto sacrifício e a opressão feminina. Quando a Nordisk desistiu dos seus projetos, ele tentou produtoras alemãs, suecas e dinamarquesas para seus próximos filmes. Com a boa repercussão da comédia “A Queda do Tirano / Du skal ære din Hustru”, assinou contrato com um estúdio francês para dirigir “O Martírio de Joana d'Arc”, de 1928, o seu filme mais conhecido. Em 1934, co-roteirizou e começou “Mudundu”. Devido à uma doença, teve que abandonar o filme exótico de aventura, renomeado como“L'esclave Blanc” e lançado dois anos depois.

Na década de 1930 e 1940, realizou uma série de curtas-metragens. Nesse período, os dinamarqueses iam ao cinema apenas como entretenimento, buscando diversão, exatamente o que seus filmes não proporcionavam. “A Palavra”, de 1955, consagrou sua carreira, sendo considerado por muitos sua obra máxima. Trata-se de um filme sobre fé e milagre, através de uma perspectiva muito peculiar, conduzido pelas teorias do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard. Durante toda sua trajetória vitoriosa, ele foi considerado pelos produtores e atores como um perfeccionista fanático, um profissional difícil de trabalhar. Renée Falconetti, traumatizada com as filmagens de “O Martírio de Joana D´Ar”, nunca mais fez outro filme. “Tive propostas para Hollywood, mas não as aceitei. Acabei o trabalho num estado de nervos inimaginável. Sofri muito. Foram cinco meses de tortura. Às vezes brigávamos. Acabada a cena, era obrigada a recolher-me a uma casa de campo a que só o Sr. Dreyer tinha acesso. Falava-me constantemente, incutindo-me a obra que realizaria. Era uma ideia fixa”.

Para realizar a cena da fogueira em
“Dias de Ira”, mandou amarrar Anna Svierkier no alto de uma escada de madeira e, sem combinar com ela, foi deixada lá, enquanto o resto do elenco e da equipe almoçavam. Quando voltaram, a atriz estava suando desesperadamente, como CARL Th DREYER planejara. Ele enfrentou problemas com financiamento de filmes, gerando intervalos sem filmar — retornou ao jornalismo em 1932, trabalhando 11 anos na imprensa. Tentou, sem sucesso, uma adaptação cinematográfica de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; um documentário sobre a África; e um épico histórico sobre Mary Stuart. Antes de falecer, declarou que gostaria de filmar “A Paixão de Cristo”, inclusive concluindo o roteiro. Para sobreviver, trabalhou como gerente de cinema em 1952. O seu legado é vasto e duradouro, sua filmografia continua seduzindo cineastas. Um verdadeiro pioneiro do cinema, retratou a complexidade, o vazio e a profundidade da experiência humana. Seus filmes são estudos densos da psicologia de criaturas vivenciando crises extremas. Um cinema para cinéfilos.

“É a partir da rotina diária
de fazer filmes que se aprende o ofício.”

CARL THEODOR DREYER
 
DEZ FILMES de DREYER
(por ordem de preferência)
 
01
DIAS de IRA
(Vredens Dag, 1943)

elenco:  Thorkild Roose, Lisbeth Movin, Sigrid Neiiendam

e Centeio Preben


Ao regressar à sua aldeia natal, o filho de um pastor apaixona-se pela jovem madrasta, que não tarda a corresponder a essa paixão. A sogra suspeita do amor proibido do casal, empenhando-se em denunciar essa relação que considera diabólica. Ambientado no século XVII, explora a hipocrisia e o fanatismo religioso. Estreou em Copenhague durante a ocupação nazista. CARL Th. DREYER sempre negou como sendo análogo à perseguição de judeus. No entanto, a conselho de amigos, deixou a Dinamarca com o pretexto de vender a obra em mercados estrangeiros e passou o resto da II Guerra Mundial na Suécia. Para a revista “The New Yorker”, um dos melhores filmes já feitos.
02
A PALAVRA
(Ordet, 1955)

elenco:
Henrik Malberg, Preben Lerdorff Rye, Birgitte Federspiel

e Ejner Federspiel


Uma família rural cujo filho mais velho se dedica intensamente ao estudo religioso e é visto como louco. Seu sobrinho, abalado com a morte da mãe, pede a ele a impossível tarefa de ressuscitá-la. O religioso decide atender ao pedido, e por causa da fé, do amor e da crença, a morta abre os olhos. Segunda versão da famosa peça de Kaj Munk.
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Veneza
 
