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maio 10, 2012

****** PENÉLOPE CRUZ, a MUSA de ALMODÓVAR




Saboreando o êxito de “Volver”, premiada recentemente como Melhor Atriz no prestigiado European Film Awards e nomeada ao Oscar deste ano na mesma categoria, PENÉLOPE CRUZ (1974. Alcobendas / Espanha) nasceu numa família humilde, filha de uma cabeleireira. Com um empurrão fundamental de Pedro Almodóvar, tornou-se a atriz espanhola internacional, protagonizando sucessos. Nesta entrevista que fiz em Barcelona, fala sobre sua carreira, suas motivações e seus projetos.  
Publicada na revista Profashional, São Paulo, 2007.


Tem feito um filme atrás do outro. Não descansa?

Filmo o tempo inteiro, sem tempo para férias. Este ano tentarei conseguir alguns dias livres, porque preciso dar um tempo, relaxar. O pior é que eu mesma sou responsável por esse ritmo intenso de trabalho. Ninguém pode ser culpado por isso. Gosto de assumir compromissos. Fico entediada sem fazer nada, preferindo me sentir criativa.

Muitas atrizes sonham em trabalhar coim Almodóvar. É uma sorte das grandes, não?

Sinto-me honrada em trabalhar com Pedro. Mas não posso dizer que sou sua musa ou atriz favorita. Ele já fez muitos filmes e eu apenas atuei em três deles. Pedro se tornou um grande diretor de atrizes, um especialista no universo feminino, no estilo George Cukor ou Vincente Minnelli. Ele ama as mulheres, conhece a alma e a cabeça de todas nós melhor do que ninguém, porque é observador e sensível. É curioso, pois considera as mulheres complicadas e mesmo assim gosta delas. Pedro é um caso raro, único, na história do cinema. Também é muito corajoso, atrevendo-se a dizer coisas que 50% das pessoas pensam e não dizem. Sua inteligência está acima do normal.

penélope e almodóvar
Interpretar uma mulher dura, mesmo com certa fragilidade oculta, foi difícil?

A Raimunda é uma mulher machucada, marcada pela vida, mas que nunca desistiu de viver. É uma verdadeira força da natureza que se nega a ser vítima. Pela primeira vez faço uma figura feminina com tanta força, controlando a situação. Foram seis meses de filmagens. Tive uma orientação rígida de Pedro. Ele me dava indicações precisas de quando eu deveria rir ou chorar. Felizmente deu tudo certo. Raramente me sinto feliz com o que faço, porque sou quem mais duramente me julga. Esse filme é especial e todo mundo parece estar de acordo com isso. Para mim,
Volver é o melhor filme de Pedro.

Sofreu durante as filmagens?

Fiquei abalada emocionalmente. Eu tinha liberdade de sentir muitas coisas, de passar de um estado de ânimo a outro em questão de segundos. A personagem faz isso o tempo todo. Raimunda é uma atriz da vida, vive o presente, o dia a dia. Foi muito complexo fazê-la, ela não me deixava pensar racionalmente.

Mesmo fazendo protagonistas, não teve chance de mostrar seu talento em Hollywood...

Iniciei-me como atriz de cinema em 1991, dirigida por Bigas Luna, aos 17 anos. Desde então, tenho feito bons papéis na Europa. Gosto de minha atuação em “A Garota dos Seus Sonhos” e “Não se Mova”. Nos Estados Unidos estou apenas começando. De certa maneira, é normal que eu tenha papéis mais densos na Europa. Com o sucesso de “Volver” espero que me permitam a possibilidade de obter esse tipo de papéis em inglês.

A brasileira Sonia Braga está no mercado cinematográfico norte-americano desde os anos 80 e jamais conseguiu personagens dramáticos expressivos. O mesmo aconteceu com a italiana Sophia Loren nos anos 50-60. Teme que o mesmo aconteça com você?

Sonia Braga continua filmando nos Estados Unidos. Fez recentemente um bom filme com Antonio Banderas e está escalada para outro com o Eduardo Noriega. Isso é que é importante, continuar trabalhando, não ser esquecida. Sofia, mesmo rodando filmes que estavam longe de seu potencial, não deixou de ser valorizada. É um mito internacional. O problema é que são raros os bons papéis femininos no cinema norte-americano. As estrelas de lá vivem reclamando dessa situação. Seria muito bom se fosse comum nos Estados Unidos diretores como Pedro, que escrevem pensando em atrizes de 15 a 80 anos. Mas, como já disse, Pedro é único, sua imaginação é especial. Fico encantada ao ver como ele se arrisca.

