Mostrando postagens com marcador Nelson Pereira dos Santos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nelson Pereira dos Santos. Mostrar todas as postagens

janeiro 29, 2017

************************ JORGE AMADO no CINEMA




  Ilustrações:
CARYBÉ
(1911 - 1997. Lanús / Argentina)

O cheiro de cravo,
a cor de canela,
eu vim de longe
vim ver Gabriela.

modinha da zona do cacau


Um dos escritores mais importantes da literatura brasileira e um dos mais traduzidos para outros idiomas, pai de Gabriela e de Tieta do Agreste, JORGE AMADO (1912 - 2001. Itabuna / Bahia) nasceu na fazenda Auricídia, no sul da Bahia. Quando tinha apenas um ano, sua família se mudou para Ilhéus devido à uma epidemia de varíola. Foi lá que o menino passou a infância e de onde tirou inspiração para vários de seus futuros romances. Publicou 45 livros. Imortalizado por clássicos como “Terras do Sem-Fim” (1943) e “Gabriela, Cravo e Canela” (1958). Suas histórias são sobre o povo baiano, sua fé e sensualidade; a força das matas, os sabores da culinária, coronéis e jagunços, malandros e prostitutas, trabalhadores rurais e pescadores. Um acervo literário em 49 idiomas que mostra uma Bahia culturalmente rica e lúdica.

zélia gattai e jorge amado
Figura frequente no cinema e na televisão. Conversei com ele algumas vezes, entrevistei-o para tevê e jornal, fiz crônicas sobre sua literatura libidinosa. JORGE AMADO era afetuoso por natureza, respondendo todas as cartas que recebia de leitores, muitos deles jovens escritores pedindo conselhos. Amigo de Federico Fellini, ao lado de Nelson Rodrigues é o escritor nacional com maior número de adaptações para o cinema. Mas não teve a sorte do alagoano Graciliano Ramos, que conta com algumas de suas obras adaptadas entre os bons filmes do nosso cinema – “Vidas Secas” (1962), “São Bernardo” (1971) e “Memórias do Cárcere” (1984).

jorge amado e sophia loren
A obra do autor de “Tocaia Grande: A Face Obscura” (1984) serviu como matéria-prima para 15 longas-metragens, e de todos eles, talvez o melhor seja o divertido e erótico “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976).  As demais adaptações são ruins ou irregulares. Procurado por produtores e lido mundialmente, JORGE AMADO foi até jurado do Festival de Cannes. Sua prosa vem sendo levada para a telona desde 1948, quando Anselmo Duarte e Maria Fernanda estrelaram “Terra Violenta”. André Setaro, crítico de cinema, explica que o interesse pela sua obra se deve ao fato dele transpor a linguagem do povo nos seus romances, e também pelo cômico e sensual nas narrativas.

jorge amado e glauber rocha
Em 1979, o polêmico Glauber Rocha dirigiu “Jorge Amado no Cinema”, documentário de 36 minutos. Pouco conhecido, fala sobre a obra do escritor baiano, sua carreira literária e as adaptações cinematográficas de seus romances, especialmente “Tenda dos Milagres” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Entrevista JORGE AMADO em sua casa no Rio de Janeiro. Na intimidade, ele apresenta sua família. Amigos e parentes opinam sobre filmes baseados em suas obras. Cineastas e atores falam sobre “Tenda dos Milagres. Depois dos recentes “Quincas Berro D’Água”, “Capitães da Areia” e “O Duelo”, o triângulo vivido na década de 1970 por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça volta ainda este ano numa refilmagem de “Dona Flor e seus Dois Maridos”.