03
O MARTÍRIO de JOANA D´ARC
(La Passion de Jeanne d’Arc, 1928) 

elenco:
Renée Jeanne Falconetti, Eugène Silvain, André Berley,

Maurice Schutz e Antonin Artaud

 
Camponesa condenada à morte por ter liderado o povo francês do exército invasor inglês, afirma que foi inspirada por Jesus e São Miguel. Capturada pelos ingleses, torturada, julgada por heresia e, por fim, queimada viva. Uma obra-prima do cinema mudo, famosa por seus close-ups comoventes, pela atuação de Renée Falconetti e pelo roteiro baseado nos documentos históricos do julgamento real. A “Sight and Sound” o classificou como um dos dez maiores filmes em suas listas de 1952, 1972, 1992 e 2012.
04
O VAMPIRO
(Vampyr, 1932) 

Elenco: Julian West, Maurice Schutz, Rena Mandel e

Sybille Schmitz

 
As estranhas aventuras de um jovem que estuda o mal e os vampiros. Sonhador, a diferença entre o real e o irreal torna-se ínfima para ele. Obcecado com aparições sobrenaturais, visita uma antiga pousada, encontrando evidências de vampiros. Uma obra de terror psicológico onírico, utilizando técnicas inovadoras de luz e sombras. Primeiro filme falado de CARL THEODOR DREYER, colocou em cena atores amadores, apenas Sybille Schmitz e Maurice Schutz eram profissionais. Para se alcançar a estética estranha, que dá a sensação de se estar em um sonho, uma fina gaze foi colocada na lente como filtro. Herbert Matthews, crítico de cinema do “The New York Times”, o descreveu como “alucinante, mantendo os espectadores alucinados em um pesadelo”.
05
GERTRUD
(Idem, 1964)

elenco:
Nina Pens Rode, Bendt Rothe, Ebbe Rode

e Baard Owe


Em uma sociedade elegante de artistas e intelectuais, uma senhora idealista, que deseja o amor incondicional, finda seu casamento ao se apaixonar por um compositor. Por fim, decide-se por uma vida celibatária em Paris, dedicando-se ao aperfeiçoamento da mente. O último longa do diretor, focado na busca incansável de um amor absoluto e intransigente. Pode ser considerado, com alguma boa vontade, um verdadeiro libelo feminista. Vaiado no Festival de Cannes, atualmente é considerado uma obra-prima.
 
06
MIKAEL
(Idem, 1924) 

elenco:
Benjamin Christensen, Walter Slezak e Nora Gregor

 
07
A NOIVA de GLOMDAL
(Glomsdalsbruden, 1926) 

elenco: Einar Sissener, Tove Tellback e Stub Wiberg
 
08
ERA uma VEZ
(Der var engang, 1922)

elenco:
Clara Pontoppidan, Svend Methling e Peter Jerndorff

 
09
PÁGINAS do LIVRO de SATANÁS
(Blade af Satans Bog, 1920)

elenco: Helge Nissen, Halvard Hoff e Jacob Texiere

 
10
Os ESTIGMATIZADOS
(Die Gezeichneten, 1922)

elenco:
Polina Piekowskaja, Wladimir Gaidarow, Thorleif Reiss,

Adele Reuter-Eichberg e Richard Boleslawski
 
“Não são as coisas da realidade
que o diretor deve estar interessado,
mas o espírito dentro ou por trás delas.
O realismo em si não é arte.”

CARL THEODOR DREYER
 
FONTES
01
“Diretores Mundiais de Cinema, Volume Um, 1890-1945” (1987)
de John Wakeman
 
02
“Carl Theodor Dreyer and Ordet: My Summer with the Danish” Filmmaker” (2012)
de Jan Wahl
 
03
“O Estilo Transcendental no Cinema: Ozu, Bresson, Dreyer” (1972)
de Paul Schrader
 
04
“My Only Great Passion: The Life and Films of Carl Th. Dreyer” (2000)
de Jean Drum e Dale D. Drum
 
05
“The Films of Carl-Theodor Dreyer” (1981)
de David Bordwell
 
“Ao filmar os poros, as rugas e as lágrimas reais
sob luz dura, o diretor transformou o cinema documental
em uma experiência mística profunda.”

