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maio 25, 2024

********** O CINEMA ELEGANTE de MAX OPHÜLS

 

 


 
Qual cineasta foi mais ignorado que Max Ophüls? 
Um ostracismo mesquinho e teimoso 
foi praticado em relação ao seu trabalho.
CLAUDE BEYLIE
(1932 - 2001. Sarlat-la-Canéda / França)
crítico e historiador de cinema
 
Ele não era o virtuoso, o esteta ou o cineasta 
decorativo que tem sido chamado. 
Assim como seu amigo Jean Renoir
Ophüls sempre sacrificou a técnica pelo ator. 
Ele fez com que os atores fossem mais naturais 
do que a maioria dos diretores.
FRANÇOIS TRUFFAUT
(1932 - 1984. Paris / França)
cineasta


O cinema sedutor, refinado e barroco do mestre MAX OPHÜLS (1902 – 1957. Saarbrücken / Alemanha) é pouco conhecido no Brasil. Ele foi um exímio narrador de histórias de amor, confirmando sua sensibilidade romântica, sua identificação com a consciência e os apuros das mulheres. Uma das suas características mais notáveis é a importância dada à identidade feminina. Destaco também os extraordinários e vivos jogos de câmera, os travellings absurdos acompanhando a narrativa e a peculiar elegância do diretor. Embora seu cinema também prospere com tramas envolventes, atuações fortes e um manejo hábil de múltiplos temas e concentrações históricas, hipnotiza principalmente pelo profundo fascínio visual. Há algo de mágico em sua obra, algo especial em seu estímulo emocional-sensorial.  Sua filmografia está repleta de uma arte de tirar o fôlego. A câmera gira e faz curvas captando cada faceta da decoração e do figurino. Tal como essas elaboradas manobras que enriquecem a sua trajetória cinematográfica, sua carreira foi de flutuações dinâmicas. Desde seu primeiro longa-metragem em 1932, até o último em 1955, teve momentos de tremenda produtividade, seguidos por adversidades desanimadoras. Ele definhou em períodos de estagnação, se levantando novamente e florescendo com uma série de sucessos sensíveis e aplaudidos.

max ophuls
Nascido Maximillian Oppenheimer, começou sua carreira no show business como ator teatral aos 17 anos, mudando seu sobrenome para não manchar o nome da família rica e tradicional. Em 1924, trabalhou como diretor no prestigioso Bürgtheater de Viena. Em 1926, casou-se com a atriz Hilde Wall, com quem teve Marcel, o futuro documentarista de “A Tristeza e a Piedade / Le Chagrin et la Pitié” (1969).  Em 1930, com cerca de duzentas peças no currículo, iniciou sua arte cinematográfica como assistente de Anatole Litvak na UFA, em Berlim. Dirigiu seu primeiro filme em 1930, o curta-metragem “Prefiro ter Óleo de Fígado de Bacalhau / Dann Schon Lieber Lebertran”, considerado perdido, seguindo-se o longa-metragem, “A Companhia Apaixonada / Die Verliebte Firma” (1932). O sucesso veio com “Uma História de Amor / Liebelei”, em 1933. Nele, seu estilo sofisticado já se define na adaptação de Arthur Schnitzler, em quem mais tarde se inspiraria para criar um dos seus mais importantes filmes, “Conflitos de   Amor”, em 1950. A ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha obrigou o diretor judeu a instalar-se na França, onde, de 1934 a 1940, fez sete filmes, intercalados entre uma realização na Itália e outra na Holanda. Em 1938, adquiriu a cidadania francesa.
 
