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agosto 29, 2025

******* FELLINI: MEMÓRIAS, SONHOS e FANTASIAS

 



“Sou apenas um contador de histórias,
e o cinema é o meu meio. Gosto dele
porque recria a vida em movimento,
amplifica-a. Está muito próximo
da criação milagrosa da vida.”
FEDERICO FELLINI 
 Oito e Meio
 
 
Um dos grandes diretores italianos, criou um estilo cinematográfico inimitável, combinando surrealismo com crítica social incisiva.  Explorou em 23 filmes suas obsessões com o circense, a decadência social, a redenção espiritual e as mulheres, gerando influências em diversos cineastas, como o siciliano Paolo Sorrentino ou o norte-americano Martin Scorsese, que diz rever “Oito e Meio” (1963) todo ano. FEDERICO FELLINI (1920 – 1993. Rimini / Itália) colocou a própria biografia em sua criação cinematográfica. Na realidade, aos dezenove anos deixou a provinciana cidade natal, transferindo-se para Roma. Seu primeiro emprego foi na revista humorística “Marc’Aurelio”. Na Itália semidestruída pela II Guerra Mundial, oscilou de um emprego a outro. Depois de trabalhar como repórter, locutor de rádio e escritor de fotonovelas, o famoso ator Aldo Fabrizi o contratou para escrever esquetes para espetáculos de uma companhia teatral ambulante. Com ela, o futuro cineasta correu a Itália, aprendendo a técnica de contar histórias a partir de pequenos incidentes dramáticos ou cômicos.
 
A guerra estava acabando. No meio dos destroços, entre bombas e fuzilamentos, o cinema italiano voltava a brilhar. Era o começo do neorrealismo, uma arte verdadeira, sem glamour e sem estrelas, que mudaria o panorama do cinema mundial. E ele fazia parte desse movimento. Seu primeiro trabalho em filmes foi em um roteiro para o lendário Roberto Rossellini, contando o episódio verídico do fuzilamento de um padre pelos nazistas. “Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta” (1945) transformou-se em um clássico. Começava aí uma das carreiras mais exuberantes da sétima arte. A colaboração com o cinema se intensificou e alguns dos seus roteiros foram pontos altos do neorrealismo: “O Moinho do Pó / Il Mulino del Po” (1949), de Alberto Lattuada; “O Caminho da Esperança / Il Cammino della Speranza” (1950), de Pietro Germi; “Milagre em Milão / Miracolo a Milano” (1951), de Vittorio de Sica, entre outros. Em 1950, co-dirigiu com Alberto Lattuada “Mulheres e Luzes / Luci del Varietà”. O segundo filme, “Abismo de um Sonho / Lo Sceicco Bianco”, veio em 1952 e teve péssima recepção.
 
Um ícone da fantasia com uma visão pessoal acerca da sociedade, ele ressignificou suas lembranças da infância-juventude e seus sonhos, traduzindo-os em obras magistrais. O cinema se tornou, para o diretor, um espaço de interpretação de fantasias e desejos, de reconciliação com situações de tempos passados. Brincou sem limites entre o real e o imaginário, o ficcional e o biográfico, alta e baixa cultura, cinema de autor e de entretenimento, num universo onírico copiado mundialmente. A grande virada foi “A Doce Vida”, de 1960. Sucesso de bilheteria e condenado pela Igreja Católica, este filme insólito abandona o que poderíamos chamar de uma representação mais crua, buscando se aproximar de um mundo simbólico, estilizado. A partir deste momento decisivo, sua obra, que ele descrevia como “sonhos em celuloide”, funda um estilo próprio, no qual mescla memória e sonho, quase sempre não deixando claro onde termina um e começa o outro. Seu cinema barroco, delirante e pessoal torna sua filmografia uma das mais premiadas e envolventes de todos os tempos. 
 