FILMES INSPIRADOS em JORGE AMADO

TERRA VIOLENTA
(1948)

direção de Edmond Bernoudy e Paulo Machado
adaptação de TERRAS do SEM FIM
elenco: Anselmo Duarte, Maria Fernanda, Grande Otelo, Sady Cabral, Ziembinski, 
Ruth de Souza e Mário Lago

Esquecido, iniciou o namoro do cinema com Jorge Amado. Produzido pela Atlântida Cinematográfica, resultou em fiasco lamentável. Tudo por causa de norte-americano (Bernoudy) que chegou ao Brasil com a fama de ter sido assistente de gênios em Hollywood, mas na verdade nada entendia de cinema. Faz parte da filmografia de um dos maiores galãs da história do cinema brasileiro, Anselmo Duarte. No elenco excelente, no auge de sua beleza, Maria Fernanda, filha da poeta Cecília Meireles.

VENDAVAL MARAVILHOSO
(1949)

direção de Leitão de Barros
adaptação do livro ABC de CASTRO ALVES
elenco: Paulo Maurício, Amália Rodrigues e Barreto Poeira

História do poeta Castro Alves, desde o nascimento em 1847 a passagem pelo curso de Direito, e a acesa defesa poética pelos direitos dos escravos. Aos dezoito anos conhece a atriz Eugenia Câmara e se apaixona. O filme reflete as dificuldades da produção, as mutilações do argumento proibido inicialmente, o desencontro do resultado. Depois dele, o cineasta Leitão de Barros não regressaria nunca mais ao cinema de ficção.

SEARA VERMELHA
(1963)

direção de Alberto D’Avessa
adaptação do romance homônimo
elenco: Margarida Cardoso, Marilda Alves, Sady Cabral, Mauro Mendonça, 
Nelson Xavier e Jurema Penna

A realidade socioeconômica dos flagelados da seca que emigram para o sul do país. O diretor italiano D’Aversa transmite o clima de sofrimento e miséria sem resvalar para o pieguismo. Excelentes desempenhos do elenco.

CAPITÃES da AREIA
(The Sandpit Generals, 1971)

direção de Hall Bartlett
adaptação do romance homônimo
elenco: Kent Lane, Tisha Sterling, Eliana Pittman, John Rubinstein e Marisa Urban

 Em participação especial, Dorival Caymmi. A vida dos menores abandonados “Capitães da Areia”, como eram conhecidos na cidade de Salvador, nos anos 1930. Por ser obra estrangeira e sem sucesso, geralmente não é lembrada quando se fala no livro. Premiada no Festival de Moscou, chegou ao Brasil nas madrugadas televisivas, rebatizada de “Dora”. O sexto romance de Jorge Amado resultou, também, em minissérie de tevê, dirigida por Walter Lima Jr, e em várias montagens teatrais. 

DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
(1976)

direção de Bruno Barreto
adaptação do romance homônimo
elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça, Nelson Xavier e Nelson Dantas 

O segundo maior sucesso da história do cinema brasileiro. Mais de 10 milhões de telespectadores. Atrás apenas de “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro” (2010), de José Padilha. A graciosa e sensual Sônia Braga, no auge da forma, interpreta com carisma a professora de culinária Dona Flor. José Wilker, hilário, como o fogoso ex-marido que volta dos mortos para apimentar sua vida, e Mauro Mendonça no papel do Dr. Teodoro, o farmacêutico que se casa com a viúva. Bruno Barreto assumiu a direção, aos 21 anos, depois que Glauber Rocha não pôde dirigi-lo. Para surpresa geral, realizou uma comédia atraente, leve e divertida que encantou o Brasil e o estrangeiro. As apimentadas cenas de sexo e nudez foram muito faladas na época do lançamento.

Os PASTORES da NOITE (OTÁLIA da BAHIA)
(1975)

direção de Marcel Camus
adaptação do romance homônimo
elenco: Grande Otelo, Antonio Pitanga, Zeni Pereira, Jofre Soares e Mira Fonseca

O francês Camus ganhou a Palma de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “Orfeu Negro” (1959), baseado no musical de Vinicius de Moraes. Depois de apresentar o Brasil para o mundo com essa fábula, voltou a mirar suas câmeras para o nosso país através do universo de Jorge Amado. O cineasta partiu do segundo dos três episódios de “Os Pastores da Noite” para escrever o roteiro do filme. Superficial e confuso, conta como Otália transforma a vida de vários homens. A trilha sonora de Antonio Carlos e Jocafi talvez tenha sido até mais famosa do que o próprio longa-metragem. Em 2002, a Globo apresentou nova versão de “Os Pastores da Noite”, em quatro episódios.