Os espanhóis se queixam de sua partida para os EUA?

Nunca deixei a Espanha. Tenho casa, família e amigos aqui. Sempre estou por aqui, a cada dois ou três meses. Nunca planejei só filmar nos EUA, muito pelo contrário. Tenho feito filmes na Espanha, França e Itália. A Europa é a minha prioridade, embora esteja grata pelas oportunidades que me estão dando nos Estados Unidos.

Imaginava que um dia seria estrela hollywoodiana?

Jamais. Inicialmente queria ser bailarina, depois resolvi ser atriz. Parecia-me algo muito difícil de conseguir, pois sou uma garota suburbana e não tenho artistas na família. Aos 13 anos vi “Ata-me”, de Pedro, e decidi que era o que eu queria fazer e, além disso, desejei trabalhar com o diretor do filme. Era o meu sonho máximo. O sonho aconteceu. Já Hollywood é uma surpresa, nunca pensei que chegaria lá.

penélope em “a garota dos seus sonhos”
Espelha-se em alguma atriz?

O cinema está cheio de boas atrizes. São as que têm personalidades marcantes, únicas, particulares. A Victoria Abril, por exemplo, é um monstro da interpretação. Maravilhosa! Gosto particularmente de Anna Magnani e Meryl Streep. São as melhores atrizes de todos os tempos.

Javier Bardem e Antonio Banderas são espanhóis reconhecidos internacionalmente. Por que não atua com eles?

Estamos sempre conversando sobre isso. Parece-nos ridículo que não pensem em nos unir na tela. Não sei por que os diretores não imaginam o meu nome com os deles.

O que se aprende com um personagem?

Os personagens ensinam o tempo inteiro. Através deles, passei a ver a vida de outra maneira. Claro que nunca deixei de ser eu mesma, senão ficaria louca, mas geralmente fico possuída por eles algum tempo.

A Raimuinda vai dar o Oscar a uma espanhola?

Não tenho tal expectativa. Considero uma vitória estar entre as cinco nomeadas. Ficaria muito feliz com o Oscar, óbvio, principalmente porque seria através de um filme de Pedro e do mais especial de minha carreira. Mentiria se falasse que não gostaria de ganhar o prêmio, mas não fico pensando nisso. Lembre que a competição é dura: Helen Mirren, Judi Dench, Meryl Streep, Kate Winslet. São todas poderosas, extraordinárias.

Seus casos amorosos enchem páginas de fofocas. Pensa em formar uma família?

Nunca tive inúmeros casos amorosos. A imprensa exagera. Sei que quando chegar o momento certo serei uma boa mãe. Gosto de crianças e creio na instituição familiar. As pessoas com as quais melhor me relaciono pertencem a minha família.

Quais os seus próximos projetos?

Terminei de rodar “Manolete”. Uma história de amor e toureiros. Foi um privilégio porque Adrien Brody é um dos melhores atores de hoje. Eu o conhecia, mas nunca havia trabalhado com ele. Agora filmarei com Ben Kingsley, outro monstro sagrado.