Ele descrevia seu método criativo afirmando que a invenção para suas tramas se dava a partir de suas experiências, memórias, esperanças,
“uma mistura de emoções pessoais, alterações, as cores da escuridão que vivem em mim”. Condecorado com quatro estatuetas no Oscar, um recorde na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, seu legado é visto como um divisor de águas, rendendo um novo adjetivo no vocabulário cinematográfico: o termo felliniano. O cineasta teve como principais colaboradores, a atriz e esposa Giulietta Masina, o ator Marcello Mastroianni, o compositor Nino Rota, o produtor Angelo Rizzoli, o roteirista Ennio Flaiano e o editor Ruggero Mastroianni. Ele, pessoalmente, nos deixou em 1993. Seu cinema singular, de melancolia mágica, jamais nos deixará. É eterno. Cento e cinco anos após seu nascimento, FEDERICO FELLINI ainda se destaca como um gigante do cinema. Este post é um tributo a um artista criativo e livre, que inventou um universo cinematográfico próprio: uma visão mágica do mundo.
 
Oito e Meio
DEZ FILMES para CONHECER FELLINI
(por ordem de preferência)
 
01
A DOCE VIDA
(La Dolce Vita, 1960)

elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée,

Yvonne Furneaux, Magali Noel, Alain Cuny,
Annibale Ninchi, Valeria Ciangottini e Laura Betti

Um dos maiores filmes do cinema. Impulsionou a carreira do cineasta italiano ao sucesso internacional - ironicamente, ao oferecer uma crítica contundente à cultura do estrelato. Um olhar sobre o vazio existencial por trás do estilo de vida sedutor dos ricos e glamorosos de Roma, acompanha um notório jornalista de celebridades (um Marcello Mastroianni sublimemente icônico) nas periferias dos holofotes. Mordaz, foi incisivo sobre a decadência da Europa contemporânea e forneceu um vislumbre premonitório de quão obcecada por fofocas e fama nossa sociedade se tornaria. Cunhou o termo paparazzo, mas seu verdadeiro mérito reside no cinismo com que disseca uma cidade.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Direção
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
David di Donatello de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo
dos Críticos de Cinema de Nova Iorque

 
02
AMARCORD
(Idem, 1974)
 
elenco: Magali Noel, Bruno Zanin, Puppella Maggio,
Armando Grancia, Ciccio Ingrassia e Maria Antonietta Beluzz

O realizador retorna à paisagem provinciana de sua infância com esta reminiscência, recriando sua cidade natal, Rimini, nos estúdios da Cinecittà e retratando seu cotidiano como um circo de rituais sociais, desejos adolescentes, fantasias masculinas e subterfúgios políticos. Esboçando uma galeria de caricaturas cômicas, evoca com carinho um mundo desaparecido, aureolado pelo brilho da memória, ao mesmo tempo em que satiriza um país embrutecido pelo fascismo. Entrelaça com maestria a cinematografia vibrante de Giuseppe Rottuno, os figurinos e cenários extravagantes de Danilo Donati e a trilha sonora nostálgica de Nino Rota. Talvez seja o filme mais pessoal do diretor.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme e Melhor Diretor do Círculo dos Critícos
de Cinema de Nova Iorque

 
03
NOITES de CABÍRIA
(Le Notti di Cabiria, 1957)

elenco: Giulietta Masina, François Périer, Dorian Gray

e Amedeo Nazzari

 
Ascensão, queda e recuperação de uma prostituta, num ambiente de rua, exploração, milagres e trapaceiros. Grande consagração popular do cineasta, apresentando uma das personagens mais inesquecíveis de todo o cinema: Cabiria (magnífica Masina), uma trabalhadora sexual irreprimível e ferozmente independente que, enquanto se move por Roma, em meio à adversidade e à tristeza, precisa confiar em seu próprio espírito indomável para se manter de pé. O filme encerrou a fase inicial do diretor, de influência neorrealista, com um final sublimemente comovente, porém esperançoso, que incorpora a mistura do amargo e do doce que define sua recorrente visão de mundo. Obra-prima.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor

