janeiro 15, 2017

************* A DISCRETA e SENSÍVEL ANNE BAXTER


Nasceu em 5 de maio de 1923, em Michigan City, Indiana, EUA. Faleceu em 12 de dezembro de 1985, em Nova Iorque.

Quanto mais a vejo, mais gosto desta atriz bonita, sexy e talentosa. Nascida numa família de classe alta, neta do renomado arquiteto Frank Lloyd Wright, seus pais sempre apoiaram seus sonhos de ribalta. Aos 13 anos ANNE BAXTER estreou numa peça na Broadway. Elogiada pelos críticos, investiu no estudo de arte dramática em Nova Iorque com a famosa professora e atriz russa Madame Maria Ouspenskaya (1876-1949). Seu temperamento forte muitas vezes resultou em confrontos entre elas. Aos 15 anos, submetida a um teste por David O. Selznick, quase foi escolhida para protagonizar o clássico “Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca” (1940), mas como se sabe quem levou o papel foi Joan Fontaine. Saltou do teatro para o cinema em 1940, aos 17 anos, participando em 50 produções, além de filmes e séries para a TV.

anne e o oscar
Contratada da 20th Century Fox por 12 anos, trabalhou com diretores de primeira qualidade como Orson Welles, John M. Stahl, Billy Wilder, Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Joseph L. Mankiewicz, Otto Preminger, Edmund Goulding, Lewis Milestone e Anthony Mann. No entanto, antes de fazer um filme na Fox, foi emprestada a Metro-Goldwyn-Mayer para o western “Punhos de Ferro / 20 Mule Team” (1940), estrelado pelo ótimo grandalhão Wallace Beery. Eu não vi este primeiro filme de ANNE BAXTER. De volta à Fox, naquele mesmo ano, ela interpretou Mary Maxwell em “O Eterno Don Juan / The Great Profile” (1940), que foi um fracasso de bilheteria, mas é estrelado pelo grande John Barrymore. A comédia é apenas uma paródia da vida do próprio astro que, como sabemos, envolveu muita bebida, raiz de seu comportamento tempestuoso no set e em seus relacionamentos pessoais.

No ano seguinte, ela apareceu em “O Segredo do Pântano” (1941), uma das figuras centrais de um elenco precioso: Walter Brennan, Walter Huston, Dana Andrews. Foi o primeiro papel que realmente valeu alguma coisa, mas os críticos não ficaram impressionados com ela nem com o filme simpático dirigido pelo mestre francês Jean Renoir. Linda Darnell, originalmente escalada para interpretar a filha de um fugitivo que se refugiou nos pântanos, acabou substituída por ANNE BAXTER. Ela nunca escondeu sua decepção e se tornaram inimigas.

john hodiak e anne
Em seguida, a vez da fabulosa produção dirigida e escrita por Orson Welles, “Soberba”. Obra-prima inquestionável. A atriz fez Lucy Morgan, a filha de Joseph Cotten. Indicada a quatro prêmios da Academia, incluindo Melhor Filme - e com razão. Em 1943, ela apareceu no sucesso de crítica e público “Estrela do Norte / The North Star” (1943). Ao rodar “Um Sonho de Domingo / Sunday Dinner for a Soldier” (1944) conheceu seu primeiro marido, John Hodiak. Casaram-se em 1947. Atuou na comédia sofisticada “Czarina”, co-estrelada pela diva da Broadway Tallulah Bankhead, Charles Coburn e Vincent Price. Produzido por Ernst Lubitsch e dirigido por Otto Preminger, baseou-se vagamente na vida de Catarina, o Grande.

Seis anos depois da estreia cinematográfica veio a consagração, fazendo a alcóolatra Sophie MacDonald em “O Fio da Navalha”, adaptado do emocionante romance de W. Somerset Maugham, que lhe valeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e o Globo de Ouro. Grande sucesso produzido com maestria por Darryl F. Zanuck, tem uma das melhores atuações de Tyrone Power. ANNE BAXTER está impressionante, iluminada. Em 1947, ela estrelou “Quatro Irmãos a Queriam / Blaze of Noon”, com William Holden. Emprestada outra vez a M-G-M fez o drama de guerra “O Amor que me Deste / Homecoming” (1948) com Clark Gable, Lana Turner e o maridão John Hodiak. Em seguida, outro bom filme, “As Muralhas de Jericó / The Walls of Jericho” (1948) com Cornel Wilde, Linda Darnell e Kirk Douglas.

