Mostrando postagens com marcador Festival de Cannes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Festival de Cannes. Mostrar todas as postagens

setembro 11, 2015

********** KUROSAWA, o IMPERADOR JAPONÊS



 
Descendente de um clã de samurais, AKIRA KUROSAWA (1910 - 1998. Shinagawa / Japão) trabalhou na juventude como ilustrador de revistas, desenhando anúncios publicitários. Em 1936, iniciou a carreira cinematográfica como roteirista e assistente de direção, até dirigir, em 1943, “A Saga do Judô / Sugata Sanshiro”. O sucesso se dá com um emblemático filme de época: “Rashomon” (1950), levando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e impulsionando de maneira arrebatadora o ofício do cineasta. Filme divisor de águas do cinema japonês. Até vencer o Festival de Veneza de 1951, o Japão era uma nação exótica para o Ocidente. Foi ele quem abriu as portas para o cinema e, por que não, para a cultura do país. Nesta obra admirável e inovadora, brilha Toshiro Mifune, o rosto do cinema de Kurosawa. Considero o melhor filme do mestre.

toshiro mifune
A parceria Kurosawa-Mifune seria uma das mais profícuas colaborações de diretor-ator da história do cinema, um exemplo de entrosamento hábil, estilo John Ford-John Wayne ou Bette Davis-William Wyler. Fizeram juntos 16 filmes. Infelizmente, a dupla chegaria ao fim em 1965: a filmagem de “O Barba Ruiva / Akahige”, o último filme em preto e branco do diretor, demorou dois anos, e Mifune não podia atuar em outros trabalhos durante a produção, o que o levou a dificuldades financeiras, e tinha suas próprias opiniões sobre a interpretação do personagem, surgindo daí a ruptura definitiva entre ele e AKIRA KUROSAWA. Fim de uma sociedade que se havia iniciado com “O Anjo Embriagado / Yoidore tenshi”, considerado por muitos como “o primeiro filme de Kurosawa”. O próprio diretor admitia que este era o primeiro que ele poderia chamar de “meu filme”.

Tempos depois, quando Toshiro Mifune obteve consagração mundial pelo Lord Yoshi Toranaga da minissérie televisiva “Shogun / Idem” (1980), uma co-produção Japão-EUA, comentários irônicos do diretor gelaram ainda mais a relação. Uma espécie de “reconciliação” ocorreria em 1993, durante os funerais de um amigo comum, após tímida troca de olhares, os dois se abraçaram com olhos marejados. A intimidade, porém, nunca mais seria retomada. A história desse rompimento artístico e humano inspirou um livro, The Emperor and the Wolf / O Imperador e o Lobo, de Stuart Galbraith IV. 

Oitavo e último filho de uma família de classe média de Tóquio, AKIRA KUROSAWA estudou artes plásticas e teve forte influência do irmão Heigo no gosto pela literatura e cinema – ele era narrador de filmes mudos no começo do século passado, mas com o advento dos filme sonoros, ficou desempregado e se suicidou, um episódio que deixou marcas no diretor. Ele disse diversas vezes que foi muito influenciado por cineastas norte-americanos como John Ford, William Wyler, Frank Capra, Howard Hawks e George Stevens. Chegou a citar o italiano Michelangelo Antonioni, mas não como uma influência e sim como “um diretor muito interessante”. No que diz respeito a influências japonesas lembra enfaticamente Kenji Mizoguchi, dentre todos os seus conterrâneos. Mizoguchi cria um mundo puramente japonês, afirmou Kurosawa.

toshiro mifune em os sete samurais” 
Apesar do diálogo amplo com a literatura mundial, Kurosawa tem uma voz extremamente própria. Dono de uma visão universal e essencialmente teosófica, ele resgata a tradição dos samurais e reflete sobre a dor humana, enquanto aborda a ética e a justiça nas relações sociais. A natureza, e a sua preservação, são outra constante em sua obra. Cada filme era para ele um novo desafio, e raramente era fácil. Utilizando um clássico de Dostoiévski, realizou “O Idiota / Hakuchi” (1951). No ano seguinte, lançaria o sensível e triste “Viver”, para alguns o seu melhor trabalho.

Ainda na década de 1950, “Os Sete Samurais” (1954) popularizou mundialmente os valentes samurais. É o título mais lembrado de AKIRA KUROSAWA, e considerado um dos 100 maiores filmes de todos os tempos. Três anos depois, ele adaptaria o denso “Macbeth”, de Shakespeare, que renasce no Japão feudal de maneira brilhante em “Trono Manchado de Sangue”. Em 1958, fez o vibrante “A Fortaleza Escondida”, inspiração de George Lucas em “Guerra nas Estrelas / Star Wars” (1977). 


