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janeiro 08, 2017

********************************** 12 FILMES de 2016



 
O que foi lançado nas telas de cinema no ano de 2016 ainda está tão recente que muita gente não viu alguns dos seus melhores filmes. Para essa turma e para os cinéfilos que querem relembrar o melhor da produção da sétima arte do ano passado, o blog “O Falcão Maltês” olha para trás e elabora sua lista. Alguns filmes foram produzidos em 2015, 2014 e até 2011. A grande maioria vi em DVD. Entre os 12 preferidos, cito a sensível fita pernambucana “Boi Neon”. Ela é a principal recompensa do cinema nacional em 2016. “Pequeno Segredo”, que disputou vaga no Oscar na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, não empolga. Festejado pela esquerda, “Aquarius” se autodestrói na pretensão sonífera e no oportunismo político.  “Nise – O Coração da Loucura” é show de Glória Pires. Falta ver o esperado “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Vinicius Coimbra. A versão de Roberto Santos em 1965 é um dos melhores filmes do cinema brasileiro. Sem mais delongas, estes são os 12 GRANDES FILMES de 2016.

01
FILHO de SAUL
(Saul Fia, 2015)

drama de guerra
direção de László Nemes
elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár e Urs Rechn
Hungria

De experimentação visual, sua carreira internacional vem desde Cannes 2015. Durante a II Guerra Mundial, em 1944, um prisioneiro é forçado a trabalhar nas instalações da câmara de gás, preparando outros judeus para a morte, e depois no recolhimento dos corpos. Ele encontra sobrevivência moral quando tenta salvar da fornalha o cadáver de um menino que acredita ser seu filho. Retrata os terrores do campo de concentração de Auschwitz inovando na linguagem: em enquadramentos fechados, a câmera segue de perto os passos de seu protagonista. Ele carrega no rosto envelhecido o inconformismo e o desespero da guerra, como se sua desgraça, individualmente, fosse capaz de representar a dos outros 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas. O fato de o protagonista ser sempre o ponto de referência, torna o entorno uma massa disforme, e só nos resta imaginar o horror. Mas o poder de sugestão do cinema é macabro.

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes
Melhor Filme Estrangeiro da Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles
Melhor Filme Estrangeiro no National Board of Review

02
Na VENTANIA
(Risttuules, 2014)

drama
direção de Martti Helde
elenco: Laura Peterson, Tarmo Song e Mirt Preegel
Estonia

Estudante de filosofia e sua filha são enviadas a um campo de trabalho forçado durante a II Guerra Mundial. Elas sobrevivem neste cenário com muito pouco para se alimentar. O longa faz uma alegoria da deportação de estonianos pelo regime stalinista no início dos anos 1940, com uma estética radical, na qual a câmera caminha por cenários e locações em que os personagens estão paralisados, mostrando o terror diante do autoritarismo.

03
O ABRAÇO da SERPENTE
(El abrazo de la serpiente, 2015)

aventura
direção de Ciro Guerra
elenco: Nilbio Torres, Jan Bijvoet e Antonio Bolivar
Colômbia Venezuela Argentina

Representante colombiano na disputa pelo Oscar 2016, recorre a uma bela fotografia em preto e branco para traçar um retrato dos povos indígenas na Amazônia, mostrando como a cultura nativa se transformou ao longo do tempo e como foi afetada pela presença do homem branco. Na história, o relacionamento entre Karamakate, um xamã amazônico e último sobrevivente de seu povo, e dois cientistas que trabalham juntos por 40 anos para procurar na Amazônia uma planta de cura sagrada. “Estamos diante de uma fabula que nasceu das cores da selva, da profusão de sensações que eu experimentei”, disse o diretor, completando “levou-me a buscar um estado de espírito na direção do sonho, de modo que eu pudesse me libertar de referências do próprio cinema e buscar o entendimento da novidade à minha frente sem a muleta da lógica.

