O
cinema francês não se esquece de suas estrelas. Geralmente elas trabalham até idade
avançada, envelhecendo com charme nas telas. De cabeça, lembro-me de Catherine
Deneuve, Jean-Louis Trintignant, Anouk Aimée, Danielle Darrieux, Michel
Piccoli, Jeanne Moreau, Emanuelle Riva, Micheline Presle, entre outras. O mesmo
não acontece habitualmente nos Estados Unidos da América, mas os filhos de Tio
Sam reverenciam suas antigas glórias através de publicações, documentários,
vídeos, retrospectivas, tributos.
O Brasil, um país sem memória, literalmente apaga o passado. Os novos cineastas raramente convidam para os seus filmes intérpretes que brilharam noutros tempos. Hoje, poucos brasileiros sabem da importância no cenário cinematográfico nacional de intérpretes como Odete Lara, Joffre Soares, Adriana Prieto, Isabel Ribeiro, Paulo César Pereio, Lillian Lemmertz, Paulo José, Irene Stefânia, Hugo Carvana, Tereza Raquel, Glauce Rocha, Jardel Filho, Anecy Rocha, Geraldo D’el Rey, Ítala Nandi, Darlene Glória, Othon Bastos, Ana Maria Magalhães etc.
O Brasil, um país sem memória, literalmente apaga o passado. Os novos cineastas raramente convidam para os seus filmes intérpretes que brilharam noutros tempos. Hoje, poucos brasileiros sabem da importância no cenário cinematográfico nacional de intérpretes como Odete Lara, Joffre Soares, Adriana Prieto, Isabel Ribeiro, Paulo César Pereio, Lillian Lemmertz, Paulo José, Irene Stefânia, Hugo Carvana, Tereza Raquel, Glauce Rocha, Jardel Filho, Anecy Rocha, Geraldo D’el Rey, Ítala Nandi, Darlene Glória, Othon Bastos, Ana Maria Magalhães etc.
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norma
(primeira à direita), odete lara,
leila dinize outras atrizes na passeata dos cem mil contra a censura, 1968 |
Fascinava
pela sensualidade e personalidade forte. Galãs como Alain Delon, Renato Salvatori e Gabriele Tinti, renderam-se ao charme dessa carioca sex symbol. Premiada muitas vezes, capa
de revistas concorridas, polêmica, musa do Cinema Novo, comparada à francesa
Jeanne Moreau, NORMA BENGELL nos orgulha, remetendo às boas recordações de um tempo
perdido. Nos seus últimos anos de vida, paralítica e sem dinheiro, devendo uma
fortuna ao Leão, possuía apenas uma casa, a cada dia mais vazia, porque vendia
os móveis e parte do acervo particular para sobreviver. Doente e endividada, a
atriz que viveu a glória do cinema nacional, recorreu à ajuda de amigos. Ao
escorregar num tapete, sofreu um tombo e precisou operar a coluna e o cotovelo.
Daí em diante, só deixou sua residência para ir ao hospital. Entregue a uma cadeira de rodas, doente e à beira da
falência, não era nem sombra da atriz sensual e de olhar enigmático cortejada
nos anos 1960 e 1970.
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| norma nos tempos de vedete |
Estreou no cinema em 1959, na chanchada “O Homem de Sputnik”, produção da Atlântica estrelada por Oscarito e Jô Soares. Um mega sucesso, com público estimado em 8 milhões e meio de pagantes. Ela fazia uma sátira à sex-symbol francesa Brigitte Bardot - seu personagem chamava-se justamente B.B. Então, a carreira de NORMA BENGELL no cinema intensificou-se, rodando muitos outros filmes, além de se destacar no teatro dramático na peça “Procura-se uma Rosa”, de Pedro Bloch. Ao atuar no drama urbano “Os Cafajestes”, de produção tumultuada, consagrou-se definitivamente, recebendo o Prêmio Saci de Melhor Atriz. Nessa fita clássica, protagonizou a primeira cena de nu frontal da história cinema brasileiro, que a tornou alvo de perseguição dos setores conservadores, sofrendo ataques da Igreja e da organização “Família, Tradição e Propriedade” (TFP). Em 1962, ao participar de um show de bossa-nova na PUC (RJ), foi impedida pelos padres de cantar, porque se declarou a favor da pílula anticoncepcional. No mesmo ano, chamada por Anselmo Duarte para “O Pagador de Promessas”, brilhou no papel da prostituta Marli. Em seu livro “Adeus, Cinema”, o cineasta afirma ter transado com a atriz para ela “não ir embora” das filmagens. Baixaria à parte, o longa ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e ainda indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, dando a NORMA BENGELL a oportunidade do estrelato internacional.
