Mostrando postagens com marcador Ward Bond. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ward Bond. Mostrar todas as postagens

agosto 15, 2025

************** JOHN WAYNE, um HERÓI de CINEMA

 

 

Tenho orgulho do meu trabalho,
a ponto de ser o primeiro a chegar
ao set de filmagem. Não sofro
com críticas ruins, o público gosta
dos meus filmes e isso é tudo
o que importa.
 
Sou um patriota honesto,
um conservador de direita.
JOHN WAYNE
 
Altura: 1,93 m
Cabelos: castanho-escuros
Olhos: azuis 
Apelido: Duke e JW
 
para Doutor Antônio, meu pai
 
LEGIÃO INVENCÍVEL


Figura imponente do passado de Hollywood, por mais de trinta anos foi referência na indústria cinematográfica, simbolizando um tipo de masculinidade e estrelando filmes icônicos da Era de Ouro. Na adolescência, na solidão do quarto, eu imitava o seu andar característico de felino. Pegando emprestado armas da coleção de meu pai, fazia de conta que era o glorioso astro dos faroestes, matando sem piedade bandidos e selvagens. Repeti essas cenas durante anos. Nunca ninguém soube, era um segredo. Admirador dos faroestes que via em preto e branco na TV e na matinê de domingo nos cinemas de Itabuna, preferia os mocinhos Glenn Ford, Gary Cooper e Clint Eastwood. Como pai Antônio era fã de JOHN WAYNE (1907 – 1979. Winterset, Iowa / EUA), procurava substituí-lo no imaginário como pistoleiro imbatível. Queria ser como ele. Com a maturidade, terminei por esquecê-lo ao não o considerar um ator sério. Ao resgatar sua trajetória, percebi o engano. Suas performances em “Rio Vermelho” e “Rastro de Ódio”, entre outras, são impactantes. Não há dúvida de que era cativante e talentoso.
 
Ao descobrir que era republicano e sua batalha política conservadora durante décadas, a afeição juvenil pelo astro renasceu com força total. Portanto, este post é um tributo a sua longa e majestosa passagem por Hollywood. Vencedor de Oscar e Globo de Ouro, JOHN WAYNE se tornou o símbolo máximo do faroeste. Seus filmes frequentemente refletem valores tradicionais, são considerados clássicos do gênero, reverenciados e assistidos até os dias atuais. Steve McQueen, Sylvester Stallone, Bruce Willis e Chuck Norris o citaram como uma grande influência para eles, tanto profissional quanto pessoalmente. Assim como o lendário astro, cada um deles alcançou a fama interpretando personagens de ação heroica e apoiando causas de direita e o partido Republicano. Dedicado em seu trabalho, seu verdadeiro nome era Marion Michael Morrison. Fala lenta, voz grave e marcante, sotaque arrastado e olhar semicerrado, é lembrado como a imagem típica do caubói, quase sempre como um admirável herói solitário. Cresceu num rancho na Califórnia e fez 145 filmes, em mais de 40 anos de uma extraordinária carreira.
 
Duke (como os amigos o chamavam) teria sua trajetória ligada ao cineasta John Ford depois que interpretou Ringo Kid no clássico “No Tempo das Diligências”, em 1939. Ao todo, foram 14 filmes com o mestre. Ainda faria boas parcerias com outros importantes diretores, como John Huston, Howard Hawks, William A. Wellman, Raoul Walsh e Henry Hathaway. Crescendo em Iowa, um de seus passatempos favoritos era jogar futebol americano com o pai. Enquanto estudava na USC, juntamente com colegas, trabalhava meio período na Fox Film, carregando adereços de cenário e como figurante ocasional. Em 1930, teve sua oportunidade em “A Grande Jornada”. O diretor Raoul Walsh o viu passar no set carregando uma mesa, gostou do seu jeito de se mover e contratou o rapaz inexperiente para o papel protagonista. A empresa depositava esperanças neste faroeste épico, mas ele fracassou nas bilheterias. A seguir, JOHN WAYNE sobreviveu na década de 30 estrelando dezenas de faroestes de baixo orçamento. Alguns levavam apenas oito dias para serem filmados.
 
