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outubro 30, 2016

***** PEQUENA HISTÓRIA do CINEMA BRASILEIRO

limite de mário peixoto

 
Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão.
GLAUBER ROCHA


A indústria cinematográfica brasileira arrasta há anos os mesmos problemas: dificuldade em captar recursos, roteiros capengas, direção amadora ou convencional, figuração comprometedora e exibição restrita. Mas merece ser garimpada. Eu o conheça desde que me entendo por gente e, ainda menino, colecionava fotografias e cartazes, e nas sessões da tarde na Globo ria vendo as ingênuas chanchadas de Oscarito-Grande Otelo e as comédias caipiras de Amácio Mazzaropi. Ainda na TV, não perdia as produções da Vera Cruz, admirando “O Cangaceiro” (1952), de Lima Barreto, o primeiro filme brasileiro a obter êxito internacional, e “Sinhá Moça” (1953), de Tom Payne, com Eliane Laje, Anselmo Duarte e Ruth de Souza. A produção de época, versão do romance de Maria Dezonne Pacheco, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim.

grande otelo e oscarito
Na condição de cinéfilo, jornalista e comentarista da sétima arte, sempre estive interessado no CINEMA BRASILEIRO e procuro abordar, com justeza e imparcialidade, a sua trajetória de altos e baixos. Adolescente, descobri Bruno Barreto, Carlos Diegues e Arnaldo Jabor, e muito escrevi sobre eles na época. De Bruno assisti com prazer “A Estrela Sobe” (1974) e “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976). Ainda me lembro do frescor erótico de José Wilker e Sonia Braga. Diegues se esforça, acertando mais ou menos em “Xica da Silva” (1976) e “Chuvas de Verão” (1977). No entanto, o seu melhor trabalho, “Bye Bye Brasil” (1979), é um dos bons filmes da cinematografia nacional.

De carreira curta e densa, Jabor brilha nos nelsonrodriguianos Toda Nudez Será Castigada” (1973) e “O Casamento” (1975), e no sensual “Eu Te Amo” (1980). “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1984), centrado nas lembranças e discussões de um jovem casal recém-separado, levou prêmio em Cannes de Melhor Atriz para Fernandinha Torres. Realmente lamentável a troca do diretor, de cinema inteligente por um jornalismo de olho no próprio umbigo.  Em 2010 ele voltou a filmar, mas “A Suprema Felicidade” não foi bem recebido. No Centro de Estudos Brasileiros, em Barcelona, assisti expressivos filmes nossos, inclusive o pioneiro Humberto Mauro e seus “Brasa Dormida” (1928) e “Ganga Bruta” (1932). Discordo do título de “nossos maiores cineastas” dado pelos especialistas a Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, nem considero que o cinema nacional atravessa uma fase radiante, depois dos anos duros pós-extinção da Embrafilme pelo governo Collor de Mello. Produção periódica não significa qualidade.

glauber rocha
Autor da obra-prima “Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), Glauber se deixou possuir nele pelo russo Sergei Eisenstein. Revela chispas de genialidade em “Barravento” (1961), “Terra em Transe” (1966) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968). Mas o seu último trabalho, “A Idade da Terra” (1980), não passa de um quebra-cabeças neurótico e desconexo. Nelson Pereira dos Santos comove no sóbrio “Vidas Secas” (1963), na comédia “Como Era Gostoso o meu Francês” (1970) e no drama baseado em Graciliano Ramos, “Memórias do Cárcere” (1983). O resto aborrece, inclusive as artificiais adaptações de Jorge Amado, “Tenda dos Milagres” (1977) e “Jubiabá” (1986).

