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setembro 24, 2023

*** O ROMANCE de JEAN MARAIS e JEAN COCTEAU

 

 
Obrigado do fundo do meu coração por ter me salvado. 
Eu estava me afogando e você se jogou na água 
sem hesitar, sem olhar para trás. 
de JEAN COCTEAU para JEAN MARAIS, em 1939.
 
 
Ele foi um dos atores mais populares do cinema francês. Começou a se destacar nos anos 40 e teve um percurso cinematográfico célebre. JEAN MARAIS (1913 – 1998. Cherbourg, Manche/ França) deixou como legado um porte romântico e atlético perpetuado em mais de 80 filmes, destacando-se no gênero capa-e-espada no final dos anos 50 e meados de 60. Em 1975, publicou uma de suas memórias, “Histórias da Minha Vida / Histoires de Ma Vie”, muito comentado por sua franqueza. Nele, recordou sua infância ingrata, a mãe possessiva meio louca que ele amava, o trabalho como ator prejudicado pela voz afetada e seu longo affair com o genial dramaturgo, poeta e cineasta JEAN COCTEAU (1889 – 1963.Maisons-Laffitte, Yvelines / França).  
 
Apesar de belo, JEAN MARAIS tinha pouco talento e uma voz lamentável. Nunca entendi sua fama. Tudo começou em 1937. O ator desde 1933 trabalhava no cinema como figurante ou em papéis minúsculos e fazia teatro amador. Ao passar no teste em uma peça que seria dirigida por seu futuro amante, foi utilizado em cena vestido apenas com uma minúscula faixa branca, imóvel como uma estátua e revelando seu corpo impactante. Em poucos dias ele se apaixonou pelo gênio. Assim começou a íntima colaboração profissional e amorosa que durou décadas.
 
cocteau e marais
Quando se conheceram, tinha 24 anos e JEAN COCTEAU, 48. Juntos, fizeram clássicos como “A Bela e a Fera (1946), “A Águia de Duas Cabeças (1948), “O Pecado Original / Les Parents Terribles” (1948), “Coriolano / Coriolan” (1950), “Orfeu (1950) e “Testamento de Orfeu” (1960). Todos ricos em imagens inesquecíveis. O ator afirmou que o cineasta foi o amor de sua vida e gostaria de tê-lo encontrado antes. Conhecido por filmes poéticos, a filmografia de JEAN COCTEAU faz parte da história do cinema. Na vida privada, teve casos com figuras notáveis, como o escritor Raymond Radiguet e o boxeador Panama Al Brown. No entanto, o ponto alto foi o relacionamento com JEAN MARAIS. Apelidado de O Príncipe Frívolo, nasceu em uma rica família parisiense. Após sair de casa, publicou um livro de poemas aos 19 anos de idade e logo se tornou conhecido nos círculos artísticos e boêmios de Paris, associado aos escritores Marcel Proust e André Gide. Nos anos seguintes, ele se relacionou com o poeta Guillaume Apollinaire e os pintores Picasso e Modigliani.
 
Seu talento se estendeu por toda a Europa e, em 1917, o empresário russo Sergei Diaghilev o convenceu a escrever o livreto para o ballet “Parade”. Em 1920, tornou-se viciado em ópio, depois do choque causado pela morte inesperada do poeta francês Raymond Radiguet, seu amante, o que o fez submeter-se a várias internações em clínicas. Apesar de ter um caso com a princesa Natalie Paley - filha de um duque Romanov, atriz e modelo – as suas relações mais longas foram com os atores JEAN MARAIS e Edouard Dermithe, a quem adotou formalmente depois de contratá-lo como um jardineiro. Teve alguns casos menores com algumas mulheres e namorou homens mais velhos bem relacionados, como o conhecido ator Eduard De Max. 
 
o jovem cocteau
De Max apresentou JEAN COCTEAU ao quem é quem da cena parisiense e usou sua influência para organizar um encontro de poesia dedicada ao jovem poeta, considerado um grande sucesso nos círculos literários. Logo ele começou a contribuir com poemas e desenhos para revistas literárias. De Max também o ajudou a publicar seus três primeiros livros. Em essência, ele foi um poeta que escreveu romances, peças, crítica literária, dirigiu filmes e foi um artista plástico inspirado, que deixou sua marca em capelas da Provence e Côte D’Azur. Este talento múltiplo não se diluiu em suas atividades, somou-se. Como ele explica: “Explorei tantos caminhos para que minha semente se espalhasse por toda a parte.”.
 