Era um trabalho árduo. Não havia dublês, ele próprio lutava e cavalgava. Em 1933, casou-se com Josephine Alicia Saénz, filha de um poderoso funcionário do governo mexicano. Ela era da alta sociedade e uma mulher bonita. Tiveram quatro filhos, com os quais ele sempre foi muito próximo e afetuoso. Ainda desconhecido, chegava ao set às 6h e, depois de um dia difícil, voltava para casa sujo e cansado às 19h30, com a esposa aristocrática pronta para um jantar fora ou uma festa. A virada profissional veio em 1939 com o sucesso de “No Tempo das Diligências”, que o transformou em uma das estrelas em ascensão mais valiosas. Depois vieram outros filmes importantes. Na época, houve um distanciamento gradual da esposa, pois ele não se adaptava ao estilo elegante dela. Quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial, houve movimento de apoio, inclusive em Hollywood. JOHN WAYNE, com lesões no joelho, sofridas na faculdade, foi isento do alistamento. Mesmo assim, ele desejava servir e escreveu várias vezes a John Ford pedindo para se juntar à sua Unidade Fotográfica de Campo do OSS.
 
Em 1943, conheceu a atriz mexicana Esperanza Baur. Alta, esbelta e morena, ela havia trabalhado com Arturo de Córdoba em “O Conde de Monte Cristo / El Conde de Montecristo” (1942). Como JOHN WAYNE, ela gostava de uma vida simples e reuniões com poucos amigos ao redor de uma churrasqueira. Ele se divorciou e se casou com ela em 1946. Ward Bond foi o padrinho e a esposa do falecido Harry Carey, a madrinha. Mas o ator mudou. A partir do final da década de 1940, com os filmes “Sangue de Heróis”, “Rio Vermelho” e “O Céu Mandou Alguém”, ele foi nomeado estrela número um de bilheteria, junto com Doris Day, por três anos consecutivos, pelos donos de cinema do país. Tornou-se uma estrela de altíssima estatura e passou a apreciar a vida social de Hollywood. A esposa tinha temperamento explosivo, bebia muito, e depois de várias brigas, se separaram. No processo de divórcio, ela alegou o caso do marido com a atriz Gail Russell, e ele respondeu que Conrad Hilton Jr., casado com Elizabeth Taylor, havia se tornado hóspede constante da casa deles, enquanto viajava à trabalho.
 
marlene dietrich e john wayne
Ainda nos anos 40, JOHN WAYNE teve um namoro de três anos com Marlene Dietrich, mas seu romance com Maureen O'Hara durou ainda mais, restando uma boa amizade. Estrelaram cinco filmes juntos. Divorciado mais uma vez, casou-se com a peruana Pilar Palette, que conheceu enquanto procurava locações de filmagem no Peru para “O Álamo / The Alamo” (1960). Embora fosse casada, Pilar se divorciou e se mudou imediatamente para Hollywood. Deprimida e estressada pela radical mudança cultural, ela se viciou em pílulas para dormir. Certa noite, enquanto ele filmava na Louisiana, cortou os pulsos durante uma alucinação. O casal teve três filhos. Depois que a terceira esposa o deixou em 1973, ele se envolveu com sua secretária Pat Stacy pelos anos restantes de vida. Na política, ele era um feroz defensor dos republicanos, nacionalista ferrenho e anticomunista ativo. Participou ativamente da criação da Aliança Cinematográfica para a Preservação dos Ideais Americanos (MPA) em 1944 e foi eleito presidente cinco anos depois. Ronald Reagan, Walt Disney, Clark Gable, Robert Taylor, Gary Cooper e outros famosos estavam entre os membros da organização.

