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novembro 27, 2012

**************** QUASE ESTRELAS: os ATORES

mel ferrer

 
Dando continuidade ao post anterior, listo quinze atores reconhecidos em Hollywood que chegaram perto do estrelato. São QUASE ESTRELAS em versão masculina.

BRODERICK CRAWFORD
(1911 - 1986. Filadélfia / Pensilvânia)

Melhores Momentos
“A Grande Ilusão / All the King’s Men” (1949), “Nascida Ontem / Born Yesterday” (1950), “Desejo Humano / Human Desire” (1954), “A Trapaça / Il Bidone” (1955)

Oscar de Melhor Ator por “A Grande Ilusão”
Globo de Ouro de Melhor Ator por “A Grande Ilusão”
Melhor Ator do Círculo dos Críticos de Cinema por “A Grande Ilusão”

CORNEL WILDE
(1912 - 1989. Prievidza / Eslováquia)
 
Meçhores Momentos
“À Noite Sonhamos / A Song to Remember” (1945), “Amar Foi a Minha Ruína / Leave her to Heaven” (1945), “Entre o Amor e o Pecado / Forever Amber” (1947), “O Maior Espetáculo da Terra / The Greatest Show on Earth” (1952)

Concorreu ao Oscar de Melhor Ator por “À Noite Sonhamos”

GEORGE PEPPARD
(1928 - 1994. Detroit, Michigan / EUA)

Melhores Momentos
“Herança da Carne / Home from the Hill” (1960). “Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffanys” (1961), “A Conquista do Oeste / How the West Waswon” (1962)

Melhor Ator Coadjuvante do National Board Review por “Herança da Carne”

JAMES GARNER
(1928. Norman, Oklahoma / EUA)

Melhores Momentos
“Sayonara / Idem” (1957), “Infâmia / The Children’s Hour” (1961), “Fugindo do Inferno / The Great Escape” (1963), “Vitor ou Vitória / Victor Victoria” (1982)

Concorreu ao Oscar de Melhor Ator por “O Romance de Murphy / Murphy's Romance”

JEFF CHANDLER
(1918 - 1961. Nova Iorque / EUA)

Melhores Momentos
“Flechas de Fogo / Broken Arrow” (1950), “Lágrimas de Triunfo / Jeanne Eagels” (1957), “A Dez Segundos do Inferno / The Seconds to Hell” (1959)

Concorreu ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por “Flechas de Fogo”

JOHN GARFIELD
(1913 - 1952. Nova Iorque / EUA)

Melhores Momentos
“Boêmios Errantes / Tortilla Flat” (1942), “O Destino Bate à sua Porta / The Postman Always Rings Twice” (1946), “Acordes do Coração / Humoresque” (1946), “A Luz é para Todos / Gentleman’s Agreement” (1947), “Corpo e Alma / Body and Soul” (1947), “Resgate de Sangue  / We Were Strangers” (1949)

Concorreu ao Oscar de Melhor Ator por “Corpo e Alma”
Concorreu ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por “Quatro Esposas / Four Daughters”

JOHN HODIAK
(1914 - 1955. Pitsburgo, Pensilvânia / EUA)

Melhores Momentos
“Um Barco e Nove Destinos /  Lifebout” (1944), “Um Sino para Adano / A Bell for Adano” (1945), “Uma Aventura na Noite / Somewhere in the Night” (1946)

MEL FERRER
(1017 - 2008. Elberon, Nova Jersey / EUA)

Melhores Momentos
“Lili / Idem” (1953), “Guerra e Paz / War and Peace” (1956), “As Estranhas Coisas de Paris / Elena et les Hommes” (1956), “E Agora Brilha o Sol / The Sun Also Rises” (1957), “A Queda do Império Romano / The Fall of the Roman Empire” (1964)

PAUL HENREID
(1908 - 1992. Trieste / Itália)

Melhores Momentos
“A Estranha Passageira / Now, Voyager” (1942), “Casablanca / Idem” (1942)

RICHARD BASEHART
(1914 - 1984. Zanesville, Ohio / EUA)

Melhores Momentos
“Horas Intermináveis / Fourteen Hours” (1951), “Baionetas Caladas / Fixed Baionets!” (1951), “A Estrada da Vida / La Strada” (1954), “A Trapaça / Il Bidone” (1955)

Melhor Ator do National Board of Review por “Horas Intermináveis”
Melhor Ator Coadjuvante do National Board of Review por “Moby Dick / Idem”

