outubro 25, 2010

*********** CLAIRE TREVOR: CORPO E ALMA



Notável atriz de origem irlandesa e francesa, famosa por interpretar amantes, criminosas e prostitutas, estreou em 1931 no teatro e em 1933 no cinema, prolongando sua carreira por seis décadas. Carismática, charmosa e intérprete fascinante, freqüentemente contracenou com astros como Spencer Tracy, Humphrey Bogart, Edward G. Robinson, Glenn Ford, William Holden, Clark Gable e John Wayne. Com forte presença em cena, o sucesso finalmente chegou para CLAIRE TREVOR como a meretriz Dallas do western de John Ford, “No Tempo das Diligências (1939). Ganhou um Oscar de coadjuvante por “Paixões em Fúria” (1948), de John Huston, interpretando uma ex-cantora que se entrega ao alcoolismo. Foi indicada duas outras vezes.

Destacou-se como mulheres inteligentes e frias em filmes noir clássicos: “Até a Vista, Querida” (1944), “Nascido para Matar” (1947), “Entre Dois Fogos” (1948) e “Império do Crime” (1950). Dirigida por William Wyler, Vincente Minnelli, King Vidor, William A. Wellmann, Anthony Mann, Robert Wise, Anatole Litvak e Raoul Walsh, participou de várias séries famosas de TV (“Os Intocáveis”, “Dr. Kildare”, “Alfred Hitchcock Apresenta” etc.) e ganhou um Emmy como melhor atriz. Sua última participação no cinema aconteceu na comédia “Meu Adorável Fantasma” (1982), de Robert Mulligan, adaptada do romance de Jorge Amado. Faleceu em 2000, aos 90 anos. Casada três vezes, seu único filho morreu num acidente de avião.

************ CENA DE "ALMAS PERVERSAS"


joan bennett como kitty march

O FURADOR DE GELO

Descobre-se que o primeiro marido de Adele ainda vive. Christopher (Edward G. Robinson), o segundoi marido, está livre para se casar com Kitty March (Joan Bennett), a prostituta que ele vem sustentando e pela qual desviou fundos da empresa. Ao correr para o quarto dela, convicto de que ela o escolherá, em detrimento de seu namorado vigarista Johnny (Dan Duryea), encontra-a na cama, de négligé.

Kitty: O que você veio fazer aqui?
Christopher: Pedir-lhe que case comigo.
Kitty: E a sua mulher?
Christopher: Não tenho mulher alguma. Acabou.
Kitty: Pelo amor de Deus, você não...
Christopher: O marido dela apareceu. Estou livre. (Ela esconde o rosto num travesseiro) Não me importa o que aconteceu. Posso casar com você agora. Quero que seja minha mulher. Vamos embora juntos. Para bem longe, assim você poderá esquecer esse outro homem. Por favor, não chore, Kitty.
Kitty (erguendo-se e encarando-o): Não estou chorando, seu imbecil. Estou rindo.
Christopher: Kitty!
(Chocado, ele dá um passo para trás e esbarra no balde de gelo. Pega o furador de gelo.)
Kitty: Tive vontade de rir na sua cara desde a primeira vez que o vi. Você é velho e feio e estou cheia de você. Cheia, cheia, cheia!
Christopher: Kitty, pelo amor de Deus!
Kitty (sentando-se em atitude de desafio, com as mãos nos quadris): Você vai matar Johnny? Queria ver você tentar. Ora, ele lhe quebraria todos os ossos do corpo. Ele é um homem. Você quer casar comigo? Você? Caia fora daqui! Fora! Vá para longe de mim.
(Enquanto ele avança ameaçadoramente na direção dela com o furador de gelo) Chris! Chris! Fique longe de mim! Chris! Chris!
(Ela tenta se esconder sob as cobertas. Ele a perfura repetidas vezes)

ALMAS PERVERSAS (Scarlet Street), de Fritz Lang, 1945, EUA, policial. P& B, 103 mins. Com Edward G. Robinson, Joan Bennett, Dan Duryea, Margaret Lindsay e Rosalind Ivan.