 
 
04
Os BOAS VIDAS
(I Vitelloni, 1953)

elenco: Alberto Sordi, Franco Fabrizi, Franco Interlenghi,

 Leopoldo Trieste, Leonora Ruffo, Paola Borboni,
Lída Baarová e Vira Silenti

 
A segunda criação solo do diretor rendeu seu primeiro sucesso comercial: um retrato lúcido de cinco jovens mergulhados em um limbo provinciano, sonhando com aventuras e uma fuga de sua pequena cidade costeira. Baseando-se em memórias entre a nostalgia cômica de
“Amarcord” e a ressaca da cidade grande de “A Doce Vida”, cria um filmaço semiautobiográfico com personagens afiados: Fausto, o galã, forçado a se casar com uma moça que engravidou; Alberto, o filho perpétuo; Leopoldo, um escritor sedento de fama; e Moraldo, a consciência do grupo. A crônica cinematográfica captura a lassidão e o anseio de seus protagonistas com nostalgia, perspicácia humorada e compaixão.
 
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Leão de Prata no Festival de Veneza
 
05
FELLINI OITO e MEIO
(8½, 1963)

elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale,

Sandra Milo, Rossella Falk, Barbara Steele,
Madeleine Lebeau e Caterina Boratto

 
Considerado por muitos o seu melhor trabalho. Marcello Mastroianni interpreta Guido Anselmi, um cineasta cujo novo projeto está desmoronando ao seu redor, junto com sua vida. Um dos filmes mais aplaudidos pela crítica, teve um primeiro título provisório,
“A Bela Confusão”, e é exatamente isso: um sonho cintilante e um número de mágica. Códice para decifrar a obra felliniana, essa alucinação transgressora tem sido imitada desde sempre. Mastroianni substitui o próprio diretor em suas fantasias surreais sobre o bloqueio artístico, a infância que volta feroz, a cavalgada de mulheres que ele decepcionou, inseguranças, música e a certeza absoluta de que a vida é um circo.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Grande Prêmio no Festival de Moscou
Melhor Filme Estrangeiro no National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo

dos Críticos de Cinema de Nova Iorque
 
06
A ESTRADA da VIDA
 (La Strada, 1954)

elenco: Giulietta Masina, Anthony Quinn e Richard Basehart

 
Uma decadente companhia de diversões ambulante percorre as estradas da Itália. O primeiro sucesso internacional do diretor. Ponte entre seu passado neorrealista e a fantasia lírica que está por vir, repleto de símbolos amargos e referências à commedia dell'arte. Com este drama inovador, o diretor retrata uma visão pessoal e poética da vida como um carnaval agridoce. A expressiva Masina registra tanto a maravilha infantil quanto o desespero de partir o coração como Gelsomina. A obra possui a pureza e a ressonância atemporal de uma fábula e continua sendo uma das visões mais comoventes do cinema sobre a humanidade lutando para sobreviver diante das crueldades da vida.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque
Leão de Prata no Festival de Veneza

 
07
SATYRICON de FELLINI
(Fellini – Satyricon, 1968)

elenco: Martin Potter, Hiram Keller, Salvo Randone,

Magali Noel, Capucine, Alain Cuny,
Lucia Bosè e Gordon Mitchell

 
A carreira do realizador atingiu novos patamares de excentricidade e brilhantismo com esta notável, controversa e extremamente livre adaptação da sátira romana clássica de Petrônio, escrita durante o império de Nero. Uma enxurrada episódica de licenciosidade sexual, violência profana e grotesco cativante, acompanha as façanhas de dois jovens pansexuais - o belo estudioso Encólpio e seu amigo vulgar e insaciavelmente lascivo Ascilto - enquanto se movem por uma paisagem de excessos pagãos de forma livre que remete ao sexo libertário moderno. Criando um caos aparente com controle primoroso, o diretor constrói um mundo antigo impactante e estranho que parece ficção científica.
 