Em 1950 estrelaria o seu filme mais conhecido, “A Malvada”, ao lado de Bette Davis, Celeste Holm, George Sanders, Gary Merrill e Thelma Ritter. Claro que não podemos esquecer a recém-chegada Marilyn Monroe em seu pequeno papel. O brilhante desempenho de ANNE BAXTER como a ardilosa Eve Harrington conquistou o público. Foi inicialmente convidada para o papel por causa de sua semelhança com Claudette Colbert, que faria Margo. Em busca do Oscar para as suas duas estrelas, a Fox tentou Anne para a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Ela se recusou a ser vendida como coadjuvante. Ambas as atrizes foram nomeadas ao Oscar de Melhor Atriz e ambas perderam (injustamente) para a Judy Holliday de “Nascida Ontem / Born Yesterday” (1950).


Como tantas outras, ela começou a receber menos ofertas de filmes. Em 1953 rodou “A Tortura da Suspeita”, co-estrelado por Montgomery Clift. Fez bem na bilheteria, mas não é memorável, embora seja dirigido por Alfred Hitchcock. Também estrelaria o criminal noir “Gardênia Azul”, com o mestre Fritz Lang no comando. Em 1956 foi contratada para fazer Sephora no superprodução de Cecil B. DeMille, “Os Dez Mandamentos”, ao lado de Charlton Heston e Yul Brynner. Audrey Hepburn havia sido escalada para Nefertiri, mas o diretor rejeitou sua figura delgada. ANNE BAXTER assumiu o papel, arrebatando o personagem que todas as atrizes disputavam. Nefretiri foi considerado pela colunista Louella Parsons como “o papel mais procurado do ano”. A atriz está deslumbrante como a rainha egípcia. Nunca esteve tão bela em toda sua carreira. Este épico religioso é um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema. Obteve sete indicações ao Oscar e uma vitória para efeitos especiais.

A atriz ficou sete anos casada com John Hodiak, com quem teve uma filha e de quem se divorciou em 1953. Ele morreu apenas um ano após o divórcio, de um ataque cardíaco, em sua casa em Tarzana, Califórnia. Durante os anos 1960, na Austrália, iria encontrar seu segundo marido, Randolph Galt, um norte-americano morando em Sydney, onde era dono de um grande rebanho de gado. Ela roubou seu coração e se apaixonou por uma bela paisagem. Viveu com ele em uma fazenda, onde escreveu um livro sobre a experiência vivida, “Intermission: A True Story”, bem recebido pela crítica. Casou-se uma terceira vez em 1977, com o banqueiro David Klee, que a deixou viúva um ano depois do casamento.

No final dos anos 50, insatisfeita com os papéis oferecidos, ela se voltou para as aparições na televisão em séries como “Playhouse 90”, “Wagon Train”, “Riverboat” e “Dr. Kildare”. Nos anos 1960, fez duas vilãs, Zélia, a Grande, e Olga, Rainha dos Cossacos, em episódios de “Batman”. Começou a engordar com facilidade e a enfrentar enormes dificuldades para manter o peso, mas era definida pelos diretores que trabalharam com ela como uma excelente atriz, discreta e sensível. Assim que finalizou “Pelos Bairros do Vício / Walk on the Wild Side” (1962), ficou um bom tempo sem filmar, continuando a aparecer frequentemente nos palcos e na televisão. Depois de ter se divorciado de Galt, ANNE BAXTER interpretou Margo Channing em “Aplausos”, a versão musical de “A Malvada” na Broadway. Substituiu Lauren Bacall, que já havia vencido um Tony por seu papel. Seu último papel foi a Irene Adler no drama de TV “The Mask of Death” (1984).

Boa amiga da atriz Maureen O`Hara e da lendária figurinista da Paramount, Edith Head, madrinha de uma das suas filhas, ela era uma republicana firme que deu muito do seu tempo e dinheiro para causas políticas conservadoras. Participou de convenções nacionais republicanas, galas e arrecadação de fundos, e atuou nas campanhas de Dwight D. Eisenhower, Richard Nixon e Ronald Reagan. Mantinha sua residência principal em Easton, Connecticut, em uma propriedade desde a década de 1970 até sua morte, aos 62 anos, vítima de aneurisma cerebral. Sofreu um desmaio em plena Madison Avenue, em Nova Iorque, quando se dirigia ao cabeleireiro, e foi levada para o hospital mais próximo, mas não resistiu. Ela se mantinha ocupada recebendo suas filhas e em aparições ocasionais em programas de televisão como “O Barco do Amor”, “Hotel” e “Mannix”. Sua vitoriosa carreira durou mais de cinco décadas.