******* ALBERT DEKKER: JOGO SEXUAL TRÁGICO


 

De longa carreira no cinema norte-americano (1935 a 1968), ALBERT DEKKER (1905-1968) era um coadjuvante de prestígio, tendo no currículo filmes como "Beau Geste" (1939), "A Luz é para Todos" (1947), "Vidas Amargas" (1955) e "De Repente, No Último Verão" (1959). Bastante elogiado pelo assassino cruel de "Os Assassinos" (1946) e o perigoso traficante de combustível atômico no filme noir "A Morte num Beijo" (1955), sua última atuação foi no clássico e violento western, "Meu Ódio Será sua Herança", de Sam Peckinpah, lançado em 1969. Destacou-se na Broadway desde o final dos anos 1920, protagonizando montagens importantes como "A Morte de Um Caixeiro Viajante" (de Arthur Miller) e "O Homem que não Vendeu sua Alma" (de Robert Bolt).

Em 05 de maio de 1968, sua noiva o encontrou morto, em sua casa de Hollywood. Estava nu, ajoelhado na banheira com a mangeira do chuveiro em volta do pescoço, algemado, amordaçado, vendado e com palavras eróticas rabiscadas de batom carmim em todo o corpo. A polícia declarou como morte acidental, resultado de práticas sexuais extremas. Aos 62 anos, o ator teria morrido por uma parada cardíaca provocada pela asfixia autoerótica. A satisfação sexual que Dekker teria buscado tem origem na redução no fluxo sanguíneo do cérebro. Durante a masturbação, a falta de oxigênio e a elevação da taxa de dióxido de carbono decorrentes do estrangulamento parcial levam a uma sensação de tontura, que pode tornar o orgasmo mais intenso. Ao chegar a esse estágio, há um alto risco de o praticante relaxar demais e não alargar o nó do laço no pescoço antes que a passagem de ar seja bloqueada totalmente. As autoridades acreditam que isso motivou a morte de ALBERT DEKKER. Anos depois, o “Kung Fu” David Carradine morreria da mesma maneira.

************** SALA VIP: "NARCISO NEGRO"


NARCISO NEGRO
BLACK NARCISSUS
(1947)

País: Inglaterra
Gênero: Drama
Duração: 100 mins.
Cor
Produção, Direção e Roteiro: Emeric Pressburger e
Michael Powell (Rank)
Adaptação da novela de Rumer Godden
Fotografia: Jack Cardiff
Edição: Reginald Mills
Música: Brian Easdale
Cenografia: Alfred Junge
Vestuário: Hein Heckroth
Elenco:
Deborah Kerr (“Irmã Clodagh”), Sabu (“Dulip Rai”),
David Farrar (“Mister Dean”), Flora Robson (“Irmã Philippa”),
Esmond Knight, Kathleen Byron (“Irmã Ruth”),
Jean Simmons (“Kanchi”), Jenny Laird e Judith Furse

Nota: ***** (ótimo)

Prêmios:
Oscar de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte;
Globo de Ouro de Melhor Fotografia;
Melhor Atriz (Kerr) do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Yorque

NO CORAÇÃO DO DELÍRIO

De poderosa personalidade visual e arrebato estético, capaz de encantar com o estilo clássico, considerou-se no seu lançamento como um capricho exótico e inclassificável dos ingleses Powell e Pressburger. Impressiona pela concentração dramática e elenco feminino de peso, com Deborah Kerr numa vibrante atuação que a levou ao estrelado (e a Hollywood), seguida de perto pelo talento de Flora Robson, Kathleen Byron e uma jovem e lasciva Jean Simmons. O argumento fala de um grupo de feiras que chegam a um improvisado convento, situado num antigo palácio de um remoto lugar no Himalaia. Só que a história pouco importa, os diretores optaram por potencializar a atmosfera voluptuosa e a excitação física, num frenesi sem pudor e expressionista, beirando o fantástico ou o delírio. Obra-prima genuína, de cenários inquietantes e fotografia de sonho, seduz pela narrativa irracional, lirismo, relâmpagos simbolistas e dimensão metafórica. Um filme de muitos quilates.


******** AS CONFISSÕES ÍNTIMAS DE SOPHIA


sophia loren em 1959

“Trabalhava como modelo fotográfico das revistas Fumetti, que publicam histórias românticas em quadrinhos. O salário era pequeno, mas suficiente para viver. Mantive essa profissão durante dois anos e meio até que algo aconteceu que mudou completamente o rumo de minha existência. Uma noite, numa das minhas raras saídas, fui a boite com um colega da revista, a fim de assistir ao concurso de beleza que estava tendo lugar ali. A determinada altura, um garçom trouxe-me um cartão de visita de um dos juízes, dizendo que ele queria falar comigo. O cartão trazia o nome de Carlo Ponti. Eu sabia que Mr. Ponti era um dos mais importantes produtores de filmes da Itália. Encaminhei-me para sua mesa.- Por que a “signorina” não está no concurso? - perguntou-me. - Ora, porque não sou bonita como as outras garotas! - respondi com sinceridade. - Bobagem - exclamou Ponti. - Vou inscrevê-la.

