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março 15, 2026

* SERVIÇO COMPLETO: os RAPAZES da GASOLINEIRA

scotty bowers
 


Não havia nada de culpado,
não havia nada de sujo.
Foi a coisa mais natural
e maravilhosa do mundo.
HENRY WILLSON
(1911 – 1978. Lansdowne, Pensilvânia / EUA)
agente de atores

Scotty era uma figura central
no underground gay de Hollywood
e serviu como um cafetão de confiança
de seus clientes quando eles não tinham
alternativa a não ser viver nas sombras.
MATT TYRNAUER
(Los Angeles, Califórnia / EUA)
cineasta


Acabei de ler
“Full Service: the Secret Sex Lives of Hollywood's Stars” (2012), as memórias de SCOTTY BOWERS (1923 – 2019. Ottawa, Illinois / EUA), no qual revela como ele e seus jovens e belos prostitutos tiveram como clientes, durante décadas, atores, atrizes, produtores, diretores e demais profissionais da chamada Era de Ouro de Hollywood. Interessei-me pela leitura depois de ver a minissérie “Hollywood”, de apenas sete capítulos, em que a Cidade dos Sonhos dos anos 40 e 50 é retratada. Garoto simplório, nascido numa fazenda, na infância o autor seduzido manteve um caso com o fazendeiro vizinho, amigo de seu pai, casado e pai de dois filhos. Começa aí a sua saga sexual, que passou mais tarde, em Chicago, quando adolescente, a fazer dinheiro satisfazendo senhores respeitáveis e até mesmo padres. Isso seria abuso aos olhos de todos, menos aos dele. E tudo sem que a mãe ou os irmãos desconfiassem. Ele foi para a guerra, se alistando na Marinha, lutando na Batalha de Iwo Jima, no Oceano Pacífico, e perdendo no sangrento conflito um irmão e dois amigos muito próximos.

Nessa época, homens e mulheres gays forçados a ser marginais sexuais eram publicamente evitados e muitas vezes perseguidos, ou pelo menos forçados a viver vidas duplas. A indústria cinematográfica mantinha em segredo a verdadeira identidade sexual de muitas de suas maiores estrelas, como Ramon Novarro ou Greta Garbo. A comunidade LGBTQ+ não tinha muitos lugares seguros para se conectar na década de 40. A homossexualidade foi ilegal na Califórnia até os anos 1970. Quando a divisão de narcóticos do Departamento de Polícia de Los Angeles –
“a Gestapo sexual”, como era conhecida – invadia um bar gay, os frequentadores corriam o risco de serem presos, extorquidos, internados em um hospício e possivelmente lobotomizados. Esses policiais tinham como alvo a elite de Hollywood porque tinha carreiras a proteger e dinheiro de sobra para suborná-los. Foi nesse contexto que o fuzileiro naval SCOTTY BOWERS veio de anos de guerra para morar em Los Angeles, em 1946, cidade que conheceu nas folgas da Marinha e onde, obviamente, viveu aventuras eróticas de farda.

o posto de gasolina bordel
Aos 23 anos, em 1946, ele rapidamente começou a trabalhar em um posto de gasolina em Hollywood, como atendente,
indicado por um amigo da Marinha. O Richfield Oil ficava em 5777 Hollywood Blvd., na esquina da Van Ness Avenue. Sua beleza atraiu a atenção de Walter Pidgeon, astro canadense da Metro-Goldwyn-Mayer, que o convidou para dar uma volta em seu luxuoso carro Lincoln Continental. O loiro de covinhas topou sem vacilar, marcando sua entrada para a alta sociedade local. O assédio rendeu banho de piscina, sexo e 20 dólares de gorjeta, um valor considerável na época. O mais importante desse encontro erótico foi o início de uma carreira paralela do veterano de guerra, que passou a oferecer seu corpo e os de ex-combatentes em dificuldades financeiras para as estrelas de cinema. Pidgeon recomendou o nome do amante a um círculo de amigos — e logo ele estava intermediando encontros para ele ou uma rede de profissionais do sexo. A demanda era tão alta, que teve que encaminhá-los para uma sala de espera — que, na verdade, era só um trailer estacionado.