TENDA dos MILAGRES
(1976)

direção de Nelson Pereira dos Santos
adaptação do romance homônimo
elenco: Jards Macalé, Anecy Rocha, Hugo Carvana, Nildo Parente e Jofre Soares

Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival de Brasília. Nelson Pereira dos Santos colocou muito de sua visão pessoal. Na história, um intelectual norte-americano em passagem por Salvador resgata a figura de Pedro Arcanjo, que no início do século contestou o racismo, defendeu a miscigenação e documentou a cultura africana. Sexualidade, misticismo e até antropologia estão no caldeirão, que o cineasta encheu com doses generosas de loucura carnavalesca. Desigual, conta com participações especiais de Mãe Menininha do Gantois, Carybé, Mestre Pastinha e Juarez Paraíso.

MEU ADORÁVEL FANTASMA
(Kiss me Goodbye, 1982)

direção de Robert Mulligan
adaptação de DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
elenco: Sally Field, James Caan, Jeff Bridges, Paul Dooley, Claire Trevor 
e Mildred Natwick

O filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” fez tanto sucesso que foi refilmado nos EUA como comédia romântica. Após três anos da morte do marido, uma viúva conhece outro homem, um egiptólogo do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, e se apaixona. Mas, um dia antes de seu casamento, o fantasma do primeiro marido vem fazer uma surpresa. Apesar de boas intenções e elenco famoso, não deu lucro.

GABRIELA
(1983)

direção de Bruno Barreto
adaptação do romance GABRIELA, CRAVO e CANELA
elenco: Sônia Braga, Marcello Mastroianni, Paulo Goulart, Nelson Xavier, 
Jofre Soares, Nicole Puzzi e Miriam Pires

Produção internacional que se tornou uma grande decepção. Segundo filme de Bruno Barreto baseado na obra do escritor, traz também Sonia Braga outra vez, agora reprisando o papel que fez na televisão na telenovela de 1975 – com “Tieta do Agreste”, ela reafirmaria seu posto como musa da obra de Jorge Amado. Parte do encanto da história está na relação apimentada entre a protagonista e seu marido, o turco Nacib, vivido por Marcelo Mastroianni dublado em português. A direção é confusa e as atuações caricatas. A versão da Globo, dirigida por Walter Avancini, é superior. O mesmo não pode ser dito sobre a versão mais recente, com Juliana Paes.

JUBIABÁ
(1987)

direção de Nelson Pereira dos Santos
adaptação do romance homônimo
elenco: Charles Baiano, Françoise Goussard, Raymond Pellegrin, Zezé Motta, 
Betty Faria, Ruth de Souza, Jofre Soares e Grande Otelo

Os franceses do elenco estão deslocados, principalmente a protagonista Françoise Goussard. Não transmite autenticidade na luta do negro Baldo que se apaixona por loura filha de comendador, vira malandro de beira de cais e boxeador imbatível.

TIETA do AGRESTE
(1996)

direção de Cacá Diegues
adaptação do romance homônimo
elenco: Sônia Braga, Marília Pera, Cláudia Abreu, Chico Anysio, Patrícia França, 
Zezé Motta e Jece Valadão

Estive nas filmagens, no povoado de Picado, no município de Conceição do Jacuípe, entrevistando Sônia Braga. Jorge Amado aparece em rápida participação na primeira cena. Amigos de muitos anos, Sônia convidou Cacá para dirigi-la. Faz uma prostituta bem sucedida que retorna a terra natal, a pequena Santana do Agreste, após 25 anos de ausência. Sua volta causa apreensão, uma vez que saiu escorraçada pelo pai, movido pelas intrigas da irmã mais velha. A chegada de Tieta, rica e poderosa, aguça a ambição não só dos familiares, mas de toda cidade. Inevitavelmente comparado à telenovela de sucesso, protagonizada por Betty Faria e Joana Fomm, não conquistou o público. Na década de 80, a diretora italiana Lina Wertmüller foi quem primeiro adquiriu os direitos para o cinema de “Tieta do Agreste”. Amiga de Jorge Amado, Lina convidou Sophia Loren para estrelar o filme e Cláudia Ohana para o papel da protagonista jovem. O projeto terminou misteriosamente abandonado. Curiosamente, Cláudia retomaria a personagem - Tieta jovem - alguns anos mais tarde, na telenovela global.