 
Defensor do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC), expressou seu apoio contra o maldito comunismo no filme de ação “Uma Aventura Perigosa / Big Jim McLain” (1952) e incluindo traidores da pátria na Lista Negra de Hollywood. Promoveu a guerra do Vietnã, produzindo e estrelando “Os Boinas Verdes / The Green Berets” (1968). Por ser a estrela republicana mais proeminente de Hollywood, foi cotado por texanos republicanos a concorrer a um cargo nacional em 1968. Ele recusou dizendo que era “um homem de Richard Nixon”. Apoiou Ronald Reagan nas campanhas para governador da Califórnia em 1966 e 1970. Também rejeitou um convite para ser vice na candidatura presidencial de George Wallace, preferindo fazer campanha por Nixon, inclusive discursando na Convenção Nacional Republicana de 1968. O ditador soviético Joseph Stalin, indignado com o seu anticomunismo, encomendou seu assassinato. Na primeira tentativa, dois matadores russos se fizeram passar por agentes do FBI e tentaram assassiná-lo em seu escritório, na Warner Brothers, em Hollywood, mas foram capturados.
 
As conspirações soviéticas foram canceladas após a morte de Stalin, em 1953, por seu sucessor, Nikita Krushchev, que era fã do astro. “Essa foi uma decisão de Stalin nos últimos cinco anos loucos de sua vida. Quando ele morreu, eu revoguei a ordem”, teria dito Kruschev a JOHN WAYNE em um encontro entre os dois em 1958. No entanto, grupos comunistas norte-americanos assumiram a conspiração e tentaram assassiná-lo no México, nas filmagens de “Caminhos Ásperos / Hondo” (1953). Ele sobreviveu a essa tentativa de assassinato e a outra cometida por um franco-atirador durante visita que fez às tropas dos EUA no Vietnã, em 1966. Carismático e convincente, atuou em faroestes, aventuras, melodramas e filmes de guerra. Em 1956, ao protagonizar “Sangue de Bárbaros / The Conqueror”, resultou em uma tragédia futura. Rodado por treze semanas no Parque Estadual de Snow Canyon, em Utah, o set estava situado a apenas 220 km da área de testes de Nevada, um local para a realização de bombardeamos nucleares ao ar livre com perigos decorrentes da radiação.
 
O pó radioativo – levado pelo vento – se precipitou justamente sobre o local da filmagem. As consequências, porém, viriam anos depois, quando a maior parte do elenco e da equipe começaram a desenvolver câncer numa escala assustadora. O próprio astro, Susan Hayward e Agnes Moorehead padeceram de câncer nas décadas de 60 e 70. Na seguinte, 90 membros da equipe de 220 pessoas desenvolveram tumores malignos e 46 morreram. Já em 1991, seria a vez de John Hoyt, que veio a óbito após adquirir câncer no pulmão. Segundo especialistas, a exposição no set de filmagens possivelmente foi a causa do câncer desenvolvidos em 94 profissionais que trabalharam no filme. Em Hollywood, JOHN WAYNE foi um dos atores que mais recusaram oportunidades notáveis e, em alguns casos, prêmios importantes. Recusou a série “Gunsmoke”, que durou 20 temporadas; “Fugindo do Inferno / The Great Escape” (1963), um clássico do cinema de guerra, e o papel foi para Steve McQueen; “Os Doze Condenados / The Dirty Dozen” (1967), com Lee Marvin brilhando como o Major John Reisman, um papel que seria dele.
 
Disse também não para “Rebeldia Indomável / Cool Hand Luke” (1967), resultando em uma das atuações mais aclamadas de Paul Newman; “Perseguidor Implacável / Dirty Harry” (1971), cujo papel foi para Clint Eastwood, que criou um dos personagens mais famosos do cinema; “Um Estranho no Ninho / One Flew Over the Cuckoo's Nest” (1975), que deu o Oscar para Jack Nicholson; “Patton, Rebelde ou Herói? / Patton” (1970), Oscar para George C. Scott; “Apocalypse Now / Idem” (1979), que terminou nas mãos de Martin Sheen. Entre muitos outros. Dos seus muitos personagens no cinema, o favorito era Ethan Edwards em “Rastros de Ódio” (1956). Chegou a dar ao seu filho o nome de Ethan em homenagem a ele. Praticamente calvo, o astro usou peruca em sua ilustre carreira desde “O Rasto da Bruxa Vermelha / Wake of the Red Witch” (1948). Sua vitória de Melhor Ator no Oscar e no Globo de Ouro por “Bravura Indômita / True Grit” (1969) foi vista como prêmios pelo conjunto da obra. Continuou a estrelar filmes de sucesso até 1976, permanecendo entre as dez maiores estrelas de bilheteria dos EUA até 1974.
 
