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abril 12, 2018

****** 15 FILMES - O CHARME de RICHARD GERE



 
Altura: 1,78 m
Cor dos olhos: marron claro
Cor do cabelo: castanho
Peso: 76 Kg

 
Conhecido por sucessos extraordinários como “Gigolô Americano”, “A Força do Destino”, “Uma Linda Mulher” e “Chicago”, o sex symbol RICHARD GERE (31 de agosto de 1949. Filadélfia, Pensilvânia, EUA) declarou em recente entrevista: “Depois do American Gigolo minha vida mudou e foi maravilhosa e difícil. Eu era jovem e de repente as pessoas sabiam quem eu era. Eu só queria trabalhar. Eu não penso em mim como ‘rico e famoso’. Eu simplesmente não estou interessado nisso.” Budista, envolvido em causas pela proteção do Tibete, é amigo do Dalai Lama e após duas décadas de jornadas na China, Nepal, Mongólia e Tibete, lançou um livro de fotografias dessas viagens. Tornou-se vegetariano e se manifesta em favor da paz, dos direitos humanos e dos animais.

Criado numa fazenda até ganhar uma bolsa de estudos para estudar filosofia na Universidade de Massachusetts, RICHARD GERE começou sua carreira na Broadway. Seu primeiro filme foi em “Perigos / Report to the Commissioner” (1975), tornando-se um astro em 1980 no papel-título do drama “Gigolô Americano”. Antes de começar a atuar, fez parte de bandas de rock. Na juventude, teve sorte ao protagonizar bons filmes rejeitados por John Travolta. Experimentou também diversos inesperados fracassos cinematográficos. 
 
Casado com as modelos Cindy Crawford e Carey Lowell, e teve com esta última um filho em 2000. Além dos casamentos oficiais, viveu um romance com a artista plástica brasileira Sylvia Martins, nos anos 80. “Estive algumas vezes no Brasil e adorei. Tenho bons amigos lá”, disse. Concorreu a quatro Globos de Ouro, ganhando um deles, em 2002, por “Chicago”. RICHARD GERE nunca foi indicado ao Oscar nem se rendeu ao cinema de ação. O seu talento foi eclipsado pela beleza e charme. Uma injustiça, pois já provou sua capacidade dramática. Entre 51 filmes de sua versátil filmografia, escolhi quinze, por ordem de lançamento. Confira.

01
Tony em
À PROCURA de MR. GOODBAR
(Looking for Mr. Goodbar, 1977)

direção de Richard Brooks

Baseado em uma história real. Durante o dia, professora católica fervorosa (excelente Diane Keaton) dá aula para crianças surdas, sendo considerada um modelo de bom comportamento. À noite, assume sua compulsão por sexo, frequentando bares de Nova York em busca de parceiros. Volta para casa sempre acompanhada de desconhecidos, um dos quais seria o responsável por seu trágico assassinato. Assustador, estranho e cru, o drama mostra o lado mais escuro de encontros ocasionais sexuais. Aos 28 anos, Gere faz um dos amantes da professora, revelando desde já seu charme imbatível. Boa fotografia em tons escuros e trilha sonora composta por clássicos da disco music.

02
Bill em
CINZAS no PARAÍSO
(Days of Heaven, 1978)

direção de Terrence Malick

Sem dinheiro ou morada fixa, o personagem de RICHARD GERE e a namorada, Abby (Brooke Adams), partem de Chicago ao Texas para trabalhar numa fazenda. O patrão, portador de doença terminal, apaixona-se pela jovem, algo que o casal vê como oportunidade. Fingindo-se irmãos, eles levam a mentira às últimas consequências. O ator se sobressai pela força de seu protagonista em um choque de emoções. A beleza plástica da fotografia de Néstor Almendros foi premiada com o Oscar.