Nos anos 1960, o Cinema Novo despiu o país, teve prestígio no mercado internacional e arrebatou prêmios em festivais. Soube conciliar forte invenção cinematográfica com análise funda de conjunturas sociais. Nesta década do clássico “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, Palma de Ouro em Cannes, surgiram dramas irreverentes dirigidos por Ruy Guerra (“Os Cafajestes”, 1961, e “Os Fuzis”, 1963); Paulo César Saraceni (“Porto das Caixas”, 1962); Luís Sérgio Person (“São Paulo S/A”, 1964, e “O Caso dos Irmãos Naves”, 1967), Walter Hugo Khouri (“Noite Vazia”, 1964), Joaquim Pedro de Andrade (“O Padre e a Moça”, 1965, e “Macunaíma”, 1969), Roberto Santos (“A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, 1965), Maurice Capovilla (“Bebel, a Garota Propaganda”, 1967), Ozualdo Candeias (“A Margem”, 1967), Antonio Carlos Fontoura (“Copacabana me Engana”, 1968) e Gustavo Dahl (“O Bravo Guerreiro”, 1968).

O Cinema Novo dividiu a classe cinematográfica e, na maior parte dos casos, esvaziou as salas de projeção. A origem do nosso cinema experimental, investindo em possibilidades incomuns, tinha começado décadas antes, no vertiginoso “Limite” (1930), com produção, roteiro, direção e montagem de Mário Peixoto. Do mesmo período, lembro-me do realismo sertanejo, da caatinga, Lampião e seu grupo filmados pelo mascate sírio Benjamim Abraão Jacó. Imagens perturbadoras, luz solar estourada. Mais adiante, o documentário se destacaria em “O País de São Saruê(1971), de Vladimir Carvalho, e “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, entre outros.

Até o final dos anos 1940, o amadorismo do CINEMA BRASILEIRO era visível em roteiristas, técnicos e intérpretes. Quase tudo era na base do improviso. Fotografava-se mal e o som gravado era inaudível. Exploravam-se os musicais, comédias de sucesso no teatro e melodramas folhetinescos. A criatividade superava entraves, mas, na maior parte, a qualidade deixava a desejar. Nos anos 1950, o cinema pomposo invadiu o Brasil, marcando o início da industrialização em moldes de Hollywood. Nasceu a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. “O Quatrilho” (1995) tem o estilo desse estúdio de produções afetadas. A figura maior da Vera Cruz, Alberto Cavalcanti, cineasta brasileiro valorizado na Europa desde o cinema mudo, assumiu a direção geral de produção, supervisionou a construção dos estúdios, lançou diversos atores e trouxe profissionais ingleses, franceses e austríacos. Depois montou sua própria produtora, Kino Filmes, realizando três filmes, entre eles, “O Canto do Mar” (1953).

Abrindo caminho para o Cinema Novo, “Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos, foi recebido com elogios. Influenciado pelo neo-realismo italiano, o CINEMA BRASILEIRO finalmente encontrava sua identidade, ultrapassando os interesses do mercado e investindo na inquietação artística. Pedra fundamental do movimento cinemanovista, o drama de episódios “Cinco Vezes Favela” (1961), lançou prometedores cineastas: Marcos Faria (“O Favelado”), Miguel Borges (“Zé da Cachorra”), Carlos Diegues (“Escola de Samba Alegria de Viver”), Joaquim Pedro de Andrade (“Couro de Gato”) e Leon Hirszman (“Pedreira de São Diogo).

helena ignez e paulo villaça
em o bandido da luz vermelha
No final de 1960 e parte de 1970, foi muito falado o radical e alegórico Cinema Marginal ou da Boca do Lixo, ou ainda Cinema do Terceiro Mundo. Rogério Sganzerla (“O Bandido da Luz Vermelha”, 1968), Júlio Bressane (“Matou a Família e foi ao Cinema”, 1969), Andréa Tonacci (“Bang Bang”, 1971) e Carlos Reichenbach (“Amor Palavra Prostituta”, 1979) são os nomes mais conhecidos deste movimento. A Belair, produtora de Bressane e Sganzerla, realizou uma série de filmes de baixo custo, feitos em esquema ágil de produção. Na década de 1970, multiplicaram-se os filmes. O cinema dito de esquerda alimentava-se das verbas do Instituto Nacional do Cinema e, depois, da Embrafilme. Produtores uniram a chulice ao erotismo, e lançaram a pornochanchada. 
 
