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dezembro 04, 2018

*** BERTOLUCCI: MESTRE no ÉPICO e no INTIMISMO



 
Entrevistei BERNARDO BERTOLUCCI  
no Festival de Cinema de San Sebastian
Espanha, 2000
publicada no jornal “A Tarde”, da Bahia, 
e no livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003)


Um artista incomparável. O cineasta BERNARDO BERTOLUCCI é considerado um dos maiores na grande tradição do cinema italiano. Tudo começou com seu segundo longa, “Antes da Revolução”, de 1962, reflexão sobre o sentido das revoluções. Anos depois seu nome tornou-se universal com o sucesso escandaloso de “O Último Tango em Paris”. Um desesperado viúvo de meia idade (Marlon Brando) inicia caso com uma jovem (Maria Schneider) numa Paris crepuscular. O drama existencialista é de uma beleza convulsiva e marcou época. Resistiu ao tempo e às tentativas tolas de vinculá-lo a duvidosos bastidores de filmagem. A crítica Pauline Kael comparou sua importância, para o cinema, à da estreia da “Sagração da Primavera”, de Stravinsky, para a música.

bertolucci, godard e pasolini
Aos 60 anos, BERNARDO BERTOLUCCI (Parma, Itália. 1940), considera-se “quase jurássico, um antiquado”. Não é verdade. Continua bastante criativo o autor de obras emblemáticas como “O Conformista” e “1900”. Sabe trabalhar tão bem na contenção como no épico. Seu êxito nesse terreno foi com o grandiloquente “O Último Imperador”, ganhador de nove Oscars, entre os quais os de Melhor Filme e Melhor Diretor. É o único cineasta italiano a possuir essa estatueta. E nunca perdeu a sensibilidade, inclusive ao dirigir o incompreendido e existencialista “O Céu que nos Protege”. Neste caso, foi bastante feliz, retomando o tema do estranhamento entre culturas, que nunca deixou de fasciná-lo. É um dos seus melhores filmes.

Filho de um intelectual e poeta, herdeiro direto de Roberto Rossellini, debutou no cinema aos 22 anos em “A Morte”, inspirado em uma sugestão de Pier Paolo Pasolini. BERTOLUCCI gostava de apoiar-se em grandes autores. Stendhal, Dostoievski, Moravia, Paul Bowles, Jorge Luis Borges em “A Estratégia da Aranha”. Neste último, inspira-se no breve relato “Tema do Traidor e do Herói”, para falar da ascensão de Benito Mussolini e dos crimes políticos na Itália fascista - uma de suas obsessões. Em uma de suas maiores obras, “O Conformista”, analisa a questão do fascismo na Itália em suas determinações sociais, mas também nas raízes psicológicas do personagem principal.

bertolucci, brando e maria schneider
Nestes dias está sendo homenageado na 48ª edição do Festival de Cinema de San Sebastian com uma retrospectiva de sua filmografia. Uma das pinceladas da trajetória espetacular de um mestre, cuja obra há de permanecer. Simpático e sorridente, recebe o batalhão de jornalistas avisando que “se sente envergonhado em mostrar filmes antigos e nenhum novo.”.

Rodou seu primeiro longa em 1962. De lá para cá realizou uma série de filmes politizados, espetaculares ou intimistas. Qual foi o seu melhor momento?

O meu melhor filme não foi realizado. Espero ser capaz de fazê-lo. Além disso, não estou orgulhoso de alguns filmes que fiz. Mas não me pergunte quais são, eu não direi.

Woody Allen também disse que ainda não fez sua obra-prima. Há diretores confiantes que acreditam que sempre fazem excelentes filmes. Sua sensatez vem da experiência?

Acho que os artistas deveriam se comportar com humildade, tolerância e argúcia crítica. Poucos agem assim. Não me definiria exatamente como sensato, estou mais para um criminoso do cinema que evita voltar ao local do crime, buscando sempre novos caminhos. Cada filme que faço é diferente do anterior. Do erótico e intimista “O Último Tango em Paris” a saga política “1900”. Do colossal “O Último Imperador” aos delicados e quase silenciosos “Beleza Roubada” e “Assédio”. Procuro não me repetir.

Rodará a terceira parte de “1900”, contando sua versão da Itália nas últimas décadas até a atualidade?

Houve a possibilidade, mas não deu certo. Hoje em dia as ideologias não existem e a política perdeu a força. “Novecento” é como um pilar apoiado em paixões ideológicas, e este base já não existe. Eu mesmo não tenho mais a febre política do passado.