13 GRANDES FILMES de ANNE BAXTER
(por ordem de preferência)

01
A MALVADA
(All About Eve, 1950)

de Joseph L. Mankiewicz
com Bette Davis, George Sanders, Celeste Holm, 
Thelma Ritter e Marilyn Monroe

02
O FIO DA NAVALHA
(The Razor's Edge, 1946)

de Edmund Goulding
com Tyrone Power, Gene Tierney, John Payne, 
Clifton Webb e Herbert Marshall

03
CÉU AMARELO
(Yellow Sky, 1948)

de William A. Wellman
com Gregory Peck e Richard Widmark

04
A TORTURA DO SILÊNCIO
(I Confess, 1953)

de Alfred Hitchcock
com Montgomery Clift, Karl Malden e Brian Aherne

05
GARDÊNIA AZUL
(The Blue Gardenia, 1953)

de Fritz Lang
com Richard Conte, Ann Sothern e Nat King Cole

06
O SEGREDO DO PÂNTANO
(Swamp Water, 1941)

de Jean Renoir
com Walter Brennan, Walter Huston e Dana Andrews

07
OS DEZ MANDAMENTOS
(The Ten Commandments, 1956)

de Cecil B. DeMille
com Charlton Heston, Yul Brynner, Edward G. Robinson, 
Yvonne De Carlo, Debra Paget, Nina Foch, 
Martha Scott, Judith Anderson e John Derek

08
SOBERBA
(The Magnificent Ambersons, 1942)

de Orson Welles
com Joseph Cotten, Dolores Costello. Tim Holt 
e Agnes Moorehead

09
CINCO COVAS NO EGITO
(Five Graves to Cairo, 1943)

de Billy Wilder
com Franchot Tone, Akim Tamiroff e Erich von Stroheim

10
MERGULHO NO INFERNO
(Crash Dive, 1943)

de Archie Mayo
com Tyrone Power e Dana Andrews

11
CZARINA
(A Royal Scandal, 1945)

de Otto Preminger
com Tallulah Bankhead, Charles Coburn, William Eythe 
e Vincent Price

12
CIMARRON – JORNADA DA VIDA
(Cimarron, 1960)

de Anthony Mann
com Glenn Ford, Maria Schell e Mercedes McCambridge

13
O AMOR QUE ME DESTE
(Homecoming, 1948)

de Mervyn LeRoy
com Clark Gable, Lana Turner, John Hodiak 
e Gladys Cooper

GALERIA de FOTOS

 
 

janeiro 08, 2017

************************************* 12 FILMES de 2016


O que foi lançado nas telas de cinema no ano de 2016 ainda está tão recente que muita gente não viu alguns dos seus melhores filmes. Para essa turma e para os cinéfilos que querem relembrar o melhor da produção da sétima arte do ano passado, o blog “O Falcão Maltês” olha para trás e elabora sua lista. Alguns filmes foram produzidos em 2015, 2014 e até 2011. A grande maioria vi em DVD.

Entre os 12 preferidos, cito a sensível fita pernambucana “Boi Neon”. Ela é a principal recompensa do cinema nacional em 2016. “Pequeno Segredo”, que disputou vaga no Oscar na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, não empolga. Festejado pela esquerda, “Aquarius” se autodestrói na pretensão sonífera e no oportunismo político.  “Nise – O Coração da Loucura” é show de Glória Pires. Falta ver o esperado “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Vinicius Coimbra. A versão de Roberto Santos em 1965 é um dos melhores filmes do cinema brasileiro.

Sem mais delongas, estes são os 12 GRANDES FILMES de 2016. Eles me surpreenderam. Não deixe de assisti-los.

01
FILHO DE SAUL
(Saul Fia, 2015)
de László Nemes

drama de guerra
elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár e Urs Rechn
Hungria

De experimentação visual, sua carreira internacional vem desde Cannes 2015. Durante a II Guerra Mundial, em 1944, um prisioneiro é forçado a trabalhar nas instalações da câmara de gás, preparando outros judeus para a morte, e depois no recolhimento dos corpos. Ele encontra sobrevivência moral quando tenta salvar da fornalha o cadáver de um menino que acredita ser seu filho.

