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dezembro 03, 2016

********* MARLENE DIETRICH – a DIVA INSPIRAÇÃO



 
Na vida real, a maioria dos atores de cinema 
é uma decepção. Eu, por outro lado, 
sou melhor na vida real do que no cinema.
MARLENE DIETRICH


Ela é um ícone do século 20, uma das mais famosas representantes da Era de Ouro de Hollywood. Dona de uma voz singular e de um corpo escultural, ela lançava moda, era corajosa e ousada, sensual e misteriosa. Deixou meio mundo apaixonado ao interpretar a cantora de cabaré Lola-Lola no clássico “O Anjo Azul”, em 1930, lançando-se numa celebrada carreira internacional. Oitenta e seis anos passados, ainda existe um grande fascínio por MARLENE DIETRICH (1901 - 1992. Berlim / Alemanha). O legado da sereia alemã permanece: é usada como referência nos dias de hoje por cantoras e atrizes. Não sei que idade eu tinha ao vê-la pela primeira vez. Atravessava a fase da inocência, viciado em longas dublados na tevê, após a meia-noite, horário dos clássicos naquele tempo. Tive a sorte de conhecê-la no thriller “Testemunha de Acusação”, de Billy Wilder. A Christine criada por Agatha Christie é a sua melhor atuação.

Hipnotizado pelo magnetismo do espetacular animal cujas escamas brilham dia e noite, fixei-me nos grandes olhos gélidos, no sorriso astuto e sobrancelhas desenhadas. Passei a garimpar seus filmes, entre eles, os sete rodados pelo seu mentor e amante Josef von Sternberg. Em “O Anjo Azul”, de meias provocantes e liga, na famosa cena na qual canta “Estou Pronta para o Amor da Cabeça aos Pés”, exibindo suas longas pernas, é lembrada como uma das mais antológicas do cinema. Trabalhou durante seis décadas, dirigida por reconhecidos mestres como Ernst Lubitsch, Rouben Mamoulian, Jacques Feyder, Raoul Walsh, Billy Wilder, René Clair, Alfred Hitchcock, Fritz Lang e Orson Welles.

Li autobiografias que pouco revelam, mentiras escritas como se fossem verdade; e biografias que tentam, honestamente, narrar sua trajetória espetacular. Mas o enigma da diva permanece intacto. De férias em Paris, visitei o majestoso prédio onde morava, na Avenida Montaigne. Tempos depois, caiu em minhas mãos o documentário Marlene (1984) dirigido pelo ator alemão Maximilian Schell, parceiro de elenco em “Julgamento em Nuremberg”. Na época, não engoli as declarações amargas de sua filha Maria, na BBC, denunciado uma MARLENE DIETRICH fria, calculista e violenta. Mergulhando na experiência da beleza dilacerante, terminei por idealizá-la ao que convém à promoção do encantamento. Armadilhas amorosas, perfídias, sensualidade, neurônios acesos, jogos sexuais. A estrela símbolo da emancipação da mulher moderna. A vênus loira que fazia homens e mulheres de gato e sapato.

marlene, a filha maria 
e o marido rudolf
O começo da carreira foi duro. Inicialmente, dançando em cabarés e teatros baratos, exibia as suas belas pernas. Ela não escondia a bissexualidade, era uma “mulher falada”, além dos padrões morais da  época, embora bares gays existissem em abundância em Berlim. MARLENE casou-se uma única vez, com o assistente de direção Rudolf Simmer, em 1923. 

Nascida em Berlim, criada numa rígida educação prussiana, estudou música e fez teatro com o celebrado Max Reinhardt. Participou de produções de pouca visibilidade e trabalhou como cantora, mas o sucesso só aconteceu com a direção de Josef von Sternberg, que a levou a Hollywood. A Paramount Pictures imediatamente resolveu transformá-la na mulher mais bela do mundo, disputando com a Metro-Goldwyn-Mayer e sua estrela maior, Greta Garbo, também importada da Europa. A atriz arrepiou plateias com frases dúbias tipo “Foi preciso mais de um homem para trocar o meu nome por Lily Shangai” (de “O Expresso de Shangai”), tornando-se uma estrela admirada em todo o mundo. Felina, a mais bela do cinema do seu tempo, exibia naturalmente um show misterioso de luz e sombra, androgenia e plenitude intelectual. 