wayne com o oscar e barbra streisand
Seu álbum falado “America: Why I Love Her” foi indicado ao Grammy quando lançado em 1973. Relançado em CD em 2001, teve êxito novamente. Junto com Humphrey Bogart, JOHN WAYNE era considerado o fumante mais inveterado da meca do cinema, fumando cinco maços de Camel sem filtro até sua primeira batalha contra o câncer em 1964. Ele passou por uma cirurgia bem-sucedida para remover o pulmão esquerdo. Apesar de seus sócios quererem manter a doença em segredo, tornou pública a situação e incentivou o público a fazer exames preventivos. A doença o fez amargar 15 anos de sofrimento, que o levaram até a pensar em suicídio.  Dirigiu os filmes “O Álamo” e “Os Boinas Verdes”. Este último causou-lhe problemas. O roteiro, pró-guerra do Vietnã, alimentou a fúria da esquerda, que realizou vários protestos contra a exibição. Católico, leal aos amigos, fez o elogio fúnebre nos funerais de Ward Bond, John Ford e Howard Hawks. Tinha fama de beber bastante, e os diretores filmavam suas cenas pela manhã, com ele ainda sóbrio.
 
Junto com seu amigo de longa data, Louis Johnson, era dono de uma fazenda de gado Hereford puro-sangue com 63 quilômetros de extensão no Arizona, a 26 Bar Ranch. A fazenda criava mais de 400 touros, frequentemente vencendo nas grandes feiras de gado. O astro comparecia com frequência aos leilões e fazia o discurso de boas-vindas na abertura dos eventos. Em 1976, estrelou “O Último Pistoleiro / The Shootist”, dirigido por Don Siegel e ao lado de Lauren Bacall e James Stewart. Nesse seu último papel, morre de câncer, condição à qual o próprio sucumbiu três anos depois. O faroeste foi um sucesso de bilheteria e crítica, nomeado como um dos Dez Melhores Filmes de 1976 pelo National Board of Review. Faleceu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos. Enterrado em segredo, o túmulo permaneceu sem identificação até 1999, para o caso de manifestantes da guerra do Vietnã não o profanarem. Vinte anos após sua morte, finalmente recebeu uma lápide de bronze. Vários locais públicos nos EUA foram nomeados em homenagem a JOHN WAYNE, refletindo seu status como ícone cultural.
 
Graças à sua coragem, dignidade, integridade, talento, honestidade política e à sua cordialidade como ser humano ao longo de sua poderosa carreira, ele tem um lugar único em nossos corações e mentes. Receberia postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade em 1980, concedida pelo presidente Jimmy Carter. Em 1998, foi homenageado com o prêmio de Herança Naval pela Fundação Memorial da Marinha dos EUA, reconhecendo seu apoio às forças armadas. Em 1999, o Instituto Americano de Cinema (AFI) o classificou como a 13ª maior lenda masculina do cinema clássico de Hollywood. Continua sendo um dos atores mais intimamente associados não apenas à grandeza do cinema, mas também à grandeza do povo norte-americano. É uma verdadeira lenda, comove as massas, o público o adora. Poucos capturaram melhor o homem durão e corajoso, patriota e dedicado à família, conservador e leal, transbordando integridade e valores de direita: a imagem do herói cinematográfico inesquecível.
 
 
RIO VERMELHO
“O Oeste é o triunfo da coragem pessoal
sobre qualquer obstáculo, seja a natureza ou o homem.”