Não ganhei o concurso, mas após o mesmo, Mr. Ponti convidou-me para fazer um teste cinematográfico. Quase desmaiei ante a idéia. A princípio, pensei que tudo não passasse da habitual conversa de um velho conquistador, pois Ponti tinha o dobro da minha idade. Mas o tempo provou que seu interesse era genuíno e que de fato via possibilidade na minha pessoa. Passei a admirá-lo profundamente e uma grande amizade nasceu entre nós - amizade que os anos transformariam em amor.

Fui bem sucedida no teste, mas como ainda precisasse de experiência, Carlo arranjou para que eu freqüentasse uma escola de arte dramática, a fim de aprender os rudimentos da representação e da boa dicção. Quando me julgou suficientemente preparada, lançou-me, dando-me também um sobrenome: Loren. Participei de 29 produções durante o período de três anos. Do quarto escuro de uma pensão da zona pobre, passei para um belo apartamento no melhor bairro de Roma. Minha carreira nada deixava a desejar. Mas quando a Paramount mandou-me oferecer um contrato para vir a Hollywood, fiquei assustada. A maioria das minhas compatriotas atrizes haviam participado de filmes norte-americanos feitos no estrangeiro, mas quando fixavam residência em Hollywood e tentavam competir de perto com as estrelas locais, acabavam fracassando. Isa Miranda, Alida Valli e Rossana Podestá eram bons exemplos. Ao mesmo tempo, algo me impelia a aceitar a proposta, pois sabia que só em Hollywood uma atriz alcança a fama internacional.

Após a fase de festas - que parecia não acabar nunca - comecei um trabalho intenso, preparando-me para vencer em Hollywood. Aperfeiçoei o meu inglês e, sem um período de férias fiz vários filmes. Até agora, tudo indica que não fracassei, como temia, pois já me sinto parte da cidade e da colônia cinematográfica. Financeiramente, encontro-me em pé de igualdade com as grandes estrelas norte-americanas, recebendo a média de 300.000 dólares por filme. Contudo, o verdadeiro responsável por essa situação privilegiada que hoje ocupo é o homem que acreditou nas minhas possibilidades e teve a coragem de arriscar dinheiro em uma desconhecida: Carlo Ponti.

Não me casei com ele por gratidão, nem lhe destruí o lar, como fui acusada. Quando nos conhecemos, Carlo já se havia separado de sua esposa, e, posteriormente, ambos tentaram várias reconciliações para benefício dos filhos. Mas o tempo provou que não havia mesmo a menor compatibilidade entre o casal. Nosso amor não foi impetuoso, nem precipitado. Nasceu de uma grande amizade, da compreensão mútua, da confiança pessoal que ele sempre me inspirou. Nunca tolerei os rapazes da minha idade. A guerra e a luta pela vida deram-me um espírito maduro. Se depender de mim, nosso casamento jamais terminará em divórcio, como os das minhas colegas de Hollywood. Essa é a verdade a meu respeito".

(Fragmento de reportagem publicada na revista “O Cruzeiro”, em 1959, intitulada “Jura de Menina Pobre”)


loren nos anos 50

outubro 19, 2010

***************** ASSIM ESTÁ ESCRITO


kirk douglas e lana turner em "assim estava escrito"

Densamente pessoal e traduzindo minhas experiências de espectador e estudioso de cinema, este blog procura ser guiado pelo conhecimento preciso e opiniões marcantes, não tedo a intenção de ser uma história abrangente do cinema mundial, mas sim, como o subtítulo indica, um olhar pessoal para alguns filmes e profissionais do cinema que eu amo e que, em muitos casos, tiveram um profundo impacto sobre minha própria formação artística. Criei os meus próprios parâmetros, sem medo de ser seletivo ou subjetivo demais. Falo sobre o que me comove ou intriga. É um trabalho de paixão, que precisa respirar, crescer e se desenvolver. Uma viagem verdadeiramente pessoal, assim como são pessoais os filmes especiais que desejo celebrar.