O grande sucesso “Yojimbo - O Guarda-Costas / Yôjinbô” (1961) foi reproduzido como o clássico faroeste “Por um Punhado de Dólares / Per Un Pugno di Dollari” (1964), de Sergio Leone. Aliás, esse filme provocou um processo judicial por plágio movido e ganho por Kurosawa. Certa vez perguntaram o que ele pensava das adaptações para faroeste de três de seus filmes – além do já citado, “Sete Homens e Um Destino / Magnificent Seven” (1960), onde John Sturges adaptou “Os Sete Samurais”; e “Quatro Confissões / The Outrage” (1964), quando Martin Ritt se inspirou em “Rashomon”. O cineasta respondeu: “Eu não tenho nada contra adaptações de meus filmes. Mas não acredito que possam ter êxito. O contexto básico é muito distinto. Filmes pastiche, de um tipo calculado, não podem nunca ser bons filmes... é, por exemplo, ridículo me imaginar dirigindo um faroeste de Hollywood. Porque eu sou japonês...”

No final da década de 1960, Kurosawa foi para Hollywood realizar um drama de guerra retratando o ataque a Pearl Harbour tanto do ponto de vista japonês quanto do norte-americano. Escreveu um roteiro que teria 4 horas, mas a Fox queria um filme de 90 minutos. Ele desistiu e o filme acabou saindo, dirigido por Richard Fleischer, Kinji Fukasaku e Toshio Matsuda, com o nome de “Tora! Tora! Tora! / Idem” (1970). Kurosawa, em crise emocional e criativa, tentou o suicídio.

Ele venceria pela segunda vez o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desta vez, em 1975, com “Dersu Uzala”, exatos 25 anos após receber a mesma estatueta por “Rashomon”. É, sem dúvida, um dos seus mais belos filmes. Nos anos 1980, George Lucas e Francis Ford Coppola acabariam co-produzindo dois de seus épicos, “Kagemusha – A Sombra de Um Samurai / Kagemusha” (1980) e “Ran” (1985). “Kagemusha - A Sombra do Samurai” levou a Palma de Ouro em Cannes - prêmio dividido com “O Show Deve Continuar / All that Jazz (1979), de Bob Fosse. Com “Ran”, voltaria a Shakespeare. Uma obra grandiosa, indicada ao Oscar de Melhor Direção. O mestre elegeu Ran como a “obra de sua vida”Os seus últimos filmes (“Sonhos / Dreams”, 1990; “Rapsódia em Agosto / Hachi-gatsu no kyôshikyoku”, 1991; e “Madadayo / Idem”, 1993) são pinceladas intimistas sobre o tempo, a maturidade e a morte. 

Se conhecemos a cinematografia oriental, o maior responsável é AKIRA KUROSAWA. Ele abriu as portas do Japão para o mundo, revelando outros importantes cineastas (Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi etc.). Curiosamente, os seus filmes sempre fizeram mais sucesso no mundo ocidental do que no seu país natal, onde os críticos viam seu estilo forjado em faroestes (ele tem muito de John Ford, e de “Os Brutos Também Amam Shane”, de George Stevens) e na obra de escritores europeus. Kurosawa transcendeu gêneros, épocas e nacionalidades, mas nunca deixou em segundo plano sua própria cultura, isso é percebido na movimentação dos atores, em sua obsessão por cenários autênticos e na influência do teatro Nô e Kabuki. 

george lucas, kurosawa 
e steven spielberg
Uma das suas características é perfeccionismo. Ele estava ligado justamente ao fato de participar de todas as etapas do processo de realização de um filme. Ele não apenas dirigia, mas também escrevia o roteiro, desenhava os personagens e as cenas de batalha - que servia como storyboard na rodagem -, ajudava na fotografia e no posicionamento da câmera.

A linguagem cinematográfica de AKIRA KUROSAWA está profundamente interligada ao sentimento humano. Em seus filmes, o componente reflexivo, sempre está presente, focalizando o homem frente às escolhas éticas e morais. Clássico na forma e romântico na essência, eclético e denso, fundiu a alma japonesa e os valores universais, subordinando o ideal humanista à beleza que jorra em imagens esplêndidas criadas com notável senso plástico. Além de ser um dos melhores cineastas de seu país, influenciou - e influencia até hoje - a produção cinematográfica em todo o mundo. Considerado pela revista “Entertainment Weekly” como o 6º maior diretor de sempre, em 1990 recebeu da Academia um Oscar especial pelo conjunto da obra. O diretor ainda viveu bons momentos até seu último e póstumo filme, “Depois da Chuva / Ame Agaru, de 1999, que foi terminado por seu discípulo Takashi Koizumi. Ele jamais se aposentou. Conviveu até seus últimos dias com o cinema.

mieko arada em “ran” 

TOP 10 KUROSAWA
 (por ordem de preferência)

01
RASHOMON
(Rashômon, 1951)
Um estupro e um assassinato através de várias narrativas, partindo da lembrança de quatro testemunhas: o bandido, o samurai assassinado, a esposa do samurai e um lenhador. Refilmado em 1964 como “Quatro Confissões”, com Paul Newman, Laurence Harvey, Claire Bloom e Edward G. Robinson.

