fevereiro 04, 2018

*********** O SORRISO de BURT LANCASTER



 
Altura: 1,88m
Olhos: azuis

Trabalhando com dedicação para evitar ser estereotipado como o típico herói de filmes de ação, terminou por ser reconhecido como intérprete dramático, firmando sólida e excelente reputação na indústria cinematográfica. De família humilde, descendente de protestantes irlandeses, na juventude BURT LANCASTER (1913 - 1994. Manhattan, Nova Iorque / EUA) foi um craque no basquete. Musculoso e com 1,88m de altura, fugiu com o amigo Nick Cravat para se apresentar durante dez anos como acrobata em feiras, circos e shows de variedades. Convocado para o Exército, animou espetáculos para as tropas, cantando e dançando. Findada a Segunda Guerra Mundial, conseguiu papel na peça “A Sound of Hunting” e também um agente, Harold Hecht, que o apresentou ao produtor Hal B. Wallis. A sua estreia no cult noir “Os Assassinos” (1946), ao lado de Ava Gardner, como um pugilista sueco acossado por pistoleiros de aluguel, foi um sucesso imediato. No mesmo ano, após um breve romance com Marlene Dietrich, casou-se com uma garota que havia conhecido durante a guerra, Norma Anderson. Ela estava grávida e se recusou a fazer aborto.  Nos anos seguintes, rodou filmes sombrios, muitas vezes contra o sistema, aproveitando também para estudar o processo de filmagem.

Recatado, evitava festas de Hollywood, mas isso não o impediu de se relacionar durante um ano com Shelley Winters. Em 1947, recusou o papel de Stanley Kowalski na produção original da Broadway de “Um Bonde Chamado Desejo”, que fez de Marlon Brando uma lenda. Ao longo da carreira, BURT LANCASTER recusou filmes como “Sansão e Dalila / Samson and Delilah” (1949), “O Manto Sagrado / The Robe” (1953) e “Ben-Hur / Idem” (1959); e “Patton - Rebelde ou Herói? / Patton” (1970), devido à visão anti-guerra do Vietnã.

Produtor e estrela de “O Pirata Sangrento / The Crimson Pirate” (1952), enorme êxito de público, reforçando a independência do ator dos estúdios, tratou diretor e elenco com tirania, fazendo com que Robert Siodmak – que o havia lançado no cinema – se recusasse a trabalhar com ele novamente. Foi um período complicado: o filho com poliomielite diagnosticado esquizofrênico, o fim do romance com Winters, seu sócio Harold Hecht acusado de comunista, o alcoolismo da esposa. Em compensação, com “A Um Passo da Eternidade” (1953) concorreu pela primeira vez ao Oscar de Melhor Ator, se tornando uma das estrelas de Hollywood. No entanto, as filmagens foram difíceis, pois se sentiu intimidado com o talento iluminado de Montgomery Clift.

Por esta altura, fundou sua própria companhia de produção, a Hecht-Lancaster, fazendo parceria com a United Artists em dois filmes, “O Último Bravo” (1954) e “Vera Cruz / Idem” (1954), ambos dirigidos por Robert Aldrich e sucessos financeiros. “Apache” custou US $ 1 milhão e fez US $ 6 milhões, enquanto “Vera Cruz custou US $ 1,5 milhões e arrecadou US $ 9 milhões. Um terceiro sócio, James Hill, entrou no negócio, mas a produtora falhou com o fracasso de bilheteria de vários filmes, do sensacional “A Embriaguez do Sucesso” (1957) a “O Discípulo do Diabo / The Devil’s Disciple” (1959).

burt e elizabeth taylor
no oscar 1961
O ator jogou todas as cartas em “O Passado não Perdoa / The Unforgiven” (1960), uma produção assolada por conflitos, principalmente porque não conseguiu controlar o diretor John Huston. O filme gorou e a empresa faliu. Para pagar as dívidas, BURT LANCASTER fez quatro filmes para a United Artists com um salário de 150.000 dólares, em vez de seu habitual $ 750.000. Por sorte, “Entre Deus e o Pecado” (1960) o colocou de volta ao topo, rendendo-lhe um Oscar. Arrogante, exigente e mau-humorado, era odiado pelos colegas, mas respeitado por sua reputação de talentoso e bem sucedido.