Uma vez famoso, JEAN COCTEAU começou a namorar homens mais jovens, seus “enfants”, como ele se referia a eles, belos jovens amantes e colaboradores. A partir de 1916, incentivou a carreira do poeta John LeRoy, que morreria apenas dois anos depois. Ele escreveu sobre LeRoy: “…coloquei nele o que foi desperdiçado em mim pela vida desordenada. Ele era jovem, bonito, bom, corajoso, cheio de gênio, nada afetado, tudo o que a Morte gosta.”. A próxima obsessão foi Raymond Radiquet, de 15 anos. A dupla escreveu quatro romances de sucesso enquanto moravam juntos. Em 1923, Radiquet morreu de febre tifóide, aos 20 anos de idade. Nem todos os seus amantes eram talentosos ou bem-sucedidos. Maurice Sachs roubou o seu apartamento e depois escreveu “Witches Sabbath”, um relato do relacionamento deles. Sachs acabou morto pelos nazistas. “Les Enfants Terrible”, publicado em 1929 e depois adaptado para um filme por Jean-Pierre Melville, foi em parte inspirado na vida familiar de seu amante Jean Bourgoint. O relacionamento não durou muito e Bourgoint acabou se tornando um monge trapista, trabalhando em uma colônia de leprosos nos Camarões.
 
Em 1927, JEAN COCTEAU morava com o poeta Jean Desbordes, que escreveu em 1928, “J’Adore”, conhecido como uma carta de amor de 200 páginas ao amante. Foi algo muito picante para a época. Eles passaram o verão no interior da França com Gertrude Stein e Coco Chanel, que ficou irritada porque os dois viviam a maior parte do dia trancados no quarto fumando ópio. Desbordes tornou-se um líder da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Tragicamente, os nazistas o capturaram, arrancaram-lhe os olhos e depois o mataram. Em 1930, JEAN COCTEAU lançou sua primeira obra-prima cinematográfica, “Sangue do Poeta”, influenciado por sua amizade com surrealistas e dadaístas. Ele realizou sete filmes e é um dos mais importantes cineastas de todos os tempos.
 
Com uma infância sofrida, porque a sua mãe era mentalmente instável, JEAN MARAIS nasceu na antiga cidade portuária de Cherbourgh. Seus pais se separaram depois da Primeira Guerra Mundial e a mãe, ele e o irmão Henri se mudaram para os subúrbios de Paris. Fascinado pelo teatro desde criança, dizia aos amigos que a mãe era uma atriz da Comedie Française. Incapaz de conseguir um trabalho regular, a mãe tornou-se ladra de lojas e foi presa várias vezes. Sozinhas, as crianças tiveram que aprender a se defender sozinhas. Expulso da escola por se vestir de menina e flertar com um professor, o futuro ator fazia biscates como desenhista, jornaleiro e fotógrafo. Enquanto lutava para se estabelecer como ator em Paris, foi rejeitado pelas principais escolas de arte dramática até conhecer JEAN COCTEAU. Juntos formaram um casal admirado na vida cultural francesa. Trabalhou na peça “Les Parents Terribles” e deu vida a fábula “A Bela e a Fera”, de 1946, o filme mais popular dos dois. O ator trabalhou também com outros diretores magistrais como Jean Renoir, Luchino Visconti e Bernardo Bertolucci.
 
marais e cocteau
O relacionamento deles foi extremamente apaixonado e intenso, com COCTEAU escalando MARAIS para seus próprios projetos cinematográficos. Ele estrelou a maioria dos filmes do amante. O cineasta afirmou que sua atuação em “Orfeu” “ilumina o filme com sua alma”. Na verdade, o ator era tratado como muso do cineasta. Eles permaneceram numa Paris ocupada pelos nazistas, apesar da oposição a homossexualidade. Eram abertamente gays e o ator foi rejeitado pela Resistência por isso. Já COCTEAU, dependente do ópio, superou o vício com o amante.
 
