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julho 07, 2011

****************** O OLHAR NEO-REALISTA




O cinema NEO-REALISTA italiano caracterizou-se pelo uso de elementos da realidade numa peça de ficção, aproximando-se até certo ponto das características do documentário. Ao contrário do cinema tradicional, buscou representar a realidade social e econômica de uma época, com pouco recursos, linguagem simples, temáticas contestadoras, tomadas ao ar livre, planos seqüência, participação de atores não-profissionais e o realismo em primeiro lugar, num retrato do dia-a-dia de proletários, camponeses e da pequena burguesia. Esse movimento cultural surgiu na Itália, no final da Segunda Guerra Mundial e seus maiores realizadores foram Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, Luchino Visconti, Pietro Germi, Giuseppe De Santis, Alberto Lattuada, Renato Castellani, Luciano Emmer, Luigi Zampa e Aldo Vergano. Todos influenciados pelos filmes do Realismo Poético Francês. Além dos citados, cabe destacar o roteirista Cesare Zavattini. Foi ele quem adaptou e roteirizou vários dos filmes NEO-REALISTAS e tantos outros clássicos posteriores. Segundo o crítico de cinema Andre Bazin, o sonho de Zavattini era fazer um filme sobre a vida de um homem onde nada acontecesse.


A renovação dessa corrente cinematográfica ocorre na temática, na linguagem e na relação com o público, numa experiência que teve duração relativamente curta, mas causou enorme impacto sobre as demais cinematografias e se expressou de diferentes formas em outros países, influenciando cineastas e movimentos cinematográficos do mundo inteiro em diferentes épocas, inclusive o Cinema Novo, no Brasil. No entanto, nenhum dos magistrais filmes desse período agradaram ao público italiano da época, que ansiava por esquecer as agruras da guerra. 

Na década de 50, o cenário que se avistava era outro, de crescimento econômico, com a televisão ganhando mais espaço. Assim, o NEO-REALISMO encontrou rapidamente o esgotamento enquanto movimento cinematográfico, sendo superado por comédias leves, mais ao gosto do público e de maior apelo comercial. Abbas Kiarostami, Amos Gitai, Mohsen Makhmalbaf e Siddiq Barmak, são alguns dos cineastas atuais, consagrados mundialmente, que adotam características NEO-REALISTAS em seus filmes. Finalizo lembrando 10 filmes representativos do famoso movimento:

anna magnani em roma, cidade aberta
ROMA, CIDADE ABERTA  
(Roma, Città Aperta, 1945)
direção de Roberto Rossellini
elenco: Aldo Fabrizi, Anna Magnani e Marcello Pagliero

A situação de opressão, medo e miséria a que ficou sujeita a população italiana durante a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Começou a ser rodado ainda durante a ocupação, com tomadas das tropas alemães sendo feitas às escondidas por Rossellini e seus ajudantes. A cena em que a personagem de Anna Magnani é morta por soldados, estes são interpretados por soldados alemães presos após a guerra.

Grande Prêmio do Festival de Cannes
Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz 
do National Board of Review
 Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos 
de Cinema de Nova York

LADRÕES de BICICLETA  
(Ladri di Biciclette, 1948)
direção de Vittorio De Sica
elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola e Lianella Carelli

A comovente história do pai e seu filho em busca de sua bicicleta roubada, da qual depende a manutenção do emprego recém obtido e a manutenção da família. Ele pede ajuda à polícia e à igreja, e não consegue reaver seu objeto de trabalho. Obra-prima.

Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme e Melhor Diretor do National Board of Review 
 Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
 de Cinema de Nova York

alberto sordi em sob o sol de roma
SOB o SOL de ROMA  
(Sotto Il Sole di Roma, 1948)
direção de Renato Castellani
elenco: Oscar Blando, Liliana Mancini e Alberto Sordi

Adolescente, filho de um vigia, vaga por uma Roma ocupada pelos nazistas.

