outubro 11, 2015

******** As CRIANÇAS PRODÍGIOS de HOLLYWOOD

shirley temple

 
Celebridades hollywoodianas têm suas vidas invadidas e controladas pela mídia o tempo todo. Isso porque o público quer saber o que se passa com elas, o que vestem, que carro usam e que lugares frequentam, entre outras coisas. O universo infantil cinematográfico faz parte dessa obsessão. A pequena Shirley Temple, na sua época a criança mais influente do mundo, era perseguida por milhares de fãs. Aproveitando a Semana das Crianças, relembro astros e estrelas guris. A maioria desapareceu da mídia e de Hollywood com o passar dos anos. Alguns desistiram do mundo do cinema, outros tentaram conseguir um papel de destaque em seriados de televisão, mas raros superaram os personagens que fizeram na infância.

jackie cooper, mickey rooney 
e freddie bartholomew
Eles começaram cedo, roubando a cena e chamando atenção pelo profissionalismo de gente grande. Na maioria das vezes, tais seres precocemente talentosos perderam a infância e a adolescência, sacrificadas em nome do cinema, queimando etapas imprescindíveis para a constituição da personalidade adulta. Muitos enfrentaram o drama das drogas, alcoolismo, ostracismo e mortes trágicas, sumindo com a mesma velocidade com que fizeram sucesso. Como uma maldição, raras ESTRELAS MIRINS se tornaram atores adultos celebrados. Confira 15 crianças prodígios que encantaram e marcaram a história de Hollywood:

BOBBY DRISCOLL
(1937 - 1968. Cedar Rapids, Iowa / EUA) 

Ganhou um Oscar Especial pela atuação em Ninguém Crê em Mim / The Window (1949) e foi o primeiro ator ainda menino a ter contrato exclusivo com os estúdios Disney. Lembrado também pelo sucesso A Canção do Sul / Song of the South (1946), com o amadurecimento e a diminuição das ofertas de trabalho, envolveu-se com drogas, o que arruinou sua saúde e o reduziu à pobreza. Morreu aos 31 anos, sozinho, de ataque cardíaco, numa construção abandonada em Nova York, tendo sido sepultado numa cova comunitária. Um ano e meio depois de sua morte, sua mãe realizou uma busca, localizando sua cova, onde esquecido Driscoll foi enterrado. O público não se soube do seu fim trágico até que Canção do Sul foi relançado em 1971. Repórteres estavam procurando seu paradeiro, quando a mãe do ator revelou a tragédia. Eu descobri que o passado não é muito útil, disse Driscoll. Eu foi lançado em uma bandeja de prata ... e depois despejado no lixo. Ele apareceu em 22 filmes entre 1943 e 1958. Seu papel em A Ilha do Tesouro / Treasure Island (1950) rendeu-lhe uma estrela na Calçada da Fama. Também atuou como a voz de Peter Pan no clássico animado.

driscoll em “a ilha do tesouro
BRANDON de WILDE
(1942 - 1972. Nova Iorque / EUA)

Estreou de forma consagradora nos palcos no retumbante sucesso Cruel Desengano / The Member of the Wedding. Repetiria em 1952 o mesmo personagem quando o diretor Fred Zinnemann o convidou para a versão cinematográfica da peça, mas foi George Stevens quem lhe deu o papel de sua vida, o do pequeno Joey, fascinado pelo misterioso pistoleiro interpretado por Alan Ladd no faroeste clássico Os Brutos Também Amam / Shane (1953). A atuação valeu-lhe uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Teve sua própria série na televisão, Jamie(1953 - 1954). Sem êxito, tentou a carreira musical, abortada ao morrer num acidente de carro, aos 30 anos de idade.