O avanço das tropas nazistas levou-o à Suíça, mas a falta de autorização de trabalho (que só lhe seria concedida caso se declarasse desertor do exército francês, o que ele recusou) resultou no fim do seu projeto de filmar a comédia “Escola de Mulheres”, de Molière, com Louis Jouvet, e na sua expulsão do país. Antes, em Zurique, dirigiu com sucesso duas peças. Em seguida, em 1941, mudou para os Estados Unidos. Os primeiros anos em Hollywood foram difíceis. Ele vivia graças à ajuda dos amigos refugiados. Desempregado até 1946, aproveitou para escrever sua autobiografia. Preston Sturges, impressionado com “Uma História de Amor”, conseguiu que dirigisse “Vendetta / Idem” para a RKO Radio Pictures. Porém a filmagem foi conturbada pelas interferências do produtor Howard Hughes. Uma discordância causou a demissão do diretor e de Sturges. Mel Ferrer terminou assinando o filme inexpressivo.  A oportunidade de MAX OPHÜLS sentar atrás das câmeras em Hollywood chegou com o auxílio do cineasta alemão Robert Siodmak, que sugeriu seu nome a Douglas Fairbanks. Jr. para “O Exilado” (1947), aventura histórica que o próprio astro produziu. Seguiram-se três outros filmes, todos com receitas medianas. Após “Na Teia do Destino”, seu último trabalho nos EUA, o produtor Walter Wanger decidiu confiar ao diretor a possibilidade de concretização de um dos seus sonhos mais desejados: a adaptação do famoso romance de Honoré de Balzac, “A Duquesa de Langeais”. Balzac era um dos escritores preferidos do cineasta e ele encarou o projeto com muito entusiasmo. A obra seria rodada em Paris, onde regressou em 1949, após nove anos de ausência. Greta Garbo e James Mason seriam os protagonistas. Infelizmente, a adaptação não se concretizou por falta de dinheiro.

max ophuls e joan fontaine
Em 1950, reiniciou sua filmografia na França com o prestígio de ter sido descoberto pela nova crítica da revista “Cahiers du Cinéma”. Com uma carreira marcada por fracassos críticos e comerciais, por projetos iniciados e abandonados, mas também por conquistas renomadas, MAX OPHÜLS certamente conhecia a natureza precária do negócio do entretenimento. Seu último filme, o magnífico “Lola Montès”, uma coprodução internacional, foi recebido com hostilidade desenfreada. Sua linha do tempo inovadora levou a cortes e reorganizações narrativas, resultando em uma versão provisória de 91 minutos em ordem cronológica, retirando exatamente o que melhor caracterizava a originalidade da técnica empregada pelo diretor. 
 
A obra-prima “Lola Montès” só foi visto integralmente, como hoje conhecemos, muito mais tarde. Na época do lançamento, indignados, famosos diretores e críticos da França – entre eles, François Truffaut, Jean Cocteau, Roberto Rossellini e Jacques Tati – publicaram uma carta aberta em defesa das inovações e audácia do filme e elogiando seu diretor como um artista de vanguarda.  A mutilação da obra abalou MAX OPHÜLS que – afetado por problemas cardíacos – morreu em 1957, aos 54 anos. Suas cinzas estão no Père-Lachaise, em Paris. Ele trabalhava em “Os Amantes de Montparnasse/ Les Amants de Montparnasse” (1958), cinebiografia sobre o pintor italiano Amedeo Modigliani, que foi concluído por Jacques Becker. Seu último trabalho completo, a encenação em Hamburgo de “As Bodas de Fígaro”, no Schauspiel Theater, resultou num sucesso extraordinário. Na estreia, os intérpretes tiveram 46 chamadas ao palco.
 