Conhecido pelo caráter franco e personalidade um tanto espinhosa, guardava a vida privada a sete chaves, embora não tenha conseguido evitar rumores sobre sua bissexualidade. Atuou com Kirk Douglas em sete filmes, mas eles não eram amigos como fizeram crer publicamente. Competiam entre si e, por vezes, em particular, expressavam um desprezo mútuo. O ator brilhou em filmes de aventuras nos quais podia exibir sua excelente forma física, dirigiu dois filmes e produziu “Marty / Idem”, Oscar de Melhor Filme em 1955. Ele afirmou que aprendeu muito do seu ofício vendo Gary Cooper atuar ao seu lado no faroeste clássico “Vera Cruz” e considerava Shirley Booth a melhor atriz com quem trabalhou.

Em 1962, venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza por “O Homem de Alcatraz”. No auge da carreira, trabalhou com Luchino Visconti, fazendo um dos seus papéis mais importantes, o príncipe Fabrizio Salina em “O Leopardo” (1963), a partir do romance de Lampedusa. Sem medo de se arriscar em papéis controversos, fez um general que planeja um golpe contra o presidente dos EUA em “Sete Dias em Maio / Seven Days in May” (1964). Ao passar um ano filmando “O Trem / The Train” (1964), brigou com o diretor Arthur Penn, substituindo-o por John Frankenheimer. O filme não rendeu grandes lucros e a partir daí deixou de ser uma estrela intocável.


Um caso extraconjugal levou-o ao divórcio em 1969, com a esposa ganhando a guarda das três filhas adolescentes. Por volta de 1970, sua carreira começou a declinar. BURT LANCASTER se esforçou para conseguir o papel de Don Corleone em “O Poderoso Chefão / The Godfather” (1972), e não deu certo. Ficou rico mais uma vez com “Aeroporto / Airport” (1970), um enorme sucesso onde ele tinha uma participação de 10% nos lucros. O filme-catástrofe faturou US$ 50 milhões. Mas o ator não deixou de declarar ser o pior pedaço de lixo de todos os tempos”. Intelectual, fã de música clássica, participou de marcha pela paz organizada por Martin Luther King e organizou um projeto para ajudar crianças negras. Em 1985, ele leu a carta de Rock Hudson que anunciava que estava com AIDS, e foi uma das poucas estrelas a lutar pela fundação criada por Elizabeth Taylor para arrecadar fundos para as pesquisas sobre a doença.

norma anderson, esposa de burt
Apesar do temperamento difícil, nunca deixou de ser generoso, ajudando amigos em dificuldades, como o ator Nick Cravat. Nos anos 80, sofreu um ataque cardíaco, deixando de rodar “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), sendo substituído por William Hurt, que levou o Oscar como um gay espalhafatoso que divide uma cela com um prisioneiro político. A doença levou-o a recusar papéis em “Mistério do Parque Gorky / Gorky Parky” (1983) e “Os Amantes de Maria / Maria’s Lovers” (1984). Em 1990 sofreu um acidente vascular cerebral enquanto visitava o ator Dana Andrews - que sofria de Alzheimer -, permanecendo numa cadeira de rodas e incapaz de falar até sua morte em 1994. Com olhos azuis, voz expressiva e visual imponente, talvez a principal marca de BURT LANCASTER seja o sorriso, simpático e sedutor, que definitivamente o consagrou. Sem dúvida, ele é um dos monstros sagrados do cinema.

Fonte
“Burt Lancaster: An American Life” (2001)
de Kate Buford


  DEZ FILMES de BURT
(por ordem de preferência)

01
Os ASSASSINOS
(The Killers, 1946)

direção de Robert Siodmak
  elenco: Ava Gardner, Edmond O`Brien e Albert Dekker

02
BRUTALIDADE
(Brute Force, 1947)

direção de Jules Dassin
elenco: Yvonne De Carlo, Hume Cronyn, Charles Bickford,
Ann Blyth e Ella Raines

03
O LEOPARDO
(Il Gattopardo, 1963)

direção de Luchino Visconti
elenco: Alain Delon e Claudia Cardinale

04
A um PASSO da ETERNIDADE
(From Here to Eternity, 1953)

direção de Fred Zinnemann
elenco: Deborah Kerr, Montgomery Clift, Frank Sinatra,
Donna Reed e Ernest Borgnine