02
TRONO MANCHADO de SANGUE
(Kumonosu-jô, 1957)
Dois samurais têm uma visão de uma bruxa no meio de uma floresta. Depois que ela profetiza um ambicioso futuro para um deles, tomam atitudes que fazem com que o que foi profetizado se torne realidade, não importando o sangue derramado.

03
DERSU UZALA
 (Idem, 1975)
Velho caçador guia um explorador russo em uma missão pela floresta. Quando se reencontram, tempos depois, o explorador decide levá-lo para sua casa e cuidar dele, mas este sofre um forte impacto entre os padrões de vida da cidade e das montanhas.

04
A FORTALEZA ESCONDIDA
 (Kakushi-toride no San-akunin, 1958)
Um poderoso homem escolta uma princesa fugitiva, em pleno território inimigo, com a ajuda de dois medrosos desertores da guerra.

05
VIVER
(Ikiru, 1952)
Idoso com câncer de estômago, em estágio terminal, utiliza seus últimos dias de sua vida para viver intensamente e tornar melhor a existência alheia.

06
Os SETE SAMURAIS
(Shichinin no Samurai, 1954)
Uma humilde aldeia precisa se defender de ataques de bandidos. Seus moradores contratam ronins (samurais que não servem a um amo) para ensiná-los a guerrear. Maravilhoso do início ao fim, gerou uma refilmagem no faroeste, “Sete Homens e um Destino”, um clássico com Steve McQueen, Yul Brynner e Charles Bronson.

steve mcqueen e yul brynner
07
HOMEM MAU DORME BEM
(Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru, 1951)
No Japão do pós-guerra, jovem tenta se utilizar de sua posição numa empresa corrupta para investigar e expor os responsáveis pela suposto assassinato de seu pai. Obra-prima, um roteiro elegante e a bela música de Sato.

08
RAN
(Idem, 1985)
Chefe da família, já velho, decide dividir seus preciosos bens entre os três filhos, gerando uma sangrenta batalha entre eles.

09
RALÉ
(Donzoko, 1957)
Numa miserável pensão, com diversificados hóspedes, um triângulo amoroso se forma entre o dono da pensão, sua irmã e um ladrão.

10
CÃO DANADO
(Nora Inu, 1949)
Detetive perde a pistola e roda por toda Tóquio em seu encalço. A partir daí, a busca pela arma torna-se uma busca por si mesmo. No processo, acaba se identificando com o universo marginal. O filme denuncia o enfraquecido mundo do Japão pós-guerra, bem como a natureza de uma mente criminosa. 


STORYBOARDS de KUROSAWA





FONTES
O Cinema da Crueldade (1989)
de André Bazin 

O Imperador e o Lobo (2002)
de Stuart Galbraith IV

The Films of Akira Kurosawa (1986)
de Donald Richie

Akira Kurosawa (2007)
de Charles Tesson


outubro 18, 2011

**** Um ANO de BLOG: com a PALAVRA, o EDITOR

eu em montagem de darci fonseca


Celebrando o PRIMEIRO ANIVERSÁRIO deste blog, convidei dez blogueiros cinéfilos para um bate-papo. Eles perguntam, eu respondo. Estendendo assim as fronteiras de um perfil e revelando a força da identidade cinematográfica em cada coração. 

hunter mcCracken em a árvore da vida
ADALBERTO MEIRELLES

Nota-se a exposição de um vasto repertório em “O Falcão Maltês”, seja de fotos ou de informação sobre filmes, diretores e estrelas do cinema. O material é pesquisado apenas na web, ou você tem um arquivo pessoal? Fale mais sobre esse repertório apresentado, sobretudo referente aos filmes.

Não deixo de pesquisar na web, Adalberto, mas boa parte do material postado neste blog vem do arquivo pessoal. Desde garoto, quando vi os primeiros filmes, eu rabisca em cadernos sobre eles, completando essas anotações ingênuas com imagens recortadas em revistas ou jornais. Eu sempre li muito. Desde cedo. E comecei a gostar de cinema na mesma época, misturando tudo na minha cabeça. Logo passei a colecionar revistas de cinema, cartazes, figurinhas, livros etc. Até fazia fichas técnicas e críticas de filmes. Perdi muita coisa nessa vida cigana, morando em cidades e países diferentes, mas restou um farto acervo, do qual me orgulho. Preservo cerca de cinco mil filmes, muitos livros sobre cinema, revistas e trilhas sonoras, além de pastas-arquivos abarrotadas de recortes.

