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outubro 12, 2011

********************* É PROIBIDO FUMAR

michael caine

 
Cowboys justiceiros como Gary Cooper fumam um CIGARRO entre um duelo e outro em clássicos de John Ford e Howard Hawks. Assim como as mulheres fatais de policiais noir, senhoras de personalidade forte interpretadas por Joan Crawford ou as de reputação duvidosa de tantas outras películas. A pergunta “Você tem fogo?” foi a deixa para Gregory Peck se apaixonar por Ava Gardner em “As Neves de Kilimanjaro / The Snows of Kilimanjaro” (1952). Em “Mata-Hari / Idem” (1932), deitados no escuro do quarto, Greta Garbo e Ramon Novarro fumavam depois de um ato de amor, e a câmara focalizava apenas o piscar dos cigarros antes de cada baforada. 

Possivelmente foi Humphrey Bogart um dos maiores fumadores de cigarro da história do cinema. Depois de fumar como um condenado em O Falcão Maltês / The Maltese Falcon” (1941), onde seu personagem, o detetive Sam Spade, enrola os seus próprios cigarros, ele se tornou um fumador pensativo em Casablanca / Idem (1942). Bogie morreu em 1957 nos braços de Lauren Bacall com um copo de uísque e um cigarro nos lábios. No entanto, de todos eles, os de Hollywood de outros tempos, Bette Davis é quem fumava com mais charme (ou seria Marlene Dietrich?). A sensual cena de A Estranha Passageira / Now Voyager (1942), em que Paul Henreid acende dois CIGARROS na sua boca e passa um deles para Bette, é inesquecível e foi muito imitada na vida real. 

Até os anos 50, diversas dessas celebridades fizeram comerciais publicitários exaltando marcas de cigarro. Seus personagens fumavam para manifestar um clima romântico. Era chique fumar, demonstrava independência e um certo caráter diferenciado. Hoje quem fuma o maldito cigarro vive à beira da marginalização, massacrado pela ferrenha campanha anti-tabagista, como se coca-cola, enlatados, vegetais com agrotóxicos, frituras, sanduíches gordurosos, a poluição etc. não fizessem qualquer dano à saúde. Revisando uma Hollywood marcada pelo CIGARRO, reproduzimos um artigo de Danielle Crepaldi Carvalho publicado no blog “Filmes, Filmes, Filmes!”.


O CIGARRO no CINEMA: 1897 - 2009

Nem bem amanheceu e a mocinha já está entregue à sua ocupação predileta. Lá está ela em sua negligée, recostada no divã e fumando. “A morning wiff” (“Uma tragada matutina”) diz a legenda da ilustração publicada na “St. Paul's Supplement” em 27 de abril de 1895. Confesso nunca ter dedicado muito tempo a pensar no papel exercido pelo CIGARRO na sociedade do final do século XIX e do século XX. Nunca até que Orna Levin (a quem, aliás, dedico as linhas que se seguem) levantou uma lebre que valia a pena ser perseguida. O tratamento que darei ao tema será, como sempre, en passant - minhas intenções épicas são sempre frustradas pela falta de tempo... 

A moçoila da St. Paul não exibiu sozinha este que é, quiçá, o mais condenável hábito dos dias de hoje. Acompanharam-na uma procissão de mulheres, homens e crianças (!), apresentadas pelas empresas de cigarros para comprovarem como este nosso inimigo nº 1 da saúde pública era chique e saboroso. No início de 1920, quando saiu o conto Fumo, de “Rosário da Ilusão” (1921), de João do Rio, a imprensa já havia sido visitada por uma porção dessas pessoas, como percebi passeando pelas folhas da época.