Rara oportunidade para o cinéfilo conhecer as engrenagens da indústria e penetrar nos métodos criativos de antigos profissionais do cinema, inclino-me naturalmente para o favorecimento de figuras subvalorizadas – aqueles artistas esquecidos ou artesãos não celebrados que, de alguma maneira, conseguiram comunicar uma visão original. Examino os seus triunfos e vicissitudes. Afinal, os velhos mestres ainda estão vivos na memória coletiva, têm algo a nos dizer e são uma fonte constante de inspiração. Ao sondar o passado, estamos na verdade apontando para o presente e o futuro.

Em outras palavras, este blog é de fato concebido para colecionadores de filmes, amantes e estudantes de cinema. Minha esperança é a de que ele incentive a mágica da sétima arte, para que os filmes antigos não sejam esquecidos. É também um espaço para intercâmbio entre cinéfilos e colecionadores que buscam informações cinematográficas e livros sobre cinema, proporcionando aos aficcionados enriquecimento cultural, deleite e estudo. Tudo para celebrar o cinema - aquele tipo de cinema que deixou certa impressão enigmática.

Este blog é provavelmente tão importante para mim quanto um dos meus livros. A curiosidade constante, infatigável espírito de experimentação e idealismo apaixonado ajudam-me a manter o rumo.

Agradeço a Antonio, da Sétima Arte, em Natal, no Rio Grande do Norte.

Contatos e outras informações pelo e-mail:

************* O CINEMA POR KING VIDOR


"O cinema é o mais grandioso meio de expressão 
já inventado. Mas é uma ilusão mais poderosa 
que qualquer outra e por isso deveria estar 
nas mãos dos mágicos e feiticeiros 
que são capazes de lhe dar vida"

King Vidor

outubro 18, 2010

**** SALA VIP: "O CÍRCULO VERMELHO" E OUTROS


alain delon e yves montand

O CÍRCULO VERMELHO
LE CERCLE ROUGE
(1970)

País: França e Itália
Gênero: Policial
Duração: 140 mins.
Cor
Produção: Robert Dorfmann (Corona)
Direção e Roteiro: Jean-Pierre Melville
Fotografia: Henri Decae
Edição: Marie-Sophie Dubus
Música: Éric Demarsan
Cenografia: Théo Meurisse (d.a.); Pierre Charron (déc.)
Vestuário: Colette Baudot
Elenco:
Alain Delon (“Corey”), André Bourvil (“Comissário Mattel”),
Gian-Maria Volonté (“Vogel”), Yves Montand (“Jansen”),
François Périer (“Santi”), Paul Crauchet, Paul Amiot, Pierre Collet,
André Ekyan e Jean-Pierre Posier

Nota: ***** (ótimo)

AMBIÇÃO NOIR

Apesar da importância da obra do francês Melville, ele ainda é pouco reconhecido no Brasil. Cineasta de características bem particulares, cético e realista, trabalha com brilhante transposição do universo do filme noir norte-americano para o cenário europeu. Do gênero clássico, o seu cinema pessimista valoriza os protagonistas silenciosos e taciturnos, de moral dúbia, que podem tanto ser policiais ou criminosos, mas que na maioria das vezes relativizam os limites que separam a lei do crime. As intricadas tramas criminais são entremeadas por longos silêncios e uma série de elipses que acabam por convergir para um interessante exercício de tempo narrativo, que pode se dilatar ou se comprimir, respectivamente, ao sabor das intenções do diretor, que sabe conduzi-las com inequívoca maestria. O CÍRCULO VERMELHO é uma de suas obras-primas, onde mais uma vez faz uso do thriller para revelar a imensa ambiguidade moral do homem e da sociedade. Como Corey, o ladrão que sai da prisão direto para assaltar uma joalheria, o mitológico Alain Delon se supera, numa atuação arrebatadora praticamente sem mover um músculo do rosto. Mas não só ele, Montand, Volonté e Bourvil também estão excepcionais. Este é um dos fabulosos policiais da história do cinema.

martine carol no papel-título

LOLA MONTÈS
LOLA MONTÈS
(1955)