Retrata os terrores do campo de concentração de Auschwitz inovando na linguagem: em enquadramentos fechados, a câmera segue de perto os passos de seu protagonista. Ele carrega no rosto envelhecido e nos olhos baços o inconformismo e o desespero da guerra, como se sua desgraça, individualmente, fosse capaz de representar a dos outros 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas.

O fato de o protagonista ser sempre o ponto de referência visual, torna o entorno uma massa disforme, e só nos resta imaginar o horror. Mas o poder de sugestão do cinema é macabro.

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes
Melhor Filme Estrangeiro da Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles
Melhor Filme Estrangeiro no National Board of Review

02
NA VENTANIA
(Risttuules, 2014)
de Martti Helde

drama
elenco: Laura Peterson, Tarmo Song e Mirt Preegel
Estonia

Estudante de filosofia e sua filha são enviadas a um campo de trabalho forçado durante a II Guerra Mundial. Elas sobrevivem neste cenário com muito pouco para se alimentar. O longa faz uma alegoria da deportação de estonianos pelo regime stalinista no início dos anos 1940, com uma estética radical, na qual a câmera caminha por cenários e locações em que os personagens estão paralisados, mostrando o terror diante do autoritarismo.

03
O ABRAÇO DA SERPENTE
(El abrazo de la serpiente, 2015)
de Ciro Guerra

aventura
elenco: Nilbio Torres, Jan Bijvoet e Antonio Bolivar
Colombia, Venezuela e Argentina

Representante colombiano na disputa pelo Oscar 2016, recorre a uma bela fotografia em preto e branco para traçar um retrato dos povos indígenas na Amazônia, mostrando como a cultura nativa se transformou ao longo do tempo e como foi afetada pela presença do homem branco. Na história, o relacionamento entre Karamakate, um xamã amazônico e último sobrevivente de seu povo, e dois cientistas que trabalham juntos por 40 anos para procurar na Amazônia uma planta de cura sagrada.

“Estamos diante de uma fabula que nasceu das cores da selva, da profusão de sensações que eu experimentei”, disse o diretor, completando “o filme levou-me a buscar um novo estado de espírito na direção do sonho, de modo que eu pudesse me libertar de referências sensíveis do próprio cinema e buscar o entendimento da novidade à minha frente sem a muleta da lógica”.

04
ANIMAIS NOTURNOS
(Nocturnal Animals)
de Tom Ford

thriller
elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e Laura Linney
EUA

A trama mostra uma mulher que recebe um manuscrito do livro de seu ex-marido, um homem a quem ela deixou há 20 anos, pedindo sua opinião. Costurando o presente e o passado com a história do romance, o ícone da moda Tom Ford dá um expressivo salto adiante em seu cinema. O livro, intitulado “Animais Noturnos”, fala de um homem cuja família de férias se torna violenta e mortal. As três tramas reforçam o entendimento uma da outra, discutindo traição, vingança, herança e percepção.

Nesse desconfortável exercício altamente dramático, o diretor mantém seu total domínio elegante. Visualmente, o filme é impecável. Vai do ultra chique e moderno ao grotesco e ao natural sem perder o ritmo. Adaptado do romance “Tony and Susan”, de Austin Wright, cria um universo tenso, perturbador. Também extrai atuações memoráveis de Amy Adams, Gyllenhaal, Aaron Taylor-Johnson e Michael Shannon.

Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza

05
CAROL
(Idem, 2015)
de Todd Haynes

drama
elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara e Kyle Chandler
Inglaterra, EUA e Austrália

As obras de Todd Haynes preservam a intimidade - ou as aparências. A diferença de “Carol” para “Longe do Paraíso” ou “Mildred Pierce” é, principalmente, a possibilidade da cumplicidade entre iguais: duas mulheres que no seu amor clandestino têm uma à outra para se proteger dos “perigos” da sociedade. Na narrativa, uma atendente de loja de departamentos, que sonha com uma vida melhor, apaixona-se por uma mulher mais velha e casada.