04
ANIMAIS NOTURNOS
(Nocturnal Animals)

thriller
direção de Tom Ford
elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e Laura Linney
EUA

A trama mostra uma mulher que recebe um manuscrito do livro de seu ex-marido, um homem a quem ela deixou há 20 anos, pedindo sua opinião. Costurando o presente e o passado com a história do romance, o ícone da moda Tom Ford dá um expressivo salto adiante em seu cinema. O livro, intitulado “Animais Noturnos”, fala de um homem cuja família de férias se torna violenta e mortal. As três tramas reforçam o entendimento uma da outra, discutindo traição, vingança, herança e percepção. Nesse desconfortável exercício altamente dramático, o diretor mantém seu total domínio elegante. Visualmente, o filme é impecável. Vai do ultra chique e moderno ao grotesco e ao natural sem perder o ritmo. Adaptado do romance “Tony and Susan”, de Austin Wright, cria um universo tenso, perturbador, e extrai atuações memoráveis de Amy Adams, Gyllenhaal e Shannon.

Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza

05
CAROL
(Idem, 2015)

drama
direção de Todd Haynes
elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara e Kyle Chandler
Inglaterra | EUA | Austrália

As obras de Todd Haynes preservam a intimidade - ou as aparências. A diferença de “Carol” para “Longe do Paraíso” ou “Mildred Pierce” é, principalmente, a possibilidade da cumplicidade entre iguais: duas mulheres que no seu amor clandestino têm uma à outra para se proteger dos “perigos” da sociedade. Na narrativa, uma atendente de loja de departamentos, que sonha com uma vida melhor, apaixona-se por uma mulher mais velha e casada. Talvez seja o drama mais estético do diretor - numa carreira que parece demonstrar predileção pelos anos 1950 de Douglas Sirk, justamente pela oportunidade de recriar cenários, figurinos e cenas do esplendor e luz do american way of life - essa impressão se reforça na relação de mentora e aprendiz. Através da amante mais velha, a garota simplória descobre não apenas o amor, como desenvolve principalmente um olhar crítico. Juntas, parecem enxergar coisas que ninguém mais vê. Um drama intimista, belo e distante, exercitado na beleza e no silêncio, e coroado por excelentes atuações.

Melhor Filme no Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

06
ELLE
(Idem)

thriller
direção de Paul Verhoeven
elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte e  Anne Consigny
França Alemanha Bélgica

Visto por cerca de meio milhão de pagantes em solo francês, foi escolhido para representar a França na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Concorre também ao Globo de Ouro na mesma categoria. Sustentado por uma performance inesquecível de Isabelle Huppert, é uma obra polêmica, feita pelo diretor septuagenário holandês Paul Verhoeven (de “Instinto Selvagem / Basic Instinct”, 1992) em sua melhor forma, como não se via desde a década de 1990. Cercado de elogios, o suspense erótico aborda uma empresária, acompanhando o quanto se aprofunda em seu lado mais sombrio após sofrer um abuso sexual. A invasão de seu lar por um suposto ladrão, que a violenta, parece algo superado, até que começa a se armar de cutelos e aparelho de choque, sem que isso altere seu dia a dia com os funcionários, o filho e o amante. Ela resolve descobrir quem é o homem que a violentou, e por que a escolheu.

07
FRANCOFONIA – LOUVRE sob OCUPAÇÃO
(Francofonia, 2015)

documentário
direção de Aleksandr Sokurov
França Alemanha Holanda

Assistir à uma obra do russo Sokurov não é tarefa fácil. O estilo do cineasta é complexo – e isso fica perceptível com a narrativa arrastada que pode facilmente dispersar a atenção dos menos pacientes. Neste seu mais recente trabalho, acolhido com fervor em Veneza no ano passado, ganhou o prêmio de Melhor Filme Europeu no festival. Sem uma estrutura de roteiro bem definida e conduzido de forma quase experimental, ambienta-se na década de 1940, na França ocupada pela Alemanha Nazi. Relata o encontro de Jacques Jaujard, ex-diretor do Museu do Louvre, e o conde Franz von Wolff-Metternich, um oficial alemão. A aliança entre os dois foi primordial para a preservação do patrimônio do museu durante a Segunda Guerra Mundial. A partir deste fio condutor, Sokurov divide a trama em partes distintas, que se alternam entre si para dissecar um período da história daquele que é considerado o maior museu francês. Misturando documentário e ficção, o irreverente Sokurov disserta sobre a força da arte como instrumento de depósito das memórias de uma nação – daí a importância de sua conservação.