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| alberto sordi e norma em “o mafioso” |
Em 1964, aos 30 anos de idade e no auge da beleza, voltou ao Brasil para filmar a obra-prima do diretor Walter Hugo Khouri, “Noite Vazia”, um dos melhores filmes da carreira dela. Nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz ela se casou com o italiano Gabriele Tinti (belíssimo e de filmografia inexpressiva, morreu em 1991, aos 59 anos), seu parceiro no filme, e a união durou até 1969. “Na minha carreira, trabalhei em lugares fantásticos e conheci pessoas fantásticas, mas minha vida privada era confusa. Passei por muitos amores e decepções”, confessou a atriz numa entrevista.
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| gabrielle tinti, o marido, e norma |
Em 1971, ela fez uma de suas melhores participações no cinema, no premiado “A Casa Assassinada”, de Paulo Cesar Saraceni. Por sua brilhante interpretação recebeu o Troféu de Melhor Atriz da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), prêmio que ainda receberia outras duas vezes por “Mar de Rosas” (1978) e “Eros, o Deus do Amor” (1981). Na época, decidiu se auto-exilar em Paris, onde continuou atuando no cinema e também na televisão e no teatro, trabalhando com o diretor Patrice Chéreau - um dos grandes intelectuais do teatro na França - em duas ocasiões: na peça “La Dispute”, de Marivaux, em 1973, e “Les Paraventes”, de Jean Genet, em 1983, que marcou sua despedida dos palcos franceses.
De
volta, continuou filmando. Ganhou o prêmio especial do júri do Festival de
Veneza por sua atuação em “A Idade da Terra” (1980). Mais uma vez no terreno do
escândalo, em 1984, NORMA BENGELL afirmou ter feito 16 abortos. No mesmo ano,
rodou com Mick Jagger o videoclipe da música “She's the Boss”. No início dos
anos 1990, o cinema brasileiro ficou bastante prejudicado e quase paralisado
com a extinção da Embrafilme pelo governo Fernando Collor de Mello, e durante
essa época ela se engajou politicamente na luta pela retomada do nosso cinema,
fazendo várias viagens à Brasília, onde aconteceu o famoso beijo no então
presidente Itamar Franco que deu o que falar. Em 2010, seu nome veio a tona
durante a campanha da pré-candidata do PT à presidência da República, Dilma
Rousseff, resultando em acusação da atriz de uso indevido de imagem por parte
da candidata. Após a fase mágica, finda a mocidade, batalhou para não ser
apenas um objeto do desejo, dirigindo e assinando o roteiro de “Eternamente
Pagu” (1988), protagonizado por Carla Camuratti, e “O Guarani” (1996), baseado
na obra de José de Alencar, entre outros. “O Guarani” foi um fracasso de
público e crítica, que lhe rendeu um massacre na imprensa. Ela brigou com uma
das roteiristas do filme e com críticos que deram avaliações negativas.
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| gloria menezes, norma e leonardo vilar |
Após anos gravando participações em trilhas sonoras e discos de outros artistas, lançou seu segundo LP em 1977, “Norma Canta Mulheres”. Apresentou, dirigida por Abelardo Figueiredo, um programa semanal de música popular brasileira na tevê Tupi, no qual recebia convidados especiais com os quais cantava em dueto. Participou, também, do programa “Carrossel” (TV Rio), apresentando-se semanalmente, e do programa “Noite de Gala” (TV Rio), ao lado de vários artistas. Mais tarde, contratada pela Globo, comandou o programa “Shell em Show Maior”, ao lado de Chico Buarque. Porém, o cantor só participou do primeiro programa, em função de sua timidez. Mais adiante ela fez parte do elenco das telenovelas “Os Adolescentes” e “Os Imigrantes”, na Rede Bandeirantes; da minissérie “Parabéns pra Você”, de Bráulio Pedroso; das telenovelas “Partido Alto”, de Aguinaldo Silva e Glória Perez, e “O Sexo dos Anjos”, de Ivani Ribeiro.
Poucos
meses antes de morrer, sem filhos, a senhora que foi uma das deusas do Brasil,
presente na música, no teatro, na tevê e, sobretudo, no cinema, passava semanas
sem sair de casa, sem uma fonte de renda regular e sem poder saldar as dívidas
acumuladas. Segundo a atriz, teria sido enganada por seu advogado e, por conta
disso, estaria devendo cerca de R$ 4 milhões à Receita Federal em imposto de
renda. Às voltas com as contas cotidianas e mais as despesas médicas, não sabia
o que fazer. As pernas inchadas e o tempo agindo sobre seu corpo, somente nos
raros sorrisos e no olhar – ainda enigmático – se notavam vestígios da NORMA
BENGELL de décadas atrás.
Por causa das pendências judiciais geradas com a produção de “O Guarani” seus bens e contas bancárias ficaram indisponíveis. Na época, ela usou leis de renúncia fiscal para levantar R$ 2,99 milhões. O Ministério da Cultura e o Tribunal de Contas da União identificaram irregularidades na prestação de contas e o caso parou na Justiça, gerando processos. “Chegaram a me acusar de não ter terminado o trabalho. Como podem dizer isso se o filme foi apresentado em horário nobre na Rede Globo para milhões de pessoas?”. Para piorar a situação, sua companheira de 25 anos (viviam sob o mesmo teto), Sonia Nercessian, fotógrafa e produtora, morreu em 2007 após um demorado sofrimento decorrente de câncer.
