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fevereiro 19, 2017

*************** MARÍLIA – TALENTO a TODA PROVA




 
A primeira vez que vi de perto MARÍLIA PÊRA (1943 - 2015. Rio de Janeiro / RJ) ela se preparava para uma cena do filme “Tieta do Agreste”. Seu olhar mirava um tanque metálico cheio d’água no outro extremo da praça, e depois se perdeu no horizonte sem árvores. Com o roteiro entre os dedos, murmurava falas. Nos arredores, Zezé Motta, curiosos e a voz de Carlos Diegues pedindo atenção. A atriz de pouco mais de 50 anos teve a difícil missão de encontrar um caminho próprio para a seca e algo cômica Perpétua, figura do universo amadiano, vivida na TV com talento e popularidade por Joana Fomm. Havia visto a atriz anteriormente em “Elas por Elas” (1989), musical em que ela se desdobra em várias cantoras brasileiras; e nos bastidores de “Mademoiselle Chanel” (2004), trabalhando na produção do espetáculo em Salvador.

Caminhando entre técnicos e figurantes, insistindo para entrevistar Sonia Braga, eu passei os olhos por aquela expressividade magra, sentada, ausente, os dedos apertando o manuscrito. “Uma mulher inesquecível. Ela é uma sacerdotisa”, escrevi no bloco de notas. “Tieta” foi arrasado pela crítica, mas ela ganhou prêmios no Festival de Cinema de Cuba e na Associação Paulista de Críticos de Arte. O ano era 1995, e essa mulher magnética, famosa no teatro e na televisão, já tinha currículo dos bons no cinema: “O Rei da Noite”, “Bar Esperança, o Último que Fecha” (Hugo Carvana, 1982), “Anjos da Noite”, “Dias Melhores Virão” etc. Nos anos seguintes, atuaria em bons filmes: “Jenipapo”, “Central do Brasil”, “O Viajante” (Paulo César Saracceni, 1998) etc. Sempre fulgurante.

Passados 22 anos, MARÍLIA PÊRA não está entre nós. Morreu em dezembro de 2015, vítima de câncer no pulmão. Deixou um legado de personagens inesquecíveis, como a prostituta Suely em “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, que simboliza muito bem o talento do cinema nacional. Uma figura de ficção que fez história. A atriz foi comparada à Anna Magnani. Levou prêmios internacionais, entre eles o de Melhor Atriz da Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos Estados Unidos, chegando pertinho do míope tio Oscar. Em “O Viajante”, versão do romance inacabado de Lúcio Cardoso – notável escritor injustamente esquecido -, ela faz uma viúva de cidade do interior mineiro, apaixonada por um desconhecido ambíguo.

Ela é uma das maiores atrizes do Brasil, gigantesca no teatro, cinema e tevê. Antes dela, somente Cacilda Becker apropriou-se de tal comoção frente ao talento. Resplandecente, o universo artístico da carioca MARÍLIA PÊRA, filha de uma tradicional família de atores que trabalhava na Companhia Henriette Morineau, começou na infância, no palco. Entrou em cena pela primeira vez aos quatro anos de idade, em “Medéia”, a tragédia de Eurípedes. Trabalhou muito tempo como bailarina, fazendo parte do balé fixo da TV Tupi do Rio, dançando em programas como “Grande Teatro Tupi”, “Teatrinho Trol”, “Espetáculos Tonelux” e em musicais como “De Cabral a JK” (1959). A primeira telenovela, “Rosinha do Sobrado”, na Globo, em 1965 e, a seguir, “A Moreninha”.

francisco cuoco e marília
em “o cafona”
Anos 1980, época das densas minisséries “Quem Ama não Mata” (1982), de Euclides Marinho, direção de Daniel Filho, e “O Primo Basílio” (1988), lembrando Eça de Queiróz. Na década anterior, carimbou sua presença em clássicos da história da tevê brasileira: “Beto Rockfeller” (1968), “Super Plá” (1969), O Cafona” (1971), “Bandeira 2” (1971) e “Uma Rosa com Amor” (1972). Tempos de Joana Martini, Shirley Sexy, Noeli, Serafina Rosa. Voltou às telenovelas em 1987 na engraçada “Brega e Chique”. Ninguém resistiu ao escracho, fez muito sucesso. Anos depois, diria que foi a telenovela que mais gostou de fazer. Voltaria a interpretar Rafaela no remake “Ti-Ti-Ti” (2011), escrito por Maria Adelaide Amaral. Na minissérie “JK” (2006) fez a ex-primeira dama do Brasil Sarah Kubitschek.