DEZ FILMES de PENÉLOPE

01
TUDO SOBRE MINHA MÃE 
(Todo Sobre mi Madre, 2001)
direção de Pedro Almodóvar

02
A GAROTA dos seus SONHOS 
(La Niña de tus Ojos, 1998)
direção de Fernando Trueba

03
SEDUÇÃO 
(Belle Epoque, 1992)
direção de Fernando Trueba

04
PRESO na ESCURIDÃO 
(Abre los Ojos, 1997)
direção de Alejandro Amenábar

05
VOLVER 
(Idem, 2006)
direção de Pedro Almodóvar

06
VICKY CRISTINA BARCELONA 
(Idem, 2008)
direção de Woody Allen

07
JAMÓN, JAMÓN 
(Idem, 1992)
direção de Bigas Lunas

08
NÃO se MOVA
(Non ti Muovere, 2004)
direção de Sergio Castellitto

09
TERRA de PAIXÕES 
(The Hi-lo Country, 1998)
direção de Stephen Frears

10
SEM NOTÍCIAS de DEUS
(Sin Noticias di Dios, 2001)
direção de Agustin Díaz Yanes



outubro 04, 2011

********* HELEN MIRREN e a IDADE da REFLEXÃO



 
A reflexão de que fala o título deve ser nossa, e não da atriz britânica nascida em 1945, famosa por sua ousadia e talento, sendo aplaudida por todo mundo interpretando “Cleópatra” no teatro Old Vic. Bela em seus 66 anos, e sem uma vida meditabunda, embora sábia justamente por causa de sua personalidade furtiva, recentemente ficou em primeiro lugar na lista dos corpos mais belos do ano, dentre famosas, eleita por uma rede de academias de ginástica dos Estados Unidos. HELEN MIRREN deixou para trás as mocinhas ou quase mocinhas Elle MacPershon, modelo australiana de 48 anos, e Kelly Brook, apresentadora de tevê britânica, de 31 anos. Caso raro de beleza e talento extremos, além da retromencionada ousadia que a levou a ficar deliciosamente nua em seus verdes anos, quando atuou ao lado do sempre impecável James Mason, em “A Idade da Reflexão / Age of Consent” (1969), dirigido pelo realizador inglês Michael Powell, dessa vez sozinho, e não ao lado de Emeric Pressburger, com quem filmou grandes sucessos, tais como “Narciso Negro / Black Narcissus” (1947) e “Sapatinhos Vermelhos / The Red Shoes” (1948), dentre outros.
 
"a idade da reflexão"
Poucos conseguirão esquecer sua presença no filme erótico “Calígula / Caligola” (1979), atribulada produção que começou com Tinto Brass no comando – os créditos o mencionam apenas em função de algumas tomadas – e terminou com os produtores assinando, definitivamente, a direção, além de roteiro do escritor americano Gore Vidal. HELEN MIRREN é “lotada” no Royal Court Theatre, mulher de teatro que fez imensa quantidade de personagens clássicos nos palcos ingleses. De repente, eis que a encontramos entre cenas explícitas de felatio e cunilingues. Ainda que não tenha participado diretamente dessas orgias romanas, saturnálias e lupercálias, a atriz, que ganhou o Oscar em 2006 por viver, com extremo equilíbrio, a Rainha Elizabeth II em “A Rainha / The Queen” (Stephen Frears), acaba por causar arrepios aos erotômanos justamente por ser a figura que é, elegante e madura, em meio a um elenco de modelos da Penthouse, acionado pelo fundador da revista masculina, Bob Guccione. Não há como não se excitar mais com seu corpo velado por vestidos longos do que com a exposição de mulheres com seios imensos e corpos delgados, engolindo espadas num circo de Bosch.
 
como caesonia em "calígula"
Em “A Idade da Reflexão”, HELEN MIRREN é uma jovem nativa de uma ilha deserta da Austrália. Vive em plena harmonia com a natureza: mergulha nua ou de roupa, anda sempre com vestes de menina descalça de praia, mas com um corpo imenso de garota devez: ancas largas da Vênus Calipígia e seios fartos, tudo regado a uma cor de pele rosada. Os gestos são sempre desmedidos e irresponsáveis. A imagem que ocorre mais facilmente é a de uma sereia, uma vez que a moça encanta a todos, mas principalmente o pintor americano sem inspiração, que buscou na ilha uma forma de voltar a executar suas telas com a mesma energia de outrora. Não contava ele com a presença perturbadora de uma mulher na flor da idade, cheia de mar e areia, com uma vitalidade de fazer inveja a comedores de marisco. Dessa forma é que o artista acaba propondo à moça pagá-la para ser sua modelo. Lembremos que o pintor vivido por James Mason está, no mínimo, na cinqüentena.  A história ganha mais força, se afastando do mero paisagismo erótico, em função da presença da avó da mocinha, espécie de preceptora, cuja ideia fixa é resguardar a castidade da vestal. As perseguições pela ilha são empolgantes e fazem refletir sobre a perda da liberdade, a partir da dicotomia natureza x cultura.

como elizabeth II em a rainha
Eu já era apaixonado por HELEN MIRREN quando assisti ao filme “Garotas do Calendário / Calendar Girls” (2003), comédia elegante e divertida, baseada em história real, com pitadas de erotismo, que conta a história de mulheres maduras que posam para um calendário do tipo oficina de mecânico. Tudo por uma boa causa. Mas quando assisti ao “A Idade da Reflexão”, pus-me a refletir: Como pode essa mulher ter uma idade?

texto de 
HENRIQUE WAGNER