08
CINCO GRAÇAS
(Mustang, 2015)

drama
direção de Deniz Gamze Erguven
elenco: Günes Sensoy, Doga Zeynep Doguslu e Tugba Sunguroglu
França Alemanha Turquia Qatar

Dirigido pela estreante turca Deniz Gamze Ergüven, a trama se passa numa vila do Norte da Turquia, a centenas de quilômetros da cosmopolita Istambul, e segue cinco irmãs que acabaram de sair da escola e comemoram o início das férias ao lado dos meninos. Talvez comemorem com ânimo demais para os padrões locais, porque a avó e o tio das meninas, órfãs de pais, decidem que o melhor a fazer é mantê-las sob vigilância, aprendendo a ser dona de casa e boa esposa, até que os adultos encontrem maridos para as cinco. A combinação do caráter obviamente progressista da história com os momentos de humor e catarse da libertária rebeldia juvenil forma um pacote irresistível para agradar o grande público. À falta de um roteiro mais complexo, a diretora se ampara no seu ótimo e fotogênico elenco jovem. Ela trata com naturalidade de anseios juvenis num país enraizado em tradições religiosas. O resultado é um filme de exportação, pronto para prêmios. Concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2016 e ao Globo de Ouro. 

09
O CAVALO de TURIM
(A Torinói Ló, 2011)

drama
direção de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky
elenco: János Derzsi, Erika Bók e Mihály Kormos
Hungria França Alemanha Suíça EUA

Inspirado em um incidente envolvendo o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900), que, em 1899, teria sofrido uma crise nervosa ao ver um cavalo sendo chicoteado na frente de sua casa, o drama resulta num retrato do forte laço que existe entre pai e filha. Fazendeiros, dividem um cotidiano dominado pela monotonia. A realidade dos dois é repetitiva e as mudanças são raras. Enquanto isso, o cavalo da família se recusa a comer e a andar. Preste atenção na extraordinária fotografia e nas minuciosas atuações.

Urso de Prata no Festival de Berlim

10
 A GAROTA DINAMARQUESA
(The Danish Girl, 2015)

drama
direção de Tom Hooper
elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander e Amber Heard
Inglaterra EUA Alemanha Dinamarca Bélgica

Eddie Redmayne interpreta alguém que não se vê no corpo de um homem. Ele é um pintor dinamarquês, casado, de relativo sucesso. Mas quer assumir sua identidade feminina. O trabalho do ator – do andar feminino à fala que dispensa a apelação do falsete – confere ao filme a sutileza que falta no roteiro e na direção. Casado com uma também pintora, a protagonista foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero no mundo, e se tornou Lili Elbe. Isso na década de 1920. Em um curto espaço de tempo, Redmayne interpretou papéis marcantes, mas se supera com essa performance estonteante. O filme fundamenta-se em sua magnífica atuação.

11
BOI NEON
(2015)

drama
direção de Gabriel Mascaro
elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings e Josinaldo Alves
Brasil Uruguai Holanda

Uma obra esteticamente sofisticada que procura escapar dos estereótipos sexuais a partir da história do vaqueiro cujo sonho é ser estilista. Nos bastidores das vaquejadas, ele prepara os bois antes de soltá-los na arena. Levando a vida na estrada, o caminhão que transporta os bois para os eventos é também a casa improvisada dele e de seus colegas de trabalho. Juntos, eles formam uma família unida. Mesmo com o cotidiano intenso e visceral, novas ambições inspiram o vaqueiro. Deitado em sua rede na traseira do caminhão, sua cabeça divaga em sonhos de lantejoulas, tecidos requintados e croquis. O primeiro filme do diretor com atores profissionais. Personagens interessantíssimos, expostos na intimidade. Registra cidadãos que alimentam sonhos, mas que precisam sobreviver e acabam tomando outro rumo. Tecnicamente primoroso. Bela fotografia de Diego Garcia. Um bom elenco, destacando-se Juliano Cazarré, que soube compor a masculinidade delicada do personagem.