03
Julian Kay em
GIGOLÔ AMERICANO
(American Gigolo, 1980)

direção de Paul Schrader

Na história de sexo e política, Gere interpreta um personagem que leva uma vida luxuosa em Los Angeles, trabalhando como acompanhante de mulheres ricas. Sua rotina é abalada por dois acontecimentos: o relacionamento afetivo que começa a desenvolver com Michelle (Lauren Hutton), esposa de um senador, e a acusação do assassinato de uma de suas clientes. Sem poder revelar muito sobre as suas práticas pela natureza do próprio trabalho, ele começa a suspeitar que está sendo incriminado. Schrader filma essa mistura de drama e suspense com uma frieza refinada, retratando um universo de jogos de aparências. Trafegando por meios em que a opulência é regra, o garoto de programa Julian Kay cheira cocaína, faz sadomasoquimo e ganha a vida transando com socialites e esposas de políticos. Além de tornar Gere um astro, o filme ficou marcado pelos ternos Armani impecáveis, carros de luxo e a trilha sonora de Giorgio Moroder. 

04
Zack Mayo em
A FORÇA do DESTINO
(An Officer and a Gentleman, 1982)

direção de Taylor Hackford

A história centraliza-se no rebelde Zack Mayo (RICHARD GERE, em papel planejado para John Travolta, que por acabou por desistir pouco antes das filmagens) que viveu sua adolescência entre prostitutas e brigas nas ruas de Filipinas. Ele decide mudar sua vida tornando-se um oficial da marinha. Para isto passa por um difícil curso preparatório de 13 semanas comandado pelo durão sargento Emil Foley, vivido pelo excelente Louis Gosset Jr (Oscar de Melhor Ator Codjuvante). Neste curso, ele aprende a importância da disciplina, do amor e da amizade. O filme recebeu vários prêmios e Gere concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Ator-Drama. É um longa emocionante, cuja história une romance, amizade e amadurecimento, demonstrando a força da superação e a vitória da persistência. Destaque para a canção “Up Where We Belong”, vencedora do Oscar.

05
Jesse Lujack em
A FORÇA de um AMOR
(Breathless, 1983)

direção de Jim McBride

Refilmagem de “Acossado”, famoso clássico francês de Jean-Luc Godard. No auge da fama de símbolo sexual, RICHARD GERE em excelente interpretação faz um foragido da polícia vidrado no roqueiro Jerry Lee Lewis e nos quadrinhos do “Surfista Prateado”. Durante uma perseguição de carros, ele mata acidentalmente um policial e começa uma fuga na direção da fronteira do México, com a namorada, a sensual francesa Valérie Kaprisky, estudante de arquitetura que ele acaba de conhecer em Las Vegas. Na maior parte das bonitas cenas, apresenta o ardente casal em movimentadas aventuras. Incompreendido, é um filme inovador e acima da média.

06
Dixie Dwyer em
COTTON CLUB
(The Cotton Club, 1984)

direção de Francis Ford Coppola

Misto de musical e filmes de gangsters durante a Grande Depressão. No centro, Dixie Dwyer (RICHARD GERE), trompetista que salva a vida de um gangster judeu, recebendo em troca um emprego no badalado clube noturno do título, no Harlem. No local, conhece a sedutora cantora Vera (Diane Lane), com quem tem um romance. A relação do casal é explosiva, entre brigas e momentos de carinho e paixão. Eles voltariam a atuar duas décadas depois em “Infidelidade” (2002) e “Noites de Tormenta” (2008). Entre o fascínio do jazz e a violência, não fez sucesso, mas é uma agradável produção.

07
Pete St. John em
Os DONOS do PODER
(Power, 1986)

direção de Sidney Lumet

O que faz a fama e a fortuna de Pete St. John (RICHARD GERE), um especialista em campanhas políticas vitoriosas, é a atração irresistível que o poder exerce sobre as pessoas. Capaz de trabalhar para qualquer um, durante uma campanha para o Senado, ele descobre tramas escandalosas. No extraordinário elenco, Gene Hackman, Julie Christie, Denzel Washington, E.G. Marshall e Beatrice Straight.