CLAUDE JARMAN JR.
(1934. Nashville, Tennessee / EUA)

Descoberto por um caçador de talentos, estreou com pé direito no poético Virtude Selvagem /The Yearling (1946), ao lado de Gregory Peck e Jane Wyman, numa atuação que recebeu críticas entusiasmadas, rendendo-lhe um Oscar Especial. Terminado o contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer, fez filmes B na Republic Pictures e logo após a adolescência, desanimado, abandonou a profissão para trabalhar nos bastidores, como produtor executivo. Outro grande momento seu aconteceu no anti-racista O Mundo Não Perdoa / Intruder in the Dust, adaptação do romance de William Faulkner.


DEAN STOCKWELL
(1936. Los Angeles, Califórnia / EUA)

Começou a atuar ainda criança, aos nove anos de idade, brilhando em Marujos do Amor / Anchors Aweigh (1945), O Menino dos Cabelos Verdes / The Boy With Green Hair (1948) eKim / idem (1950). Popular devido ao rosto inocente com covinhas e olhos brilhando. Na adolescência ficou cinco anos sem filmar, retornando em 1956 e nunca mais parando, colecionando sucessos como Estranha Compulsão / Compulsion (1959), Filhos e Amantes / Sons and Lovers (1960) e Paris, Texas / idem(1984).

DICKIE MOORE
(1925 – 2015. Los Angeles, Califórnia / EUA)

Estreou em 1927 com apenas 18 meses de idade como bebê François em Amor de Boêmio / The Beloved Rogue, ao lado de John Barrymore. Estrela infantil requisitada, foi o filho de Marlene Dietrich em A Vênus Loura / Blonde Venus, de 1932, e interpretou o papel-título de Oliver Twist / Idem, de 1933. No mesmo ano rodou O Paraíso de Um Homem / Man's Castle, ao lado de Spencer Tracy e Loreta Young. Esteve em A História de Louis Pasteur / The Story of Louis Pasteur (1936) e A Vida de Emile Zola / The Life of Emile Zola (1937), ambos de William Dieterle. Adolescente, continuou filmando, fazendo praticamente pontas em Sargento York / Sergeant York (1943), A Canção de Bernadette / The Song of Bernadette (1943), entre outros. Nos anos 1950 atuou em séries de TV. Por fim, abandonou a carreira, dedicando-se a publicidade.

marlene dietrich e moore em “a vênus loura
ELIZABETH TAYLOR
(1932 - 2011. Londres / Reino Unido)

Descoberta aos dez anos de idade, filmou a fracassada comédia There's One Born Every Minute (1942). Contratada pela Metro para uma pequeno participação em A Força do Coração / Lassie Come Home (1943), teve seu primeiro momento de glamour em A Mocidade é Assim Mesmo / National Velvet (1944), de Clarence Brown, ao lado de Mickey Rooney e de outro excelente ator tampinha, o sardento Jackie “Butch” Jenkins (1937-2001). Liz foi uma das raras crianças que se tornou super star quando adulta.

liz e roddy mcdowall 
em a força do coração
FREDDIE BARTHOLOMEW
(1924 - 1992. Londres / Reino Unido)

Um dos atores mirins mais famosos de todos os tempos, popular na década de 1930, protagonizou clássicos como David Copperfield / idem (1935) e Marujos Intrépidos / Captains Courageous (1937). A beleza delicada, dicção refinada e olhar angelical fizeram dele um campeão de bilheteria. Criado por uma tia, enfrentou uma batalha nos tribunais com seus pais - que desejavam sua custódia e administrar sua fortuna - durante sete anos, resultando em problemas com a Metro-Goldwyn-Mayer e um enorme custo com advogados e despesas legais. Ao exigir aumento de salário, foi castigado pelo estúdio, que deixou de se interessar por ele. Depois de longas ruins, abandonou a carreira, tornando-se na idade adulta produtor e diretor de programas de tevê.

bartholomew e douglas scott 
em lloyds de londres
JACKIE “BUTCH” JENKINS
(1937 - 2001. Los Angeles, Califórnia / EUA)

Atuou em onze filmes entre 1943 e 1948, sendo os mais famosos A Comédia Humana / The Human Comedy, A Mocidade é Assim Mesmo / National Velvet, O Roseiral da Vida / Our Vines Have Tender Grapes e Meu Irmão Fala com Cavalos / My Brother Talks to Horses. Filho de uma atriz e contratado da M-G-M, carismático, talentoso, seus ganhos foram bem investidos, deixando-o rico. Aos onze anos desenvolveu uma gagueira nervosa. Sem poder atuar, montou próspera empresa de lavagem de carro.

