abril 29, 2017

************* O LONGO SUICÍDIO de MONTY CLIFT



Ator sensível, emocional, dono de uma beleza melancólica. Olhos grandes, bonitos e carentes. O talentoso MONTGOMERY CLIFT (1920 - 1966) marcou uma época. Fazia parte dos atores rebeldes de Hollywood, adeptos do método Stanislavsky. Marlon Brando, James Dean, Paul Newman e ele lançaram uma nova identidade masculina cinematográfica, representada por heróis vulneráveis, frágeis e ambíguos. Um acidente automobilístico no auge de sua carreira desfigurou o seu rosto, levando-o a beber e se drogar até a morte precoce aos 45 anos de idade, numa trajetória de vida tão trágica como alguns de seus filmes.

Educado em uma família de classe média alta como aristocrata, aos quinze anos trocou os estudos pela Broadway. Entre sucessos e fracassos, a carreira nos palcos seguiu-se até 1945, e o tornou um nome respeitável na nova geração de atores. Durante uma excursão com a peça “There Shall Be No Night”, em 1941, Louis B. Mayer lhe ofereceu um papel em “Rosa da Esperança / Mrs. Miniver”. Pensou em aceitar a oferta, mas o produtor insistiu no contrato-padrão de sete anos e ele não queria abrir mão da ribalta.

elizabeth taylor e monty
Sete anos depois MONTGOMERY CLIFT estreou, aos 28 anos, num western de Howard Hawks protagonizado por John Wayne, o deslumbrante “Rio Vermelho”. Nele, interpreta o impetuoso Matthew Garth. Nos bastidores, teve um caso apaixonado com John Ireland, e em cena deixaram perceber essa cumplicidade amorosa. Fez a seguir, “Perdidos na Tormenta / The Search” (1948), um drama esquecido, mas elogiado na época, resultando em sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator. Filmado na Alemanha e Suíça, vive um engenheiro militar, Ralph Stevenson, que encontra um menor abandonado, faminto e andrajoso pelas ruas da Berlim pós-guerra, a quem socorre, leva para casa e passa a tratar como filho.

Com o sucesso, rodou “Tarde Demais”, no papel de um caça-dotes que se envolve com uma rica e reprimida herdeira, Olivia de Havilland, na adaptação do romance de Henry James. Recusou “Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard” (1950) em cima do início das filmagens - um papel que Billy Wilder e Charles Brackett escreveram especialmente para ele. Voltou às telas em “Um Lugar ao Sol”, considerado por Charlie Chaplin “o melhor filme feito em Hollywood” e baseado na obra-prima de Theodore Dreiser – filmada em 1931 por Josef Von Sternberg, com Sylvia Sidney, Phillip Holmes e Frances Dee. Na pele do alpinista social George Eastman, concorreu outra vez ao Oscar, perdendo desta vez para Humphrey Bogart. Durante as filmagens, ele e Elizabeth Taylor se tornaram amigos íntimos.

Sua parceria com Alfred Hitchcock em “A Tortura da Suspeita” resultou em fracasso de crítica e bilheteria. É um bom filme e a atuação de MONTGOMERY CLIFT densa, como um padre angustiado, vítima da confissão. No sensacional “A Um Passo da Eternidade”, o seu soldado Robert E. Lee Prewitt, corneteiro e boxeador, inicialmente estava destinado para John Derek ou Aldo Ray. O contundente drama fez muito sucesso, tornando-se o campeão dos prêmios da Academia, em 1953, com oito Oscars. Em “Quando a Mulher Erra / Stazione Termini” (1953), ao lado da sensacional Jennifer Jones, ele enfrentou filmagens difíceis. O tirano produtor David O. Selznick interferiu na direção de Vittorio De Sica, que tinha outra visão da história, e o resultado não agradou a ninguém (eu gostei, sou suspeito, gosto de qualquer filme com Jennifer Jones ou dirigido por De Sica).