O cineasta tinha admiradores poderosos que protegiam os dois, mesmo quando JEAN MARAIS deu um soco em um crítico colaboracionista por escrever uma crítica negativa sobre uma das peças do amante. Os seus nomes foram arrastados pela lama da imprensa controlada pelos nazis, mas nunca foram presos ou enviados para um campo de concentração. JEAN COCTEAU morreu de um ataque cardíaco em seu castelo em Milly-la-Forêt, Essonne, em 1963, com 74 anos. Contam que seu coração parou depois de ouvir que Edith Piaf, uma de suas grandes amigas, tinha morrido. JEAN MARAIS mandou gravar na sua lápide: “Eu fico com você”. Falecido em 1998, aos 85 anos, entre os trabalhos mais recentes de JEAN MARAIS estão apresentações no Cabaré Les Folies Bergères e a interpretação de Próspero em “A Tempestade”, de Shakespeare, nos palcos de Paris. Seus últimos filmes foram “Os Miseráveis / Les Misérables” (1995), de Claude Lelouch; e “Beleza Roubada” (1996), de Bernardo Bertolucci. Publicou mais de uma autobiografia e organizou retrospectiva como artista plástico em 1995. Sobre JEAN COCTEAU, comentou: “Lamento amargamente não ter passado toda a minha vida servindo Cocteau em vez de me preocupar com minha carreira.”
 
jean marais em “orfeu”

CINCO FILMES de JEAN COCTEAU
(por ordem de preferência)
 
01
A BELA e a FERA
(La Belle et la Bête, 1946)
 
elenco: Jean Marais, Josette Day e Michael Auclair
 
02
A ÁGUIA de DUAS CABEÇAS
(L'aigle à Deux Têtes, 1948)
 
elenco: Edwige Feuillère
 
03
O SANGUE de um POETA
(Le Sang d'un Poète, 1932)
 
elenco: Enrique Rivero, Elizabeth Lee Miller e Pauline Carton
 
04
ORFEU 
(Orphée, 1950)
 
elenco: François Périer, María Casarés, Marie Déa e Juliette Gréco
 
05
O TESTAMENTO de ORFEU
(Le Testament d'Orphée ou ne me Demandez pas Pourquoi, 1960)
 
elenco: Françoise Arnoul, Claudine Auger, Jean Marais, Charles Aznavour, Lucia Bosè, Yul Brynner e María Casarés
 
jean marais em “a bela e a fera

DEZ FILMES de JEAN MARAIS
(por ordem de preferência)
 
01
A BELA e a FERA
(La Belle et la Bête, 1946)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: Josette Day e Michael Auclair
 
02
NOITES BRANCAS
(Le Notti Bianche,1957)
 
direção: Luchino Visconti
elenco: Maria Schell, Marcello Mastroianni, Clara Calamai e Giorgio Albertazzi
 
03
O CASTELO de CRISTAL
(Le Chateau De Vêrre, 1950)
 
direção: René Clement 
elenco: Michèle Morgan, Jean Servais e Fosco Giachetti
 
04
A ÁGUIA de DUAS CABEÇAS
(L'aigle à Deux Têtes, 1948)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: Edwige Feuillère
 
05
As ESTRANHAS COISAS de PARIS
(Elena et les Hommes, 1956)
 
direção: Jean Renoir 
elenco: Ingrid Bergman, Mel Ferrer, Juliette Gréco e Dora Doll
 
06
ORFEU
(Orphée, 1950)
 
direção: Jean Cocteau 
elenco: François Périer, María Casarés, Marie Déa e Juliette Gréco
 
07
ENTRE o AMOR e o TRONO
(Ruy Blas, 1948)
 
direção: Pierre Billon 
elenco: Danielle Darrieux, Marcel Herrand e Gabrielle Dorziat
 
08
MILAGRES ACONTECEM uma VEZ
(Les Miracles n'ont Lieu qu'une Fois, 1951)
 
direção: Yves Allégret 
elenco: Alida Valli
 
09
BELEZA ROUBADA
(Stealing Beauty, 1996)
 
direção: Bernardo Bertolucci 
elenco: Liv Tyler, Joseph Fiennes, Jeremy Irons, Stefania Sandrelli e Rachel Weisz
 
10
Os AMORES de CARMEN
(Carmen, 1944)
 
direção: Christian-Jaque
elenco: Viviane Romance, Marguerite Moreno e Bernard Blier
 