Melhor Filme no Festival de Havana

12
45 ANOS
(45 Years, 2015)

drama
direção de Andrew Haigh
elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James
Inglaterra

A partir de um tratamento sóbrio, mas sempre estimulante, o diretor britânico extrai incansavelmente novas camadas do retrato de um relacionamento maduro. Com muito mérito, foram premiadas como as melhores interpretações do Festival de Berlim, os veteranos atores ingleses Charlotte Rampling, 70 anos, e Tom Courtenay, de 79. Um dos grandes prazeres de assistir ao filme é presenciar como eles encarnam o dilacerante confronto de um velho casal na semana em que completam 45 anos de vida juntos. Num tom sutil, o diretor leva os espectadores a compartilhar a rotina terna deste par, que se prepara para a festa destas mais de quatro décadas de convivência. Mas a tranquilidade é abalada pela chegada de uma carta. O tema em si, extraído de um conto de David Constantine, não é raro ou incomum. O que torna o filme peculiar é a maneira como este episódio vai sendo desvendado e vivido pelo casal até então unido na crença de conhecer um ao outro. É de sentimentos que o filme fala, tocando profundamente.

ATRIZ do ANO

ISABELLE HUPPERT
em “Elle”

Melhor Atriz da Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles
Indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz-Drama
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

seguida por
Meryl Streep em “Florence: Quem é essa mulher? 
/ Florence Foster Jenkins”
Natalie Portman em “Jackie / Idem”

ATOR do ANO

LEONARDO DiCAPRIO
em “O Regresso / The Revenant” (2015)

Oscar de Melhor Ator
Globo de Ouro de Melhor Ator-Drama
BAFTA de Melhor Ator

seguido por
Casey Affleck em “Manchester à Beira-Mar 
/ Manchester by the Sea”
Denzel Washington em “Cercas / Fences”

DIRETOR do ANO

TODD HAYNES
em “Carol”

fevereiro 20, 2015

*************************** OSCAR 2015: PALPITES



 
Fiquei encantado com dois dos oito filmes concorrentes ao OSCAR 2015 “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) / Birdman” e “O Grande Hotel Budapeste / The Grand Budapest Hotel”. Os outros são certinhos, acomodados, sem riscos ou toque de inovação, inclusive o subestimado “Boyhood: Da Infância a Juventude / Boyhood”, que vale mais pelo projeto incansável do diretor do que por mérito do resultado nas telas. Alguns dependem exclusivamente do seu protagonista para que seja memorável, já que todo o resto se arrasta numa narrativa regular. São eficazes para o público, mas definitivamente não precisam de nenhum Oscar.

Confesso que tenho problema com cinebiografia. Não gosto da forma habitual como romantiza a narrativa, transformando o retratado em uma figura heroica. Também não curto longas sobre doença, sempre amparados em degradação, superação e sentimentos exacerbados. Ficam na memória pelas atuações, nada mais. Para meu desânimo, os biográficos ou sobre enfermidades proliferam entre os concorrentes ao OSCAR 2015.

Assistir à premiação do OSCAR sempre foi uma diversão. Acho de um enorme gozo acompanhar a tudo ao vivo, vendo estrelas que admiro, figurinos luxuosos, belas joias, o momento nostalgia, piadas intraduzíveis e coreografias caretas. Torço pelos meus favoritos e fico com o sentimento típico do perdedor com as injustiças (a vitória da medíocre Sandra Bullock em 2010 deixou-me na boca um gosto agridoce, tive que tomar uma dose de uísque de um só gole para relaxar). Mas noto que de alguns anos para cá as escolhas da Academia tem se tornado mais interessantes, fugindo do óbvio e acreditando no cinema independente. Veremos o que vai acontecer no próximo domingo. A cerimônia, marcada para 22 de fevereiro, será realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia, e terá como apresentador o ator Neil Patrick Harris. Transmitida ao vivo pela ABC e com sinal que chegará a mais de 225 países.