08
Eddie Jillette em
SEM PERDÃO
(No Mercy, 1986)

direção de Richard Pearce

Eddie Jillette (Gere), um policial de Chicago, viaja para Nova Orleans para vingar o assassinato de seu parceiro, mas acaba descobrindo a existência de um complô que mascara as atividades de ricaços descendentes de franceses. Kim Basinger interpreta Michel Duval, a ligação entre o mocinho e o vilão. Neste policial, o ator num papel durão e Basinger no auge de sua sensualidade. Boa trama com um desfecho tenso.

09
Edward Lewis em
Uma LINDA MULHER
(Pretty Woman, 1990)

direção de Garry Marshall

Concebido para ser um drama, foi reformulado pelo diretor Marshall e se tornou uma comédia romântica. Na história, um ricaço (RICHARD GERE) encontra uma prostituta (Julia Roberts) no Hollywood Boulevard e a leva para um hotel. Ele se encanta pela moça e acaba contratando-a como companhia pelos próximos dias. Graças à sensibilidade colocada no personagem de Gere, suas dúvidas, seu jeito tímido e a química com sua parceira, é que o filme nos conquista. O ator recebeu uma indicação ao Globo de Ouro. “Uma Linda Mulher” emociona e diverte. Mérito de seu realizador, de um galã bonitão e de um sorriso feminino que se tornaria lendário.

10
Dennis Peck em
JUSTIÇA CEGA
(Internal Affairs, 1990)

direção de Mike Figgis

Dennis Peck (Gere) é um policial que burla a lei, e, por isso, o investigador Raymond Avilla (excelente Andy Garcia) recebe a missão de arrastá-lo aos tribunais para que pague pelos seus crimes. Porém, ele não se entrega facilmente, fazendo de tudo para se livrar das grades. O conflito entre os dois policiais é implacável. Com garra, RICHARD GERE faz um tira sedutor, corrupto e cínico.

11
Jack em
SOMMERSBY – O RETORNO de um ESTRANHO
(Sommersby, 1993)

direção de Jon Amiel

Adaptação do francês “O Retorno de Martin Guerre / Le Retour de Martin Guerre” (1982), de Daniel Vigne. Gere interpreta um militar dado como morto na Guerra Civil norte-americana. Depois de seis anos, ele retorna ao lar. Sua mulher Laurel (Jodie Foster) fica em dúvida se é mesmo o homem com quem casara, já que seu marido era rude e o que retornou é gentil e dedicado. Teria a guerra o transformado ou seria um impostor? O amor cresce na mesma proporção que as suspeitas. Se ele não é o mesmo com quem se casou, ela sabe que este é o homem que sempre sonhou. A dupla central rende bonitas atuações nesta história de paixão e mistério.

12
Martin Vail em
As DUAS FACES de um CRIME
(Primal Fear, 1996)

direção de Gregory Hoblit

Esta produção é mais lembrada por revelar Edward Norton, que logo em sua estreia rouba as cenas em que aparece. Mas é inegável que RICHARD GERE tem uma expressiva atuação como o arrogante advogado Martin Vail, que adora aparecer e parece trabalhar mais pela fama que seus casos podem lhe trazer. Ao defender o coroinha Aaron Stampler (Norton), acusado de assassinar um adorado arcebispo, vemos o desenrolar de um thriller inteligente e com boas surpresas, onde o ator encarna convincentemente o ego do protagonista, que aos poucos passa a se preocupar com o caso que tem em mãos ao invés de apenas com sua imagem.

13
Declan Mulqueen em
O CHACAL
(The Jackal, 1997)

direção de Michael Caton-Jones

Um famoso terrorista e assassino (Bruce Willis) é contratado por setenta milhões de dólares para cometer o assassinato de um influente político norte-americano. Os órgãos de segurança dos EUA descobrem o complô, mas se equivocam quanto a vítima, protegendo a pessoa errada. No entanto, existe um preso, membro do IRA (Gere), que é a única pessoa que conhece o rosto deste frio e temível matador de aluguel e tem motivos particulares para ajudar na perseguição.