A TERRA TREME  
(La Terra Trema: Episodio del Mare, 1948)
direção de Luchino Visconti

O fracasso de rebelião de pescadores contra mercadores exploradores.

silvana mangano em arroz amargo
ARROZ AMARGO  
(Riso Amaro, 1949)
direção de Giuseppe De Santis
elenco: Silvana Mangano, Vittorio Gassman e Raf Vallone

A exploração de mulheres que trabalham em arrozais e recebem baixos salários e péssimas acomodações. Revelou a estonteante Silvana Mangano.

raf vallone em o caminho da esperança
O CAMINHO da ESPERANÇA  
(Il Cammino della Speranza, 1950)
direção de Pietro Germi
elenco: Raf Vallone, Elena Varzi e Saro Urzi

Numa pequena cidade mineira siciliana, trabalhadores da mina refugiam-se no seu local de trabalho em protesto contra a decisão do patrão em encerrar o local.

Urso de Prata de Melhor Filme do Festival de Berlim

emilio cigoli em domingo de agosto
DOMINGO de AGOSTO  
(Domenica D’Agosto, 1950)
direção de Luciano Emmer
elenco: Anna Baldini, Vera Carmi, Emilio Cigoli, Franco Interlenghi e Marcello Mastroianni

Uma multidão variada, de todas as classes sociais, por meio de vários meios de transporte, deixa Roma em direção à praia de Ostia, para passar o dia inteiro fora.

O CAPOTE  
(Il Cappotto, 1952)
direção de Alberto Lattuada
elenco: Renato Rascel e Yvonne Sanson

A história de um pobre funcionário da prefeitura cujo único desejo é possuir um casaco novo. Baseado no famoso conto russo de Gogol.

carlo battiste em “umberto d
UMBERTO D  
(Umberto D,1952)
direção de Vittorio De Sica
elenco: Carlo Battiste e Maria Pia Casilio

Drama sobre a solidão, o egoísmo e a miséria humana. Um solitário aposentado tem apenas um pouco de afeto da criada da pensão onde mora, e de onde será despejado.

Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos 
de Cinema de Nova York

gina lollobrigida em a romana
A ROMANA  
(La Romana, 1954) 
direção de Luigi Zampa
elenco: Gina Lollobrigida, Daniel Gélin e Franco Fabrizi

O casamento e a hipocrisia são os temas desta descrição da perda da inocência de uma jovem de 18 anos. Romance de Alberto Moravia adaptado por Pier Paolo Pasolini.

junho 16, 2011

********** SANDRA MILO, a AMANTE de FELLINI

sandra milo

 
 
Considerado irreverente, mal-humorado e tirano, mas, acima de tudo, um monstro sagrado do cinema, o cineasta Federico Fellini  (1920 - 1993. Rimini / Itália) conviveu conjugalmente 50 anos com Giulietta Masina, carismática atriz que participou em vários de seus filmes. Entretanto, durante 17 anos, relacionou-se amorosamente com SANDRA MILO (1933. Tunes / Tunísia), a fútil e fogosa Carla de “Oito e Meio / 8 1/2” (1963). Coadjuvante de luxo de outra obra imortal do genial italiano, “Julieta dos Espíritos / Giulietta Degli Spiriti” (1965), ela publicou em 1982 o romance “Caro Federico”, onde a personagem principal, Selana, tem  um envolvimento erótico com o cineasta. Apesar de negar a história no lançamento, o livro foi motivo de escândalo e Fellini recusou-se a tocar no assunto. Vinte e sete anos depois, em 2009, após as mortes de Fellini e Masina, ela surpreendeu a todos ao revelar seu duradouro romance com o diretor, que logo depois seria confirmado por várias pessoas, porque de novidade tinha muito pouco entre os mais íntimos do casal infiel. De qualquer maneira, o encontro com Fellini consolidou SANDRA MILO como atriz - Sandrocchia (como era chamada por ele) interpretou desinibidas e sedutoras mulheres fatais, que incorporavam o imaginário erótico do diretor.

Ao casar com Giullieta em 1943, Federico Fellini firmou uma das mais vibrantes e bem sucedidas parcerias do cinema europeu – culminando em inesquecíveis sucessos. Porém, a vida pessoal de ambos, marcada por um único filho falecido aos 2 meses de idade, é apontada por biógrafos como triste e fulgurante – a síntese da existência de um mestre que equilibrou sua obra entre a magia e a tragédia. Ele e SANDRA MILO foram apresentados pelo roteirista Ennio Flaiano. “Fiquei impressionada com sua voz sutil, suave, quase feminina, uma voz muito pequena para um homem tão grande, de mais de 100 quilos; para um cérebro tão grande. Fiquei deslumbrada e encantada ao mesmo tempo”, recordou a atriz numa entrevista recente. Meses depois, a produtora Rizzoli convidou-a para um teste. A produção seria “Oito 1/2” e a personagem, Carla, o affair secreto de Guido (Marcello Mastroianni), o alter-ego do realizador.