RICHARD CONTE
(1010 - 1975. Nova Jersey / EUA)

Melhores Momentos
“Uma Vida Marcada / Cry of the City” (1948), “Sangue do Meu Sangue / House of Strangers” (1949), “Mercado de Ladrões / Thieves’ Highway” (1949), “A Gardênia Azul / The Blue Gardenia” (1953), “Eu Chorarei Amanhã / I’ll Cry Tomorrow” (1955)

ROBERT CUMMINGS
(1910 - 1990. Joplin, Missouri / EUA)

Melhores Momentos
“O Diabo é a Mulher / The Devil and Miss Jones” (1941), “Em Cada Coração um Pecado / Kings Row” (1942), “Disque M para Matar / Dial M for Murder” (1954)

ROBERT STACK
(1919 - 2003. Los Angeles, Califórnia / EUA)

Melhores Momentos
“Sangue, Suor e Lágrimas / Fighter Squadron” (1948), “Palavras ao Vento / Written on the Wind” (1956), “Almas Maculadas / The Tarnished Angels” (1957)

Concorreu ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por “Palavras ao Vento”

STEPHEN BOYD
(1931 - 1977. Glengormley / Reino Unido)

Melhores Momentos
“Estigma da Crueldade / The Bravados” (1958), “Ben-Hur / Idem” (1959), “A Queda do Império Romano / The Fall of the Roman Empire” (1964)

Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante por “Ben-Hur”

ZACHARY SCOTT
(1914 - 1965. Austin, Texas / EUA)

Melhores Momentos
“Sementes de Ódio / The Southerner” (1945), “Almas em Suplício / Mildred Pierce” (1945), “Eterno Conflito / Cass Timberlane” (1947), “A Adolescente / La Joven” (1960)
  

dezembro 12, 2011

SALA VIP: “A BESTA HUMANA” e “DESEJO HUMANO”

jean gabin e simone simon


O escritor francês Émile Zola, considerado o fundador do naturalismo, em um dos seus romances mais conhecidos, A BESTA HUMANA (1890), examina as características psicológicas dos homicidas e apresenta um detalhado retrato dos trabalhadores de uma ferrovia francesa do século 19 (a exemplo do que fizera genialmente com os mineiros em “Germinal”, 1885). A personagem principal é Jacques Lantier, um maquinista na linha Paris-Le Havre. Ele sofre de enxaquecas e tem fortes impulsos assassinos. Só se sente bem na sua locomotiva, a Lison. Por infelicidade, conhece a inescrupulosa Séverine, cujo marido Roubaud, subchefe da estação de Le Havre, acaba de matar um homem que a havia seduzido ainda adolescente, e tornam-se amantes. Séverine sugere a Lantier eliminar o seu próprio marido, um tipo rude e alcoólatra. 

Fascinante no tocante ao estudo da natureza humana, o livro explicita como a tecnologia industrial contribuiu para a degeneração moral e a desumanização da sociedade. É também um típico folhetim com enredo trepidante, teorias biológicas e sociológicas embutidas nas ações dos personagens e um conjunto de assassinatos que chocam e fascinam o leitor. Poucas obras de Zola apresentam tamanha multiplicidade de ações e intriga tão cheia de surpresas e reviravoltas, podendo ser encarada como uma narrativa policial ou como um mergulho no universo das pulsões subterrâneas e das paixões mais avassaladoras, aquelas que levam os seres à violência e ao crime. 
 
simone simon e jean gabin
O cinema não poderia desprezar esse argumento atraente, dramático e realista. Em 1938, no período dourado do cinema francês, o mestre Jean Renoir (1894 - 1979) - que já havia filmado outra obra de Zola, “Naná / Idem” (1926) -, adaptou A BESTA HUMANA com Jean Gabin como Lantier e Simone Simon como Séverine. Como todas as versões literárias do cineasta francês, não se trata de uma simples publicidade para o livro ou uma tradução certinha para o cinema, mas uma legítima e imperdível obra de arte. 