País: França e Alemanha
Gênero: Drama
Duração: 115 mins.
Cor
Produção: Ralph Baum e Albert Caraco 
(Gamma-Film/Florida/Union Films)
Direção: Max Ophuls
Roteiro: Max Ophuls, Annette Wademant e Jacques Natanson
Adaptação do romance de Cécil Saint-Laurent
Fotografia: Christian Matras
Edição: Madeleine Gug
Música: Georges Auric
Cenografia: Jean D`Eaubonne e Willy Schatz (d.a.);
J. Gut e P. Duquesne (déc.)
Vestuário: Marcel Escoffier e Georges Annenkov
Elenco:
Martine Carol (“Lola Montéz”), Peter Ustinov ("Mestre de Cerimônia"),
Anton Walbrook ("Ludwig I"), Henri Guisol, Lise Delamare,
Paulette Dubost ("Josefine"), Oskar Werner, Ivan Desny, Jean Galland,
Will Quadflieg e Helena Manson.

Nota: ***** (ótimo)


BARROCO E REFINADO

Estilista e mestre do cinema barroco, o austríaco Max Ophuls narra com requinte a vida de famosa e formosa bailarina que destruiu o coração de muitos homens. Ambicioso e de grande impacto visual – a fotografia é do mestre Christian Matras –, sofreu na época de seu lançamento a mutilação de uma remontagem, perpetrada pela  produtora com vistas à sua distribuição comercial. Abalado, o coração do cineasta não suportou o golpe e ele morreu um mês depois da apresentação da nova montagem, em 1957. Relançada em Cannes em 1968, a versão do diretor conheceu finalmente o êxito de crítica.  Refinado e preciosista, Ophuls cultiva um sentido pictórico de imagens e elabora uma narração sutil, criticando a frivolidade de seus personagens. O elenco é perfeito. Inclusive a inexpressiva atriz francesa Martine Carol parece que nasceu para o papel-título. Mas já pensou se Lola fosse Simone Signoret ou Jeanne Moreau?

vivien leigh, o diretor stanley kramer e simone signoret

A NAU DOS INSENSATOS
SHIP OF FOOLS
(1965)

País: EUA
Gênero: Drama
Duração: 143 mins.
P & B
Produção: Stanley Kramer (Columbia Pictures)
Direção: Stanley Kramer
Roteiro: Abby Mann
Adaptação do romance de Katherine Anne Porter
Fotografia: Ernest Laszlo
Edição: Robert C. Jones
Música: Ernest Gold
Cenografia: Robert Clatworthy (des. prod.); 
Joseph Kish (d.a.); (déc.)
Vestuário: Joe King, Bill Thomas e Jean Louis
Elenco:
Vivien Leigh (“Mary Treadwell”), Simone Signoret (“A Condessa”),
José Ferrer (“Rieber”), Lee Marvin (“Tenny”),
Oskar Werner (“Dr. Schumann”), Elizabeth Ashley (“Jenny”),
George Segal (“David”), José Greco (“Pepe”),
Michael Dunn (“Glocken”), Charles Korwin (“Capitão Thiele”),
Heinz Ruehmann (“Lowenthal”), Lilia Skala (“Frau Hutten”),
Barbara Luna (“Amparo”), Alf Kjellin (“Freytag”),
Werner Klemperer e Olga Fabian.

Nota: ***** (ótimo)

Prêmios:
Oscar de Melhor Fotografia e Melhor Cenografia;
Melhor Ator (Marvin) no National Board of review;
Melhor Ator (Werner) no Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York.

PASSAGEIROS DA VIDA

Antiga alegoria muito usada na cultura ocidental, “a nau dos insensatos” é imbuída de um senso de autocrítica, descrevendo o mundo como uma nau cujos passageiros perturbados nem sabem nem se importam para onde estão indo. O mesmo acontece na emocionante e sombria superprodução de Stanley Kramer baseada no best-seller de Katharine Anne Porter. A bordo de um transatlântico rumo à Alemanha pré-Hitler, durante 36 dias, vários peculiares passageiros revelam suas vidas, perdidos em suas próprias experiências e representando a sociedade como um todo. Com um elenco em estado de graça, brilha principamente a francesa Simone Signoret (indicada ao Oscar de Melhor Atriz), acompanhada de perto pelo nazista mulherengo de Jose Ferrer, Lee Marvin, Vivien Leigh – em seu último filme – e Oskar Werner. Possivelmente é o melhor filme de Kramer. A refinada, frágil e alcoolatra Mary Treadwell da diva Leigh tem chispas da Blanche DuBois de "Uma Rua Chamada Pecado". Memorável é a cena em que Mary, bêbada, quase é violentada sexualmente pelo grosseirão Tenny de Lee Marvin. Memorável e soberba. Este filme virtuoso também é uma oportunidade de se emocionar com duas lendárias atrizes de cinema e teatro: Vivien Leigh e Simone Signoret.