JACKIE COOGAN
(1914 - 1984. Los Angeles, Califórnia / EUA)

Descoberto por Charlie Chaplin, começou no cinema mudo, em 1917, aos três anos de idade. Lembrado por seu papel no clássico O Garoto / The Kid (1921) e pelo papel-título de Oliver Twist / idem (1922), dirigido por Frank Lloyd, foi o primeiro ator mirim a ter sua imagem fortemente comercializada (figurinhas, manteiga de amendoim, bonecos, discos, estatuetas e outros produtos). Famoso por seu corte de cabelo e o macacão velho que usava em cena, viajou pelo mundo, sendo recebido por multidões. Com o sucesso, arrecadou milhões de dólares, mas a fortuna desapareceu nas mãos da mãe e do padrasto. Coogan processou-os em 1938. Depois das despesas legais, recebeu $ 126.000 dos cerca de 250.000 dólares restantes. Anos depois, sem trabalho e enfrentando dificuldades financeiras, Chaplin lhe deu apoio. Após a Segunda Guerra, voltou a atuar como coadjuvante e em seriados de tevê, chamando a atenção como Tio Funéreo em A Família Addams, nos anos 1960.

chaplin e coogan em “o garoto
JACKIE COOPER
(1922 - 2011. Los Angeles, Califórnia / EUA)

De uma família de artistas, indicado ao Oscar por Skippy / idem (1931), dirigido por seu tio Norman Taurog. Em O Campeão / The Champ (1931), atuou ao lado de Wallace Beery, destacando-se também em A Ilha do Tesouro / Treasure Island (1934), adaptação do clássico literário de Robert Louis Stevenson. Como aconteceu com diversas crianças que trabalharam no cinema, seu êxito findou-se com a chegada da adolescência. Adulto, participou de inúmeras séries e trabalhou como produtor de TV.

cooper em “skippy”
MARGARET O’BRIEN
(1937. San Diego, Califórnia / EUA)

Aos quatro anos de idade atuou em Calouros na Broadway / Babes on Broadway(1941), assinando contrato com a Metro. Seu papel mais memorável foi a Tootie do musical Agora Seremos Felizes / Meet me in St. Louis (1944), com o qual ganhou um Oscar como Melhor Atriz Infantil. Brilhou também em Jane Eyre / idem (1943) e O Fantasma de Canterville / The Canterville Ghost (1944). A partir dos anos 1950, com a adolescência, a carreira declinou. Ainda fez algumas tentativas frustradas de reconquistar o sucesso, mas não funcionou. Segundo Vincente Minnelli, a atriz era uma criança neurótica, com reações emocionais surpreendentes e assustadoras.

judy harland e margaret o'brien
em “agora seremos felizes
NATALIE WOOD
(1938 - 1981. São Francisco, Califórnia / EUA)

Rodou o primeiro filme quando tinha apenas cinco anos de idade. Em 1947 filmou De Ilusão Também se Vive / Miracle on 34th Street, considerado um clássico natalino. Muito ativa como atriz infantil, apareceu em mais de uma dezena de filmes, entre eles a sensacional comédia O Fantasma Apaixonado / The Ghost and Mrs. Muir (1947). Em 1955, estrelou Juventude Transviada / Rebel Without a Cause, com James Dean e Sal Mineo, garantindo-lhe a indicação ao Oscar e o seu desenvolvimento como atriz. Suzanne Finstad, sua biógrafa, narrou que ainda menor de idade ela dormiu com o diretor do filme, Nicholas Ray, para conseguir o papel protagonista.