FRANÇOIS TRUFFAUT
 
SOBRE DREYER
CARL TH. DREYER - THE MAN AND HIS WORK
https://www.carlthdreyer.dk/en/carlthdreyer/films 
 
 

agosto 29, 2025

******* FELLINI: MEMÓRIAS, SONHOS e FANTASIAS

 



“Sou apenas um contador de histórias,
e o cinema é o meu meio. Gosto dele
porque recria a vida em movimento,
amplifica-a. Está muito próximo
da criação milagrosa da vida.”
FEDERICO FELLINI 
 Oito e Meio
 
 
Um dos grandes diretores italianos, criou um estilo cinematográfico inimitável, combinando surrealismo com crítica social incisiva.  Explorou em 23 filmes suas obsessões com o circense, a decadência social, a redenção espiritual e as mulheres, gerando influências em diversos cineastas, como o siciliano Paolo Sorrentino ou o norte-americano Martin Scorsese, que diz rever “Oito e Meio” (1963) todo ano. FEDERICO FELLINI (1920 – 1993. Rimini / Itália) colocou a própria biografia em sua criação cinematográfica. Na realidade, aos dezenove anos deixou a provinciana cidade natal, transferindo-se para Roma. Seu primeiro emprego foi na revista humorística “Marc’Aurelio”. Na Itália semidestruída pela II Guerra Mundial, oscilou de um emprego a outro. Depois de trabalhar como repórter, locutor de rádio e escritor de fotonovelas, o famoso ator Aldo Fabrizi o contratou para escrever esquetes para espetáculos de uma companhia teatral ambulante. Com ela, o futuro cineasta correu a Itália, aprendendo a técnica de contar histórias a partir de pequenos incidentes dramáticos ou cômicos.
 
A guerra estava acabando. No meio dos destroços, entre bombas e fuzilamentos, o cinema italiano voltava a brilhar. Era o começo do neorrealismo, uma arte verdadeira, sem glamour e sem estrelas, que mudaria o panorama do cinema mundial. E ele fazia parte desse movimento. Seu primeiro trabalho em filmes foi em um roteiro para o lendário Roberto Rossellini, contando o episódio verídico do fuzilamento de um padre pelos nazistas. “Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta” (1945) transformou-se em um clássico. Começava aí uma das carreiras mais exuberantes da sétima arte. A colaboração com o cinema se intensificou e alguns dos seus roteiros foram pontos altos do neorrealismo: “O Moinho do Pó / Il Mulino del Po” (1949), de Alberto Lattuada; “O Caminho da Esperança / Il Cammino della Speranza” (1950), de Pietro Germi; “Milagre em Milão / Miracolo a Milano” (1951), de Vittorio de Sica, entre outros. Em 1950, co-dirigiu com Alberto Lattuada “Mulheres e Luzes / Luci del Varietà”. O segundo filme, “Abismo de um Sonho / Lo Sceicco Bianco”, veio em 1952 e teve péssima recepção.
 
Um ícone da fantasia com uma visão pessoal acerca da sociedade, ele ressignificou suas lembranças da infância-juventude e seus sonhos, traduzindo-os em obras magistrais. O cinema se tornou, para o diretor, um espaço de interpretação de fantasias e desejos, de reconciliação com situações de tempos passados. Brincou sem limites entre o real e o imaginário, o ficcional e o biográfico, alta e baixa cultura, cinema de autor e de entretenimento, num universo onírico copiado mundialmente. A grande virada foi “A Doce Vida”, de 1960. Sucesso de bilheteria e condenado pela Igreja Católica, este filme insólito abandona o que poderíamos chamar de uma representação mais crua, buscando se aproximar de um mundo simbólico, estilizado. A partir deste momento decisivo, sua obra, que ele descrevia como “sonhos em celuloide”, funda um estilo próprio, no qual mescla memória e sonho, quase sempre não deixando claro onde termina um e começa o outro. Seu cinema barroco, delirante e pessoal torna sua filmografia uma das mais premiadas e envolventes de todos os tempos. 
 