********* O CINEMA POÉTICO de JEAN RENOIR


Dono de um estilo satírico, realista e poético, JEAN RENOIR nasceu em Paris, em 1894, filho do famoso pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir. Passou a infância em Montmartre, bairro boêmio parisiense, onde conheceu vários artistas. Depois de escrever roteiros para o cinema mudo, dirigiu em 1924 seu primeiro trabalho, “A Filha da Água / La Fille de L`eau”, estrelado por sua mulher, Catherine Hessling, ex-modelo de seu pai. Inspira-se no romance de Émile Zola para o elaborado “Naná / Nana” (1926) e em Flaubert para “Madame Bovary / Idem” (1933). Um dos seus maiores sucessos, A Grande Ilusão / La Grande Illusion” (1937), mostra como as afinidades entre as classes sociais são maiores que as diferenças entre elas. Em 1938, dirige “A Marselhesa / La Marseillaise” e “A Besta Humana / La Bête Humaine”, também adaptado de Émile Zola e protagonizado por Jean Gabin. No ano seguinte filma o magistral “A Regra do Jogo / La Règle du Jeu, que apresenta oito personagens principais, nenhum em posição central.

Depois da invasão da França pelas tropas nazistas, no começo da Segunda Guerra Mundial, muda-se em 1940 para os Estados Unidos e adquire a nacionalidade norte-americana. Trabalha em Hollywood, mas por não se adaptar às normas dos estúdios, seus filmes não alcançam êxito. Mesmo assim, fez os espetaculares “Esta Terra é Minha / This Land is Mine” (1943), com Charles Laughton, e “Mulher Desejada / The Woman on the Beach” (1947), com Joan Bennett e Robert Ryan. De volta à Europa, dirige “French Cancan / Idem” (1954) e diversos outros filmes. Seu último filme,
O Cabo Ardiloso / Le Caporal Épinglé, de 1962, lembra a temática de A Grande Ilusão. Em 1975, finalmente recebeu o Oscar pelo conjunto de sua obra. Morreu em 1979, aos 85 anos.

pierre fresnay e erich von strohein em "a grande ilusão"

*************** BOYER, TRACY E GASSMAN


boyer com olivia de havilland e paulette goddard

ROMÂNTICO E SEDUTOR

Além de francês e inglês, CHARLES BOYER falava italiano, alemão e espanhol. Da estréia em 1920, aos 23 anos, em “L'Homme du Large até “Questão de Tempo, realizado em 1976, e seu último trabalho, fez mais de oitenta filmes. Indicado quatro vezes ao Oscar, não venceu em nenhuma delas. Contudo, foi um dos atores mais prestigiados e atuantes nos anos 1930, 1940 e 1950. Nascido na França, estreou nos palcos parisienses em 1920 com sucesso imediato, aparecendo logo a seguir em vários filmes mudos. Partindo para Hollywood, teve sua primeira chance num pequeno papel ao lado da platinum-blonde Jean Harlow em "Cabelos de Fogo” (1932). No entanto, sua voz arrebatadora e porte charmoso logo fez dele uma estrela romântica, contracenando com as principais atrizes da época: Claudette Colbert, Katharine Hepburn, Marlene Dietrich, Greta Garbo etc. Teve sua interpretação mais popular como o bandido sedutor Pepe Le Moko, de “Argélia” (1938).


Em contraste com a imagem glamourosa, o baixinho Boyer perdeu cedo o cabelo e tinha a barriga acentuada. Em 1940, ao vê-lo pela primeira no set de “Tudo Isso e o Céu Também”, Bette Davis não o reconheceu e tentou impedi-lo de trabalhar no filme. Felizmente não conseguiu. Na década de 1950 voltou a fazer teatro, além de atuar na televisão. Com a peça “The Marrtiage-Go-Round” (1958-1960), ao lado de Claudette Colbert, ficou dois anos em cartaz na Broadway. Continuou fazendo sucesso no cinema com “Desejos Proibidos” (1953) de Max Ophuls, “Naná” (1955), “Fanny” (1961), “Como Roubar um Milhão de Dólares” (1966), “Descalços no Parque” (1967) e “Stavisky” (1974), pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante dos Críticos de Cinema de Nova York e recebeu homenagem no Festival de Cannes. Em 1966, gravou um disco romântico muito vendido, “Where Does Love Go?”. Uma das maiores tragédia de sua vida aconteceu em 1965: o suicídio de seu filho único, Michael, aos 22 anos, após romper com a namorada. Inconformado com o fim de um casamento de 44 anos, CHARLES BOYER também se suicidou - com uma overdose de Seconal -, em 1978, aos 80 anos e dois dias depois do falecimento da esposa, a atriz Pat Paterson, acentuando ainda mais a sua mitologia romântica.