Melhor Filme Italiano no Festival de Veneza
 
08
A TRAPAÇA
(II Bidone, 1955)

elenco: Broderick Crawford, Richard Basehart, Giu
lietta Masina,
Franco Fabrizi e Lorella De Luca

 
Abandonando em parte os floreios poéticos das obras mais famosas do realizador, é um drama policial neorrealista sombrio, pouco conhecido, estrelado por um magistral Broderick Crawford como um dos personagens mais complexos do cânone do diretor: um vigarista profissional decadente que, tendo feito carreira explorando a ingenuidade de camponeses pobres, de repente descobre que seus caminhos tortuosos começaram a alcançá-lo. Entrelaçando magistralmente o realismo humano da história com elementos de humor, cria um retrato contundente de um homem lidando com as consequências de suas escolhas de vida, que o atinge com a força de uma profunda e fatal tragédia moral.
 
09
JULIETA dos ESPÍRITOS
(Giulietta degli spiriti, 1965)

elenco: Giulietta Masina, Sandra Milo, Mario Pisu,

Valentina Cortese, Valeska Gert, José Luis de Vilallonga,
Caterina Boratto e Sylva Koscina

 
Primeiro longa-metragem em cores do diretor. Caleidoscópio projetado na psique de uma mulher de meia-idade que atravessa uma crise mística. Baseando-se em cenas de sua vida pessoal, Giulietta Masina interpreta uma senhora refinada que se aventura no espiritualismo e cujo domínio da realidade começa a se esvair quando descobre que o marido está tendo um caso, o que a leva a uma jornada alucinatória de autodescoberta na qual memórias, sonhos e forças sobrenaturais se fundem. Com a cinematografia virtuosa de Gianni di Venanzo, o filme examina as preocupações centrais do diretor - sexo e amor, vida e morte, fantasia e realidade - da perspectiva do intimismo feminino.
 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque

 
10
ROMA de FELLINI
(Roma, 1972)

elenco: Britta Barnes, Peter Gonzales Falcon e Anna Magnani

 
Relato de viagem, memórias e espetáculo cinematográfico ultrajante da Cidade Eterna. Esta fantasia urbana entrelaça lembranças da juventude do diretor na era de Mussolini com um retrato impressionista da Roma contemporânea. Os prazeres materiais do sexo, da comida, da vida noturna e de um alucinante desfile de moda eclesiástica são permeados por vislumbres de um passado monumental: o Coliseu cercado pelo trânsito, afrescos antigos desenterrados em um túnel de metrô, uma estátua de César manchada por pombos. Com uma mistura estonteante de imediatismo documental e artifício extravagante, penetra no mito e na mística da histórica e maravilhosa capital da Itália.
 
FONTES
“Eu, Fellini” (1995)
de Charlotte Chandler
 
“Fellini. Vou Falar-te de Mim”
(1999)
de Costanzo Costantini

 
CADERNO de SONHOS
Nos anos 60, incentivado pelo analista junguiano Ernst Bernhard, FEDERICO FELLINI passou a registrar os próprios sonhos através de textos e ilustrações - atividade que manteve por cerca de 30 anos. Para isso, mantinha um caderno em sua mesa de cabeceira. Pela manhã, assim que abria os olhos, tentava reproduzir, usando canetas hidrográficas coloridas, o que chamava de “trabalho noturno”. Em 2008, as 500 páginas foram publicadas com o título de “The Book of Dreams”.
 