GALERIA de FOTOS
 

 

maio 31, 2022

**************** DAVID LEAN: ÉPICO e ROMÂNTICO


 
Há três filmes de David Lean que me influenciaram. Um é Lawrence da Arábia, meu favorito. O outro, A Ponte do Rio Kwai. Mas quando vi Doutor Jivago, achei-o uma obra-prima. Portanto, estes são os três que costumo rever antes de realizar meus filmes.
STEVEN SPIELBERG
(1946. Cincinnati, Ohio / EUA)
 
Sempre quis fazer filmes que gostaria de ver quando fosse ao cinema. Adoro bons filmes. E o fundamental para poder fazer um é contar uma boa história que tenha bons personagens. Talvez por isso tenha dirigido apenas 16 longas-metragens. Passei parte da vida lendo histórias, escolhendo cuidadosamente projetos e trabalhando em roteiros.
DAVID LEAN
 
 
Para diretores como Steven Spielberg, Francis Ford Coppola ou Bernardo Bertolucci, DAVID LEAN (1908 - 1991. Croydon, Surrey, Inglaterra / Reino Unido) é uma referência fundamental. A obstinação do cineasta britânico, numa busca inabalável pela perfeição, resultou em épicos arrebatadores e dramas íntimos. Suas imagens fazem parte da história do cinema pelo senso inspirado de contar histórias. Seu excepcional talento pictórico e dramático, a grandiloquência e sofisticação técnica, a densidade psicológica, a construção realista dos personagens e a montagem precisa, impressionaram o mundo. Por causa do perfeccionismo, realizou apenas 16 filmes, mas conseguiu o respeito e a admiração da crítica e do público. “Gosto de uma boa história, bem consistente, com começo, meio e fim. A maioria dos filmes novos não têm construção dramática. E devo dizer que gosto de uma boa construção dramática. Gosto de me emocionar quando vou ao cinema”, afirmou o cineasta. Ele construiu uma carreira marcada pela busca de qualidade. Descrito como bastante frio e obsessivo, mergulhava de corpo e alma em uma filmagem. Tinha pouca paciência com os atores e estava sempre em conflito com seu ator favorito, Alec Guinness, com quem rodou cinco filmes e cuja carreira lançou.

david lean nos anos 40
Possuía um domínio profundo das técnicas cinematográficas, interessado, sobretudo, em contar uma história e comunicar sentimentos. “Gosto de manter um controle rígido sobre todos os elementos de um filme. Acho que ser diretor é isso: estimular o talento dos outros e extrair deles todas as coisas que imaginou quando estava trabalhando no roteiro. Nesse sentido, acho que sou um bom ditador”, disse numa entrevista. 

Ele construiu um estilo próprio e uma perspectiva de mundo única, desenvolvendo uma linguagem de planos gerais grandiosos e elaborados movimentos de câmera. Lutava para fazer os filmes a seu modo e sem interferências. Nascido filho de um contador no elegante subúrbio londrino de Croydon, cresceu como o mais velho de dois irmãos em uma rigorosa família que olhava o cinema com desaprovação. Sempre que podia, ele se refugiava no cinema local, onde se entusiasmava com os filmes silenciosos norte-americanos, impressionando-se fortemente com “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse / The Four Horsemen of the Apocalypse” (1921) e “Mare Nostrum” (1926), ambos de Rex Ingram, diretor que admirava. 

Em 1927, aos 19 anos, embarcou na carreira cinematográfica, depois de um ano sem sucesso na firma de contabilidade de seu pai. Foi contratado sem remuneração no Gaumont Studios, de Londres, onde sua principal funções era servir chá. Depois de curto período de tempo neste e em outros serviços, incluindo assistente de câmera, tornou-se o terceiro assistente de direção. Queria aprender tudo e começou a assistir ao trabalho na sala de montagem. Em 1930, foi nomeado editor-chefe e logo se tornou o editor mais bem pago da Inglaterra. Da edição, voltou a atenção para a direção. Recebeu várias propostas para dirigir filmes, porém rejeitou-as, temendo que produções medíocres prejudicassem o seu futuro. Finalmente a oportunidade esperada surgiu, quando o consagrado teatrólogo de comédias sofisticadas, Noel Coward, resolveu realizar “Nosso Barco, Nossa Alma” e ofereceu a DAVID LEAN o cargo de co-diretor.