Na mesma época em que João do Rio dá vida à bituca de cigarro jogada na sarjeta por seu entediado dono - bituca que espirala um belo azul agradecido quando novamente ganha os dedos dele - o afrancesado almofadinha afirma que son plaisir é ter entre seus dedos um fino cigarro da marca Veado, e até o garotinho sapeca diz não resistir ao cigarro York (e isso poucos dias depois de afirmar que seu pai o aconselha a fumar York mesmo que para isso seja preciso andar “roto, mal arranjado, sujo”...). Ao vê-lo, não pude deixar de me lembrar da pré-adolescente Lucy Hill, da comédia de Billy Wilder “A Incrível Suzana” (“The Major and the Minor”, 1942), que escondia uma caixa de cigarros debaixo da cama.O CIGARRO exalou charme por quase 100 anos. Quem, com mais de 25 anos, não se lembra dos belíssimos comerciais do cigarro Hollywood, que somavam rock'n roll e esportes radicais e fechavam com os dizeres: “Hollywood, o sucesso!”

clara bow
marlene dietrich
A marca não deixa enganar de onde saiu a inspiração... Os dedos seguram delicadamente o cigarro, do qual escapa uma fumaça suave que deixa o rosto do artista na semipenumbra. Impossível negar a elegância da linguagem corporal que acompanha o cigarro - mesmo que hoje saibamos de todo o mal gerado pelo seu consumo. Eu, que detesto seu cheiro, olho para a parede de meu quarto e vejo Audrey Hepburn segurando a piteira na legendária fotografia de “Bonequinha de Luxo” (“Breakfast at Tiffanys”, 1961), meu retrato preferido da atriz. Hollywood decididamente teve um papel importante na disseminação do hábito. A mesma Ginger Rogers que se servia dos cigarros da pré-adolescente de “A Incrível Suzana” vinha de brinde com os cigarros Player's. E quanto esses brindes não apareceram nas telas, em filmes como “Ardida como Pimenta” (“Calamity Jane”, 1953) - em que a fotografia da atriz de revista vira mote para uma discussão protagonizada por Doris Day e Howard Keel -, ou “A Bela Ditadora” (“Take me Out to the Ball Game”, 1949), em que os personagens de Frank Sinatra e Gene Kelly se gabam por ensinar o verdadeiro espírito americano aos moleques de rua ao dar a eles as fotografias de jogadores de baseball que vinham nas embalagens de cigarro. 

Pesquisando a respeito do cigarro no cinema, ri da formulação de Moacyr Scliar de que o auge da campanha de marketing para a venda do charuto foi quando Ingrid Bergman apareceu num filme dizendo que adorava seus fumantes. Não me lembro que filme é esse, mas não é difícil recuperarmos Miss Bergman na controversa pose. Vemo-la, por exemplo, em “Arco do Triunfo” (“Arch of the Triumph”, 1948), em que ela interpreta uma cantora de um cabaré nublado pela fumaça exalada pelo CIGARRO. O pôster do filme ressalta a ambiguidade da personagem, que tarde demais acaba por preferir o amor de Charles Boyer ao dinheiro de Charles Laughton.

spencer tracy
claudette colbert
A verba que a indústria de cigarro injetou no cinema nos anos de 1940 e 50 foi responsável por números contraditórios: financiou uns filmes belíssimos e, por isso mesmo, glamurizou o hábito, incitando muitos a fumar. Décadas antes o CIGARRO já servia, no cinema, de metáfora para a relação sexual. Em “A Carne e o Diabo” (Flesh and the Devil, 1926), Greta Garbo coloca-o entre seus lábios, acende-o e entrega-o ao seu amante. O soprar do fósforo dá lugar ao fade out - nada mais esclarecedor. Em 1934, em “A Alegre Divorciada” (“The Gay Divorcée”), a personagem de Fred Astaire leva a de Ginger Rogers ao êxtase na seqüência “Night and Day”. Após a dança, ele a deposita no divã com a masculina sensação de dever cumprido (levemente machista, mas não por isso menos divertida) e oferece-lhe um cigarro. Outra película que captura o glamour que circunda o cigarro é “A Estranha Passageira” (“Now, Voyager”, 1942), no qual a patinha feia tornada cisne Bette Davis recebe do amado Paul Henreid o cigarro aceso por ele - a antológica seqüência do ator acendendo os 2 cigarros tanto ilustra a liberação sexual da até então retraída mulher quanto sublima o ato, pois seu amado era comprometido. 