Entretanto, esta época não foi de toda negativa, revelando clarões inspirados em “A Casa Assassinada” (1970), de Paulo César Saraceni, do romance de Lúcio Cardoso; “Os Deuses e os Mortos” (1970), de Ruy Guerra; “A Rainha Diaba” (1971), de Antônio Carlos Fontoura, com interpretação antológica de Milton Gonçalves; “Os Inconfidentes” (1971) e “Guerra Conjugal” (1974), adaptado de contos de Dalton Trevisan, de Joaquim Pedro de Andrade; o notável “São Bernardo” (1971), de Leon Hirszman; “Tati, a Garota” (1972), de Bruno Barreto; “Morrer de Amor” (1972), de Jorge Ileli; “Os Condenados” (1973), de Zelito Viana, do livro de Oswald de Andrade; “Lição de Amor” (1975), de Eduardo Escorel; “Marília e Marina” (1976), de Luiz Fernando Goulart; “Gordos e Magros” (1976), de Mário Carneiro; e o desconcertante “A Lira do Delírio” (1977), de Walter Lima Jr. 

zezé motta em xica da silva
O nosso mais famoso cineasta, o baiano Glauber Rocha, encerrado numa fábula selvagem, morreu jovem, em 1981, aos 42 anos, depois de exílio voluntário em Sintra, Portugal. Nessa época não havia mais a câmara na mão, em movimento, oscilando. Um momento cinematográfico infértil, destacando-se nas trevas Arnaldo Jabor e o argentino Hector Babenco em “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (1981), obra que seduziu plateias e abriu as portas do mercado internacional para o seu diretor, graças a uma história realista e fabulosa atuação de Marília Pêra como a prostituta Suely.

Ainda nos anos 1980, a direção de Ícaro Martins e José Antônio Garcia em “O Olho Mágico do Amor” (1981); Leon Hirszman no contundente “Eles não Usam Black-tie” (1981); Walter Lima Jr no cândido “Inocência” (1982); Carlos Alberto Prates Correia em “Noites do Sertão” (1983), adaptado de “Buriti” de Guimarães Rosa; André Klotzel no satírico “A Marvada Carne” (1985); Suzana Amaral em “A Hora da Estrela” (1985); Wilson Barros em “Anjos da Noite” (1986); Caetano Veloso no godarniano “O Cinema Falado” (1986); Sérgio Toledo em “Vera” (1986); Sérgio Bianchi no cínico “Romance” (1987); Bruno Barreto em “Romance da Empregada” (1987); e José Antônio Garcia em “O Corpo” (1989), do conto de Clarice Lispector. Sem a Embrafilme nos anos 1990, rodaram unicamente 14 produções em três anos. Com o sucesso do escrachado “Carlota Joaquina - Imperatriz do Brasil” (1995), de Carla Camuratti, acolhendo mais de um milhão de espectadores, criou-se o buxixo do renascimento do CINEMA BRASILEIRO. A obra não passa de uma comédia amadora, esquecível. 
 
Além de Camuratti, o nosso cinema foi pilotado por outras mulheres: Gilda de Abreu, Teresa Trautman, Norma Benguell, Tizuka Yamasaki, Sandra Werneck. Entre todas elas, destaco a sensibilidade e boas intenções de Ana Carolina (“Amélia”, 1997), Suzana Amaral, Daniela Thomas, Tata Amaral (“Um Céu de Estrelas”, 1996), Monica Gardemberg (“Jenipapo”, 1996), Eliana Caffé (“Kenoma”, 1998), Lucia Murat (“Brava Gente Brasileira”, 2000), Laís Bodanski (“Bicho de Sete Cabeças”, 2000) e Lina Chamie (“Tônica Dominante”, 2001). Pouco comentado, Ugo Giorgetti (“Sábado”, 1995) contribui para a história do nosso cinema. O conjunto da sua obra tem compromisso com a geografia de São Paulo. Em “Uma Outra Cidade”, para a tevê Cultura, descreve a metrópole a partir de cinco poetas: Roberto Piva, Jorge Mautner, Rodrigo de Haro, Cláudio Willer e Antonio Fernando De Franceschi. Walter Salles rodou com sensibilidade Terra Estrangeira” (1995) e “O Primeiro Dia” (1998), ambos em colaboração com Daniela Thomas. Seu “Central do Brasil” (1997) levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o Globo de Ouro, o BAFTA e mais 52 prêmios internacionais. “Abril Despedaçado” (2001), também dele, versão do livro do albanês Ismail Kadaré, revela-se lírico.