Enfim, a partir do convite das colegas blogueiras do “DVD, Sofá e Pipoca”, segue minha lista de favoritos ao OSCAR 2015, e façam suas apostas!

MELHOR FILME
BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE da IGNORÂNCIA)

Um filme que discute arte, fama, decadência, o rolo compressor da indústria cultural e o vazio generalizado. Tudo isso dentro de um drama rotulado como comédia (nada encontrei de cômico, muito pelo contrário) absurdamente complexo, potente e perturbador. O resultado é outro inquietante e sensacional trabalho do mexicano Iñarritú, tão memorável quanto em “Amores Brutos / Amores Perros” (2000), “21 Gramas / 21 Grams” (2003) e “Biutiful / Idem” (2010). Merece ser o grande vitorioso da noite. Também ficaria feliz com a estatueta dourada nas mãos do alucinado “O Grande Hotel Budapeste”. Sempre que Wes Anderson anuncia um novo filme, podemos esperar algo, no mínimo, completamente diferente dos padrões hollywoodianos. A indicação desta versão cinematográfica refinada (e bastante pessoal) do clássico literário de Stefan Zweig parece indicar que finalmente a Academia se deixou seduzir pela ousadia do diretor.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
IDA (idem) 

Com o Brasil mais uma vez fora da disputa do Oscar – o candidato nacional, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, não está entre os selecionados à indicação de Filme Estrangeiro –, fiquei sem saber se torcia por “Tangerinas / Mandariinid” ou “Ida”. Terminei optando pelo delicado drama do polonês Pawel Pawlikowski. O longa é um olhar sobre o período em que a Polônia esteve sob o domínio nazista. O enraizamento do antissemitismo nas relações cotidianas, o embate entre crença e liberdade, tudo permeia o roteiro complexo. Nesta viagem de descoberta - real e simbólica -, em tom sóbrio ampliado pela fotografia em preto e branco, o diretor constrói uma obra que parece um cartão postal trágico, um pequeno curativo sobre uma cicatriz que não se fecha no imaginário dos poloneses.

MELHOR ANIMAÇÃO
O CONTO da PRINCESA KAGUYA
(Kaguyahime no Monogatari)

Visualmente é belíssimo. Tem um olhar muito próprio. Animado como se fosse feito com nada além de lápis de cor e aquarelas – fazendo literalmente cada quadro do filme parecer com algo que poderia ser pendurado em uma galeria. Mas o que é realmente especial sobre essa animação japonesa de Isao Takahata é a forma como interage com a história e como ela é contada. Nos momentos mais tensos e cheios de pânico, as linhas se tornam mais irregulares, as imagens mais indistintas. As cores, por sua vez são silenciadas dando espaço para os tons pretos e cinzas. O oposto pode ser dito dos momentos surreais onde as cores ficam mais brilhantes e as imagens mais nítidas. O filme é puro deleite visual do início ao fim. Merece com louvor a estatueta.

MELHOR DIREÇÃO
ALEJANDRO GONZÁLEZ INÁRRITU

O prêmio de Melhor Direção anda quase sempre junto com o de Melhor Filme, mas eu gosto quando esta rotineira situação não acontece. Este ano filme e diretor estão casadíssimos, ambos merecem a estatueta. “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” é uma obra-prima surpreendente e ousada. Talvez a chance de Richard Linklater levar o Oscar seja maior. Pode ser, mas seria uma vitória absurda. Ele dirige e escreve roteiros com naturalidade e fluidez, acima da média, mas sua trajetória ainda não convence plenamente. Já Iñárritu mostra garra e talento desde sempre.