QUINCAS BERRO D’ÁGUA
(2010)

direção de Sérgio Machado
adaptação do livro A MORTE e a MORTE de QUINCAS BERRO D´ÀGUA
elenco: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, 
Frank Menezes e Irandhir Santos

Uma das obras mais celebradas de Jorge Amado. Repleta de realismo mágico, conta a saga impagável de um boêmio que não abandona a farra nem depois de morto, revelando com humor o choque entre classes diferentes que de repente são obrigadas a conviverem em um velório. Comédia simática que traz o extraordinário Paulo José como o morto Quincas, outrora membro da alta sociedade da Salvador, que troca tudo pela boemia. Como despedida, é tirado do leito de morte pelos fiéis companheiros de bebedeira e levado nos braços para uma última farra. O diretor criou novas situações e personagens, como a cafetina Manuela (Marieta Severo), e investiu mais nas ruas de Salvador, contrariando o livro que se concentra no local onde ocorre o velório de Quincas.

CAPITÃES da AREIA
(2011)

direção de Cecília Amado
adaptação do romance homônimo
elenco: Jean Luís Souza de Amorim, Ana Graciela Conceição da Silva, 
Romário Santos de Assis e Israel Vinícius Gouvêa de Souza

Inferior ao livro, sendo, apenas, pálido reflexo deste. Mas retrata com autenticidade a vida de meninos de rua de Salvador. Dirigido pela neta de Jorge Amado, Cecília, que leu a obra pela primeira vez aos 14 anos, levou milhares de brasileiros aos cinemas. Atenção para a liberdade e inquietação de Pedro Bala, o herói da história.

O DUELO
(2015)

direção de Marcos Jorge
adaptação do romance Os VELHOS MARINHEIROS
elenco: Joaquim de Almeida, Cláudia Raia, José Wilker, Patrícia Pillar, 
Marcio Garcia e Milton Gonçalves

O romance se passa no início do século XX, mas o filme se adianta em algumas décadas. Com cenários grandiosos e numerosos efeitos especiais, apresenta o comandante Vasco Moscoso de Aragão e sua agitada chegada em uma cidadezinha balneária, a vila de Periperi, situada nas proximidades de um grande município portuário. Maduro, este pitoresco forasteiro vem para ficar, buscando repouso depois de uma longa vida de aventuras por todos os mares do globo. Ele conquista a todos com as histórias de suas façanhas nos quatro cantos do mundo. O filme discute o tema da construção da verdade e do mito, avançando e recuando no tempo.

DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS
(2017)

direção de Pedro Vasconcelos
adaptação do romance homônimo
elenco: Juliana Paes, Marcelo Faria, Leandro Hassum, Nívea Maria, Fabio Lago, Cassiano Carneiro e Duda Ribeiro.

O clássico de Jorge Amado mais uma vez nas telas. Juliana interpreta mais um personagem do escritor baiano, a primeira foi Gabriela. Marcelo Faria vive Vadinho, que o ator interpretou durante anos no teatro. As filmagens duraram cinco semanas e tiveram locações em Salvador e no Rio de Janeiro.