omar sharif e david lean em 1965
Em estilo semi-documentário e tom patriótico, a história de um destroier da Marinha Britânica, desde a sua construção até seu torpedeamento durante a Segunda Guerra Mundial, e dos homens que nele serviam. Concorreu ao Oscar nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Na Inglaterra, foi considerado o longa mais popular do ano. A segunda parceria de Coward-Lean, “Este Povo Alegre”, da peça de Coward, mostra o cotidiano num lar suburbano entre as duas guerras. Evitando o sentimentalismo e o clima de teatro filmado, a crônica familiar de DAVID LEAN foi um êxito na Inglaterra em 1944.
 
Depois da comédia “Uma Mulher do Outro Mundo”, baseada também em peça de Coward, dirigiu “Desencanto”, um dos filmes britânicos românticos mais populares de todos os tempos. Narrando um frustrado romance com sinceridade e sutileza, através de flashbacks e em espaços confinados, o diretor realizou uma obra-prima intimista, recebendo indicação para o Oscar de Melhor Diretor e outra, juntamente com Coward e Havelock-Allan, para o de Melhor Roteiro. Em Cannes, levou o Prix de Critique. Encorajado pelo sucesso, com a Cineguild produziu adaptações de romances de Charles Dickens: “Grandes Esperanças” e “Oliver Twist”.
 
Para o papel título de “Oliver Twist” selecionaram – entre 1.500 candidatos – John Howard Davies. Ao lado do melodrama, o aspecto social foi abordado, evocando-se condições desumanas, a miséria e a sordidez da Londres do século dezenove. Seu filme seguinte, “A História de uma Mulher”, baseado num romance de H. G. Wells, trata das dificuldades afetivas de um triângulo amoroso. Durante a filmagem, o diretor (então casado com Kay Walsh, sua segunda esposa – a primeira foi Isabel Lean, que lhe deu um filho, Peter) apaixonou-se por Ann Todd. Eles se divorciaram de seus respectivos companheiros e se casaram no ano seguinte. DAVID LEAN se casaria pela quarta vez com Leila Matkar, pela quinta vez com Sandra Hotz e pela sexta vez com Sandra Cooke. Apesar de casado, morou muitos anos com Barbara Cole.

lean, sophia loren e o oscar
Novamente com Ann Todd fez “As Cartas de Madeleine”, mas o drama fracassou. Voltaria aos estúdios no final de 1951 quando, a convite de Alexander Korda, rodou “Sem Barreira no Céu”, cuja verdadeira força está nas cenas aéreas fotografadas por Jack Hildyard. Voltou à comédia com “Papai é do Contra”. Cheia de sátira e sentimento, foi o Melhor Filme do Ano da British Film Academy e tem excelente performance de Charles Laughton, como o dono beberrão de uma loja de calçados. Rodado em Veneza, “Quando o Coração Floresce” inaugurou a carreira internacional de DAVID LEAN.
 
Ultrapassando o filme turístico, retrata a evolução de uma mulher que descobre o amor. Katharine Hepburn, em comovente desempenho, refletindo toda a luta interior entre o desejo e o medo de uma secretária de meia-idade frustrada, domina completamente o drama num papel sob medida para seu talento. Foi candidata ao Oscar de Melhor Atriz. “A Ponte do Rio Kwai” marcou a entrada triunfal do cineasta no superespetáculo. O autor do romance que serviu de base para o filme, Pierre Boulle, havia sido procurado pelo cineasta francês Henri-Georges Clouzot e por Alexander Korda. Sam Spiegel, porém, foi quem assinou o contrato, investindo três milhões e meio de dólares na produção. Com locações no Ceilão, a produção levou três anos em preparo. Só a ponte, onde se dá o clímax da narrativa, levou oito meses para ser construída. O roteiro, assinado por Boulle – mas, na realidade, escrito por Carl Foreman e Michael Wilson, ambos então na Lista Negra comunista de Hollywood – traz uma mensagem pacifista, criticando não só a guerra como também o espírito militar exacerbado. O talento do diretor foi finalmente reconhecido com o Oscar. O segundo veio em 1962 com “Lawrence da Arábia”, o longa suntuoso pela qual DAVID LEAN ficou conhecido pelo resto de sua carreira.