Melhor Ator do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

05
A EMBRIAGUÊS do SUCESSO
(Sweet Smell of Success, 1957)

direção de Alexander Mackendrick
elenco: Tony Curtis e Barbara Nichols

06
VIOLÊNCIA e PAIXÃO
(Gruppo di Famiglia in Un interno, 1974)

direção de Luchino Visconti
elenco: Helmut Berger e Silvana Mangano

David di Donatello de Melhor Ator Estrangeiro

07
O HOMEM de ALCATRAZ
(Birdman of Alcatraz, 1962)

direção de John Frankenheimer
elenco: Karl Malden e Thelma Ritter

BAFTA de Melhor Ator Estrangeiro
Taça Volpi de Melhor Ator no Festival de Veneza

08
ENTRE DEUS e o PECADO
(Elmer Gantry, 1960)

direção de Richard Brooks
elenco: Jean Simmons, Arthur Kennedy e Shirley Jones

Oscar de Melhor Ator
Globo de Ouro de Melhor Ator/Drama
Melhor Ator do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

09
O ÚLTIMO BRAVO
(Apache, 1954)

direção de Robert Aldrich
elenco: Jean Peters e Charles Bronson

10
JULGAMENTO em NUREMBERG
(Judgment at Nuremberg, 1961)

direção de Stanley Kramer
elenco: Spencer Tracy, Marlene Dietrich, Maximilian Schell,
Richard Widmark, Judy Garland e Montgomery Clift

GALERIA de FOTOS

 
 
 
 

janeiro 14, 2018

***** CARLOS SAURA – MEMÓRIA e MELANCOLIA

ana torrent e geraldine chaplin em “cría cuervos”


Barcelona, Espanha, 2001
entrevista publicada no jornal “A Tarde” (BA) 
e no livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003).

 
O aragonês CARLOS SAURA (1932. Huesca / Espanha) cresceu em Madri, é irmão de um famoso pintor – Antonio Saura – e ex-marido da atriz Geraldine Chaplin, com quem trabalhou em diversos clássicos nos anos 60 e 70. Sua trajetória é uma das mais importantes do panorama cinematográfico europeu da segunda metade do séc. XX. Do neo-realismo dos primeiros anos a introspecção melancólica e memorial, sua inquieta personalidade o levou a diversos gêneros: musical (“Carmen”, 1983), épico histórico (“El Dorado”, 1988), comédia (“Ay, Carmela!”, 1990), policial (“Dispara!”, 1993), biografia (“Goya”, 1999). Sua versatilidade define sua arte: cineasta, fotógrafo e roteirista.

geraldine chaplin e saura
Com tantas facetas, incluiu recentemente mais una, a de escritor, com a publicação de “Esa Luz!”, onde descreve a crueldade de uma Guerra Civil, através de um casal com uma filha pequena. Logo depois, apresentou seu mais recente filme, uma fantasia pessoal e inclassificável que leva o título de “Buñuel e a Mesa do Rei Salomão.

Longe de se tratar de uma cinebiografia tradicional sobre o mítico cineasta surrealista, propõe uma obra fictícia ambientada nos anos de juventude de Luiz Buñuel e seus amigos Salvador Dalí e Federico García Lorca. Trata-se de uma aventura, onde três amigos buscam a disputada mesa do rei bíblico, objeto mágico desejado por judeus, muçulmanos e cristãos. Quem o encontre terá o dom de ver o passado, o presente e o futuro. Eu encontrei o diretor na Galeria do Círculo de Leitores. Conversamos caminhando lentamente diante de fotografias de sua autoria dos anos 50 e 60. Imagens expressivas, em preto e branco. O talentoso CARLOS SAURA se revelou discreto, inteligente, sereno. Confira:

Considera extravagante transformar Buñuel em personagem de ficção?

Não me interessava contar a vida de Buñuel. Queria um filme possuído pela imaginação, e assim narrar o que penso sobre ele. Era uma ideia antiga. Convidado para homenagear o mestre aragonês no seu centenário, disse claramente o que pensava do projeto. O produtor me deixou livre para fazer o que bem entendesse.

buñuel e saura
Dois atores fazem Buñuel. O senhor foi amigo do cineasta de “Viridiana”, teve um conhecimento próximo. Foi penoso encontrar o intérprete ideal?

Bastante complicado. Queria alguém semelhante a Buñuel, que não decepcionasse o público que tem uma ideia dele própria. O produtor apareceu com o comediante El Gran Wyoming, mas não me convenceu. Após vê-lo ser caracterizado durante cinco horas de maquiagem, percebi que era o ator certo, inclusive com sotaque aragonês eficiente. Para interpretar o jovem Buñuel, foi mais fácil encontrar Pere Arquillué. Não pensava em realismo, não queria uma réplica, apostei em uma brincadeira.