Comparando-se o cinema de hoje ao do passado, você acredita que ainda há lugar para a arte e a invenção? O que você viu de melhor e de pior no cinema este ano?

Nos últimos anos, como sabemos, a sensibilidade cultural caiu barbaramente, tornando mais difícil a sobrevivência da arte inteligente e sofisticada, predominando o tosco, o perecível. O cinema também mergulhou nessa crise, mas alternativas positivas existem, mesmo com a aparentemente e talvez irreversível decadência cultural. Já não há aquela efervescência cinematográfica em busca de um estilo, um movimento, ou mesmo da “obra perfeita”.  Os cineastas não estão interessados em qualidade, querem dinheiro e fama. São raros os que fogem desta tendência. O que vale hoje é a cultura da celebridade, da vulgaridade televisiva. A mediocridade domina o mundo. O melhor filme que vi este ano talvez tenha sido “A Árvore da Vida / The Tree of Life” (2011), de Terrence Malick. Realmente me comoveu, até chorei, navegando em sensações tarkovskianas. “Melancolia / Melancholia” (2011) também é um belo filme, embora me canse a linguagem chata e neurótica de Von Trier. Gostei especialmente de “Ilha do Medo / Shutter Island” (2010), mas sou suspeito, compartilho a opinião de que todos os filmes de Scorsese são fenomenais. Comofaço uma triagem radical antes de ir ao cinema nos shoppings enfadonhos, posso dizer que os piores filmes que vi este ano não são tão detestáveis: “Meia-Noite em Paris / Midight in Paris” (2011), de Woody Allen; “Além da Vida / Hereafter” (2010), de Clint Eastwood; “Thor / Idem” (2011), de Kenneth Branagh, e “A Rede Social / The Social Network” (2010), de David Fincher.

“O Falcão Maltês” apresenta-se com dinâmica rara e elogiável senso de oportunidade na elaboração dos textos postados, o que não é comum entre os sites, blogs e revistas eletrônicas que proliferam na web. Gostaria que você refletisse um pouco sobre isso.

Levo a sério o trabalho que desenvolvo. Não é um simples passatempo ou terapia. Leio diariamente, pesquiso, troco ideias com gente bem informada. Procuro mostrar, de forma honesta e minimalista, a história de muitos profissionais de talento. Creio que escreve quem sabe, noticia quem é bem informado, quem lê sobre cinema e vê filmes com olhos atentos, conhecendo a trajetória de mais de um século. Não é o que geralmente acontece. Existem blogs fantásticos na área cinematográfica – o seu, por exemplo -, mas muitos outros são feitos por imaturos, que não se relacionam muito bem com as palavras, predominando a pieguice ou a vaidade. No entanto, acredito no potencial da mídia eletrônica como fonte de valorização do universo cinematográfico.

renato salvatori e alain delon 
em rocco e seus irmãos
ANDRÉ SETARO

Considerando a infantilização temática do cinema americano contemporâneo, como você, cultor dos clássicos do pretérito, vê o cinema da atualidade. Se, antigamente, emocionava-me facilmente com um filme, hoje é muito difícil disso acontecer.

Setaro, ainda acredito que é possível a produção de filmes de qualidade, mesmo convicto que o cinema perdeu a aura que tinha antigamente e tenha se vendido integralmente ao mercado, como sempre foi de sua índole. Tenho visto longas maravilhosos: “A Vida dos Outros / Das Leben der Anderen” (2006), do alemão Florian Henckel von Donnersmarc; “Milk – A Voz da Igualdade / Milk” (2008), de Gus Van Sant; “A Fita Branca / Das Weibe – Eine Deutsche Kindergeschichte” (2009), de Haneke. E também ótimos trabalhos de Ang Lee, Andre Tèchiné, Tim Burton, Chen Kaige etc. Portanto, talento e filmes de excelência existem, embora cada vez mais parcos. O problema maior está no cinema norte-americano, que domina 80% do mercado mundial. Ele mergulhou numa crise. Se até os anos 70 era fácil citar 20 excelentes cineastas em atividade, hoje Hollywood está ressentida desse prestígio. Têm o Scorsese, Irmãos Coen, Eastwood, Paul Thomas Anderson, David Lynch, Christopher Nolan e poucos outros.

Quais os cinco melhores filmes na sua opinião afetiva?

Tenho percebido que sempre que ouso listar os melhores de sempre, os filmes não são os mesmos das listas anteriores. Talvez eu seja volúvel, hoje Visconti, amanhã Bergman. Mas vamos lá. Fico com “Rocco e seus Irmãos / Roco e i Suoi Fratelli” (1960), de Luchino Visconti; “Rashomon / Idem” (1950), de Akira Kurosawa; “A Marca da Maldade / Touch of Evil” (1958), de Orson Welles; “Fausto / Faust – Eine Deutsche Volkssage” (1926), de F. W. Murnau; e “O Sétimo Selo / Det Sjunde Inseglet” (1956), de Ingmar Bergman.

