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abril 30, 2012

****** O CINEMA MARGINAL de SAMUEL FULLER

mark hamill e lee marvin em “agonia e glória”


Perceber o talento peculiar de um cineasta é pura emoção. Nessas ocasiões, vejo seus filmes e leio sobre sua vida e obra. Aconteceu com Terrence Malick, F. W. Murnau, Max Ophuls, Jules Dassin, Robert Siodmak, Mauro Bolognini e Robert Mulligan, entre outros. Atualmente percorro os caminhos perigosos de SAMUEL FULLER (1912 - 1997. Worcester, Massachusetts / EUA), um excepcional diretor norte-americano anti-racista e anti-guerra, de mise en scène diabólica, injustiçado pela crítica e pouco conhecido do público, mas responsável por uma filmografia livre e independente. Diretor de longas B, sem nunca cair nos estereótipos do thriller ou do gênero melô, a restrição financeira que afetava a produção dos seus filmes não o impediu de rodar títulos com qualidade. Admirado pela trupe de jovens críticos da revista “Cahiers du Cinema”, encabeçado por François Truffaut e Jean-Luc Godard, que o trataram como um autêntico “auteur”, por seus poderosos golpes nos sentimentos humanos, é considerado um existencialista.
 
samuel fuller
Ex-jornalista policial de Nova York, vagabundo que saltava de trens de carga, escritor de “pulp fiction” e soldado da Segunda Guerra Mundial, sua cáustica visão geralmente apresenta personagens amorais lutando para sobreviver no hospício da vida. Guerra e criminalidades são temas centrais em sua filmografia, vasculhando os submundos e revelando os becos mais sórdidos das cidades, onde cada figura é submetida a um violento rito de passagem em que certezas morais são testadas. 

O amor destrutivo entre os personagens é uma constante na sua obra. A consolidação ordenada e harmoniosa de uma comunhão romântica inexiste nesse universo. Apesar de se esquivar de rótulos, o seu cinema flerta diretamente com o gênero “noir”, cujo surgimento aconteceu em 1941, com O FALCÃO MALTÊS / The Maltese Falcon, de John Huston. Ao menos cinco filmes do diretor podem ser assim classificados: “Anjo do Mal”, “A Casa de Bambu / House of Bamboo” (1955), “O Quimono Escarlate / The Crimson Kimono” (1959), “A Lei dos Marginais / Underworld U.S.A.” (1961) e “O Beijo Amargo”.
 
james dean em "baionetas caladas"
Num filme de SAM FULLER, a ação é sempre repentina, sem motivação profunda ou explicação detalhada. Ele expressou a violência e o caos do mundo em dezenas de policiais, westerns, dramas e filmes de guerra. A maioria com orçamento baixo e rejeitados pelos críticos de sua época, que o consideravam “primitivo e bárbaro”, mas redimidos através dos anos pela crescente admiração dos cinéfilos e cineastas (Robert Bresson e Claude Chabrol, por exemplo) em todo o mundo. Começou no cinema escrevendo roteiros para produções baratas nos anos 30. 

Teve a sua primeira chance de dirigir em 1949, agarrando-a com unhas e dentes. Simples e impactante, “Eu Matei Jesse James” já revela a garra do diretor. Em 1952, o poderoso produtor Darryl F. Zanuck, da Fox, convidou-o para uma produção “classe A”, ou seja, de orçamento polpudo e atores famosos como protagonistas. Sombrio e sem heroísmo, o bonito “Anjo do Mal” não fez sucesso de bilheteria. Ele continuou filmando, numa persistência louvável, mostrando honestamente uma América do Norte não-oficial, de rejeitados, desconstruindo a noção de herói e vilão que dominava o cinema clássico.

Ensaiando uma ou duas vezes e filmando, SAMUEL FULLER não voltava a repetir a tomada. Fez um filme em 10 dias, com um único cenário e sem externas. Seus protagonistas são homens duros, simples, e, portanto, de confiança, em histórias de um dramatismo exacerbado, pontuadas por uma fotografia diferenciada e por momentos de absoluta e estranha beleza. Repudiado por colaborar com a política de caça aos comunistas liderada pelo senador republicano Joseph McCarthy, pouco a pouco foi sendo deixado de lado em Hollywood, instalando-se na França onde promoveu diversos workshops. Durante um deles, conheceu Wim Wenders, que o convenceu a participar como ator em “O Amigo Americano / Der Amerikanische Freund” (1977) e “Hammett / Idem” (1982). Teve também participação especial em “O Demônio das Onze Horas / Pierre Le Fou” (1965), de Jean-Luc Godard. Morreu em 1997, aos 86 anos, deixando na memória coletiva a imagem provocativa do seu gigantesco charuto e estilo contundente.
 