No regime militar, causou polêmica com espetáculos rebeldes do naipe de “Roda Viva” (1968), sendo espancada por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que invadiram o teatro onde a peça era encenada. Foi presa duas vezes e obrigada a correr nua por um corredor polonês, visto estar envolvida com artistas comunistas. Policiais invadiram sua residência. Conquistou a crítica e o público definitivamente com “Fala Baixo Senão Eu Grito” (1969). A abominável professora de “Apareceu a Margarida” (1973), de Roberto Athayde, rendeu o Prêmio Molière. Repetiu esse espetáculo em 1978, 1994 e 1995. 

Em 1987 encarnou Dalva de Oliveira em “A Estrela Dalva”; em 1996 foi a mitológica Maria Callas em “Master Class, dirigida por Jorge Takla, e em 1998, com direção de Moacyr Góes, a nelsonrodriguiana prostituta Geni de “Toda Nudez Será Castigada”. Nos palcos interpretou Carmen Miranda em diversas ocasiões: “O Teu Cabelo não Nega” (1963), “A Pequena Notável” (1966), “A Tribute to Carmen Miranda” (1975), em Nova York, “A Pêra da Carmen” (1986 e 1995) e “Marília Pêra canta Carmen Miranda” (2005).

A expressividade mapeia o corpo enxuto e o rosto admirável de MARÍLIA PÊRA, tal qual uma Kay Kendall, uma Rosalind Russell, uma Arletty ou uma Marisa Paredes. Em “Brava Gente: A Cabine” (2002) sensibiliza Antonio Fagundes com um largo sorriso enamorado. Nessa história de amor, nada parece inverossímil ou excessivo, afinal a atriz desenha sua interpretação em gestos cúmplices. No chato “Dias Melhores Virão” rouba a cena como a dubladora Marialva. O mesmo aconteceu na enfadonha “Meu Bem Querer” (1998). A vilã Custódia supera a telenovela, graças a habilidade da atriz. A Pupi de “O Rei da Noite” é outro momento de qualidade. Ela e Paulo José são a alma desta comédia. A atriz se conecta muito bem com Paulo José; e também com Marco Nanini. Há química entre eles. Foi maravilhoso vê-los em cena tantas vezes.

Em 2013, fez “Pé na Cova”, interpretando Darlene, uma suburbana maquiadora da funerária do ex-esposo Ruço (Miguel Falabella). Antes do seriado, a amizade com Miguel Falabella já havia rendido papéis no seriado “A Vida Alheia” (2010), no filme “Polaroides Urbanos” (2008), onde interpreta duas irmãs gêmeas, e na telenovela “Aquele Beijo” (2011), todos escritos por ele. No carnaval de 2015, ela foi homenageada pela Escola de Samba Mocidade Alegre, de São Paulo. Em agosto do mesmo ano, foi a grande homenageada do Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu o Troféu Oscarito. MARÍLIA PÊRA casou-se pela primeira vez aos dezessete anos, com o músico Paulo Graça Mello, morto num acidente de carro em 1969. Aos dezoito, foi mãe de Ricardo. Mais tarde, foi casada com o ator Paulo Villaça, seu parceiro em “Fala Baixo Senão Eu Grito”, e com Nelson Motta, com quem teve as filhas Esperança e Nina. Era casada, desde 1998, com o economista carioca Bruno Faria. 

Ela atuou em 26 filmes, desde a estreia como a ingênua Rosinha de “O Homem que Comprou o Mundo” (1968), de Eduardo Coutinho. Revelou-se uma presença soberana, uma das artistas mais completas do Brasil: além de interpretar, era cantora, bailarina, diretora, produtora e coreógrafa. Trabalhou em mais de 50 peças e cerca de 40 novelas, minisséries e programas de televisão. Entre os trabalhos favoritos na TV, no entanto, MARÍLIA PÊRA escolhia as minisséries: “O Primo Basílio” (1988), em que interpretou a vilã Juliana, e “Os Maias” (2001). Morreu aos 72 anos de idade.