GALERIA de FOTOS


O CINEMA ITALIANO NESTE BLOG

 
01
ATIRE PRIMEIRO, MORRA DEPOIS: POLIZIOTTESCHI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/06/atire-primeiro-morra-depois.html
 
02
ALIDA VALLI: a BARONESA ESTRELA de CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/02/alida-valli-de-baronesa-namoradinha-da.html
 
03
O CINEMA POLÍTICO ITALIANO (1960 - 1979)
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04
LUCHINO VISCONTI: o CONDE CINEASTA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/fragmentos-de-um-conde-cineasta-e.html
 
05
LUISA FERIDA e OSVALDO VALENTI: PAIXÃO e CRIME
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/05/luisa-ferida-e-osvaldo-valenti-paixao-e.html
 
06
MARCELLO MASTROIANNI: a ARTE da SEDUÇÃO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2018/08/marcello-mastroianni-arte-da-seducao.html
 
07
O MELHOR do CINEMA ITALIANO: 30 FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/06/o-melhor-do-cinema-italiano-30-filmes.html
 

08
15 ATORES à ITALIANA do SÉCULO 21
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/07/15-atores-italiana-do-seculo-21.html
 
09
SANDRA MILO, a AMANTE de FELLINI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/06/sandra-milo-amante-de-fellini.html
 
10
TELEFONE BIANCHI – o CINEMA FASCISTA ITALIANO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/07/telefoni-bianchi-o-cinema-fascista.html
Satyricon de Fellini


junho 14, 2025

***** O MELHOR do CINEMA ITALIANO: 30 FILMES


vencer (2009), de marco bellocchio
 


 “O cinema é um modo divino de contar a vida.”
FEDERICO FELLINI
(1920 – 1993. Rimini / Itália)
 
“Não faço filmes intelectuais.
Faço filmes guiados pela emoção,
talvez este seja o caminho.”
PAOLO SORRENTINO
(1970. Nápoles / Itália)

 
 
A história do CINEMA ITALIANO impressiona. Sua trajetória é uma das mais admiradas, não apenas por suas narrativas profundas e emocionantes, mas também pela capacidade de capturar a essência da sua cultura e da sua sociedade. Nascida nos primeiros anos do século XX, só se firmou a partir de 1910, com épicos históricos e melodramas de extraordinária aceitação popular. Entre os títulos mais famosos do período estão “Cabíria / Idem” (1914), de Giovanni Pastrone, e “Os Últimos Dias de Pompéia / Gli Ultimi Giorni di Pompei (1913), de Enrico Guazzoni. Décadas mais adiante – nos anos 50, 60 e 70 –, foi o melhor cinema do mundo, conquistando o público e os críticos. Época de cineastas magníficos como Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Giuseppe De Santis, Pietro Germi, Federico Fellini, Mario Monicelli, Michelangelo Antonioni, Carlo Lizzani, Gillo Pontecorvo, Francesco Rosi, Valerio Zurlini, Ermanno Olmi, Elio Petri, Pier Paolo Pasolini, Bernardo Bertolucci, Sergio Leone, Ettore Scola, os irmãos Taviani, Marco Bellocchio, Marco Ferreri, entre outros.
 
A Doce Vida (1960) 
 direção de Federico Fellini
 
No infame regime fascista, imponentes produções se destacaram, principalmente sob o comando de Augusto Genina, Carmine Gallone e Goffredo Alessandrini, além de charmosas comédias de costumes apelidadas de “telefoni bianchi”, conduzidas por Alessandro Blasetti e Mario Camerini, e o caligrafismo literário de Mario Soldati. A seguir, veio o neorrealismo pós-guerra, que causou enorme impacto, preocupado com o testemunho social e inaugurado em 1945 com o notável “Roma, Cidade Aberta / Roma, Città Aperta” (em que, a atores amadores, juntavam-se dois ícones, Anna Magnani e Aldo Fabrizi). Depois surgiram as populares comédias à italiana, elogiadas pela agudeza de suas críticas sociais; o “peplum” (aventuras de espada e sandália); o faroeste espaguete; a denúncia dos dramas políticos; o terror do “giallo”; e a violência do poliziotteschi”. Eu só não curto espaguete (exceto Leone e Sergio Corbucci) e o banho de sangue do “giallo”. Nos anos 80-90, o CINEMA ITALIANO perdeu a vitalidade, com raros sucessos como “Cinema Paradiso / Idem” (1988) ou “A Vida é Bela / La Vita è Bella” (1997).
 