FONTES
“Max Ophüls: Visão Magistral e a Figura da Mulher” (1995) 
de Susan M. White

“Max Ophüls nos Estúdios de Hollywood” (1996)
de Lutz Bacher

“O Prazer de Ver Max Ophüls” (1991)
de Klaus Vetter e Carlos Augusto Calil

“desejos proibidos”

DEZ FILMES de MAX OPHÜLS
(por ordem de preferência)
 
01
DESEJOS PROIBIDOS
(Madame De..., 1953)

elenco: Charles Boyer, Danielle Darrieux, Vittorio De Sica e Jean Debucourt
 
Baseado no romance de Louise de Vilmorin. Da frivolidade à tragédia amorosa, a trajetória de mulher superficial e, por fim, apaixonada, e suas relações com o marido e o amante. Clássico, oferece uma representação de amplo espectro de uma estrutura social. Começa como uma inteligente comédia, eleva-se às alturas de um romance, e resolve-se em tragédia. Um dos filmes que constituem a expressão mais alta do estilo do diretor. Combina os ingredientes típicos e interesses temáticos que ocuparam sua carreira, relacionando os sofisticados elementos cinematográficos numa complexa tensão dramática. Interpretação impecável do trio central, despontando Danielle Darrieux, que cria com inteligência uma personagem atraente e fútil.
 
02
CONFLITOS de AMOR
(La Ronde, 1950)

elenco: Anton Walbrook, Simone Signoret, Serge Reggiani, Simone Simon, Daniel Gélin, Danielle Darrieux, Jean-Louis Barrault, Isa Miranda e Gérard Philipe
 
Adaptação livre da peça de Arthur Schnitzler, composta de dez episódios entrelaçados por um narrador, que oferece uma visão satírica e, às vezes, amarga, da libertinagem. Construído sobre uma série de situações em torno de amantes cuja única ou principal relação é a sexual, foi o maior sucesso do diretor, largamente reprimido e até mesmo censurado em certos países, por sua apresentação do erotismo. Representou, à sua época, o compêndio do espirituoso, do sofisticado e do elegante. Com ele, MAX OPHÜLS voltou à sua pátria adotiva, a França. Depois de nove anos de exílio nos EUA, marcou a abertura da última e mais bela fase da errante carreira do diretor.
 
03
O PRAZER
(Le Plaisir, 1952)

elenco: Claude Dauphin, Gaby Morlay, Madeleine Renaud, Danielle Darrieux, Pierre Brasseur, Jean Gabin, Jean Servais, Daniel Gélin, Simone Simon e Paulette Dubost
 
Baseado em contos de Guy de Maupassant, trata do prazer sensual através de refinadas relações e sutis reflexões em torno de episódios envolvendo um estranho mascarado, o comportamento inusitado de profissionais de um bordel e a modelo de um pintor. Segundo Jean-Luc Godard, “o mais ophulsiano dos filmes do diretor”.
 
04
LOLA MONTÈS
(Idem, 1955)

elenco: Martine Carol, Peter Ustinov, Anton Walbrook, Lise Delamare, Paulette Dubost, Oskar Werner e Ivan Desny
 
A vida e amores de notória aventureira, cortesã e dançarina de cabaré, que acabou contratada por um circo para um espetáculo baseado em sua biografia. O filme trabalha o tema da aniquilação pessoal face aos cruéis e imorais artifícios da indústria do escândalo, sob a forma de uma condenação vigorosa do mundo decadente retratado de maneira luxuosa. Desde sua estreia, criou grande controvérsia. Depois de lançado em versão mutilada, criou-se uma aura ao seu redor. Com novas abordagens, tem o substrato fundamental para o desenvolvimento do cinema moderno. Em 1968 foi relançado numa versão integral de 140 minutos.
 
05
CARTA de uma DESCONHECIDA
(Letter from an Unknown Woman, 1948)

elenco: Joan Fontaine, Louis Jourdan e Mady Christians
 
Comovente e melancólica história poeticamente fotografada por Franz Planer. Na Viena do começo do século XX, a narração em flashback a partir do drama de um pianista de concerto, transformado em playboy, que recebe carta de uma mulher morta relatando a breve relação entre eles. O filme arma o contraste entre a leitura (do homem), que desconhece os motivos e as intenções, e a consciência (da câmera e da mulher) que domina e manipula a ação. Um melodrama exemplar. Irrepreensível nos aspectos técnicos e perfeito do começo até o seu inesquecível final.
 