outubro 30, 2016

***** PEQUENA HISTÓRIA do CINEMA BRASILEIRO

limite de mário peixoto

 
Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão.
GLAUBER ROCHA


A indústria cinematográfica brasileira arrasta há anos os mesmos problemas: dificuldade em captar recursos, roteiros capengas, direção amadora ou convencional, figuração comprometedora e exibição restrita. Mas merece ser garimpada. Eu o conheça desde que me entendo por gente e, ainda menino, colecionava fotografias e cartazes, e nas sessões da tarde na Globo ria vendo as ingênuas chanchadas de Oscarito-Grande Otelo e as comédias caipiras de Amácio Mazzaropi. Ainda na TV, não perdia as produções da Vera Cruz, admirando “O Cangaceiro” (1952), de Lima Barreto, o primeiro filme brasileiro a obter êxito internacional, e “Sinhá Moça” (1953), de Tom Payne, com Eliane Laje, Anselmo Duarte e Ruth de Souza. A produção de época, versão do romance de Maria Dezonne Pacheco, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim.

grande otelo e oscarito
Na condição de cinéfilo, jornalista e comentarista da sétima arte, sempre estive interessado no CINEMA BRASILEIRO e procuro abordar, com justeza e imparcialidade, a sua trajetória de altos e baixos. Adolescente, descobri Bruno Barreto, Carlos Diegues e Arnaldo Jabor, e muito escrevi sobre eles na época. De Bruno assisti com prazer “A Estrela Sobe” (1974) e “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976). Ainda me lembro do frescor erótico de José Wilker e Sonia Braga. Diegues se esforça, acertando mais ou menos em “Xica da Silva” (1976) e “Chuvas de Verão” (1977). No entanto, o seu melhor trabalho, “Bye Bye Brasil” (1979), é um dos bons filmes da cinematografia nacional.

De carreira curta e densa, Jabor brilha nos nelsonrodriguianos Toda Nudez Será Castigada” (1973) e “O Casamento” (1975), e no sensual “Eu Te Amo” (1980). “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1984), centrado nas lembranças e discussões de um jovem casal recém-separado, levou prêmio em Cannes de Melhor Atriz para Fernandinha Torres. Realmente lamentável a troca do diretor, de cinema inteligente por um jornalismo de olho no próprio umbigo.  Em 2010 ele voltou a filmar, mas “A Suprema Felicidade” não foi bem recebido. No Centro de Estudos Brasileiros, em Barcelona, assisti expressivos filmes nossos, inclusive o pioneiro Humberto Mauro e seus “Brasa Dormida” (1928) e “Ganga Bruta” (1932). Discordo do título de “nossos maiores cineastas” dado pelos especialistas a Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, nem considero que o cinema nacional atravessa uma fase radiante, depois dos anos duros pós-extinção da Embrafilme pelo governo Collor de Mello. Produção periódica não significa qualidade.

glauber rocha
Autor da obra-prima “Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), Glauber se deixou possuir nele pelo russo Sergei Eisenstein. Revela chispas de genialidade em “Barravento” (1961), “Terra em Transe” (1966) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968). Mas o seu último trabalho, “A Idade da Terra” (1980), não passa de um quebra-cabeças neurótico e desconexo. Nelson Pereira dos Santos comove no sóbrio “Vidas Secas” (1963), na comédia “Como Era Gostoso o meu Francês” (1970) e no drama baseado em Graciliano Ramos, “Memórias do Cárcere” (1983). O resto aborrece, inclusive as artificiais adaptações de Jorge Amado, “Tenda dos Milagres” (1977) e “Jubiabá” (1986).

Nos anos 1960, o Cinema Novo despiu o país, teve prestígio no mercado internacional e arrebatou prêmios em festivais. Soube conciliar forte invenção cinematográfica com análise funda de conjunturas sociais. Nesta década do clássico “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, Palma de Ouro em Cannes, surgiram dramas irreverentes dirigidos por Ruy Guerra (“Os Cafajestes”, 1961, e “Os Fuzis”, 1963); Paulo César Saraceni (“Porto das Caixas”, 1962); Luís Sérgio Person (“São Paulo S/A”, 1964, e “O Caso dos Irmãos Naves”, 1967), Walter Hugo Khouri (“Noite Vazia”, 1964), Joaquim Pedro de Andrade (“O Padre e a Moça”, 1965, e “Macunaíma”, 1969), Roberto Santos (“A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, 1965), Maurice Capovilla (“Bebel, a Garota Propaganda”, 1967), Ozualdo Candeias (“A Margem”, 1967), Antonio Carlos Fontoura (“Copacabana me Engana”, 1968) e Gustavo Dahl (“O Bravo Guerreiro”, 1968).