A notícia de um jovem fuzileiro naval bonito, discreto e desinibido espalhou-se como fogo nos bastidores de Hollywood. SCOTTY BOWERS percebeu que a
“Cidade dos Sonhos” era, na verdade, uma cidade de desejos reprimidos. Para atender à demanda, ele recrutou cerca de 20 veteranos de guerra, bonitos, atléticos e discretos que, assim como ele, precisavam de dinheiro para sobreviver. Estabeleceu uma tabela fixa: 20 dólares por serviço. Diferente de um cafetão tradicional, ele não ficava com uma comissão sobre os rapazes, seu lucro vinha das gorjetas e da gratidão das estrelas, que o via como um cafetão de confiança. Esses rapazes eram enviados as mansões mais exclusivas de Beverly Hills. O posto de gasolina tornou-se a fachada perfeita: enquanto os estúdios vigiavam os passos das suas estrelas, elas abasteciam seus carros e davam um bilhete com um endereço ou colocavam um acompanhante no banco de trás. Com os anos, o gigolô passou a trabalhar como barman em festas privadas de elite, onde levava seus garotos para servir as bebidas e, mais tarde, atender aos desejos dos convidados.

tyrone power
A sua lista de clientes não fazia distinção de gênero: homens e mulheres, astros e estrelas, de galãs másculos a divas intocáveis, figuras lendárias que confiavam a um ex-fuzileiro naval os segredos que poderiam destruir suas carreiras. Entre os nomes citados em seus relatos, que foram para cama com ele ou seus pupilos, destaca-se uma lista extensa, muito extensa: Tyrone Power, Cary Grant, Bette Davis, James Dean, Charles Laughton, George Cukor, Vivien Leigh, Spencer Tracy, Lana Turner, Laurence Olivier, Rex Harrison, Gore Vidal, Montgomery Clift, Cole Porter, Tennessee Williams, Ava Gardner, Randolph Scott, Vincent Price, Raymond Burr, Gloria Swanson, Alan Ladd, Farley Granger, Bob Hope, Merle Oberon, Tom Ewell, Judith Anderson etc. A confiança realmente impulsionou seu trabalho. Nessa epopeia sexual, SCOTTY BOWERS não passava um dia sem transar. Operou seu esquema do posto de gasolina de 1946 até 1950, mas o serviço completo se estendeu muito além disso, seguindo até o final da década de 1970, atendendo muitos dos grandes nomes da indústria cinematográfica que iam fazer sexo com ele ou com outros indicados por ele.


Administrar um bordel clandestino, frequentado principalmente por gays, em um posto de gasolina, não foi nada fácil. O seu livro conta detalhes dessas peripécias. É uma publicação cativante para quem gosta de cinema e, principalmente, para quem gosta da velha e charmosa Hollywood com seus galãs e estrelas que nos faziam sonhar. O autor justificou a publicação pelo fato dessas pessoas não estarem mais neste mundo, é assim se sentiu à vontade para botar a boca no trombone. Ele desnuda mitos. Um deles, o tal romance que se supunha romântico entre Spencer Tracy e Katherine Hepburn, por exemplo. Segundo ele, mentira inventada para promover os filmes da dupla. E mais: Tracy, embora casado, transou diversas vezes com SCOTTY BOWERS, ao mesmo tempo em que Hepburn preferia
“moças jovens e morenas para a sua cama”. Todas arranjadas por ele. Outra história interessante é a transa a três com Cary Grant e um Rock Hudson ainda desconhecido, além de ter feito um ménage à trois com Lana Turner e Ava Gardner na casa de Frank Sinatra, então marido da deusa Ava. Nossa!

O livro é recheado com nomes, locais, datas e acontecimentos. Embora tenha parado de trabalhar no posto onde o povo do cinema abastecia o carro (e a cama), continuou suas atividades nas festas dos magnatas de Hollywood – e seus contatos e sua fama se intensificaram. Ele afirma que sentia prazer em realizar as preferências sexuais das pessoas numa época tão conservadora. Alguns tacharão o livro de pura fofoca e um compêndio de futilidades. Outros, como eu, vão encarar com um sorriso, pois, como SCOTTY BOWERS mesmo afirmava,
“nada mais natural neste mundo do que o sexo”. Interrogado se seu comportamento sexual seria um “distúrbio” por ter sido assediado tão cedo pelo fazendeiro amigo de seu pai, respondeu que não. Tudo para ele tinha sido muito bom e guardava lembranças agradáveis daquele senhor que o iniciara. Apesar do negócio sexual, ele era discreto, e sabia que, dessa maneira, blindava seus clientes e tornava o trabalho mais lucrativo. Alguns deles desenvolveram uma relação de confiança. E toda essa discrição e confiabilidade tornaram suas confissões mais bombásticas.