Por causa das pendências judiciais geradas com a produção de “O Guarani” seus bens e contas bancárias ficaram indisponíveis. Na época, ela usou leis de renúncia fiscal para levantar R$ 2,99 milhões. O Ministério da Cultura e o Tribunal de Contas da União identificaram irregularidades na prestação de contas e o caso parou na Justiça, gerando processos. “Chegaram a me acusar de não ter terminado o trabalho. Como podem dizer isso se o filme foi apresentado em horário nobre na Rede Globo para milhões de pessoas?”. Para piorar a situação, sua companheira de 25 anos (viviam sob o mesmo teto), Sonia Nercessian, fotógrafa e produtora, morreu em 2007 após um demorado sofrimento decorrente de câncer.
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| camila amado e norna em “vestido de noiva”, de nelson rodrigues, 1976 |
Depois
de gravar depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som, no Rio,
dando testemunho franco sobre o que viveu, organizou seu acervo pessoal
(filmes, fotos, revistas, cartas etc.), que foi doado para a Cinemateca
Brasileira, e finalizou um livro de memórias que preparava há décadas, “Norma - Coisas Que Vivi”.
Além disso, sonhava em dirigir “Tudo por Amor”, sobre sua trajetória, que
tinha roteiro pronto. Ela pensava em Alinne Moraes para interpretá-la. Seus
últimos filmes como atriz foram o longa “Vagas para Moças de Fino Trato”
(1992), de Paulo Thiago, e o curta “Banquete” (2002), de Marcelo Lafitte. Recebeu
uma homenagem emocionante na 10ª edição do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro,
realizado no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, levando um troféu das mãos
da atriz Marieta Severo. “Minha vida foi muito bonita, e ainda é”, disse numa
entrevista, sem disfarçar o tom melancólico e os olhos cheios d’água. A atriz
se queixava da solidão e do abandono dos amigos, e estava bastante doente. Faleceu
em 2013, aos 78 de idade, no Rio de Janeiro.
De
sex-symbol à atriz séria, dramática. NORMA BENGELL construiu uma carreira
belíssima, invejável, que poucas conterrâneas também alcançaram. Considerava-se
“uma operária, uma trabalhadora do cinema”. Seu nome estará para sempre unido
aos acontecimentos da cultura brasileira na segunda metade do último século. “Foi
o cinema que me fez conhecer o mundo inteiro, foi o cinema que me deu de comer,
que me fez ser amada e odiada. Então, esse cinema é a minha vida”. Teve uma
vida que não foi um “mar de rosas”, só para citar o filme de Ana Carolina que fez quando voltou do exílio, com Cristina Pereira e Hugo Carvana, e
sobre o qual ela falava com carinho. No papel de uma mãe em desesperada
trajetória em direção ao Rio de Janeiro, com a filha como num surto, uma
explosão, um delírio, o filme é bem ilustrativo dela mesma, de seu caminho,
inclassificável estrela.
Fontes:
“Enciclopédia do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, Ed.
Senac/São Paulo; “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1929/1988”, de
Salvyano Cavalcanti de Paiva)![]() |
| odete lara e norma em “noite vazia” |
BENGELL em DEZ FILMES
(1961)
MULHERES e MILHÕES
direção de Jorge Ileli
com Jece Valadão, Odete Lara, Glauce Rocha
Mário Benvenutti e Daniel Filho
(1962)
O PAGADOR de PROMESSAS
direção de Anselmo Duarte
com Leonardo Villar, Glória Menezes, Geraldo d’el Rey
e Othon Bastos
(1962)
Os CAFAJESTES
direção de Ruy Guerra
com Jece Valadão, Daniel Filho, Glauce Rocha
e Hugo Carvana
(1962)
O MAFIOSO
direção de Alberto Lattuada
com Alberto Sordi
(1964)
NOITE VAZIA
direção de Walter Hugo Khouri
com Odete Lara, Mário Benvenutti e Gabriele Tinti
(1968)
EDU, CORAÇÃO de OURO
direção de Domingos de Oliveira
com Paulo José, Leila Diniz, Joana Fomm
e Ziembinski
(1970)
Os DEUSES e os MORTOS
direção de Ruy Guerra
com: Othon Bastos, Ítala Nandi e Nelson Xavier
(1971)
A CASA ASSASSINADA
direção de Paulo César Saraceni
com Carlos Kroeber e Tetê Medina
(1980)
MAR de ROSAS
direção de Ana Carolina
com Otávio Augusto, Myrian Muniz e Hugo Carvana
(1981)
EROS, o DEUS do AMOR
direção de Walter Hugo Khouri
com Dina Sfat, Renée de Vielmond, Lillian Lemmertz
Christiane Torloni e Selma Egrei
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