Ele descrevia seu método criativo afirmando que a invenção para suas tramas se dava a partir de suas experiências, memórias, esperanças,
“uma mistura de emoções pessoais, alterações, as cores da escuridão que vivem em mim”. Condecorado com quatro estatuetas no Oscar, um recorde na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, seu legado é visto como um divisor de águas, rendendo um novo adjetivo no vocabulário cinematográfico: o termo felliniano. O cineasta teve como principais colaboradores, a atriz e esposa Giulietta Masina, o ator Marcello Mastroianni, o compositor Nino Rota, o produtor Angelo Rizzoli, o roteirista Ennio Flaiano e o editor Ruggero Mastroianni. Ele, pessoalmente, nos deixou em 1993. Seu cinema singular, de melancolia mágica, jamais nos deixará. É eterno. Cento e cinco anos após seu nascimento, FEDERICO FELLINI ainda se destaca como um gigante do cinema. Este post é um tributo a um artista criativo e livre, que inventou um universo cinematográfico próprio: uma visão mágica do mundo.
 
Oito e Meio
DEZ FILMES para CONHECER FELLINI
(por ordem de preferência)
 
01
A DOCE VIDA
(La Dolce Vita, 1960)

elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée,

Yvonne Furneaux, Magali Noel, Alain Cuny,
Annibale Ninchi, Valeria Ciangottini e Laura Betti

Um dos maiores filmes do cinema. Impulsionou a carreira do cineasta italiano ao sucesso internacional - ironicamente, ao oferecer uma crítica contundente à cultura do estrelato. Um olhar sobre o vazio existencial por trás do estilo de vida sedutor dos ricos e glamorosos de Roma, acompanha um notório jornalista de celebridades (um Marcello Mastroianni sublimemente icônico) nas periferias dos holofotes. Mordaz, foi incisivo sobre a decadência da Europa contemporânea e forneceu um vislumbre premonitório de quão obcecada por fofocas e fama nossa sociedade se tornaria. Cunhou o termo paparazzo, mas seu verdadeiro mérito reside no cinismo com que disseca uma cidade.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Direção
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
David di Donatello de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo
dos Críticos de Cinema de Nova Iorque

 
02
AMARCORD
(Idem, 1974)
 
elenco: Magali Noel, Bruno Zanin, Puppella Maggio,
Armando Grancia, Ciccio Ingrassia e Maria Antonietta Beluzz

O realizador retorna à paisagem provinciana de sua infância com esta reminiscência, recriando sua cidade natal, Rimini, nos estúdios da Cinecittà e retratando seu cotidiano como um circo de rituais sociais, desejos adolescentes, fantasias masculinas e subterfúgios políticos. Esboçando uma galeria de caricaturas cômicas, evoca com carinho um mundo desaparecido, aureolado pelo brilho da memória, ao mesmo tempo em que satiriza um país embrutecido pelo fascismo. Entrelaça com maestria a cinematografia vibrante de Giuseppe Rottuno, os figurinos e cenários extravagantes de Danilo Donati e a trilha sonora nostálgica de Nino Rota. Talvez seja o filme mais pessoal do diretor.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme e Melhor Diretor do Círculo dos Critícos
de Cinema de Nova Iorque

 
03
NOITES de CABÍRIA
(Le Notti di Cabiria, 1957)

elenco: Giulietta Masina, François Périer, Dorian Gray

e Amedeo Nazzari

 
Ascensão, queda e recuperação de uma prostituta, num ambiente de rua, exploração, milagres e trapaceiros. Grande consagração popular do cineasta, apresentando uma das personagens mais inesquecíveis de todo o cinema: Cabiria (magnífica Masina), uma trabalhadora sexual irreprimível e ferozmente independente que, enquanto se move por Roma, em meio à adversidade e à tristeza, precisa confiar em seu próprio espírito indomável para se manter de pé. O filme encerrou a fase inicial do diretor, de influência neorrealista, com um final sublimemente comovente, porém esperançoso, que incorpora a mistura do amargo e do doce que define sua recorrente visão de mundo. Obra-prima.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor

 
 