REX THOMPSON
(1942. Nova Iorque / EUA)

Estreou no cinema no drama histórico A Rainha Virgem / The Young Bess (1953), de George Sidney, no papel do príncipe Edward. Carismático e com cara de bom menino, atuou com competência em Melodia Imortal / The Eddy Duchin Story (1956), O Rei e Eu / The King and I (1956) e Em Cada Coração Uma Saudade / All Mine to Give(1957), seu último filme, além de participar em várias séries de tevê. Desiludido com a profissão de ator, em 1966, aos 24 anos, largou a carreira.

rex em “a rainha virgem”
RODDY McDOWALL
(1928 - 1998. Londres / Reino Unido)

Com dez anos de idade atuou no seu primeiro filme, ainda na Inglaterra. Em Hollywood destacou-se no famoso drama Como Era Verde o Meu Vale /  How Green Was My Valley (1941), dirigido por John Ford, e em filmes como Minha Amiga Flicka / My Friend Flicka (1943), A Força do Coração / Lassie Come Home (1943) e As Chaves do Reino / The Keys of the Kingdom. Adulto, trabalhou em peças na Broadway, sempre filmando. Foi um dos primeiros atores a assumir a homossexualidade, confessando que ainda menino se relacionava sexualmente com atores bem mais velhos.

mcdowal em “a força do coração
SHIRLEY TEMPLE
(1928 - 2014. Santa Mônica, Califórnia / EUA)

Maior estrela infantil de todos os tempos, a menina dos cachinhos dourados estreou no cinema aos quatro anos de idade e teve sua imagem comercializada em bonecas, vestidos, canecas e bonés. Com um sorriso encantador e personalidade otimista, faturou milhões, salvando a 20th Century-Fox da falência e ganhando um Oscar Especial aos seis anos. Participou de filmes como A Mascote do Regimento / The Little Colonel (1935), Heidi / idem (1937) e O Pássaro Azul / The Blue Bird (1940). Se aposentou do cinema em 1949, provando a carreira política e diplomática.



outubro 04, 2015

********** HEDY LAMARR: UMA VIDA de ROMANCE



 
Poucos conhecem a verdadeira história de HEDY LAMARR (1914 - 2000. Viena / Áustria), considerada a estrela de cinema mais bela de todos os tempos (prefiro Ava Gardner, Sophia Loren ou Gene Tierney). Uma vida de folhetim, embora com material biográfico pouco confiável. Existem vários episódios curiosos contados ao longo do tempo, numa teia de verdade e mito. Formosa, inteligente, culta, moderna, liberada sexualmente e atriz limitada, teve um destino trágico: a fama durou pouco, passando o resto da vida esquecida e na pobreza. O seu papel mais conhecido, a protagonista-título de Sansão e Dalila / Samson and Delilah (1949), superprodução bíblica de Cecil B. DeMille, encantou multidões. Como esquecer a paixão arrebatadora entre o herói danita e a linda filistéia que descobre onde reside a força de Sansão e o trai por puro despeito? Até os anos 1970, em cidades interioranas brasileiras, reprisava-se esse épico religioso na Semana Santa quando O Rei dos Reis / King of Kings (Nicholas Ray, 1961) ou Os Dez Mandamentos / The Ten Commandments (também de DeMille, 1956) não estavam disponíveis. Depois passou a ser exibido na tevê na mesma data. Não é um bom filme, beira à caricatura e as caretas de Victor Mature desestimulam – o papel foi pensado para Burt Lancaster, que infelizmente (ou sabiamente) o recusou.