tracy e katie hepburn

SENHOR CARISMA E SIMPATIA

De uma família de origem irlandesa, SPENCER TRACY aos 21 anos fez o papel principal de uma peça amadora chamada "The Truth". Seguiu para a Broadway, atuando em vários espetáculos. Finalmente, em 1930, o renomado diretor John Ford o viu em cena e o convidou para seu filme "Up the River". Nos próximos 5 anos atuou em 25 longa-metragens, até ser despedido pela Fox após ser preso por embriaguez. Em 1935, contratado pela Metro-Goldwyn-Mayer – onde ficou por 20 anos como um dos grandes trunfos do estúdio -, converteu-se em uma estrela de primeira grandeza, ganhando seguidamente dois prêmios Oscar de Melhor Ator por "Marujo Intrépido", de 1937, e "Com os Braços Abertos", de 1938, num fato inédito até então. Ao longo de sua vitoriosa carreira recebeu 7 outras indicações. Mesmo casado, teve um namoro apaixonado com a atriz Loretta Young nos anos 1930. Em 1941, durante as filmagens da comédia “A Mulher do Dia”, iniciou um secreto relacionamento amoroso com Katharine Hepburn, o qual durou até sua morte. Terminou por separar-se de sua esposa Louise, mas como católico praticante nunca se divorciou dela. Com Katie fez 9 filmes, numa parceria que transbordava cumplicidade e talento, desenvoltura e classe, coração e alma, quase sempre dirigidos por excelentes diretores como George Cukor, Elia Kazan, Frank Capra ou George Stevens.


Conhecido por sua personalidade complexa, SPENCER TRACY era duro, seco, de poucas palavras, depressivo. No final dos anos 1940, foi diagnosticado com diabetes, agravada pelo alcoolismo. Ele costumava se isolar durante dias em quartos de hotéis, bebendo sem parar. Em 1963 sofreu um ataque cardíaco, que acabou por afastá-lo do cinema. Retornou em 1967 para protagonizar a comédia romântica anti-racista “Adivinhe Quem Vem para Jantar”. Com a saúde debilitada, três semanas após a conclusão das filmagens, levantou-se para beber em plena madrugada, caiu e morreu de ataque cardíaco logo depois nos braços de Katharine Hepburn, aos 67 anos. Exalando simpatia, mesmo interpretando inúmeros personagens resmungões, é recordado como um dos maiores atores da história do cinema. Atuou em mais de setenta filmes em quatro décadas, realizando impressionantes interpretações como as de “Paraíso de um Homem” (1933), “Fúria” (1936), “O Médico e o Montro” (1941), “A Costela de Adão” (1949), “A Lança Partida” (1954), “O Velho e o Mar” (1958) e “Julgamento em Nuremberg” (1961).


IL MATTATORE

 Desde que o vi no hilário “Aquele Que Sabe Viver”, de Dino Risi, como Bruno, o bon-vivant anti-herói, me encantei com o charme e o talento de VITTORIO GASSMAN. Conhecido na Itália como “Il Mattatore” (o protagonista, em italiano), aclamado como ator e diretor de teatro, teve "Arroz Amargo" (1949) como o seu primeiro sucesso no cinema, interpretando um escroque que tenta seduzir a bela camponesa Silvana Mangano. O filme impulsionou as carreiras de Mangano, Gassman e Raf Vallone, o outro personagem do triângulo amoroso da história. Um ano depois, Alberto Lattuada escalou o mesmo trio para o drama “Anna”. Ele dominava com segurança o seu ofício, sendo capaz de interpretar o bruto Kowalski de “Um Bonde Chamado Desejo” no teatro com a mesma eficiência com que fazia no cinema um bonachão como o Brancaleone. Nascido em 1922, estreou no teatro em 1942, protagonizando desde comédias burguesas a um sofisticado teatro intelectual, sem aparentar dificuldades em passar de um estilo a outro. Nessa época, seduziu público e crítica como um dos atores da companhia teatral de Luchino Visconti. Anos depois, fundaria uma conhecida escola de teatro em Florença.