06
WERTHER
(Le Roman de Werther, 1938)

elenco: Pierre Richard-Willm, Annie Vernay e Jean Galland
 
Inspirado no clássico romance de Goethe, apresenta os sofrimentos de jovem, que, apaixonado por uma mulher comprometida, não consegue conter a idealização de seu amor, tornando-se obcecado pela ideia do suicídio. Um drama sensível e bem interpretado. Os aspectos mais marcantes são a cinematografia e a direção. Há um uso de iluminação muito interessante, com focos de luz chamando a atenção para partes específicas do cenário e as emoções dos personagens.
 
07
O EXILADO
(The Exile, 1947)

elenco: Douglas Fairbanks Jr., Maria Montez, Henry Daniell e Nigel Bruce
 
Alegre fantasia sobre as aventuras do Rei Charles Stuart na Holanda. O diretor aproveita a oportunidade para mostrar a Hollywood o que ele sabia fazer com a câmera. A força do filme vem de suas composições, da intricada mise-en-scène, do movimento permanente e do carisma de Fairbanks Jr., que homenageia seu pai.
 
08                                                                
Na TEIA do DESTINO
(The Reckless Moment, 1949)

elenco: James Mason, Joan Bennett, Geraldine Brooks e Shepperd Strudwick
 
Um drama como paródia crítica dos valores tradicionais da classe média. Último filme de MAX OPHÜLS nos EUA e, tal como “Coração Prisioneiro” (que o antecedeu) na sua gênese interveio o ator britânico James Mason, um dos maiores amigos do diretor. Produzido por Walter Wanger, marido de Joan Bennett e um dos mais cultos produtores de Hollywood, se situa num meio social abastado, com Bennett (magnificamente dirigida) chantageada por cafajeste que apaixona-se por ela.
 
09
CORAÇÃO PRISIONEIRO
(Caught, 1949)

elenco: James Mason, Barbara Bel Geddes, Robert Ryan e Curt Bois
 
Insatisfeita com seu marido sádico e milionário, garota vai trabalhar com um médico. Eles se apaixonam. Grávida, ela pede o divórcio, mas o marido exige em troca a custódia da criança. O filme fornece uma clara demonstração das possibilidades críticas inerentes ao melodrama. O diretor mostra-se inteiramente à vontade nas convenções do filme noir, dominante em Hollywood na época.
 
10
SEM PERDÃO
(Sans Lendemain, 1939)

elenco: Edwige Feuillère, Jorge Rigaud e Daniel Lecourtois
 
Artista de cabaré, com um pequeno filho, reencontra um antigo amor, mas está envolvida amorosamente com um rico mafioso. Ela se vê forçada a situações comprometedoras, até que surge uma saída desesperada. Pode ser visto como um ensaio para “Carta de Uma Desconhecida”. No elenco, brilha Edwige Feuillère.
 
GALERIA de FOTOS
 

lola montèz

setembro 24, 2023

*** O ROMANCE de JEAN MARAIS e JEAN COCTEAU

 

 
Obrigado do fundo do meu coração por ter me salvado. 
Eu estava me afogando e você se jogou na água 
sem hesitar, sem olhar para trás. 
de JEAN COCTEAU para JEAN MARAIS, em 1939.
 
 
Ele foi um dos atores mais populares do cinema francês. Começou a se destacar nos anos 40 e teve um percurso cinematográfico célebre. JEAN MARAIS (1913 – 1998. Cherbourg, Manche/ França) deixou como legado um porte romântico e atlético perpetuado em mais de 80 filmes, destacando-se no gênero capa-e-espada no final dos anos 50 e meados de 60. Em 1975, publicou uma de suas memórias, “Histórias da Minha Vida / Histoires de Ma Vie”, muito comentado por sua franqueza. Nele, recordou sua infância ingrata, a mãe possessiva meio louca que ele amava, o trabalho como ator prejudicado pela voz afetada e seu longo affair com o genial dramaturgo, poeta e cineasta JEAN COCTEAU (1889 – 1963.Maisons-Laffitte, Yvelines / França).  
 