Talvez seja o drama mais estético do diretor - numa carreira que parece demonstrar predileção pelos anos 1950 de Douglas Sirk, justamente pela oportunidade de recriar cenários, figurinos e cenas do esplendor e luz do american way of life - essa impressão se reforça na relação de mentora e aprendiz. Através da amante mais velha, a garota simplória descobre não apenas o amor, como desenvolve principalmente um olhar crítico. Juntas, parecem enxergar coisas que ninguém mais vê.

Um drama intimista, belo e distante, exercitado na beleza e no silêncio, e coroado por excelentes atuações.

Melhor Filme no Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

06
ELLE
(Idem)
de Paul Verhoeven

thriller
elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte e  Anne Consigny
França, Alemanha e Bélgica

Visto por cerca de meio milhão de pagantes em solo francês, foi escolhido para representar a França na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Concorre também ao Globo de Ouro na mesma categoria. Sustentado por uma performance inesquecível de Isabelle Huppert, é uma obra polêmica, feita pelo diretor septuagenário holandês Paul Verhoeven (de “Instinto Selvagem / Basic Instinct”, 1992) em sua melhor forma, como não se via desde a década de 1990.

Cercado de elogios, o suspense erótico aborda de forma explosiva uma empresária da indústria de games, acompanhando o quanto se aprofunda em seu lado mais sombrio após sofrer um abuso sexual. A invasão de seu lar por um suposto ladrão, que a violenta, parece algo superado, até que começa a se armar de cutelos e aparelho de choque, sem que isso altere seu dia a dia com os funcionários, o filho e o amante. Ela resolve descobrir quem é o homem que a violentou, e por que a escolheu.

07
FRANCOFONIA – LOUVRE SOB OCUPAÇÃO
(Francofonia, 2015)
de Aleksandr Sokurov

documentário
França, Alemanha e Holanda

Assistir à uma obra do russo Sokurov não é tarefa fácil. O estilo do cineasta é complexo – e isso fica perceptível com a narrativa arrastada que pode facilmente dispersar a atenção dos menos pacientes. Neste seu mais recente trabalho, acolhido com fervor em Veneza no ano passado, ganhou o prêmio de Melhor Filme Europeu no festival. Sem uma estrutura de roteiro bem definida e conduzido de forma quase experimental, ambienta-se na década de 1940, na França ocupada pela Alemanha Nazi.

Relata o encontro de Jacques Jaujard, ex-diretor do Museu do Louvre, e o conde Franz von Wolff-Metternich, um oficial alemão. A aliança entre os dois foi primordial para a preservação do patrimônio do museu durante a Segunda Guerra Mundial. A partir deste fio condutor, Sokurov divide a trama em partes distintas, que se alternam entre si para dissecar um período da história daquele que é considerado o maior museu francês.

Utilizando-se de um argumento que mistura documentário e ficção, o irreverente Sokurov disserta sobre a força da arte como instrumento de depósito das memórias de uma nação – daí a importância de sua conservação.

08
CINCO GRAÇAS
(Mustang, 2015)
de Deniz Gamze Erguven

drama
elenco: Günes Sensoy, Doga Zeynep Doguslu e Tugba Sunguroglu
França, Alemanha, Turquia e Qatar

Dirigido pela estreante turca Deniz Gamze Ergüven, a trama se passa numa vila do Norte da Turquia, a centenas de quilômetros da cosmopolita Istambul, e segue cinco irmãs que acabaram de sair da escola e comemoram o início das férias ao lado dos meninos. Talvez comemorem com ânimo demais para os padrões locais, porque a avó e o tio das meninas, órfãs de pais, decidem que o melhor a fazer é mantê-las sob vigilância, aprendendo a ser dona de casa e boa esposa, até que os adultos encontrem maridos para as cinco.

A combinação do caráter obviamente progressista da história com os momentos de humor e catarse da libertária rebeldia juvenil forma um pacote irresistível para agradar o grande público. À falta de um roteiro mais complexo, a diretora se ampara no seu ótimo e fotogênico elenco jovem. Ela trata com naturalidade de anseios juvenis num país enraizado em tradições religiosas. O resultado é um filme de exportação, pronto para prêmios. Concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2016 e ao Globo de Ouro. Ganhou o César de Melhor Primeira Obra.