É um filme pontuado por referências cinematográficas, de Fritz Lang a “Um Cão Andaluz”. Acha que o público vai captar esse capricho cinéfilo?

Poucos conhecem bem a obra de Buñuel, de Dalí e de Lorca, mas é um problema deles, não me representa um cinema simples, mastigado para todo tipo de público. Se captar a erudição, ótimo, se não, talvez se diverta com a mágica da imaginação.

O senhor se interessa pelo surrealismo?

Não me interessa. Não faz parte da minha ideia narrativa.

O que procura passar adiante como roteirista?

Não procuro a perfeição. Os filmes que gosto geralmente não têm roteiros maravilhosos, não são certinhos, aprecio mais a forma do que a história. Fellini emendava partes do roteiro durante a filmagem. Godard fez filmes fantásticos com poucas frases. Existem diretores que necessitam um roteiro de ferro, bem estruturado. Talvez seja uma mania conservadora. Os roteiros convencionais me aborrecem. Não suporto isso de: Lúcia - “Como está?”; Antonio – “Estou bem, e você?”, e assim sucessivamente.  Escrevo um roteiro com liberdade literária, descrevendo o emocional, a atmosfera, os gestos. Acho mais interessante e mais fácil escrever um roteiro dessa forma.


Este ano lançou seu primeiro romance, “Esa Luz!”. Conta sobre ele pra gente.

Trata da história de um jovem casal, Teresa e Diego, brutalmente separado durante a Guerra Civil espanhola. É uma história de amor. Mostra o absurdo e a injustiça de uma guerra que marcou profundamente a Espanha.

Muitos se queixam do número reduzido de bons romances e de outras obras artísticas espanholas que tratem deste polêmico e absurdo período histórico.

Custa escrever sobre um fato tão doloroso e recente da nossa história. Procurei ser sincero. Descrevi o horror, a falta de sentido e o absurdo de uma guerra.

O cinema espanhol passa por um bom momento?

O cinema espanhol sempre produziu bons filmes. Atualmente há uma euforia que talvez não se corresponda a realidade. São jovens fazendo filmes para um público jovem. Há gente jovem que faz bom cinema, gente madura que faz bom cinema e velhos, como eu, que não fazem tão bom cinema, mas seguimos filmando.

Qual o seu próximo projeto cinematográfico?

 Vou rodar em dezembro “Salomé”, no estilo “Tango”, misturando ficção e a montagem de um balé. Me interessa também a pessoa de Felipe II, um dos personagens históricos que mais estudei ao longo da vida. Quero fazer um filme sobre ele.

“tango”  (1998) de saura

  DEZ FILMES de SAURA
(por ordem de preferência)

01
ANA e os LOBOS
(Ana y los Lobos, 1973)

elenco: Geraldine Chaplin, Fernando Fernán Gómez e Rafaela Aparício

02
CRÍA CUERVOS
(1976)

elenco: Geraldine Chaplin, Mónica Randall e Ana Torrent
 
Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

03
O SÉTIMO DIA
(El 7º Día, 2004)

elenco: José Garcia, Victoria Abril e Juan Diego

04
AY, CARMELA
(1990)

elenco: Carmen Maura, Andrés Pajares, Gabino Diego
e José Sancho
 
European Film Awards de Melhor Atriz
Goya de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro, 
Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadj. (Diego)

05
GOYA
(Goya en Burdeos, 1999)

elenco: Francisco Rabal, José Coronado e Maribel Verdú
 
Goya de Melhor Ator e Melhor Fotografia

06
BODAS DE SANGRE
(Bodas de Sangre, 1981)

elenco: Antonio Gades, Cristina Hoyos e Juan Antonio Jiménez

07
ANTONIETA
(1982)

elenco: Isabelle Adjani, Hanna Schygulla e Ignacio López Tarso

08
ELISA, VIDA MINHA
(Elisa, Vida Mía, 1977)

elenco: Fernando Rey, Geraldine Chaplin e Ana Torrent
 
Melhor Ator no Festival de Cannes
 
 09
CARMEN
(1983)

elenco: Antonio Gades, Laura del Sol, Paco de Lucía
e Cristina Hoyos
 
BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira

10
A NOITE ESCURA
(La Noche Oscura, 1989)

elenco: Juan Diego, Fernando Guillén e Manuel de Blas

GALERIA de FOTOS
 

“iberia” (2005) de saura