maio 15, 2017

************** A BARONESA ESTRELA de CINEMA


Uma das atrizes europeias mais intensas e significativas. Seu extraordinário talento dramático deixou como legado grandes interpretações, numa incrível capacidade de esconder e revelar simultaneamente os sentimentos de um personagem. Os olhos verdes expressivos eram sua marca registrada. A beleza sofisticada, o rosto impecável de porcelana, cabelo escuro e voluptuoso, também caracterizam a italiana de origem nobre Alida Maria Laura von Altenburger, baronesa de Marckenstein e Freuenberg, conhecida no cinema como ALIDA VALLI (1921 - 2006). Nascida na Ístria italiana, hoje território da Croácia, abandonou os estudos para dedicar-se à sétima arte. Atriz irrequieta e sensibilíssima, na ativa durante sete décadas, atuou em mais de 100 filmes, o último deles em 2002, aos 81 anos.

Após a morte do pai, ela e sua mãe foram para Roma, onde a mocinha estudou no Centro Sperimentale di Cinematografia (CSC), a academia de cinema criada pelo ditador Benito Mussolini. Em 1936, aos 15 anos de idade, fez sua primeira aparição cinematográfica, nos estúdios Cinecittà, em “Os Dois Sargentos / I Due Sergenti” (1936), estrelado por Gino Cervi. Logo tornou-se a atriz da moda, os produtores a disputavam. Estrelou muitas vezes produções escapistas e populares chamadas de “Telefoni Bianchi” (telefone branco) - comédias sentimentais e melodramas descartáveis em ambientes luxuosos. ALIDA VALLI arrebatou o coração dos jovens, acolhida como a “Namoradinha da Itália”.

valli no final dos anos 1930
Durante a Segunda Guerra Mundial, teve grande êxito com “Pequeno Grande Mundo”. Ao lado de Massimo Serato, faz uma mulher traumatizada pela morte da filha. O filme mais aclamado e controverso que fez nessa época foi “Atrás da Cortina de Ferro (Oprimidos) / Noi Vivi” (1942), de Goffredo Alessandrini, um drama de guerra anti-comunista baseado - sem permissão do autor - em um romance de Ayn Rand. Outro sucesso dessa fase, “Esta Noite Nada de Novo / Stasera Niente di Nuovo” (1942), narra a história de uma cantora prostituta que não aceita ajuda do repórter (Carlo Ninchi) que a ama.

A popularidade de ALIDA VALLI na indústria cinematográfica italiana era fenomenal. Uma pesquisa realizada no início da década de 1940 a colocou como a estrela mais popular do país. Em plena ascensão, recusou-se a fazer filmes de propaganda do regime fascista de Mussolini - que a considerava “a mulher mais bonita do mundo” -, passando a ser perseguida e tendo que se esconder no apartamento de um amigo para evitar a prisão. Em 1944 casou-se com Oscar De Mejo, pintor surrealista e compositor de jazz, e se divorciou dele em 1952.

Ela provou sua versatilidade com o drama de época “Manon Lescaut”, adaptado do clássico romance de Abbé Prévost, no qual faz o papel-título e divide cena com o ator mais popular na Itália naqueles anos, Vittorio De Sica. Após a II Guerra brilhou em “Eugenia Grandet”. Como a sofrida heroína de Honoré de Balzac, ALIDA VALLI ganhou o prêmio de Melhor Atriz - Nastro d'Argento, do Sindicato Italiano de Jornalistas de Cinema, chamando a atenção do produtor independente David O. Selznick (“...E o Vento Levou / Gone with the Wind”). Ele procurava na Europa uma “Nova Garbo” e a atriz italiana foi contratada por sete anos com essa difícil missão.

No entanto, a aposta do produtor não vingou como se esperava. Tão forte era o sotaque de ALIDA VALLI, que sua carreira no mercado norte-americano se encerrou mais cedo do que seu significativo talento anunciava. No primeiro filme em Hollywood, “Agonia de Amor / The Paradine Case” (1947), de Alfred Hitchcock, ela interpreta Maddalena Case, suspeita de assassinato e defendida nos tribunais por um jovem Gregory Peck. Com a aprovação de Selznick, a atriz partiu para a Inglaterra, onde foi colocada como a misteriosa refugiada checa Anna Schmidt, procurada pelos russos na Viena de pós-guerra, em “O Terceiro Homem”.

valli e gregory peck
O seu papel mais reverenciado: Anna, a amante dedicada de Harry Lime (fenomenal Orson Welles), uma figura sombria no mundo do mercado negro. O thriller é um clássico do cinismo político, auxiliado por uma inesperada trilha sonora de cítara e cenas inesquecíveis e poderosas. Um dos melhores é a cena final, em um cemitério, a trágica heroína caminha por uma longa alameda, enquanto Joseph Cotten a aguarda em primeiro plano. Ele é um romancista norte-americano, e apesar de todas as provas ao contrário, quer ver o personagem misterioso como uma donzela em perigo, numa aula de ambiguidade.