luiz carlos vasconcelos 
em baile perfumado
Nos 1990 e nos primeiros anos do novo milênio, gosto especialmente de “A Ostra e O Vento” (1997) de Walter Lima Jr., “Baile Perfumado” (1997), dos estreantes pernambucanos Paulo Caldas e Lírio Ferreira; e “O Coração Iluminado” (1998), de Hector Babenco. Djalma Limongi Batista (“Bocage, o Triunfo do Amor”, 1997), Sérgio Resende (“A Guerra de Canudos”, 1998) e Flávio R. Tambellini (“Bufo & Spallanzani”, 2000) sempre foram cineastas de olho principalmente na bilheteria. Aluísio Abranches (“Um Copo de Cólera”, 1998), Roberto Santucci Filho (“Bellini e a Esfinge”, 2001) e Beto Brandt (“O Invasor”, 2002) não desenvolveram a carreira.

Neste início da primeira década do século XXI, uma proliferação de produções enfadonhas e previsíveis. Salvam-se o encanto cômico de “Domésticas – O Filme” (2001), de Fernando Meireles e Nando Olival; o sensível e arrebatador “Lavoura Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho; o expressivo “Carandiru” (2003), de Hector Babenco; e “Amarelo Manga” (2003), de Cláudio Assis. Tempo também de Guel Arraes (“O Auto da Compadecida”, 2000, e “Caramuru – A Invenção do Brasil”, 2001), apostando na estética, mas escorregando no arremedo televisivo; Carlos Gerbase (“Tolerância”, 2000); da competência de Andrucha Waddington no sucesso de “Eu Tu Eles” (2000); e Jorge Furtado (“Houve uma Vez Dois Verões”, 2001), que ainda nos deve o filme honesto que esperamos dele, vinte e sete anos depois do aclamado curta “Ilha das Flores” (1989).

lázaro ramos em madame satã
Nos anos seguintes, alguns filmes fizeram história: “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund; Madame Satã” (2002), de Karim Ainouz; “Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio” (2002), de Rosemberg Cariry; “Nina” (2004), de Heitor Dhalia; “Cidade Baixa” (2005), de Sérgio Machado; “Casa de Areia” (2005), de Andrucha Waddington; “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), de Marcelo Gomes; “Estômago” (2007), de Marcos Jorge; “Tropa de Elite 1 e 2” (2007 e 2010), de José Padilha; “Feliz Natal” (2008), de Selton Mello; “Linha de Passe” (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas; “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), de Marcelo Gomes e Karim Ainouz;A Festa da Menina Morta” (2009), de Matheus Nachtergaele; “O Palhaço” (2011), de Selton Mello; “A Febre do Rato” (2011), de Cláudio Assis; “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho; “Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda; “O Lobo Atrás da Porta” (2013), de Fernando Coimbra; e “Meu Amigo Hindu” (2015), de Hector Babenco.

A despeito de esforços individuais, poucas produções atuais escapam do convencional. Temos diretores competentes, atores que dão conta do recado e maravilhosos fotógrafos, mas ainda não encontramos o caminho viável, libertário e talentoso.  Somos o país do carnaval, o país do futebol, o país da telenovela. A sensualidade é nossa, o deboche é nosso. O CINEMA BRASILEIRO reflete isso muito bem: a realidade escandalosamente surreal e escapista. Portanto, mesmo com desacertos, palmas para nossos filmes. Não se pode definir as perspectivas d e um futuro próximo. No momento, passamos mais uma crise das tantas pelas quais tem passado esta brincadeira cara e frágil, esta mescla de arte, indústria e divertimento inigualável – um sonho sem fim. 
 