Apesar de belo, JEAN MARAIS tinha pouco talento e uma voz lamentável. Nunca entendi sua fama. Tudo começou em 1937. O ator desde 1933 trabalhava no cinema como figurante ou em papéis minúsculos e fazia teatro amador. Ao passar no teste em uma peça que seria dirigida por seu futuro amante, foi utilizado em cena vestido apenas com uma minúscula faixa branca, imóvel como uma estátua e revelando seu corpo impactante. Em poucos dias ele se apaixonou pelo gênio. Assim começou a íntima colaboração profissional e amorosa que durou décadas.
 
cocteau e marais
Quando se conheceram, tinha 24 anos e JEAN COCTEAU, 48. Juntos, fizeram clássicos como “A Bela e a Fera (1946), “A Águia de Duas Cabeças (1948), “O Pecado Original / Les Parents Terribles” (1948), “Coriolano / Coriolan” (1950), “Orfeu (1950) e “Testamento de Orfeu” (1960). Todos ricos em imagens inesquecíveis. O ator afirmou que o cineasta foi o amor de sua vida e gostaria de tê-lo encontrado antes. Conhecido por filmes poéticos, a filmografia de JEAN COCTEAU faz parte da história do cinema. Na vida privada, teve casos com figuras notáveis, como o escritor Raymond Radiguet e o boxeador Panama Al Brown. No entanto, o ponto alto foi o relacionamento com JEAN MARAIS. Apelidado de O Príncipe Frívolo, nasceu em uma rica família parisiense. Após sair de casa, publicou um livro de poemas aos 19 anos de idade e logo se tornou conhecido nos círculos artísticos e boêmios de Paris, associado aos escritores Marcel Proust e André Gide. Nos anos seguintes, ele se relacionou com o poeta Guillaume Apollinaire e os pintores Picasso e Modigliani.
 
Seu talento se estendeu por toda a Europa e, em 1917, o empresário russo Sergei Diaghilev o convenceu a escrever o livreto para o ballet “Parade”. Em 1920, tornou-se viciado em ópio, depois do choque causado pela morte inesperada do poeta francês Raymond Radiguet, seu amante, o que o fez submeter-se a várias internações em clínicas. Apesar de ter um caso com a princesa Natalie Paley - filha de um duque Romanov, atriz e modelo – as suas relações mais longas foram com os atores JEAN MARAIS e Edouard Dermithe, a quem adotou formalmente depois de contratá-lo como um jardineiro. Teve alguns casos menores com algumas mulheres e namorou homens mais velhos bem relacionados, como o conhecido ator Eduard De Max. 
 
o jovem cocteau
De Max apresentou JEAN COCTEAU ao quem é quem da cena parisiense e usou sua influência para organizar um encontro de poesia dedicada ao jovem poeta, considerado um grande sucesso nos círculos literários. Logo ele começou a contribuir com poemas e desenhos para revistas literárias. De Max também o ajudou a publicar seus três primeiros livros. Em essência, ele foi um poeta que escreveu romances, peças, crítica literária, dirigiu filmes e foi um artista plástico inspirado, que deixou sua marca em capelas da Provence e Côte D’Azur. Este talento múltiplo não se diluiu em suas atividades, somou-se. Como ele explica: “Explorei tantos caminhos para que minha semente se espalhasse por toda a parte.”.
 