JOHN WAYNE
 

DEZ FAROESTES de JOHN WAYNE
(por ordem de preferência)
 
01
RIO VERMELHO
(Red River, 1948) 

direção de Howard Hawks
elenco: Montgomery Clift, Joanne Dru, Walter Brennan,
Coleen Gray, Harry Carey e John Ireland
 
02
RASTROS de ÓDIO
(The Searchers, 1956)
 

direção de John Ford
elenco: Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond,
Natalie Wood e Antonio Moreno
 
03
No TEMPO das DILIGÊNCIAS
(Stagecoach, 1939)
 

direção de John Ford
elenco: Claire Trevor, Andy Devine, John Carradine,
Thomas Mitchell, George Bancroft e Tim Holt

04
LEGIÃO INVENCÍVEL
(She Wore a Yellow Ribbon, 1949) 

direção de John Ford
elenco: Joanne Dru, John Agar, Ben Johnson,
Victor McLaglen, Mildred Natwick e George O´Brien
 
05
A GRANDE JORNADA
(The Big Trail, 1930)
 

direção de Raoul Walsh
elenco: Marguerite Churchill, Tully Marshall e Ward Bond
 
06
SANGUE de HERÓIS
(Fort Apache, 1948)

direção de John Ford
elenco: Henry Fonda, Shirley Temple, Pedro Armendáriz,
Ward Bond, George O´Brien, Victor McLaglen,
Anna Lee e Movita
 
07
O CÉU MANDOU ALGUÉM
(3 Godfathers, 1948)

direção de John Ford
elenco: Pedro Armendáriz, Harry Carey Jr., Ward Bond,
Mae Marsh, Mildred Natwick, Jane Darwell
e Ben Johnson
 
08
RIO BRAVO
(Rio Grande, 1950)

direção de John Ford
elenco: Maureen O'Hara, Ben Johnson, Claude Jarman Jr.,
Harry Carey Jr., Chill Willis, J. Carrol Naish,
e Victor McLaglen
 
09
ONDE COMEÇA o INFERNO
(Rio Bravo, 1959)

direção de Howard Hawks
elenco: Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson,
Walter Brennan e Ward Bond
 
10
O HOMEM QUE MATOU o FACÍNORA
(The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

direção de John Ford
elenco: James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin,
Edmond O´Brien, Andy Devine, John Carradine,
Jeanette Nolan, Woody Strode e Lee Van Cleef
 

FONTES
JOHN WAYNE: a VIDA e a LENDA (2014)
John Wayne: The Life and Legend
de Scott Eyman
 
JOHN WAYNE – o HOMEM por TRÁS do MITO (2001)
John Wayne - The man behind the myth
de Michael Munn
 
O TITÃ AMERICANO:
PROCURANDO por JOHN WAYNE (2014)
American Titan: Searching for John Wayne
de Marc Eliot
 
“Não apareço em filmes que envergonhem o público. Podem levar a família para ver um dos meus filmes e nunca se sentirão envergonhados ou constrangidos”
JOHN WAYNE
 
GALERIA de FOTOS
  

RASTROS de ÓDIO
FAROESTE NESTE BLOG

janeiro 31, 2015

********************* O VALIOSO FALCÃO MALTÊS





TRAMA ENGENHOSA em um CLÁSSICO POLICIAL NOIR

Em 1539, os templários de Malta pagam tributo ao rei Carlos V da Espanha, enviando-lhe um falcão de ouro todo encrustado de joias raras. Mas piratas roubam este presente inestimável e seu destino permanece um mistério. Com esta introdução tem início o lendário policial noir O FALCÃO MALTÊS (The Maltese Falcon, 1941) - ou “Relíquia Macabra”, título brasileiro. O enredo gira em torno dessa preciosidade medieval valiosíssima que é levada em sigilo desde o Oriente até a cidade de San Francisco, na Califórnia. Em seu rastro seguem aventureiros gananciosos que fazem de tudo para possuí-la. O detetive particular Sam Spade (Humphrey Bogart) entra nessa batalha ao receber a visita da sedutora e esperta Brigid O’Shaughnessy (soberba Mary Astor). 