michelangelo antonioni
No século XXI, batizada informalmente de “risorgimento”, uma nova onda autoral invadiu a filmografia italiana, atraindo espectadores e prêmios em festivais como Cannes e Veneza, e movida pela narrativa nada convencional de realizadores como Matteo Garrone, Marco Tullio Giordana, Nanni Moretti, Emanuele Crialese, Saverio Costanzo, Giuseppe Tornatore, Ferzan Özpetek, Paolo Virzi, Gianni Amelio, Luca Guadagnino e, os meus favoritos, Paolo Sorrentino e Stefano Sollima. Celebrando essa filmografia exemplar, selecionei meus 30 FILMES ITALIANOS favoritos, ideal para quem quer conhecer profundamente a cinematografia do país de Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Não foi fácil. Eu passei os últimos dez dias trabalhando neste post. Inicialmente mergulhei na memória listando cerca de 70 fitas, numa ideia limitada pelo meu gosto pessoal. Acho o cinema italiano junto ao francês o mais atraente do mundo e o que me fascina é o quão diverso ele é, algo que acredito a lista abaixo representa bem. O único critério final foi não repetir cineastas em demasia (a versão A tinha um número absurdo de Viscontis, Zurlinis e Scolas).
 
Desde 2012 faço curtas análises dos filmes que assisto, finalizando com um número X de estrelas, de uma a cinco (ruim * / regular ** / bom *** / muito bom **** / ótimo *****). Todos os listados tiveram nota máxima, mas outras obras excelentes não entraram na lista, óbvio. Do mais recente ao mais antigo, confira os MELHORES do CINEMA ITALIANO:
 
rocco e seus irmãos” (1960), de luchino visconti

01
A GRANDE BELEZA
(La Grande Bellezza, 2013)

direção de Paolo Sorrentino
elenco: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli
e Luca Marinelli
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme do European Film Awards
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro da Associação
dos Críticos de Cinema de Los Angeles
 
02
VENCER
(Vincere, 2009)

direção de Marco Bellocchio

elenco: Giovanna Mezzogiorno e Filippo Timi
 
03
A NOITE de SÃO LOURENÇO
(La Notte di San Lorenzo, 1982) 

direção de Paolo e Vittorio Taviani
elenco: Omero Antonutti, Margarita Lozano
e Claudio Bigagli
 
David Di Donatello de Melhor Filme
 
04
CRISTO PAROU em ÉBOLI
(Cristo si è Fermato a Eboli, 1979)

direção de Francesco Rosi
elenco: Gian Maria Volontè, Paolo Bonacelli, Alain Cuny,
Lea Massari e Irene Papas
 
BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro
David Di Donatello de Melhor Filme
Melhor Filme no Festival de Moscou
 
05
A ÁRVORE dos TAMANCOS
(L'albero degli Zoccoli, 1978) 

direção de Ermanno Olmi
elenco: Luigi Ornaghi, Francesca Moriggi
e Omar Brignoli
 
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
César de Melhor Filme Estrangeiro
David Di Donatello de Melhor Filme
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova York
 
06
PAI PATRÃO
(Padre Padrone, 1977) 

  direção de Paolo e Vittorio Taviani
elenco: Omero Antonutti, Saverio Marconi
e Marcella Michelangeli
 
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
 
07
Um DIA ESPECIAL
(Una Giornata Particolare, 1977) 

direção de Ettore Scola
elenco: Sophia Loren e Marcello Mastroianni
 
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
César de Melhor Filme Estrangeiro
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
 
08
CADÁVERES ILUSTRES
(Cadaveri Eccellenti, 1976)
 

direção de Francesco Rosi
elenco: Lino Ventura, Marcel Bozzuffi, Paolo Bonacelli,
Alain Cuny, Tina Aumont, Renato Salvatori,
Fernando Rey, Max von Sydow e Charles Vanel
 
