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fevereiro 10, 2019

*********** FRITZ LANG no CAHIERS du CINÈMA



 
Jean Domarchi e Jacques Rivette entrevistam o cineasta FRITZ LANG (1890 – 1976. Viena, Áustria) para o número 99 da revista francesa “Cahiers du Cinéma”, em 1959.


Será que com o tempo existem certos filmes que estima mais?

Sim, naturalmente. Olhem, quando filmo superproduções, interesso-me sobretudo pelas emoções das pessoas, pelas reações do público. Porque num filme de aventuras ou num filme de crime, tal como “Dr. Mabuse” ou “Os Espiões”, só há a pura sensação, o desenvolvimento dos costumes não existe. Mas em “M” começava algo de muito novo para mim, que prossegui em “Fúria”. “M” e “Fúria”, são, creio, os filmes que prefiro. Há ainda outros, que realizei na América, tais como “Almas Perversas”, “Um Retrato de Mulher”, “No Silêncio de uma Cidade”. São todos filmes com base numa crítica social. Prefiro isso, pois julgo que a crítica é algo de fundamental para um realizador.
 
lang e karl freund durante filmagem
 de “metropolis”
A crítica social seria válida para todos os seus filmes, para “Fúria”, para “No Silêncio de uma Cidade”?

Sim, para todos os meus filmes.

Mesmo para “Os Nibelungos”?

Exato, mas julgo que o filme saiu demasiado grande para tocar minuciosamente as almas.

Em “Metrópolis” esse assunto está muito nitidamente indicado.

Sou muito severo com as minhas obras. Já não se pode dizer que o coração é o mediador entre a mão e o cérebro, pois se trata de um problema econômico. É por isso que não gosto de “Metrópolis”. A conclusão é falsa, eu já não o aceitava ao realizá-lo.

Enquanto a conclusão de “Fúria”, não a nega?

Não, a conclusão de “Fúria” é uma conclusão individual, não uma conclusão geral. Não se podem dar receitas para se viver. É impossível.
 
lang, a esposa thea von harbou
e equipe em 1924
Existem filmes que tenha realizado por dinheiro e pelos quais não se interesse absolutamente nada?

o, evidentemente. Nunca assinei um filme unicamente pelo dinheiro, nunca. Mas quanto a alguns filmes poderia ter feito outra coisa diferente. Desde que conceba um filme, interesso-me por ele, mas alguns de aventura interessam-me menos do que “Fúria” ou “Um Retrato de Mulher”, em resumo, dos que criticam a nossa sociedade.

Considera o cinema um instrumento de educação?

Para mim, o cinema é um vício. Gosto muito dele, infinitamente. Escrevi muitas vezes que é a arte do nosso século. E ele tem de ser crítico.

Em que medida foi influenciado ou reagiu contra a corrente expressionista?

Fui influenciado. Não se pode atravessar uma época sem se receber alguma coisa dela.

“Os Nibelungos” parecem-nos expressionista no bom sentido do termo enquanto “O Gabinete do dr. Caligari” parece-nos sê-lo no mau sentido.

joan bennett e lang em 1945
Não tem razão. Porque “Caligari” era um ensaio interessante, era a primeira tentativa. Quando Wiene tentou recomeçar com “Genuine, já não dava. O cinema é uma arte viva. É preciso tomar tudo o que é novo, bom para nós, o que nos enriquece.

O que lhe parecia bom no expressionismo, o que é que utilizou nos seus filmes?

É muito difícil dizer o que utilizei. O utilizei com as minhas emoções. Quando jovens cineastas me pedem: “Dê-nos as regras para realizar um filme”, digo-lhes: “Não há regras”. Portanto, não posso dizer o que encontrei no expressionismo. Utilizei-o, tentei digeri-lo.

Teve a ocasião de conhecer Murnau?

Sim, mas não muito bem. Partiu muito cedo para a América e já estava morto quando cheguei lá. Realizou obras excelentes. Era muito interessante. Fez “Nosferatu”, muito bom. “Tabu”, e mesmo um “Fausto” onde se encontram coisas apaixonantes.

E o que pensa de Orson Welles, de Nicholas Ray?

Vi dois ou três filmes de Ray de que gosto. “Juventude Transviada” é muito bom.

O seu primeiro filme, “Amarga Esperança”, é muito inspirado nos seus filmes.

Concordo. Roubei coisas de outros diretores e fico orgulhoso se alguém me rouba alguma coisa. O que significa roubar? Toma-se uma ideia que se admira para recriá-la.

O MESTRE das TREVAS

A carreira de FRITZ LANG é definida por dois países que o cineasta viveu e rodou seus filmes. Primeiro na Alemanha, onde brilhou com longas expressionistas e chegou a ser apelidado de “The Master of Darkness” – o Mestre das Trevas – pelo British Film Institute. Em Hollywood, onde surgiu fugindo dos nazistas nos anos 1930, ele aprimorou sua técnica do uso de luz e sombra. Separei dez filmes do mestre.

  DEZ FILMES de FRITZ LANG
(por ordem de preferência)

01
Os CORRUPTOS
(The Big Heat, 1953)

elenco: Glenn Ford, Gloria Grahame e Lee Marvin

02
M, o VAMPIRO de DUSSELDORF
(M, 1931)

             elenco: Peter Lorre              

03
FÚRIA
(Fury, 1936)

elenco: Sylvia Sidney, Spencer Tracy, Bruce Cabot
e Walter Brennan

04
ALMAS PERVERSAS
(Scarlet Street, 1945)

elenco: Edward G. Robinson, Joan Bennett e Dan Duryea

05
Um RETRATO de MULHER
(The Woman in the Window, 1944)

elenco: Edward G. Robinson, Joan Bennett,
Raymond Massey e Dan Duryea

06
DESEJO HUMANO
(Human Desire, 1954)
 

elenco: Glenn Ford, Gloria Grahame e Broderick Crawford

07
VIVE-SE UMA só VEZ
(You Only Live Once, 1937)

elenco: Sylvia Sidney e Henry Fonda

08
METRÓPOLIS
(Idem, 1927)

elenco: Alfred Abel, Rudolf Klein-Rogge e Brigitte Helm

09
Os CARRASCOS TAMBÉM MORREM
(Hangmen Also Die!, 1942)

elenco: Brian Donlevy, Walter Brennan, Anna Lee
e Dennis O’Keefe

10
CONQUISTADORES
(Western Union, 1941)

elenco: Robert Young, Randolph Scott, Dean Jagger,
Virginia Gilmore, John Carradine e Chill Wills

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