FILMOGRAFIA SELECIONADA
(por ordem de preferência)

01
PIXOTE: a LEI do MAIS FRACO
(1981)

direção de Hector Babenco
  elenco: Fernando Ramos da Silva, Jardel Filho, 
Rubens de Falco, Elke Maravilha, 
Tony Tornado e Beatriz Segall

02
ANJOS da NOITE
(1987)
direção de Wilson Barros
  elenco: Zezé Motta, Antônio Fagundes, Marco Nanini,
Chiquinho Brandão e Guilherme Leme

03
CENTRAL do BRASIL
(1998)

direção de Walter Salles
  elenco: Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, 
Othon Bastos, Otávio Augusto 
e Matheus Nachtergaele

04
MIXED BLOOD
(1984)

direção de Paul Morrissey
  elenco: Richard Ulacia e Linda Kerridge

05
AMÉLIA
(2001)
direção de Ana Carolina
  elenco: Béatrice Agenin, Camila Amado,
Marcélia Cartaxo e Cristina Pereira

06
O REI da NOITE
(1975)
direção de Hector Babenco
  elenco: Paulo José, Vick Militello, Cristina Pereira
e Yara Amaral

07
O VIAJANTE
(1998)
direção de Paulo César Saraceni
  elenco: Jairo Mattos, Leandra Leal 
e Paulo César Pereio

08
JENIPAPO
(1995)
direção de Monique Gardemberg
  elenco: Otávio Augusto, Patrick Bauchau, Júlia Lemmertz
e Ana Beatriz Nogueira

09
DIAS MELHORES VIRÃO
(1990)

direção de Carlos Diegues
  elenco: Paulo José, Zezé Motta, José Wilker
e Paulo César Pereio

10
TIETA do AGRESTE
(1996)

direção de Carlos Diegues
  elenco: Sonia Braga, Chico Anysio, Cláudia Abreu,
Zezé Motta e Jece Valadão

GALERIA de FOTOS


 
 
 
 
 

janeiro 29, 2017

************************ JORGE AMADO no CINEMA




  Ilustrações:
CARYBÉ
(1911 - 1997. Lanús / Argentina)

O cheiro de cravo,
a cor de canela,
eu vim de longe
vim ver Gabriela.

modinha da zona do cacau


Um dos escritores mais importantes da literatura brasileira e um dos mais traduzidos para outros idiomas, pai de Gabriela e de Tieta do Agreste, JORGE AMADO (1912 - 2001. Itabuna / Bahia) nasceu na fazenda Auricídia, no sul da Bahia. Quando tinha apenas um ano, sua família se mudou para Ilhéus devido à uma epidemia de varíola. Foi lá que o menino passou a infância e de onde tirou inspiração para vários de seus futuros romances. Publicou 45 livros. Imortalizado por clássicos como “Terras do Sem-Fim” (1943) e “Gabriela, Cravo e Canela” (1958). Suas histórias são sobre o povo baiano, sua fé e sensualidade; a força das matas, os sabores da culinária, coronéis e jagunços, malandros e prostitutas, trabalhadores rurais e pescadores. Um acervo literário em 49 idiomas que mostra uma Bahia culturalmente rica e lúdica.

zélia gattai e jorge amado
Figura frequente no cinema e na televisão. Conversei com ele algumas vezes, entrevistei-o para tevê e jornal, fiz crônicas sobre sua literatura libidinosa. JORGE AMADO era afetuoso por natureza, respondendo todas as cartas que recebia de leitores, muitos deles jovens escritores pedindo conselhos. Amigo de Federico Fellini, ao lado de Nelson Rodrigues é o escritor nacional com maior número de adaptações para o cinema. Mas não teve a sorte do alagoano Graciliano Ramos, que conta com algumas de suas obras adaptadas entre os bons filmes do nosso cinema – “Vidas Secas” (1962), “São Bernardo” (1971) e “Memórias do Cárcere” (1984).

jorge amado e sophia loren
A obra do autor de “Tocaia Grande: A Face Obscura” (1984) serviu como matéria-prima para 15 longas-metragens, e de todos eles, talvez o melhor seja o divertido e erótico “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976).  As demais adaptações são ruins ou irregulares. Procurado por produtores e lido mundialmente, JORGE AMADO foi até jurado do Festival de Cannes. Sua prosa vem sendo levada para a telona desde 1948, quando Anselmo Duarte e Maria Fernanda estrelaram “Terra Violenta”. André Setaro, crítico de cinema, explica que o interesse pela sua obra se deve ao fato dele transpor a linguagem do povo nos seus romances, e também pelo cômico e sensual nas narrativas.