Ainda sob contrato, ALIDA VALLI faria três filmes simpáticos nos EUA, sob a direção de Irving Pichel, Ted Teztlaff e Robert Stevenson, dividindo cena com atores de grande categoria: Glenn Ford, Claude Rains, Oskar Homolka, Cedric Hardwicke, Fred MacMurray, Frank Sinatra, Lee J. Cobb e Joseph Cotten. Insatisfeita, ela voltou para a Europa, trabalhando com excelentes diretores. Primeiro estrelou com Jean Marais o franco-italiano “Milagres Acontecem Uma Vez / Les Miracles n'ont Lieu qu'une Fois” (1951), de Yves Allégret. Na trama, dois estudantes enamorados, separados pela guerra, reencontram-se dez anos depois. Em 1954, o mestre Luchino Visconti ofereceu-lhe o papel principal em “Sedução da Carne”, um belo drama de paixão e traição do romance de Camillo Boito.

valli e luchino visconti
Para a Condessa Lívia Serpieri, o cineasta desejou inicialmente Ingrid Bergman, mas o ciumento Roberto Rossellini, marido da estrela na ocasião, tornou esse sonho impossível, e o personagem precioso foi parar nas mãos de ALIDA VALLI. Situado em Veneza, no século XVIII, gira em torno dessa nobre veneziana dividida entre sentimentos nacionalistas e um amor adúltero por um oficial (Farley Granger) das forças austríacas de ocupação. Seu desempenho apaixonado é considerado o ápice de sua carreira, e ganhou o Globo de Ouro italiano de Melhor Atriz. A derrota de “Sedução da Carne” no Festival de Veneza de 1954 - o Leão de Ouro de Melhor Filme foi para “Romeu e Julieta / Romeo and Juliet”, de Renato Castellani - causou furor.


SEXO, DROGAS e MORTE

No auge do sucesso, em 1954, sua popularidade foi abalada por um escândalo recheado de sexo, drogas, ritual pagão e morte. Ela estava em Torvajanica, praia particular próxima a Nápoles, participando de uma orgia coordenada pelos Illuminati (um grupo secreto que tem como objetivo uma Nova Ordem Mundial), ao lado de poderosas autoridades da igreja católica e da política, quando a desconhecida modelo Wilma Montesi, de 21 anos, utilizada como sacerdotisa de uma missa satânica e escrava sexual, morreu de esgotamento físico, e também, de overdose de drogas. A atriz foi chamada para testemunhar sobre o assassinato da jovem mulher. Após o julgamento, ela lutou para restaurar sua carreira, mas levou algum tempo. A publicidade negativa foi tão fervorosa que quase arruinou sua bonita trajetória.

O infortúnio provocou a renúncia do ministro das Relações Exteriores da Itália, Attilio Piccioni, pois um filho seu, Piero, amante de ALIDA VALLI, fazia parte da maratona sexual. O escândalo inspirou uma cena de “A Doce Vida / La Dolce Vita” (1960), de Federico Fellini. Todos os suspeitos foram absolvidos, deixando o caso sem solução. A atriz alegou que ela e Piccioni estavam hospedados em uma vila em Capri no momento da morte. O júri apaixonado fingiu que acreditou e ela foi absolvida. Em 1957, de volta ao cinema, foi elogiada pela excelência em um clássico do cinema europeu, “O Grito”, de Michelangelo Antonioni, com o ator norte-americano Steve Cochran. Ela é uma mulher cansada e empobrecida que rejeita seu amante operário.