Fumava com extraordinária sagacidade. Nem Bette Davis ganhava dela na pegada do cigarro entre nuvens de fumaça. Ela pode facilmente ser confundida como produto deslumbrante da imaginação coletiva ou vislumbre paranormal. Ao longo da carreira, moldou a imagem da deusa sedutora e andrógina, valendo-se de uma sexualidade agressiva e atitude dominante: suas personagens não conhecem limites quando se apaixonam. Pegando emprestado peças do guarda-roupa masculino, em diversas ocasiões vestiu terno e cartola. Também se sentia à vontade trajando maravilhosos vestidos. Sempre exigente com sua aparência, utilizava o figurino como uma arma para conquistar tanto o parceiro do filme como o espectador.

josef von sternberg e marlene
No período pós-guerra, insatisfeita com os papeis em Hollywood - salvo exceções, como “A Mundana / Foreign Affair” (1948), de Billy Wilder, em uma Alemanha devastada pela Segunda Guerra -, se dedicou à carreira de cantora. Com sua voz rouca e sexy, trajando smokings e vestidos transparentes, etérea e radiante, cantou em palcos sofisticados de meio mundo, sempre com casa lotada, iniciando a série de espetáculos em Las Vegas, no Sahara Hotel. No Rio de Janeiro, em 1959, no Copacabana Palace, fez um grande sucesso. Vestido colante, casaco de plumas de cisne e joias, conquistou o público com charme e senso de humor. Cantou em inglês, francês e alemão. Na segunda parte, apareceu com um traje masculino e bengala. Ainda no Brasil, gravou “Luar do Sertão, clássico de Luiz Gonzaga.

A figura erótica, porte aristocrático e magníficas pernas colocadas no seguro por um milhão de dólares, fizeram dela o protótipo da sedutora, aquela que tudo pode. Indicada ao Oscar por “Marrocos”, MARLENE DIETRICH era mais que uma atriz. Difícil não se encantar com seu rosto iluminado por pontos de luz, olhar duro repleto de promessas, impassível sarcasmo. Inventou-se como réptil único, de reações magnéticas e sensibilidade cintilante. Após “Marrocos”, seguiram-se outros sucessos como “O Expresso de Xangai” e “A Vênus Loura / Blonde Venus” (1932). Neste último, ela tem de trabalhar em um cabaré para pagar o tratamento médico do marido. Lá conhece um milionário (Cary Grant) e se apaixona por ele. Em muitos de seus filmes, utiliza sua bela voz em números musicais que transbordam volúpia, e nesse filme cantou “Hot Vodoo”, evocando o caráter místico de seus encantos.


Ao chegar a Hollywood em 1930, morena e um pouco gorda, o pigmalião Sternberg pintou os seus cabelos de um quase dourado, afinou o rosto arrancando os dentes traseiros, esculpiu o corpo através de dieta e massagista, arqueou as sobrancelhas além do normal, alongou e escureceu as pestanas superiores, deu aos olhos a ilusão de serem enormes pelo artifício da maquilagem - uma linha branca desenhada no interior das pálpebras e que ela estoicamente suportava sem lacrimejar. Nascia assim a estrela andrógina, a vamp que escandalizaria a opinião pública ao aparecer de smoking na estreia do épico “O Sinal da Cruz / The Sign of the Cross”, em 1932, protagonizado por sua amante Claudette Colbert. Bissexual, ela teve romances com Greta Garbo, Edith Piaff e a roteirista Mercedes de Acosta. Namorou o ator francês Jean Gabin e os escritores Ernest Hemingway e Erich Maria Remarque. Ganhou notoriedade por inúmeras relações amorosas com homens e mulheres. Deslumbrantemente feminina, tinha fama de devastar corações. Nas rodas de Hollywood era conhecida como “amante voraz”.

douglas fairbanks jr., marlene 
e fritz lang
Dizem que a diva podia derreter um homem com um levantar de sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar. Enigmática, zelava por sua privacidade, contando mentiras e inventando histórias sobre si mesma. Josef von Sternberg e ela se uniram como um visionário e sua invenção bendita. “Marlene sou eu”, disse o cineasta numa entrevista. Ele nunca mais foi o mesmo depois dela. Ela brilhou intensamente desde seu primeiro filme norte-americano, provocando reações confusas no público ao beijar a boca de uma bela garota numa cena de “Marrocos”.