scotty powers e seus garotos de programa
Seus outrora segredos são picantes, como quando ele fez sexo com um dos diretores mais marcantes da história do FBI, J. Edgar Hoover — que estava vestido de drag queen. Todavia, o seu maior cliente era o compositor Cole Porter. Diversas orgias foram organizadas por ele a convite do músico. Além disso, a vida sexual do cafetão foi objeto de estudo do sexólogo Dr. Alfred Kinsey, que estava determinado a saber profundamente sobre a sua pansexualidade.
Ele o surpreendeu ao revelar que experimentou todos os atos sexuais de sua lista. Tinha feito de tudo diversas vezes. Com seus olhos azuis penetrantes, cabelos espessos e uma juventude irradiante, é fácil imaginar por que era popular. Revelou não ter arrependimento por passar a maioria das noites na cama de outra pessoa. Mas admite francamente que sua única verdadeira paixão era o dinheiro. Fazer sexo com celebridades por US$ 20 era um trabalho fácil e lucrativo. Era um cafetão – mas também um cara sexualmente liberado que cuidava paternalmente de seus prostitutos e facilitava sexo satisfatório para clientes célebres em uma época enrustida. 


Conhecendo os bastidores de Hollywood como ninguém, ele foi um gigolô bem-sucedido, vivenciando em primeira mão a dualidade sexual de lendas do cinema cuja imagem pública não correspondia à sua realidade íntima. Para uma figura famosa, SCOTTY BOWERS não estava interessado no negócio do entretenimento. Ele nunca quis ser um ator ou envolvido no cinema em qualquer atividade profissional. Estava contente com sua vida como ela era. Esse desinteresse era parte do que o fez tão bem-sucedido em seu trabalho. Ele não tinha desejos de estrelato ou fama. Tampouco nunca se importou com a imprensa. Em várias ocasiões recusou pagamentos em troca de informações da intimidade de celebridades. A sua carreira teve um fim no auge da AIDS, nos anos 80. Nesse período se casou. Ele havia permanecido em silêncio por décadas, até 2012, quando lançou suas memórias, intituladas
“Full Service: My Adventures in Hollywood e Secret Sex Lives of the Stars”. Este best-seller foi seguido por um documentário de 2017, “Scotty and the Secret History of Hollywood”, dirigido por Matt Tyrnauer.

scotty e suas profissionais do sexo
O autor esperou que todos os seus clientes falecessem antes de abrir a boca. Muitos deles foram gratos pela lealdade, dando presentes generosos. O ator Beach Dickerson deixou três casas para SCOTTY BOWERS, e o premiado diretor de fotografia Nestor Almendros lhe deu a estatueta do Oscar que ganhou por
“Cinzas do Paraíso / Days of Heaven” (1978). Mas o lançamento do seu livro, aos 89 anos de idade, foi um escândalo. De imediato, críticos e biógrafos oficiais o acusaram de ser um velho mentiroso em busca de atenção. Janet Maslin, no “The New York Times”, considerou o conteúdo da obra como “supostas verdades”, enquanto Lewis Jones, do “The Telegraph”, desafiou os leitores a digeri-lo “como ficção”. No entanto, a descrença durou pouco. Historiadores, jornalistas e pesquisadores começaram a investigar cada detalhe minucioso de seus relatos e o resultado foi chocante: tudo batia com a realidade. As datas em que ele dizia ter organizado festas coincidiam exatamente com as folgas de filmagem das estrelas. Amigos próximos e seus antigos garotos confirmaram os esquemas do posto de gasolina.

Em 2019, SCOTTY BOWERS morreu aos 96 anos, deixando uma história na mitologia hollywoodiana que, por muito tempo, passou despercebida. Ele partiu deixando a Cidade dos Sonhos um pouco menos misteriosa e muito mais humana, evidenciando que, por trás do glamour e moralidade fabricado pelos estúdios, existiam pessoas reais com desejos que nenhuma censura foi capaz de silenciar.
 
“As necessidades de todos eram atendidas.
Tudo o que os astros e estrelas queriam, eu tinha.
Eu podia realizar todas as suas fantasias sexuais.”