Uma vez famoso, JEAN COCTEAU começou a namorar homens mais jovens, seus “enfants”, como ele se referia a eles, belos jovens amantes e colaboradores. A partir de 1916, incentivou a carreira do poeta John LeRoy, que morreria apenas dois anos depois. Ele escreveu sobre LeRoy: “…coloquei nele o que foi desperdiçado em mim pela vida desordenada. Ele era jovem, bonito, bom, corajoso, cheio de gênio, nada afetado, tudo o que a Morte gosta.”. A próxima obsessão foi Raymond Radiquet, de 15 anos. A dupla escreveu quatro romances de sucesso enquanto moravam juntos. Em 1923, Radiquet morreu de febre tifóide, aos 20 anos de idade. Nem todos os seus amantes eram talentosos ou bem-sucedidos. Maurice Sachs roubou o seu apartamento e depois escreveu “Witches Sabbath”, um relato do relacionamento deles. Sachs acabou morto pelos nazistas. “Les Enfants Terrible”, publicado em 1929 e depois adaptado para um filme por Jean-Pierre Melville, foi em parte inspirado na vida familiar de seu amante Jean Bourgoint. O relacionamento não durou muito e Bourgoint acabou se tornando um monge trapista, trabalhando em uma colônia de leprosos nos Camarões.
 
Em 1927, JEAN COCTEAU morava com o poeta Jean Desbordes, que escreveu em 1928, “J’Adore”, conhecido como uma carta de amor de 200 páginas ao amante. Foi algo muito picante para a época. Eles passaram o verão no interior da França com Gertrude Stein e Coco Chanel, que ficou irritada porque os dois viviam a maior parte do dia trancados no quarto fumando ópio. Desbordes tornou-se um líder da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Tragicamente, os nazistas o capturaram, arrancaram-lhe os olhos e depois o mataram. Em 1930, JEAN COCTEAU lançou sua primeira obra-prima cinematográfica, “Sangue do Poeta”, influenciado por sua amizade com surrealistas e dadaístas. Ele realizou sete filmes e é um dos mais importantes cineastas de todos os tempos.
 
Com uma infância sofrida, porque a sua mãe era mentalmente instável, JEAN MARAIS nasceu na antiga cidade portuária de Cherbourgh. Seus pais se separaram depois da Primeira Guerra Mundial e a mãe, ele e o irmão Henri se mudaram para os subúrbios de Paris. Fascinado pelo teatro desde criança, dizia aos amigos que a mãe era uma atriz da Comedie Française. Incapaz de conseguir um trabalho regular, a mãe tornou-se ladra de lojas e foi presa várias vezes. Sozinhas, as crianças tiveram que aprender a se defender sozinhas. Expulso da escola por se vestir de menina e flertar com um professor, o futuro ator fazia biscates como desenhista, jornaleiro e fotógrafo. Enquanto lutava para se estabelecer como ator em Paris, foi rejeitado pelas principais escolas de arte dramática até conhecer JEAN COCTEAU. Juntos formaram um casal admirado na vida cultural francesa. Trabalhou na peça “Les Parents Terribles” e deu vida a fábula “A Bela e a Fera”, de 1946, o filme mais popular dos dois. O ator trabalhou também com outros diretores magistrais como Jean Renoir, Luchino Visconti e Bernardo Bertolucci.
 
marais e cocteau
O relacionamento deles foi extremamente apaixonado e intenso, com COCTEAU escalando MARAIS para seus próprios projetos cinematográficos. Ele estrelou a maioria dos filmes do amante. O cineasta afirmou que sua atuação em “Orfeu” “ilumina o filme com sua alma”. Na verdade, o ator era tratado como muso do cineasta. Eles permaneceram numa Paris ocupada pelos nazistas, apesar da oposição a homossexualidade. Eram abertamente gays e o ator foi rejeitado pela Resistência por isso. Já COCTEAU, dependente do ópio, superou o vício com o amante.
 