jorge amado e glauber rocha
Em 1979, o polêmico Glauber Rocha dirigiu “Jorge Amado no Cinema”, documentário de 36 minutos. Pouco conhecido, fala sobre a obra do escritor baiano, sua carreira literária e as adaptações cinematográficas de seus romances, especialmente “Tenda dos Milagres” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Entrevista JORGE AMADO em sua casa no Rio de Janeiro. Na intimidade, ele apresenta sua família. Amigos e parentes opinam sobre filmes baseados em suas obras. Cineastas e atores falam sobre “Tenda dos Milagres. Depois dos recentes “Quincas Berro D’Água”, “Capitães da Areia” e “O Duelo”, o triângulo vivido na década de 1970 por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça volta ainda este ano numa refilmagem de “Dona Flor e seus Dois Maridos”.

FILMES INSPIRADOS em JORGE AMADO

TERRA VIOLENTA
(1948)

direção de Edmond Bernoudy e Paulo Machado
adaptação de TERRAS do SEM FIM
elenco: Anselmo Duarte, Maria Fernanda, Grande Otelo, Sady Cabral, Ziembinski, 
Ruth de Souza e Mário Lago

Esquecido, iniciou o namoro do cinema com Jorge Amado. Produzido pela Atlântida Cinematográfica, resultou em fiasco lamentável. Tudo por causa de norte-americano (Bernoudy) que chegou ao Brasil com a fama de ter sido assistente de gênios em Hollywood, mas na verdade nada entendia de cinema. Faz parte da filmografia de um dos maiores galãs da história do cinema brasileiro, Anselmo Duarte. No elenco excelente, no auge de sua beleza, Maria Fernanda, filha da poeta Cecília Meireles.

VENDAVAL MARAVILHOSO
(1949)

direção de Leitão de Barros
adaptação do livro ABC de CASTRO ALVES
elenco: Paulo Maurício, Amália Rodrigues e Barreto Poeira

História do poeta Castro Alves, desde o nascimento em 1847 a passagem pelo curso de Direito, e a acesa defesa poética pelos direitos dos escravos. Aos dezoito anos conhece a atriz Eugenia Câmara e se apaixona. O filme reflete as dificuldades da produção, as mutilações do argumento proibido inicialmente, o desencontro do resultado. Depois dele, o cineasta Leitão de Barros não regressaria nunca mais ao cinema de ficção.

SEARA VERMELHA
(1963)

direção de Alberto D’Avessa
adaptação do romance homônimo
elenco: Margarida Cardoso, Marilda Alves, Sady Cabral, Mauro Mendonça, 
Nelson Xavier e Jurema Penna

A realidade socioeconômica dos flagelados da seca que emigram para o sul do país. O diretor italiano D’Aversa transmite o clima de sofrimento e miséria sem resvalar para o pieguismo. Excelentes desempenhos do elenco.

CAPITÃES da AREIA
(The Sandpit Generals, 1971)

direção de Hall Bartlett
adaptação do romance homônimo
elenco: Kent Lane, Tisha Sterling, Eliana Pittman, John Rubinstein e Marisa Urban

 Em participação especial, Dorival Caymmi. A vida dos menores abandonados “Capitães da Areia”, como eram conhecidos na cidade de Salvador, nos anos 1930. Por ser obra estrangeira e sem sucesso, geralmente não é lembrada quando se fala no livro. Premiada no Festival de Moscou, chegou ao Brasil nas madrugadas televisivas, rebatizada de “Dora”. O sexto romance de Jorge Amado resultou, também, em minissérie de tevê, dirigida por Walter Lima Jr, e em várias montagens teatrais. 

DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
(1976)

direção de Bruno Barreto
adaptação do romance homônimo
elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça, Nelson Xavier e Nelson Dantas 

O segundo maior sucesso da história do cinema brasileiro. Mais de 10 milhões de telespectadores. Atrás apenas de “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro” (2010), de José Padilha. A graciosa e sensual Sônia Braga, no auge da forma, interpreta com carisma a professora de culinária Dona Flor. José Wilker, hilário, como o fogoso ex-marido que volta dos mortos para apimentar sua vida, e Mauro Mendonça no papel do Dr. Teodoro, o farmacêutico que se casa com a viúva. Bruno Barreto assumiu a direção, aos 21 anos, depois que Glauber Rocha não pôde dirigi-lo. Para surpresa geral, realizou uma comédia atraente, leve e divertida que encantou o Brasil e o estrangeiro. As apimentadas cenas de sexo e nudez foram muito faladas na época do lançamento.