O Cinema Novo dividiu a classe cinematográfica e, na maior parte dos casos, esvaziou as salas de projeção. A origem do nosso cinema experimental, investindo em possibilidades incomuns, tinha começado décadas antes, no vertiginoso “Limite” (1930), com produção, roteiro, direção e montagem de Mário Peixoto. Do mesmo período, lembro-me do realismo sertanejo, da caatinga, Lampião e seu grupo filmados pelo mascate sírio Benjamim Abraão Jacó. Imagens perturbadoras, luz solar estourada. Mais adiante, o documentário se destacaria em “O País de São Saruê(1971), de Vladimir Carvalho, e “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, entre outros.

Até o final dos anos 1940, o amadorismo do CINEMA BRASILEIRO era visível em roteiristas, técnicos e intérpretes. Quase tudo era na base do improviso. Fotografava-se mal e o som gravado era inaudível. Exploravam-se os musicais, comédias de sucesso no teatro e melodramas folhetinescos. A criatividade superava entraves, mas, na maior parte, a qualidade deixava a desejar. Nos anos 1950, o cinema pomposo invadiu o Brasil, marcando o início da industrialização em moldes de Hollywood. Nasceu a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. “O Quatrilho” (1995) tem o estilo desse estúdio de produções afetadas. A figura maior da Vera Cruz, Alberto Cavalcanti, cineasta brasileiro valorizado na Europa desde o cinema mudo, assumiu a direção geral de produção, supervisionou a construção dos estúdios, lançou diversos atores e trouxe profissionais ingleses, franceses e austríacos. Depois montou sua própria produtora, Kino Filmes, realizando três filmes, entre eles, “O Canto do Mar” (1953).

Abrindo caminho para o Cinema Novo, “Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos, foi recebido com elogios. Influenciado pelo neo-realismo italiano, o CINEMA BRASILEIRO finalmente encontrava sua identidade, ultrapassando os interesses do mercado e investindo na inquietação artística. Pedra fundamental do movimento cinemanovista, o drama de episódios “Cinco Vezes Favela” (1961), lançou prometedores cineastas: Marcos Faria (“O Favelado”), Miguel Borges (“Zé da Cachorra”), Carlos Diegues (“Escola de Samba Alegria de Viver”), Joaquim Pedro de Andrade (“Couro de Gato”) e Leon Hirszman (“Pedreira de São Diogo).

helena ignez e paulo villaça
em o bandido da luz vermelha
No final de 1960 e parte de 1970, foi muito falado o radical e alegórico Cinema Marginal ou da Boca do Lixo, ou ainda Cinema do Terceiro Mundo. Rogério Sganzerla (“O Bandido da Luz Vermelha”, 1968), Júlio Bressane (“Matou a Família e foi ao Cinema”, 1969), Andréa Tonacci (“Bang Bang”, 1971) e Carlos Reichenbach (“Amor Palavra Prostituta”, 1979) são os nomes mais conhecidos deste movimento. A Belair, produtora de Bressane e Sganzerla, realizou uma série de filmes de baixo custo, feitos em esquema ágil de produção. Na década de 1970, multiplicaram-se os filmes. O cinema dito de esquerda alimentava-se das verbas do Instituto Nacional do Cinema e, depois, da Embrafilme. Produtores uniram a chulice ao erotismo, e lançaram a pornochanchada. 
 