09
 NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO
(C'eravamo tanto Amati, 1974)
 

direção de Ettore Scola
elenco: Nino Manfredi, Vittorio Gassman,
Stefania Sandrelli, Giovana Ralli e Aldo Fabrizi
 
 César de Melhor Filme Estrangeiro
 
10
AMARCORD
(Idem, 1973)

direção de Federico Fellini
elenco: Magali Noel, Bruno Zanin, Pupella Maggio,
Armando Brancia e Ciccio Ingrassia
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David Di Donatello de Melhor Filme
Melhor Filme do National Board of Review
Melhor Filme do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova York
 
11
O CONFORMISTA
(Il Conformista, 1970)

direção de Bernardo Bertolucci
elenco: Jean-Louis Trintignant, Stefania Sandrelli,
Dominique Sanda, Pierre Clèmenti, Gastone Moschin,
Fosco Giachetti e Yvonne Sanson
 
David Di Donatello de Melhor Filme
 
12
LUCKY LUCIANO
(Idem, 1969)

direção de Francesco Rosi
elenco: Gian Maria Volontè, Vincent Gardenia,
Silverio Blasi, Edmond O'Brien e Rod Steiger
 
13
TEOREMA
(Idem, 1968)

direção de Pier Paolo Pasolini
elenco: Silvana Mangano, Terence Stamp,
Massimo Girotti, Anne Wiazemsky e Laura Betti
 
14
Os INDIFERENTES
(Gli Indifferenti, 1964)

direção de Francesco Maselli
elenco: Claudia Cardinale, Rod Steiger, Shelley Winters,
Tomas Milian e Paulette Goddard
 
15
MATRIMÔNIO à ITALIANA
(Matrimonio all'Italiana, 1964)

direção de Vittorio De Sica
elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni
e Tecla Scarano
 
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
 
16
O LEOPARDO
(Il Gattopardo, 1963)

direção de Luchino Visconti
elenco: Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale,
Paolo Stoppa, Rina Morelli, Romolo Valli,
Pierre Clémenti, Giuliano Gemma e Ottavia Piccolo
 
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
 
17
DOIS DESTINOS
(Cronaca Familiare, 1962)

direção de Valerio Zurlini
elenco: Marcello Mastroianni, Jacques Perrin, Sylvie,
Salvo Randone e Valeria Ciangottini
 
Leão de Ouro no Festiva de Veneza
 
18
MAMMA ROMA
(Idem, 1962)

direção de Pier Paolo Pasolini
elenco: Anna Magnani, Ettore Garofolo e Franco Citti
 
19
DIVÓRCIO à ITALIANA
(Divorzio all'Italiana, 1961)

direção de Pietro Germi
elenco: Marcello Mastroianni, Daniela Rocca,
Stefania Sandrelli e Leopoldo Trieste
 
Melhor Comédia no Festival de Cannes
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
 
20
A NOITE
(La Notte, 1961)

direção de Michelangelo Antonioni
elenco: Jeanne Moreau, Marcello Mastroianni,
Monica Vitti e Bernhard Wicki
 
Urso de Ouro no Festival de Berlim
 
21
O BELO ANTÔNIO
(Il Bell'Antonio, 1960)

direção de Mauro Bolognini
 elenco: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale,
Pierre Brasseur, Rina Morelli e Tomas Milian
 
22
A DOCE VIDA
(La Dolce Vita, 1960)

direção de Federico Fellini
elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg,
Anouk Aimée, Yvonne Furneaux, Magali Noel,
Alain Cuny e Laura Betti
 
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo
dos Críticos de Nova York
 
23
ROCCO e SEUS IRMÃOS
(Rocco e i suoi Fratelli, 1960)

direção de Luchino Visconti
elenco: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot,
Claudia Cardinale, Katina Paxinou, Nino Castelnuovo,
Adriana Asti e Paolo Stoppa
 