09
O CAVALO DE TURIM
(A Torinói Ló, 2011)
de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

drama
elenco: János Derzsi, Erika Bók e Mihály Kormos
Hungria, França, Alemanha, Suíça e EUA

Inspirado em um incidente envolvendo o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900), que, em 1899, teria sofrido uma crise nervosa ao ver um cavalo sendo chicoteado na frente de sua casa, o drama resulta num retrato do forte laço que existe entre pai e filha. Fazendeiros, dividem um cotidiano dominado pela monotonia. A realidade dos dois é repetitiva e as mudanças são raras. Enquanto isso, o cavalo da família se recusa a comer e a andar. Preste atenção na extraordinária fotografia e nas minuciosas atuações.

Urso de Prata no Festival de Berlim

10
 A GAROTA DINAMARQUESA
(The Danish Girl, 2015)
de Tom Hooper

drama
elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander e Amber Heard
Inglaterra, EUA, Alemanha, Dinamarca e Bélgica

Eddie Redmayne interpreta alguém que não se vê no corpo de um homem. Ele é um pintor dinamarquês, casado, de relativo sucesso. Mas quer assumir sua identidade feminina. O trabalho do ator – do andar feminino à fala que dispensa a apelação do falsete – confere ao filme a sutileza que falta no roteiro e na direção.

Casado com uma também pintora, a protagonista foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero no mundo, e se tornou Lili Elbe. Isso na década de 1920. Em um curto espaço de tempo, Redmayne interpretou papéis marcantes, mas se supera com essa performance estonteante. O filme fundamenta-se em sua magnífica atuação.

11
BOI NEON
(2015)
de Gabriel Mascaro

drama
elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings e Josinaldo Alves
Brasil, Uruguai e Holanda

Uma obra esteticamente sofisticada que procura escapar dos estereótipos sexuais a partir da história do vaqueiro cujo sonho é ser estilista. Nos bastidores das vaquejadas, ele prepara os bois antes de soltá-los na arena. Levando a vida na estrada, o caminhão que transporta os bois para os eventos é também a casa improvisada dele e de seus colegas de trabalho. Juntos, eles formam uma família unida. Mesmo com o cotidiano intenso e visceral, novas ambições inspiram o vaqueiro. Deitado em sua rede na traseira do caminhão, sua cabeça divaga em sonhos de lantejoulas, tecidos requintados e croquis.

O primeiro filme do diretor com atores profissionais. Personagens interessantíssimos, expostos na intimidade. Registra cidadãos que alimentam sonhos, mas que precisam sobreviver e acabam tomando outro rumo. Tecnicamente primoroso. Bela fotografia de Diego Garcia. Um bom elenco, destacando-se Juliano Cazarré, que soube compor a masculinidade delicada do personagem.

Melhor Filme no Festival de Havana

12
45 ANOS
(45 Years, 2015)
de Andrew Haigh

drama
elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James
Inglaterra

A partir de um tratamento sóbrio, mas sempre estimulante, o diretor britânico extrai incansavelmente novas camadas do retrato de um relacionamento maduro. Com muito mérito, foram premiadas como as melhores interpretações do Festival de Berlim, os veteranos atores ingleses Charlotte Rampling, 70 anos, e Tom Courtenay, de 79. Um dos grandes prazeres de assistir ao filme é presenciar como eles encarnam o dilacerante confronto de um velho casal na semana em que completam 45 anos de vida juntos.

Num tom sutil, o diretor leva os espectadores a compartilhar a rotina terna deste par, que se prepara para a festa destas mais de quatro décadas de convivência. Mas a tranquilidade é abalada pela chegada de uma carta. O tema em si, extraído de um conto de David Constantine, não é raro ou incomum. O que torna o filme peculiar é a maneira como este episódio vai sendo desvendado e vivido, de formas distintas, pelo casal até então tão unido na crença de conhecer completamente um ao outro. É de sentimentos que o filme fala, tocando profundamente.

ATRIZ do ANO

ISABELLE HUPPERT
por “Elle”

Melhor Atriz da Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles
Indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz-Drama
Melhor Atriz do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York

seguida por
Meryl Streep por “Florence: Quem é essa mulher? / Florence Foster Jenkins”
Natalie Portman por “Jackie / Idem”

ATOR do ANO

LEONARDO DiCAPRIO
por “O Regresso / The Revenant” (2015)

Oscar de Melhor Ator
Globo de Ouro de Melhor Ator-Drama
BAFTA de Melhor Ator

seguido por
Casey Affleck por “Manchester à Beira-Mar / Manchester by the Sea”
Denzel Washington por “Cercas / Fences”

DIRETOR do ANO

TODD HAYNES
por “Carol”