Desiludida com o fracasso de “Vanina Vanini / Idem” (1961), de Roberto Rossellini, ela estava decidida a deixar o cinema, rejeitando o convite sem pensar duas vezes, mas Fellini apareceu de surpresa em sua casa com o fotógrafo Gianni di Venanzo e o figurinista Piero Gherardi. “O que está acontecendo?”, ela perguntou. “Nada. Viemos fazer o seu teste”, respondeu. Aprovada, durante as filmagens se tornaram amantes. Ela passou a amá-lo loucamente, de uma maneira alucinada. A paixão intensa transformou o que seria apenas um caso descartável em um amor duradouro. Mas passaram por situações vexatórias. Muito amiga de Giulietta Masina, SANDRA MILO foi proibida de frequentar a casa dos Fellini depois que o caso tornou-se notório. A relação cheia de altos e baixos tinha hotéis, motéis e casas fechadas do diretor como alcovas, numa afinidade clandestina. A atriz atuou em muitos filmes, casou-se, gerou três filhos e deixou o cinema, sempre encontrando Federico Fellini sigilosamente.

sandra com fellini
Nos anos 70, o diretor a convidou para interpretar a sensual Gradisca de “Amarcord / idem” (1973), contudo o ciumento marido dela impediu a nova parceria, sendo substituída por Magali Noel (orientada a imitar o seu andar e trejeitos). “Eu queria tanto dormir ao menos uma noite com ele, para despertar pela manhã e encontrá-lo ao lado, sentir o seu cheiro, o cheiro do sono, do despertar, o cheiro do amor”, lamentou a atriz. Um dia tudo se acabou. Depois de enviar-lhe cem rosas e uma carta romântica e melancólica, Fellini a procurou, pedindo-a em casamento. Durante muitos anos ela havia esperado por aquele momento, certa de que ele terminaria por deixar Giulietta, mas já era tarde demais, estava casada, tinha filhos pequenos e uma vida organizada. Recusou o pedido, mesmo ainda o amando, e nunca mais voltaram a se encontrar como amantes. Ela estreou no cinema ao lado de Alberto Sordi em “O Solteirão / Lo Scapolo” (1955), de Antonio Pietrangeli. Reconhecida por sua voz exuberante, corpo vistoso e ar ingênuo, tornou-se uma sensação participando de comédias. O sucesso definitivo veio em 1959, graças ao produtor Moris Ergas, que mais tarde se casaria com ela: trata-se de De Crápula a Herói / General Della Rovere (1959), no qual interpreta uma prostituta, dirigida por Roberto Rossellini. Fez outro papel semelhante em “Adua e suas Companheiras / Adua e Le Compagne” (1960), abrindo caminho para uma bem sucedida carreira.

sandra milo
O amor tempestuoso com Fellini, o caA trajetória de SANDRA MILO sofreu uma crise abrupta após as duras críticas que recebeu por “Vanina Vanini, adaptado de um conto de Stendhal e novamente assinado por Rossellini. Sua atuação foi considerada excessiva. O encontro crucial com o universo onírico de Federico Fellini mudou o destino de sua vida. Entre outros, também foi dirigida por Luigi Zampa, Dino Risi, Steno, Jacques Becker, Claude Autant-Lara, Claude Sautet, Mauro Bolognini, Pupi Avat e Gabriele Salvatores. Em “A Visita / La Visita” (1963), de Antonio Pietrangeli, criou um personagem, Pina, de impacto considerável.  O casamento com Ergas e uma união posterior com Ottavio De Lollis, fez com que abandonasse o cinema, só voltando a filmar no final dos anos 70. De personalidade vulgar, loura e peituda, Sandrocchia se reinventou como apresentadora de programas de telê. Sua vida privada nunca deixou de ser escancarada e a divulgação do romance tórrido com Federico Fellini foi apenas mais um escarcéu consentido.

sandra em julieta dos espíritos