victor mature e hedy 
em sansão e dalila
Aos quarenta e quatro anos, em 1958, a estrela rodou o seu último filme, Naufrágio de uma Ilusão / The Female Animal, e nunca mais retornou as telas. Sintomaticamente, o argumento narra a decadência da atriz fictícia Vanessa Windsor. HEDY LAMARR não me fascina, cultivo-a como deusa da beleza, incontestável, da época de ouro do cinema hollywoodiano. De um erotismo gélido e glamouroso, ela parece não viver plenamente a trama. Ao assistir Fruto Proibido (1940), onde os adoráveis Claudette Colbert e Spencer Tracy disputam o amor do sedutor aventureiro Clark Gable, não me conformei quando o mocinho os troca por uma Hedy iluminada e irreal, embora belíssima.

Com o sobrenome Kiesler, ela nasceu em Viena, Áustria, filha de uma família judia burguesa, estudando balé e piano até os 10 anos de idade. Muito jovem, abandonou a escola secundária para atuar no teatro alemão, na companhia do lendário Max Rheinhardt, que a considerava a mais bela mulher da Europa (e ele já tinha lançado outra beldade, Marlene Dietrich). Estreou no cinema em 1930 com Geld auf der Strabe, mas seria o seu quinto trabalho cinematográfico que a levaria direto para a fama internacional, o checo-austríaco Êxtase / Ekstase (1933). Nessa película mais falada que vista, ela aparece completamente despida, correndo num bosque, mergulhando em um lago e simulando um orgasmo. As cenas de nudez, discretas para os padrões de hoje, causaram sensação e resultaram na proibição do filme nos EUA.

hedy em “êxtase
Banal, Êxtase conta a história de uma jovem recém-casada que descobre que o marido é impotente e arranja um amante. O esposo da futura estrela, milionário e ciumento, gastou uma fortuna na tentativa de readquirir e destruir as cópias da obra. Em sua autobiografia, Ecstasy and Me: My Life as a Woman (1967), HEDY LAMARR descreve Friedrich Mandl como extremamente controlador, tentando mantê-la trancada em sua mansão. Ela o acompanhava em diversos jantares com a ascendente elite nazista, com a qual ele tinha relações de negócios. Indignada, drogou uma empregada que a vigiava e, levando todas as suas valiosas joias, fugiu para Paris, depois para Londres, onde conheceu o poderoso produtor da M-G-M, Louis B. Mayer, que imediatamente a contratou.

Em Hollywood, com o novo sobrenome dado por Mayer (em homenagem a estrela do cinema mudo Barbara La Marr, que morreu em 1926 de overdose) e a promessa – também de Mayer – de vir a ser uma nova Greta Garbo, estreou ao lado de Charles Boyer no clássico Argélia (1938), um remake do francês O Demônio da Algéria / Pepé Le Moko (1937). Rapidamente se tornaria uma das atrizes mais bem sucedidas do final dos anos 1930 e ínicio dos 1940, escalada quase sempre para papéis de sedutoras e exóticas, ao lado de Clark Gable, James Stewart, Robert Taylor, William Powell, John Garfield e Spencer Tracy. Era a bombástica resposta morena para as famosas atrizes louras. Não tardou que um livro pirata e anônimo, As Mil Formas de Amar de Hedy Lamarr – uma espécie de Kama Sutra -, surgisse como um verdadeiro best-seller no mercado negro. Apesar da beleza clássica, HEDY LAMARR nunca teve o status de Garbo, o que é atribuído pelos seus biógrafos à falta de um agente hábil que administrasse a sua carreira, cheia de erros inconvenientes ou mesmo drásticos. Por exemplo, em 1942, cogitada pela Warner Brothers para ser a Ilsa Lund de Casablanca / Idem, simplesmente recusou o papel, assim como não aceitou a Paula Alquist de À Meia Luz / Gaslight (1944), que deu o Oscar a Ingrid Bergman.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a atriz e um vizinho, o músico de vanguarda George Antheil, começaram a pensar numa maneira de ajudar a combater o nazismo. Ainda em Viena, ela havia sido casada com um magnata que negociava com armamento e, por tabela, adquirira uma certa familiaridade com a produção de armas, passando a imaginar como tornar mais eficaz o movimento e a pontaria dos torpedos. Por fim, desenvolveu um mecanismo chamado de frequency hopping (“frequência alternada”), cujo objetivo era o de direcionar o movimento dos torpedos a fim de que atingissem o alvo com um mínimo de erro. Ao submeter o invento aos militares norte-americanos, eles o recusaram, alegando que ela seria mais útil ao país vendendo beijos aos soldados para levantar fundos de guerra. O que fez, sem desistir do invento, devidamente patenteado. 