14
Billy Flynn em
CHICAGO
(Idem, 2002)

direção de Rob Marshall

Um musical primoroso, mordaz e satírico. Entre a realidade e a fantasia, são 113 minutos de prazer. O teatro musical invade uma prisão para mulheres onde a sonhadora Roxie (Renée Zellweger) se encontra com Velma (Catherine Zeta-Jones) e outras tantas assassinas de maridos e amantes. Zellweger, Zeta-Jones e RICHARD GERE têm desempenhos primorosos. O advogado porta de cadeia charmoso é um marco na carreira do ator. Astuto, esperto, safado, dinheirista e competente, ele investe no sensacionalismo e se destaca em cena. Ganhou o Globo de Ouro.

15
Robert Miller em
A NEGOCIAÇÃO
(Arbitrage, 2012)

direção de Nicholas Jarecki

O empresário Robert Miller (Gere) é um embusteiro. Trai a mulher, Ellen (Susan Sarandon), com uma amante francesa (Laetitia Casta) e mexe nos números de suas firmas, com o propósito de vendê-las a um grande banco. Tentando manter as aparências, se vê encurralado pela pressão exercida por sua esposa, pela filha contadora e também por sua amante. O ator é a personificação da ambiguidade moral na pele de um personagem que oculta suas imprudências fiscais a fim de preservar o alto estilo da vida que leva. Numa bonita performance, RICHARD GERE traduz com competência as lacunas éticas no caráter do bem-sucedido enganador.


maio 29, 2011

************ F. SCOTT FITZGERALD e o CINEMA

f. scott fitzgerald


 

MEDIOCRIDADE e INCOMPREENSÃO no CINEMA

Sabe-se que o escritor F. SCOTT FITZGERALD teve uma relação difícil com Hollywood.  Precisando manter a mulher mentalmente perturbada, Zelda, em tratamento, e dependendo de vigorosos porres para escrever, ele precisava da profissão de roteirista. E, no entanto, não conseguia fazer o que lhe era pedido, talvez por ser literato demais e não entender as demandas dos diretores e produtores por histórias menos sofisticadas e matizadas psicologicamente. Hollywood queria profissionais que simplesmente respeitassem as regras daquele jogo, pagando-os bem para isso. Mas FITZGERALD era desajeitado ou orgulhoso demais para seguir aquelas regras – queria, como todo escritor, estabelecer as suas. E quebrava a cara porque há pouca discussão com os que só têm o lucro como mirada e acham que pruridos artísticos são, no máximo, frescura.

O folclore em torno de dois grandes escritores americanos e suas dificuldades em Hollywood, ele e William Faulkner, é bastante conhecido. Entre os escritores, há uma espécie de compreensão respeitosa e solidariedade inevitável com o que eles padeceram; entre homens de cinema, como o diretor Billy Wilder, que também foi roteirista (ver entrevista no livro “As Entrevistas da Paris Review”), há uma visão um pouco diferente: para Wilder, FITZGERALD, como outros escritores (Dorothy Parker, entre eles) que tinham ido de New York para Hollywood atraídos pelo dinheiro fácil do cinema nunca se deram ao trabalho de entender como funcionava o trabalho de roteirista realmente. Não tinham, em resumo, respeito por Hollywood e por isso não sabiam veicular suas idéias fazendo as devidas concessões ao “box-office”. Talvez pareça filisteísmo de Wilder, mas é também sua visão pragmática e esperta do que era sobreviver naquela selva iletrada. FITZGERALD e Faulkner abominavam tudo isso e se amargavam com as concessões e mais: se fizessem sucesso nos termos exigidos por Hollywood, cairiam no total auto-desprezo. Um impasse que nunca foi resolvido e, que com o tempo, parece purista e ingênuo, visto que muita gente aprendeu as regras do jogo muito bem e acharia esse sofrimento todo desnecessário, hoje em dia. Mas também hoje a condescendência com o lixo aumentou terrivelmente. Atualmente, cineastas e roteiristas se improvisam como homens de negócios com maior facilidade e até leviandade e blefam com menos penitência e mais competência para fazer o que querem fazer, ainda que os resultados do “box-office” continuem como sempre implacáveis, sem maior consideração pela arte ou pelas generosas idéias embutidas em projetos grandiosos. Nada mudou, para a indústria: filme bom é aquele que dá lucro.