Em 1933, Hitler a convidou para estrelar filmes nazistas, oferecendo uma fortura. Ela recusou e, em 1937, tornou-se cidadã norte-americana. Descontente com o nazismo, durante a Segunda Guerra se dedicou a ajudar as tropas aliadas, visitando hospitais do front e entretendo soldados com shows especiais, onde cantava “Lili Marlene”. Condecorada com medalhas nos EUA e considerada uma traidora na Alemanha. Ao retornar a Berlim, em 1960, foi vaiada, recebida com faixas tipo “Marlene, go home”. Só retornaria ao seu país natal depois de morta. Foi enterrada em Berlim.

marlene e jean gabin
Femme fatalle por definição, destas que dão um sentido à vida mesmo nos convertendo em objetos usados e jogados fora, não é à toa que seu verdadeiro nome é Maria Madalena. Ao vê-la como Concha Perez em “Mulher Satânica / The Devil Is a Woman, passei a acreditar que amava a si mesmo e não podia permitir rival neste amor intenso. MARLENE DIETRICH não levava o casamento a sério. Idosa, deixou-se esculpir por cirurgiões plásticos, silhueta mantida por apertados corpetes, bicos dos seios eroticamente recriados por pérolas colocadas no soutien. No ano de 1975, deixa os palcos. Seu último trabalho no cinema foi em “Apenas um Gigolô / Schoner Gigolo, Armer Gigolo”, de 1978, estrelado por David Bowie, onde fez a Baronesa von Semering.

Vaidosa, não se deixou ser filmada ou fotografada em idade avançada. Com o corpo em ruínas, em cadeira de rodas, refugiou-se até a morte no apartamento parisiense, evitando entrevistas e não permitindo que a vissem em decadência física. A imagem reclusa, daquela que foi uma das mulheres mais belas de sempre, era algo que a revoltava. Apenas a filha, netos e o médico tinham permissão de visitá-la. Tornou-se, nos anos finais de vida, alcoólatra e dependente de calmantes. Sua morte foi tardia, somente aos 90 anos, de falência renal. Alguns acreditam que sofria de Alzheimer. Dizem que teria se suicidado, através de ingestão de tranquilizantes. Mas nunca foi confirmado.


O canto de MARLENE DIETRICH, numa vocalização quase falada, provoca estremecimento, mas ela não era cantora, talvez nem mesmo atriz, estava além de rótulos. Em Londres, numa exposição do figurino do filme “Kismet / Idem” (1944), da russa Barbara Karinska, compreendi que os belos vestidos e adereços expostos não tinham viço pela falta do recheio da atriz. A diaba dissimulada, ar afetado, olhar lascivo, sugestivo sorriso. Convite aos sonhos mais lúbricos. A diaba idolatrada por milhões morreu solitária, nos braços da empregada doméstica. Em 1999, o American Film Institute (AFI) a nomeou entre as dez maiores estrelas de todos os tempos.

Por que não mais existem belezas como a dela? Belezas que nos ilude e nos faz sonhar. Talvez responda a Norma Desmond (Gloria Swanson) de “O Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard” (1950), sob a luz do projetor, numa película muda do seu apogeu de estrela: “Continua a ser maravilhoso, não continua? E sem diálogos. Não precisávamos de diálogos. Tínhamos rostos. Já não há rostos como aquele”.

Fontes
“A Beleza – Der Blaue Engel” 
de Manuel Dias Coelho
 
“A Bela e a Fera” 
de Fabio Cypriano
 
“Desejo-lhe Amor – Conversas com Marlene Dietrich” 
de Erik Hanut
 
“Marlene de A a Z”


  DEZ VEZES MARLENE
(filmes por ordem de preferência)

01
Tana em
A MARCA da MALDADE
(Touch of Evil, 1958)
direção de Orson Welles

02
Christine em
TESTEMUNHA de ACUSAÇÃO
(Witness for the Prosecution, 1957)
direção de Billy Wilder

03
Sra. Bertholt em
JULGAMENTO em NUREMBERG
(Judgment at Nuremberg, 1961)
direção de Stanley Kramer

04
Lola Lola em
O ANJO AZUL
(Der Blaue Engel, 1930)
direção de Josef von Sternberg

05
Shanghai Lily em
O EXPRESSO de SHANGHAI
(Shanghai Express, 1932)
direção de Josef von Sternberg

06
Princesa Sophia Frederica / Catherine II em
A IMPERATRIZ GALANTE
(The Scarlet Empress, 1934)
direção de Josef von Sternberg

07
Maria 'Angel' Barker / Sra. Brown em
ANJO
(Angel, 1937)
direção de Ernst Lubitsch

08
Madeleine de Beaupre em
DESEJO
(Desire, 1936)
direção de Frank Borzage

09
Domini Enfilden em
O JARDIM de ALAH
(The Garden of Allah, 1936)
direção de Richard Boleslawski

10
Mademoiselle Amy Jolly em
MARROCOS
(Morocco, 1930)
direção de Josef von Sternberg


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