Mais de uma década depois, engenheiros descobriram o aparelho sofisticado e, com novo nome (Spread Spectrum), o utilizaram com sucesso na crise dos mísseis cubanos nos anos sessenta. Com o tempo, a criação de HEDY LAMARR ganhou nova dimensão e novo emprego, sendo fundamental para o desenvolvimento de micro-chips, mas, sobretudo, essencial no aperfeiçoamento da tecnologia relativa à telefonia celular. Segundo consta, a tecnologia celular não teria o desenvolvimento que teve no final do século 20 sem esse invento básico, tanto é assim que, em 1998, em sinal de reconhecimento, a atriz/cientista foi premiada pela importante Electronic Frontier Foundation (EFF). Idosa e reclusa, ela pediu ao filho para receber o prêmio, a quem comentou: Já era tempo. Mesmo assim, nunca lucrou pela sua fundamental invenção.

Entre 1937 e 1950, HEDY LAMARR rodou 21 filmes, depois entrou em declínio, esporadicamente estrelando um ou outro longa, um dos quais como Joana D’Arc no épico de Irwin Allen A História da Humanidade / The Story of Mankind (1957). No intervalo de um dos seus casamentos escandalosos (foram seis ao todo, entre eles com o roteirista Gene Markey e o ator inglês John Loder), a deusa namorou o sortudo playboy brasileiro Jorginho Guinle. Contratada para o esquecível Picture Mommy Dead (1966), perdeu o papel ao não aparecer no primeiro dia de filmagem, sendo substituída por Zsa Zsa Gabor. Na época, dona da mansão usada no musical A Noviça Rebelde / The Sound of Music(1965), desfigurada por inúmeras cirurgias plásticas (tinha seios pequeninos, mas para atender ao gosto norte-americano deixou-os enormes, sendo uma das primeiras a fazer implante de silicone) e arruinada financeiramente (um dos maridos, o magnata do petróleo W. Howard Lee, depois marido de Gene Tierney, na ocasião do divórcio se queixou que ela gastava loucamente, quase o levando à ruína), foi detida por furto na década de 1960, numa famosa loja de departamentos. Considerada inocente, continuou roubando e em 1991 foi presa, passando um ano em liberdade condicional.

john loder e 
sua esposa hedy
Inteligente, sincera e magoada, confessou em sua autobiografia que para se tornar estrela em Hollywood é preciso ir para a cama com agentes, atores, diretores e produtores. E nessa ordem. É brutal, mas é a realidade, garantiu. Inspiração para a Branca de Neve de Walt Disney e também para a replicante Rachel (Sean Young) de Blade Runner – O Caçador de Andróides / Blade Runner (1982), foi homenageada como personagem do romance Púbis Angelical (1979), do escritor argentino Manuel Puig. Seu look, copiado por inúmeras atrizes, nunca foi superado, firmando a fama de uma das mulheres mais bonitas do mundo.