MELHOR ATRIZ
JULIANNE MOORE

Finalmente chegou a hora e vez de Juliane, uma atriz que acompanho deste os tempos de Robert Altman e dos primeiros filmes de Paul Thomas Anderson. Ela é a favorita ao prêmio, e merecidamente. Sua incômoda placidez em “Para Sempre Alice / Still Alice” nos deixa “engasgados”. Evitando o tom melodramático e a catarse emocional, o drama é todo centrado nela, que dá conta do recado tranquilamente. Há sensibilidade na atuação da atriz, impedindo que o filme mediano se torne um mero retrato deprimente de uma personagem definhando diante de nossos olhos. Sempre contida e segura do tom de sua interpretação, ela nos conecta a este papel cheio de nuances, mesmo quando a adocicada trilha sonora insiste em tentar nos levar às lágrimas. Além da agudeza do desempenho de Moore, as concorrentes são previsíveis, com exceção da francesa Marion Cotillard (que prefiro noutro filme lançado em 2014, “Era Uma Vez em Nova York / The Immigrant”). Rosamund Pike, Reese Whiterspoon e Felicity Jones dão vida, honestamente, a performances corretas, nada mais. Somente foram indicadas pela escassez de boas atuações femininas no ano passado.

MELHOR ATOR
EDDIE REDMAYNE 

A Academia adora atores que se transformam interpretando personagens que sofrem com algum tipo de doença ou limitação física, especialmente quando a conclusão é trágica. Portanto, este ano, Redmayne deve levar o Oscar. Não quero dizer que não mereça, muito pelo contrário, realmente é a melhor atuação masculina de 2014. Não será nenhuma novidade se o intérprete de “A Teoria de Tudo / The Theory of Everything” sair como vitorioso. O modo como interpreta as diversas fases da doença é incrível e digno de nota. Isso sem contar o fato de que ele conseguiu ficar fisicamente muito parecido com o biografado. O próprio Stephen Hawkins elogiou o trabalho do ator. Seu maior rival na disputa, o chato Michael Keaton, está impecável em “Birdman”, na melhor performance da sua carreira. Faz uma vítima do sistema, beirando o alter-ego. Benedict Cumberbatch, com cara de galinha choca inglesa, não me seduz. Um saco sua faceta estranha, antipática e arrogante. O roteiro indica que o matemático Alan Turing, considerado o pai da computação, era assim, mas a persona do ator se revela da mesma maneira noutros filmes. Entre os concorrentes, senti a ausência de Ralph Fiennes, muito bom como o Gustave de “O Grande Hotel Budapeste”, e David Oyelowo, que tem em “Selma / Idem” uma consistente interpretação como Martin Luther King.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
LAURA DERN

Sou daqueles que toda vez em que Meryl Streep aparece como candidata ao Oscar, não hesito em torcer por ela. Atriz fabulosa, tem uma carreira impecável e está há quase quarenta anos no topo, algo raríssimo na história de Hollywood (lembro-me de Ingrid Bergman, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Bette Davis, Elizabeth Taylor e Marlene Dietrich). Como a bruxa má da decepcionante fábula musical “Caminhos da Floresta / Into the Woods”, mais uma vez rouba a cena. Sua participação pra lá de especial vale o ingresso. Mas este ano o Oscar deve ser levado pra casa por outra veterana bem-preparada: Laura Dern, cativante em “Livre / Wild”. Ela é o ponto alto desse simpático road-movie. Inspiradíssima, apaixonante, muito bem aproveitada como a mãe da protagonista. A estatueta estaria bem também nas mãos de Patricia Arquette, apesar de eu não ser fã de “Boyhood”. Por fim, Emma Stone surpreende no pequeno papel de filha desajustada em “Birdman”. Quem destoa do grupo é Keira Knightley. Bonitinha e coisa e tal, carismática, esforçada, não faz feio, mas não passa daí.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
J. K. SIMMONS

A categoria mais empolgante deste ano. Sou fã de Robert Duvall, Mark Ruffalo, Ethan Hawke e Edward Norton. Com exceção do adorável Hawke, que mais uma vez parece interpretar ele mesmo, todos os outros estão excelentes. Norton brilha ao fazer uma paródia de si mesmo em Birdman”. Mas tudo indica que Simmons será o premiado. Ele dá um show no bonito e tenso “Whiplash – Em Busca da Perfeição / Whiplash”. É o papel de sua vida! São vários aspectos que o agigantam durante o filme: seu olhar, a forma imponente com que se coloca diante dos alunos e, principalmente, a maneira sutil como demonstra as emoções. Ele é mestre e vilão. Aceito sua vitória (embora seja o protagonista do filme, jamais coadjuvante), mas meu coração é de Norton, ator injustiçado, um dos melhores de sua geração.