Fonte
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros: 1929-1988”
de Salvyano Cavalcanti de Paiva
 
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janeiro 06, 2013

********** Os 10 MELHORES FILMES de 2012




Cinéfilo de carteirinha gosta de diversos tipos de filmes, desde certos blockbusters aos indicados ao Oscar, de clássicos imperdíveis a cults que saíram bem falados dos festivais. Acreditando nessa teoria, O FALCÃO MALTÊS assistiu 513 filmes em 2012, listando aqui Os 10 MELHORES FILMES do ANO, mas também quer saber quais deles você curtiu mais. Diga qual é o seu filme preferido de 2012 e explique a sua escolha, concorrendo a cinco títulos inesquecíveis. É rápido e fácil. Participe!  O 1º lugar leva três filmes em DVD, o  2º ganha dois. Participam do sorteio somente os comentários com um título e a justificativa da escolha, que não precisa ser longa, basta uma frase. A promoção limita-se ao território brasileiro e o resultado será divulgado na nossa próxima postagem com a lista dos 10 mais votados pelos leitores. A verdade é que 2012 não foi um bom ano para o cinema. Tanto que não foi difícil selecionar dez filmes para compor a lista dos meus preferidos. Nela, vale lembrar, entram somente filmes que vi. Aproveito também para listar Os 10 MELHORES CLÁSSICOS que vi em 2012. Vamos às listas!

10
Um METÓDO PERIGOSO
(A Dangerous Method, 2011)
direção de David Cronenberg
(Inglaterra, Alemanha, Canadá e Suiça)

Cinebiografia dos célebres psicanalistas Sigmund Freud e Carl Jung, focalizando a relação entre os personagens e o triângulo amoroso formado com uma paciente. Baseia-se na peça “The Talking Cure”, de Christopher Hampton. Um grande mérito do filme está em não sucumbir ao peso habitual das produções de época, permitindo que seus personagens se movimentem e reajam de forma natural. O diretor também enfrenta a contento o desafio de humanizar dois mitos do nível de Freud e Jung, tornando palpáveis tanto suas contradições quanto seus sentimentos.

09
A FEBRE do RATO
(2011)
direção de Cláudio Assis
(Brasil)

Febre do rato é uma expressão típica do Nordeste, que significa estar fora de controle. O protagonista do filme, um anti-herói poeta por vocação, dedica a vida à publicação de seu jornaleco, cujo nome é o mesmo do título. O objetivo é expor suas ideias, repletas de propostas anárquicas que valorizam o livre arbítrio das pessoas, sem se prender às amarras morais impostas pela “vida civilizada”. O diretor pernambucano brilha novamente ao retratar seu universo sórdido. Destaque para a fotografia de Walter Carvalho.

 08
INTOCÁVEIS
(Intouchables, 2011)
direção de Eric Toledano e Olivier Nakache
(França)

Inspirada em uma história real, a comédia dramática levou mais de 20 milhões de franceses aos cinemas. O que poderia render um dramalhão lacrimoso virou uma espirituosa trama capaz de tirar do sério um tema espinhoso. Após sofrer um acidente, um milionário fica tetraplégico. Precisando de um assistente, ele decide contratar um jovem negro problemático que não tem a menor experiência em cuidar de pessoas no seu estado. Começa aí uma amizade improvável embalada por situações ora divertidas, ora emocionantes, quase sempre de deixar a plateia com um nó na garganta.

07
MISTÉRIOS de LISBOA
(2010)
direção de Raoul Ruiz
(Portugal e França)

O amor arrebatador e trágico do romancista Camilo Castelo Branco num filme de quatro horas e meia (seis na versão televisiva que tem a forma de uma minissérie de seis episódios) que conta com excelentes interpretações. O enredo cruza uma série de histórias. Filme de cores sombrias, próximas do sépia. Uma sensível viagem no tempo.