Convidado para “Vidas Amargas / East of Eden” (1955), preferiu trabalhar com Liz Taylor na enfadonha superprodução “A Árvore da Vida / Raintree County” (1957). Durante as filmagens, a atriz deu uma reunião festiva em sua mansão. MONTGOMERY CLIFT ficou bêbado e na volta da festa se descontrolou, batendo o carro em um poste de rede telefônica. Kevin McCarthy, que também estava na festa, foi o primeiro a vê-lo: “Seu rosto era uma massa de sangue. Eu pensei que estivesse morto”. Aterrorizado, correu para avisar Liz. Assim que o tiraram das ferragens, ela o colocou em seu colo, enquanto esperavam a ambulância, retirando dois dentes soltos enfiados na garganta dele que o ameaçavam de engasgamento.

monty e marlon brando, um dos seus namorados
O acidente arruinou o rosto formoso de Monty. O nariz quebrado, esmagamento da cavidade óssea, maxilar destruído, três dentes frontais perdidos e lacerações no lado esquerdo da face. Durante meses, ele passou por inúmeras cirurgias. A reconstrução facial, o uso de analgésicos pesados e o abuso desenfreado de álcool envelheceram rapidamente o ator. Nunca mais foi o mesmo, transformando-se num homem amargurado e triste. Sentia dores terríveis e a face perdeu os movimentos. Assim começou o que foi chamado de o “suicídio mais longo da história de Hollywood”. Elizabeth Taylor protegeu o seu amigo de fé, mas em vão.

O drama foi potencializado pelo conflito que o ator tinha quanto a sua orientação sexual e do preconceito que sofria entre os seus pares. Para fugir desses fantasmas que o assombraram a vida inteira adotou um estilo autodestrutivo que o mataria. Segundo alguns autores, MONTGOMERY CLIFT era homossexual. Outros argumentam que era bissexual. Seu biógrafo Michelangelo Capua afirma que “Monty dormiu tanto com homens como com mulheres, esperando descobrir suas próprias preferências sexuais. Diz ainda em “Montgomery Clift: a Biography” que a mãe dele “falou sem problemas da homossexualidade do filho: ‘Monty se deu conta que era homossexual muito cedo. Creio que tinha doze ou treze anos’.”


Outra biógrafo do ator, Patricia Bosworth, entrevistou a família e muitas pessoas que o conheciam, escrevendo em seu livro “Montgomery Clift”: “Antes do acidente, Monty tinha incontáveis romances com homens e mulheres. Encaixava com sua personalidade ter relações desta maneira…depois do acidente e sua dependência química, passou a ser um homem mais sério e o sexo passou a ser menos importante para ele”. De todo modo, ele nunca foi bem resolvido sexualmente, deixando o sexo em segundo plano e dando mais importância aos velhos amigos, como Bill Le Massena, Maureen Stapleton, Elizabeth Taylor, Libby Holman e Ann Lincoln.

O próximo longa-metragem do ator, lançado dois anos após o acidente, “Os Deuses Vencidos / The Young Lions” (1958), chocou o mundo ao revelar a face doentia do ídolo. Ele havia perdido a beleza, exibindo uma máscara sofrida. Em Paris, filme prestes a ser rodado, ele desapareceu, atrasando as filmagens. Foi descoberto dias depois, no sul da Itália, em um bordel masculino de terceira categoria. 

Mergulhado no álcool e drogas, sua carreira parecia ter chegado ao fim. Liz Taylor, usando a influência de grande estrela, conseguiu incluí-lo no seu projeto “De Repente, No Último Verão”. Não foi fácil. Ele não conseguia atuar em cenas mais longas e esquecia as falas, provocando a fúria do diretor Joseph L. Mankiewicz, que tentou substituí-lo. Liz e Kate Hepburn ameaçaram abandonar o trabalho caso isso acontecesse.