“O Último Tango em Paris” é sensacional. Brando nunca esteve melhor. É verdade que teve problemas com ele?

Nunca tive problemas com Brando. Foi maravilhoso trabalhar com ele. Há quatro anos estive em sua casa, em Los Angeles, e vi que segue sendo o mesmo, porém com um barrigão que não tinha há vinte anos. Desde esse dia seguimos conversando. Eu ficaria encantado em voltar a trabalhar com Marlon Brando.

Qual o seu próximo projeto?

Já estou trabalhando neles. São dois. Um é sobre um compositor italiano do século XV. O outro tem direção da minha esposa, Claire People. Sou o produtor.

O que diz da homenagem em San Sebastian?

Deixa-me envergonhado rever meus filmes antigos. Eu não costumo revê-los. Esta homenagem faz que me veja como um quase jurássico, um antiquado.


FILMOGRAFIA de BERTOLUCCI

01
A MORTE
(La Commare Secca, 1962)
elenco: Francesco Ruiu e Giancarlo De Rosa


02
ANTES da REVOLUÇÃO
(Prima della Rivoluzione, 1964)
elenco: Adriana Asti e Francesco Barilli


03
PARTNER
(Idem, 1968)
elenco: Pierre Clémenti e Tina Aumont


04
AMOR e RAIVA
(Amore e Rabbia, 1969)
Episódio: “Agonia”
elenco: Julian Beck e Judith Malina


05
O CONFORMISTA
(Il Conformista, 1970)
elenco: Jean-Louis Trintignant, Stefania Sandrelli, 
Dominique Sanda e Gastone Moschin


06
A ESTRATÉGIA da ARANHA
 (Strategia del Ragno, 1970)
elenco: Giulio Brogi, Alida Valli e Pippo Campanini


07
O ÚLTIMO TANGO em PARIS
(Ultimo Tango a Parigi, 1972)
elenco: Marlon Brando, Maria Schneider, Jean-Pierre Léaud
e Massimo Girotti


08
1900
(Novecento, 1976)
elenco: Robert De Niro, Gérard Depardieu, Dominique Sanda,
Stefania Sandrelli, Burt Lancaster, Francesca Bertini,
 Laura Betti, Sterling Hayden, Alida Valli,
Donald Sutherland e Romolo Valli


09
LA LUNA
(Idem, 1979)
elenco: Jill Clayburgh, Matthew Barry, Veronica Lazar,
Alida Valli e Renato Salvatori


10
A TRAGÉDIA de UM HOMEM RIDÍCULO
(La tragedia di un Uomo Ridicolo, 1981)
elenco: Ugo Tognazzi, Anouk Aimée, Laura Morante
e Renato Salvatori


11
O ÚLTIMO IMPERADOR
(The Last Emperor, 1987)
elenco: John Lone, Joan Chen e Peter O'Toole
 
Oscar de Melhor Direção
Globo de Ouro de Melhor Direção


12
O CÉU que nos PROTEGE
(The Sheltering Sky, 1990)
elenco: Debra Winger, John Malkovich, Campbell Scott
e Timothy Spall


13
O PEQUENO BUDA
(Little Buddha, 1993)
elenco: Keanu Reeves, Bridget Fonda e Ruocheng Ying


14
BELEZA ROUBADA
(Stealing Beauty, 1996)
elenco: Jeremy Irons, Liv Tyler, Joseph Fiennes,
Jean Marais e Stefania Sandrelli


15
ASSÉDIO
(L'assedio, 1998)
elenco: Thandie Newton, David Thewlis e Veronica Lazar


16
Os SONHADORES
(The Dreamers, 2003)
elenco: Michael Pitt, Louis Garrel e Eva Green


17
EU e VOCÊ
(Io e te, 2012)
elenco: Tea Falco e Jacopo Olmo Antinori


GALERIA de FOTOS


janeiro 16, 2016

******** STUDIO HARCOURT: a ARTE do RETRATO

romy schneider, 1960


Na França, ninguém é ator se não tiver sido
fotografado pelo Studio Harcourt.
ROLAND BARTHES
Mythologies 
1957


O retrato é um dos mais poderosos gêneros da história das artes visuais, com uma presença que se estende desde pelo menos o século 270 a.C. até os dias de hoje. O mais antigo exemplo de retrato em pintura sobre tela é uma madona de 1410. Em meados do século 19, a iniciante fotografia cresceu com o avanço tecnológico, possibilitando o registro de retratos fotográficos. Surgiram grandes estúdios, ajudando a transformar a fotografia num lucrativo negócio. Em Paris, França, 1934, nasceu o lendário STUDIO HARCOURTMemória pictórica de figuras artísticas, culturais e políticas. Um belo trabalho num jogo lúdico - e misterioso - de sombra e luz, retratando célebres nomes da sétima arte na França, estrelas como Brigitte Bardot, Alain Delon, Jean Gabin, Yves Montand e Simone Signoret, Marlène Dietrich, Jean Marais, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve e Michèle Morgan. “Deixar uma imagem enaltecida, é essa a vocação da foto Harcourt.”, disse um dos proprietários, Francis Dagnan. 