Entretanto, esta época não foi de toda negativa, revelando clarões inspirados em “A Casa Assassinada” (1970), de Paulo César Saraceni, do romance de Lúcio Cardoso; “Os Deuses e os Mortos” (1970), de Ruy Guerra; “A Rainha Diaba” (1971), de Antônio Carlos Fontoura, com interpretação antológica de Milton Gonçalves; “Os Inconfidentes” (1971) e “Guerra Conjugal” (1974), adaptado de contos de Dalton Trevisan, de Joaquim Pedro de Andrade; o notável “São Bernardo” (1971), de Leon Hirszman; “Tati, a Garota” (1972), de Bruno Barreto; “Morrer de Amor” (1972), de Jorge Ileli; “Os Condenados” (1973), de Zelito Viana, do livro de Oswald de Andrade; “Lição de Amor” (1975), de Eduardo Escorel; “Marília e Marina” (1976), de Luiz Fernando Goulart; “Gordos e Magros” (1976), de Mário Carneiro; e o desconcertante “A Lira do Delírio” (1977), de Walter Lima Jr. 

zezé motta em xica da silva
O nosso mais famoso cineasta, o baiano Glauber Rocha, encerrado numa fábula selvagem, morreu jovem, em 1981, aos 42 anos, depois de exílio voluntário em Sintra, Portugal. Nessa época não havia mais a câmara na mão, em movimento, oscilando. Um momento cinematográfico infértil, destacando-se nas trevas Arnaldo Jabor e o argentino Hector Babenco em “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (1981), obra que seduziu plateias e abriu as portas do mercado internacional para o seu diretor, graças a uma história realista e fabulosa atuação de Marília Pêra como a prostituta Suely.

Ainda nos anos 1980, a direção de Ícaro Martins e José Antônio Garcia em “O Olho Mágico do Amor” (1981); Leon Hirszman no contundente “Eles não Usam Black-tie” (1981); Walter Lima Jr no cândido “Inocência” (1982); Carlos Alberto Prates Correia em “Noites do Sertão” (1983), adaptado de “Buriti” de Guimarães Rosa; André Klotzel no satírico “A Marvada Carne” (1985); Suzana Amaral em “A Hora da Estrela” (1985); Wilson Barros em “Anjos da Noite” (1986); Caetano Veloso no godarniano “O Cinema Falado” (1986); Sérgio Toledo em “Vera” (1986); Sérgio Bianchi no cínico “Romance” (1987); Bruno Barreto em “Romance da Empregada” (1987); e José Antônio Garcia em “O Corpo” (1989), do conto de Clarice Lispector. Sem a Embrafilme nos anos 1990, rodaram unicamente 14 produções em três anos. Com o sucesso do escrachado “Carlota Joaquina - Imperatriz do Brasil” (1995), de Carla Camuratti, acolhendo mais de um milhão de espectadores, criou-se o buxixo do renascimento do CINEMA BRASILEIRO. A obra não passa de uma comédia amadora, esquecível. 
 
Além de Camuratti, o nosso cinema foi pilotado por outras mulheres: Gilda de Abreu, Teresa Trautman, Norma Benguell, Tizuka Yamasaki, Sandra Werneck. Entre todas elas, destaco a sensibilidade e boas intenções de Ana Carolina (“Amélia”, 1997), Suzana Amaral, Daniela Thomas, Tata Amaral (“Um Céu de Estrelas”, 1996), Monica Gardemberg (“Jenipapo”, 1996), Eliana Caffé (“Kenoma”, 1998), Lucia Murat (“Brava Gente Brasileira”, 2000), Laís Bodanski (“Bicho de Sete Cabeças”, 2000) e Lina Chamie (“Tônica Dominante”, 2001). Pouco comentado, Ugo Giorgetti (“Sábado”, 1995) contribui para a história do nosso cinema. O conjunto da sua obra tem compromisso com a geografia de São Paulo. Em “Uma Outra Cidade”, para a tevê Cultura, descreve a metrópole a partir de cinco poetas: Roberto Piva, Jorge Mautner, Rodrigo de Haro, Cláudio Willer e Antonio Fernando De Franceschi. Walter Salles rodou com sensibilidade Terra Estrangeira” (1995) e “O Primeiro Dia” (1998), ambos em colaboração com Daniela Thomas. Seu “Central do Brasil” (1997) levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o Globo de Ouro, o BAFTA e mais 52 prêmios internacionais. “Abril Despedaçado” (2001), também dele, versão do livro do albanês Ismail Kadaré, revela-se lírico.