Sob esse ponto de vista, natural que os filmes que Hollywood fez a partir de livros de FITZGERALD pareçam sempre dominados pela mediocridade e talvez por um desprezo inconsciente pelo escritor, como uma revanche. Andei vendo alguns desses filmes, e, francamente, não os recomendo a ninguém, a não ser como curiosidades e por alguns atrativos aqui e ali, especialmente para os que curtem nostalgia sem maior senso crítico.

DRAMALHÕES, MISCASTING e OUTRAS FALHAS

gregory peck e deborah kerr 
em “o ídolo de cristal”
O filme está em DVDs pelas bancas até e vai iludir muita gente pelo chamariz dos astros, Gregory Peck e Deborah Kerr, e os ares de importância, mas é um fracasso constrangedor. Chama-se “O Ídolo de Cristal”, é de 1959 e foi dirigido por Henry King. É a história da relação amorosa de FITZGERALD com a colunista inglesa Sheila Graham, que reinou em Hollywood com suas notícias e fofocas sobre o mundo do cinema. O tema era promissor, mas o “miscasting” foi fatal: nem Gregory Peck tinha jeito para incorporar o FITZGERALD embriagado, lúcido e amargo sob o despotismo de Hollywood que temos em imaginação nem Kerr, sempre encarnando a virtude e a elegância de senhora burguesa, era apropriada para passar a língua ferina e a ambição desvairada de Graham. O filme até começa bem, quando Sheila aparece já com uma frase peçonhenta dita a uma atriz medíocre durante uma filmagem, mas daí a pouco ela vai se tornando a santa mulher apaixonada pelo marido e abnegada, disposta a sofrer todos os caprichos masculinos por amor, de todos os melodramas. E o filme até comove os de choro fácil, mas como “novelão”, pois sente-se que um manto de falsidade e pieguice conveniente cobriu todo o projeto – FITZGERALD e Graham jamais seriam aqueles dois. Curiosamente, o filme só é convincente num curto trecho em que os dois brigam feio, ele embriagado, partindo até para a violência sobre ela. E há algo de forte quando ele morre, em meio à criação daquele que Edmund Wilson consideraria seu melhor romance, o inacabado “O Último Magnata”. Mas é só.

O curioso é que o diretor, King, não se mancou: em 1962 voltou ao terreno de FITZGERALD, mas aí saindo da biografia dúbia e partindo para a ficção do próprio, e realizou “Suave é a Noite”, baseado no romance homônimo bem conhecido. A produção foi cara, a fotografia é bonita, o figurino é convincente, mas o pecado capital foi cometido a partir do elenco, novamente: como acreditar em Jason Robards no papel do psiquiatra Dick Diver? Ele tinha que carregar o filme nas costas, e Robards não tinha matizes suficientes para dar conta do personagem – era apenas uma versão inferior de Humphrey Bogart. Jennifer Jones se esforçou para ser Nicole e conseguiu dar um pouco de vida ao personagem, mas já era uma atriz veterana e não conseguia esconder certas marcas de envelhecimento (ou plásticas mal feitas?) que a tornaram um pouco esquisita (em “Adeus às armas”, contracenando com Rock Hudson, isso já era notório). Tom Ewell como o amigo pianista de Diver estava constrangedor, e a música da trilha-sonora, com Earl Grant (gravada em versão brasileira por Moacyr Franco), fez sucesso. Mas o filme, revisto, parece longo, interminável, e oprime, porque sabemos que a história – ainda que não tenhamos lido o livro original - só poderá terminar mal. Para quem é nostálgico, um ou outro trecho pode ser compensador. Mas, no conjunto, o filme é medíocre.