04
Os BOAS VIDAS
(I Vitelloni, 1953)

elenco: Alberto Sordi, Franco Fabrizi, Franco Interlenghi,

 Leopoldo Trieste, Leonora Ruffo, Paola Borboni,
Lída Baarová e Vira Silenti

 
A segunda criação solo do diretor rendeu seu primeiro sucesso comercial: um retrato lúcido de cinco jovens mergulhados em um limbo provinciano, sonhando com aventuras e uma fuga de sua pequena cidade costeira. Baseando-se em memórias entre a nostalgia cômica de
“Amarcord” e a ressaca da cidade grande de “A Doce Vida”, cria um filmaço semiautobiográfico com personagens afiados: Fausto, o galã, forçado a se casar com uma moça que engravidou; Alberto, o filho perpétuo; Leopoldo, um escritor sedento de fama; e Moraldo, a consciência do grupo. A crônica cinematográfica captura a lassidão e o anseio de seus protagonistas com nostalgia, perspicácia humorada e compaixão.
 
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Leão de Prata no Festival de Veneza
 
05
FELLINI OITO e MEIO
(8½, 1963)

elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale,

Sandra Milo, Rossella Falk, Barbara Steele,
Madeleine Lebeau e Caterina Boratto

 
Considerado por muitos o seu melhor trabalho. Marcello Mastroianni interpreta Guido Anselmi, um cineasta cujo novo projeto está desmoronando ao seu redor, junto com sua vida. Um dos filmes mais aplaudidos pela crítica, teve um primeiro título provisório,
“A Bela Confusão”, e é exatamente isso: um sonho cintilante e um número de mágica. Códice para decifrar a obra felliniana, essa alucinação transgressora tem sido imitada desde sempre. Mastroianni substitui o próprio diretor em suas fantasias surreais sobre o bloqueio artístico, a infância que volta feroz, a cavalgada de mulheres que ele decepcionou, inseguranças, música e a certeza absoluta de que a vida é um circo.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Grande Prêmio no Festival de Moscou
Melhor Filme Estrangeiro no National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo

dos Críticos de Cinema de Nova Iorque
 
06
A ESTRADA da VIDA
 (La Strada, 1954)

elenco: Giulietta Masina, Anthony Quinn e Richard Basehart

 
Uma decadente companhia de diversões ambulante percorre as estradas da Itália. O primeiro sucesso internacional do diretor. Ponte entre seu passado neorrealista e a fantasia lírica que está por vir, repleto de símbolos amargos e referências à commedia dell'arte. Com este drama inovador, o diretor retrata uma visão pessoal e poética da vida como um carnaval agridoce. A expressiva Masina registra tanto a maravilha infantil quanto o desespero de partir o coração como Gelsomina. A obra possui a pureza e a ressonância atemporal de uma fábula e continua sendo uma das visões mais comoventes do cinema sobre a humanidade lutando para sobreviver diante das crueldades da vida.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque
Leão de Prata no Festival de Veneza

 
07
SATYRICON de FELLINI
(Fellini – Satyricon, 1968)

elenco: Martin Potter, Hiram Keller, Salvo Randone,

Magali Noel, Capucine, Alain Cuny,
Lucia Bosè e Gordon Mitchell

 
A carreira do realizador atingiu novos patamares de excentricidade e brilhantismo com esta notável, controversa e extremamente livre adaptação da sátira romana clássica de Petrônio, escrita durante o império de Nero. Uma enxurrada episódica de licenciosidade sexual, violência profana e grotesco cativante, acompanha as façanhas de dois jovens pansexuais - o belo estudioso Encólpio e seu amigo vulgar e insaciavelmente lascivo Ascilto - enquanto se movem por uma paisagem de excessos pagãos de forma livre que remete ao sexo libertário moderno. Criando um caos aparente com controle primoroso, o diretor constrói um mundo antigo impactante e estranho que parece ficção científica.
 
Melhor Filme Italiano no Festival de Veneza
 
08
A TRAPAÇA
(II Bidone, 1955)

elenco: Broderick Crawford, Richard Basehart, Giu
lietta Masina,
Franco Fabrizi e Lorella De Luca

 
Abandonando em parte os floreios poéticos das obras mais famosas do realizador, é um drama policial neorrealista sombrio, pouco conhecido, estrelado por um magistral Broderick Crawford como um dos personagens mais complexos do cânone do diretor: um vigarista profissional decadente que, tendo feito carreira explorando a ingenuidade de camponeses pobres, de repente descobre que seus caminhos tortuosos começaram a alcançá-lo. Entrelaçando magistralmente o realismo humano da história com elementos de humor, cria um retrato contundente de um homem lidando com as consequências de suas escolhas de vida, que o atinge com a força de uma profunda e fatal tragédia moral.
 