E o cinema nacional. Qual a sua opinião?

Continuo tentando me sensibilizar com o cinema nacional. Vi filmes de Humberto Mauro e Mário Peixoto, a fase da Vera Cruz, quase todo o Cinema Novo, o experimentalismo da Boca do Lixo, o cinema baiano etc. Acompanho as novas produções nacionais mais por afeição do que por qualquer outra coisa. O nosso cinema é tosco. Não conheço nenhum filme brasileiro que possa ser considerado uma obra-prima. O Glauber nunca foi gênio, o Nelson Pereira repete falhas primárias, o Cacá Diegues e os Barretos são apenas esforçados artesões. Estamos perdidos entre tiroteios e comédias globais, e não merecemos o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Entretanto, aprecio “O Cangaceiro” (1953), “Noite Vazia” (1964), “São Paulo S. A.” (1965), O Padre e a Moça (1965), “São Bernardo” (1972), “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (1981), Cabra Marcado para Morrer (1984), “A Ostra e o Vento” (1997), “Abril Despedaçado” (2001), “Lavoura Arcaica” (2001), “Amarelo Manga” (2002), Desmundo (2003) e mais três ou quatro.

rodrigo santoro em abril despedaçado
CARLA MARINHO

Já pensou em trabalhar diretamente vcom o cinema, seja ministrando aulas ou fazendo filmes?

Teve uma época em que desejei ser roteirista. Escrevi até dois curtas que foram filmados por um cineasta português, José Ricardo Corte-Real. Um deles era uma adaptação de um conto de Edgar Allan Poe. Mas jamais pensei em me tornar um profissional de cinema, creio que temi a batalha árdua. Eu também não saberia viver outra vez numa metrópole, nesses lugares acelerados onde as coisas acontecem, tenho procurado cada vez mais cidades menores e mais tranquilas para viver. Quiçá, um dia, realize curtas domésticos, sem qualquer pretensão comercial ou artística.

E criar um cineclube clássico? Você já pensou em fazer algo do tipo aí em Natal?

Durante um certo tempo, em Barcelona, no Centro de Estudos Brasileiros, selecionei e apresentei filmes brasileiros. Depois de cada sessão acontecia uma conversa informal. Era interessante. Atualmente seria mais instigante coordenar uma mostra anual, celebrando cineastas, atores e técnicos. Recheada com convidados do Brasil e de outros países, workshops, exposições, feira de livros, palestras e exibição de clássicos.

Qual o pior cinéfilo, aquele metido a crítico, que observa cada detalhe para somente criticar cada um dele baseado em alguma regra cinematográfica (e ai de você se discordar dele) ou aquele que torce o nariz quando você lhe fala sobre um filme com mais de 10 anos de idade sem nem ao menos pensar se seria uma boa experiência vê-lo?

Eu não entendo o cinéfilo que vive só de modismos ou blockbusters, esnobando o cinema clássico. É o mesmo que gostar de música e não ouvir jazz, bossa-nova, samba canção. É desinformação, não abre caminhos, não se sustenta. Tampouco compreendo o cinéfilo metido a crítico, analisando rigorosamente cada filme que vê. Sei que não existe uma escola de cinema onde se sai crítico, mas tal profissão não é fácil como muita gente pensa. O crítico deve ter, antes de mais nada, um repertório muito extenso da cinematografia e a capacidade de contextualizar os filmes no universo sócio-político-cultural em que eles se inserem. Ele também precisa investir na inteligência do leitor, despertando o interesse por textos elaborados. O que vejo em abundância nada mais é do que o triunfo da preguiça intelectual, o superficial que não satisfaz.

silvana mangano em ulisses
DANIELA CREPALDI CARVALHO

Preciso que me ensine a receita para escrever com tanta regularidade e sobre temas tão variados referentes à Sétima Arte. Quero detalhes, hein (quem sabe eu não aprendo e começo a escrever com mais frequência!).

Dani, eu leio sobre cinema e vejo filmes furiosamente, desde os nove, dez anos. Eu sempre vivi cercado de livros e filmes. Com uns quinze anos, já tinha uma biblioteca e pilhas de cadernos onde anotava impressões sobre os filmes vistos, diretores e atores que me seduziam. Comecei com “Amarcord”, de Fellini, que vi num cinema de arte ainda garoto. Nunca mais parei de tomar anotações. Posso dizer que tenho centenas de textos incompletos sobre cinema. Quando desejo postar algo no blog, geralmente influenciado por um filme visto recentemente, consulto em primeiro lugar o arquivo. Ao encontrar um velho texto que se situa no que procuro, releio-o diversas vezes, reviso, acrescento ou corto trechos, e por aí vai. Além disso, como sempre trabalhei com a palavra, escrevo rápido e tenho facilidade em condensar um determinado assunto.