Os PASTORES da NOITE (OTÁLIA da BAHIA)
(1975)

direção de Marcel Camus
adaptação do romance homônimo
elenco: Grande Otelo, Antonio Pitanga, Zeni Pereira, Jofre Soares e Mira Fonseca

O francês Camus ganhou a Palma de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “Orfeu Negro” (1959), baseado no musical de Vinicius de Moraes. Depois de apresentar o Brasil para o mundo com essa fábula, voltou a mirar suas câmeras para o nosso país através do universo de Jorge Amado. O cineasta partiu do segundo dos três episódios de “Os Pastores da Noite” para escrever o roteiro do filme. Superficial e confuso, conta como Otália transforma a vida de vários homens. A trilha sonora de Antonio Carlos e Jocafi talvez tenha sido até mais famosa do que o próprio longa-metragem. Em 2002, a Globo apresentou nova versão de “Os Pastores da Noite”, em quatro episódios.

TENDA dos MILAGRES
(1976)

direção de Nelson Pereira dos Santos
adaptação do romance homônimo
elenco: Jards Macalé, Anecy Rocha, Hugo Carvana, Nildo Parente e Jofre Soares

Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival de Brasília. Nelson Pereira dos Santos colocou muito de sua visão pessoal. Na história, um intelectual norte-americano em passagem por Salvador resgata a figura de Pedro Arcanjo, que no início do século contestou o racismo, defendeu a miscigenação e documentou a cultura africana. Sexualidade, misticismo e até antropologia estão no caldeirão, que o cineasta encheu com doses generosas de loucura carnavalesca. Desigual, conta com participações especiais de Mãe Menininha do Gantois, Carybé, Mestre Pastinha e Juarez Paraíso.

MEU ADORÁVEL FANTASMA
(Kiss me Goodbye, 1982)

direção de Robert Mulligan
adaptação de DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
elenco: Sally Field, James Caan, Jeff Bridges, Paul Dooley, Claire Trevor 
e Mildred Natwick

O filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” fez tanto sucesso que foi refilmado nos EUA como comédia romântica. Após três anos da morte do marido, uma viúva conhece outro homem, um egiptólogo do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, e se apaixona. Mas, um dia antes de seu casamento, o fantasma do primeiro marido vem fazer uma surpresa. Apesar de boas intenções e elenco famoso, não deu lucro.

GABRIELA
(1983)

direção de Bruno Barreto
adaptação do romance GABRIELA, CRAVO e CANELA
elenco: Sônia Braga, Marcello Mastroianni, Paulo Goulart, Nelson Xavier, 
Jofre Soares, Nicole Puzzi e Miriam Pires

Produção internacional que se tornou uma grande decepção. Segundo filme de Bruno Barreto baseado na obra do escritor, traz também Sonia Braga outra vez, agora reprisando o papel que fez na televisão na telenovela de 1975 – com “Tieta do Agreste”, ela reafirmaria seu posto como musa da obra de Jorge Amado. Parte do encanto da história está na relação apimentada entre a protagonista e seu marido, o turco Nacib, vivido por Marcelo Mastroianni dublado em português. A direção é confusa e as atuações caricatas. A versão da Globo, dirigida por Walter Avancini, é superior. O mesmo não pode ser dito sobre a versão mais recente, com Juliana Paes.

JUBIABÁ
(1987)

direção de Nelson Pereira dos Santos
adaptação do romance homônimo
elenco: Charles Baiano, Françoise Goussard, Raymond Pellegrin, Zezé Motta, 
Betty Faria, Ruth de Souza, Jofre Soares e Grande Otelo

Os franceses do elenco estão deslocados, principalmente a protagonista Françoise Goussard. Não transmite autenticidade na luta do negro Baldo que se apaixona por loura filha de comendador, vira malandro de beira de cais e boxeador imbatível.