O cineasta tinha admiradores poderosos que protegiam os dois, mesmo quando JEAN MARAIS deu um soco em um crítico colaboracionista por escrever uma crítica negativa sobre uma das peças do amante. Os seus nomes foram arrastados pela lama da imprensa controlada pelos nazis, mas nunca foram presos ou enviados para um campo de concentração. JEAN COCTEAU morreu de um ataque cardíaco em seu castelo em Milly-la-Forêt, Essonne, em 1963, com 74 anos. Contam que seu coração parou depois de ouvir que Edith Piaf, uma de suas grandes amigas, tinha morrido. JEAN MARAIS mandou gravar na sua lápide: “Eu fico com você”. Falecido em 1998, aos 85 anos, entre os trabalhos mais recentes de JEAN MARAIS estão apresentações no Cabaré Les Folies Bergères e a interpretação de Próspero em “A Tempestade”, de Shakespeare, nos palcos de Paris. Seus últimos filmes foram “Os Miseráveis / Les Misérables” (1995), de Claude Lelouch; e “Beleza Roubada” (1996), de Bernardo Bertolucci. Publicou mais de uma autobiografia e organizou retrospectiva como artista plástico em 1995. Sobre JEAN COCTEAU, comentou: “Lamento amargamente não ter passado toda a minha vida servindo Cocteau em vez de me preocupar com minha carreira.”
 
jean marais em “orfeu”

CINCO FILMES de JEAN COCTEAU
(por ordem de preferência)
 
01
A BELA e a FERA
(La Belle et la Bête, 1946)
 
elenco: Jean Marais, Josette Day e Michael Auclair
 
02
A ÁGUIA de DUAS CABEÇAS
(L'aigle à Deux Têtes, 1948)
 
elenco: Edwige Feuillère
 
03
O SANGUE de um POETA
(Le Sang d'un Poète, 1932)
 
elenco: Enrique Rivero, Elizabeth Lee Miller e Pauline Carton
 
04
ORFEU 
(Orphée, 1950)
 
elenco: François Périer, María Casarés, Marie Déa e Juliette Gréco
 
05
O TESTAMENTO de ORFEU
(Le Testament d'Orphée ou ne me Demandez pas Pourquoi, 1960)
 
elenco: Françoise Arnoul, Claudine Auger, Jean Marais, Charles Aznavour, Lucia Bosè, Yul Brynner e María Casarés
 
jean marais em “a bela e a fera

DEZ FILMES de JEAN MARAIS
(por ordem de preferência)
 
01
A BELA e a FERA
(La Belle et la Bête, 1946)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: Josette Day e Michael Auclair
 
02
NOITES BRANCAS
(Le Notti Bianche,1957)
 
direção: Luchino Visconti
elenco: Maria Schell, Marcello Mastroianni, Clara Calamai e Giorgio Albertazzi
 
03
O CASTELO de CRISTAL
(Le Chateau De Vêrre, 1950)
 
direção: René Clement 
elenco: Michèle Morgan, Jean Servais e Fosco Giachetti
 
04
A ÁGUIA de DUAS CABEÇAS
(L'aigle à Deux Têtes, 1948)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: Edwige Feuillère
 
05
As ESTRANHAS COISAS de PARIS
(Elena et les Hommes, 1956)
 
direção: Jean Renoir 
elenco: Ingrid Bergman, Mel Ferrer, Juliette Gréco e Dora Doll
 
06
ORFEU
(Orphée, 1950)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: François Périer, María Casarés, Marie Déa e Juliette Gréco
 
07
ENTRE o AMOR e o TRONO
(Ruy Blas, 1948)
 
direção: Pierre Billon 
elenco: Danielle Darrieux, Marcel Herrand e Gabrielle Dorziat
 
08
MILAGRES ACONTECEM uma VEZ
(Les Miracles n'ont Lieu qu'une Fois, 1951)
 
direção: Yves Allégret 
elenco: Alida Valli
 
09
BELEZA ROUBADA
(Stealing Beauty, 1996)
 
direção: Bernardo Bertolucci 
elenco: Liv Tyler, Joseph Fiennes, Jeremy Irons, Stefania Sandrelli e Rachel Weisz
 
10
Os AMORES de CARMEN
(Carmen, 1944)
 
direção: Christian-Jaque
elenco: Viviane Romance, Marguerite Moreno e Bernard Blier
 
GALERIA de FOTOS