Qual é sua primeira memória relacionada ao cinema (é de um ator? um filme?). De que forma isso influenciou sua paixão pela arte?

Não tenho certeza da primeira lembrança relacionada ao cinema. Quero acreditar que foi Silvana Mangano como a feiticeira Circe em “Ulisses / Ulisse” (1954) ou a irreverência humorada de “Amarcord / Idem” (1973), de Fellini. De alguma forma, me influenciaram. Depois de Silvana passei a cultuar musas, acompanhando religiosamente o trabalho delas. Tive o momento Jennifer Jones, o momento Gene Tierney, o Jeanne Moreau, Merle Oberon, Mia Farrow etc. Em relação a “Amarcord”, Fellini nunca me deslumbrou, mas o impacto dessa obra-prima me levou às estranhas do cinema, fazendo-me compreender que a vida seria mais triste sem ele.

Diga elementos que estabeleceram você como jornalista-viajante-cinéfilo-escritor.

Houve uma época em que imaginava a possibilidade de um mundo sem fronteiras, coroado pela magia da arte. Acima de politicagens, religiosidade, preconceitos e consumismo descartável. Para desfrutar dessa utopia, escrevia, via filmes e viajava. Inocente, acreditei que o jornalismo era a profissão ideal nessa sociedade ilusória. Os anos passaram, li boa parte dos livros desejados e vi quase todos os filmes que me interessam, conheci países que nem imaginava um dia conhecer, aprendi com diferentes costumes e terminei por descobri que o jornalismo é uma profissão banal como outra qualquer. Por fim, percebi que a minha solidão é idêntica a de todos, nem maior nem menor. Só que não sou do tipo que cultua amargura ou fobias, encontrando uma certa serenidade nas minhas aventuras intimistas.

robert ryan e janet leigh 
em o preço de um homem
DARCI FONSECA

Qual seu faroeste preferido (não é o melhor, mas o que você mais gosta de assistir)?

Durante anos enxerguei John Ford como o soberano do gênero western e colocava, como quase todo mundo, “Rastros de Ódio / The Searchers” (1956) no topo dos melhores westerns de todos os tempos. Quando vi “Rio Vermelho / Red River” (1948), de Hawks, fiquei em dúvida, mas continuei fiel a Ford. Ao assistir “Winchester 73 / Idem” (1950), “E o Sangue Semeou a Terra / Bend of the River” (1952) e “O Preço de um Homem / The Naked Spur” (1953) compreendi que o imperador do gênero era outro: Anthony Mann. Tenho convicção de que O Preço de Um Homem” é o melhor western que assisti. Simplesmente assombroso. Pena que é estrelado por Jimmy Stewart e Janet Leigh, dois atores competentes que não simpatizo. Seria perfeito com Robert Mitchum e Shelley Winters. Felizmente o terrível vilão do magistral Robert Ryan rouba a cena.

Qual cena de um faroeste é inesquecível para você?

O enforcamento em “Consciências Mortas / The Ox-Bow Incident” (1943) é extraordinário, tenso, dramático. Assim como a olímpica e trágica batalha de “Buffalo Bill / Idem” (1944). William A. Wellman, diretor desses dois filmes, é um primoroso e esquecido diretor, e não só de westerns, mas obras-primas nos gêneros guerra, aventura, drama e comédia.

Tendo vivido na Europa, o que você acha do spaghetti-western?

Tenho vergonha de confessar, mas sinceramente não suporto o spaghetti-western, mesmo vendo talento em Giuliano Gemma, Franco Nero, Gian Maria Volonté e em diretores como Sergio Corbucci ou Damiano Damiani. Toda a a embalagem me parece primária, rude, improvisada, sem verdade ou emoção. Por achar o spaghetti-western oportunista e descartável, terminei por separar o Sergio Leone dessa febre cult sem estilo. “Era Uma Vez no Oeste / C’era una Volta Il West” (1968) é uma obra-prima memorável e Leone, magistral. Ele não merece seguidores tão chinfrins.

DILBERTO LIMA ROSA

Vives do jornalismo cultural ou haveria uma identidade secreta para sustentar o herói com aspirações cinematográficas?