lean nos anos 40
Ele trouxe intensidade para o projeto, que levou três anos para ser produzido e mais de um ano para ser filmado. Superprodução espetacular e, ao mesmo tempo, o retrato de um homem, uma figura histórica complexa e ambígua. Agente secreto, líder militar, agitador, exibicionista, sádico, masoquista, homossexual. Para o papel de Lawrence foi anunciado Marlon Brando, Cary Grant, Kirk Douglas e Albert Finney, mas terminou com Peter O’Toole (então com 28 anos) que se tornou um astro. 12 milhões de dólares foram investidos no filme rodado na Jordânia, Espanha, Egito, Damasco, Jerusalém e Marrocos. Conquistou sete Oscar. O produtor Sam Spiegel disse em entrevista: “Em toda a minha carreira não trabalhei com ninguém que se aproximasse da capacidade de David Lean de colocar imagens na tela”.
 
O próximo assunto a interessar o diretor – “por sua boa história de amor” - foi “Dr. Jivago”, o volumoso romance de Boris Pasternak, laureado com o Prêmio Nobel. Traça a trajetória de Yuri Jivago (Omar Sharif, depois de cogitados Paul Newman, Max Von Sydow e Burt Lancaster), médico e poeta, na Rússia do começo do século vinte, casado, que se apaixona por uma enfermeira também casada. Cinco anos depois, DAVID LEAN voltou à atividade, desta vez usando um argumento original de Robert Bolt, sobre uma jovem em remota aldeia irlandesa durante a Primeira Guerra Mundial. A Filha de Ryan, drama à maneira de Thomas Hardy, foi mal recebido, mas levou dois Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (John Mills) e Melhor Fotografia (Freddie A. Young).
 
Na década de 1970, tentou filmar um remake de “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty” (1936), um sonho que acalentava há anos, mas não deu certo. Inativo por 14 anos, finalmente rodou um clássico da literatura inglesa, “Passagem para a Índia”, de E. M. Foster.  Nos mostra um drama psicológico entrelaçado com a difícil convivência entre colonizadores e colonizados. Obteve 11 indicações para o Oscar (Lean concorreu em três categorias) e conquistou os de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Trilha Sonora.  Em 1990, o American Film Institute (AFI) o premiou com o Lifetime Achievement Award.  Em 1999, o British Film Institute fez uma lista com os 100 melhores filmes britânicos. Cinco de DAVID LEAN ficaram entre os trinta primeiros e três entre os cinco primeiros colocados. Ele morreu aos 83 anos de idade, de um câncer na garganta. Estava filmando “Nostromo”, do romance de Joseph Conrad. Provavelmente, seria mais uma grande obra de um cineasta para quem o cinema era fonte de prazer e expressão de beleza.

david lean, alec guinness e sessue hayakawa

TODOS os FILMES de DAVID LEAN
(por ordem de preferência)
 
01
DESENCANTO
(Brief Encounter, 1945)

elenco: Celia Johnson, Trevor Howard e Stanley Holloway
 
Médico e dona de casa se conhecem em uma estação de trem. Ambos são razoavelmente felizes em seus casamentos. Passam a se encontrar todas as quintas-feiras, surgindo uma paixão, apesar de saberem que este amor é impossível.
 
02
A PONTE do RIO KWAI
(The Bridge on the River Kwai, 1957)

elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins e Sessue Hayakawa
 
Na Segunda Guerra Mundial, soldados ingleses se tornam prisioneiros em um campo de concentração japonês. Este grupo é escolhido para construir uma ponte sobre o rio Kwai, mas um norte-americano que é prisioneiro do mesmo campo, decide destruí-la.
 
03
DOUTOR JIVAGO
(Doctor Zhivago, 1965)

elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Alec Guinness, Tom Courtenay, Siobhan McKenna, Ralph Richardson, Rita Tushingham e Klaus Kinski
 
Durante e após a Revolução Russa, um médico e poeta casado tem um envolvimento com enfermeira que se torna o grande amor da sua vida.
 