SCOTTY BOWERS
 
spencer tracy e katharine hepburn
DEZ CLIENTES de SCOTTY BOWERS
 
CARY GRANT
(1904 – 1986. Bristol / Reino Unido)
“Ele era íntimo de um ator especializado em faroestes, Randolph Scott. Eu passei um fim de semana com eles. Nós três aprontamos todo tipo de travessuras sexuais juntos. Eu gostava muito deles, e era óbvio que eles também gostavam muito um do outro. Não sei se as respectivas esposas deles chegaram a descobrir o que estava acontecendo entre eles. O cowboy Scott era o amor da vida de Grant. Viveram juntos por 12 anos.”
 
CECIL BEATON
(1904 – 1980. Hampstead, Londres / Reino Unido)
“Preparava seu chá, deitava ao seu lado, fazia uma massagem, alisava sua testa e o guiava para uma longa sessão de sexo até que ele adormecesse como um bebê.”
 
DUQUE e DUQUESA de WINDSOR
(1894 – 1972. White Lodge, Richmond / Reino Unido)
(1896 – 1986. Blue Ridge Summit, Pensilvânia / EUA)

“Eles eram homossexuais e viviam uma farsa como um casal. Eddy também gostava, de vez em quando, de sexo a três com uma garota, e outras vezes queria uma mulher a sós. Mas sua clara preferência era por garotos. Certa noite, eu trouxe para Wally uma gracinha magra e esbelta, e quando voltei mais tarde para buscá-la e levá-la para casa, ela me disse, animada, que nunca em toda a sua vida havia gostado tanto de sexo. Ela nem conseguia se lembrar de quantos orgasmos teve naquela noite.”
 
EDITH PIAFF
(1915 – 1963. Paris, /França)
“Fizemos amor quase todas as noites durante as quatro semanas que ela passou em Hollywood. Ela também era bissexual.”
 
ERROL FLYNN
(1909 – 1959. Battery Point / Austrália)
“Errol Flynn me disse que estava procurando por novos talentos. Mas ele se referia às mulheres. Eu disse que faria o possível para agradá-lo. 'Que tipo de mulher você está procurando?', perguntei. 'Bem, digamos assim', disse ele, 'eu gosto de bebida velha e mulheres jovens. Muito jovens. Os dois formam uma combinação agradável, não acha?'.”
 
KATHARINE HEPBURN
(1907 – 2003. Hartford, Connecticut / EUA)
“Durante 39 anos apresentei à atriz mais de 150 mulheres para que pudessem explorar plenamente seu lesbianismo. Ela era lésbica, e eu não conseguia imaginar aquela mulher inegavelmente masculina tendo um caso com um homem, qualquer homem. Ela gostava de moças bonitas de cabelos escuros que não usavam maquiagem. O seu caso amoroso com o bissexual Spencer Tracy, amplamente divulgado pelos tabloides, era uma cortina de fumaça para suas ardentes aventuras homossexuais.”
 
LAURENCE OLIVIER
(1907 – 1989. Dorking / Reino Unido)
“Toda vez que eu mandava um casal para o quarto de hotel dele, ele pedia uma garota diferente, mas quase sempre o mesmo cara.”
 
SPENCER TRACY
(1900 - 1967. Milwaukee, Wisconsin / EUA)
“O grande Spencer Tracy era bissexual e um amante excelente. Após uma bebedeira daquelas, eu o despi, me despi também, deitamo-nos na cama e o abracei forte como uma criança. Ele babava, xingava e reclamava. Tinha bebido tanto que eu mal conseguia entender uma palavra do que dizia. Tentei acalmá-lo, mas ele não quis saber de nada. Pelo contrário, enfiou a boca no meu pau. Ele era o último homem no mundo de quem eu esperava tal iniciativa, mas eu deixei de bom grado Esse foi o primeiro de muitos encontros sexuais que tive com Spencer.”
 
TYRONE POWER
(1914 – 1958. Cincinnati, Ohio / EUA)
“Com seus gostos escatológicos, era escandalosamente bonito. As mulheres suspiravam por ele, e ele dormia com várias delas, mas preferia mais os homens. Ele me ligava com frequência e pedia que eu lhe enviasse um rapaz. Alguns de seus gostos sexuais eram bastante estranhos e excêntricos, mas nenhum dos rapazes parecia se importar.”
 
VIVIEN LEIGH
(1913 – 1967. Darjeeling / Índia)
“A estrela de “...E o Vento Levou” era uma mulher sensual. Muito sexual e muito excitável. Quando estava no clima, exigia satisfação completa e total. Transava como se a sobrevivência do planeta dependesse disso. Ela era estrondosa. Gritava, berrava e ria. Tinha orgasmo após orgasmo, cada um mais estrondoso que o anterior.”
 