gene evans em “capacete de aço”
Pouco se viu e muito se falou sobre os filmes de SAMUEL FULLER. Sua filmografia sobreviveu como seus personagens, renegada por muito tempo à margem do cinema. Dirigiu um total de 22 filmes para cinema e outros projetos para televisão. O seu último trabalho foi o telefilme “Le Jour du Chatiment” (1990). É um daqueles realizadores de segunda linha que nunca chegou verdadeiramente ao topo. Quase todos os seus filmes foram insucessos. “Cão Branco / White Dog” (1982), um dos últimos, nem sequer foi exibido comercialmente nos Estados Unidos, forçando-o a roubar as bobinas e fugir para o México, com medo que fosse permanentemente destruído. À sua maneira deixou um legado recheado de personagens cujo vigor de sobrevivência a qualquer custo incomoda os observadores mais antiquados.

FONTES
“Il était une fois… Samuel Fuller”
Cahiers du Cinéma, 1986
 
 “1000 Que Fizeram 100 Anos de Cinema”
Isto é / The Times

wim wenders e samuel fuller

NOVE FILMES de SAM FULLER

EU MATEI JESSE JAMES
(I Shot Jesse James, 1949)
elenco: Preston Foster, Barbara Britton e John Ireland

Seu Jesse não é o Robin Hood da lenda cinematográfica, muito pelo contrário. E Robert Ford, o assassino, é retratado com simpatia. A relação suspeita deles é algo pouco visto em faroestes (como também em “O Proscrito / The Outlaw”, 1943; “Rio Vermelho / Red River”, 1948; “Johnny Guitar / Idem”, 1954; “Um De Nós Morrerá / The Left Handed Gun”, 1958; “Minha Vontade é a Lei / Warlock”, 1959; etc.): um sub tom homoerótico razoavelmente óbvio. Há algo de feminino nas preocupações de Jesse James (Reed Hadley). Algo provocante e sedutor. Ford (John Ireland) não tira os olhos dele. Estreia arrasadora, em tese é um faroeste, mas o diretor rompe os mitos que cercam os gêneros.

CAPACETE de AÇO
(The Steel Helmet, 1951)
elenco: Gene Evans e Robert Hutton

O primeiro título a trazer algum reconhecimento para o diretor, despe mitos, representando a diversidade étnica norte-americana e os bastidores de uma guerra cruel. Não é sobre heroísmo, mas sobre a luta pela sobrevivência. Sam se orgulhava de ter feito o primeiro filme sobre a Guerra da Coréia, enquanto ela acontecia.
 
BAIONETAS CALADAS
(Fixed Bayonets!, 1951)
elenco: Richard Basehart e Gene Evans

O mesmo cenário do drama de guerra anterior, a Coréia, e o mesmo ator, um dos favoritos do diretor: Gene Evans. Ele faz o duro sem ilusões num destacamento designado para uma batalha de retaguarda quase suicida. Todos os soldados são sujeitos comuns, nada heroicos. Ponta de James Dean como o soldado Doggie.

ANJO do MAL
(Pickup on South Street, 1953)
elenco: Richard Widmark, Jean Peters e Thelma Ritter

Primeiro grande filme de estúdio do diretor, protagonizado por Richard Widmark como um larápio que furta uma carteira que contém um microfilme valioso. Foi galardoado com o Leão de Bronze do Festival de Veneza. Noir clássico, fora de época, uma de suas características incomuns é a personalidade criminosa do protagonista. A femme fatale é uma prostituta que trabalha para os dissidentes comunistas. A polícia local utiliza métodos pouco ortodoxos para identificar o carteirista. Tudo isso numa Nova Iorque miserável e violenta, envolta num mundo negro de melancolia. Talvez a maior atuação de Ritter, que concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

RENEGANDO o MEU SANGUE
(Run of the Arrow, 1957)
elenco: Rod Steiger, Sarita Montiel e Ralph Meeker

Soldado sulista confederado (excelente atuação de Rod Steiger) se refugia na terra dos índios Sioux após o fim da Guerra Civil. História de perseverança, cenários épicos e defesa aberta à causa indígena. Charles Bronson, em início de carreira, faz um indígena.