O declínio continuou no maldito “Os Desajustados”, de John Huston. Na ocasião, Marilyn Monroe declarou: “A única pessoa que conheço que está pior do que eu”. No filme seguinte, “Freud – Além da Alma / Freud” (1962), também de Huston, ele ia trabalhar completamente bêbado e acabou sendo processado pela Universal Pictures. Sua condição de saúde se deteriorava ano após ano e os convites para filmes rareavam. Tornou-se um ator pouco confiável. Chegou a dizer que sua vida havia sido uma tormenta e que a morte seria a libertação. Liz tentou colocá-lo em “Os Pecados de Todos Nós / Reflections in a Golden Eye” (1967). O produtor preferiu Marlon Brando. Em 1966, MONTGOMERY CLIFT morreu dormindo, vítima de parada cardíaca.

jennifer jones e monty em “quando a mulher erra”

10 GRANDES FILMES de MONTY
(por ordem de preferência)

01
UM LUGAR AO SOL
(A Place in the Sun, 1951)

de George Stevens
com Elizabeth Taylor e Shelley Winters

02
A UM PASSO DA ETERNIDADE
(From Here to Eternity, 1953)

de Fred Zinnemann
com Burt Lancaster, Deborah Kerr, Donna Reed,
Frank Sinatra e Ernest Borgnine

03
RIO VERMELHO
(Red River, 1948)

de Howard Hawks
com John Wayne, Joanne Dru, Walter Brennan
e John Ireland

04
JULGAMENTO EM NUREMBERG
(Judgment at Nuremberg, 1961)

de Stanley Kramer
com Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark,
Marlene Dietrich, Maximilian Schell e Judy Garland

05
TARDE DEMAIS
(The Heiress, 1949)

de William Wyler
com Olivia de Havilland, Ralph Richardson, Miriam Hopkins
e Mona Freeman

06
DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO
(Suddenly, Last Summer, 1959)

de Joseph L. Mankiewicz
com Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn e Mercedes McCambridge

07
A TORTURA DO SILÊNCIO
(I Confess, 1953)

de Alfred Hitchcock
com Anne Baxter, Karl Malden e Brian Aherne

08
RIO VIOLENTO
(Wild River, 1960)

de Elia Kazan
com Lee Remick e Jo Van Fleet

09
OS DESAJUSTADOS
(The Misfits, 1961)

de John Huston
com Clark Gable, Marilyn Monroe, Thelma Ritter
e Eli Wallach

10
OS DEUSES VENCIDOS
(The Young Lions, 1958)

de Edward Dmytryk
com Marlon Brando, Dean Martin, Hope Lange,
Barbara Rush, May Britt e Maximilian Schell

GALERIA de FATOS
 
 
 
 

abril 23, 2017

***** GLAUBER ROCHA - os ÚLTIMOS DIAS de VIDA


Publicado na revista pernambucana Continente Multicultural e no jornal baiano A Tarde.


Talvez ele seja um dos derradeiros expoentes de uma maneira de filmar personalíssima, faísca esta ainda encontrada em um Jean-Luc Godard ou um Xavier Dolan. Aos que nunca assistiram GLAUBER ROCHA (1939 - 1981), há que adverti-los que não se pode aspirar a compreender o cinema brasileiro se não viu uma ou duas criações deste cineasta complexo.

“O problema do espectador na obra de arte é um problema que eu não considero, digo-lhe isto com a maior sinceridade. Porque eu acredito que a obra de arte é um produto da loucura, no sentido em que fala o Fernando Pessoa, que fala o Erasmo, quer dizer, a loucura como a lucidez, a libertação do inconsciente. É por isso que eu não me considero um cineasta profissional, porque se fosse teria que atuar segundo o ritual da indústria cinematográfica. Considero-me um amador, como o Buñuel, alguém que ama o cinema”, disse Glauber pouco antes de morrer, num dos seus arroubos verbais de poderosa vitalidade.

De todos os cineastas surgidos com o movimento Cinema Novo – Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Carlos Diegues, Roberto Santos, etc. -, o mais influente foi o baiano GLAUBER DE ANDRADE ROCHA, especialmente depois do seu segundo longa, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filmado no mesmo ano do Golpe Militar e considerado um dos grandes filmes de todos os tempos pela revista francesa “Cahiers du Cinema”. Ele eclipsou a todos com sua poesia agreste e personalidade contraditória, ganhando visibilidade internacional.

