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| renée falconetti em "a paixão de joana d'drc" |
Heroína e fábula católica, a lendária mártir JOANA D’ARC nasceu na pequena aldeia de Domrémy, em 1412, na região de Lorraine, França. Como se Deus tivesse ideologia política, a partir dos 13 anos de idade ela começou a ouvir vozes supostamente divinas que diziam para ajudar seu país a derrotar o exército inglês que a cada dia ganhava mais espaço dentro do território francês. Em 1429 entrou em contato com o rei Carlos VII, convencendo-o a lhe dar um exército para libertar a cidade de Orléans. Ela realiza o prometido, reacendendo o espírito nacionalista. Em setembro de 1430, ferida na tentativa de libertar Paris, termina nas mãos de seus inimigos. Inicialmente confinada no castelo de Reun, foi denunciada a Santa Inquisição, que a fez passar por um torturante período de julgamento até 30 de maio de 1431, quando, considerada herética, morreu queimada viva em uma fogueira, aos 19 anos. Quase cinco séculos depois, em 1920, foi canonizada.
O cinema não poderia deixar de contar essa intrigante história religiosa, e o fez inúmeras vezes desde os primórdios da cena muda. Entretanto, ninguém superou a versão de 1928 do dinamarquês Carl Theodor Dreyer, “A Paixão de Joana D’Arc/La Passion de Jeanne d’Arc”. Genuíno poema litúrgico que figura sempre nas listas dos dez melhores filmes de todos os tempos, causou uma revolução estética com a utilização sistemática e eloqüente dos grandes planos, desvendando a alma da Donzela de Orléans e de seus algozes, a brancura insolente e a abstração dos cenários, os enquadramentos imprevistos e a montagem minuciosa, e até hoje gera impacto com sua perfeição estilística a serviço da verdade interior. Segundo opinião da renomada Pauline Kael, o trabalho de Renée Falconetti “talvez seja a melhor interpretação de um ator já gravada em película”.
JEANNE D'ARC (1900), de Georges Méliès. Com Jeanne D’Alcy
VITA DI GIOVANNA D’ARCO(1909), de Mario Caserini. Com Maria Caserini
JOANA D’ARC/Giovanna D’Arco (1913), de Ubaldo Maria Del Colle. Com Maria Jacobini
LA COLPA DI GIOVANNA (1914), de Ugo Falena. Com Lea Campioni
JOANA D’ARC/ Joan the Woman (1916), de Cecil B. DeMille. Com Geraldine Farrar
A PAIXÃO DE JOANA D’ARC/La Passion de Jeanne d’Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer. Com Renée Falconetti
LA MERVEILLEUSE VIE DE JEANNE D’ARC (1928), de Marco de Gastyne . Com Simone Génevois
SANTA JOANA D’ARC/ Das Madchen Johanna (1935), de Gustav Ucicky. Com Angela Salloker
JOANA D’ARC/Joan of Arc (1948), de Victor Fleming. Com Ingrid Bergman
JOANA D’ARC DE ROSSELLINI/Giovanna d'Arco al Rogo (1954), de Roberto Rossellini. Com Ingrid Bergman
DESTINÉES (1954), de Jean Dellanoy. Com Michèle Morgan
SANTA JOANA/Saint Joan (1957), de Otto Preminger. Com Jean Seberg
O PROCESSO DE JOANA D’ARC/Le Procès de Jeanne D’arc (1962), de Robert Bresson. Com Florence Delay
GIOVANNA D’ARCO (1989), de Keith Cheethan e Werner Herzog. Com Susan Dunn
JOHANNA D’ARC OF MANGOLIA (1989), de Ulrike Ottinger. Com Ines Sastre
JEANNE LA PUCELLE : LES BATAILLES/LES PRISONS (1994), de Jacques Rivette. Com Sandrine Bonnaire
JOANA D’ARC/Joan of Arc (1999), de Luc Besson. Com Milla Jovovich
JOANA D’ARC/Joan of Arc (1999), de Christian Duguay. Com Leelee Sobieski
FALCONETTI em "A Paixão de Joana D'Arc"
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CONFIDENCIAL
RENÉE FALCONETTI
RENÉE FALCONETTI
Foi ao jantar que ela me contou sobre “A Paixão de Joana D’Arc”, de como um dia lhe haviam batido à porta e entrara esse homem que se sentara a seu lado, conversara meia hora com ela e lhe dissera que nunca faria a sua Joana d'Arc com outra atriz. E de como realmente a ocasião chegara, e Dreyer lhe falara do que ia ser o seu filme: o momento supremo de uma criatura, o quadro fundamental de uma vida de mulher. Não amava especialmente a Joana d'Arc. Queria, sim, revelar uma mulher. Para isso precisava de toda a sua atenção, de toda a sua dedicação, de sua renúncia absoluta. Fê-la chorar como experiência. E avisou-lhe que ela precisaria viver chorando, que não veria ninguém, que só trataria com ele, que precisaria da sua obediência absoluta. "Sofri muito", disse mme. Falconetti. "Foram cinco meses de tortura. Às vezes brigávamos. Perguntava-lhe: 'Mas m. Dreyer, se o senhor me deixasse um pouco de liberdade para a ação, eu poderia dar alguma coisa de mim mesma... Ele recusava-se formalmente. Obrigava-me à maior passividade. Filmava coberto por anteparos, para que ninguém me visse e nada me distraísse a atenção do que fazia. Acabada a cena, recolhia-me a uma casa de campo a que só ele tinha ingresso. Falava-me constantemente, incutindo-me a idéia da obra que queria realizar. Era-lhe uma idéia fixa”
"No dia em que acedi a que me raspassem a cabeça, coisa que ele me pedia sempre, foi de uma extraordinária doçura comigo. Mas nunca o vi tão áspero como quando, desobedecendo a uma ordem expressa sua, dei uma fugida a ver a ‘Joana d'Arc’, de Bernard Shaw. Ele soube e correu atrás de mim. Censurou-me amargamente de querer destruir-lhe o trabalho. 'Agora', disse-me, 'vai sair a Joana d'Arc de Shaw, e não a minha!". "Nunca mais quis fazer outro filme", suspirou ela. "Tive propostas para Hollywood, mas não as aceitei. Acabei o trabalho num estado de nervos inimaginável. Ao ver o filme pela primeira vez, detestei-o. Não havia nada meu. Era tudo de Dreyer. Cinema é isso, é o diretor. Engraçado", sorriu, "a grande crítica que se fez ao filme foi a sua falta de desenvolvimento, de progressão. Eu própria achei assim, vendo aquelas figuras em luz e sombra, paradas, lentas. Só mais tarde compreendi que não podia ser de outro modo, que tratava-se de uma visão, de um instante em cinema".
Mme. Falconetti disse outras coisas importantes sobre cinema e teatro, colocando-se sempre dentro de um recato perfeito no julgamento dessas artes. Ao me despedir dela apertei-lhe afetuosamente as mãos que Dreyer sujara de esterco para filmar. Seu rosto que nunca conheceu maquilagem em cinema traduzia um agradecimento. Tive vontade de dizer-lhe como era belo e eterno na minha lembrança seu rosto de Joana d'Arc…
Texto de VINICIUS DE MORAES
(Rio de Janeiro, 1942)

