Desde o início da empresa que a marca “Harcourt Paris”, qual selo hierático, assina o retrato. Transformado em mito, ganhou fama acreditando na “fotografia de arte”, enaltecendo o retrato fotográfico. A grife STUDIO HARCOURT, reconhecida em todo o mundo, inspira-se nas raízes glamourosas do cinema clássico preto e branco. São imagens inconfundíveis: muitas vezes um facho de luz corta o quadro, contornando a expressão, dando vida ao olhar, revelando texturas. E o fotografado ganha a dimensão de personagem, afirmando sua personalidadeHá um elo privilegiado entre a razão e o espírito mágico. O retrato tanto se entrega ao olhar do observador como o observa atentamente, o que pode ser ao mesmo tempo reconfortante e ameaçador.

cosette harcourt
Tudo começou graças a Cosette Harcourt. Com o nome verdadeiro de Germaine Hirschefeld, ela nasceu em Paris no ano de 1900, filha de comerciantes judeus alemães estabelecidos na França. Com o deflagrar da Primeira Guerra Mundial, a família imigrou para Inglaterra. Voltamos a encontrar Mademoiselle Harcourt em Paris, em 1930, aprendendo fotografia nos estúdios Manuel Frères. Em 1933, conheceu Jacques Lacroix. Ele e seu irmão, Jean Lacroix, tinham criado, em 1927, uma sociedade de imprensa, então em expansão.  Em 1928, a sua revista Guérir registra um enorme sucesso junto do grande público. Depois fundaram com Robert Ricci, filho de Nina Ricci, uma agência de publicidade, a Pro-Publicité. Após conhecer Cosette, Jacques Lacroix cria, com o seu irmão e Robert Ricci, o STUDIO HARCOURT, ficando a responsabilidade da organização com Cosette. Muito rapidamente, o renome se instala e o sucesso acontece. Toda Paris vem ampliar sua fama e imortalizá-lo.

Com o intuito de protegê-la dos nazistas, no início da Segunda Guerra Mundial, Jacques Lacroix se casa com a judia Cosette, em agosto de 1940. Eles se divorciam em 1946, mas permanecem juntos durante toda a vida. Então, Cosette deixa Paris, instalando-se no sul da França, depois na Inglaterra. O estúdio continua sua atividade, apesar de tudo. É a era dourada. Está em todo lugar: nos títulos de imprensa dos irmãos Lacroix, na Agência France Presse e em muitos cinemas, que exibem os retratos de atrizes e atores. Na década de 1950, tinha mais de mil clientes por mês, ou cerca de quarenta por dia. Eles talvez nao soubessem que as culturas ditas primitivas não deixavam de ter razão quando instruíam seus membros a evitarem a fotografia: não é só a aparência do fotografado que a máquina captura, mas também seu espírito, sua essência. O retrato é, assim, um constante exercício de psicologia social e individual.

marlene dietrich
Os irmãos Lacroix separam-se em 1969, ficando somente Jacques à frente dos negócios. Cosette Harcourt morre em 1976, e em 1980 Jacques Lacroix liquida o estúdio. Desde então, ele muda de mãos sucessivamente, oscilando entre a tradição e a modernidade. Por iniciativa de Jack Lang, então ministro da cultura francês, o acervo HARCOURT de negativos e arquivos foi adquirido pelo governo francês e depositado na Midiateca da Arquitetura e do Patrimônio, no forte de Saint-Cyr.

MOSTRA FOTOGRÁFICA

joséphine baker
yves montand
edwige feuillère
jean marais
michèle morgan
édith piaf
georges marchal
catherine deneuve
alain delon
jean-louis trintignant
viviane romance
ginette leclerc
danielle darrieux
martine carol
jean gabin
simone signoret
micheline presle
jean-paul belmondo
lino ventura
brigitte bardot
gérard philipe
jeanne moreau
louis jourdan
anouk aimée
arletty
serge reggiani
maría casares
annie girardot
henri vidal
jean-pierre aumont
juliette gréco