fevereiro 06, 2011

********* BACALL E BOGART: A LOVE STORY



Um dos monstros sagrados de Hollywood, objeto de verdadeiro culto, HUMPHREY BOGART (1899-1957) idealizava os traços do anti-herói solitário e desencantado, mas, mesmo assim, extremamente romântico. Embora não fosse bonito, era charmoso e atraente. Jerry Wald, produtor de vários filmes do ator, resumiu assim o seu poder de atração: “Ele era amado porque possuía, mesmo nos seus papéis de gangster, uma qualidade patética. Sempre angariava simpatia”. No final da década de 1920, o ator casou-se com a atriz Helen Mencken, conhecida lésbica, mas o matrimônio durou apenas um ano e meio. Justamente 12 meses após, contraiu novas núpcias com outra atriz, Mary Phillips, que se recusou a viver em Hollywood e em 1934 eles acabaram se divorciando. Seu casamento seguinte, em 1938, com a também atriz Mayo Methot, foi desastroso. Paranóica, convenceu-se de que era traída, armando verdadeiros escândalos. Durante as filmagens de “Casablanca” (1943), ameaçou o marido de morte,  acusando-o de ter um caso com Ingrid Bergman. Em 1944, aos 45 anos, o ator protagonizou “Uma Aventura na Martinica” (1945), baseado no romance de Ernest Hemingway e direção do lendário Howard Hawks, conhecendo LAUREN BACALL, de 19 anos. Segundo a lenda, quando foram apresentados, ele disse-lhe: "Vamos divertir-nos bastante juntos”.

bacall na harper’s bazaar
Delgada e de olhar penetrante, inteligente e elegante, a futura atriz fora descoberta pela mulher de Hawks na capa da revista “Harper’s Bazaar”. Nova-iorquina e estudante de arte dramática, estava na mira dos caçadores de talentos de Hollywood há algum tempo, sendo procurada pela Columbia, por David O. Selznick e Howard Hughes, entre outros. Entretanto, a jovem, ambiciosa, mas prudente, preferiu pensar, finalmente optando por Hawks. O diretor-produtor se encarregou dela, destacando-lhe as sobrancelhas espessas, os dentes ligeiramente desalinhados e aprimorando a voz, de modo a torná-la ainda mais grave. Como capitão de barco de pesca para aluguel envolvido numa intriga política durante a Segunda Guerra Mundial, Bogart troca diálogos espirituosos com Bacall, felina criatura de voz sexy, ideal para os textos de duplo sentido. Ela faz a petulante aventureira Slim, de passado duvidoso, que fora parar na ilha por não ter dinheiro suficiente para uma passagem de volta aos EUA. Numa alquimia exata, ele sentiu-se fortemente atraído pela garota, e foi plenamente correspondido A paixão logo se tornou pública nos sets, esquentando as fofocas na imprensa. Paralelamente, havia os ciúmes da mulher de Bogart, que o vigiava de perto.

No filme talhado para o sucesso, o personagem de Bacall é uma mulher forte, com diálogos na ponta da língua, mas ela confessou anos depois que atuar ao lado do astro, por quem logo se apaixonou, se tornou difícil, pois era quase impossível não tremer ao seu lado. Assim que terminou as filmagens, ele definitivamente se separou de Mayo. Em 1945 veio o divórcio e, dias depois, o novo casamento dele. Desconsolada e apaixonada, Mayo deixou Hollywood, indo morar em Portland, e, passados seis anos, faleceu solitária num motel, após longo período de doença causada por alcoolismo agudo. Conta-se que, como presente de núpcias, Bogart ofereceu a sua nova mulher um apito de ouro com a inscrição: “Se precisar de mim, assobie”, na lembrança da clássica cena deles no filme em que se conheceram. Também se conta que ela colocou esse apito no caixão do ator, quando ele morreu, 12 anos depois. Ele a chamava de  Baby (por ser 25 anos mais nova) e, em 1949, nasceu o primeiro filho do casal, Stephen Humphrey Bogart e depois, em 1952, tiveram uma menina, Leslie Howard Bogart - nome em homenagem ao ator Leslie Howard (“E o Vento Levou”), que ajudou Bogart no início da carreira. O casal era amigo de Frank Sinatra, Judy Garland, Peter Lorre e David Niven. O grupinho tinha até apelido: “The Rat Pack” (traduzindo, “Os Maiorais”), e se reunia para farras homéricas regadas de muita bebida e cigarros. O ator se portava muito mal com a bebida. Não sabia beber socialmente. Seus problemas começavam na quarta dose de wisky, quando, usualmente brigava com o primeiro que aparecesse. Era um bêbado chato, e se divertia empurrando seus convidados na piscina.  Sua esposa, de temperamento difícil, segundo as más línguas, o traía com um de seus melhores amigos, Frank Sinatra. Bom, fato ou não, Sinatra chegou a pedi-la em casamento assim que a mesma enviuvou.