Saudado na ocasião do seu lançamento como um retrato real da vida humilde dos operários ferroviários (o crítico francês Georges Sadoul chegou a atribuir às primeiras cenas do filme um caráter estritamente documental), apresenta um comovente e fenomenal Gabin – talvez o maior ator do cinema francês - como Lantier. Já a chatinha Simone Simon não convence plenamente como mulher fatal, enquanto Ledoux encarna o marido traído tradicional com sentimento. Às vezes o filme é confuso ou mesmo dispersivo, como no episódio em que intervém a jovem namorada do estranho mocinho, que desaparece a seguir, sem jamais voltar, mesmo depois da confissão de amor de um Lantier alucinado. Sem nada sofrer com a passagem do tempo – oito décadas desde o seu lançamento -, o poético A BESTA HUMANA deixa na memória do público relações amorosas trágicas e imagens de locomotivas que seguem sob os trilhos, barulhentas e iluminadas, entre lapsos de trevas e silêncios desconcertantes.
 
gloria grahame e glenn ford

Dezesseis anos depois, o mestre do expressionismo alemão Fritz Lang (1890 - 1976) refilmou essa história de frustrações, adultério e crime. Transformado num cruel film-noir passado numa cidade do meio-oeste dos Estados Unidos, DESEJO HUMANO é uma das melhores obras da fase norte-americana do cineasta. O triângulo amoroso formado por Glenn Ford (o maquinista Jeff Warren), Gloria Grahame (a infiel Vicky Buckley) e Broderick Crawford (o marido Carl Buckley) é um dos mais contundentes do cinema - personagens decaídos que se despedaçam entre si em um universo asfixiante de apartamentos simplórios e estações de trem, de linhas ferroviárias com traçados retilíneos e restritivos, que são como uma espécie de imagem de seus próprios destinos. A desordem conjugal, os abusos, o sentimento de culpa e a traição mantêm alto o nível de tensão da trama. 

O tratamento visual, a iluminação e o sofisticado jogo de claros-escuros do diretor de fotografia Burnett Guffey também se destacam. Se o início de DESEJO HUMANO e A BESTA HUMANA (de Renoir) coincidem, ao nos mostrar a mesma inexorável marcha do trem, o drama de Lang termina por caminhar noutra direção ao evitar a linha básica do romance de Zola: a referência à influência patológica da hereditariedade como o veículo do trágico. O personagem Lantier, no romance e no filme de Renoir, é um psicopata, trazendo no sangue a maldição de gerações envenenadas pelo álcool. O Lantier de Lang é um solitário, que voltou da guerra da Coréia e é seduzido por uma fêmea esperta. 

gloria e glenn
Sombrio e expressionista (contrapondo-se ao naturalismo de Renoir), austero e cerebral, frio e violento, DESEJO HUMANO (o diretor não gostava do título, retrucando: “que outro tipo de desejo existe?”) se insere num gênero, o policial noir, em que Lang rodou um dos seus mais belos filmes, “Almas Peversas / Scarlet Street” (1945). 

A grande personagem da história é Vicky Buckley, a habitual femme fatale, um papel que era para ser de Rita Hayworth, mas que a excelente Gloria Grahame faz muito bem, dando-lhe os matizes de provocada inocência e subterrânea perversidade. Enganando todos os homens em cena (o marido bêbado, o amante rico e o novo amante maquinista), ela não deixa de ser uma vitoriosa, mesmo que morra asfixiada pelas mãos do esposo no final. Já o personagem de Broderick Crawford foi pensado para Peter Lorre, mas este terminou por recusar, nunca perdoando a tirania do diretor durante as filmagens do clássico “M, O Vampiro de Dusseldorf / M” (1931). Perseguido pela censura e elogiado pelos críticos, DESEJO HUMANO é absorvente e de impressionante morbidez. Não saberia dizer se essa é a melhor versão do folhetim de Zola. Ambas são espetaculares. 

jean renoir

A BESTA HUMANA
(La Bête Humaine, 1938)
direção de Jean Renoir

País: França; Duração: 100 mins; P & B; Produção: Robert Hakim e Raymond Hakim (Paris Film Production); Roteiro: Jean Renoir; Fotografia: Curt Courant; Edição: Suzanne de Troeye e Marguerite Renoir; Música: Joseph Kosma; Cenografia: Eugène Lourié (d.a.); Vestuário: Laure Lourie; Elenco: Jean Gabin (“Jacques Lantier”), Simone Simon (“Séverine Roubaud”), Fernand Ledoux (“Roubaud”), Blanchette Brunoy e Gérard Landry

Nota: ***** (ótimo)

jean gabin


fritz lang

DESEJO HUMANO
(Human Desire, 1954)
direção de Fritz Lang

País: EUA; Duração: 91 mins.; P & B; Produção: Lewis J. Rachmil (Columbia Pictures); Roteiro: Alfred Hayes; Fotografia: Burnett Guffey; Edição: Aaron Stell; Música: Daniele Amfitheatrof; Cenografia: Robert Anderson (d.a.); William Kiernan (déc.); Vestuário: Jean Louis; Elenco: Glenn Ford (“Jeff Warren”), Gloria Grahame (“Vicki Buckley”), Broderick Crawford (“Carl Buckley”), Edgar Buchanan, Kathleen Case e Peggy Maley