CONVERSANDO com SCOTTY BOWERS em 2012
 
Em seu livro de memórias, “Full Service: My Adventures in Hollywood and the Secret Sex Lives of the Stars”, Scotty Bowers, de 89 anos, relata de forma gloriosa e honesta suas muitas lembranças de devassidão a Lionel Friedberg, que as organizou em um texto fascinante. Abrangendo sua juventude em uma fazenda em Illinois durante a Grande Depressão, os violentos combates na Segunda Guerra Mundial e casos amorosos com algumas das figuras mais famosas de Hollywood, a sua história é uma epopeia sensual.
 
O que acha como a família, o amor e o sexo eram retratados no cinema, em comparação como as estrelas viviam suas vidas pessoais?
 
Eu sentia que muitos levavam vidas duplas. O que fingiam fazer e o que realmente faziam eram coisas diferentes. Por outro lado, havia algumas pessoas muito certinhas e conservadoras. Mas em Hollywood, era possível realizar os desejos sexuais secretos, por causa do anonimato. Ninguém conhecia ninguém no mesmo quarteirão onde moravam.
 
Ainda sente isso em Hollywood? Como se pode explorá-la sexualmente?
 
Sim, de uma forma diferente. É mais aberto agora, as pessoas não são tão tímidas. Naquela época, havia gays assumidos, mas geralmente eram reservados e se sentiam sortudos quando conseguiam encontrar alguém em quem pudiam confiar.
 
Então, era só uma questão de encontrar quem o aceitasse e o que queria?
 
Percebi com os anos que, ao conhecer alguém, uma das coisas que ela mais gosta é ser ela mesma, sem truques. As pessoas gostam disso.
 
Como seus amigos atores e famosos conciliavam os personagens que interpretavam na tela com as pessoas que realmente queriam ser?
 
Um ator é um ator, então ele pode se retratar de uma forma completamente diferente de quem é. Raramente dá para perceber quem ele realmente é. Mas é a vida. Também arranjei encontros sexuais profissionais discretos para centenas de pessoas comuns. Empresários, donas de casa, homens casados, enfim, todo tipo de gente.
 
Havia um certo nível de segredo emocionante na sua época de ouro?
 
Havia segredo, com certeza! Era por isso que as pessoas gostavam e confiavam em mim. Mas você pode dizer: “Se eles confiavam e gostavam, por que está fazendo isso agora?”. Bem, é triste, porque todos se foram. Me emociona pensar nas pessoas boas que eu conheci. Penso em Vincent Price, Randolph Scott, Cary Grant, todos gentis, cavalheiros. Gentileza, bondade, são a resposta. Pensando neles, em como eram doces, independentemente do que faziam na cama, eu publiquei esse livro.
 
Sua vida mudou. Como é se sentir mais estável agora?
 
Eu gostaria de ser mais jovem... e fazendo a mesma coisa.
 

FONTES
Ditadura e Homossexualidade: Repressão,
Resistência e a Busca da Verdade
(2014)
de James N. Green
 
Full Service: My Adventures in Hollywood
and the Secret Sex Live of the Stars
(2012)
de Scotty Bowers e Lionel Friedberg
 
randolph scott e cary grant
“Espero ter proporcionado tanto prazer
quanto o que eu mesmo recebi.
Em nenhum momento senti vergonha,
culpa ou remorso pelo que fiz.
Muito pelo contrário.”

SCOTTY BOWERS
 
 GALERIA de FOTOS
 



maio 30, 2025

************ RONALD REAGAN em HOLLYWOOD

 



O preço da liberdade pode ser alto,
mas nunca será tão caro quanto a perda da liberdade.
 
Não é que os esquerdistas não sejam inteligentes,
as ideias que eles defendem é que não são.
RONALD REAGAN
 
Olhos: azuis
Cabelos: castanhos
Altura: 1,85 m
Apelidos: Dutch, Ronnie e The Gipper

 
 
O cinema é uma ferramenta de comunicação poderosa. Grande parte da população mundial recebe informação através dele, com especial intensidade devido ao surgimento de plataformas de streaming. Muitas vezes, uma narrativa emocional, com música e visual marcantes podem inflamar sentimentos e penetrar muito mais fundo do que textos. Fica então evidente que através de filmes e séries são transmitidos determinados valores, identidades, sentidos comuns e mensagens que geram raízes culturais importantes na sociedade. Esta questão foi muito bem compreendida pelos políticos na Segunda Guerra Mundial, utilizado pelo totalitarismo e pelos estados democráticos em documentários magníficos de Leni Riefenstahl e dos russos, ou filmes de ficção norte-americanos, como “O Grande Ditador / The Great Dictator” (1940), “Sargento York / Sergeant York” (1941) ou “Casablanca / Idem” (1942). O cinema também gerou um presidente da República dos Estados Unidos, um dos mais admirados líderes de Direita de todos os tempos: RONALD REAGAN (1911 - 2004. Tampico, Illinois / EUA).