Embora a história do cigarro no cinema remonte à época em que o medium surgiu (e prova disso é o curioso comercial do produto rodado por Edison no fim do século XIX, registrado no livro que acabou de chegar aqui em casa “Silent Movies: the Birth of Film and the Triumph of Movie Culture”, de Peter Kobel e Library of Congress), é inegável que sua influência na sociedade de consumo tenha aumentado quando os ídolos cinematográficos também passaram a ser consumidos.

lucille ball
glenn ford
A rebeldia imersa em fumaça de James Dean e Marlon Brando conseguiu inúmeros seguidores que desejavam se parecer com os ídolos. Talvez seja por isso que, em 1951, estudiosos da área de saúde começaram a estudar a relação entre o fumo e as doenças. Coincidência ou não, em 1953 a personagem de Cyd Charisse, da “Roda da Fortuna” (“The Band Wagon”), recusa o CIGARRO das mãos de Fred Astaire alegando que “uma dançarina não deve fumar”. Cyd, bailarina de formação, confessou que só fumou uma vez na vida, em “Cantando na Chuva” (“Singin' in the Rain”, 1950), quando interpretou a sedutora dançarina de cabaré que enreda a personagem de Gene Kelly na seqüência “Broadway Rhythm”. A suposta propaganda antitabagista da “Roda da fortuna” é exceção no cinema, malgrado as contínuas descobertas sobre os malefícios do cigarro. Depois dela surgiram clássicos como “Bonequinha de Luxo”, sem falar nos filmes mais recentes - impressionei-me com a presença contundente do cigarro em “Coco antes de Chanel” (“Coco avant Chanel”, 2009), que vi no cinema há pouco.

miriam hopkins
gary cooper
Em meados de 2009, São Paulo aprovou uma lei proibindo o fumo em ambientes públicos fechados. Mesmo hoje em dia, em que fumantes são perseguidos como criminosos, a arma do crime continua circundada por uma aura de fascínio. Por isso, não são poucos os articulistas que se batem contra a divulgação do fumo no cinema, intentando arrastar às telonas a proibição que vigora nas telinhas. Neste caso, o posicionamento talvez deva ser menos restritivista. Por que não exibir em TV aberta o belíssimo “A Estranha Passageira” - eu o vi pela primeira vez na Globo, ainda menina, e me apaixonei por ele logo de cara? Por que impedir que personagens acendam um cigarro para explicitarem sua rebeldia? A História atrelou ao CIGARRO uma imagem de charme, rebeldia e sexualidade - é bobagem negá-lo. Do mesmo modo que as crianças que veem Power Rangers não necessariamente sairão batendo nos pais, ou os jovens que assistem aos “Jogos mortais” não necessariamente brincarão com a vida dos desafetos, assim também aqueles que veem seus ídolos tragando com deleite não se tornarão fumantes. Não dá para negar que a educação é o melhor caminho pra se evitar que as ilusões da tela se tornem uma realidade devastadora para muitas crianças, jovens e adultos. Lógico que é mais fácil tomar um atalho e recriar a censura no cinema. Porém, isso certamente não é o mais inteligente a se fazer.

mamie van doren
anita ekberg
lee remick
jane fonda

julho 13, 2011

********************* ELIA KAZAN, o DELATOR

elia kazan

 
Ele pertence a geração de cineastas de meados dos anos 40 (Jules Dassin, Nicholas Ray, Joseph Losey, Robert Rossen, Anthony Mann, Robert Siodmak, entre outros), visivelmente marcada pela influência do Neo-Realismo italiano, que pregava um cinema sem artifícios, em contato direto com a realidade. De pais gregos, ELIA KAZAN (1909 - 2003. Fener / Turquia) mudou-se para os Estados Unidos aos quatro anos de idade, conservando por toda a existência o estigma de imigrante - retratado honestamente por ele em “Terra de um Sonho Distante / America, America” (1963), baseado em um dos seus livros e que muitos consideram como sua obra-prima. Desde jovem se envolveu com o universo teatral, convertendo-se em estrela na Broadway ao montar peças como “Uma Rua Chamada Pecado”, de Tennessee Williams, que mais tarde levaria as telas, lançando Marlon Brando ao estrelato, ou “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller. A projeção como diretor de peças de vanguarda valeu convites para dirigir filmes em Hollywood. Optou pela 20th Century-Fox, debutando em “Laços Humanos / A Tree Grows in Brooklyn”, de 1945, falando sobre uma família pobre e estrelado pela discreta Dorothy McGuire.
 