Em poucos anos, filmou vários curtas, publicou livros, lançou o manifesto “A Estética da Fome” com as bases do Cinema Novo, foi preso em 1965 num protesto contra o regime militar, viajou por inúmeros países e realizou duas obras fundamentais, “Terra em Transe” – classificado de “ópera metralhadora” por Jean-Louis Bory, no “Le Nouvel Observateur”, e proibido em todo o território nacional - e o folhetim revolucionário “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, apresentadas no Festival de Cannes e recebendo com a segunda o prêmio de Melhor Diretor. Foi o seu auge, parecia ter o mundo aos seus pés. Na década seguinte, entretanto, sua estrela decairia em consequência da personalidade confusa e do triunfo universal do cinema comercial.

O caráter particularmente dotado de GLAUBER ROCHA para perceber o cinema em toda sua complexidade diluiu-se numa estética alarmante e desconcertante. Radicalizou a ideia de narrar o caos, o caótico sustentando a arte, em um efeito artístico ambíguo. Exilado voluntariamente do Brasil, filmou obras impopulares na África (“O Leão de 7 Cabeças”), Espanha (“Cabezas Cortadas”), Cuba (“História do Brasil”) e Itália (“Claro”). Ele que havia bebido em fontes diversas (Eisenstein, Bergman, Visconti, Rossellini etc.) para compor sua lógica, tentando decifrar o Brasil ao filmar o seu avesso.

Mergulhou de cabeça numa utopia cinematográfica marcada por contradições ideológicas, políticas, espirituais e mitológicas. Recusando uma carreira internacional convencional, passou por graves dificuldades financeiras, foi ridicularizado no Brasil por seus próprios colegas, escreveu para o semanário “O Pasquim” – num idioma particular, com y e k no lugar de i e c –, provocando polêmicas e reações furiosas.

O período que vai de 1969 a 1976, os seis anos em que ficou fora do Brasil, são um quebra-cabeças biográfico e geográfico, com dezenas de viagens, mudanças de endereço, de países, mulheres, amigos. Um périplo romanesco, um nomadismo radical e vital, e centenas de cartas escritas de quartos de hotel, apartamentos provisórios de amigos, produtores e amantes. Em 1979, sua atuação no programa “Abertura”, da TV Tupi, virou referência na tevê brasileira. Falava de política, entrevistando artistas e o povo.

Tornou-se uma espécie de profeta, de intelectual que perdeu a razão, e cruelmente seus colegas contavam seus casos privados para quem quisesse ouvir: ele caminhando na praia de Ipanema, enrolado num cobertor como mendigo, falando sozinho; conversando com as paredes do hotel, em Santiago do Chile, com um microfone na mão: “Aqui é Glauber Rocha, eu sei que a Cia está gravando, e a KGB também”; as brigas irreconciliáveis com diversas pessoas, etc.

ana maria magalhães e tarcísio meira
em “a idade da terra”
Em 1979, num último esforço para sair das trevas, vendeu seu único bem, uma casa, para filmar “A Idade da Terra” em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro com um elenco popular (Norma Bengell, Tarcísio Meira, Antônio Pitanga, Danuza Leão, Ana Maria Magalhães). “Esse filme materializa os símbolos mais representativos do Terceiro Mundo, ou seja: o imperialismo, as forças negras, os índios massacrados, o catolicismo, o militarismo revolucionário, o terrorismo urbano, a prostituição da alta burguesia, a rebelião das mulheres, as prostitutas que se transformam em santas e de santas em revolucionárias. Tudo isso está no filme dentro do grande cenário da História do Brasil”, disse no lançamento.

O público e a crítica rejeitaram a desintegração da sequência narrativa, embora sem a perda do discurso, e o longa foi um fracasso, sendo vaiado no Festival de Veneza. Alucinado e magoado, o cineasta fez passeata, ofendeu o júri e o vencedor - o francês Eric Rohmer -, sempre defendendo sua obra: “Busco um outro cinema. Um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É um novo cinema, antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido”.

jorge amado e glauber
No final de 1980, GLAUBER ROCHA se encontrava em Roma, hospedado no palacete de Luchino Visconti, e por fim, em Paris, acompanhando uma retrospectiva dos seus filmes. Sua câmara havia revelado a essência de um país, fugindo da beleza defunta tipo cartão-postal, e pousando na loucura e desespero, na crueza e mazelas sociais. Mesmo assim, aos 41 anos, as portas estavam fechadas para ele e vivia numa terrível penúria econômica. Tentando colocar a cabeça em ordem, resolveu viver em Sintra, Portugal. “O lugar mais bonito do mundo”, como dizia.