Sua jornada na indústria cinematográfica, que abrangeu mais de três décadas, moldou sua imagem pública e lançou as bases para uma transição bem-sucedida para a política. Contarei aqui sua honrada e vitoriosa história. Ele formou-se em economia e sociologia, foi ator em Hollywood, líder sindical e entre 1967-1975 governador da Califórnia, antes de tornar-se o quadragésimo presidente dos Estados Unidos da América. Chegou num momento em que o país enfrentava grave crise econômica e de valores, especialmente devido à impopularidade mundial da guerra do Vietnã e à “paz sem honra” assinada em Paris em 1973. No final de seus dois mandatos, RONALD REAGAN obteve grandes conquistas com seu programa inovador, conhecido como a “Revolução Reaga, entre elas a volta do progresso e do otimismo norte-americanos, além da derrota do inimigo comunista soviético. Seu foco nas questões mais importantes – derrubar o Império do Mal, cortar taxas de impostos punitivas e controlar a inflação – o levou a fazer concessões para economizar capital político para realizar essas questões mais críticas.
 
Seu pai, Jack, era um homem sem sorte nos negócios, que caiu no alcoolismo. Sua mãe, Nelle, uma mulher caridosa e religiosa. A família mudou-se várias vezes antes de se estabelecer em Dixon, uma pequena cidade do meio-oeste. Quando adolescente, ele passou os verões trabalhando como salva-vidas na praia local de Rock River, um afluente do Mississippi, onde se diz que em sete anos salvou 77 vidas. O jovem não brilhou no meio acadêmico durante seus quatro anos no Eureka College, mas teve sucesso como jogador de futebol e como ator em peças. Se formou em 1932, em plena Grande Depressão, e pouco depois foi contratado como locutor esportivo em uma estação de rádio em Iowa. Anos depois, em 1937, desembarcou em Hollywood, e um agente de talentos o convidou para fazer um teste na Warner Bros. Sua naturalidade em frente às câmeras impressionou e gerou um contrato por sete anos com o estúdio, de US$ 200 por semana. Em seu primeiro papel protagonista, no criminal
“O Amor Está no Ar / Love Is on the Air” (1937), repetiu sua profissão de anos antes na vida real, interpretando um locutor de rádio.
 
Depois de vários filmes, alcançou reconhecimento como o atleta de futebol norte-americano George Gipp em
“Criador de Campeões”. Um papel que se tornou icônico e ajudou a solidificar sua posição na indústria do entretenimento. Logo seria um verdadeiro astro de cinema classe B, respeitado por aprender os diálogos rapidamente e sempre chegar na hora certa ao estúdio, além de simpático, obediente ao diretor e gentil com os colegas, um homem de confiança. Alternou Hollywood com o serviço militar e, em 1937, alistou-se na Reserva do Exército dos Estados Unidos com o posto de cabo, mas logo ascendeu a segundo-tenente. Após o ataque japonês a Pearl Harbor e a entrada oficial dos EUA no conflito de guerra, ele foi convocado, mas não pôde servir no combate devido a seus problemas de visão. Assim, foi designado para a Primeira Unidade de Cinema, subordinada à Força Aérea, onde trabalhou em inúmeros documentários. Esta etapa da sua vida consolidou seu patriotismo e o familiarizou com a importância dos valores, que se tornaria um dos eixos centrais do seu discurso.
 