04
GRANDES ESPERANÇAS
(Great Expectations, 1946)

elenco: John Mills, Valerie Hobson, Jean Simmons, Martita Hunt e Alec Guinness
 
Criança humilde convive com senhora amargurada pela perda do seu amor. Quando cresce, recebe de um patrocinador misterioso uma chance para viver em Londres.
 
05
LAWRENCE da ARÁBIA
(Lawrence of Arabia, 1962)

elenco: Peter O'Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, Jose Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy
 
Em 1916, na Primeira Guerra Mundial, tenente do exército britânico, admirador do deserto e da vida beduína, se oferece para ajudar os árabes a se libertarem dos turcos.
 
06
OLIVER TWIST
(Idem, 1948)

elenco: John Howard Davies, Robert Newton, Alec Guinness e Francis L. Sullivan
 
Órfão sofrido foge para Londres, onde acaba se unindo a um bando de delinquentes liderados por um vigarista que usa os garotos para cometer pequenos roubos.
 
07
A HISTÓRIA de uma MULHER
(The Passionate Friends, 1949)

elenco: Ann Todd, Trevor Howard e Claude Rains
 
Em busca de segurança financeira, jovem abandona o homem que ama e casa com um rico mais velho. Anos depois, reencontra seu antigo namorado.
 
08
ESTE POVO ALEGRE
(This Happy Breed, 1944)

elenco: John Mills, Celia Johnson e Robert Newton
 
Após a Primeira Guerra Mundial, família operária se muda para subúrbio inglês. Até a Segunda Guerra, o cotidiano deles compõe variação de alegrias e infelicidades.
 
09
A FILHA de RYAN
(Ryan's Daughter, 1970)

elenco: Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard, John Mills e Christoper Jones
 
Na Primeira Guerra Mundial, em cidade irlandesa, deficiente mental expõe para todos que mulher casada tem caso com um oficial britânico, provocando revolta nos habitantes.
 
10
QUANDO o CORAÇÃO FLORESCE
(Summertime, 1955)

elenco: Katharine Hepburn, Rossano Brazzi e Isa Miranda
 
Norte-america en Veneza, apaixona-se por italiano. Sua alegria é abalada quando descobre que ele é casado, mas decide encarar as adversidades.
 
11
PASSAGEM para a ÍNDIA
(A Passage to India, 1984)

elenco: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox e Alec Guinness
 
Duas inglesas fazem uma viagem pela Índia nos anos 1920, imersa em intensos problemas raciais. Um médico local lhes serve de guia e, em visita às grutas de Marabar, um incidente se transforma em acusação de estupro.
 
12
As CARTAS de MADELEINE
(Madeleine, 1950)

elenco: Ann Todd, Norman Wooland, Ivan Desny e Leslie Banks
 
No século XIX, uma poderosa e rica família muda-se para uma casa nova. Uma das filhas, menina dos olhos do pai, envolve-se com um jovem humilde.
 
13
NOSSO BARCO, NOSSA ALMA
(In Which We Serve, 1942)

elenco: Noël Coward, John Mills, Bernard Miles, Celia Johnson e Michael Wilding
 
Análise psicológica dos sentimentos e reações de grupo de náufragos, enquanto esperam pelo resgate que talvez não chegue a tempo.
 
14
PAPAI é do CONTRA
(Hobson's Choice, 1954)

elenco: Charles Laughton, John Mills e Brenda de Banzie
 
Alcoólatra viúvo, dono de sapataria que tem uma boa clientela, calunia a filha mais velha para evitar que ela se case e abandone a administração do negócio familiar.
 
15
SEM BARREIRA no CÉU
(The Sound Barrier, 1952)

elenco: Ralph Richardson, Ann Todd, Nigel Patrick e Denholm Elliott
 
Piloto se casa com a herdeira de um magnata da aviação. O sogro está obcecado em romper a barreira do som com seu novo modelo a jato. As habilidades do rapaz facilitam a sua aceitação, sendo que sua esposa passa a temer ficar viúva a qualquer momento.
 
16
Uma MULHER do OUTRO MUNDO
(Blithe Spirit, 1945)

elenco: Rex Harrison, Constance Cummings, Kay Hammond e Margaret Rutherford
 
Depois de uma sessão de espiritismo, um escritor é atormentado pela visita de sua ex-mulher falecida. No entanto, sua atual esposa se recusa a acreditar nele.