Ainda nos anos 1950, iniciou uma fenomenal carreira teatral que a levou aos palcos de toda a Itália, França e Estados Unidos, com obras de Jean-Paul Sartre, D'Annunzio, Albert Camus, Tennessee Williams e Arthur Miller. Na TV italiana, conduziu o seu próprio programa. Em 1956, sob a direção de seu futuro marido, Giancarlo Zagni, no Teatro Biondo de Palermo, interpretou Henrik Ibsen e Luigi Pirandello. Ela apareceria em mais de trinta peças nas próximas quatro décadas. Na década de 1960, viveu três anos no México, atuando em filmes para cinema e televisão. Trabalhou três vezes com Bernardo Bertolucci, em “A Estratégia da Aranha”, “1900 / Novecento” (1976) e “La Luna / Idem” (1979). Ela também foi dirigida por mestres de terror como Mario Bava em “Lisa e o Diabo / Lisa e il Diavolo” (1973) e Dario Argento em “Suspiria / Idem” (1977) e “A Mansão do Inferno / Inferno” (1980).

Em 1997, aos 76 anos, homenageada no Festival de Veneza, recebeu o Leão de Ouro Honorário pelo conjunto da obra, ressaltando suas importantes atuações em filmes de Antonioni, Visconti, Claude Chabrol, Pier Paolo Pasolini, Valerio Zurlini, Clement, Bertolucci, Patrice Chéreau, Gillo Pontecorvo etc. Suas aparições cinematográficas mais recentes foram em “Il Lungo Silenzio” (1993), de Margaretha von Trotta; “Um Encontro para Sempre / A Month by the Lake” (1995), com Vanessa Redgrave; “Il Dolce Rumore della Vita” (1999), de Giuseppe Bertolucci; e “Anjo da Morte / Angel of Death” (2002). ALIDA VALLI morreu em Roma aos 84 anos, em 2006. Ela deixou dois filhos com Oscar De Mejo, o ator Carlo De Mejo e Lorenzo De Mejo. Seu neto Pierpaolo De Mejo, ator e diretor, rodou o documentário “Como me Tornei Alida Valli / Come Diventai Alida Valli” (2008) sobre sua avó.

Difícil não se apaixonar pela inesquecível atriz. Seu poético nome, Alida, significa “voando como um pássaro”. Gregory Peck, em entrevista, declarou: “Não são apenas suas formas e traços que são perfeitos: os seus olhos irradiam uma irresistível luminosidade amorosa.”

FONTES
 “Il Romanzo di Alida Valli”, de Lorenzo Pellizzari e Claudio M. Valentinetti e “Alida Valli”, de Ernesto G. Laura e Maurizio Porro.

valli e farley granger em “sedução da carne”

10 GRANDES ATUAÇÕES de VALLI

01
Manon Lescaut
em MANON LESCAUT
(Idem, 1940)

de Carmine Gallone
elenco: Vittorio De Sica e Andrea Checchi

02
Luisa Rigey Maironi
em PEQUENO MUNDO ANTIGO
(Piccolo Mondo Antico, 1941)

de Mario Soldati
elenco: Massimo Serato

03
Eugenia Grandet
em EUGENIA GRANDET
(Idem, 1947)

de Mario Soldati
elenco: Gualtiero Tumiati

04
Anna Schmidt
em O TERCEIRO HOMEM
(The Third Man, 1949)

de Carol Reed
elenco: Orson Welles, Joseph Cotten
e Trevor Howard

05
Condessa Livia Serpieri
em SEDUÇÃO DA CARNE
(Senso, 1954)

de Luchino Visconti
elenco: Farley Granger, Massimo Girotti
e Christian Marquand

06
Irma
em O GRITO
(Il Grido, 1957)

de Michelangelo Antonioni
elenco: Steve Cochran, Dorian Gray
e Betsy Blair

07
Rosetta
em A GRANDE ESTRADA AZUL
(La Grande Strada Azzurra, 1957)

de Gillo Pontecorvo
elenco: Yves Montand, Francisco Rabal
e Terence Hill

08
Louise
em OS OLHOS SEM ROSTO
(Les Yeux sans Visage, 196O)

de Georges Franju
elenco: Pierre Brasseur, Juliette Mayniel
e Claude Brasseur

09
Merope
em ÉDIPO REI
(Edipo Re, 1967)

de Pier Paolo Pasolini
elenco: Silvana Mangano e Franco Citti

10
Draifa
em A ESTRATÉGIA DA ARANHA
(Strategia del Ragno, 1970)

de Bernardo Bertolucci
elenco: Giulio Brogi

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