Mesmo longe dos holofotes, sua popularidade continuou, atravessando décadas, celebrando seu fascínio para sempre. Os últimos anos de vida da atriz foram terríveis: solitária, sem dinheiro, deformada por plásticas baratas e escrava da beleza perdida, evitava aparições públicas, mantendo contato com os filhos e amigos íntimos apenas por telefone. Processou a empresa de software Corel Corporation por usar sua imagem em um dos seus produtos e o diretor/comediante Mel Brooks por ridicularizá-la em Banzé no Oeste / Blazing Saddles(1974). HEDY LAMARR morreu aos 86 anos de idade e suas cinzas foram espalhadas na floresta Wienerwald, na Áustria, conforme seu desejo. 

clark gable e hedy
charles boyer e hedy
spencer tracy e hedy
hedy e james stewart
hedy e robert taylor

  DEZ FILMES de HEDY LAMARR

01
ARGÉLIA
(Algiers, 1938)
direção de John Cromwell
  elenco: Charles Boyer

02
FRUTO PROIBIDO
(Boom Town, 1940)
direção de Jack Conway
elenco: Clark Gable e Spencer Tracy

03
O INIMIGO X
(Comrade X, 1940)
direção de King Vidor
  elenco: Clark Gable

04
SOL de OUTONO
(H. M. Pulham, Esq., 1940)
direção de King Vidor
  elenco: Robert Young

05
BOÊMIOS ERRANTES
(Tortilla Flat, 1942)
  direção de Victor Fleming
 elenco: Spencer Tracy e John Garfield

06
O DEMÔNIO do CONGO
(White Cargo, 1942)
direção de Richard Thorpe
  elenco: Walter Pidgeon

07
Os CONSPIRADORES
(The Conspirators, 1944)
direção de Jean Negulesco
elenco: Paul Henreid

08
IDÍLIO PERIGOSO
(Experiment Perilous, 1944)
direção de Jacques Tourneur
  elenco: George Brent e Paul Lukas

09
FLOR do MAL
(The Strange Woman, 1946)
  direção de Edgar G. Ulmer
elenco: George Sanders e Louis Hayward

10
A MULHER sem NOME
(A Lady Without Passaport, 1950)
direção de Joseph H. Lewis
elenco: John Hodiak e James Craig


HEDY LAMARR por ERROL FLYNN

Uma noite David Niven e eu fomos convidados para a casa de Hedy Lamarr. Ela era casada com John Loder na época. Reginald Gardiner e sua deliciosa esposa russa estavam lá, e alguns outros. Eu considerava Hedy uma das atrizes mais subestimadas, sem sorte o suficiente para obter papéis interessantes. Conhecia algumas atuações suas brilhantes. Achava que tinha um grande talento, e na medida em que sua beleza clássica estava em causa, não poderia, então, nem talvez mesmo agora, encontrar outra atriz para superá-la. Provavelmente é uma das mulheres mais bonitas dos nossos dias. Naturalmente, eu fazia questão de conhecê-la - e, posteriormente, desejei que ela fizesse o principal feminino no meu fiasco italiano “Guilherme Tell”, mas o filme nunca entrou em produção devido a problemas financeiros. Eu lamento o fato. Enquanto esperávamos Hedy na sua sala de estar, David me dizia que a considerava a criatura mais encantadora que conhecia. Quando ela surgiu, ele sussurrou: "Por Deus, ela é linda, mesmo sem as joias", continuando "Será que vai contar sobre como fugiu da Áustria com suas joias?”. Claro que não iria lhe pedir para me contar sobre sua vida privada, mas estava intrigado com os comentários que tinha ouvido falar. Hedy e eu conversamos por um bom tempo. Ela estava deslumbrante. Comecei a tocar no assunto que me despertava a curiosidade, mas de uma forma diplomática, e, finalmente, ela fez a pergunta: "Onde está Mandl agora?". Mandl era o seu ex-marido. Então, a bela criatura, irada, rosnou: "Ele é um filho da puta!", enquanto cuspia com asco e se afastava, dando atenção a outros convidados”

“My Wicked Wicked Ways”
de Errol Flynn

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