Nos anos 1950, comandando um programa de televisão chamado “Il Mattatore”, obteve um inesperado êxito, O título deste show televisivo ficou como um apelido que viria a lhe acompanhar pelo resto da vida. Apareceu nas telas pela primeira vez em 1946, emocionando com personagens inesquecíveis em mais de 100 filmes: o boxeador fracassado de “Os Eternos Desconhecidos” (1958), de Mario Monicelli; o burguês oportunista Gianni em “Nós que Nos Amávamos Tanto” (1974), de Ettore Scola; o capitão cego Fausto Consolo de “Perfume de Mulher” (1974), de Dino Risi e prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes. Atuou em filmes mundo afora. Durante uma de suas estadias em Hollywood, contratado pela Metro-Goldwyn-Mayer, casou-se com a magistral Shelley Winters. Além dela, casou-se com as atrizes Nora Ricci, Juliette Maynel (mãe de filho Alessandro, também ator) e Diletta D'Andrea. Homem de intensas emoções e excepcional honestidade intelectual, VITORIO GASSMAN era eventualmente criticado por conta de sua conturbada vida privada, com seus divórcios (que suscitaram escândalo nos anos 1950 e 1960) e ateísmo (posteriormente substituído por uma fé bastante pessoal). Nas suas declarações e entrevistas, costumava emitir comentários francos e pouco convencionais, colecionando inimigos no mundo das artes. Nos últimos anos de vida, acometido de depressão, isolou-se. Morreu de ataque cardíaco em 2000. 

*********** AS MAIORES LENDAS DO CINEMA


O AMERICAN FILM INSTITUTE (AFI) listou 15  atores e 15 atrizes como as maiores lendas do cinema. Foram escolhidos numa junção de popularidade, expressividade profissional e legado cultural, entre 250 atores e 250 atrizes indicados (a brasileira Carmen Miranda concorreu). Revelada em 16 de junho de 1999, num especial da CBS apresentado pela ex-menina prodígio Shirley Temple, essa lista é bastante razoável, justa até, embora tenha sentido falta de Jennifer Jones, Fredric March, Gene Tierney, Charles Laughton, Merle Oberon, Tyrone Power, Ronald Colman, Norma Shearer, Irene Dunne, Jean Arthur, Errol Flynn, Rodolfo Valentino, Gloria Swanson, tantos outros e outras. Talvez proteste visando unicamente o meu universo lendário densamente pessoal. A verdade é que nenhuma lista satisfaz plenamente. Toda mitologia é bastante particular. Embora concorde que o AFI teve boas intenções. Bravo!

marlon brando

OS 15 MAIORES ATORES

Humphrey Bogart 
(1899–1957)

Cary Grant 
(1904–1986)

James Stewart
 (1908–1997)

Marlon Brando 
(1924–2004)

Fred Astaire 
(1899–1987)

Henry Fonda 
(1905–1982)

Clark Gable 
(1901–1960)

James Cagney 
(1899–1986)

Spencer Tracy 
(1900–1967)

Charles Chaplin 
(1889–1977)

Gary Cooper 
(1901–1961)

Gregory Peck 
(1916–2003)

John Wayne 
(1907–1977)

Laurence Olivier 
(1907–1989)

Gene Kelly 
(1912–1996)

katharine hepburn e george cukor

AS 15 MAIORES ATRIZES

Katharine Hepburn 
(1907–2003)

Bette Davis 
(1908–1989)

Audrey Hepburn 
(1929–1993)

Ingrid Bergman 
(1915–1982)

Greta Garbo 
(1905–1990)

Marilyn Monroe 
(1926–1962)

Elizabeth Taylor 
(1932)

Judy Garland 
(1922–1969)

Marlene Dietrich 
(1901–1992)

Joan Crawford 
(1905–1977)

Barbara Stanwyck 
(1907–1990)

Claudette Colbert 
(1903–1996)

Grace Kelly 
(1929–1982)

Ginger Rogers 
(1911–1995)

Mae West 
(1893–1980)