Levou a esposa colombiana, Paula Gaitán, fotógrafa e atriz, e os dois filhos de menos de dois anos de idade, Ava Patria Yndia Yracema Gaitán Rocha e Erik Arouak (seu primeiro casamento também foi com uma atriz, Helena Ignez, e teve um romance intenso com outra atriz, a francesa Juliet Berto, ícone da Nouvelle Vague). Definindo-se como sebastianista e apocalíptico, amargurado, decepcionado, com problemas políticos e de saúde frágil, GLAUBER ROCHA se sentia cansado e doente. Como os mais íntimos conheciam sua antiga mania de doença, nunca levaram a sério a suposta hipocondria.

Quando este espírito independente, conhecido em todo o mundo por sua intransigência e temperamento apaixonado, chegou ao Monte da Lua, era um inverno rigoroso. As névoas cobriam as ruelas de pedra, as montanhas e os jardins. Chovia quase sempre. Sintra, conhecida como um reduto de artistas e pensadores, neste mesmo inverno, recebeu Wim Wenders, que rodou parte de “O Estado das Coisas / Der Stand der Dinge” (1982) na Praia Grande, o chileno Raoul Rouiz e o moçambicano-brasileiro Ruy Guerra, um inimigo de Glauber, que também filmaram nas redondezas.

Sempre reservado, distante do mundano, o diretor finalizava “Revolução do Cinema Novo”, uma antologia de textos críticos produzidos entre 1958 e 1980, que seria publicado poucos dias antes de sua morte, e escrevia o roteiro para um próximo filme, “O Império de Napoleão”, planejando um elenco estelar encabeçado por Jack Nicholson e Jane Fonda, e que já tinha a confirmação de Orson Welles como um dos protagonistas (sem cachê, apenas pediu uma hospedagem confortável e garrafas de uísque).

Diante da paisagem deslumbrante de Sintra, que Eça de Queiroz dizia não há um só recanto que não seja um poema, GLAUBER ROCHA absorveu o paraíso, partindo para a máquina de escrever como se estivesse numa terrível batalha. Muito disciplinado, acordava cedo, tomava o café da manhã e escrevia até as 13 horas os seus textos, roteiro e artigos para jornais, enquanto ouvia Villa-Lobos. Não gostava de visitas, sendo praticamente arrastado por colegas para jantares ou eventos em Lisboa.

Ainda assim, aparecia muita gente: cineastas brasileiros e portugueses, críticos de cinema, os escritores Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, o ator francês Patrick Bauchau, o produtor Luiz Carlos Barreto e até o Presidente (do Brasil) Figueiredo. A maior parte do tempo estava sozinho, em casa. Vez ou outra, passeava pela praça do Castelo, caminhando de mãos dadas com os filhos e lendo jornais no Café Paris. Parecia bem, tranquilo, almoçando nos restaurantes locais, tomando vinho tinto, fumando haxixe. Mas a depressão era uma constante no seu cotidiano. “Vim para morrer em Portugal”, dizia.

Preocupava-se com os problemas financeiros, a política e o cinema brasileiros, e não conseguia esquecer a morte trágica da irmã, a atriz Anecy Rocha (“A Lira do Delírio”, 1978), que caíra no poço de um elevador em 1977. Sentia-se incompreendido e não aceitava a proibição, pela própria família do retratado, do documentário “Di Cavalcanti” (1976), premiado em Cannes. Também tinha saudades da mãe, Lúcia Mendes de Andrade Rocha, escrevendo sempre para ela, numa ligação profunda.

othon bastos em
“deus e o diabo na terra do sol”
O casamento ia mal das pernas. Paula, uma loura sofisticada e inteligente, mais jovem do que ele, desejava voltar ao Brasil, e mesmo admirando o marido, não entendia seus enigmas. Bela e mimada, não se situava completamente na pele de mãe de família, e ainda mais passando dificuldades financeiras. Recebia ajuda dos pais ricos, não acreditava numa suposta enfermidade do companheiro e vivia implicando para que ele superasse suas angústias.