kazan, marlon brando, julie harris e james dean
Seus trabalhos cinematográficos iniciais contêm uma forte carga social ao tratar de temas como anti-semitismo (“A Luz É para Todos / Gentleman’s Agreement”, de 1947, Oscar de Melhor Direção); erros do sistema judiciário (“O Justiceiro / Boomerang!”, 1947); racismo (“O Que a Carne Herda / Pinky”, 1949); influência nociva dos sindicatos (“Sindicato de Ladrões / On the Waterfront”, 1954, com o qual ganhou outra estatueta da Academia de Artes e Ciências de Hollywood). Para ELIA KAZAN, o thriller “Pânico nas Ruas / Panic in the Streets” (1950), rodado nas ruas de Nova Orleans, foi seu primeiro filme realmente pessoal. Pouco depois, com a histeria provocada pela caça às bruxas nos começos da Guerra Fria - investigação de atores, roteiristas e diretores comunistas no meio cinematográfico norte-americano -, ele foi envolvido num grande escândalo. 

Para que se livrar dos interrogatórios e da retaliação dos estúdios, o diretor, que militara no Partido Comunista entre 1934-36, colaborou com o Congresso dando os nomes de 15 ex-companheiros para que fossem investigados. Ao colaborar com o maccarthismo, numa Hollywood esquerdista, ELIA KAZAN se transformou em figura maldita. Uma decisão da qual nunca se arrependeu, tal como afirma em suas memórias, “Uma Vida”, e que o perseguiu até o fim de seus dias, afinal a comunidade vermelha hollywoodiana nunca o perdoou. Em 1999, ao receber o Oscar Honorário das mãos de Robert De Niro e Martin Scorsese, provocou sonoros protestos ou um silêncio constrangedor por parte da plateia de esquerda. Felizmente, seu impecável legado cinematográfico continua sendo admirado.

com vivien leigh e tennessee williams
Após esse episódio, ELIA KAZAN continuaria em ascensão. Com “Vidas Amargas / East of Eden” (1955), adaptação de John Steinbeck que lançou outra cria do Actor’s Studio, James Dean, converteu-se em seu próprio produtor. Seguiu uma época fértil, em que o realizador brilhou sem esquecer sua faceta teatral e literária, com obras tão preciosas como “Boneca de Carne / Baby Doll” (1956), de novo – como “Uma Rua Chamada Pecado / A Streetcar Named Desire” (1951) – baseado em um texto de Tennessee Williams; “Rio Violento / Wild River” (1960), com Montgomery Clift e Lee Remick; e “Clamor do Sexo / Splendor in the Grass” (1961), a estréia de Warren Beatty e um dos melhores dramas do cinema norte-americano. 

Após o elogiadíssimo “Terra de um Sonho Distante”, lançou três títulos que finalizaram sua premiada carreira: “Movidos pelo Ódio / The Arrangement“ (1969), baseado em um de seus romances e com Kirk Douglas, Faye Dunaway e Deborah Kerr no elenco; “Os Visitantes / The Visitors” (1972) e “O Último Magnata / The Last Tycoon” (1976), um fracasso comercial que teve origem no livro inacabado de F. Scott Fitzgerald.

moss hart, gregory peck, kazan 
e darryl f. zanuck
Ele deixou obras-primas consistentes, ficando na história como um dos maiores cineastas de Hollywood. Seu conjunto de filmes reflete, narra e procura compreender o período de incertezas em que vivemos. Dirigiu 19 filmes entre 1945 e 1976, e em todos eles os personagens e suas aspirações se defrontam violentamente com ditames morais, restrições sociais, raciais ou sexuais. ELIA KAZAN, não sucumbiu a sua própria tragédia e morreu em 2003, aos 94 anos.