09
JULIETA dos ESPÍRITOS
(Giulietta degli spiriti, 1965)

elenco: Giulietta Masina, Sandra Milo, Mario Pisu,

Valentina Cortese, Valeska Gert, José Luis de Vilallonga,
Caterina Boratto e Sylva Koscina

 
Primeiro longa-metragem em cores do diretor. Caleidoscópio projetado na psique de uma mulher de meia-idade que atravessa uma crise mística. Baseando-se em cenas de sua vida pessoal, Giulietta Masina interpreta uma senhora refinada que se aventura no espiritualismo e cujo domínio da realidade começa a se esvair quando descobre que o marido está tendo um caso, o que a leva a uma jornada alucinatória de autodescoberta na qual memórias, sonhos e forças sobrenaturais se fundem. Com a cinematografia virtuosa de Gianni di Venanzo, o filme examina as preocupações centrais do diretor - sexo e amor, vida e morte, fantasia e realidade - da perspectiva do intimismo feminino.
 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque

 
10
ROMA de FELLINI
(Roma, 1972)

elenco: Britta Barnes, Peter Gonzales Falcon e Anna Magnani

 
Relato de viagem, memórias e espetáculo cinematográfico ultrajante da Cidade Eterna. Esta fantasia urbana entrelaça lembranças da juventude do diretor na era de Mussolini com um retrato impressionista da Roma contemporânea. Os prazeres materiais do sexo, da comida, da vida noturna e de um alucinante desfile de moda eclesiástica são permeados por vislumbres de um passado monumental: o Coliseu cercado pelo trânsito, afrescos antigos desenterrados em um túnel de metrô, uma estátua de César manchada por pombos. Com uma mistura estonteante de imediatismo documental e artifício extravagante, penetra no mito e na mística da histórica e maravilhosa capital da Itália.
 
FONTES
“Eu, Fellini” (1995)
de Charlotte Chandler
 
“Fellini. Vou Falar-te de Mim”
(1999)
de Costanzo Costantini

 
CADERNO de SONHOS
Nos anos 60, incentivado pelo analista junguiano Ernst Bernhard, FEDERICO FELLINI passou a registrar os próprios sonhos através de textos e ilustrações - atividade que manteve por cerca de 30 anos. Para isso, mantinha um caderno em sua mesa de cabeceira. Pela manhã, assim que abria os olhos, tentava reproduzir, usando canetas hidrográficas coloridas, o que chamava de “trabalho noturno”. Em 2008, as 500 páginas foram publicadas com o título de “The Book of Dreams”.
 

GALERIA de FOTOS


O CINEMA ITALIANO NESTE BLOG

 
01
ATIRE PRIMEIRO, MORRA DEPOIS: POLIZIOTTESCHI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/06/atire-primeiro-morra-depois.html
 
02
ALIDA VALLI: a BARONESA ESTRELA de CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/02/alida-valli-de-baronesa-namoradinha-da.html
 
03
O CINEMA POLÍTICO ITALIANO (1960 - 1979)
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/07/o-cinema-politico-italiano-1960-1979.html
 
04
LUCHINO VISCONTI: o CONDE CINEASTA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/fragmentos-de-um-conde-cineasta-e.html
 
05
LUISA FERIDA e OSVALDO VALENTI: PAIXÃO e CRIME
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/05/luisa-ferida-e-osvaldo-valenti-paixao-e.html
 
06
MARCELLO MASTROIANNI: a ARTE da SEDUÇÃO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2018/08/marcello-mastroianni-arte-da-seducao.html
 
07
O MELHOR do CINEMA ITALIANO: 30 FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/06/o-melhor-do-cinema-italiano-30-filmes.html
 

08
15 ATORES à ITALIANA do SÉCULO 21
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/07/15-atores-italiana-do-seculo-21.html
 
09
SANDRA MILO, a AMANTE de FELLINI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/06/sandra-milo-amante-de-fellini.html
 
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TELEFONE BIANCHI – o CINEMA FASCISTA ITALIANO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/07/telefoni-bianchi-o-cinema-fascista.html
Satyricon de Fellini