A imprensa portuguesa deu intensa cobertura a temporada de Glauber em Sintra, com manchetes e longas entrevistas. O cineasta, em eterna preocupação com a preservação das cópias dos seus filmes, entusiasmou-se com o ciclo em sua homenagem programado pela Cinemateca Portuguesa, em abril de 1981. No primeiro dia de exibição, a sala de projeções pegou fogo destruindo totalmente a obra do cineasta. Desesperado, viu o incêndio como um sinal do fim. A sua queda foi instantânea.

Logo depois foi internado no Hospital de Sintra com suspeita de uma doença broncopulmonar, talvez uma tuberculose. Esverdeado e abatido, olhos amarelados, foi transferido para o Hospital da CUF, em Lisboa, melhorando a olhos vistos. Lúcido, brincalhão, recebendo visitas, lendo jornais e vendo televisão, gozava das autoridades e políticos que apareciam: “Esses engravatados não me deixam em paz”. Ainda acamado, recebeu os primeiros exemplares de “Revolução do Cinema Novo”, o que o deixou contente. Parecia estar bem, como se tudo não passasse de uma elaborada encenação para ajudá-lo a renascer das cinzas.

Paula Gaitán, que havia mudado com os filhos para um hotel próximo, tirava fotos polaroid do companheiro e de seus amigos, circulava por Lisboa, e não parecia ter consciência da gravidade da enfermidade do marido. Ele próprio não sabia qual era o seu mal. Contraditórios, os médicos não entravam num acordo. Havia rumores não confirmados de um câncer.

No dia 20 de agosto, após uma série de exames rigorosos, GLAUBER ROCHA disse que não gostaria de ficar sozinho naquela noite, pedindo a Paula que o fizesse companhia. Ela recusou, pois não podia deixar os filhos sozinhos no hotel. Ele parecia bem, radiante e conversador como nos seus melhores dias. Na mesma noite entrou em coma. No dia seguinte, levado para o Brasil em estado crítico, morreu logo depois, em 22 de agosto de 1981.

O talento incompreendido, leitor de Nietzsche e Schopenhauer aos 13 anos, foi velado no Parque Lage, no Rio de Janeiro, cenário de “Terra em Transe”, em meio a grande comoção. Poucos dias após, exibiram seus filmes em mostras retrospectivas na Inglaterra (National Film Institute), Estados Unidos (American Film Institute) e França (Instituit Nacional d’Estudes Cinematographiques). A causa da morte ainda hoje é nebulosa, fala-se inclusive em Aids. O mais provável, contaminação ao passar por uma biópsia com equipamento não esterilizado.

Tinha 42 anos. Ele desde adolescente dizia que morreria aos 42 anos, o inverso de 24, idade em que morreu Castro Alves. O poeta fazia aniversário no seu mesmo dia e era o seu favorito. Foi-se subitamente, levando sua mensagem exuberante. Se continuasse filmando possivelmente ainda estaria vivo. A arte seria sua cura. Mas não deixaram. Incomodava demais aos conservadores.

odete lara e joffre soares em “o dragão da maldade contra o santo guerreiro”

FILMOGRAFIA de GLAUBER

CRUZ NA PRAÇA 
(CM, inacabado, 1959)

BARRAVENTO 
(1960)

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL 
(1964)

AMAZONAS AMAZONAS 
(CM, 1965)

MARANHÃO 66
 (CM, 1966)

TERRA EM TRANSE
 (1967)

O CÂNCER 
(1968-72)

O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO
 (1969)

O LEÃO DE SETE CABEÇAS 
(1969)

CABEZAS CORTADAS 
(1970)

HISTÓRIA DO BRASIL 
(1972-74)

AS ARMAS E O POVO 
(MM, 1975)

CLARO 
(1975)

DI CAVALCANTI 
(CM, 1976)

JORGAMADO NO CINEMA 
(MM, 1977)

A IDADE DA TERRA 
(1979)

programa "abertura"
(tv tupi)


caderno cultural do jornal a tarde


GALERIA de FOTOS