O que parecia ser mais um caso normal torna-se um emaranhado de problemas quando seu sócio é assassinado. Imune a ilusões sentimentais, habituado a lidar com gângsteres e policiais corruptos, Spade arma um jogo sutil de alianças e traições, decidido a sair vencedor. Preserva noções elementares de justiça, mas está disposto a ir até o limite. A intrincada e deliciosa narrativa, que mistura momentos sarcásticos com outros de puro suspense, estabeleceu padrões que seriam seguidos por muitos dos filmes posteriores, definindo características clássicas do gênero, como personagens ambíguos, ambientes obscuros (inspirados no expressionismo alemão) e a mulher fatal (perigosa serpente).

PERFEITO CONTROLE na DIREÇÃO

O romance policial “The Maltese Falcon”, de Dashiell Hammett, lançado em 1930, resulta da compilação de duas histórias publicadas em 1925 na revista “Black Mask”: “The Whosis Kid” e “The Gutting of Couffignal”. Além da versão de John Huston, existem outras três, todas fracassadas: “O Falcão Maltês / The Maltese Falcon” (1931), de Roy Del Ruth, com Bebe Daniels e Ricardo Cortez; “Satã Encontrou Uma Dama / Satan Met a Lady” (1936), de William Dieterle, com Bette Davis e Warren William; e “The Black Bird” (1975), de David Giler, com George Segal e Stephane Audran. 

O remake de Huston, filmado na Warner de Culver City, foi o primeiro longa-metragem do diretor, que até então trabalhava como roteirista (em filmes dirigidos por William Wyler, Raoul Walsh, Howard Hawks, Anatole Litvak e William Dieterle). Custou 300 mil dólares e foi rodado em oito semanas. O cineasta demonstrou um controle perfeito sobre a produção, surpreendendo o chefão do estúdio, Jack Warner. Huston entregou um roteiro detalhista, que incluía story board e material necessário para a filmagem. Em sua autobiografia, disse: “Preparei-me bastante para meu primeiro trabalho como diretor. Tinha um roteiro muito bem estruturado, não apenas cena por cena, mas também plano por plano. Fiz um esquema de cada plano; indicava inclusive se tinha de fazer uma panorâmica ou um plano com grua. Eu não queria ter dúvida diante dos atores e da equipe técnica. Apresentei meu roteiro para o produtor Henry Blanke. Tudo o que ele me disse foi: “Somente recomendo que cada cena seja tratada como a mais importante do filme”. Este é o melhor conselho que um diretor jovem pode receber”.

HUSTON e BOGART, uma PARCERIA de SUCESSO

lee patrick e bogart
A estética noir deixou marcas na cultura pop e se repete até hoje nos mais diversos tipos de narrativas cinematográficas. De modo geral, são chamadas noir (“preto”, literalmente do francês) produções criminais realizadas em larga escala nos anos 1940 e 1950 em Hollywood. Apresentam mocinhos de caráter duvidoso, mulheres perigosas e inteligentes, detetives calejados, paisagens urbanas sombrias, ambientes fechados, predomínio de cenas noturnas, trama policial e, obviamente, narrativa que gira em torno de algum crime.

Não bastasse ser considerado o primeiro e um dos mais conhecidos representantes do film noir, O FALCÃO MALTÊS ainda pavimentou o caminho de sucesso de dois importantes nomes da história do cinema: John Huston e Humphrey Bogart (que estrelaria o clássico “Casablanca / Idem” um ano depois). Por pouco, eles não tiveram a oportunidade de iniciar uma parceria de sucesso. A Warner havia oferecido primeiro George Raft para o papel de Sam Spade. Mas o ator, uma estrela na época, não aceitou o trabalho devido à inexperiência do diretor. Foi então que Huston convidou Bogart, que havia terminado o genial “Seu Último Refúgio / High Sierra” (1941), personagem também recusado por Raft. As afinidades entre a dupla foram tantas que trabalharam juntos em outros cinco filmes, sempre acompanhados de muito uísque: “Garras Amarelas / Across the Pacific” (1942), “O Tesouro da Sierra Madre / The Treasure of the Sierra Madre” (1948), “Paixões em Fúria / Key Largo” (1948), “Uma Aventura na África / The African Queen” (1951) e “O Diabo Riu por Último / Beat the Devil” (1953).