Nenhuma “identidade secreta”, caríssimo. Nenhuma herança, nenhum casamento rico, nem mesmo sou funcionário público... rs... Vivo do jornalismo cultural, de assessoria de comunicação, uma ou outra ação cultural e alguma sorte. Desde que enveredei por esse caminho, sabia que teria que descartar “o luxo e o lixo”. Não me arrependo. Sou um abençoado. Não estou rico, mas faço o que gosto. Ficaria contente se o resto da vida seguisse no mesmo rumo. Se bem que um dinheirinho a mais seria de grande valia. Por quê? Montaria um centro cultural em louvor ao cinema clássico e todos os anos iria para os festivais de Veneza e Cannes.

Já participaste (ou almejas participar) de alguma produção da Sétima Arte nacional?

Nunca. E olha que meus contos são propositalmente cinematográficos e tenho amigos cineastas. Quem sabe um dia alguém leia um deles e resolva filmá-lo... Seria lindo.

Os textos no Falcão Maltês são produzidos especialmente para o 'blog' ou são reaproveitamentos de textos já existentes de outras publicações tuas?

Como disse acima, a Dani Carvalho, alguns são do arquivo, inclusive um ou outro já publicado na imprensa. Só que repousavam como rascunhos, fragmentos. Foram reescritos. Por exemplo, “Nossas Musas, Nuas” e “Marlene Dietrich, a Vênus Loira” são textos antigos, de muitos anos, repaginados, nem parecem os de antes. Entretanto, em sua maioria, publico material recente, sem qualquer vestígio de outros tempos.

alain delon e giancarlo giannini 
em a primeira noite de tranquilidade
KLEY COELHO

Você pensa em dirigir um filme?

Se eu ganhasse na Mega Sena dirigiria um filme intimista com o cangaço como pano de fundo, fotografia de Walter Carvalho (ou Affonso Beato) e Selton Mello, Leandra Leal, Murilo Benício, Simone Spoladore, Rodrigo Santoro, Sonia Braga, Irandhir Santos, Odete Lara e Regina Duarte como protagonistas. Como não jogo, nunca será dirigido. Mas planejo realizar vídeos poéticos.

Qual filme você gostaria de ter dirigido?

Vixe... Pergunta de lascar... Nunca pensei... Talvez o bacana e melancólico “A Primeira Noite de Tranquilidade / La Prima Notte di Quiete” (1972), de Valerio Zurlini.

Cite três filmes que influenciaram a sua vida.

“O Sétimo Selo”, de Bergman, tornou-me consciente da fragilidade da vida e do desequilíbrio humano. “A Felicidade Não se Compra / It’s a Wonderful Life” (1946), de Frank Capra, me fez crer na inocência e na generosidade como bens preciosos e em extinção. “A Noite / La Notte” (1961), de Antonioni, revelou-me que a solidão e a falta de comunicação são estigmas incontornáveis da humanidade.

irene papas
LÊ MAGALHÃES

Você teve a oportunidade de conhecer várias personalidades do cinema e entrevistá-las enquanto morava na Europa. Quais atores e atrizes mais te surpreenderam quando você os conheceu pessoalmente e por quê?

Entrevistei mais de uma centena de atores e diretores nos 12 anos em que vivi na Europa, Lê, mas em sua maioria foram entrevistas coletivas, impessoais, tempo marcado, tradutores, ansiedade, disputa etc. Mas deu para viver momentos mágicos. Lembro que fiquei hipnotizado com a intensidade espiritual da grega Irene Papas; lembro da informalidade graciosa de Javier Bardem; do charme de Omar Sharif; da simplicidade encantadora de Sophia Loren; da vivacidade sofrida de Polanski; da sexualidade à flor da pele de Ewan McGregor; da inteligência austera de Carlos Saura; do magnetismo de Bertolucci; e da aristocracia de Catherine Deneuve. Foram encontros especiais.

Mais de 500 seguidores, notas e matérias em jornais e dezenas de comentários em cada post em apenas um ano! A que você atribui tamanho sucesso? Sorte, qualidade...?

Talvez paixão. O título já diz, “O Falcão Maltês” é um dos meus filmes preferidos e o policial noir o meu gênero número um. Eu amo o cinema. Edito o blog com prazer, escrevendo somente sobre o que me comove, buscando temas radiantes, concretos, rastreados em anos de leituras e apreciação de filmes. Creio que o leitor percebe, apaixonando-se pelo blog. Ele entende que não é superficial, vaidoso ou fútil, mas um encontro de enamorados do cinema clássico no qual ele é o convidado de honra.

Os primeiros textos eram mais curtos, apresentando uma nota sobre alguém do cinema clássico e uma lista dos filmes do ator / atriz / diretor em questão. Hoje os textos são mais elaborados e o blog ganhou um formato de revista semanal. Como você avalia essa evolução? De onde vieram as ideias para caprichar nos textos?