elizabeth taylor e roger moore
e
m
a última vez que vi paris

Parece que os atores ruins, chatos ou inexpressivos ficavam sempre à frente dos projetos baseados em livros de FITZGERALD. Outro caso é “A Última Vez que Paris”, filme de 1954  baseado no conto “Babylon Revisited”. O inexpressivo da vez foi Van Johnson, que tinha que fazer um escritor alcoólatra que retorna a Paris no fim da Segunda Guerra Mundial e recorda o romance que teve com uma garota americana, e Johnson seguiu sua lógica de canastrão esforçado, pois não era mais que isso. O diretor, Richard Brooks, dizem, estava apaixonado por Elizabeth Taylor (ele e o resto da população masculina da Terra), e o filme só se sustenta pelo encanto da estrela e a beleza de uma canção da trilha sonora, até hoje muito lembrada.

Pensava-se que FITZGERALD seria um dia redimido pelo cinema americano, mas nos anos 70, o que aconteceu? Ver “O Grande Gatsby”, de 1974, chega a dar pena: um filme que tinha um orçamento gigantesco, um roteirista que era ninguém menos que Francis Ford Coppola, astros como Robert Redford e Mia Farrow nos papéis principais e a direção do inglês Jack Clayton (que fez a obra-prima “Os Inocentes”), simplesmente se afundou na inexpressividade e na indiferença, só chegando a ter algum sucesso de público por impor à moda uma voga passageira de roupas e carros dos anos 20. Nele, o estigma de papel principal estragado ficou para Robert Redford, que não conseguiu injetar paixão alguma a um personagem apaixonado que chega ao gangsterismo por amor. E nem o objeto de sua paixão convenceu ninguém – Mia Farrow está simplesmente esquisita, ora histérica ora apática como Daisy Buchanan, tanto que o filme foi escandalosamente roubado por dois atores menores, Bruce Dern e Karen Black, fazendo um casal secundário. Aliás, um outro escritor, Truman Capote, ficou incumbido do roteiro no início, mas a Paramount não gostou do que ele fez e ele, profético, ao sair da produção, disse: “Eles terão problema com o filme”.

robert de niro em 
“o último magnata”
Quanto a “O Último Magnata”, de 1976, quem topar com ele nas locadoras vai se deslumbrar com o elenco: De Niro, Tony Curtis, Robert Mitchum, John Carradine, Jeanne Moreau, Jack Nicholson e Anjelica Huston. E com o nome da direção: Elia Kazan. Tudo o recomenda, porque traz ainda a fama de obra-prima inconcluída do original. Mas é um filme que ninguém verá duas vezes, a menos que seja um caso de devoção masoquista. Lento, amargo, abordando a vida do grande produtor dos anos dourados de Hollywood, Irving Thalberg, traz esses atores que valem ser vistos, seguindo um roteiro do célebre dramaturgo Harold Pinter, mas, decididamente, não deu certo. E como, nesse caso, tudo, do elenco ao diretor, passando pelo diretor, conspirava para que fosse um clássico indispensável, é quase infalível concluir que FITZGERALD dava azar com o cinema.

Melhorou alguma coisa a adaptação do conto “O Estranho Caso de Benjamin Button”, realizado em anos recentes, com Brad Pitt à frente do elenco e David Fincher na direção? Há muita gente que considera este filme uma alegoria poética bem realizada. Quanto a mim, achei-o visualmente bonito e insosso, como uma versão catatônica de “Forrest Gump”, e Fincher, o diretor, não é bom nem para melodrama, porque a história não chega a comover, a despeito do personagem apelativo de Cate Blanchett que nos quer fazer chorar no seu leito de morte, onde relembra seu amado Button. Claro que Brad Pitt às vezes até surpreende (eu o acho bom é para comédias) num filme ou noutro, mas não sei se não deve ser enfileirado entre os muitos atores fracos que vieram liderando elencos dos vários filmes adaptados de histórias de FITZGERALD até hoje.