Nota: ***** (ótimo)

glenn ford e gloria grahame


fevereiro 06, 2011

*************** SALA VIP: “NASCIDA ONTEM




NASCIDA ONTEM
(Born Yesterday, 1950)

País: EUA
Duração: 103 mins.
P & B
Produção: S. Sylvan Simon (Columbia Pictures)
Direção: George Cukor
Roteiro: Albert Mannheimer
Adaptação da peça de George Kanin
Fotografia: Joseph Walker
Edição: Charles Nelson
Música: Frederick Hollander
Cenografia: Harry Horner (d.a.); William Kiernan (déc.)
Vestuário: Jean Louis
Elenco:
Judy Holliday (“Billie Dawn”), Broderick Crawford (“Harry Brock”), 
William Holden (“Paul Verrall”), Howard St. John,
Frank Otto, Larry Oliver e Barbara Brown

Nota: **** (muito bom)

Prêmios: 
Oscar de Melhor Atriz
Globo de Ouro de Melhor Atriz em um Musical ou Comédia

A LOURA que VEIO da BROADWAY

judy holliday, broderick crawford
 e william holden
Provavelmente muitos pensaram que Judy Holliday daria continuidade ao império das louras, em Hollywood. Não deu, e por dois motivos. Primeiro, porque a atriz norte-americana, nascida ao dia 21 de junho de 1921, comportava-se como uma morena, ou uma não-loira, ao menos, ou simplesmente não se comportava como uma mulher de prateleira. Não havia, nela, um aproveitamento de si mesma enquanto femme fatale oxigenada. Segundo, porque Judy Holliday, nome artístico de Judy Tuvin, morreu antes de surgir outro presidente interessado em se envolver com louras produzidas em laboratório: ao dia 7 de junho, de 1965, dias depois de completar 43 anos.

Um parêntese: a filmografia de Holliday, de fato, levava-a ao caminho do reinado pela cor do cabelo. Mas houve uma encruzilhada que a fez mudar, subitamente, de figura. Ainda que, dez anos depois, voltasse a “Essa Loura Vale um Milhão”. Eu me refiro ao filme dirigido por George Cukor, NASCIDA ONTEM, que deu à moça o Oscar de Melhor Atriz, num ano em que concorriam celebridades incontestes, tais como Bette Davis e Anne Baxter (ambas protagonistas em “A Malvada”), Eleanor Parker (“À Margem da Vida”) e Gloria Swanson (parodiando a si mesma, na obra máxima de Billy Wilder, “Crespúsculo dos Deuses”). Em 1950, Judy Holliday já havia feito três longas: “Encontro nos Céus” (George Cukor, 1944), “A Costela de Adão” (George Cukor, 1949) e “Um Dia em Nova York” (Stanley Donen e Gene Kelly). Mas é na terceira experiência ao lado de George Cukor que ela brilha – e explode – na pele da carismática loura-burra (e pobre) Emma “Billie” Dawn, amante de um corrupto homem de negócios (Broderick Crawford, fazendo um grande troglodita) que se instala em Washington para corromper um senador em benefício de sua conta bancária. NASCIDA ONTEM é, originalmente, um texto para teatro, assinado por Garson Kanin. A própria Holliday havia interpretado o mesmo papel na Broadway, com bastante sucesso. A voz esganiçada da personagem, o jeito postiço de andar, a translúcida burrice, tudo isso é ingrediente forte para conquistar o público, tendo uma atriz inteligente e extremamente talentosa como veículo. Some-se a isso a presença imponente, elegante, “macia” de um William Holden de óculos, fazendo o jornalista intelectual, contratado pelo amante de Holliday para cuidar da cultura da moça.

NASCIDA ONTEM é matriz para personagens, em todo o mundo, que brincaram com a idéia de loura burra. Aqui no Brasil, programas de auditório nem mesmo perceberam que faziam – e ainda fazem – uma pálida imitação do grande tipo vivido por Judy Holliday, hoje esquecida, e que morrera cinco anos depois de ter descoberto um câncer de mama.

Para sempre, nascida ontem.

texto de 

HENRIQUE WAGNER

holden e holliday