ATMOSFERA TENSA

huston, peter lorre, mary astor 
e bogart
O roteiro intrincado de Huston desenvolve a trama com cuidado, nos levando lentamente para a tensa conclusão, mas já fisgando o espectador no início, com a morte do parceiro de Sam. Ele tem o cuidado de não tornar os personagens unidimensionais, deixando sempre uma dúvida no ar sobre o caráter de cada um deles. 

Através da linguagem despojada, cheia de gírias, e de atitudes ambíguas de praticamente todos os personagens, Huston jamais permite ao espectador antecipar o que acontecerá na trama, o que só colabora para que a narrativa se torne cada vez mais tensa e imprevisível. Os figurinos de Orry-Kelly e os ambientes fechados e sombrios (direção de arte de Robert M. Haas) colaboram com esta atmosfera tensa, além de criarem o visual marcante e obscuro pretendido pelo diretor. Ele faz questão de criar diversos momentos que nos colocam em dúvida a respeito do caráter dos personagens, o que só favorece o suspense criado, reforçado pela trilha sonora de Adolph Deutsch. Desta forma, fica difícil prever para onde a narrativa esta indo, o que, neste caso, torna o filme ainda mais curioso. Ainda assim, a revelação final de que Brigid é a assassina não surpreende, mas amarra bem a trama.

PERSONAGENS HOMOSSEXUAIS

peter lorre como joel cairo
Empregando um ritmo agradável ao longa, graças à montagem de Thomas Richards, e criando momentos interessantes, como quando a câmera simula o olhar embaçado de Sam antes de um desmaio, John Huston mostra muita competência atrás das câmeras e realiza um longa memorável. Destaque para as interpretações de Peter Lorre, como o nervoso, afeminado e alucinado Joel Cairo; Sydney Greenstreet, o obeso e cínico Kasper Gutman, indicado ao Oscar; Elisha Cook Jr., como o capanga-amante-psicopata de Gutman, Wilmer Cook; e Mary Astor. 

No romance, três personagens masculinos (Joel Cairo, Kasper Gutman e Wilmer) são homossexuais, mas para evitar problemas com a censura, decidiram representá-los sutilmente. O pai do diretor, o grande ator Walter Huston, faz uma participação especial como o Capitão Jacobi. O filme recebeu três indicações para o Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Sydney Greenstreet) e Melhor Roteiro Adaptado. A estatueta original do falcão foi vendida recentemente por US$ 3,5 milhões, em Nova York. O FALCÃO MALTÊS é pioneiro, tanto em estética, quanto na adaptação de roteiro. John Huston realizou um talentoso exercício de cinema que diverte e impressiona.

O ESCRITOR

DASHIELL HAMMETT
(1894 – 1961. Maryland / EUA)

Ao publicar “O Falcão Maltês” (1930), o autor transformou as histórias policiais de uma vez por todas. Com um estilo que já foi comparado ao de Ernest Hemingway, jogou os personagens nas ruas de uma cidade turbulenta, deu à trama um ritmo acelerado, usou a linguagem crua do dia-a-dia e adotou um realismo que o gênero policial até então desconhecia. Esse realismo se relaciona diretamente com a biografia do autor: Hammett abandonou a escola aos 14 anos e, após diversos trabalhos temporários, conseguiu emprego numa agência de investigações. Não se destacou como detetive, mas os oito anos em que exerceu a profissão lhe deram a matéria-prima de sua literatura.