Retornou a Hollywood no final da guerra e atuou no Screen Actors Guild (SAG), com sede em Los Angeles, do qual foi presidente por cinco mandatos consecutivos, de 1947 a 1952, e novamente de 1959 a 1960. Durante seu mandato, testemunhou perante o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara em 1946, em meio ao pânico comunista, mas recusou-se a citar nomes. Após anos de trabalho contra a penetração da esquerda no SAG, desenvolveu os princípios anticomunistas que permaneceram no centro das suas convicções durante toda a vida. Como anticomunista fervoroso, reafirmou ao comitê seu compromisso com os princípios democráticos:
Como cidadão, eu não quero ver o nosso país conduzido pelo medo ou ressentimento, e nós nunca podemos negociar qualquer um dos nossos princípios democráticos por causa deste medo e ressentimento.”. No SAG, RONALD REAGAN teve um papel importante na conquista de pagamentos residuais para atores. Antes, eram pagos com o lançamento dos filmes e não recebiam nada a mais caso os longas fossem exibidos posteriormente.
 
reagan e jane wyman
Chegou a convocar a famosa greve de atores e roteiristas em 1960, com o objetivo de que pudessem acessar os benefícios econômicos da venda de direitos cinematográficos. Esta experiência não só o ajudou a amadurecer a sua capacidade como negociador, mas também a aprender sobre os métodos de infiltração que o comunismo estava utilizando para entrar na indústria cinematográfica. Marcou também a conquista de direitos importantes para os atores, como acesso a seguro-saúde e pensão. Na sua autobiografia escreveu que era
“o Errol Flynn dos B’s”, por aparecer em vários filmes de baixo orçamento. Escalado para o papel de Victor Laszlo no clássico “Casablanca”, não o conseguiu, ficando por fim para o italiano Paul Henreid. O mais próximo que chegou do estrelato foi em um drama famoso indicado ao Oscar de Melhor Filme, “Em Cada Coração, um Pecado” (1942), interpretando um soldado cujas pernas são amputadas. “Onde está o resto de mim?”, seu personagem grita ao acordar da cirurgia. Para se preparar, consultou médicos, psicólogos e pessoas com deficiência. “Talvez eu nunca tenha me saído tão bem em um filme”, afirmou.
 
Ele nunca foi uma grande estrela cinematográfica. O que o salvou de cair no ostracismo foi a televisão. Em 1954, começou a apresentar o
“General Electric Theatre”, um programa dramático com convidados famosos (Fred Astaire, James Stewart, James Dean etc.). Ganhava cerca de US$ 125 mil por ano para este trabalho (cerca de US$ 1,07 milhão de dólares hoje). Para mostrar os produtos da General Electric, episódios foram filmados na casa “totalmente elétrica” dos Reagan. Ia ao ar nas noites de domingo, entre “The Ed Sullivan Show” e “Alfred Hitchcock Presents”, e atraia mais espectadores do que ambos. Seu contrato exigia que fizesse visitas às fábricas da produtora, muitas vezes exigindo dele diversos discursos por dia. De 1954 a 1962, em microfones, ele contava histórias de Hollywood aos funcionários da GE e fazia falas políticas para grupos empresariais. As visitas foram “quase um curso de pós-graduação em ciência política”, diria mais tarde. Falando para conservadores, tornou-se na época um canal de Direita.
 
Em 1938, na meca do cinema, conheceu Jane Wyman
(1917 – 2007. Setor Joseph, Missouri / EUA), Oscar de Melhor Atriz em 1949 por “Belinda / Johnny Belinda”, com quem se casaria em 1940. Tiveram dois filhos biológicos, Maureen (1941 – 2001) e Christine (que nasceu em 1947, mas viveu apenas um dia), e um terceiro adotado, Michael (nascido em 1945). Se divorciaram em 1949, mas continuaram bons amigos por toda a vida. Ela afirmou que votou nele nas duas vezes em que concorreu à presidência. Pouco depois, ele se enamorou de outra atriz, Nancy Davis (1921- 2016. Nova Iorque / EUA), depois dela procurá-lo para resolver problemas relacionados ao aparecimento de seu nome em uma lista de comunistas. Tinha sido confundida com outra com o mesmo nome. Anos depois, ela descreveu o primeiro encontro deles como “eu não sei exatamente se foi amor à primeira vista, mas não ficou muito longe de ser”. Casaram-se em 4 de março de 1952 e o casal de atores Brenda Marshall e William Holden foram os padrinhos de matrimônio. Tiveram dois filhos: Patti (nascida em 1952) e Ron (em 1958).
 