TIETA do AGRESTE
(1996)

direção de Cacá Diegues
adaptação do romance homônimo
elenco: Sônia Braga, Marília Pera, Cláudia Abreu, Chico Anysio, Patrícia França, 
Zezé Motta e Jece Valadão

Estive nas filmagens, no povoado de Picado, no município de Conceição do Jacuípe, entrevistando Sônia Braga. Jorge Amado aparece em rápida participação na primeira cena. Amigos de muitos anos, Sônia convidou Cacá para dirigi-la. Faz uma prostituta bem sucedida que retorna a terra natal, a pequena Santana do Agreste, após 25 anos de ausência. Sua volta causa apreensão, uma vez que saiu escorraçada pelo pai, movido pelas intrigas da irmã mais velha. A chegada de Tieta, rica e poderosa, aguça a ambição não só dos familiares, mas de toda cidade. Inevitavelmente comparado à telenovela de sucesso, protagonizada por Betty Faria e Joana Fomm, não conquistou o público. Na década de 80, a diretora italiana Lina Wertmüller foi quem primeiro adquiriu os direitos para o cinema de “Tieta do Agreste”. Amiga de Jorge Amado, Lina convidou Sophia Loren para estrelar o filme e Cláudia Ohana para o papel da protagonista jovem. O projeto terminou misteriosamente abandonado. Curiosamente, Cláudia retomaria a personagem - Tieta jovem - alguns anos mais tarde, na telenovela global.

QUINCAS BERRO D’ÁGUA
(2010)

direção de Sérgio Machado
adaptação do livro A MORTE e a MORTE de QUINCAS BERRO D´ÀGUA
elenco: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, 
Frank Menezes e Irandhir Santos

Uma das obras mais celebradas de Jorge Amado. Repleta de realismo mágico, conta a saga impagável de um boêmio que não abandona a farra nem depois de morto, revelando com humor o choque entre classes diferentes que de repente são obrigadas a conviverem em um velório. Comédia simática que traz o extraordinário Paulo José como o morto Quincas, outrora membro da alta sociedade da Salvador, que troca tudo pela boemia. Como despedida, é tirado do leito de morte pelos fiéis companheiros de bebedeira e levado nos braços para uma última farra. O diretor criou novas situações e personagens, como a cafetina Manuela (Marieta Severo), e investiu mais nas ruas de Salvador, contrariando o livro que se concentra no local onde ocorre o velório de Quincas.

CAPITÃES da AREIA
(2011)

direção de Cecília Amado
adaptação do romance homônimo
elenco: Jean Luís Souza de Amorim, Ana Graciela Conceição da Silva, 
Romário Santos de Assis e Israel Vinícius Gouvêa de Souza

Inferior ao livro, sendo, apenas, pálido reflexo deste. Mas retrata com autenticidade a vida de meninos de rua de Salvador. Dirigido pela neta de Jorge Amado, Cecília, que leu a obra pela primeira vez aos 14 anos, levou milhares de brasileiros aos cinemas. Atenção para a liberdade e inquietação de Pedro Bala, o herói da história.

O DUELO
(2015)

direção de Marcos Jorge
adaptação do romance Os VELHOS MARINHEIROS
elenco: Joaquim de Almeida, Cláudia Raia, José Wilker, Patrícia Pillar, 
Marcio Garcia e Milton Gonçalves

O romance se passa no início do século XX, mas o filme se adianta em algumas décadas. Com cenários grandiosos e numerosos efeitos especiais, apresenta o comandante Vasco Moscoso de Aragão e sua agitada chegada em uma cidadezinha balneária, a vila de Periperi, situada nas proximidades de um grande município portuário. Maduro, este pitoresco forasteiro vem para ficar, buscando repouso depois de uma longa vida de aventuras por todos os mares do globo. Ele conquista a todos com as histórias de suas façanhas nos quatro cantos do mundo. O filme discute o tema da construção da verdade e do mito, avançando e recuando no tempo.

DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
(2017)

direção de Pedro Vasconcelos
adaptação do romance homônimo
elenco: Juliana Paes, Marcelo Faria, Leandro Hassum, Nívea Maria, Fabio Lago, Cassiano Carneiro e Duda Ribeiro.

O clássico de Jorge Amado mais uma vez nas telas. Juliana interpreta mais um personagem do escritor baiano, a primeira foi Gabriela. Marcelo Faria vive Vadinho, que o ator interpretou durante anos no teatro. As filmagens duraram cinco semanas e tiveram locações em Salvador e no Rio de Janeiro.