luiz carlos vasconcelos 
em baile perfumado
Nos 1990 e nos primeiros anos do novo milênio, gosto especialmente de “A Ostra e O Vento” (1997) de Walter Lima Jr., “Baile Perfumado” (1997), dos estreantes pernambucanos Paulo Caldas e Lírio Ferreira; e “O Coração Iluminado” (1998), de Hector Babenco. Djalma Limongi Batista (“Bocage, o Triunfo do Amor”, 1997), Sérgio Resende (“A Guerra de Canudos”, 1998) e Flávio R. Tambellini (“Bufo & Spallanzani”, 2000) sempre foram cineastas de olho principalmente na bilheteria. Aluísio Abranches (“Um Copo de Cólera”, 1998), Roberto Santucci Filho (“Bellini e a Esfinge”, 2001) e Beto Brandt (“O Invasor”, 2002) não desenvolveram a carreira.

Neste início da primeira década do século XXI, uma proliferação de produções enfadonhas e previsíveis. Salvam-se o encanto cômico de “Domésticas – O Filme” (2001), de Fernando Meireles e Nando Olival; o sensível e arrebatador “Lavoura Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho; o expressivo “Carandiru” (2003), de Hector Babenco; e “Amarelo Manga” (2003), de Cláudio Assis. Tempo também de Guel Arraes (“O Auto da Compadecida”, 2000, e “Caramuru – A Invenção do Brasil”, 2001), apostando na estética, mas escorregando no arremedo televisivo; Carlos Gerbase (“Tolerância”, 2000); da competência de Andrucha Waddington no sucesso de “Eu Tu Eles” (2000); e Jorge Furtado (“Houve uma Vez Dois Verões”, 2001), que ainda nos deve o filme honesto que esperamos dele, vinte e sete anos depois do aclamado curta “Ilha das Flores” (1989).

lázaro ramos em madame satã
Nos anos seguintes, alguns filmes fizeram história: “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund; Madame Satã” (2002), de Karim Ainouz; “Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio” (2002), de Rosemberg Cariry; “Nina” (2004), de Heitor Dhalia; “Cidade Baixa” (2005), de Sérgio Machado; “Casa de Areia” (2005), de Andrucha Waddington; “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), de Marcelo Gomes; “Estômago” (2007), de Marcos Jorge; “Tropa de Elite 1 e 2” (2007 e 2010), de José Padilha; “Feliz Natal” (2008), de Selton Mello; “Linha de Passe” (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas; “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), de Marcelo Gomes e Karim Ainouz;A Festa da Menina Morta” (2009), de Matheus Nachtergaele; “O Palhaço” (2011), de Selton Mello; “A Febre do Rato” (2011), de Cláudio Assis; “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho; “Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda; “O Lobo Atrás da Porta” (2013), de Fernando Coimbra; e “Meu Amigo Hindu” (2015), de Hector Babenco.

A despeito de esforços individuais, poucas produções atuais escapam do convencional. Temos diretores competentes, atores que dão conta do recado e maravilhosos fotógrafos, mas ainda não encontramos o caminho viável, libertário e talentoso.  Somos o país do carnaval, o país do futebol, o país da telenovela. A sensualidade é nossa, o deboche é nosso. O CINEMA BRASILEIRO reflete isso muito bem: a realidade escandalosamente surreal e escapista. Portanto, mesmo com desacertos, palmas para nossos filmes. Não se pode definir as perspectivas d e um futuro próximo. No momento, passamos mais uma crise das tantas pelas quais tem passado esta brincadeira cara e frágil, esta mescla de arte, indústria e divertimento inigualável – um sonho sem fim. 
 
Fonte
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros: 1929-1988”
de Salvyano Cavalcanti de Paiva
 
GALERIA de FOTOS