brenda marshall, reagan, nancy travis e william holden
Atuaram juntos em um único filme,
“Demônios Submarinos / Hellcats of the Navy”. Considerado um dos casamentos mais famosos do século XX, que duraria mais de meio século, foi marcado por cartas de amor. “Minha querida, eu te amo muito”, escreveu à esposa em 20 de março de 1955, continuando “Nem me importo que a vida me tenha feito esperar tanto para encontrar você”. Ela decidiu se tornar a cuidadora de seu marido depois que ele foi diagnosticado com a doença de Alzheimer em 1994. Ele morreria em 2004, sendo o seu funeral um dos mais concorridos dos EUA. “Sinto muita falta de Ronnie, muita falta”, disse em uma entrevista de 2009 para a revista “Vanity Fair”. “Dizem que com o tempo a saudade passa. Não, não passa.”, concluiu. Ao longo da carreira, o carismático e atraente RONALD REAGAN participou de 52 produções cinematográficas. A “Bíblia” era o seu livro de cabeceira. Na década de 1950, ele se envolveu mais ativamente na política e em 1962 assumiu publicamente o partido republicano, ganhando atenção nacional quando falou em nome do candidato presidencial conservador Barry Goldwater.
 
O papel que mais gostava era o do soldado Drake McHugh em
“Em Cada Coração, um Pecado”, talvez o seu melhor desempenho. O título da sua autobiografia, publicada em 1965, “O que Aconteceu com o Resto de Mim?”, se refere a um diálogo deste drama. Seu último filme, o único no qual interpretou um vilão, foi o excelente policial “Os Assassinos”, baseado em conto de Ernest Hemingway. Apresentou ainda a série de televisão “Histórias do Vale da Morte / Death Valley Days”, de 1964 até 1965, e depois se aposentou das telas. A transição para a política foi notável. A trajetória marcante no entretenimento moldou sua imagem pública, preparando-o para o papel de liderança que desempenharia no cenário político mundial. Sua relação com o cinema forjou sua impecável oratória e capacidade de comunicação – permitindo-se inclusive usar o humor e inserir piadas anticomunistas em discursos e entrevistas. Chegou a fazer referências ao cinema em suas intervenções públicas, especialmente aos personagens de John Rambo e Rocky Balboa, recebendo manifestações entusiasmadas. Deixou saudades.
 

FONTES
“O Que Aconteceu com o Resto de Mim?” (1965)
de Ronald Reagan
 
“Ronald Reagan”
(2016)
de Bill O'Reilly
 
“O Verdadeiro Reagan: suas Virtudes e Importância”
(2023)
de James Rosebush

 
ann sheridan e reagan em em cada coração, um pecado
DEZ FILMES de REAGAN
(por ordem de preferência)
 
01
Os ASSASSINOS
(The Killers, 1964)

direção de Don Siegel
elenco: Lee Marvin, Angie Dickinson e John Cassavetes
 
02
Em CADA CORAÇÃO, um PECADO
(Kings Row, 1942)

direção de Sam Wood
elenco: Ann Sheridan, Robert Cummings, Betty Field,
Charles Cobrun, Claude Rains e Judith Anderson
 
03
VITÓRIA AMARGA
(Dark Victory, 1939)

direção de Edmund Goulding
elenco: Bette Davis, George Brent, Humphrey Bogart
e Geraldine Fitzgerald
 
04
FUGITIVOS do INFERNO
(Desperate Journey, 1942)

direção de Raoul Walsh
elenco: Errol Flynn, Nancy Coleman, Raymond Massey,
Alan Hale e Arthur Kennedy
 
05
DILEMA de uma CONSCIÊNCIA
(Storm Warning, 1950)

direção de Stuart Heisler
elenco: Ginger Rogers, Doris Day e Steve Cochran
 

06
CORAÇÃO AMARGURADO
(The Hasty Heart, 1949)

direção de Vincent Sherman
elenco: Patricia Neal e Richard Todd
 
07
A ESTRADA de SANTA FÉ
(Santa Fe Trail, 1940)

direção de Michael Curtiz
elenco: Errol Flynn, Olivia De Havilland, Raymond Massey,
Alan Hale e Van Heflin
 
08
CENTELHA de AMOR
(The Voice of the Turtle, 1947)

direção de Irving Rapper
elenco: Eleanor Parker, Eve Arden e Wayne Morris
 
09
CRIADOR de CAMPEÕES
(Knute Rockne All American, 1940)

direção de Lloyd Bacon
elenco: Pat O'Brien, Gale Page e Donald Crisp
 
10
NOITE APÓS NOITE
(Night Unto Night, 1949)

direção de Don Siegel
elenco: Viveca Lindfors e Broderick Crawford
 
ronald reagan e bette davis em vitória amarga
“Foi dito que a política é a segunda profissão mais antiga.
Aprendi que tem uma semelhança impressionante
com a primeira.”
RONALD REAGAN

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