PROMESSAS ou AMEAÇAS?

brad pitt e cate blanchett
em
“o curioso caso 
de benjamin button
Eu não poderia concluir este artigo sem dizer que estou apreensivo por três novas adaptações de obras de FITZGERALD que apontam no horizonte e poderão estar circulando pelos cinemas em 2012: “O Grande Gatsby”, “Suave é a Noite” e “Belos e Malditos”. Os erros das adaptações de Jack Clayton e Henry King devem ter convencido alguns diretores que, com remakes apropriados, talvez FITZGERALD finalmente pudesse ser salvo. Quanto a “Belos e Malditos”, até onde sei, não foi adaptado para o cinema e passará por sua prova de fogo. Anuncia-se que “Suave é a Noite” pode voltar com Matt Damon e Keira Knightley. São dois bons atores, e Keira provou talento especial como a excelente Cecília de “Desejo e Reparação”. Curiosamente, é o nome dela que é cogitado também para viver Zelda, a mulher de FITZGERALD, na adaptação de “Belos e Malditos”, que seria dirigida por Nick Cassavetes (este me dá medo, pois fez aquele dramalhão constrangedor com Denzel Washington, “Um Ato de Coragem”). Mas o que me inspira mais apreensão é a notícia de que Baz Luhrman, diretor voltado para a estética pop de “Moulin Rouge” ou o drama épico fracassado de “Austrália”, estaria filmando “O Grande Gatsby”. É pelo menos um alívio saber que esse novo Jay Gatsby será vivido por Leonardo DiCaprio, ator que foi se tornando cada vez melhor e tem o tipo físico adequado para o papel, mas ainda assim, temo que Luhrman faça um Gatsby rodopiante, musical, estridente, “pop”, em suma, diluindo por completo o romance original. É pagar para ver. Com FITZGERALD, marcado pela sombra do bico do urubu em sua vida de roteirista falhado e de romancista incompreendido por Hollywood, os azares têm se provado sucessivos, mas pode ser que este novo milênio venha a dar filmes sobre ele ou a partir das obras dele que sejam finalmente dignos.

Texto de 
CHICO LOPES
escritor

F. SCOTT FITZGERALD no CINEMA

THE CHORUS GIRL’S ROMANCE 
(1920)
direção de William C. Dowlan

THE HUSBAND HUNTER 
(1920)
direção de Howard M. Mitchell

THE OFF-SHORE PIRATE 
(1921)
direção de Dallas M. Fitzgerald

BELOS e MALDITOS
(The Beautiful and Damned (1922)
direção de William A. Seiter

GRIT 
(1924)
direção de Frank Tuttle

O GRANDE GATSBY
(The Great Gatsby, 1926)
direção de Herbert Brenon


O GRANDE GATSBY
(The Great Gatsby, 1949)
direção de Elliott Nugent

A ÚLTIMA VEZ que VI PARIS
(The Last Time I Saw Paris, 1954)
direção de Richard Brooks

O ÍDOLO de CRISTAL
(Beloved Infidel, 1959)
direção de Henry King

SUAVE é a NOITE
(Tender is the Night, 1962)
direção de Henry King

O GRANDE GATSBY
(The Great Gatsby, 1974)
direção de Jack Clayton

O ÚLTIMO MAGNATA
(The Last Tycoon, 1976)
direção de Elia Kazan

SUAVE é a NOITE
(Tender is the Night, 1985)
direção de Robert Knights

EINER MEINER ALTESTEN FREUNDE
(1994)
direção de Rainer Kaufmann

O GRANDE GATSBY
(The Great Gatsby, 2000)
direção de Robert Markowitz

O ESTRANHO CASO de BENJAMIN BUTTON
(The Curious Case of Benjamin Button, 2008)
direção de David Fincher

BELOS e MALDITOS
(The Beautiful and Damned, 2010)
direção de Richard Wolstencroft

mia farrow como daisy 
em “o grande gatsby”