DRAGÕES da VIOLÊNCIA
(Forty Guns, 1957)
elenco: Barbara Stanwyck, Barry Sullivan e Dean Jagger

Um dos faroestes mais audaciosos de todos os tempos. A super star Barbara Stanwyck, numa interpretação marcante, faz a baronesa do gado Jessica Drummond. Sem escrúpulos, ela luta pelo controle dos pastos no Arizona, estalando o seu chicote e escoltada por mercenários e protegendo seu irmão desordeiro. Quando um delegado chega à cidade para colocar tudo em ordem, ela se apaixona por ele.

PAIXÕES que ALUCINAM
(Shock Corridor, 1963)
elenco: Peter Breck, Constance Towers e Gene Evans

Intensidade e fúria na história de jornalista que se infiltra em hospício, passando-se por louco, para descobrir um assassino, e de quebra, ganha o Prêmio Pullitzer.

O BEIJO AMARGO
(The Naked Kiss, 1964)
elenco: Constance Towers e Anthony Eisley

Uma das obras fundamentais do diretor. Disfarçado na redenção de prostituta que tenta ser aceita na sociedade, trata de assunto aterrador, a pedofilia. E a forma como nos é mostrado, uma revelação horrível antecedida de uma cena de uma beleza ímpar, é marcante. Os fracos resultados de bilheteira levaram o diretor a trabalhar em televisão.

AGONIA e GLÓRIA
(The Big Red One, 1980)
elenco: Lee Marvin, Mark Hamill e Stéphane Audran

Após dez anos sem filmar, Sam retornou à ativa ajudado pelo amigo e fã incondicional Peter Bogdanovich, que capitaneou fundos para esse ambicioso projeto, um drama anti-guerra com Lee Marvin numa sensacional atuação. Ele faz um sargento veterano, que com seu pelotão luta na costa argelina contra os nazistas, desembarcando na Normandia, no episódio conhecido como Dia D. John Wayne havia sido cotado para o papel, mas foi descartado pelo diretor. “Eu queria fazer um filme sobre um cara que se mistura com os outros, não um herói. Eu queria um homem cansado, macilento, ossudo”, justificou. Glorificado pela crítica, não resultou bem comercialmente.

setembro 14, 2011

************** ENTREVISTANDO CARL TH. DREYER

carl theodor dreyer (1889 - 1968)

 
Entrevista realizada por Michel Delahaye
revista “Cahiers Du Cinema” nº 170
setembro de 1965


Que cineastas o influenciaram?

Griffith. E, sobretudo, Sjostrom.

Tinha visto muitos filmes quando começou a fazer cinema?

Não, não muitos. Interessava-me o cinema sueco: Sjostrom, e também Stiller. Depois descobri Griffith. Quando vi “Intolerância / Intolerance” (1916), interessou-me principalmente o episódio moderno, mas todos os seus filmes me emocionaram: “Inocente Pecadora / Way Down East” (1920), e os outros...

o vampiro

Há na sua obra uma proporção de adaptações. Em sua maioria são peças de teatro.

Sim. Eu sei que não sou um poeta. Sei que não sou um grande autor dramático. É por isso que prefiro colaborar com um verdadeiro poeta e com um verdadeiro autor dramático. O mais recente é Soderberg, o autor da peça “Gertrud”. Soderberg é um grande autor, que não foi suficientemente estimado quando vivia.

Que regras ou que intuições o guiam quando adapta uma peça ou um romance?

No teatro, tem-se tempo para escrever, tempo para repousar nas palavras, nos sentimentos, e o espectador tem tempo para perceber essas coisas. No cinema sempre gostei de concentrar os meus esforços sobre a purificação do texto, que comprimo ao máximo. Comprimo-o, limpo-o, purifico-o, e a história torna-se muito clara, muito nítida. Emprego esse método em “Dia de Ira / Vredens Dag” (1943), “A Palavra / Ordet” (1955), “Gertrud / idem” (1964), que são peças de teatro. Se procedo assim, é porque julgo que não nos podemos permitir no cinema o que nos podemos permitir no teatro. No teatro, há as palavras. E as palavras enchem o espaço, ficam no ar. Podemos escutá-las, senti-las, experimentar o seu peso. Mas no cinema, as palavras são muito depressa relegadas para um fundo que as absorve, e é por isso que o essencial basta.

“a palavra”

A maneira como exemplificou a adaptação é reveladora: assim como não separa a alma do corpo, também não separa as diferentes formas de cinema. É o mesmo problema que se lhe pôs no cinema mudo e no do falado, e resolveu-o de maneira semelhante.