O DIRETOR / ROTEIRISTA

JOHN HUSTON
(1906 – 1987. Nevada, Missouri / EUA) 

O FOTÓGRAFO

ARTHUR EDESON
(1891 – 1970. Nova Iorque / EUA)

O excepcional manejo de câmera utilizado pelo fotógrafo teve um papel importante no sucesso do filme. Há a presença marcante de ângulos inovadores e não usuais (como no nível do chão, por exemplo) enfatizando a personalidade dos personagens e a natureza de suas ações, além de claro, a predominância da clássica luz baixa. Edeson começou em 1914, fotografando filmes como “Sem Novidade no Front / All Quiet on the Western Front” (1930), “Frankenstein / Idem” (1931), “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty” (1935), “Dentro da Noite / They Drive by Night” (1940) e “Casablanca / Idem” (1942).

O ELENCO

HUMPHREY BOGART
(1899 – 1957. Nova Iorque / EUA)
Sam Spade

MARY ASTOR
(1906 – 1987. Quincy, Illinois / EUA)
Brigid O`Shaughnessy

GLADYS GEORGE
(1900 – 1954. Patten, Maine / EUA)
Iva Archer 

PETER LORRE
(1904 - 1964. Ruzomberok / Eslováquia)
Joel Cairo

BARTON MacLANE
(1902 – 1969. Colúmbia, Carolina do Sul / EUA)
Tenente Dundy

LEE PATRICK
(1901 – 1982. Nova Iorque / EUA)
Effie Perine

SYDNEY GREENSTREET
(1879 – 1954. West Malling / Reino Unido)
Kasper Gutman 

WARD BOND
(1903 - 1960. Benkelman, Nebraska / EUA)
Miles Archer 

ELISHA COOK JR.
(1903 – 1995. San Francisco, Califórnia / EUA)
Wilmer Cook

DIÁLOGOS MARCANTES


Brigid (para Spade): “Tenho uma terrível confissão a fazer. O que lhe disse não passou de uma mentira.”
Spade (sobre o valor que recebeu dela para a investigação): “Realmente não acreditamos na sua história, acreditamos nos seus 200 dólares. Pagou mais do que se tivesse dito a verdade.”

Brigid (perguntando sobre o parceiro de Spade): “Ele era casado?
Spade: “Sim. Com um bom seguro e uma esposa infiel. Assim são as coisas.”

Brigid (para Spade): “Seja generoso. Você é valente e forte. Certamente irá me transmitir um pouco dessa coragem. Preciso desesperadamente de ajuda. Sei que não tenho direito de pedir, mas peço-lhe: ajude-me.”
Spade: “Você não precisa de ajuda de ninguém, você é boa nisso. Posso ver isso em seus olhos e na entonação que coloca na voz ao dizer: seja generoso.”
Brigid: “Eu mereço isso, mas a mentira está na maneira como eu disse e não no conteúdo.”

Brigid: “Thursby cobria o chão em volta da cama com jornal amassado para que ninguém entrasse no quarto silenciosamente.”

Spade: “O que tem me dado além de dinheiro? Alguma vez me disse uma verdade? Não tentou comprar minha lealdade? ”
Brigid: “De que outro modo posso comprá-la? ” (em resposta recebe um beijo de Spade)

Spade (para Brigid): “Não me interesso por seus segredos, mas não posso seguir em frente sem confiar em você. Precisa me convencer de que não está trapaceando.”
Brigid: “Estou cansada de mentir e inventar histórias, sem saber o que é mentira e o que é verdade.”

Brigid: “Você foi um presente dos céus.”
Spade: “Não exagere.”

Gutman: “Suspeito de gente calada. Sempre escolhe a hora errada para falar. Conversar é algo que não se faz ponderadamente sem antes colocar em prática. Gosto de falar com quem gosta de falar.”

Gutman: “Sinto muito em te perder, Wilmer. Gosto de você como um filho. Um filho pode ser substituído, mas só há um falcão maltes. Quando se é jovem não se entende estas coisas.”

Spade (para Brigid, antes de entrega-la para a polícia): “Se for boa, ficará 20 anos na cadeia. Estarei te esperando. Se te enforcarem, sempre me lembrarei de você.”

Brigid: “Você sabe se me ama ou não? ”
Spade: “Talvez a ame, mas acabarei esquecendo um dia.”

  O TRAILER:



a estatueta usada 
na versão de 1941