A revigorante ousadia nas telas de LAUREN BACALL rompeu as convenções da época. De um dia para outro, ela virou estrela, numa carreira que dura até os dias de hoje. Dela, disse Josef Von Sternberg (o diretor de “O Anjo Azul”), “Bacall é uma versão mais quente de Marlene Dietrich. Dietrich se reconheceu logo que viu o filme. Ela disse: ‘Sou eu, hein?’”. A nova star se reuniria novamente com seu parceiro em “À Beira do Abismo” (1946), também dirigido por Hawks e marco do chamado filme noir. Ainda em 1946, fizeram uma breve aparição em “Um Trono Por um Amor” (1946). Em 1947, estrelaram outro policial, “Prisioneiro do Passado”, e em 1948 John Huston – um dos melhores amigos de Bogart - dirigiu a dupla ardente em “Paixões em Fúria”, denso e excitante drama criminal. Fizeram também um programa de rádio chamado Bold Venture e preparavam-se para voltar às telas em “Melville Goodwin U.S.A.”, projeto de 1956, assinando os contratos e fazendo as provas dos figurinos, mas, já com problemas de câncer de esôfago, HUMPHREY BOGART internou-se para uma operação e, após muito sofrimento, morreu em janeiro do ano seguinte. A bela viúva mudou-se para Nova York e começou a trabalhar no teatro, brilhando nos palcos. Em 1961 se casaria com outro ator, Jason Robards Jr. Divorciaram-se em 1969.

(Fontes: “Bacall Fenomenal”, de Lauren Bacall, e revista “Cinemin”)



14 comentários:

Marcelo C,M disse...

Atualmente a vida pessoal de um astro é bastante divulgada, mas e na época de ouro do cinema?

Acho que era bem mais dificil o publico saber das coisas já que o conservadorismo era muito mais forte naquele tempo.

Octavio Caruso disse...

Uma linda história de amor e respeito. Dois grandes da época de ouro de Hollywood.

Jamil disse...

Bogart imitava os heróis que vivia na tela, fossem detetives ou vilões que o tornaram famoso. Entrava nos bares, bebia muito, bancava o valentão, apanhava e ia para casa com o rosto sangrando. E Lauren a esposa dedicada o acompanhava nessas fantasias. Ele lançou a moda das capas celebrizada nos seus filmes policiais, assim como do célebre summer usado em Casablanca.

GIANCARLO TOZZI disse...

A participação de Lauren Bacall em “Uma aventura na Martinica” foi mais tarde considerada uma das mais impactantes estréias na história do cinema. Então com 20 anos, Bacall ganhou manchetes nos jornais do mundo inteiro. Quando da visita ao National Press Club em Washington, em 10 de fevereiro de 1945, seu assessor de imprensa pediu para ela se sentar no piano que estava sendo tocado pelo vice-presidente dos EUA, Harry Truman. As fotos do incidente causaram um escândalo.

disse...

Olá! Bacall e Bogart foram um dos casais mais charmosos de Hollywood, apesar da diferença gritante de idade. Adorei quando ela ganhou um Oscar Honorário ano passado!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também fiquei, Lê. A Lauren merecia. Adoro os atores que envelhecem na tela, trabalhando até o último momento. Essa história de abandonar o cinema jovem, tipo Garbo e Norma Shearer, só para não mostrar as rugas para o público, acho uma bobagem.

Luiza Maria disse...

Me apaixonei por Humphrey Bogart quando vi "Sabrina": no filme ele era um homem de olhos tristes
e não amado pela mocinha, mas lembrava meu padrinho que era muito legal. Mas não era um galã como eu imaginava um galã, na época. . Mais tarde descobri que ele era um ícone do cinema. Vivendo e vivendo.

Lou.

Danielle disse...

Oi, Antonio!

Agora que minha internet voltou, voltei também! Primeiro, preciso dizer que adorei seu novo layout do blog. Muito bem escolhida a fotografia do topo. Bacall e Bogart são sensacionais juntos. "Uma aventura na Martinica" é um dos meus filmes preferidos (e conheci-o faz bem pouquinho tempo).

Adorei ler seu ótimo texto, pois sei bem pouco sobre o casal. Nunca vi outro filme dele. Grava pra mim os outros três deles que você tem ("Uma aventura..." e acabei comprando). Estou gravando os seus!

Bjs e até logo
Dani

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Obrigado, Dani. Bom tê-la de volta. Vou gravar os filmes que pediu. Todos são ótimos, inclusive "Prisioneiro do Passado", que foi bastante criticado, eu gosto muito. A química do casal é impressionante.
beijos

Leandra disse...

O charme de Lauren Bacall era demais. Uma presença cênica única. Imagine ela no teatro como Norma Desmond? Um sonho.

Leandra Leal

IRENE SERRA disse...

Antonio, querido

Continua colhendo os louros do sucesso, heim? Fico tão feliz por você, que nem imagina. Só gente bacana mesmo. E, mesmo sem ser, como posso não estar aí prestigiando o amigo?
Tenho copiado artigos do seu blog e colocado no Rio Total; esta semana estamos com Sean Connery. Às vezes dou o toque lá no twitter, também.

Beijos,
com carinho,
Irene

Gustavo Suzart disse...

Faltava meu caro.


O blog esta totalmente demais! Leve , solto e envolvente.


Abração

Gustavo Suzart

annastesia disse...

Adoro ver as fotos de Bogie e Bacall juntos e mais ainda assistir os filmes da dupla. Lauren, chiquérrima e altiva e Bogie, charmoso e cínico. Paixão instantânea e amor fulminante. Um dos casais mais fascinantes da velha Hollywood.

Beatriz S. disse...

Foi, sem dúvida, um dos casais mais marcantes da "Golden Era" Hollywoodesca. Dois opostos, mas tão semelhantes ao mesmo tempo. Seria o amor? Ou a afeição que os voyeurs lhes tiveram? Um post interessantíssimo, à imagem dos restantes que já pude "espreitar". Continuação de um óptimo trabalho!

http://por-detras-da-minha-camara.blogspot.com

(Teria imenso prazer se pudesse vistar o meu "cantinho" e deixar a sua impressão. Obrigada! :)