Procuro antes de tudo, e em todos os casos, fazer de maneira que aquilo que tenho de exprimir torne-se cinema. Para mim, “Gertrud” já não é de maneira nenhuma teatro, tornou-se um filme. Evidentemente, um filme falado... Com diálogo, mas um mínimo de diálogo. Apenas o necessário. O essencial.

Entre os filmes que realizou, há algum que gostaria de ter feito a cores?

Gostaria muito de ter feito “Gertrud” a cores. Tinha mesmo em vista um certo pintor sueco, que estudou bem a época em que se desenrola o filme, e que fez muitos desenhos e pinturas em que utiliza cores muito especiais.

“a paixão de joana d'arc”
“Gertrud” passou recentemente na França, na televisão. Que pensa da televisão?

Não gosto da televisão. Preciso da grande tela. Preciso da sensação comum da sala. Um filme feito para comover deve comover uma multidão.

De que gosta atualmente no cinema?

Primeiro devo dizer-lhe que vejo muitos poucos filmes. Tenho sempre medo de ser influenciado. No entanto vi, entre os filmes franceses, “Hiroshima Mon Amour / idem” (1959) e “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois / Jules et Jim” (1962). Gostei muito de “Jules e Jim”. “Hiroshima...” também, sobretudo a segunda parte. Em resumo, gosto de Jean-Luc Godard, François Truffaut, Henri-Georges Clouzot e Claude Chabrol.

“dias de ira”

Viu os filmes de Robert Bresson?

Nunca vi nada dele.

Que pensa dos filmes de Ingmar Bergman? Creio que não gosta deles...

Pois bem, julgar isso, é um erro. Pois vi um filme dele de que gosto muito: “O Silêncio / Tystnaden” (1963). Acho que esse filme é um triunfo, pois ele teve a coragem de agarrar num assunto muito difícil e muito delicado de tratar, e ele encontrou, para o realizar, a boa solução. Vi o filme em Estocolmo, num grande cinema e, durante a sessão e mesmo depois, quando as pessoas saíam da sala, reinava entre todos o silêncio mais completo. Era impressionante. Isso também prova que atingiu o seu objetivo, apesar do perigo do tema, e que fez bem feito o que era preciso fazer. Mas vi muito poucos dos seus filmes, e isto porque começaram a dizer que ele tinha imitado os meus filmes.

“gertrud”

Pensa que é verdade?

Não penso que tenha havido imitação. Bergman tem uma personalidade forte para dispensar-se de imitar os filmes dos outros. Mas vi poucos dos seus filmes, repito-lhe. Conheço mal a sua obra. Tudo o que posso dizer, é que “O Silêncio” é uma obra-prima.

Independentemente da questão da imitação, é certo que muitos cineastas foram levados ao cinema pelos seus filmes. Adquiriram, graças a você, o gosto do cinema.

É por isso que vou muito pouco ao cinema. Não quero ver, nem os filmes que poderiam ter sido influenciados por mim – se os há -, nem os que me poderiam influenciar.

mikhael

Os seus filmes representam um acordo com a vida, uma caminhada para a alegria...

É talvez porque, muito simplesmente, não me ocupo em ter relações com seres – homens ou mulheres – que não me interessam pessoalmente. Só posso trabalhar com pessoas que me permitem realizar um certo acordo. O que me interessa – e isso vem antes da técnica – é reproduzir os sentimentos das personagens dos meus filmes. É reproduzir, tão sinceramente quanto possível, sentimentos tão sinceros quanto possível. O importante, para mim, não é só agarrar as palavras que eles dizem, mas também os pensamentos que estão atrás das palavras. O que procuro nos meus filmes, o que quero obter, é penetrar os pensamentos profundos dos meus atores, através das suas expressões mais sutis. Pois são essas expressões que revelam o caráter das personagens, os seus sentimentos inconscientes, os segredos que repousam no fundo da sua alma. O que me interessa antes de mais nada, é isso, e não a técnica do cinema.

Para chegar ao que quer obter, penso que não há regras precisas...

Não. É preciso descobrir o que há no fundo de cada ser. É por isso que procuro sempre atores capazes de responder a esta busca, que estejam interessados nela, que me possam ajudar. É preciso que sejam capazes de me dar o que procuro obter deles. Mas dificilmente posso exprimir-me acerca disso como devia ser. E, aliás, é possível?