Criei “O Falcão Maltês” tendo como meta um pequeno círculo de cinéfilos colecionadores, ou seja, o conceito inicial era trocar filmes ou vender cópias da minha coleção por um preço simbólico, apenas cobrindo os gastos com mídia, impressão e correio. Deu certo, troquei e vendi muitos filmes, mas o blog inesperadamente tomou outro rumo, com navegadores de inúmeros países interessados em informações sobre cinema clássico. Terminei por deixar o projeto inicial de lado e transformei o blog numa revista eletrônica semanal, focando com intensidade no texto e na imagem, contribuindo para o enriquecimento da memória cinematográfica. Esse formato me aproximou dos leitores, reforçando nossa paixão pelo cinema, num mútuo enriquecimento.

humphrey bogart em “casablanca”

RATO

Se você pudesse ter sido um realizador de cinema qual aquele que escolheria? (Esta pergunta não tem a ver sobre o “melhor” realizador) E quais as razões?

Possivelmente Max Ophuls. Aprecio seu refinamento, as adaptações literárias, o cuidado cenográfico, a importância dada ao roteiro, a escolha de atores, a sensibilidade. Só não quero morrer tão jovem como ele.

Diga a personagem que gostaria de ter desempenhado no cinema e porquê.

Gosto do Rick Blaine de Humphrey Bogart em “Casablanca / Idem” (1942), mesmo não me interessando muito pelo filme num todo. Acho comovente esse quarentão independente, rebelde, deslocado, solitário, sem esperanças, vivendo num país que não é o seu, percebendo a loucura generalizada e estrangulando-se emocionalmente pela recordação de um amor impossível. Cai como uma luva na minha biografia.

Acredito que o cinema, tal como o conhecemos durante as nossas vidas, tem os dias contados e não vai sobreviver no futuro. Imagine que você dispõe de uma máquina do tempo e pode ir ao ano 5000 dar uma palestra sobre o que era essa coisa da “Sétima Arte” dos séculos 20 e 21. Quais os cinco filmes que você levaria para exemplificar o que era o Cinema nas suas diversas vertentes? Aqui não precisa explicar as razões, heheh...

Êta, amigo, complicado... Contar a história do cinema em cinco filmes não é fácil não... Vamos ver... Começaria com “Tempos Modernos / Modern Times” (1936), de Chaplin. Saltaria para “O Boulevard do Crime / Les Enfants Du Paradis” (1945), de Marcel Carné. Continuaria com o neo-realista “Ladrões de Bicicleta / Ladri di Biciclette” (1948), de Vittorio De Sica. Depois “2001 – Uma Odisséia no Espaço / 2001: A Space Odyssey” (1968), de Kubrick. Por fim, “Apocalipse Now / Idem” (1979), de Coppola.

lana turner
RICARDO LEITNER

Se  você tivesse que usar três substantivos para descrever cinema... quais usaria?

Preto-e-branco, coração, memória.

Nós, muitas vezes, temos gostos completamente opostos em questão de atores/atrizes... Explique-me... por que Lana Turner?

A questão da atração/afeição é inexplicável, misteriosa. Cada um tem os seus fetiches e sensações privadas. O mesmo acontece em relação ao universo cinematográfico. Muitas vezes nos encantamos por certos atores/atrizes sem talento especial e sem qualquer motivo aparente. Por exemplo, gosto demais do Tyrone Power, um ator de talento limitado. Já outros - embora tenha consciência da capacidade deles -, não consigo engolir, até incomodam, fico pensando: Esse papel ficaria melhor na pele de tal ator. O filme cresceria muito mais. É o que sinto em relação a Mickey Rooney, Tony Curtis, Julie Andrews, Sidney Poitier, John Wayne, June Allyson, Joan Collins, Dean Martin, Richard Burton, Gina Lollobrigida, Greer Garson, entre outros. A Lana não faz parte dos meus seletos, mas aprecio sua beleza sensual, a trajetória de diva. O autógrafo que tenho dela aconteceu por impulso. Ela estava no Festival de San Sebastian e eu a seguia com os olhos. De repente, sorriu, eu me aproximei e pedi o autógrafo. De inglês limitado, nem deu para confessar como sou fã de alguns de seus filmes.

Uma das minhas memória prediletas... você se lembra da primeira vez que entrou num cinema? Descreva sua sensação...

A primeira vez não recordo. Nas defasadas matinês do cinema da minha cidade interiorana exibiam-se reprises de filmes de Jerry Lewis, Elvis Presley, épicos (Hercules, Maciste etc.) e westerns italianos. Ia semanalmente assisti-los como quem ia à missa, bastante entediado. Tudo se iluminou na primeira sessão noturna, em um cinema de arte. Eu tinha doze anos e fui com meu tio-padrinho assistir “Amarcord”. Fiquei enfeitiçado, estarrecido. Ainda mais que não havia outra criança presente, somente adultos. Passei o resto da noite sem dormir, literalmente seduzido pela magia do bom cinema.