24
De CRÁPULA a HERÓI
(Il Generale Della Rovere, 1959)

direção de Roberto Rossellini
elenco: Vittorio De Sica, Hannes Messemer, Sandra Milo,
Giovana Ralli e Anne Vernon
 
Leão de Ouro no Festival de Veneza
 
25
A GRANDE GUERRA
(La Grande Guerra, 1959)

direção de Mario Monicelli

elenco: Alberto Sordi, Vittorio Gassman, Silvana Mangano,
Bernard Blier, Folco Lulli e Romolo Valli
 
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Leão de Ouro no Festival de Veneza
 
26
A LONGA NOITE DE LOUCURAS
(La Notte Brava, 1959)

direção de Mauro Bolognini
elenco: Rosanna Schiaffino, Elsa Martinelli, Laurent Terzieff,
Jean-Claude Brialy, Anna Maria Ferrero, Franco Interlenghi,
Tomas Milian, Mylène Demongeot e Antonella Lualdi
 
27
VERÃO VIOLENTO
(Estate Violenta, 1959)

direção de Valerio Zurlini
elenco: Eleonora Rossi Drago, Jean-Louis Trintgnmant,
Lilla Brignone, Enrico Maria Salerno e Jacqueline Sassard
 
28
Os ETERNOS DESCONHECIDOS
(I Soliti Ignoti, 1958)

direção de Mario Monicelli
elenco: Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Totò,
Renato Salvatori, Carla Gravina e Claudia Cardinale
 
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
 
29
NOITES de CABÍRIA
(Le Notti di Cabiria, 1957)

direção de Federico Fellini

elenco: Giulietta Masina, François Périer, Dorian Gray,
Franca Marzi e Amedeo Nazzari
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
 
30
LADRÕES de BICICLETA
(Ladri di Biciclette, 1948)

direção de Vittorio De Sica
elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola
e Lianella Carell
 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro D´Argento de Melhor Filme
Melhor Filme do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo de Críticos
de Cinema de Nova York
 
“teorema” (1968), de pier paolo pasolini
O CINEMA ITALIANO NESTE BLOG
 
01
ATIRE PRIMEIRO, MORRA DEPOIS: POLIZIOTTESCHI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/06/atire-primeiro-morra-depois.html
 
02
AVASSALADORA ANNA MAGNANI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/05/avassaladora-anna-magnani.html
 
03
ALIDA VALLI: a BARONESA ESTRELA de CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/02/alida-valli-de-baronesa-namoradinha-da.html
 
04
BERTOLUCCI: MESTRE no ÉPICO e no INTIMISMO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2018/12/bertolucci-mestre-no-epico-e-no.html
 
05
BONECAS à ITALIANA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/09/bonecas-italiana.html
 
06
O CINEMA POLÍTICO ITALIANO (1960 - 1979)
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/07/o-cinema-politico-italiano-1960-1979.html
 
07
LUCHINO VISCONTI: o CONDE CINEASTA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/fragmentos-de-um-conde-cineasta-e.html
 
08
LUISA FERIDA e OSVALDO VALENTI: PAIXÃO e CRIME
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/05/luisa-ferida-e-osvaldo-valenti-paixao-e.html
 
09
MARCELLO MASTROIANNI: a ARTE da SEDUÇÃO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2018/08/marcello-mastroianni-arte-da-seducao.html
 
10
O OLHAR NEO-REALISTA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/07/olhar-neo-realista.html
 
11
SOPHIA LOREN: uma LINDA MULHER
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2019/06/sophia-loren-uma-linda-mulher.html
 
12
TELEFONE BIANCHI – o CINEMA FASCISTA ITALIANO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/07/telefoni-bianchi-o-cinema-fascista.html
 
13
VALERIO ZURLINI, o CINEASTA da MELANCOLIA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/03/valerio-zurlini-o-cineasta-da-melancolia.html
 
O LEOPARDO (1963) 
direção de Luchino Visconti

GALERIA de FOTOS
 
luchino visconti
A GRANDE BELEZA (2013) 
direção de Paolo Sorrentino