06
HOLY MOTORS
(Idem, 2012)
direção de Leos Carax
(França e Alemanha)

Não é um filme fácil. O óbvio simplesmente não existe. Estranho, conceitual, cumpre seu papel de instigar e maravilhar. Fábula surrealista, daquelas em que o espectador é deixado com muitas dúvidas e praticamente nenhuma resposta. O jogo aqui não é distinguir realidade de ficção, mas ficção de ficção. E é durante a série de metamorfoses a que o ator Denis Lavant é submetido que o filme se desenvolve como uma espécie de compêndio sobre a arte e a necessidade de representar e interpretar, seja na tela de cinema ou fora dela. Um delírio estético, no melhor sentido.

05
MOONRISE KINGDOM
(Idem, 2012)
direção de Wes Anderson
(EUA)

Wes Anderson mais uma vez lança mão de seu estilo extravagante, agora para narrar o romance juvenil entre um impetuoso escoteiro e uma garota introspectiva e emotivamente complexa, membros das típicas famílias disfuncionais dos filmes do diretor. É um filme doce, com aura de fábula, que fala sobre descobertas e sentimentos.

04
DRIVE
(Idem, 2011)
direção de Nicolas Winding Refn
(EUA)

Pode parecer a princípio, mas não é um filme revisionista ou saudosista. A memória dos anos 70 que ele resgata está na forma com que combina o estilo elegante e a brutalidade de filmes como “Os Implacáveis / The Getaway” (1972), de Sam Peckinpah ou “Operação França / The French Connectiom” (1971), de William Friedkin. Violento e perturbador. Atuação marcante de Ryan Gosling. Melhor Diretor no Festival de Cannes.

 03
FAUSTO
(Faust, 2011)
direção de Aleksandr Sokurov
(Rússia)

Adaptação russa livre da obra do imortal Goethe. Tem um bom ritmo e diálogos que prendem a atenção, ainda que pouca coisa de fato aconteça no diabólico pacto do protagonista com Mefisto. Leão de Ouro no Festival de Veneza.

02
PRECISAMOS FALAR SOBRE o KEVIN
(We Need to Talk About Kevin, 2011)
direção de Lynne Ramsay
(Inglaterra e EUA)

Perturbador não apenas pela história, mas pela inexistência de um motivo para o brutal. Apenas a constatação de que a mente humana, que pode produzir tantas maravilhas, é também capaz das maiores atrocidades. Melhor Atriz no European Film Awards.

01
AMOUR
(Idem, 2012)
direção de Michael Haneke
(França, Alemanha e Áustria)

Um casal de octogenários enfrenta a progressiva deterioração física e mental da esposa e as difíceis opções que devem ser feitas pelo marido. Palma de ouro em Cannes. Deliberado e elegante exercício sobre amor e moral no inverno da vida, Michael Haneke desafia a plateia a refletir sobre nosso inevitável destino como seres humanos. Desempenhos extraordinários de Emmanuelle Riva e Jean Louis Trintignant. Palma de Ouro no Festival de Cannes. Melhor Filme, Melhor Ator e Atriz no European Film Awards.


Os 10 MELHORES CLÁSSICOS que vi em 2012

10
DENTRO da NOITE
(They Drive by Night, 1940)
direção de Raoul Walsh
(EUA)

09
O CORVO
(Le Corbeau, 1943)
direção de Henri-Georges Clouzot
(França)

08
Os ASSASSINOS
(The Killers, 1964)
direção de Don Siegel
(EUA)

07
ONIBABA
(Idem, 1964)
direção de Kaneto Shindô
(Japão)

06
O PADRE e a MOÇA
(1966)
direção de Joaquin Pedro de Andrade
(Brasil)

05
AMARGA ESPERANÇA
(They Live by Night, 1948)
direção de Nicholas Ray
(EUA)

04
VERÃO VIOLENTO
(Estate Violenta, 1959)
direção de Valério Zurlini
(Itália)

03
NOITE e NEBLINA
(Nuit et Brouillard, 1955)
direção de Alain Resnais
(França)

02
CHAMAS de VERÃO
(Mademoiselle, 1966)
direção de Tony Richardson
(França e Inglaterra)

01
A GRANDE ILUSÃO
(La Grande Illusion, 1937)
direção de Jean Renoir
(França)