MELHOR FOTOGRAFIA
EMMANUEL LUBEZKI

Ele levou o Oscar do ano passado pela ficção científica “Gravidade / Gravity”, mas tem chances de repetir o feito. A fotografia de “Birdman” deslumbra e já arrebatou o prêmio do Sindicato dos Diretores de Fotografia dos EUA. Apaixonei-me pelo trabalho do mexicano Lubezki desde “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça / Sleepy Hollow” (1999), mas pularia de alegria se houvesse uma reviravolta e o talentoso Roger Deakins levasse a estatueta. Aos 65 anos, concorre pela décima segunda vez e nunca ganhou.

“o grande hotel budapeste”

LISTA COMPLETA

Os FAVORITOS do Blog O FALCÃO MALTÊS

MELHOR FILME
BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)
(Alejandro González Iñárritu, John Lesher, Arnon Milchan
 e James W. Skotchdopole / New Regency Pictures,
M Prods e Le Grisbi Productions)

MELHOR DIRETOR
ALEJANDRO GONZÁLEZ INÁRRITU
(“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)

MELHOR ATRIZ
JULIANNE MOORE
(“Para Sempre Alice”)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
LAURA DERN
(“Livre”)

MELHOR ATOR
EDDIE REDMAYNE
(“A Teoria de Tudo”)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
JK SIMMONS
(“Whiplash – Em Busca da Perfeição”)

MELHOR FILME em LÍNGUA ESTRANGEIRA
IDA 
(Polônia | Dinamarca | França | Inglaterra)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
CITIZENFOUR

MELHOR ANIMAÇÃO
O CONTO da PRINCESA KAGUYA

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
ALEJANDRO G. IÑÁRRITU, NICOLÁS GIACOBONE,
ALEXANDER DINELARIS JR. e ARMANDO BO
(“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
ANTHONY MCCARTEN
(“A Teoria de Tudo”)

MELHOR FOTOGRAFIA
EMMANUEL LUBEZKI
(“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)

MELHOR EDIÇÃO
SANDRA ADAIR
(“Boyhood: Da Infância a Juventude”)

MELHOR TRILHA SONORA
ALEXANDRE DESPLAT
(“O Grande Hotel Budapeste”)

MELHOR CENOGRAFIA
ADAM STOCKHAUSEN, STEPHAN O. GESSLER, GERALD SULLIVAN     
e STEVE SUMMERSGILL  
(“O Grande Hotel Budapeste”)

MELHOR FIGURINO
MILENA CANONERO
(“O Grande Hotel Budapeste”)

MELHOR DOCUMENTÁRIO em CURTA-METRAGEM
DISQUE-CRISE PARA VETERANOS

MELHOR ANIMAÇÃO em CURTA-METRAGEM
O BANQUETE

MELHOR CURTA-METRAGEM em 'LIVE-ACTION'
THE PHONE CALL

MELHORES EFEITOS VISUAIS
PAUL FRANKLIN, ANDREW LOCKLEY, IAN HUNTER e SCOTT FISHER 
(“Interestelar”)

MELHOR MAQUIAGEM e CABELO
FRANCES HANNON e MARK COULIER
(“O Grande Hotel Budapeste”)

MELHOR CANÇÃO
“GLORY”, de JOHN STEPHENS e LONNIE LYNN
(“Selma”)

MELHOR EDIÇÃO de SOM
MARTÍN HERNÁNDEZ e AARON GLASCOCK
(“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)

MELHOR MIXAGEM de SOM
JON TAYLOR, FRANK A. MONTAÑO e THOMAS VARGA
(“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)